6.16.2011

Tarja Turunen - Oasis


Há algum tempo postei Sadness Gothic Music dizendo que não conhecia o autor de uma das mais belas obras que vejo desde a junção de fonemas. Por fim descobri. Trata-se da gloriosa Tarja Turunen: uma cantora lírica, compositora e pianista finlandesa que ficou mundialmente conhecida como vocalista da banda de metal sinfônico Nightwish, entre 1996 e 2005 ... 

Transcrevo agora, mais fascinado ainda, o que ela representa em comum entre Nós que aqui estamos.


Hyvyyden varjo peittää kyyneleen,
löytäneen luo vie askeleen.
Rauha saa, kehto uneen tuudittaa.
Toivo jää, tie rakkauteen.
Tie syvään vaupauteen.


A sombra da bondade esconde a lágrima,
dá um passo em direção ao encontrado.
Que a paz esteja repousando no berço de ninar.
A esperança se mantém, o caminho para o amor,
o caminho para a profunda liberdade.

6.07.2011

Orphíos & Eurídicie

Conforme havera dito na postagem anterior, faço aqui um passo cultural à minhas origens, contando como um amor e uma música podem ser tão intensos e tão funestos.
Bom, contarei como isso realmente aconteceu, sem interferências tão poéticas ou visualmente comprometidas.

--- Lembro de há algum tempo ter conhecido um jovem chamado Orphíos (Ορφέας em grego, onde nos conhecemos) que era um exímio músico. Este Orfeo cresceu abençoado por nosso irmão Apollo com um dom para a música tanto que era dotado a acalmar bestas e deuses enfurecidos (desta forma nos conhecemos, no momento que eu mais precisei dele mas isso é uma outra história). Orfeo cresceu conhecendo este dom e acalentando corações com suas odes brutalmente sinceras, tanto que um certo dia encontrou uma beleza sem par chamada Eurídicie (μυθολογία, ibidem) e por ela se apaixonou. Ela idem e um dos maiores amores que eu já vi havia iniciado, contrariando todas as perspectivas.

Se amaram por incontável tempo, Orfeo sempre com sua lira e sua amada e elas o acompanhando, num belíssimo jardim que havia sido presente deste que vos escreve (como forma de recompensa, por aquela outra história). Passado algum tempo o amor dos dois se tornou algo invejável aos corações menores e a música de Orfeo era apreciada desde o Jardim das Hespérides até o Submundo. Encantado com a lira, Hades a desejou pra si. Como sabia não poder convencer o tocador de modo natural e sem querer parecer suspeito ao sumiço do rapaz já que todos os deuses da Terra também o apreciavam, criou um ardil para resgatar Orfeo pra si: enviou uma serpente venenosa para matá-lo e assim o teria sob seus domínios.

Acontece que a serpente também se encantou com o som e usou sua peçonha em Eurídicie, com inveja do amor por Orfeo. Eurídicie morreu e Orfeo perdeu o consolo. Rogou ajuda e proteção e permitiu-se que tentasse com Hades resgatar sua amada.

Orfeo desceu solo ao Submundo ter com aquele senhor, pedir por Eurídicie. Hades logicamente recusou-se, mas tendo ali o que precisava: Orfeo em seu reino. No entanto Hades não esperava por aquilo, Orfeo de tão triste acabou somente com notas que faziam a todos chorar, seja animal, vegetal, deus ou fera. Havia perdido parte de sua alegria em tocar, que era Euridicie. Para Hades não havia tormento, sendo um deus de decepções e trevas, era excitante. Tão excitante que teve medo:

"- Orfeo, meu doce jovem e espetacular soberano. Me coloco sob seus pés e para escapar da beleza de sua lira eu o permito ir, antes que isso me custe a destruição. Porém, assim que tiveres minha permissão saia do Submundo com Eurídicie sem olhar pra trás ou nunca mais poderá tentar novamente e habitará meu reino até o final dos tempos."

Orfeo concordou e antes agradeceu o deus com sua ode mais famosa " A Simphonia Final". Saiu do palácio com Eurídicie e seguiram à saída do Erebus. Eurídicie, sem mal no coração, acabou por acidentalmente olhar pra trás quando achavam já estar saído do inferno e o que aconteceu então foi pior que a morte: seu corpo começou a tomar a forma de uma estátua, até a altura do busto e sem poderem mais sair daquele reino, Orfeo - ainda vivo - acompanhou a amada. No Submundo ele tocou - e ainda toca - para amenizar o sofrimento da bela e declarar seu amor incondicional, que supera a morte. ---

Por isso até hoje, conhecendo de perto como os conheci, temo a música e o amor. Nunca me coloquei na posição do jovem mas acredito que não teria sido tão forte e isso me envergonha deveras. Em intervalos de tempo regulares, infrinjo o pedido da divindade que lá comanda e tenho com o casal, controlando-me para não parecer triste perante eles que se amam tanto e para não ferir o orgulho do meu grande amigo. Mesmo passado todo este tempo eles continuam os mesmos, em amor, carinho e respeito. Talvez se algo tenha mudado não notei, as flores que crescem lá continuam crescendo, o que é pedra continua sendo pedra e o amor somente cresce, como todo amor deve ser.

Antes que perguntem, não posso ajudar. Foi um acordo e seria descomunalmente perigoso romper, além do mais vejo a Felicidade de Orfeo. Não importa onde eles estejam desde que estejam sempre juntos.

Simphonias perfeitas

♮ ♫ Symphony no3 of Sorrowful Songs from Henryk Gorecki - Lento e Largo ♫ ♮

Se há algo que possa aplacar uma besta, realmente esta forma é a música. Não há nada tão singelo e sutil e simultâneamente tão intenso quanto uma bela simphonia carregada de história, que seja de um povo ou de um único homem bom. Ou mal.

"... Şi Bestie întâlnit faţa frumuseţe ... Si frumuseţe domesticit Bestie, de atunci, Bestie a fost la mila de moarte ..."

Talvez não só uma beleza coloque uma fera à mercê da morte. Talvez esta fera se permita mais, é uma fera que começa a descobrir que num mundo onde antes encontrara-se sozinha agora vê novos horizontes bestiais e direcionados. É ainda uma fera, atrás de uma beleza que já encontrou e que molda cada pouco segundo de sanidade para recuperar o que perde. É cíclico e irracional, mas é o único jeito que a besta conhece, infelizmente para uns.

É a musica, a beleza e esta necessidade de equivaler estas duas potências que pode estar tornando a fera mais susceptível à morte. E a amores. Porém é uma fera que conhece a morte a cada dia, logo este é o menor dos empecilhos de  um grande e valoroso reconhecimento. Que seja ele reconhecido pelo quanto sofre e não pelo quanto ama ou é amado pois tais não são mensuráveis ainda, enquanto sua dor sim. Esta é além de evidente, palpável, tangível, idealizada e absolutamente incapacitante perante qualquer zelo em continuar a batalha.

Ouço a doce simphonia enquanto padeço mais uma vez e renasço, tomado por novos sentimentos e novos ouvidos e olhos me vêem. Tenho entre amigos entidades que não podem ser vistas ou medidas, por isso tenho vantagem para que não sejam julgadas. Elas são o que eu sou e delas sou senhor, a reciproca procede. Damos poder ao que confiamos e confiança a quem nos favorece, mesmo uma besta, mesmo um anjo, mesmo algo que é parte de cada.

Posso ver a música fluída, como meu amor, acariciando partes de meu corpo desconhecidas e por dentro de mim ela reverbera, iluminando algo morto há centuriões. Posso tocar em cada nota mesmo não podendo reproduzi-las. Já bebi de grandes Orphíos e nunca pude sentir tamanha presença, o que seria um martírio e me colocaria como Hades - para aqueles que não conhecem a minha história, citarei após esta.

É algo ressonante como uma estrela que a cada dia mais me enobrece, mesmo que seja num reino onde nobreza não valha mais do que o peso do seu coração. É ouvir um doce Leão soprando vida e criando um mundo, como já ouvi falar antes.

Talvez esta música não pertença a ninguém a não ser a ela mesma. E isso me apavora e excita.

Symphony no.3 of sorrowful songs - Lento e Largo.mp3

Guias

‎"Mesmo quando não havia nenhuma esperança, sempre procurei dar o melhor de mim."

-- Orson Welles