Devaneios. Me perco em devaneios.
Pois já não sou o que era e não sei como recuperar. Perdi minha aliança e minha folha, meu corpo não mais se eleva e somente o tolo pode me ver. Não sou o que busquei ser e não posso mais voltar. Há muito deixei para trás o molde, meu molde, de como encarar uma monção.
Há uma Tempestade e não posso voar nela, não posso ver.
Posso sentir cada gota de chuva em minha áspera pele e manchadas penas, voo para tentar me completar, vejo no Céu um trovão rasgar. Meu coração arde pequeno em meu peito, minha voz sufoca e todo o calor se esvai de mim. No momento somos um, a Tempestade e eu, reinando na cinza etérea acima. Não há mais canto, não se ouve nada e nem o vento suspira baixinho. O único rouco amor que poderia exponenciar cada sensação, ainda está abafado. Delirante.
Cálidamente atravesso a monção e noto que muitas penas foram perdidas. Minh'alma é tomada por um acesso de choro e agora posso ouvir o mundo ao meu redor. E dentro de mim. Consigo ver minha alma gêmea sobrevoando o céu junto a mim, meu eidolum.
Do mais alto podemos ver o que está nos afligindo. Miséria, dor, sofreguidão e linguas lascivas são só o começo. Há Treva e há ódio, há desilusão e pesar, há fogo e sombra. Minha alma gêmea e eu perduramos no céu e acima de nós ainda há mais a alcançar. Com os olhos fechados sente-se, vibra-se, eleva-se...
Cada suave momento é compensado com a brisa Zéphyr, cada intenção aqui em cima não é subjugada e cada apelo ouvido. O silêncio se fora e meu coração delira, resfolegando, cansado, impassível. Meu irmão me acompanha sempre de perto, o mais perto que pode estar. Por um momento penso que não há outro ali, somente eu, e que minha alma gêmea não existe sendo apenas um fruto da instabilidade extrassensorial a que pertenço. Porém isso não me desvia o caminho, não. Tendo a noção de que não há quem me alcance, penso em subir o mais alto, mais alto, sempre mais alto, até a primeira estrela que eu conseguir tocar e ir além, ir até os deuses vestido com minha face de ave-de-rapina branca de olhos brancos e ser alimentado pelas almas eternas.
Esta é minha intenção e subo. Mais acima. Para o alto, impulsionado pela coragem e ganancia...
Em redor da ionosfera começo a perder a força, minhas asas não respondem, minha visão turva, meu coração congela e não sinto o ar. Me mantenho abraçado à vontade mas isso agora não me basta. Minha lancinante pressão incomoda e minha alma se desprende, no eflúvio dos deuses... Meu corpo retorna à Terra como uma estrela cadente, ardente numa aura protegida e em alguns segundos chega à superfície, de encontro ao meu ninho...
Não há mais nada agora, consegui empreender minha missão com sucesso. Minh'alma pertence novamente ao meu reino e meu corpo ao dele.
Este sou eu mas não sei ainda por quê estou aqui.
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