7.20.2014

Vingança, um néctar que se bebe quente


Então já se tornara um sábado noturno quando eu recebera a mensagem de que 'ele' iria festejar na rua, com amigos. Não estava em minhas mãos impedir, evidente, mas estava em minhas hábeis mãos fazer desta noite algo memorável e inesquecível, em seu leito de morte.

Esperei que a Lua se tornasse plena no céu, havia um frio peculiar para aquela época do ano, algo que excitava os mamilos e fazia o hálito se tornar mais vibrante e desejoso de companhia. Percebendo que ele havia saído, preparei-me para fazê-lo também. Usando de um subterfúgio, percebi seu trajeto e também o fiz insinuando que queria estar no mesmo local que ele, apenas com momentos de diferença. Momentos vitais que haveriam de se tornar nossos últimos naquela noite. Percebi então que ele havia chegado: uma boate comum, com pessoas comuns, aquele cheiro da promiscuidade comum que atrai almas comuns. Não esperava algo diferente vindo dele afinal. Ele chegara com suas companhias e logo trataram de se acertar no local – tudo isso eu observava de muito longe, ainda. Deixei que eles se divertissem tempo bastante e então, lá por volta das duas da manhã, eu me dirigi ao mesmo local. Fatalmente vestido e perfumado, olhos reais, com a essência negra como de costume. Se alguém me perguntasse como cheguei ali, diria calmamente que alcei voo como habitual, pousei onde era menos observado e por um truque coloquei imagens falsas nas mentes dos que poderiam ter visto algo suspeito na minha chegada.

Minha figura ainda causava algum frisson, onde quer que eu fosse. Pois bem, tomei a precaução de estar no mesmo local sem me deixar ser visto por ele ainda.

Evitei a multidão com a cautela necessária, escolhendo um local mais escuro para me instalar. Homens e mulheres admiravam o que viam e eu ignorava a todos, também como habitual. Hora me dirigi ao bar, paguei por uma bebida e voltei ao negrume da boate. De longe eu o observava, feliz, espontâneo, quase uma bela imagem se não fosse por suas intenções que já exalavam e um nariz treinado como o meu, captava. Pois bem, dada a hora dos demônios, eu resolvi começar a agir.

Deixei a escuridão do meu canto e lancei mão dos artifícios para esconder minha real personalidade, deixei homens e mulheres tortos ao se virarem para acompanhar meu trajeto, suas bocas babavam, seus membros falhavam, seus medos afloravam e por vez ou outra eu ouvi aquela palavra que define a minha raça. Durante este pequeno percurso, beijei lábios desconhecidos, vários, deslizei minha língua por vários pescoços e ombros, minhas mãos conheceram caminhos naquele caminho. Me deixei ser a imagem e a ação da própria alma do local, libertino, promíscuo, luxurioso. Era fascinante perceber as reações. Cheguei então até defronte a ele, que me olhava com olhos arredios, quase afrontosos, reconhecendo em mim a pessoa com quem falara várias vezes. Era uma mescla de prazer, medo, desejo e resiliência e eu admirei esta última qualidade. Havia uma confusão instalada em sua mente quando eu lhe disse que havia percebido o caminho que tomaria e resolvi fazer o mesmo, como surpresa. Ele balbuciava algo como "não deveria" e "como me encontrou" e eu ignorei, beijei-lhe a boca ferozmente enquanto todos os seus amigos observavam, atônitos. Não me refreei e beijei cada boca que ali naquele círculo se encontrava, deliciando-me com cada prazer único e conhecendo cada alma, evidente, deixando um rastro de confusão nos seus olhos. Parecia um flagelo recém-formado, sedento por prazer, hedonista. Voltando a ele, disse-lhe em tom lúdico que estaria ali para vigiar suas ações, ciente de quais eram elas antes mesmo de se pensar.

Depois de beijar a todos e em todos deixar minha marca, tomei-lhe pela mão sinistra e partimos daquele ambiente para um mais escuro ainda. Evidentes eram os olhares que nos acompanhavam até o andar superior, que era aberto, daquela boate. Ao lá chegar, disse-lhe que estava ali para que o desejo fosse consumido, que não houvessem freios, que os rompantes fossem exacerbados pela emoção e luxúria. Falei enquanto percebia em seu olhar um misto de pavor e necessidade. Por fim, sentados em um banco improvisado, contei-lhe sobre meus planos para aquela noite e ele aceitou. Logo, pensamos em deixar aquele local, juntos, para um melhor. Voltamos, vi quando ele se despediu de seus amigos dizendo algo em seus ouvidos e compartilhando de uma ironia jovial – lógico, ele sabia que acabara de ganhar a noite e que um dos seus desejos carnais seria consumado. Achei graça também, pelo advento.

Dirigimo-nos à saída.

À porta, tomamos um carro que nos deixaria no destino. Porém, na metade do caminho, à beira de um rio que cortava aquela cidade, eu induzi o motorista a parar. Disse-lhe que lhe faria uma surpresa, paguei ao motorista e encaminhei-o à uma viela escura. Passava em seus olhos lembranças de quando eu o assustava, contando sobre mim mesmo e ele sorrateiramente levava para o lado do humor – mal sabendo que meu câncer é falar a verdade em forma de brincadeira, para não parecer tão verídico. Já naquele momento eu não me importava com mais nada a não ser a vingança. Tomei-o no rumo daquele beco escuro, forçando-o. Encostei-o em um dos muros que nos cercava e estartei a beijá-lo. Mais e mais, mais forte, mais denso, mais violento. Notei que havia lágrimas irrompendo de seus olhos e seu medo congelava os movimentos, ele já imaginava o que estava por vir. Deixei-o com este pensamento latente. Como um gesto de misericórdia, parei um instante para delicadamente conter uma das lágrimas que escorria e foi quando ele disse-me "eu sabia que era verdade, sabia bem lá dentro de mim que ainda havia a possibilidade disso ser verdade". Disse-me, referindo-se à minha condição inumana. Concordei com um sorriso aparente e um olhar marmorizado, já antevendo que as pupilas tomavam a cor rubra deliciosa que advém quando começo a me alimentar. Não havia percebido, entretanto, que já tomava pequenos goles de sua essência quando por exagero da força, machucara seus lábios nos beijos. Ainda posso ver seu jeito infante, seu sorriso cálido, sua alegria em viver ainda que numa vida moldada em vitríolo. Percebia que o ameaçava tal qual uma serpente encurralando uma lebre e isso me excitava. Profundamente. Mesmo não havendo desejo sexual eu o violentei, molestei seu corpo frágil e delicado com o meu bruto e rude, até que sangue brotasse de suas entranhas e ele urrava de dor. Tomei daquela carne como tomei daquele espírito, ferozmente, como o animal que sou. Quando já exausto da violência sexual, voltei à violência emocional, ele já à esta altura seminu, sangrando, choroso, sujo, maculado. Era tão fascinante que queria fazer daquele momento ad-aeternum. Interessante como ele não implorava por sua vida, provavelmente já imaginava que não funcionaria comigo. Porém, também, devo confessar que por um momento pensei em deixa-lo. Bem, ainda que não o tenha feito, dei-lhe a paz eterna. Cansado, tomei-o com uma das mãos, alcei seu pescoço até minhas presas e bebi dele, irrefreadamente, querendo acabar logo com aquilo. Agora, se tratava de mais um corpo quebrado, exangue, sujo e que eu mesmo maculei e entalhei. Acabei me divertindo ainda mais quando parti-lhe os membros, um a um. Esquartejado, deixei suas partes jogadas às margens daquele rio, tomei voo e voltei à minha morada: satisfeito, por ter conseguido mais uma vez provar para mim mesmo que não sou mais um anjo e que posso sim ser o que quero ser, quando quero ser, com quem quero ser.

Na noite seguinte, como habitual, li nas manchetes sobre o incidente do "corpo esquartejado encontrado" e que se supunha "ser vítima do mal social" que afligira a humanidade. Ele agora habitaria em mim e este era um bem que eu acabei fazendo-lhe sem intenção.




Para a maioria dos homens, dor significa ódio, e ódio significa vingança. //Paolo Mantegazza
A vingança é uma espécie de justiça selvagem. //Francis Bacon
A vingança agrada a todos os corações ofendidos; (...) uns preferem-na cruel, outros generosa. //Pierre Marivaux

7.19.2014

Luta de sábado à noite


Algumas vezes eu penso que só me sentiria bem após lutar ferozmente contra um demônio.

Digamos que eu não tenha mais nada. Não seja mais nada. Não esteja desejando mais nada. O que me sobraria além do nada? Rancor? Provável. Ao pensar que não adquiri a experiência necessária para evitar (ou ao menos postergar) uma nova morte em vida, posso começar a pensar em punição. Dias e horas passam devagar, enquanto divago sobre um novo horizonte inalcançável. Cometerei os mesmos erros novamente, isso é evidente. O que eu faria diferente desta vez? Foi-me dito que um monstro só paga pelos seus próprios crimes mas não creio que seja a mais pura e real verdade, afinal, pagamos pelos erros que cometem contra nós e cometem por nós – até exponencialmente mais severo.

Pensei não haver vestígios da mágica em mim e assim me enganei mais uma vez. É fatal essa atração! Pensar que eu posso realizar qualquer desejo daquele que me procura mas não posso realizar o meu próprio.

Em um mundo perfeito eu teria companhia, cumplicidade, afeto, carinho, retribuição e conforto. Neste atual mundo real eu não tenho nada e ainda tenho responsabilidades. Quando me coloco a observar-me por outros olhos vejo o quão assustadoramente atractivo eu sou. E isso me refrigera a alma. Em um mundo perfeito eu poderia voltar atrás e desfazer todo o mal que eu acidentalmente cometi e não precisar pagar o preço agora. No mundo real eu pago, infinitesimalmente mais caro. Num mundo perfeito, cada pessoa teria sua própria opção e eu não estaria envolto nestas escolhas. No mundo real eu sou um pilar e um foco para as decisões alheias, como se em mim houvesse uma bússola cósmica que mostra as direções de cada destino – ainda que a contragosto. Em um mundo perfeito eu não precisaria estar escrevendo para o vazio, poderia estar conversando com alguém que se importaria em devorar até a última palavra do que eu dissesse.

Não há muito perfeito afinal, Buer já me dissera certa vez que "o mundo perfeito seria aquele em que as pessoas percebessem que não veem a si mesmas e sim suas sombras apenas".

E eis que então eu sofro sozinho mais uma vez.

6.25.2014

I'll disapear - ou Marcas de pinturas e de sexo



Terça-Feira, dia 24 de Junho de 2014.

Havia sido um exaustivo dia de trabalho. Pacientes insatisfeitos, premissas de confusões pelo evento desportivo internacional iminente, almoço rápido, sede alojada no âmago. Bem, não era um bom dia – como habitual. Às dezessete horas o esperado encerramento do expediente.

Dirijo-me ao estacionamento, cumprimento colegas, percebo que esqueci as chaves na primeira gaveta da minha mesa e preciso retornar. Convenientemente atendo uma ligação, nada de importante. O dia seguinte seria um descanso (pelo mesmo evento desportivo) e por isso deixei-me preparado para a monotonia da vida caseira. Deixo o hospital.

Pego o costumeiro caminho de retorno, algumas pistas expressas, ouvindo músicas da década de 90 que eu sequer vivenciei. Meia hora mais tarde estou no centro do município que meus pais moram, pensei em divergir da rotina e dar uma volta pela cidade, desacompanhado por falta de escolha e não de vontade. Passo em frente a um estúdio de tatuagens e piercings e decido me marcar, há tempos não faço isso. Entro, me apresento, converso com o tatuador – um jovem e belo efebo, dotado de uma pele branca contrastando com seus lábios rosados e olhos verdes, de estatura mediana, cabelos ruivos de corte moderno, tatuagens pelo corpo esguio assim como piercings e brincos – e percebo nele uma bela imagem. Peço para ver seus trabalhos, mesmo já decidido como será o meu futuro. Ele é delicado, decidido, bem destro e firme.

Acompanho sua narrativa sobre este e aquele trabalho, todos fascinantes em textura, coloração (aqui eu fingi perceber as nuances, para agradá-lo. Optei não dizer a ele que não percebo cores como as pessoas normais) e arte-final. Depois desse momento, sorri quando disse a ele que já havia escolhido o que estaria estampado em mim. Ambos sorrimos afinal e ele se desculpou pela impulsividade em mostrar seus trabalhos, eu, cavalheirescamente, disse-lhe que não era incomodo e que na verdade eu estava admirado com a qualidade. Decidi antes, porém, que também colocaria um piercings como o que ele me mostrou e, por sua indicação, onde ele achava que seria interessante. Um outro adendo: eu não sinto dor ou desconforto corporal, logo, essas marcas são mais para provarem a si mesmas do que por mim.

Enquanto ele preparava os materiais eu escolhia a peça, simples, como uma estrela em ascensão. Logo estávamos prontos ambos, ele então pediu para que eu retirasse minha blusa (os furos seriam em ambos os mamilos) e eu fiz, sem hesitação. Notei que ele corou neste momento e um cheiro inebriante tomou conta da sala onde estávamos. Percebi aquele cheiro e o conhecia: excitação. Não que eu seja um modelo adônico de homem, não, mas algo o provocou. Talvez minhas próprias tatuagens estratégicas, o que elas dizem a quem as lê, minha aparente falta de vergonha pelo meu corpo, ou tudo isso ao mesmo tempo, bom, o excitou e eu percebi. Percebi como suas mãos decididas pareciam frágeis e isso ao longe. Defronte a ele, sem blusa, recostado sobre uma maca usada para trabalhos enquanto o cliente está deitado. Ele, perante me, com os materiais apoiados na mesma maca, sem saber por onde começar.

Então ele sorriu. E eu sorri também. Ele disse que estava “sem jeito”, eu disse-lhe para “seguir e fazer o que necessário fosse, que não se preocupasse pois eu não sentiria dor”. Ele me questionou: “ - não sentirá dor? Mas e isso, sentirá? ”. Disse-me isso enquanto colocava seus lábios à altura do meu mamilo direito e o beijava, demoradamente. O contraste de uma boca morna com meu corpo frio de mármore deixou ambos arrepiados e ele sorriu pelo canto de sua boca, percebendo isso. Provavelmente eu era o primeiro “cadáver” que ele havia sentido. Beijava um mamilo enquanto acariciava o outro e trocando de posição. Lambeu os mamilos, o peito, a linha traçada entre o tórax até o umbigo. Percebi aqui como a destreza de suas mãos retornaram rapidamente quando, com elas, apressava em desabotoar meu cinto e minha calça. De repente, a percepção de que a qualquer momento poderia entrar alguém. Levantando-se, à minha frente, pediu licença enquanto trancava as portas do estúdio e logo voltou à posição de antes. Eu sequer me movi um centímetro cúbico de onde estava. Aproveitando sua posição inferior, levantei-lhe os braços e retirei também sua blusa, apenas para perceber que havia ali sim um corpo decididamente excitante, moldado como nas peças do meu povo, tão branco que beirava à diafania com exceção às tatuagens coloridas e vibrantes. De calças abertas, ele então massageava meu sexo com os mesmos lábios que outrora perseguiam algum suposto calor pelo meu corpo.

E assim o fez, excitando-me até onde minha compreensão seria capaz de guiar. Havia um sabor naquela boca que eu desconhecia, mesmo depois de todos os meus séculos de vivência. Era fascinante e apavorante.

Houve um chamado à porta mas ambos ignoramos. Logo, satisfeito daquela maneira, ele se levantou e acompanhou meus olhos que mesclavam as cores que eu conhecia – um erro que eu sempre, fatalmente, cometo quando estou excitado – mas em vez de assustá-lo, isso o deixou intrigado. Eu o beijava no ombro, na clavícula, no pescoço, no peito, no cóccix. Tomei sua posição e o imprensei na maca, apertando firme o que sobrara intacto do meu corpo contra o dele. Mordia seu ombro e suas costas conforme arrancava-lhe suspiros, desejos e sua calça. Uma leve mordiscada na cintura que causa aquele frisson fervoroso. Domado pelo pescoço e pelos cabelos, de costas pra mim, sendo maculado pelo desejo, ele pedia mais. Por um momento praguejou por não haver “proteção” para ir adiante quando eu, precavidamente, disse-lhe que havia em minha bolsa algo a ser usado. Novamente os olhos se incendiaram e então ele pedia para ser possuído. Naquela maca (que eu também já estou habituado a lidar) eu o tomei várias vezes e de várias maneiras, durante vários minutos.

Aquele corpo estava então já marcado além das pinturas pelas dores do amor consciente e era um conjunto maravilhoso de ser observado.

Após algumas horas talvez, saciados, conversamos sobre nossas vidas, posturas, interesses e coisas em comum. Ele se desculpou inúmeras vezes pela ousadia mas não se dizia arrependido. “Para uma primeira vez, há de haver mais outras. O que é bom torna-se um vício e um vício só torna-se perigoso quando não é saciado” – era sua colocação e eu a achei válida. Trocamos telefones e combinamos um café.

Finalmente tomei meu rumo de retorno, sem tatuagem ou piercings, mas com uma nova promessa de vida.




O sexo é um acidente: o que dele recebemos é momentâneo e casual; visamos a algo mais secreto e misterioso do qual o sexo é apenas um sinal, um símbolo. //Cesare Pavese

6.14.2014

Conceito de sábado pela tarde, quase já sem energia pelas tarefas



Faz algum tempo que perdi o elo mais importante da minha existência com este mundo. Logo, as coisas começaram a desmoronar catastroficamente. Dias de angústia, dor, sofrimento, pesar e desconforto são seguidos, um após o outro. Percebo que a pouca luz que havia em meus olhos e cabia em meu coração está esvaindo, a passos largos. Não vejo um porto seguro onde possa afogar minhas desilusões, um contêiner de lamúrias eu me tornei – claro, sem que deixasse perceber aos outros. O mais forte sempre precisa de algo forte o equivalente para poder se manter, vejo que não consigo encontrar este poder em mim.

Os dias estão me passando desconsolados, fúteis, incólumes de amores e esperanças. Sinto que há uma queda abrupta nas minhas emoções, ainda mais o que havia antes. Perdi um longo amor, meu melhor amigo, minha matriarca, meu zelo pelo mundo e, a cada dia mais, ganho mais temor pelo meu iminente e perigoso descontrole. Fato que não estou mais conseguindo ludibriar minha sede e que isso pode me gerar um grande problema futuro, cogitei a ideia.

Há algum tempo eu não me importava em ser o ouvinte, o acalentador, o conforto, o padre, o psicólogo das pessoas. Era altruísta e isso me refletia bem. Via uma certa recompensa neste meu esforço sobre-humano. Agora não mais. Não me sinto bem tendo a obrigação de confortar as pessoas, me irrito fácil, sou um estopim curto prestes a inflamar e levar tudo comigo. Talvez eu sempre fora assim, agora eu apenas esteja menos centrado. Talvez. Lembro-me das altas horas passadas ouvindo problemas alheios e criando soluções, satisfazendo desejos, me anulando e consolando, sempre na expectativa de que isso acabasse ajudando de alguma maneira ao meu próprio caso. Hoje, eu percebo que não consigo a merecida retribuição daqueles a quem me dispus. Eles ainda me veem como o porto que não quero mais ser e isso me entristece deveras. Cansado estou de fingir algo que não preciso mais, que não tenho mais forças para seguir.

Não sou aquele homem bom, calmo, perseverante, que gosta de ajudar e se sente bem com isso. Sou egoísta, fúnebre, esgotado, irracional, livre de emoções e com uma grande tendência ao isolacionismo. Sou feio, bruto, rude, descrente, introspectivo, sexualmente extremo e impoluto. Sou meio maior medo e meu pior pesadelo, agora. O Alex bom deu lugar ao Alex mau, isso eu percebo com evidência.

Também há algum tempo, no auge da minha juventude e quando recebi de herança a loja de desejos, eu quis testá-la. Desejei ter meu maior amor junto a mim para todo o sempre e a magia deu-me. O preço foi parte dos meus próprios poderes uma vez que para viver junto dele – pensava eu – eu precisaria abandonar o mundo de qual eu venho. Ledo engano, eu nunca seria aceito. Meu desejo foi atendido apenas para que eu compreendesse que uma vez assumida a responsabilidade, eu precisaria abdicar de todo o resto. Uma vez perdidos, meus poderes não são mais os mesmos de antes e minha maneira de continuar com meu maior amor foi impregnar-me de magia natural (como já descrevi anteriormente). Sinto-me como se me faltasse um membro mas aprendi e desta maneira conceituo melhor os desejos feitos, e, com esta cicatriz, eu desenvolvi o discernimento necessário para prosseguir. Bom, viver tudo isso apenas me deixou mais susceptível a querer continuar desta forma: isolado, sozinho, independente. Confesso que sinto falta de um consolo, um conforto, um colo para me aquecer sendo eu tão frio mas sei também que preciso abdicar destes benefícios se quiser continuar ser eu mesmo. Enfim, prossigo minha etérea jornada pelo mundo humano ciente de que não encontrarei respostas e sim mais perguntas do que havia antes de começar. Ciente também estou de que a cada degrau, os desafios se tornam mais intensos e menos polidos, logo, devo me preparar para o futuro e anteceder as experiências se quiser continuar existindo – ainda que desta forma.

Perdi o desenvolvimento do que pretendia declarar, continuo quando retomar.

Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo.// Velho Buk