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10.12.2014

Descartabilidade


Certo estou de que algumas mensagens jamais precisam chegar aos seus destinos, mas, por vezes, tenho vontade de tentar enviá-las. Lembrando também na eterna dúvida sobre "um presente não aceito pertence a quem o remeteu, a quem não o recebeu ou a ninguém e isso o deixaria ao Cosmos"? De fato, tenho tanta coisa presa na minha alma que expor tudo isso causaria uma batalha de mil dias contra mim mesmo.

Tanta informação de tantas pessoas a tantos amores. Tantas histórias vividas e mais ainda as não vividas, que os deuses tenham misericórdia da minha sanidade. Contar aos que amei e ainda amo sobre nossos futuros perfeitos, nossas aventuras dentro e fora deste mundo, minhas pretensões, minhas intenções, minhas segundas intenções, minha disposição. Tudo alquebrado pela ausência de oportunidade de escrever. Começar um diário que elucidaria meu futuro não é permitido também.

Existe uma vontade e uma dedicação daqueles que nasceram sob a Estrela da Solidão que os eleva ao padrão de estrelas também - sempre distantes uns dos outros por segurança. São como estrelas, como navios, como feras selvagens, como cauda e cabeça - permanentemente distantes, até desconhecidos um ao outro. Percebo que existo para dar alguma razão à vida das pessoas, ainda que uma razão de conforto ou ciência de que o que sou, não lhes basta. Ou ainda que, sendo o que eu sou, devem manter cautela. Confesso que não sou único neste quesito mas talvez um dos que se expõem mais radicalmente. Minha 'descartabilidade' só é comparada à enorme presença maligna que eu causo às pessoas. Intrigante, não?

Posso ver o futuro, outros mundos, outras entidades, os corações humanos e não-humanos, não preciso de ar ou água. Posso estar em vários lugares ao mesmo tempo e posso saber de coisas que não deveria poder. Posso me reabilitar de várias situações, sou intangível ou maciço quando preciso, sou absurdamente velho e ainda assim inexperiente. Não consigo adoecer e morrer. Não posso perceber todas as nuances de cores mas o vermelho nunca me escapa. Tenho vários de mim dentro de mim mesmo e comando Legiões. Posso criar e destruir. O mais importante, então, eu já não posso. AMAR. Ou talvez o amor seja algo inexistente ou intocável para coisas como eu, afinal. Percebo que vislumbrei o 'amor' por pessoas que já perdi e que não poderei ter mais tão cedo e sei também do amor delas para comigo. Serei sempre algo que passou em suas vidas e não haverão lembranças suficiente de mim, incrível, não?

Inúmeras vezes eu já havia sido advertido disso por meu maior amigo mas nunca me dei conta, até agora, da volatilidade das pessoas. A maioria delas trata-me como um gênio, algo que só precisa ser acionado quando necessitam de um favor ou de ajuda. Há décadas eu não sou bem-quisto por alguém, imparcialmente. Alguém que me queira bem e que me queira de fato.

Eu afasto as pessoas. As pessoas me temem. Me julgam pelo que sou sem saber que não tenho outra opção. Eles me machucam, conscientes disso. Eles me forçam a fazer coisas que não quero, tentam me seduzir à maldade. De fato, as pessoas estão tão absortas de si que não reconhecem sequer quando alguém lhes quer fazer o bem e isso é lamentável.


Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. //Clarice Lispector
Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto. //Francis Bacon
A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais. //Arthur Schopenhauer

3.02.2014

Eis que eu preciso passar por cima de mim mesmo, por cima de meu amor próprio


Num delicioso crepúsculo de um dia que havia sido agradável, algo se movimentava no ar de maneira a querer demonstrar que eu deveria me preparar. Logo, seria convocado e precisaria exercer minha autoridade. Bom, havia muito que eu esperava esta oportunidade mais uma vez.

Lembro bem de já estar ciente quando meu celular notificou uma mensagem de texto dizendo somente “SOCORRO”. Não era um número conhecido mas eu sabia a quem pertencia. Era alguém a quem eu havia oferecido meu coração, muito tempo antes e que agora já não me pertencia mais. Alguém que eu realmente amava e que agora disporia de outro em sua cama, sua vida, sua essência, sua compreensão, sua cumplicidade, sua admiração e seu amor. Eu precisava aprender a lidar com isso ainda. A mensagem pedia socorro mas eu sabia que não era pra ele, diretamente. Há muito também eu havia criado o alfabeto simpático e dessa maneira, saber o que estava passando desde a saúde à atividade emocional desse ser. Me despi e me marquei, deixando assim indelével em mim sua magnitude. Tratei de responder à mensagem com um “Já estou indo, aguarde-me defronte ao portão de sua casa. Sei o que se passa”. E sabia, por isso ele me convocara em ajuda.

Esse seu novo consorte havia sido vítima de um incidente brutal, violento, nas ruas. Havia sido ferido por sua opção e seu meio de vida, depredada a sua dignidade, marcado seu corpo e fundamentalmente sua alma dilacerada havia sido a pior parte. Ele havia sido encontrado violentado, agredido e semiconsciente e no âmbito da sua pouca razão, pedia socorro com seus olhos encharcados de sangue. Como havia sido encontrado pelo seu próprio amante, meu outrora, a única opção seria evocar esse mal – que vos escreve – para ajudar. Médicos curariam as feridas externas, gradualmente, disso sabemos. Porém, tanto ele quanto todos – e aparentemente seu novo consorte – sabiam que eu poderia mais. Talvez minha reputação me precedesse indistintamente. Bem, eis que ele havia sido levado até à casa de meu precioso amor e lá estavam todos, a aguardar. Nesse ínterim de ler a mensagem e responder, eu já me preparava para ter com eles. Um caminho que naturalmente levaria uma hora eu faço em dois minutos, apenas por vaidade, por querer aproveitar sempre da beleza noturna que preenche e desloca. É fascinante perceber que ano após ano, século após século, minhas estrelas continuam imparciais e imóveis levando a crer que somente os que estão aqui embaixo se percebem mudar com o tempo.

Mensagem enviada, pego um casaco, me deixo cair do sexto andar que moro para o chão, diretamente, mas sabendo que antes mesmo de chegar à altura do quinto andar eu já havia ascendido, na mesma velocidade que o vento ganha do tempo na curva. Lá do alto as coisas são vistas como realmente são: pequenas e sujas. Despreocupado durante todo este tempo, eu apenas flutuei até onde deveria e, como sabia que estaria a me aguardar impacientemente onde eu havia mandado, pousei à uma certa distância – segura o suficiente para não ser atormentado. Ele, ao me ver e em seu próprio estado de pranto e dor, conferia sua confiança no olhar e eu me alimentei daquilo como uma seiva dourada da Cidadela Prateada que há muito eu não via. Deixei-me inebriar por aquele aroma, aquela delicadeza, aquela fragilidade, tudo aquilo que outrora fora meu e que agora pertencia a um humano frágil e que dependia da minha benevolência para continuar vivo. Eis a prova da dignidade e condescendência que me sempre é aplicada!

Fomos juntos até o seu quarto, onde repousava um corpo quase dormente de um jovem homem que eu já acompanhei durante uma noite, para observar atitudes e hesitações. Um homem comum, que não era em nada especial a ninguém, nem a si mesmo mas que agora era ao meu amado. Um molde de barro como todos os outros. Barro quebrado que eu, controversamente, precisaria consertar. Era uma lástima vê-lo tão ferido e ensanguentado e mesmo nesse frenesi eu não pensava em outra coisa a não ser em meu amor. Esse pedaço de barro estava realmente machucado em todos os locais que eram alcançáveis pelos olhos, ainda que pelos mais despreparados, mas havia uma falha em sua alma que seria o pior a ser reparado. Havia já uma necessidade de pedir pela morte – como sempre, humanos são fracos o suficiente para desistirem da luta antes mesmo de conhecerem um por cento da dor – algo que eu não permitiria acontecer. Sim, eu desejava me livrar daquilo mas sabia o quanto isso ia magoar aquele que amo. Não há aqui humildade, não, há apenas egoísmo em querê-lo bem e feliz mesmo que para isso precisasse passar por cima de mim mesmo. O amor é algo engraçado, a gente ama mesmo quando não é amado e sabe que, mesmo que não seja retribuído, faria tudo por esse amor. O amor é tolo ou tolos são os que amam?

Pedi que nos deixássemos a sós, apenas aquela peça quebrada e eu, no quarto. No seu nível de consciência eu sabia que poderia agir como quisesse que não seria observado, retaliado ou julgado. Pedi que meu amor nos deixasse também porque não aguentava mais ver o sofrimento estampado naquela bela face que eu beijei tantas vezes pela noite e outras tantas pela manhã. Deitado lá, aquele homem apenas esperava sua vez no trem que sobe aos céus e eu precisaria ser o condutor de volta dele.

Tirei todas as suas roupas – ou o que sobrara delas, farrapos e sangue coagulado – peguei uma pequena compressa que havia ao lado da cama e limpei a testa dele, para remover todos os traços de sujeira que havia ali. Ele ardia e palpitava, além de esforçar para permanecer respirando. Era sim, confesso, uma visão lastimável e ao mesmo tempo belíssima de como compreender a humanidade: um homem quando agride um homem, passa a ser mais homem? Mais poderoso? Mais parecido conosco?

No seu corpo débil havia tanta ferida quanto era possível perceber, ossos quebrados, marcas, manchas, escoriações, sujidade. E mais, em sua alma havia sede de plenitude. Nesse momento percebi e perscrutei que não seria capaz de pedir ajuda para esse feito, como já havia feito antes. Teria de agir sozinho para nossa própria proteção e porque não poderia dividir esse peso, nem mesmo com meu melhor amigo que sempre me acompanha onde quer que eu vá. Decidi o que haveria de ser feito, remoldado, criado, consertado e o fiz, passando minha língua por todo o seu corpo, fechando as feridas, desmarcando as áreas marcadas, desfazendo o mal. Em poucos minutos o corpo havia sido completamente reabilitado e não havia mais um vestígio sequer da violência. Porém, sua alma continuava reclusa em algum canto escuro onde não pretendia sair. Precisei então invadir sua alma, com uma pequena palavra eu abri seu coração e sua mente e entrei, vendo tudo o que havia acontecido, seu passado, seu presente, seu futuro, suas intenções. Tudo o que eu deveria ter evitado eu precisei enfrentar para consertar aquela criatura. Desci até esse canto encoberto e o peguei pela mão, trazendo-o de volta à luz, desfazendo memórias e medos. Assim ele voltou a si, ainda debilitado pela intensidade mas já fora de risco e então pedi para que os outros entrassem novamente e se portassem a cuidar dele, mas que não havia com o que se preocupar e eu não poderia fazer nada mais – ou melhor – do que havia já feito. Percebi nesse momento que havia me exposto e que, consertando a peça quebrada, eu jamais teria meu amor novamente e, ao mesmo tempo, percebi o quanto ele amadureceu e aprendeu. Lógico, essa depressão instalada em mim precisaria ser sanada brevemente. Deixei-os todos com o paciente e sequer perceberam quando eu sai.

Havia em mim ainda a raiva por ter sido fraco, complacente com aquilo tudo. Teria sido eu o salvador de uma nova vida e o destruidor da minha própria, eu havia sido meu maior inimigo mais uma vez. Toda aquela fúria havia se instalado em mim e a dor era semelhante à própria instauração de Virgo e pensei haver somente uma maneira de desprender tudo: vingança, morte, sangue. Foi o que fiz, aproveitando-me das memórias que eu havia retirado daquela pequena criatura, persegui aqueles que o deixaram entre a vida e eu. Não muito longe dali os encontrei, se gabando de terem elevado um nível em sua humanidade.

Criaturas ainda mais débeis, belicosas, superficiais, imundas. Havia quatro deles, sentados no capô de um carro moderno, conversando e bebendo algo sujo. Nenhum deles teve tempo suficiente para saber o que aconteceu. Como um raio eu desci, despedaçando o chão, o carro, um deles que estava mais próximo. Os outros perceberam tarde demais o fogo em meus olhos e quando um deles se apressou em correr, interceptado foi por mim, esmagando sua cabeça com uma de minhas mãos. Dois haviam partido, o terceiro ousou sacar uma arma de fogo e o medo instalou-se nele quando notou que não havia efeito em mim aqueles projéteis. Esse eu queimei, da cabeça aos pés, com apenas uma palavra também. Não somos feitos de Fogo e Tempestade à toa, afinal. Então sobrara um, o líder aparente deles, com o qual eu me diverti por sua fragilidade, fazendo-o sofrer da mesma maneira que havia feito o outro sofrer ou talvez mais, porque minhas mãos afligiam também sua alma. Tenho a mais absoluta certeza de que esse sofreu, e tanto, que os anjos devem ter tapado os olhos e ouvidos para não verem-no ou ouvirem-no berrar, tamanha era minha audácia. Percebi que não ali muito distante, dois anjos observavam a cena, com um misto de pavor e curiosidade mas isso não vem ao caso agora. O importante é que o jovem estava curado, não guardara memórias sobre o que havia acontecido, seus entes estavam agradecidos por sua cura e meu amor, bom, meu amor não se importou em como eu estaria naquele momento. A vingança havia sido concretizada, ainda que não pedida e assim eu me acalmei um pouco, o suficiente apenas para poder chegar em casa e terminar minha noite.





"Ama-se a vitória difícil, porque a derrota lhe preenchia quase todo o espaço possível. E foi com o que restava que se venceu em todo ele." Vergílio Ferreira
"Em uma grande vitória, o que existe de melhor, é que ela tira do vencedor o receio de uma derrota." Friedrich Nietzsche


11.06.2013

“Reticenticidades”


Palavras são correntes, você não pode escapar delas. Uma vez ditas, não podem ser recolhidas. Uma vez ditas, se tornarão verdade, quer queira ou não. Conhecimentos aprendidos, mesmo que em locais improváveis, se mostram eficazes e duradouros, além de edificantes. Eis que o passado retorna, o futuro não deixa brechas para um recomeço. Penso nas decisões, enquanto me delicio ouvindo Azam Ali e sua voz etérea, sem, por isso, deixar de ser marcante. Não são músicas para serem ouvidas com os ouvidos e sim com o coração, são para serem sentidas.

Penso em escrever nova carta ao meu amigo mas não sei bem o que dizer. Não posso dizer que muita coisa mudou, que estou sendo amado, que estou amando outra pessoa. Não posso discorrer sobre meu progresso, quer seja no mundo material ou espiritual. Mesmo que as coisas andem estagnadas, não significa que seja uma coisa boa. Também não posso dizer a ele que estou tentando mudar, não pretendo mentir. Posso dizer que aprendi sobre as palavras, sobre as decisões que tomamos em nossas existências, as companhias que tomamos como nossas, o que nos reflete neste e nos outros mundos, no que entregamos a alguém quando somos sinceros e dizer o que aprendi sobre retaliação e retorno. É, posso dizer que tenho aprendido bastante mesmo com meu silêncio profundo. Talvez seja bom dizer que minha alma, pela inabilidade e inaptidão ao mundo real, pode ser considerada apaziguada. Não acontece nada de bom nem de ruim, logo, nada acontece, logo, isso deve ser uma coisa boa. Posso dizer também que estou pensando em rever minhas últimas decisões, sobre quem amava e quem prometera amar e ainda poderia incluir o porquê dessas colocações – claro, sem lhe parecer pedante como de costume pois também notei que o pedantismo cai melhor nas pessoas pobres e fracas de espirito, não em deuses. Contar-lhe-ei que conheci novos poetas, novas canções, novos sentimentos (que não pretendo usá-los), novas receitas e a importância do que eu falo, para algumas pessoas em particular. Talvez até deva-lhe isso. Devo muita coisa.

A estagnação tem sua maneira positiva de dizer que você está caminhando para uma construção melhor, visto que, como diz o ditado “não se mexe em time que está ganhando”. Fora isso, nada muda. Nada nunca muda a não ser quando há um incentivo. É uma conjunção de Leis Físicas, Mentais, Espirituais, Cármicas e Pessoais.

Ou não devo dizer nada e guardar para mim estas desnecessárias experiências.

11.02.2013

Dia Dois - Sonhos


Estávamos meu avô e eu, o que eu perdi há aproximadamente nove anos, sentados em um sofá. Ambos ríamos, ele me contava algo, parecia quarenta anos mais jovem (ele falecera aos setenta e seis anos de idade). Acordei com meu terço de prata embolado na mão esquerda, sem saber como ele fora parar lá.


Havia uma grande sombra negra, alada, seis pares se não me engano, bem defronte a mi. Elevada, a uns seis pés de altura, enorme, exaltada, ameaçadoramente infringindo em mim, medos. Por um instante eu cedi e encolhi, mas, recobrei minha essência e ascendi à mesma altura, desgarrei meus trinta e seis pares de asas cobertas de olhos e encarei a sombra. Ela não parecia tão assustadora neste momento. Ela vergou suas asas, como uma concha e se tornou etérea. Eu a assombrei quando verguei as minhas ao máximo e por um instante parecia que do espaço se veria a sombra que eu causei graças a este esforço. A sombra se fora, eu retornei a mim.

Despertei.


Estava em um campo aberto, com o chão coberto de barro e lama, uma dama loura, alta e elegante falava comigo sobre alguém ao mesmo tempo que me encarava e intimidava. Era a Morte. Não a figura da morte, encapuzada e esquelética. Era a Lady Morte, a que fora criada pela mão dEle, antes de tudo. Ela portava uma foice de cabo preto e lâmina prato-cristalizada, falava comigo no nosso antigo idioma e não me ameaçava diretamente. Falava comigo sobre um homem – que supondo eu deveria conhecer – e aconselhava-me sobre ele. Recordo do nome mas não crio expectativa de saber quem é, o único homônimo que conheci jaz há alguns anos e era um dos meus melhores amigos nesta vida. Lembro que num acesso dela, por eu não reconhecer, decidiu um duelo. Ela com sua foice, eu com uma extremamente semelhante, como uma sombra, apenas sem o brilho e a magnitude da que ela própria portava.

Ela estancou para cima de mim, desviei, ela sorriu. Dissera algo sobre eu não haver mudado muito desde “aquela época”. Novo ataque, novo recuo meu, nossas foices se encontraram e o ruído abriu uma tormenta no chão de barro e lama. Ela, se aproveitando da distração, se mesclou à sombra, no chão e tentava me imobilizar. Ciente e destro, usei o bico da lâmina prato-fosca da minha foice para pregar aquela sombra ao chão e foi onde eu venci. Selei sua sombra, com a ponta da lâmina.

Não havia mais foice, a Lady estava defronte a mim, sorrindo, me incitando a recordar do nome e fazendo uma reverência como quem termina um duelo.


Estava com uma vassoura em mãos, percorrendo meu apartamento novo. Não recordo se a vassoura estava fazendo o seu trabalho, mas havia uma quantidade de insetos razoável.

Acordei perturbado.


Dia Um - Sonhos



Era um momento especial. Havia ele, havia eu, havia uma câmera de fotografias, havia uma intenção além do que o romantismo seria capaz de conceber. O romantismo deste insignificante ser, conscientemente falando, afinal quem troca o próprio coração por um pedaço de pão velho e meio copo de vodca não estaria habilitado a compreender. Bem, psicanálise e terapia de autoconhecimento a parte, era um belíssimo sonho. Durou pouco, o bastante para ouvir (e sentir):

- Cola aqui.

E nos aproximamos, eu sobressaltado pela ideia, ele a par do que pretendia. Neste momento, ele me beijou e havia sorrisos entre os lábios colados.

Com a voz entrecortada:

- O que você está fazendo?

Sons de cliques da câmera sendo disparada.

- Tirando fotos, registrando o momento. Tirarei quarenta fotos e postarei todas, em todas as redes sociais. Assim, as pessoas verão o quanto eu amo você, não pela quantidade de fotos, mas pelo ato simbólico.

Tiramos as quarenta fotos nos beijando. Eu acordei. 


 


Éramos em quatro: ele, eu, um rapaz mais novo e uma menina. Conversando e decidindo como chegaríamos (não sei onde) e definimos que iríamos a menina e eu, em uma moto, ele e o rapaz, em outra. Provavelmente apenas nós dois sabíamos pilotar. Em um átimo de segundo, por estarmos em um campo aberto, uma abelha ferroou o rapaz mais novo. Ele ignorou até então, montamos às motos e partimos. A viagem durou cerca de vinte ou trinta minutos, durante o caminho, o ferrão da abelha preso ao corpo gerou uma reação anafilática no jovem que não poderíamos prever. Uma intensa reação, ele chocou, eu não teria como saber ou ajudar, não pude observar o prurido do ferrão e estávamos em motos diferentes.

No dia seguinte foi o velório dele, estávamos todos.

Acordei sobressaltado deste sonho.


10.15.2013

Angels - The XX



Light reflects from your shadow
It is more than I thought could exist
You move through the room
Like breathing was easy
If someone believed me

They would be as in love with you as I am
They would be as in love with you as I am
They would be as in love with you as I am
They would be in love, love, love...

And everyday
I'm learning about you
The things that no one else sees
And the end comes to soon
Like dreaming of angels
And leaving without them
And leaving without them

Being as in love with you as I am
Being as in love with you as I am
Being as in love with you as I am
Being as in love , love, love...

Love, love, love...
Love, love, love...

And with words unspoken
A silent devotion
I know you know what I mean
And the end is unknown
But I think I'm ready
As long as you're with me

Being as in love with you as I am
Being as in love with you as I am
Being as in love with you as I am
Being as in love , love, love.


9.28.2013

A Síndrome do coração partido existe sim


Bukowski tinha razão quando disse:
"
... E quando o amor veio a nós pela segunda vez
E mentiu para nós pela segunda vez,
Decidimos nunca mais amar novamente.
Isso era justo,
Justo com a gente
E justo com o amor mesmo."

É a lei absoluta de todo o amor não correspondido, quando uma dama dá espaço à outra, a primeira se vai. Logo, a segunda está disposta a te/se destruir também. 

Havia uma última esperança para mim, uma última tentativa, uma última iniciativa e esta também declinou vertiginosamente num penhasco lúgubre, tal qual o que espera cá embaixo é a mesma deformidade emocional do que a que o dispensou lá acima. Mais uma alma perdida, tocada pela mão do demônio - que acá se revela - e, portanto, mais um pecado a manchar a estirpe. 

Outra vez o caminho do Oeste não parece tão acolhedor mas será o buscado.


9.15.2013

I see my destiny - Rak Haeng Siam - The Love of Siam


- It's like when we were younger, we were so lonely because we didn't have a lot friends. And now that we are grown up, loneliness seems just so much worse.

- Why is it so bad for you?

- I don't know how to explain it. It started during the summer when i was in 8th grade.
...
- So i have one question: if we can love someone so much how will we be able to handle it the one day when we are separated? And, if being separated is a part of life, and you know about separation well, is it possible that we can love someone and never be afraid of losing them? At the same time, i was also wondering, is it possible that, we can live our entire life without loving anyone at all? That's my loneliness.

+++

- É como quando éramos jovens, éramos tão sós porque não havia um monte de amigos. E agora que estamos crescidos, a solidão parece ainda pior.

- Por que é tão ruim para você?

- Eu não sei como explicar isso. Tudo começou durante o verão, quando eu estava na 8 ª série.
...
- Então, eu tenho uma pergunta: se podemos amar tanto alguém como seremos capazes de lidar com isso um dia, quando estivermos separados? E, se a separação é uma parte da vida, e se você entende bem sobre separação, é possível que possamos amar alguém e nunca ter medo de perdê-lo? Ao mesmo tempo, eu também queria saber, é possível que possamos viver toda a nossa vida sem amar ninguém, afinal? Essa é a minha solidão.



Mew - The Love of Siam - Rak Haeng Siam
Chookiat Sakveerakul

9.02.2013

Dá-lhes a eles, o valor deles

 
Noite.
Calidamente mudando os ventos, chuvas por virem breve.

Setembro, 2013.
Estava eu, apenas sendo eu mesmo, após uma série de ocorrências de desestímulo emocional e orgânico, sentado em minha poltrona favorita, ouvindo toda a coleção de R&B que eu achei ter esquecido depois de 1990 - entre as joias, Simone, Franklin, Fitzgerald, James e conterrâneos. Tomei meu telefone e disquei, parte subconscientemente, para minha irmã. Ela atendeu do outro lado:

(Pallas) - Tava preocupada, você não dá notícias desde cedo.
(L.) - Você bem sabe que têm sido dias difíceis.
(Pallas) - Eu sei. Pode vir. Não contei, Ingrip colocou ovos depois deste tempo todo, acredita? Pode vir, apenas ela está aqui.
(Eu) - indo.

Telefone, chaves do carro, chaves do apartamento.
Durante todo o pequeno trajeto pensei no que me ocorrera nas últimas vinte e quatro horas e estava, enumerando os acontecimentos para maior fluidez ao falar. Doze, talvez quatorze, minutos depois lá estava eu. Numa interseção de dois mundos, batendo à porta da minha irmã mais ouvinte e protetora.

(Pallas) - Oi.
(Eu) - Kaliçpéra. Esqueceu os bons modos, Pallas?
(Pallas) - Não é porque você é mais velho que pensa que pode me corrigir, n'ai?
(Risos)
(Eu) - É bom te ver novamente.
(Pallas) - Verdade, entra.

Pallas era minha adorada desde sempre, minha alma gêmea mesmo sendo minha irmã. Uma querida que ajudei a surgir e desde então nos adaptamos um ao outro. Tínhamos gostos semelhantes, logo, não era difícil. O que nos diferenciava porém era a necessidade dela por ser vista enquanto eu optava por permanecer incógnito.

(Pallas) - Tu quer um chá? Não tem mais daquele que você gosta, mas tenho Earls e Ceilão. Ah, e um novo que ela trouxe dia destes, desde que veio ficar comigo este tempo. Já estamos na época? Aliróthe! Como passa.

(Eu) - Me dá qualquer coisa de beber ai, eu preferia alcoólico.
(Pallas) - Ambos sabemos que você não pode, abusado.
(Eu) - Eu sei, você não sabe de nada.
(Risos)
(Eu) - Vai este novo ai mesmo, vontade de provar coisas novas esta noite.
(Pallas) - N'ai. Senta lá na sua azul. Ainda está lá pra você e ninguém mais se senta nela.
(Eu) - Puxa, Pal. Não acredito que você ainda mantém aquela porcaria velha.

Minha poltrona favorita desde sempre, azul, com bordados de grandes feitos históricos muito antigos. Me sentei e me confortei com anos de bondade e alívio. Fiquei apenas um instante, ao me recordar, fui parabenizar Ingrip pelos ovos. 

(Eu) - Até que enfim, Ingrip. Achávamos que você nunca mais ia se decidir.

Falei para mim mesmo, a coruja apenas me contemplou e assentiu, como se entendesse. Bem, ela entendia mesmo.

(Eu) - E dois desta vez? Tem certeza disso?

Parei no momento em que minha irmã vinha com duas xícaras, torrões de açúcar mascavo e uma pequena jarra de creme de leite cremoso, numa bandeja antiga, com logicamente nosso chá.

(Eu) - Acredito que você já esteja ciente do que está acontecendo.
(Pallas) - Sim, mas preferia que você me contasse. Duas pessoas, ainda que no mesmo lugar, ao mesmo tempo, nunca contarão a mesma história da mesma maneira. É fascinante ouvir as versões. E você sabe, ela não fala muito. Só chora e bebe chá, desde que chegou.
(Eu) - Acha que devemos falar com ela?
(Pallas) - Não, melhor não. Deixe-a ruminar mais um pouco.
(Eu) - Mas Pallas, já faz milhares de milhares de anos.
(Pallas) - Você sabe bem, irmão, como dói. Graças que eu nunca passei por isso.
(Eu) - Nunca? Tem certeza?
(Risos)

Nos sentamos na varanda, noite fresca, lua boa para conversar. Eu, na minha poltrona favorita desde sempre. Minha irmã na dela, um pouco mais moderna e bruta do que a minha, com a mesa de chá entre a gente.

(Eu) - Bem, mais cedo eu passei por algumas "chatices humanas", como você chama.
(Pallas) - Tu ainda se porta a isso? Achei que depois daquele dia você estivesse fora de novo.
(Eu) - Nada, menina, é interessante e deveras intrigante. Não venha me dizer que está fora disso também, por favor.
(Pallas) - Bem, você que sabe. E ai a revista...
(Eu) - Sim, a revista. Ou você fala sozinha ou me deixa falar, ainda não perdeu este hábito?
(Pallas) - E tu ainda não perdeu o hábito de ser estressadinho? Estamos quites.
(Eu) - Então, a revista. Eu estava lá, do nada, esperando o atendimento e peguei aquela revista para passar o tempo. Uma destas que você adora ler e que eu passo longe.
(Pallas) - "Meninas com coisas de meninas". Parece que é um costume que você também não perdeu.
(Eu) - Posso continuar? Então. Peguei a revista e, folheando ocasionalmente, adivinha quem eu encontro lá? Estampado? Numa propaganda de roupa masculina de praia? Espera, não adivinha. Ele mesmo.
(Pallas) - Então ele está indo de vento em popa? Que bom hein.

E então ela fez aquela cara de que não dava a mínima, para me proteger afinal, ela sabe o quanto eu sofri e por conseguinte ela, pelo que aconteceu. Tentando não demonstrar interesse, para me poupar.

(Eu) - Pois é, Pal. Parece que sim. Fico feliz.
(Pallas) - Que seja.
(Eu) - E, como sempre, acabei causando uma infelicidade que me acompanhou durante o dia e o motivo da minha vinda aqui.
(Pallas) - Irmão, tu és meu irmão. Não é filho do meu pai ou da minha mãe, nem cria dos meus avós, mas é meu irmão desde que eu cheguei aqui, do Oceano. Tu fora meu amigo, meu companheiro, meu mentor, meu instrutor e meu salvador por várias vezes. Tu nunca precisa de motivos para vir me ver, mas por tua distância prefere não fazê-lo.
(Eu) - Pal, eu sei. Posso continuar e você voltar aos tempos modernos, efcharistó?
(Risos)
(Eu) - Continuando. Vi a foto dele e notei que ele não mudou nada. NADA, desde o acontecido. Fiquei tanto com aquilo na mente que acabou não sendo surpresa quando meu celular tocou e era ele. Diz ele que "me ouviu chamando" - claro, era verdade - mas eu não daria opção. Conversamos alguns instantes poucos a ponto apenas de me reiterar com o que acontecia, elogiar pelos trabalhos recentes, ele dizer que havia voltado para o pais há uma semana e que estava pensando em me convidar para um jantar informal, nada demais, com os pais, como fazíamos antes, pelos velhos momentos. Recusei de cara - e me arrependi.
(Pallas) - Nem acredito que você atendeu ao celular.
(Eu) - Não me julgue, apenas me ouça.
(Pallas) - Eu achei que você queria seguir em frente, irmão. Tu já não está seguindo? Não tem uma coisa nova?
(Eu) - Coisa não, um homem. Sim, tem.
(Pallas) - Também humano, eu sei.
(Eu) - Não me julgue, eu disse. Você além de velha está surda?
(Pallas) - E você além de velho está burro.
(Risos)

Tempo de beber mais uma xícara de chá, um gosto exótico, abacaxi com alguma coisa.

(Eu) - Bom, ai conversamos mais alguns instantes e eu acabei dizendo que sim. Ia encontrá-lo breve. Ele perguntou de você também.
(Pallas) - Aliróthe, culpa sua. Eu disse que era melhor esquecer tudo.
(Eu) - Nada, ouve ai. Terminamos de falar, eu fui atendido, fiz uns exames, chegamos à uma conclusão e acabei lá por mais um tempo, tomando algumas poções.
(Pallas) - Tu ainda realmente se sujeita a isso, não? Cada ano passa e você está mais imerso nisso tudo, não sei nem se o verei no próximo milênio se continuar como está. Quando é que você vai parar de viver na sua cabeça?

Havia uma complacência na sua voz, uma condescendência que eu não esperava. Minha irmã estava realmente preocupada comigo e à nossa maneira de falar, ela descobriu como eu mesmo me causava tanto mal. Tive de admitir.

(Eu) - Falei com ele, irmã, apenas. E o suficiente para que os anos viessem todos a mim de uma vez.
(Silêncio)

Durante cerca de meia hora apenas bebemos nosso chá, calmamente, sem uma palavra. Apenas ouvia-se o piado de Ingrip, orgulhosa da cria, mais nada. E então, Pallas recomeçou:

(Pallas) - Falaram e então vão se ver?
(Eu) - N'ai. No próximo final de semana. Preferi não dizer onde estava na hora da ligação e nem citei que estava mal das vísceras, apenas deixei o assunto de anos fluir.
(Pallas) - Entendo. E quais seus planos? Esquecer da coisa que está vivendo e voltar como se nada tivesse acontecido? Mais uma vez? Depois de tudo que passamos?
(Eu) - Não. Não sei... Não sei.

Verdade que eu não sabia como me sentia após aquela conversa. Notei que nunca pensei muito no que aconteceu, apenas segui adiante. Sofri bastante na época e não posso dizer que porque era uma criança, nunca pude ser uma criança. O que talvez eu tenha sentido foi remorso, pelo que matei em mim quando vivemos juntos e quando infelizmente tive de deixar de viver. Fiz muitas coisas na minha existência de não me arrependo, a não ser aqui. É uma longa história.

(Eu) - Por isso vim até você, querendo ajuda.
(Pallas) - Não posso tomar a decisão por você, sabe bem.
(Eu) - Mas é você quem governa a inteligência, não?
(Pallas) - Inteligência, não decisões. Posso mostrar o que será melhor mas não decidir por você. Nunca pude. Ainda mais com você, que é infinitamente mais velho que eu. Não confunda, irmão.
(Eu) - Eu sei, Pal. Era apenas brincadeira. Parece que sua seriedade também precisa ser trabalhada. E depois eu sou o antissocial.
(Risos)

Neste momento, nossa irmã acabou se aproximando.

(Art) - Tu, aqui?
(Eu) - Hei. Como você está? Não quis incomodar.
(Art) - Pal, por que não me chamou?

E me abraçou carinhosamente. Ainda havia lágrimas aos olhos e seu cabelo exalava tristeza e apreensão.

(Art) - Já entendi. Parece que, tirando esta daí (se referindo à Pallas) parece que nós temos o mau hábito de sofrer por amor.
(Pallas) - Hei.

Todos rimos, afinal.

(Eu) - Junte-se a nós, irmã. Estamos tomando um chá e conversando aleatoriedades.
(Art) - Não me diga, ele de novo?
(Eu) - Sim, ele.
(Art) - Pal, sirva-me. Ainda sou mais velha que você, mesmo não sendo a mais velha da sala.
(Pallas) - Se idade fosse posto...

Todos tomamos chá no fim, acabei adormecendo na minha poltrona, sonhando com acontecimentos antigos. Acordei no meio da madrugada, apenas para perceber - e me emocionar - que estávamos os três adormecidos, cada qual no seu “reino", como era antes do novo mundo. Levantei-me, cobri ambas em suas poltronas, peguei as chaves do carro e do apartamento e voltei. Não sem antes deixar uma mensagem que dizia apenas obrigado, para as duas. Sentia-me mais leve, disposto, determinado e corajoso. Havia deixado minha armadura silenciosa por lá mesmo, porém, mal sabia eu o que ainda estava por vir.

Quando a filosofia pinta cinza sobre o grisalho,
uma forma de vida já envelheceu e, com o cinza
sobre cinza não se pode rejuvenescer, apenas reconhecer;
A coruja de Minerva alça seu voo.

Magia
Presságios
Espaço e tempo.
A verdade emergira
Da luta silenciosa
Dissipando a ilusão?
Pássaro da Cura Sagrada
.
 
Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1830)



 

7.19.2013

Quadragésima sétima epístola de Lean aos espectadores



Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente. // William Shakespeare


Havia um tempo em que memórias não me afetavam tanto, como hoje. Havia um tempo, além do tempo, em que os sentimentos também não. Não havia um vazio, mesmo que possa parecer. Porém, de tempos em tempos, algo transborda. Algo traz à tona aquelas pequenas e grandes sensações que enervam, engrandecem, aliviam, decidem e temperam o fulgor contrário com que a vida vem sendo vivida. Aconteceu na última noite e durante o decorrer.

Ao começar a ouvir a música, um estopim disparou e começaram então as visões há tanto esquecidas. Do tempo em que só havia o Verbo, meus irmãos, o que veio a seguir, os homens, os filhos dos homens, o que os filhos dos homens criaram e assim por conseguinte. Comecei a me recordar de todo e cada amor que eu já pude viver, de todas as eras. Desde então notei que não é tarde para recomeçar.

Apenas, ainda com os fones de ouvido, me dirigi à cozinha, peguei um copo de água e me sentei no chão gelado. Fiquei em êxtase e desnorteado com a intensidade que as lembranças vinham a mim, tanto que mal pude caminhar. Sentado, apenas, ouvindo, pude organizar. Lembrei do primeiro homem que amei – tão jovem, bonito e terno – e de quando e como o conheci. Lembrei de como ele se foi também – de forma tão trágica – e eu não pude fazer nada. Lembrei de como o segundo amor veio, na forma de uma jovem, descendente deste primeiro e de como também ela partiu. Lembrei dos outros que vieram depois deles, e os de depois e os de depois de depois. Para este momento, não havia decidido ainda participar do mundo humano, apenas os amava à distância.

E então, muitos séculos após este começo, surgiu outro homem. Com um nascimento perfeito e imaculado e decidi cortejá-lo. Fomos felizes durante setecentos e cinquenta e nove anos quando, por infelicidade nossa, acabei convocado de volta aos serviços – sem opção, apenas forçado a fazê-lo. Estive presente quando ele partiu deste mundo mas fomos impedidos de nos vermos no outro. Começa aqui então meu desencanto.

Mais alguns séculos e ela aparece para mim como uma fada nascida de uma campo de orquídeas celestes. Novamente insisti e então fomos felizes, até que ela se foi, inocente, nos meus braços, que continuavam os mesmos desde que nos conhecemos, cerca de oitenta anos antes. Como eram outros tempos, acabei pedindo a ela algo que nos dias de hoje seria impensável: prole. Adendo, eu não posso procriar. Decidimos então que a criança seria dela com um homem bem intencionado e assim se fez, com alguma manipulação por minha parte (e dor). Era uma menina linda, com a beleza da mãe e então dei a ela meus olhos. Eu a eduquei, criei, alimentei e ensinei sobre os mistérios deste e do outro mundo, após a morte precoce de sua mãe e minha companheira. Logo, o tempo deu seu salto mais uma vez e minha menina se casou com um homem também bem intencionado e me deu netos, dois casais. Ainda nesta época eles viviam comigo. Logo eu acabei os deixando pela sua privacidade e porque havia um estranho rumor sobre uma nova ordem. Minha menina guardara meus olhos com ela, durante todo este tempo. Outro salto de tempo e ela envelhecera, perdera seu companheiro durante a vida e chegava ao fim da sua própria. Por ser unicamente humana, não havia o que eu podia fazer. Quando então, numa noite triste e lamentável, ela devolvera meus olhos e fechara os seus, para sempre. Chorei durante anos a fio e comecei a perder o contato com meus netos. Passei a acompanha-los de longe, sem interferir e então a vida deles também seguiu. E findou. E depois deles mais. Durante todo este tempo. Cerca de uma milhar de anos depois o contato já era menor e eu novamente convocado acabei me ausentando.

Foi quando decidi por não compartilhar mais o mundo humano e então adormeci, esperando o Fim-de-Tudo.

Muita coisa acontecera desde então, civilizações nasceram e morreram, mundos e continentes idem. Minha grande família despertou e eu ainda sei onde estão, agora bem dispersos. Ainda nos tempos antigos, acabei acordando e, numa tentativa fútil e tola de me adequar, voltei ao mundo humano. Amei novamente, perdi novamente.

Havia algo diferente, eu não era mais preocupado. Era ausente, indiferente, conhecia o protocolo e isso não me afetava. Tive inúmeros amores, amados e amantes. Nunca ousei gerar e cuidar de outra criança. Cada um vivendo menos, conforme o tempo progredia os humanos perderam a essência da vida. No passado, era comum chegarem à idades muito avançadas, isso teve um declínio. E quando acontecia, eu simplesmente lamentava e seguia adiante. Por muitas vidas a fio. E então, decidi parar e adormecer, desta vez sem nenhum pesadelo ou grande descoberta. E então o Messiach veio e com ele meu novo amor. Como eu era apaixonado por ele. Ele sofreu e eu não pude ajudar ou interromper, isso me dilacerou e foi quando decidi abdicar. Cai. Adormeci, desta vez com a maior tristeza que pude até hoje sentir na carne então, já que agora não sou mais exatamente como antes.

Sofri e continuo sofrendo, será eterno, pelas minhas decisões.

Foram doze mil oitocentos e quarenta e seis amores até este momento. Nenhum mais ou menos amado. Todos amados com a minha essência, a minha carne, minha divindade, minhas asas. E simplesmente me lembrei de todos eles na noite passada, pensando como todos eram frágeis, como todos se foram, como puderam me deixar e como eu simplesmente estou vazio por tantas perdas.

Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te. // William Shakespeare


6.23.2013

Conceito do Príncipe Encantado que é desprezado por ser encantado demais e não palpável, ou sim


De tempos em tempos, me pego pensando - na verdade cogitando e alucinando - se os príncipes dos contos de fadas são realmente tão absurdos assim. Vejamos: o cara educado, digno, honrado, bonito, esperto, dedicado, sagaz, bravo, heroico e apaixonado. Posso me enquadrar em ao menos seis das dez características vitais de um príncipe encantado. Interessante. Pensando bem, o vilão é sempre a soma das qualidades do herói com mais beleza, apreciação da vida e maldade. Neste caso, somaria estas virtudes às minhas seis já definidas.

Fico alucinando se não é talvez este o motivo da minha evidente distinção do mundo dos romances e deleites emocionais. Fato que não compartilho com interesses em amor, paixão, matrimônio, porém acredito que uma companhia é sempre bem-vinda. Dada a condição atual, urgente eu diria.

O mais vibrante é que, justamente por desejarem príncipes em suas vidas, homens e mulheres os afastam quando se dão conta do presente que recebem. O ser humano em si é dado a não aceitar ofertas maiores do que se julgam, tem sido assim desde os primórdios da banalidade casamenteira. Vejamos que, até nos dias de hoje, ouvimos de bocas infundadas expressões como "homem bonito sempre trai", "mulher bonita é sinônimo de traição", "não quero um homem bonito demais porque atrai olhares desejosos" e afins. É concernente à romântica humanidade contentar-se com o que tem e, em dados casos, abstrair-se do que poderia ser melhor pela iminente sensação de perda precoce.

É brutal como isso afeta algumas pessoas. Não foi uma ou duas vezes que eu mesmo, em minha juventude, ouvira alguma destas expressões. Não uma ou duas vezes também eu fui rejeitado (?!) por estes motivos. É uma arbitrariedade pois, se um homem é bonito não pode ser inteligente. Se é inteligente não espera-se beleza. Se é inteligente e bonito, não pode ser rico. Se é inteligente, bonito e rico não quer nada com a vida. Se é inteligente, bonito, rico e compromissado, bom, ai não pode ser tocado por mão humana neste mundo e deve padecer numa solidão ímpar pela desconfiança geral da população na idade sexualmente ativa. Eis a verdade do que sucede no meu momento. Longe de ser falso-modesto, inclusive. (Ah sim, um adendo: quando é inteligente, bonito, rico e compromissado as mulheres automaticamente deduzem que ele seja homossexual - na maioria das vezes estão certas)

Não consigo contar nas mãos as vezes que ouvi um arrependimento de algum(a) envolvido(a) neste fato, para comigo. Recentemente inclusive. Eles e elas tendem à ignorar ou testar, paradoxalmente, o afeto para então definir sua sinceridade e apreço. Apenas esquecem que, como qualquer outro homem (tolo, feio, pobre e fútil) ele pode se cansar deste jogo e cair fora do embaraço. Simples assim. O resultado do teste pode ser desastroso, geralmente para a parte que testa. Uma vida que segue, em busca de outras vidas que seguem e se encontrar uma que segue o mesmo rumo, que sigam juntas.

Credibilidade é nos dias de hoje algo difícil de se achar. De cultivar e florescer também. As pessoas parecem que optaram por se tornarem descartáveis e desta forma se rejubilarem de evitar a dor do compromisso e entrega. Loucura e insanidade, sabemos, mas é uma opção unânime.

Enquanto divagam sobre este assunto, "bons partidos" vão se perdendo e os príncipes - tão queridos na infância - se entregando à leviandade por falta de opção ou pior, à introspecção forçada.