Noite.
Calidamente mudando os ventos, chuvas por virem breve.
Setembro, 2013.
Estava eu, apenas sendo eu mesmo, após uma série de ocorrências de desestímulo emocional e orgânico, sentado em minha poltrona favorita, ouvindo toda a coleção de R&B que eu achei ter esquecido depois de 1990 - entre as joias, Simone, Franklin, Fitzgerald, James e conterrâneos. Tomei meu telefone e disquei, parte subconscientemente, para minha irmã. Ela atendeu do outro lado:
(Pallas) - Tava preocupada, você não dá notícias desde cedo.
(L.) - Você bem sabe que têm sido dias difíceis.
(Pallas) - Eu sei. Pode vir. Não contei, Ingrip colocou ovos depois deste tempo todo, acredita? Pode vir, apenas ela está aqui.
(Eu) - Tô indo.
Telefone, chaves do carro, chaves do apartamento.
Durante todo o pequeno trajeto pensei no que me ocorrera nas últimas vinte e quatro horas e estava, enumerando os acontecimentos para maior fluidez ao falar. Doze, talvez quatorze, minutos depois lá estava eu. Numa interseção de dois mundos, batendo à porta da minha irmã mais ouvinte e protetora.
(Pallas) - Oi.
(Eu) - Kaliçpéra. Esqueceu os bons modos, Pallas?
(Pallas) - Não é porque você é mais velho que pensa que pode me corrigir, n'ai?
(Risos)
(Eu) - É bom te ver novamente.
(Pallas) - Verdade, entra.
Pallas era minha adorada desde sempre, minha alma gêmea mesmo sendo minha irmã. Uma querida que ajudei a surgir e desde então nos adaptamos um ao outro. Tínhamos gostos semelhantes, logo, não era difícil. O que nos diferenciava porém era a necessidade dela por ser vista enquanto eu optava por permanecer incógnito.
(Pallas) - Tu quer um chá? Não tem mais daquele que você gosta, mas tenho Earls e Ceilão. Ah, e um novo que ela trouxe dia destes, desde que veio ficar comigo este tempo. Já estamos na época? Aliróthe! Como passa.
(Eu) - Me dá qualquer coisa de beber ai, eu preferia alcoólico.
(Pallas) - Ambos sabemos que você não pode, abusado.
(Eu) - Eu sei, você não sabe de nada.
(Risos)
(Eu) - Vai este novo ai mesmo, vontade de provar coisas novas esta noite.
(Pallas) - N'ai. Senta lá na sua azul. Ainda está lá pra você e ninguém mais se senta nela.
(Eu) - Puxa, Pal. Não acredito que você ainda mantém aquela porcaria velha.
Minha poltrona favorita desde sempre, azul, com bordados de grandes feitos históricos muito antigos. Me sentei e me confortei com anos de bondade e alívio. Fiquei apenas um instante, ao me recordar, fui parabenizar Ingrip pelos ovos.
(Eu) - Até que enfim, Ingrip. Achávamos que você nunca mais ia se decidir.
Falei para mim mesmo, a coruja apenas me contemplou e assentiu, como se entendesse. Bem, ela entendia mesmo.
(Eu) - E dois desta vez? Tem certeza disso?
Parei no momento em que minha irmã vinha com duas xícaras, torrões de açúcar mascavo e uma pequena jarra de creme de leite cremoso, numa bandeja antiga, com logicamente nosso chá.
(Eu) - Acredito que você já esteja ciente do que está acontecendo.
(Pallas) - Sim, mas preferia que você me contasse. Duas pessoas, ainda que no mesmo lugar, ao mesmo tempo, nunca contarão a mesma história da mesma maneira. É fascinante ouvir as versões. E você sabe, ela não fala muito. Só chora e bebe chá, desde que chegou.
(Eu) - Acha que devemos falar com ela?
(Pallas) - Não, melhor não. Deixe-a ruminar mais um pouco.
(Eu) - Mas Pallas, já faz milhares de milhares de anos.
(Pallas) - Você sabe bem, irmão, como dói. Graças que eu nunca passei por isso.
(Eu) - Nunca? Tem certeza?
(Risos)
Nos sentamos na varanda, noite fresca, lua boa para conversar. Eu, na minha poltrona favorita desde sempre. Minha irmã na dela, um pouco mais moderna e bruta do que a minha, com a mesa de chá entre a gente.
(Eu) - Bem, mais cedo eu passei por algumas "chatices humanas", como você chama.
(Pallas) - Tu ainda se porta a isso? Achei que depois daquele dia você estivesse fora de novo.
(Eu) - Nada, menina, é interessante e deveras intrigante. Não venha me dizer que está fora disso também, por favor.
(Pallas) - Bem, você que sabe. E ai a revista...
(Eu) - Sim, a revista. Ou você fala sozinha ou me deixa falar, ainda não perdeu este hábito?
(Pallas) - E tu ainda não perdeu o hábito de ser estressadinho? Estamos quites.
(Eu) - Então, a revista. Eu estava lá, do nada, esperando o atendimento e peguei aquela revista para passar o tempo. Uma destas que você adora ler e que eu passo longe.
(Pallas) - "Meninas com coisas de meninas". Parece que é um costume que você também não perdeu.
(Eu) - Posso continuar? Então. Peguei a revista e, folheando ocasionalmente, adivinha quem eu encontro lá? Estampado? Numa propaganda de roupa masculina de praia? Espera, não adivinha. Ele mesmo.
(Pallas) - Então ele está indo de vento em popa? Que bom hein.
E então ela fez aquela cara de que não dava a mínima, para me proteger afinal, ela sabe o quanto eu sofri e por conseguinte ela, pelo que aconteceu. Tentando não demonstrar interesse, para me poupar.
(Eu) - Pois é, Pal. Parece que sim. Fico feliz.
(Pallas) - Que seja.
(Eu) - E, como sempre, acabei causando uma infelicidade que me acompanhou durante o dia e o motivo da minha vinda aqui.
(Pallas) - Irmão, tu és meu irmão. Não é filho do meu pai ou da minha mãe, nem cria dos meus avós, mas é meu irmão desde que eu cheguei aqui, do Oceano. Tu fora meu amigo, meu companheiro, meu mentor, meu instrutor e meu salvador por várias vezes. Tu nunca precisa de motivos para vir me ver, mas por tua distância prefere não fazê-lo.
(Eu) - Pal, eu sei. Posso continuar e você voltar aos tempos modernos, efcharistó?
(Risos)
(Eu) - Continuando. Vi a foto dele e notei que ele não mudou nada. NADA, desde o acontecido. Fiquei tanto com aquilo na mente que acabou não sendo surpresa quando meu celular tocou e era ele. Diz ele que "me ouviu chamando" - claro, era verdade - mas eu não daria opção. Conversamos alguns instantes poucos a ponto apenas de me reiterar com o que acontecia, elogiar pelos trabalhos recentes, ele dizer que havia voltado para o pais há uma semana e que estava pensando em me convidar para um jantar informal, nada demais, com os pais, como fazíamos antes, pelos velhos momentos. Recusei de cara - e me arrependi.
(Pallas) - Nem acredito que você atendeu ao celular.
(Eu) - Não me julgue, apenas me ouça.
(Pallas) - Eu achei que você queria seguir em frente, irmão. Tu já não está seguindo? Não tem uma coisa nova?
(Eu) - Coisa não, um homem. Sim, tem.
(Pallas) - Também humano, eu sei.
(Eu) - Não me julgue, eu disse. Você além de velha está surda?
(Pallas) - E você além de velho está burro.
(Risos)
Tempo de beber mais uma xícara de chá, um gosto exótico, abacaxi com alguma coisa.
(Eu) - Bom, ai conversamos mais alguns instantes e eu acabei dizendo que sim. Ia encontrá-lo breve. Ele perguntou de você também.
(Pallas) - Aliróthe, culpa sua. Eu disse que era melhor esquecer tudo.
(Eu) - Nada, ouve ai. Terminamos de falar, eu fui atendido, fiz uns exames, chegamos à uma conclusão e acabei lá por mais um tempo, tomando algumas poções.
(Pallas) - Tu ainda realmente se sujeita a isso, não? Cada ano passa e você está mais imerso nisso tudo, não sei nem se o verei no próximo milênio se continuar como está. Quando é que você vai parar de viver na sua cabeça?
Havia uma complacência na sua voz, uma condescendência que eu não esperava. Minha irmã estava realmente preocupada comigo e à nossa maneira de falar, ela descobriu como eu mesmo me causava tanto mal. Tive de admitir.
(Eu) - Falei com ele, irmã, apenas. E o suficiente para que os anos viessem todos a mim de uma vez.
(Silêncio)
Durante cerca de meia hora apenas bebemos nosso chá, calmamente, sem uma palavra. Apenas ouvia-se o piado de Ingrip, orgulhosa da cria, mais nada. E então, Pallas recomeçou:
(Pallas) - Falaram e então vão se ver?
(Eu) - N'ai. No próximo final de semana. Preferi não dizer onde estava na hora da ligação e nem citei que estava mal das vísceras, apenas deixei o assunto de anos fluir.
(Pallas) - Entendo. E quais seus planos? Esquecer da coisa que está vivendo e voltar como se nada tivesse acontecido? Mais uma vez? Depois de tudo que passamos?
(Eu) - Não. Não sei... Não sei.
Verdade que eu não sabia como me sentia após aquela conversa. Notei que nunca pensei muito no que aconteceu, apenas segui adiante. Sofri bastante na época e não posso dizer que porque era uma criança, nunca pude ser uma criança. O que talvez eu tenha sentido foi remorso, pelo que matei em mim quando vivemos juntos e quando infelizmente tive de deixar de viver. Fiz muitas coisas na minha existência de não me arrependo, a não ser aqui. É uma longa história.
(Eu) - Por isso vim até você, querendo ajuda.
(Pallas) - Não posso tomar a decisão por você, sabe bem.
(Eu) - Mas é você quem governa a inteligência, não?
(Pallas) - Inteligência, não decisões. Posso mostrar o que será melhor mas não decidir por você. Nunca pude. Ainda mais com você, que é infinitamente mais velho que eu. Não confunda, irmão.
(Eu) - Eu sei, Pal. Era apenas brincadeira. Parece que sua seriedade também precisa ser trabalhada. E depois eu sou o antissocial.
(Risos)
Neste momento, nossa irmã acabou se aproximando.
(Art) - Tu, aqui?
(Eu) - Hei. Como você está? Não quis incomodar.
(Art) - Pal, por que não me chamou?
E me abraçou carinhosamente. Ainda havia lágrimas aos olhos e seu cabelo exalava tristeza e apreensão.
(Art) - Já entendi. Parece que, tirando esta daí (se referindo à Pallas) parece que nós temos o mau hábito de sofrer por amor.
(Pallas) - Hei.
Todos rimos, afinal.
(Eu) - Junte-se a nós, irmã. Estamos tomando um chá e conversando aleatoriedades.
(Art) - Não me diga, ele de novo?
(Eu) - Sim, ele.
(Art) - Pal, sirva-me. Ainda sou mais velha que você, mesmo não sendo a mais velha da sala.
(Pallas) - Se idade fosse posto...
Todos tomamos chá no fim, acabei adormecendo na minha poltrona, sonhando com acontecimentos antigos. Acordei no meio da madrugada, apenas para perceber - e me emocionar - que estávamos os três adormecidos, cada qual no seu “reino", como era antes do novo mundo. Levantei-me, cobri ambas em suas poltronas, peguei as chaves do carro e do apartamento e voltei. Não sem antes deixar uma mensagem que dizia apenas obrigado, para as duas. Sentia-me mais leve, disposto, determinado e corajoso. Havia deixado minha armadura silenciosa por lá mesmo, porém, mal sabia eu o que ainda estava por vir.
Quando a filosofia pinta cinza sobre o grisalho,
uma forma de vida já envelheceu e, com o cinza
sobre cinza não se pode rejuvenescer, apenas reconhecer;
A coruja de Minerva alça seu voo.
Magia
Presságios
Espaço e tempo.
A verdade emergira
Da luta silenciosa
Dissipando a ilusão?
Pássaro da Cura Sagrada.
Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1830)