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3.02.2014

Eis que eu preciso passar por cima de mim mesmo, por cima de meu amor próprio


Num delicioso crepúsculo de um dia que havia sido agradável, algo se movimentava no ar de maneira a querer demonstrar que eu deveria me preparar. Logo, seria convocado e precisaria exercer minha autoridade. Bom, havia muito que eu esperava esta oportunidade mais uma vez.

Lembro bem de já estar ciente quando meu celular notificou uma mensagem de texto dizendo somente “SOCORRO”. Não era um número conhecido mas eu sabia a quem pertencia. Era alguém a quem eu havia oferecido meu coração, muito tempo antes e que agora já não me pertencia mais. Alguém que eu realmente amava e que agora disporia de outro em sua cama, sua vida, sua essência, sua compreensão, sua cumplicidade, sua admiração e seu amor. Eu precisava aprender a lidar com isso ainda. A mensagem pedia socorro mas eu sabia que não era pra ele, diretamente. Há muito também eu havia criado o alfabeto simpático e dessa maneira, saber o que estava passando desde a saúde à atividade emocional desse ser. Me despi e me marquei, deixando assim indelével em mim sua magnitude. Tratei de responder à mensagem com um “Já estou indo, aguarde-me defronte ao portão de sua casa. Sei o que se passa”. E sabia, por isso ele me convocara em ajuda.

Esse seu novo consorte havia sido vítima de um incidente brutal, violento, nas ruas. Havia sido ferido por sua opção e seu meio de vida, depredada a sua dignidade, marcado seu corpo e fundamentalmente sua alma dilacerada havia sido a pior parte. Ele havia sido encontrado violentado, agredido e semiconsciente e no âmbito da sua pouca razão, pedia socorro com seus olhos encharcados de sangue. Como havia sido encontrado pelo seu próprio amante, meu outrora, a única opção seria evocar esse mal – que vos escreve – para ajudar. Médicos curariam as feridas externas, gradualmente, disso sabemos. Porém, tanto ele quanto todos – e aparentemente seu novo consorte – sabiam que eu poderia mais. Talvez minha reputação me precedesse indistintamente. Bem, eis que ele havia sido levado até à casa de meu precioso amor e lá estavam todos, a aguardar. Nesse ínterim de ler a mensagem e responder, eu já me preparava para ter com eles. Um caminho que naturalmente levaria uma hora eu faço em dois minutos, apenas por vaidade, por querer aproveitar sempre da beleza noturna que preenche e desloca. É fascinante perceber que ano após ano, século após século, minhas estrelas continuam imparciais e imóveis levando a crer que somente os que estão aqui embaixo se percebem mudar com o tempo.

Mensagem enviada, pego um casaco, me deixo cair do sexto andar que moro para o chão, diretamente, mas sabendo que antes mesmo de chegar à altura do quinto andar eu já havia ascendido, na mesma velocidade que o vento ganha do tempo na curva. Lá do alto as coisas são vistas como realmente são: pequenas e sujas. Despreocupado durante todo este tempo, eu apenas flutuei até onde deveria e, como sabia que estaria a me aguardar impacientemente onde eu havia mandado, pousei à uma certa distância – segura o suficiente para não ser atormentado. Ele, ao me ver e em seu próprio estado de pranto e dor, conferia sua confiança no olhar e eu me alimentei daquilo como uma seiva dourada da Cidadela Prateada que há muito eu não via. Deixei-me inebriar por aquele aroma, aquela delicadeza, aquela fragilidade, tudo aquilo que outrora fora meu e que agora pertencia a um humano frágil e que dependia da minha benevolência para continuar vivo. Eis a prova da dignidade e condescendência que me sempre é aplicada!

Fomos juntos até o seu quarto, onde repousava um corpo quase dormente de um jovem homem que eu já acompanhei durante uma noite, para observar atitudes e hesitações. Um homem comum, que não era em nada especial a ninguém, nem a si mesmo mas que agora era ao meu amado. Um molde de barro como todos os outros. Barro quebrado que eu, controversamente, precisaria consertar. Era uma lástima vê-lo tão ferido e ensanguentado e mesmo nesse frenesi eu não pensava em outra coisa a não ser em meu amor. Esse pedaço de barro estava realmente machucado em todos os locais que eram alcançáveis pelos olhos, ainda que pelos mais despreparados, mas havia uma falha em sua alma que seria o pior a ser reparado. Havia já uma necessidade de pedir pela morte – como sempre, humanos são fracos o suficiente para desistirem da luta antes mesmo de conhecerem um por cento da dor – algo que eu não permitiria acontecer. Sim, eu desejava me livrar daquilo mas sabia o quanto isso ia magoar aquele que amo. Não há aqui humildade, não, há apenas egoísmo em querê-lo bem e feliz mesmo que para isso precisasse passar por cima de mim mesmo. O amor é algo engraçado, a gente ama mesmo quando não é amado e sabe que, mesmo que não seja retribuído, faria tudo por esse amor. O amor é tolo ou tolos são os que amam?

Pedi que nos deixássemos a sós, apenas aquela peça quebrada e eu, no quarto. No seu nível de consciência eu sabia que poderia agir como quisesse que não seria observado, retaliado ou julgado. Pedi que meu amor nos deixasse também porque não aguentava mais ver o sofrimento estampado naquela bela face que eu beijei tantas vezes pela noite e outras tantas pela manhã. Deitado lá, aquele homem apenas esperava sua vez no trem que sobe aos céus e eu precisaria ser o condutor de volta dele.

Tirei todas as suas roupas – ou o que sobrara delas, farrapos e sangue coagulado – peguei uma pequena compressa que havia ao lado da cama e limpei a testa dele, para remover todos os traços de sujeira que havia ali. Ele ardia e palpitava, além de esforçar para permanecer respirando. Era sim, confesso, uma visão lastimável e ao mesmo tempo belíssima de como compreender a humanidade: um homem quando agride um homem, passa a ser mais homem? Mais poderoso? Mais parecido conosco?

No seu corpo débil havia tanta ferida quanto era possível perceber, ossos quebrados, marcas, manchas, escoriações, sujidade. E mais, em sua alma havia sede de plenitude. Nesse momento percebi e perscrutei que não seria capaz de pedir ajuda para esse feito, como já havia feito antes. Teria de agir sozinho para nossa própria proteção e porque não poderia dividir esse peso, nem mesmo com meu melhor amigo que sempre me acompanha onde quer que eu vá. Decidi o que haveria de ser feito, remoldado, criado, consertado e o fiz, passando minha língua por todo o seu corpo, fechando as feridas, desmarcando as áreas marcadas, desfazendo o mal. Em poucos minutos o corpo havia sido completamente reabilitado e não havia mais um vestígio sequer da violência. Porém, sua alma continuava reclusa em algum canto escuro onde não pretendia sair. Precisei então invadir sua alma, com uma pequena palavra eu abri seu coração e sua mente e entrei, vendo tudo o que havia acontecido, seu passado, seu presente, seu futuro, suas intenções. Tudo o que eu deveria ter evitado eu precisei enfrentar para consertar aquela criatura. Desci até esse canto encoberto e o peguei pela mão, trazendo-o de volta à luz, desfazendo memórias e medos. Assim ele voltou a si, ainda debilitado pela intensidade mas já fora de risco e então pedi para que os outros entrassem novamente e se portassem a cuidar dele, mas que não havia com o que se preocupar e eu não poderia fazer nada mais – ou melhor – do que havia já feito. Percebi nesse momento que havia me exposto e que, consertando a peça quebrada, eu jamais teria meu amor novamente e, ao mesmo tempo, percebi o quanto ele amadureceu e aprendeu. Lógico, essa depressão instalada em mim precisaria ser sanada brevemente. Deixei-os todos com o paciente e sequer perceberam quando eu sai.

Havia em mim ainda a raiva por ter sido fraco, complacente com aquilo tudo. Teria sido eu o salvador de uma nova vida e o destruidor da minha própria, eu havia sido meu maior inimigo mais uma vez. Toda aquela fúria havia se instalado em mim e a dor era semelhante à própria instauração de Virgo e pensei haver somente uma maneira de desprender tudo: vingança, morte, sangue. Foi o que fiz, aproveitando-me das memórias que eu havia retirado daquela pequena criatura, persegui aqueles que o deixaram entre a vida e eu. Não muito longe dali os encontrei, se gabando de terem elevado um nível em sua humanidade.

Criaturas ainda mais débeis, belicosas, superficiais, imundas. Havia quatro deles, sentados no capô de um carro moderno, conversando e bebendo algo sujo. Nenhum deles teve tempo suficiente para saber o que aconteceu. Como um raio eu desci, despedaçando o chão, o carro, um deles que estava mais próximo. Os outros perceberam tarde demais o fogo em meus olhos e quando um deles se apressou em correr, interceptado foi por mim, esmagando sua cabeça com uma de minhas mãos. Dois haviam partido, o terceiro ousou sacar uma arma de fogo e o medo instalou-se nele quando notou que não havia efeito em mim aqueles projéteis. Esse eu queimei, da cabeça aos pés, com apenas uma palavra também. Não somos feitos de Fogo e Tempestade à toa, afinal. Então sobrara um, o líder aparente deles, com o qual eu me diverti por sua fragilidade, fazendo-o sofrer da mesma maneira que havia feito o outro sofrer ou talvez mais, porque minhas mãos afligiam também sua alma. Tenho a mais absoluta certeza de que esse sofreu, e tanto, que os anjos devem ter tapado os olhos e ouvidos para não verem-no ou ouvirem-no berrar, tamanha era minha audácia. Percebi que não ali muito distante, dois anjos observavam a cena, com um misto de pavor e curiosidade mas isso não vem ao caso agora. O importante é que o jovem estava curado, não guardara memórias sobre o que havia acontecido, seus entes estavam agradecidos por sua cura e meu amor, bom, meu amor não se importou em como eu estaria naquele momento. A vingança havia sido concretizada, ainda que não pedida e assim eu me acalmei um pouco, o suficiente apenas para poder chegar em casa e terminar minha noite.





"Ama-se a vitória difícil, porque a derrota lhe preenchia quase todo o espaço possível. E foi com o que restava que se venceu em todo ele." Vergílio Ferreira
"Em uma grande vitória, o que existe de melhor, é que ela tira do vencedor o receio de uma derrota." Friedrich Nietzsche


6.12.2013

Vinho; e a estranha sensação de que não há verdade numa taça e sim hedonisno


Houve um sonho recentemente que envolvia estranhos sentimentos. Perturbados até eu diria. Confesso que a confusão deriva-se da necessidade de consumar algo que ainda não fora, mas que, simultaneamente, sabemos que não devemos. Após uma conversa breve, eis que a permissão para contá-lo havia sido dada. Talvez não o desenhe mais com tanta exatidão, ater-me-ei aos fatos mais interessantes.

Era começo de noite, mas, com uma certa cor crepuscular pareando com o horizonte. Algo belo de se ver, que costumamos esnobar por ser tão efêmero. Havia uma enorme janela colonial de vidros delicados, por onde Nix era aguardada e observada. Do lado de fora, um enorme ipê-roxo exalando seu aroma inebriantemente tóxico, uma relva baixa e um pequeno lago ao fundo. Uma típica casa semelhante àquelas do interior dos países bascos, mas, pela flora identificado como não pertencente aquele local. No interior, móveis singelos, de madeira clara e cheirando a chá de condoendro. Notas músicas saiam pensativas e envergonhadas do aparelho de som, Ingrid Kertesi - a soprando - cantando Händel de forma divina. Sob a janela, no interior, dois homens conversavam, enquanto jogados na cama de lençóis vermelhos e, aparentemente, nus em pelo.

Havia uma intimidade palpável entre eles - não só pela questão de estarem nus, não - que chegava a impressionar. Eles eram amantes mas acima de tudo, amigos. Notava-se pela forma carinhosa que um falava com o outro e como um olhava para o outro. Eram ligados por mais do que apetite e isso era evidente. Após uma pequena afirmação que fez os dois gargalharem, um deles levantou-se da cama e, ainda nu, dirigiu-se até uma pequena mesa marmorizada que havia em um canto, tomando duas taças altas rubras e uma pequena ânfora, encaminhando-se de volta à cama e servindo-os então de vinho, que o outro acabou tomando. Poucos goles e ambos colocaram suas taças no chão, paralelo à cama e então, o que havia permanecido deitado aninhou-se no peito do que havia levantado.

Então a noite caiu por vez toda, cobrindo aquelas terras com seu manto e sua proteção. Não que eles precisassem, mas, deveras belo de se acompanhar.

Após um breve sono, o que estava aninhado deitou um beijo no peito do outro, despertando-o com sua delicadeza. O outro acordou sorrindo e retribuiu o beijo, elevando sua cabeça até sua altura, na cama. Da forma como os amantes fazem, os beijos delicados deram lugar a algo mais sensual, caótico, desesperado e num frenesi inconstante de lábios, línguas e mãos. Logo, o primeiro estava por sobre o corpo do outro, enquanto suas mãos abriam caminho para sua boca, no corpo alheio. Percorrendo cada espaço conhecido e desconhecido, cada pequena dimensão, lascivamente saboreando aquela carne e deliciando-se com aquele cheiro.

Com o limiar da tentação sendo alcançado, o primeiro então colocou o segundo numa posição confortável na cama, deitado com seu dorso apoiado em sua mão, espalmado bem acima do cóccix e o admirava por cima. Admirava seus olhos desejosos, sua boca delineada, sua pequena interrogação marcada no peito. Delicadamente pressionando sua intimidade com a própria e sentindo então a pulsação que deriva de corpos apaixonados. Tomado por aquela necessidade de consumir (então descrita anteriormente), ele suavemente ajeitou seu parceiro, apoiando bem sua sinistra espalmada e com a destra, tateando a coxa rija e exercendo sobre ela uma pressão para ajustá-la à sua recepção tranquila.

Naquela posição, inicialmente, o outro fora possuído, olhos nos olhos. Altercando calma e severidade, gemidos, risos abafados, pedidos, suor e saliva. Então, outras posições foram adotadas e em todas, a intensidade estava presente. Longos momentos se passaram até que, como que magicamente, ambos chegaram juntos ao ápice do prazer e misturaram suas essências. Com menos agitação, postaram-se um ao lado do outro e então sorriram, como se esperassem por aquele momento já há algum tempo. Tomaram mais de suas taças e se preparam para a longa noite que ainda estava por vir.

Provavelmente, esqueci-me de algum fato. Essencialmente, o que me recordo era isso. Talvez pela minha inconstância insone eu não tenha o aproveitado mais e agora me arrependo. Teria sido válido retomar o sonho, lógico. Quisera eu poder fazê-lo. Contei os fatos como me recordava, mesmo tendo sido uma narrativa breve que deixo agora, portanto, à sua avaliação.



11.09.2012

O preço de uma rejeição e o que fazemos por quem já amamos


Como um bom Noctívago, escrevo sempre melhor durante a noite e me valho da noite para esconder meus pecados e traições. Logo, todo e qualquer conto que eu - ou uma das minhas personalidades - escrevo será, em maioria, baseados e ocorridos na Noite, que é meu ambiente. Ou nos sonhos, com a ajuda de um grande amigo. Ou serão lembranças, com ajuda de uma grande amiga. Enfim, ai está. Este, bem, não é totalmente irreal.

+++

Era noite do dia 12 de Maio de 1998. Não me recordo que idade tinha na época, somente que cursava - novamente - o último ano do colegial. Estava deitado em minha cama, ainda no estado de vigília, sentindo que alguma coisa estava errada porque a energia oscilava quando eu piscava os olhos e algumas mariposas avermelhadas estava pousadas na minha janela. Inúmeras delas, querendo entrar para me contar um segredo ou pedir ajuda - eu brinquei.

Ao se aproximar das duas da manhã, ouvi um ruído distante vindo da frente de minha residência. Um murmurinho. Pensei ser animais ou alguns transeuntes. O barulho permaneceu e junto a isso batidas enérgicas em meu alto portão. Em um segundo, todas as mariposas que estavam pousadas na janela simplesmente bateram as asas e se foram, diagnostiquei o mau presságio. Resolvi inquirir o barulho, me dirigi à porta e, pelo vidro jateado pude ver que haviam pessoas exatamente defronte ao meu portão. Hesitei por um instante e ouvi além, com meus preciosos ouvidos inumanos. Havia choro, desespero e medo em suas falas. Ouvi um homem dizer que era 'bobeira o que a mulher estava fazendo' e ela revidou dizendo 'que era o melhor, já que ele só citava meu nome no delírio'. Fiquei deveras confuso mas reconheci as vozes de imediato.

Vesti um robe qualquer que estava ao pé da cama e fui até eles, quando percebi que chamavam era por um dos meus nomes. A porta se abriu para eu passar, desci as escadas e a chuva não me molhava, fui até o portão e o abri para eles. A cena que vi, quando me recordo, ainda me choca: lá estava uma mãe em desespero absoluto, com o rosto jovem borrado de lágrimas e as roupas em frangalhos e junto dela um jovem homem, seu irmão. Claro, conhecia as duas figuras de longa data. Quando ela me viu agradeceu ao seu deus por eu estar presente e tê-los atendidos, havia uma incredulidade no olhar do irmão.  Ela, se ajoelhou aos meus pés implorando ajuda, alegando que seu filho estava sob algum tipo de doença estranha e que em seu delírio de alta febre, dizia meu nome e no único momento de lucidez que teve, disse que eu e somente eu poderia ajuda-lo.

Estranhei, afinal eu o conhecia há décadas mas não o via há muito mais tempo do que queria. Porém, antes de entender a situação eu já havia compreendido o sofrimento da mãe. Não era nada simples, eu imaginei. Ela insistia para que eu os acompanhasse, quase que me sequestrando apenas de robe. Eu pedi somente um minuto para vestir algo e em menos de cinco minutos estava pronto para acompanha-los. Não sabia para onde ou para quê. Durante a curta viagem, ela me contou os maiores: seu filho havia chegado em casa naquela tarde nauseabundo, com uma coloração pálida nos olhos, fosco, trocando as palavras e a ordem e se sentindo absolutamente cansado. De começo, ela pensou que pudesse ser algo com bebidas ou drogas, coisa que ele nunca havia feito, mas os jovens de hoje não são mais tão confiáveis como os da minha época. Logo, o problema se tornou maior quando ele desmaiou e ao medir sua temperatura, girava em torno de 42 graus. Trataram de chamar o médico que, ao medir a temperatura novamente e fazer uma pequena avaliação, prognosticou como algo viral, prescreveu antibióticos e disse que em dois dias ele se sentiria melhor. Algo no coração da mãe sabia que não era apenas aquilo - o que se comprovou quando a pirexia elevou e, ao beirar os 44 perigosos graus, ele começou a ter espasmos involuntários pelo corpo. Ela temeu por sua vida.

Logo, ao delirar, ele começou a balbuciar umas palavras inteligíveis. De princípio era algo como 'Ler', 'Lion', 'Lá'. Depois passou a 'Lianjo', 'chama Lianjo, só ele pode me ajudar'. A mãe não imaginava quem poderia ser e permaneceu ao seu lado, tentando entender. Delirando ainda, ele pediu uma caneta que ela prontamente atendeu. No braço dela, ele escreveu 'Lean' com um traço final que a feriu. Levou um tempo para ela identificar quem seria, como eu disse, não nos víamos há bastante tempo. Como um baque, ela se recordou a quem pertencia o nome incomum e chamou o irmão, na expectativa de que o alvo ainda estivesse alcançável. Foi quando ela, se dirigindo à minha casa, me encontrou.

Voltando ao tempo real, nos dirigimos de volta à sua casa e eu tentei, confesso que tentei imaginar o porquê daquilo tudo. Não havia explicação plausível para mim, mas, as mariposas vermelhas na janela poderiam ter algo a ver. Talvez era o que tentavam me alertar. Em menos de vinte minutos chegamos em sua casa e sua família parecia já estar preparada para o pior. Havia outro irmão, a namorada dele, avó, tio e chegando comigo, mãe e outro tio. Minha presença causou certo burburinho mas evitei chamar mais atenção do que devia. Em suas mentes, eles achavam que eu era o culpado e apenas a mãe e a namorada sabiam que eu poderia ser o único que poderia ajudar (eu já conhecia sua namorada, mãe de seu filho, há bastante tempo também). Houve uma pequena discussão quanto à minha presença mas a mãe logo me encaminhou ao quarto do filho, deitado, prostrado na cama, com um ar cadavérico como se houvessem tentado tomar sua alma. A mãe apenas chorava e o irmão dela a acalentava. Então, ela me perguntou o que eu poderia fazer já que ele me chamara. Ou se era apenas para se despedir, uma vez que ela sabia que em outros tempos, havíamos sido melhores amigos.

Sentei-me ao chão, ao lado da cama e ele meio que sentiu minha presença pois virou a cabeça em minha direção e disse meu nome, com um esboço de um sorriso fraco. Sabia que não se tratava de um mal físico imediatamente, então pedi um pedaço de pano à mãe que prontamente atendeu, rasgando parte de sua blusa. Amarrei-o em sua cabeça de forma que só um olho ficasse descoberto e agora o que vi, foi o que mais me entristeceu mas era tarde para deixá-los e eu me comprometi a ajudar, deixei minha vergonha e meu antigo amor na porta quando entrei àquela casa:

"Ele estava dirigindo numa rodovia de alta circulação, perto de uma área de baixo meretrício, quando foi abordado por uma das 'profissionais'. Ela era belíssima, com um corpo escultural e não aparentava mais do que 25 anos, com belos lábios vermelhos e uma roupa provocante. Ele chegou a cogitar seus serviços porém, ao se recordar da namorada em casa, hesitou. A prostituta então se revelou, abrindo a boca apenas para proferir algumas palavras que de início ele não entendeu, e, logo partiu com seu carro. Sentia-se mal, diferente, desde que a encontrara. Quase bateu com o carro umas duas ou três vezes e por fim chegou em casa. O que ele não sabia, mas eu vi quando olhei em seu olho e sua memória, é que aquela não era uma puta qualquer. Era uma sucubo, que eu conhecia há muito e muito tempo e chamava-se Balquis. Era um demônio sexual feminino que existia desde a antiga Babilônia e pela qual muitos reis entregaram seus domínios e todos faleceram, misteriosamente, de uma peste. Balquis podia extrair a parte boa da alma das pessoas e se alimentar dela, era o que fazia quando aparentemente se deitava com os homens (e as mulheres eventualmente). Não era apenas sexo, era alimento. Balquis era ardilosa e intempestiva, desde que eu a conhecera. As palavras que ela proferira eram num dialeto muito antigo e significavam "Tu, que optou pela rejeição, herdará parte de mim e deixará sua melhor parte comigo". Por este motivo ele caíra em doença. Balquis era, além de um insaciável demônio, uma força poderosa em maldições. Meu amigo deu o azar de encontrar justo quem não devia e estava pagando por isso."

Removi o acessório e já sabia então o que fazer. Logicamente, não contei aos parentes os pormenores mas disse que ele sofria de algo que médico algum poderia tratar. Pelo estado mental da mãe, de tanto desespero, nem pediu detalhes e passou a obedecer cegamente o que eu pedia. Água numa bacia de porcelana, um pedaço de pano virgem vermelho, alho, alecrim, uma corda fina e uma faca de prata pura. Os que presenciaram se assustaram com o pedido da faca, principalmente porque não tinha utensílios de prata pura na casa - como a maioria dos lares atualmente. Dei minha chave ao tio e disse onde encontraria uma, em minha própria casa. O jovem oscilava entre a consciência e inconsciência, mas quando consciente, sorria para mim que estava ao lado de sua cama.

Logo, tudo o que eu precisava estava em mãos. Pedi que se retirassem e que apenas a mãe ficasse, para testemunhar que eu não faria mal à seu filho mas que, o que quer que visse, não acreditasse. Amarrei a corda no braço do jovem, a faca estava mergulhada na bacia com o pano vermelho preso, o alho e o alecrim. De repente, ele pareceu se contorcer ainda mais na cama, suava uma substancia negra com um odor insuportável e seus olhos reviravam nas órbitas. A mãe apenas chorava, pedi que não se aproximasse. A esta altura, as mesmas mariposas já infestavam as janelas da casa, por completo, e todos achavam aquele fenômeno algo sobrenatural e envolto na minha presença na casa. A corda que estava amarrada em seu braço começou a apertar e ele urrava de dor, mas não era ele, era a maldição - a parte de Balquis - que rugia. O pano vermelho, preso pela faca dentro da bacia, se agitava. Era algo terrível, mesmo para mim, que o amava. Tive pena dele, mas sabia que era melhor assim. Tirei a faca que prendia o pano vermelho, peguei-o e coloquei sobre a testa do jovem. Aquele momento, ele se sentou à beira da cama, mas não era mais ele, era a própria Balquis falando: "- Ora, ora. Mas se eu sou digna de vossa presença. Nunca em sã consciência eu mexeria com alguém que lhe pertence, senhor".

Eu ouvia Balquis pela boca do jovem. A mãe entrava num desespero ímpar mas com a porta trancada, nenhum dos outros parentes ousaria entrar e atrapalhar. Ela prosseguiu: "- Este belo jovem ousou me rejeitar. Ninguém rejeita Balquis. Minha maldição para ele foi bem trabalhada, acredite. Mas, se eu soubesse que o senhor seria envolvido, não o teria feito. Não quero problemas com Vossa Excelência, mas, como sabe, não posso desfazer minhas próprias maldições."

Eu disse que conhecia muito bem a fama e o que ela já havia me causado. Devo confessar, Balquis era uma velha amiga que precisou de mim certa vez e eu a ajudei. O preço foi algo que eu não esperava. Não permitiria que isso acontecesse novamente e disse a ela que esta seria resolvida mas se eu soubesse de mais alguma, ela seria exterminada. Ela sorriu entredentes, insatisfeita, mas nunca desacataria pois sabia que eu a encontraria onde quer que estivesse. Ela se desculpou, também entredentes e o lenço caiu da testa do jovem. Ele, voltou à cama e aos espasmos. O lenço, ao cair, tornara-se negro e pegajoso e quando a mãe se aproximou eu gritei para que ela não o tocasse mas que abrisse as janelas daquele quarto que alguns outros amigos se livrariam daquela impureza, depois. Com a faca ainda em mãos, dei um talho na minha destra o suficiente para que um pouco de sangue escorresse. Deixei a faca de lado - a mãe lembra aqui, a faca se tornou enferrujada imediatamente - e com a mão esquerda e a ajuda da mãe, tiramos a blusa do jovem. Com a mão ensaguentada, passei por seu pescoço, peito, abdome e olhos. A mãe observada com ares de pavor mas talvez este mesmo medo a impedia de qualquer atitude inesperada. O que eu criei com meu sangue, no corpo dele, era uma proteção. Algo que transferia a mim o que ele pesava. Logo, enquanto a mão o percorria, ele se acalmava e sua coloração natural voltava. Seus olhos estavam tranquilos e sua temperatura normalizava. Tudo muito rapidamente. O meu sangue, no corpo dele, tomava um aspecto dourado bruxuleante. Depois de criado, mergulhei a mão na bacia e a água, outrora translúcida, se tornou piche. Eu não me alterei em momento algum pois era imune a qualquer maldição ou afins.

Pedi a mãe que se livrasse do conteúdo da bacia e assobiei, para a janela. Ela se assustou quando milhares de mariposas adentraram o quarto e tomaram o lenço negro - outrora vermelho - e partiram, carregando-o. A faca, enquanto ela não via, esfarelei com a mão e espalhei o pó sobre as asas das mariposas, que adquiriram uma tonalidade também dourada. Quando estava prestes a me levantar, a mão do jovem segurou a minha e com olhos cálidos de cansaço ele apenas disse "- Obrigado. Quando eu percebi no que havia me metido também percebi que só você poderia me salvar. Você que me protegeu de tanta coisa e já me salvou mais vezes do que qualquer um sabe. E salvou meu filho. Não tenho como agradecer e ainda te amo..".

Ele não precisava agradecer, muito menos terminar com estas três palavras. Mas ele o fez. Por um longo tempo ele era o presente que os deuses me deram mas por causa disso, precisei Abdicar. E no final, ele era só humano. Um dia teve medo de mim e eu vi nos seus olhos como seria o futuro. Deixei-o, para que ele seguisse uma vida normal, como um homem normal faria. Porém, nunca sai de perto. Sempre o via em meus sonhos e sempre mantinha minha proteção. Falhei desta vez? Sim, falhei. Porque estou cansado. Cansado demais.

Me despedi dele, dizendo que não precisava agradecer e abstrai suas palavras finais. Ele se deitou na cama e caiu no sono. No sono normal dos humanos. Sua mãe regressou e disse-me que jogara a bacia fora com tudo o que havia dentro, ainda em prantos, quando ela notou que seu filho dormia tranquilamente. Novamente ela se pôs aos meus pés, agradecendo. Pedi para que se levantasse pois eu não era digno desta forma de agradecimento e que, o que fiz, faria por qualquer um que me pedisse ajuda sinceramente. Ela chegou a pensar em me questionar o que havia acontecido. Por precaução, antes que ela abrisse a boca, lancei uma nuvem em seus pensamentos com imagens de que seu filho apenas precisava descansar e que ela cuidasse muito bem dele. Fiz com que ela me acompanhasse e enquanto eu saia, fiz o mesmo com todos os que estavam na casa, deixando suas memórias vagas sobre o acontecido e colocando outras informações, menos fantasiosas no lugar.

Por fim, andei até minha residência enquanto as mariposas me acompanhavam. Sentei ainda um pouco na varanda para conversar com elas, agradecê-las pelo aviso e pela ajuda. Pedi noticias de todos os que eu acompanhavam e parecia que todos estavam bem. Logo, me despedi delas e entrei, me deitei e voltei a pensar como a vida teria sido mais simples se há milhares de bilhões de anos atrás eu tivesse simplesmente permanecido onde estava e com este pensamento, eu adormeci.



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Este é apenas mais um dos casos que já passei, durante este pouco tempo. Durante esta minha Quarta Abdicação.

8.25.2012

Nova Esperança


Além de ser o nome da música que ouço neste momento (A new Hope - Broken Íris) uma tonalidade de Fá me fez recordar dele. Costumeiramente, quando estou sozinho, lembro-me dele.

Lembro do dia em que o tornei o que é agora - se ainda o é. Faz tanto tempo.

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Noite, como sempre. Noite de verão, como nunca fora. Bulgária, verão de 1762.

Eu andava pela sombra da rua, mesmo naquela época. Havia uma peste levando toda uma população e o nome dela - mais tarde soube-se - era Legião. Os humanos estavam temerosos entre si e principalmente com os estrangeiros, que era o meu caso: Um jovem nobre do Mediterrâneo que recentemente adquirira a casa mais velha da região de Stara Zagora. Obviamente fugindo da repressão que havia antes do principado autônomo em Sófia. Me estabeleci, contratei servos e escravizei alguns outros (não, não era incomum para a época).

Mesmo para o povo alto búlgaro, eu era uma exceção. Não só pela altura como pela cor da pele que margeava o limite do que os gregos haveriam de ter. Eu era mais pálido. Não se ouvia minha voz, era por algo que acontecera antes, até aqueles dias. Logo, à noite e nas poucas contendas, eu era sempre uma alucinação bem-vista como investimento pelo clérigo e pela burguesia.

Nestes mesmos bailes, eu o conheci. Na terceira noite, ele chegou a mim e ofereceu-me algo de beber. - Ah, eles sempre fazem isso. Não notam que eu passo a noite inteira com a mesma taça, sem sequer chegá-la à boca. Tinha um rosto expressivo, notei uma ascendência valaquiana, era tão alto quanto eu e seu corpo talhado no mármore Botticino, sua voz rouca harmônica, vestia uma sobreposição rubra que o tornava tão opulento quanto um príncipe turco. Mesmo assim, parecia confuso, triste, irrequieto e sensível. Seu nome, Asparukh Sramanioski. Evitei ler seus pensamentos e evitei mais ainda desejá-lo. Por ora, pensei em sair fugido e ir o mais longe possível para preservá-los, antes de, consequentemente, amá-lo. No mesmo instante em que pensei em tudo isso, declinei. Era tarde demais.

Conversamos sobre política, economia, miscigenação, guerra e mulheres. Soube que tinha apenas vinte e dois anos de idade mas já era "versado". Menti. Menti sobre muitas coisas como idade, pais, origem. Falei apenas o que poderia, ocultando ao máximo uma forma de ser temporal pois acabaria me colocando em risco.

- Um adendo: em meados do século XVI em enlouqueci e simplesmente queria me expor. Isso durou até o final do século XVIII.

A conversa logo precisou ser interrompida pela hora, mas nos prometemos continuar na próxima noite. Foi complicado explicar por que precisaria ser à noite, mas consegui. Daquela noite em diante, não fui mais o mesmo. Como de muitas outras noites, mas só percebo o quão importantes foram para mim quando me deparo com eles, novamente. E me assusto.

Ao longo de um mês conversávamos todas as noites e uma amizade havia se integrado. Eu notava que haviam perguntas que ele mantinha para si, lógico, e sei que nunca poderia respondê-las até então. Até declará-lo apto.

Numa belíssima noite estrelada, saímos para observar os campos, na clareira mais próxima, que esvaneciam e conversar. O clima era de tensão e apreensão com a política aplicada para uma possível guerra próxima. Então, éramos apenas ele e eu andando pelas ruelas de Stara. Enquanto eu mostrava a ele a provável localização da Ursa Maior e me distraia, rebeldes saltaram à nossa frente, nos ameaçando. Fiquei em desvantagem não pela quantidade de homens flagelados que nos abordava mas sobre o que decidir. Asparukh, sagaz, sacou sua adaga e pensava em defender a nós dois. Eram cerca de doze homens contra 'apenas' nós. Um deles se adiantou e Asparukh cortou-lhe no braço, sem feri-lo gravemente. O aroma do sangue subiu aos meus olhos e lembrei de toda uma geração Navarro que acompanhei durante três séculos para me acalmar. Comecei a assoviar foneticamente em cítaro e ainda assim, a fúria não passava. Um outro flagelo, que estava atrás de nós, também estava com uma pequena faca e me atacou. Antevendo seus movimentos, virei-me e deixei que estacasse. Somente ele viu e por um segundo achou que venceria. Logo, ao ver meus olhos marejados de sangue coagulado e minhas presas à mostra, ele gritou. Não alto o bastante para que os seus comparsas entendessem que ali haveria morte.

Asparukh virou-se preocupado, mas logo sua percepção mudou. *Serei fiel ao que aconteceu, então aos que possuem estômagos - e fracos - parem por aqui*. Enfiei minhas garras no abdome do que me levantara a faca e o rasguei em dois, somente erguendo o punho. Virei-me para os outros e, um por um, quebrei seus pescoços, arranquei-lhes braços, corações, deixei que um sangrasse em minha bocarra, mutilei outros. No fim, isso contando que levara apenas cerca de dois minutos, hesitei. O próximo seria Asparukh, pelo que ele presenciara. O que eu nunca poderia prever - mesmo por Elijah - era a forma como ele olhava o monstro que era eu: com complacência. Havia sangue e outros fluidos espalhados por minhas vestes e ainda assim ele caminhou até mim, segurou minha mão e, na sua língua, disse: Винаги съм знаела, че ще се появи рано или късно, и аз да плъзгате моята истина. И любовта ми.


Lágrimas vieram aos meus olhos e ele as enxugou, enquanto me beijava, ignorando a repugnância que eu causaria a qualquer um, mesmo algum da minha espécie. Beijou-me e não cedia. Seu corpo se aquecia em contraste com o meu, frio. Minha visão ainda era turva mas acompanhei enquanto ele me deitava debaixo de uma grande árvore (que ao longe parecia-me um olmo) e pretendia mais. Deitado por sobre um colchão de liliuns jankaes ele me beijava com mais força, como se precisasse mostrar sua intenção. Nunca, em sã consciência, eu rejeitaria um humano daquele como refeição mas como amante eu ainda manteria ressalvas.

Sem que eu me abstivesse, ele sujou as mãos retirando minhas roupas. Peça a peça. Para cada uma minha tirada, uma dele também o era. Os dois, nus, numa noite sangrenta, quente e estrelada. Logo, eu o possuía. Com o medo aflorado pela sua condição humana, eu o possuí. Cada centímetro do seu enorme corpo foi meu àquela noite. Horas se passavam e ele não cansava, o que, logicamente, me tornava ainda mais viril. Depois de várias laçadas amorosas, meu medo sim se tornou real quando senti o cheiro do sol que haveria de nascer. Precisava escapar daqueles braços e ele, ciente, vestiu-me somente com sua capa, colocou algumas peças das suas e saímos às pressas para o castelo. Lá chegando e eu protegido, pude olhar em seus olhos. O que vi era inocência aliada à obstinação, desejo, rancor com suaves pitadas de ambição. Preocupou-me deveras.

Expliquei que precisava me recolher em instantes e pedi que ele se retirasse, voltasse à noite que eu explicaria - ou tentaria - algumas versões. Ele se recusou, disse que passaria o dia a me vigiar. Logo, eu receei. Já houve antes humanos que me protegiam enquanto eu dormia mas não pensei que ele se colocaria nesta posição. Não tão rápido. Maldita fora a hora em que coloquei em minha mente não ler a dele. Deixei-o no castelo, ordenei à uma criada (que sempre acordava antes do sol nascer já sabendo das minhas manias) que cuidasse e o banhasse pois eu precisava descansar e não me sentia bem. Me dirigi aos meus aposentos ocultos onde dormia e mal pensava já àquela hora.

Não vi nada, sonhei com espadas e guerra, mortes e me via andando por entre os cadáveres.

Quando me levantei, já renovado, tratei de ir ao encontro de Asparukh. Ele descansava em minha poltrona, banhado, vestido, alimentado. Notei que sorria em seus sonhos. Chamei pelo seu nome, suavemente, ele se levantou e veio a mim. Não era feitiço o que eu usara, ele apenas veio a mim.

Disse-me: "- Eu sei o que você é e sabia antes mesmo de ver a sua face real. Eu procurei por você e enfim, o achei." - Aquilo me surpreendeu e acho que demonstrei esta surpresa. "- Eu aprendi o que vocês são capazes de fazer, sua beleza, poder. Imortalidade". Esta última palavra saiu como um rugido de sua voz rouca. "- Não somos nem um terço do que dizem que somos mas somos dez vezes mais do que pensamos ser" - Foi minha resposta. "- E, no meu caso, ainda existe algo mais.". Meu orgulho me rendeu estas últimas palavras. Mais perto de mim, ele me beijou. Sua língua procurava minhas presas como se precisasse provar delas.

"- Torne-me o que você é." - Ele disse.
"- Nunca."
"- Torne-me. Preciso disso."
"- Para ser um condenado como eu sou?"
"- Não. Para ser um vitorioso na batalha que se aproxima."

Fiquei em estado de choque. Ele demonstrara uma frequência que eu não esperava. Estaria eu sendo usado? Será que ele procurava alguma forma de poder para usufruir e calhou de encontrar um errante abandonado de si, que sou, para concretizar? Minha visão me levou ao passado e ao futuro e cambaleei. Meus sonhos daquela noite, mortes e guerra, queriam dizer alguma coisa.

"- Vamos. Faça!" - Soava como uma ordem dele a mim.
"- Eu nunca o farei. Prefira cem vezes morrer numa batalha como o homem que é do que vencer mil homens sendo como eu sou".

Ele pareceu confuso e irritado.

"- Faça ou nunca mais o verei."
"- Então, adeus." - Irrompi.
"- Faça ou o obrigarei."
"- Muitos já pediram e poucos conseguiram. Nenhum deles com arrogância ou ingratidão". A esta hora eu já o desprezava violentamente, mas mantive-me calmo.

"- Eu preciso do poder. Preciso."
"- Pois teria seu poder em mim, aliado, que acaba agora. Retire-se de minha residência." - Finalizei.
"- Não. Não antes de tomar de você o que quero. Ou morrer tentando mas isso não está nos planos. Seu sêmen está em mim e como eu aprendi, isso já me dá parte de poder." - Ele estava certo e com apenas dois dedos quebrou minha cadeira preciosa. "- Passei o dia lendo seus livros e imaginando."
"- Saia. Agora." - Chamei Soanikova para acompanhá-lo enquanto em minha mente eu já pensava em onde me estabelecer agora que meu segredo foi declarado e um inimigo disperso.

Ele, ainda de posse da adaga, cortou a garganta de minha criada e partiu para cima de mim, com a fúria de um djiin. "- Se eu beber do seu sangue eu serei como você. Não vai me dar por bem, dará por mal pois eu o sangrarei. Uma pena apenas ter de me livrar de um companheiro com tanto futuro e que me fez tanto orgulho."

"- Pare." - Disse apenas isso e ele estacou onde estava, confuso. "- Como eu disse a você, eu não sou como você leu ou acha que aprendeu sobre. Eu sou maior, diferente, mais forte e mais poderoso do que você ou seus antepassados podem imaginar. Não serei sua arma, tampouco poderia algo contra mim. Que seja desfeito todo e qualquer sentimento que eu pudesse ter nutrido por alguém ambicioso como você e tão jovem."

Ele permaneceu enfeitiçado.

"- Porém, também, como você deve imaginar, não sairá daqui com vida depois do que fez." - Seus olhos marejaram mas ele permanecia estático. Andei suavemente até ele, apalpei seu pescoço e encostei uma presa. Revirei-me. "- Nem este seu sangue que ontem era tão puro me presta agora. Morrerá indigno, por ter tratado um amor como subterfúgio para seus planos sórdidos."

Tomei a adaga de sua mão e a joguei longe. Com tanta força que ela espetou e fincou a parede criando uma risca de fogo pelo granito do castelo. "- Minha maldição a você será viver para sempre em seus sonhos, aqui neste castelo que será consumido brevemente e quando o acharem, não se lembrará nem de mim, nem do que aconteceu, nem de quem você é. Será como nada, que é."

Seus olhos desfocaram, eu me virei e sai. Era princípio de noite, eu ainda precisava pensar em como tudo acontecera e tão rápido. Como eu pude?

Passados alguns poucos anos, a Guerra realmente estourou naquele país. Eu já estava mais próximo de minhas origens europeias quando soube das notícias. Lamentei não ter participado e que meu sonho era real. Não era a primeira traição, mas confesso que aquela me feriu um pouco mais.

+++

Hoje, passados todos estes anos, eu reencontrei parte de Asparukh em um outro homem. Claro, ele não sabe o que aconteceu. Aquele Asparukh morreu cerca de oitenta anos depois, sozinho, ainda imerso em seus sonhos megalomaníacos. O Asparukh de agora começou de um jeito diferente comigo, mas sinto cada sabor do antigo na alma dele. É sim, sua reencarnação. O que fazer?

Винаги съм знаела, че ще се появи рано или късно, и аз да плъзгате моята истина. И любовта ми. // Eu sempre soube que você se mostraria, mais cedo ou mais tarde, e arrastaria consigo a minha verdade. E meu amor. 

6.07.2012

Camafeu de Madrepérola - ii

***

Peguei o carro, ainda com o pensamento vazio na cabeça: porque ela? Porque citara meu último filho? O que Ela estaria tramando contra mim mais uma vez que envolvesse meu próprio sangue?

No carro, coloquei Daemonia Nymphe para tocar enquanto repensava, e assim me dirigi ao trabalho. Cheguei, tomei meu habitual capuccino sem açúcar com uma médica colega minha, observei o nascer do sol tão espetaculoso que estava surgindo naquele dia, falamos sobre coisas aleatórias e ainda assim, nada disso tirava da minha mente as imagens corrompidas do passado, que a partir do momento em que eu vi minha esposa - ou outrora esposa - começaram a brotar. Café tomado, é hora de começar o trabalho. Fui até minha sala, liguei o computador, comecei a ler emails profissionais, falei com colegas e a parte da manhã estava sendo como de costume. Muito trabalho, pouca conversa, muita provocação espiritual. Algumas ligações e era quase hora do almoço, convidei uma amiga muito preciosa para almoçarmos juntos.

Alguns minutos antes de me levantar para sair até o restaurante, novamente fui tomado por aquela sensação de sépia que só foi diluída quando, do nada, surge uma coruja negra em plena luz do dia na janela, invadindo-a, assustando alguns colegas de sala e levando ao desespero outros. A coruja, após o susto mútuo, entrou e pousou sobre minha mesa, encarando-me com seus olhos âmbar como que esperando um certo reconhecimento. Tentando reduzir o caos armado por esta invasão, tomei-a ao antebraço (tentando parecer calmo e um profundo conhecedor dos sentimentos ornitológicos) e levei-a até a janela de volta mas qual não foi minha surpresa quando ela novamente me olhou nos olhos e me entregou a mensagem: "Tome o enigma, siga à Noroeste. Frente à uma grande muralha há um olho. Um dos que nada vê mas a todos entrega. Sê cauteloso pois a morte que separa de ti à vida está por um fio de conseguir o que quer." E, após mostrar-me isto, se foi até o céu e desapareceu numa velocidade espantosa. Gelei da cabeça aos pés e estático permaneci durante uns segundos eternos.

Tentando me recompor, pensei e orei aos meus irmãos por uma certa iluminação naquele momento. Dez ou quinze minutos depois, continuei e, no elevador encontrei a amiga. Almoçamos, conversamos mas deste assunto eu nada comentei e saímos do hospital. No caminho à uma loja de conveniência próxima, achei tê-lo visto do outro lado da rua, olhando-me. Mais a frente, parecia Ela a me olhar, encarando-me. Senti seu cheiro agridoce mas não ousei evocar aquela figura sabendo do risco que correria com humanos por perto, principalmente humanos que eu gosto. Ouvi o piar da coruja e quando olhei para o alto, lá estava ela, sobrevoando minha cabeça a uns seis pés de altura. Novamente com um piar, ela desceu e suavemente pousou em meu ombro destro. A amiga que estava comigo assustou-se ao mesmo passo que ficou maravilhada. Desta vez, não havia como postergar e, pela confiança que tinha nesta amiga, contei-lhe que a coruja era uma amiga e que precisávamos ir, juntos. Ela entremeou da confiança na minha palavra e desconfiança de minha insanidade, mas quando me viu olhar para os lados buscando sigilo e alçar um vôo tão rápido que se não tivesse me vigiando não teria notado, acredito que - uma vez que não a vi mais - deva ter repensado sua ideia do que pode ser mais estranho do que eu.

Logo, a coruja e eu estávamos nos céus, entre-nuvens, rumando a um lugar que eu não imaginava ainda mas com uma certa confiança de que tudo daria certo.

...

5.19.2012

Camafeu de Madrepérola - i


...
Acordei.

Notei que algo havia mudado, eu enxergava somente em preto e branco mas não me dei conta até o momento exato que abri as janelas de meu quarto.

Era uma quinta-feira comum, o despertador fizera seu trabalho e eu, até então, deveria me importar em manter o protocolo de banho-vestir-esquecer algo-sair-trabalhar. Geralmente ao acordar e deixar que a midríase[1] me enlouqueça, passo por situações vividas ainda nos sonhos. Ora sinto a espada ora sinto o calor nas mãos. Por vezes, enxergo sem enxergar - é cotidiano.

Nesta manhã em especial nada disso aconteceu. Permanecia enxergando em preto e branco mas ignorei. Levantei-me, segui à ducha, banhei-me e na hora de me arrumar, havia na cama um estranho objeto por sobre as minhas roupas. Era algo parecido com um camafeu de madrepérola, intensamente tonalizado ao dourado, algo que eu não tinha e que havia sido posto ali para que eu o visse. Tomei-o em mãos e abri. Vi-me a mim e mais alguém nele, uma bela dama, trajando roupas de meados do século XVI, cabelos louros presos no alto da cabeça, olhos claros que pela envelhecida da obra do camafeu não poderia distinguir cor. Espetacularmente, bela. E ao lado dela, eu.

Observei por tanto tempo o objeto que não me dei conta de que precisava continuar a me arrumar. Vesti minha calça, calcei minhas meias, sapato e então ouvi "- Tu não te recordas mesmo, não é, meu senhor?" - com a voz de uma mulher, bem atrás de mim, em meu quarto. Virei-me espantado, afinal os únicos que tem permissão de entrar em minha casa são Harpócrates e Vermelho, qualquer outra entidade precisa de permissão, por isso estou sempre seguro e mesmo assim, sinto seus cheiros quando estão por perto ou para aparecer. Simplesmente era ela, a dama do camafeu, vestida exatamente daquele jeito e olhando para mim com olhos tensos e suaves - ela tinha heterocromia, o olho esquerdo era verde e o direito azul - traço agora. Estava assentada em minha cadeira de madeira européia, pernas cruzadas e sua atenção dirigida exclusivamente a mim. Por sinal, aquela cadeira não era minha, deve ter surgido com ela, mas eu sabia que era minha em alguma época.

"- Ah, meu jovem senhor, não tema. Vim para dar-lhe um recado antigo que, ao notar o quanto se recorda de mim, receio ter também, esquecido-o. Enquanto éramos amantes, tivemos um filho. O doce Orpheo, lembra-te? Lembra-te também que o Nosso Senhor o quis logo cedo e o tomou de nós após aquele episódio febril que nem você pode controlar - o médico de maior prestígio do condado? Lembra-te ainda que prometera vingá-lo? É chegada a hora. Ele retornou e está com quem não deve, soube eu de alguns entes queridos e mesmo depois de todo este tempo, ele o quer como pai. Ouviu Daquela Senhora que nos visitava sempre à noite histórias a seu respeito. Ao que soube, ele ouviu as histórias somente da sua época de "Guerreiro", não contaram o porquê de ter abdicado."

Cada palavra dela me preenchia e queimava mais ainda meus olhos, comecei a enxergar mais em branco do que em preto, coisa que acontece somente quando estou de frente à uma entidade muito forte presencialmente. Instantaneamente eu a amei, novamente, e vi o momento do nosso primeiro encontro, dos nossos anos de namoro, noivados, casamento, a cópula, as promessas, o momento em que meu filho nascera e o momento em que eu o perdera. Lembro que foi esta a Terceira Vez que abdiquei e me tornei homem. As duas primeiras, uma fora contada. Não conseguia falar nada, apenas deixei que ela falasse.

"- Pois trata-se deste meu aviso, ele virá até você e o reconhecerá como pai. Mas não o pai que você foi e teria sido, mas como o pai que Ela contou que você deveria ser. Ele já virá marcado por Ela, com sangue aos olhos e desonrado. Ai de mim, mãe, vê-lo assim. Mas você, pai, sabe o que deve ser feito. Por ainda amá-lo não o deixaria desavisado, precisei do subterfúgio do camafeu para vir até você. Com a ajuda de seu nobre amigo Harpócrates, agradeça a ele por mim, depois. Onde estou agora é realmente bonito, graças a você. Tenho meus familiares comigo, compreendi diversas coisas, perdoei e nunca se esqueça de que nunca o culpei pelo que aconteceu. Faria tudo novamente e se há perdão aqui, eu devo pedí-lo pois fui fraca ao ver sua imponência e declinei. Se naquele momento eu soubesse já o que o senhor era, não teria temido e fugido. Portanto, perdoa-me".

Havia lágrimas em seus olhos e ela se levantou, veio em minha direção e beijou-me a boca. Não senti sua carne, apenas um frio e uma torrente de emoções. Ela pegou o camafeu de minhas mãos e automaticamente comecei a notar as cores novamente, menos nela, que permanecia quase em sépia. Naquele momento de introspecção ela se despediu de mim e partiu, deixando-me só, aspirando o aroma de verbena e alecrim que me era tão familiar. Sentei à beira da cama e comecei a refletir no que ela dissera. Meu filho, viria até mim, em busca de quê? De um pai somente? Porque Ela contou histórias sobre minha existencia? Éramos amigos porque tinhamos inimigos em comum.

Existe algo maior ai que preciso por em prática. Não falei com Harpócrates ou com Vermelho ou com meus irmãos, apenas terminei de me arrumar e sai para o trabalho: Estou no momento da minha Quarta Abdicação, ainda. Passei o dia com aquela sensação de que estava sendo seguido e de que meu corpo parecia estar querendo ser tomado, ignorei. Tomarei providências quando necessário for, por hora, apenas relato para que haja algo com o que trabalhar posteriormente.

É meu desejo continuar...

[1]Midríase - dilatação da pupila sob efeito da luz. 

5.02.2012

Eu só precisava contar...


O conto da Madame Serpente Branca é algo que me estimula a não amar, tomar a decisão como a Serpente Esmeralda fez sabendo que o amor pode ferir muito mais do que compensar. Optei. 
No exato caminho que me encontro, existem dois rumos: ambos em amar. O que os diverge? Amar um homem ou amar um homem, ser o demonio conhecido de um ou revelar o demonio desconhecido a outro? O que é mais importante: amar ou encantar? O que eu estou disposto a sacrificar se descobrir que for amor?

Desejo a Amitabha de Buddha porque preciso de reflexão.



O conto da Madame Cobra Branca - Bai Shu Zhen 



Havia certo feiticeiro na China antiga, um Monge (Fa Hai), conhecido por ser o protetor dos humanos, afastando espíritos maus, maldições e demônios deste mundo. Ele tinha todas as bênçãos de Buddha e com seu poder lutava de igual para igual com grandes forças ocultas. Havia também um humilde curandeiro (Xu Xian), preocupado em ajudar a todos e prestar os seus serviços da forma mais humana possível. Por fim, havia um demônio-fêmea muito antiga, chamada Serpente Branca (Bai Shu Zen), capaz de grandes feitos pelos seus milênios.

Acontece que este demônio, certo dia, encontrou o curandeiro às vistas e se apaixonou por ele com tamanha intensidade e presença que por diversas vezes o socorreu, incógnita, enquanto ele colhia flores e frutos pela floresta em busca da panaceia de seus pacientes. Ele nunca soube dela, ela sempre o seguia, mesmo aconselhada por sua irmã mais nova, a Serpente Esmeralda, e seus pequenos amigos. Um dia, ao colher uma certa espécie de flor à beira de um abismo, o curandeiro desequilibrou-se e caiu. A Serpente o salvou da morte com um beijo, ou ele se afogaria no lago que estava oculto ao abismo. Ali fora seu momento de glória e quando o curandeiro declarou-se apaixonado por ela, sem conhece-la de verdade por estar portando sua forma física humana.

O Monge, neste ínterim, continuava sua missão de derrotar e prender demônios, estando atrás dos famosos demônios-raposas, que infestavam a cidade com sua praga. Algo que, mutuamente, o curandeiro tentava solucionar sem saber se tratar de obras demoníacas.

O curandeiro e a Cobra se casaram, passaram a morar juntos e se amavam, mesmo com a mentira dela latente. Certo dia, o Monge a reconheceu enquanto caminhava pela cidade e o que sucedeu foi uma briga de proporções épicas, de igual para igual, em que o feiticeiro com a vantagem exigiu que a Cobra deixasse o reino dos homens. Ele era justo e reconheceu o amor dela, assegurando que seria uma situação delicada quando ele soubesse da verdade. Ela, logicamente influenciada pela obsessão, não deu ouvidos e permaneceu com o esposo, mesmo avisada. Ao encontrar o curandeiro, o Monge entregou-lhe a Adaga dos Espíritos, para sua proteção.

Os demônios-raposa ainda infestavam a cidade e sua maldição estava corrompendo o coração de todos os homens, enquanto o curandeiro nada podia fazer. Sua esposa, ciente de que se tratava de algo espiritual, cedeu parte de sua força vital à panaceia, para que surtisse efeito. E foi o que realmente aconteceu. Com a fraqueza dos raposas, o Monge conseguiu detê-los e portanto, passou a perseguir a Cobra. A encontrou na morada do curandeiro e recomeçaram a briga, não por maldade ou desapego do amor que eles sentiam um pelo outro, mas por que ela mentia, era um demônio e relações como esta nunca dão bons frutos. Era para proteção do curandeiro que ele lutava e mesmo assim a Cobra não entendia, exigia liberdade e era agressiva. No meio da luta, tomou novamente sua forma reptiliana, o curandeiro chegou em casa, viu a enorme Serpente Branca acuada, e, usando a adaga, a feriu. Ela não pode revidar já que o amava, apenas fugiu e esperou para encontrar a morte. Sua irmã Esmeralda a carregou e cuidou dela, mas não havia maneira de se recompor a perda pois já estava fraca por ter cedido parte de sua energia vital e por que a adaga era ainda mais velha do que ela.

O Monge então contou ao curandeiro que na verdade, sua esposa era a Cobra e que havia tomado a forma humana para poder amá-lo. O curandeiro estremeceu entre o medo e o amor, e o Monge deu seu trabalho como feito. Porém, um dos amigos menores da Cobra foi até o curandeiro com a esperança de que ele ainda pudesse ajuda-la e contou sobre a Raiz dos Demônios que serve de cura e alimento, e que se encontrava no Pagoda LeiFang – uma espécie de templo. O curandeiro, após ponderar no amor que tinha, cedeu ao risco e acompanhou o pequeno espírito até o templo.

Lá enfrentou diversos males à alma mas resgatou a Raiz, deu-a ao espírito para que a levasse à Cobra e esperou por sua visita. Porém, ao sair do Pagoda, foi tomado pelos demônios menores que ele libertou ao remover a Raiz do templo e acabou causando um enorme estrago, tendo sido necessário o Monge intervir. O prendeu e programou um feitiço de expulsão de demônios.

O espírito menor chegou à Cobra, deu-lhe a raiz e ela se recuperou, ouviu a história e considerou seu amor pelo curandeiro, indo ao seu resgate, imaginando que ele tinha sido condenado pelo Monge pelo crime que cometera para salvá-la.

Lá chegando, tentou invadir o templo, porém o Monge já imaginando havia colocado barreiras mágicas para que ela não entrasse. Com a ajuda da sua irmã Esmeralda, ambas na forma de Serpente, forçaram e tamanho poder era o da Branca que invocou uma enorme onda que inundou o templo e toda a área em volta. Tamanho poder e fúria irracional. O Monge batalhava, mas se via em desvantagem ao ter de cuidar dos outros monges, da cidade, do ritual de exorcismo e das Serpentes em tamanha briga.

Por fim, o templo se abriu e a Cobra trouxe seu amado pra si, antes do ritual ter se completado. Notou que havia algo de diferente nele: ele não se recordava de tê-la conhecido. Ela ignorou e batalhou contra o Monge, alegando que ele era o culpado da situação. Por fim, exauridos, ambos derrotados, ela se mantinha em vantagem pelo fogo que ardia do amor pelo curandeiro. O Monge, evocou sua ultima força e a derrotou, com a ajuda dos Mil Braços do Iluminado.

A Cobra, foi sentenciada a retornar ao seu mundo pelo Pagoda e de lá, pediu a Amithaba de Buddha – Sua misericórdia – e lhe foi cedido se despedir do seu grande amor. Ela saiu pelo LeiFang e chorou defronte ao seu amor, que ainda não se recordava dela. Chorou e prometeu que choraria pelos dois, pelo amor que eles perderam e que ele, somente ele, não se lembraria. Ao beijá-lo pelo amor verdadeiro, Buddha também concedeu a Amithaba ao curandeiro e ele se recordou. De tudo. Mas, já era tarde demais. A Cobra pagaria por sua intempestividade, fúria irascível, medo, crimes, mortes e pela negligência do seu próprio amor, presa no Pagoda durante toda a eternidade. O Monge, manteve seu trabalho mesmo não tendo outros grandes perigos ameaçadores. O curandeiro, permaneceu em torno do Pagoda, cuidando dos jardins, sabendo que seu grande amor estava lá, presa para sempre e sem poder mais estar em sua presença. 



Nota minha: Existem versões diferentes deste conto, alguns colocam Bai Shu como extrema vítima e Fa Hai como malvado, algumas invertem. A minha apenas priorizou o amor que Xu Xian sentia, o que há de mal em juntar humanos e demônios e como pode ser perigoso manter uma Tempestade no coração de um ser.
 

4.22.2012

O Filho de Lucca



ESTE NÃO É UM CONTO PARA MENORES DE 2.312 ANOS: CONTÉM PASSAGENS CONHECIDAS E FORMAS CASUAIS DE SEXO EXPLÍCITO.


Havia uma noite de Outono que precisava ser apreciada, porém, como sempre, estava eu sozinho a pleitear a atenção do Cosmos em busca de alguma satisfação que seja pessoal, sexual, educacional ou emocional. Ou todas elas.

Andava pelas ruas sempre sem medo, como aprendera há tempo mais do que devia, vestido apenas com uma calça de couro estreito preta, camiseta larga branca e uma jacket de couro também preta, com alguns talhos nas costas pela constância do uso. O tempo costuma vagar numa frequência diferente para mim, algo como lapsado entre passado e futuro, entre pressa e demora, entre realidade e imaginação. Nem sempre é uma coisa boa, admito. Já a algumas milhas da origem, sinto um cheiro familiar. Algo que me remetia a meados do século XVIII, meio cobre, meio acre, como cheiro de algum animal selvagem que ao invés de fugirmos, corremos na direção. Algo masculinamente atrativo, cheiro de macho em suma. Havia além do aroma, uma voz interna que dizia "Lobisomem".

"- Lucca!" - Foi o primeiro nome que me veio à mente e eu o chamei.

Virei-me mas não o encontrei. Não encontrei nada a não ser a sensação de algo estava por vir. Algo que me arrepiou da nuca aos esteticamente poucos pelos pubianos.

Continuei a caminhar, ouvindo os pensamentos alheios sobre matrimônios, grandes projetos empresariais, futuros assassinatos, felicidades por gestações e uma infinidade de outros impropérios que se manipulam na noite. É outro mal, não posso não deixar de ouvir. Mais alguns metros a frente e novamente a sensação, mais intensa e próxima desta vez.

"- Nunca ouse assustar alguém como eu, posso ser violento e ataca-lo antes de lhe permitir explicações." - Eu disse a ele, olhando em seus olhos rubros e estreitos, de origem mediterrânea, tão sedutores que eu me permitiria morrer ali, sem nem perguntar o porquê.
"- Não era minha intenção e pelo que sei, o senhor não se assusta. Parece-me que já sabe de tudo o que aconteceu e acontecerá. Algo mudou em sua existência, Mi Lorde?" - Ele, causticamente, disse-me.
"- Muita coisa mudou, mais do que eu esperava. A cada dia me torno mais humano e o que eu tinha de mais precioso cedi na Troca Equivalente." - Confidenciei.
"- Então realmente Mi Lorde está mudado".

Era o que veio depois de Lucca, o primeiro e único filho que ele fez, ainda tinha o seu cheiro e fascinantemente tinha sua presença e sua conquista sobre mim. Aparentava uns 20 anos, estatura mediana, pele morena clara, corpo rijo, forte, cabelos curtos pretos lisos bem cortados, braços deliciosamente torneados, sem pelos onde meus olhos podiam ver, olhos castanho-escuros singelos e uma boca que mesclava luxúria como sentimento puro e casto. Vestia uma calça comprida de um pano surrado, ocre, uma camiseta preta que se adaptava feito pele em seu corpo musculoso e um pequeno adorno no pescoço. Este era o filho de Lucca que passei a amar ainda mais jovem, da mesma forma que amei ao pai, que serviu comigo, que me amou, que dormiu comigo, que me protegeu por tanto tempo e que acabou sendo despedaçado por minha causa. Minha dívida com a prole dele seria eterna mas eu não poderia supor que meu amor à sua genética seria também. Meu oposto. Seu nome não vem ao caso, será dito em acróstico.

Logo, ele vinha atrás de mim. De imediato não compreendi e continuei a caminhar, mas, como os Lobisomens também tem em sua estrutura uma velocidade acima do normal, ele conseguiu me surpreender ao dar de encontro comigo, pela frente. Olhou-me nos olhos, os dele como brasas, os meus como gelo, segurou-me pelo lado do rosto, pôs se na ponta dos pés e me beijou. Não pensei, não agi, não era eu quem estava ali. Passei minha mão por sua cintura e correspondi o beijo, tornando-o mais quente, suportável à espécie dele. No meio da rua nos beijamos, valemo-nos da rua pouco movimentada, lógico. Tive a impressão de que durara horas, mas acho que não.

"- O que você quer, Filho de Lucca?" - Afastei e perguntei.
"- Há muito tempo estou atrás de você. Soube na alcatéia de meu pai suas histórias, sinto em meu sangue uma sede de você. Acho que quando meu pai me fez, passou pra mim a necessidade de estar contigo, de protegê-lo, de amá-lo. Como um Legado."
"- Pois eu então liberto-o desta obrigação. Teu pai me pertencia e eu a ele, e isso nunca mais poderá acontecer."
"- Será diferente agora." - Ele completou.

Naquele momento eu vi Lucca, quando da primeira vez que nos vimos, quando eu com uma espada de prata estava prestes a decapitá-lo por um equívoco brutal e me deixei seduzir pela inocência dele. Muita coisa aconteceu mas agora não é hora de falar.

"- Deixe-me ir contigo, por favor. Tenho tanto para falar e mostrar" - Ele falou.
"- Não posso andar mais com crianças."
"- Uma criança não saber amar um homem, nem um homem o amaria como eu o amo." - Com estas palavras eu declinei.

"- Teu pai lhe falou sobre o Dom das Nuvens?" - Falei e não dei tempo dele pensar. Tomei-o pela cintura, passei minha jacket por sobre seus ombros e pescoço e alçamos voo. Seus lindos olhos lacrimejavam pelo frio e eu, infelizmente, não podia aquecê-lo a não ser com minhas orações. Em dois instantes estávamos no quintal de minha morada, perto da minhas tão preciosa betúnias que exalavam como sempre em noites de calor ameno. Placidamente eu o coloquei no chão, retirei minha jacket e observei, enquanto ele parecia cada vez mais uma criança ao conhecer tamanho poder, em presença.

"- Meu pai me falara sobre seus dons e o que o tornava diferente dos da sua raça e das outras. Sua superioridade. Meu pai sempre me disse que você não era completamente deles e que era algo que a gente só veria uma vez enquanto pudesse respirar. Pouco antes daquele dia, ele me contou o quanto o amava e o quanto eu poderia contar com você caso acontecesse algo a ele mas que, se fosse por você, nunca aconteceria a nós."

Estas palavras me floresceram às vistas. Eu era o pai dele. O pai que o pai de sangue havia incumbido de proteger neste novo mundo e estávamos enganados. Eu o desejava e me tolhia por ele me ver como responsável. Eu desejava o corpo dele, o sangue dele, seu suor, seu sêmen, sua força. Desejava possuí-lo. Desejava tomá-lo até que o dia nascesse e o deixasse fraco de tanto me receber. Exaurido, desejava montá-lo. Convidei-o a entrar e a se sentar. Lobisomens tem vantagem sobre nós porque podem comer comida humana, em pequenas quantidades, sem que seja venenoso. Admito que eu mesmo arrisco mas nunca me privo de um bom chá. Ofereci algo a ele que recusou, mantinha seus olhos em mim como se eu fosse algo irreal mesmo estando tão perto.

"- Estive à sua procura, senhor. Andei por todos os lugares em que pensei que poderia encontrá-lo. Todos os lugares que meu pai contou-me histórias e lamentei quando não o achei."
"- Justamente por ser lugares especiais que precisei evitá-los, quando perdi Lucca." - Este comentário foi notado depois do constrangimento pessoal.
"- Perdoa-me. Não quero mais remeter ao passado."
"- Notará que não sou famoso por perdoar." - Nisso, seus olhos sibilaram como se encontrassem um desafio.
"- Logo amanhecerá, pode ficar por aqui se quiser. Como bem sabe, eu preciso me recolher. Por ser filho de quem é, confiarei minha casa a você." - Virei-me, sai da copa e ia me dirigindo aos meus aposentos ocultos quando ele segurou minha mão.
"- Temos ainda algumas horas até o amanhecer prejudicial" - Havia desejo ali, desejo reprimido, desejo inconsequente.
"- Sim, usá-las-ei para ler. Colocar a mente em dia, quando se vive há muito tempo, qualquer tempo precisa ser otimizado." - Falei e fiz para desvencilhar minha mão.
"- Sim, otimizado." - Ele como que enfatizou mas com uma força tremenda manteve minha mão à dele e com um puxão, nossas bocas enlaçaram mais uma vez."

***
Não havia para onde escapar. Não mais. Qualquer sentimento puro havia escoado com a primeira gota de sangue que sorvi de seu pescoço. Pude ver seu passado, seu presente, os fatos que conhecia com seu pai, sua inocência e sua castidade. Castidade. Dedicação. Lobos não podem nos conhecer pelo sangue, neste caso em especial, fiz com que ele me conhecesse pelo beijo. Éramos uma dualidade proibida, Frio e Calor, Noite e Dia, Mau e Indiferente. Eu vivo de vidas, ele não. Um pássaro e um peixe. Era uma Santidade Arrasadora, Mutua, Unanime, Entre Lados distintos.

Levei-o até meu aposento pouco iluminado com velas em castiçais provincianos, coloquei-o sobre a cama de baldaquim escuro com lençóis de cetim vermelho-sangue e almofadas de seda negra, beijei-o, mordi-o, gemia ao ouvir seus gemidos, deitei por sobre ele e senti seu sexo comprimir o meu. Arranquei sua camiseta no rasgo para poder vislumbrar aquele peito liso de pêlos, forte, másculo, da cor da macadâmia e mamilos rijos excitados. Ele sugava de mim luxúria, enquanto se esfregava em meu corpo marmorizado. Com a mesma força ele me despiu a camisa, novamente opostos. Ergueu-se alguns graus da cama, o suficiente para ter posição de me beijar o tronco, o ombro, as costelas, as cicatrizes que herdei da minha vida anterior, me virou de posição e colocou-se por cima, despiu-me a calça e observou.

Notei que ali eu descansava minha cabeça entre a cama e o céu.

Continuou a me beijar sem medo pois sabia que não poderia me machucar. Beijou-me o corpo, a boca, os olhos. Removeu a última peça de roupa que eu vestia e beijou também. Com maior intensidade, sua boca morna como o sangue de uma criança, conseguindo engolir-me em partes, num movimento tão suave quanto frenético, suas mãos percorrendo meu corpo em êxtase. Nem a janela aberta trazendo a brisa e pássaros na sacada poderiam desconcentra-lo. Suas veias pulsavam para mim, gritando "me ame, me ame". Após alguns momentos de maior prazer, ele mesmo despiu a calça. Não havia imperfeição naquele corpo, nada. Era tudo espantosamente bem planejado e moldado pelos deuses. Quando Lucca o havia criado (ele, obviamente, não era filho sangüíneo) eu pensei que seria para me substituir como macho, nunca passou pela minha cabeça que ele realmente queria uma criança para manter os princípios e seu Nome.

Em toda aquela perfeição, era minha vez de voltar ao inicio do mundo e sentir o prazer que foi ajudar a criar o primeiro homem e a primeira mulher, conhecer o nascimento de uma criança, protegê-la, ver impérios nascerem, morrerem, recriarem-se.

Eu, deitado nu sobre os lençóis. Ele, nu defronte a mim, incitando com os olhos qual era sua intenção. Embalados pelo som ambiente de uma fortaleza à beira mar, não havia mais o que preciso fosse falar. Deitado como estava, permaneci, acompanhando cada gesto sutil dele. Ele, ajoelhado sobre a cama, defronte a mim, mudou de posição. Aproximou-se, procurou meu sexo com suas mãos e usou nele. Dentro dele. Movimentou-se para cima e para baixo, sempre mais forte. O cheiro infestava a ilha e temi que outros seres, dos psicopompos aos incubos, acabariam aparecendo para a briga. Ele subia e descia, com as mãos passando dos ombros aos cabelos, depois apoiando nos meus braços, feroz, sensual, ora calmo ora violentamente prensado, durante tempo suficiente para que ele mostrasse o prazer líquido a jorrar. Eu havia entrado no Limbo pois já havia tido um orgasmo espiritual num primeiro momento, depois um emocional e , logo após o dele, um físico que o preencheria sem que pudéssemos ter controle. Continuei dentro dele - e sim, seres como eu podem fazer isso (não podem procriar porque nossa semente é morta, mas ela existe).

Ele tirou de dentro dele e deitou-se sobre meu corpo, exaurido, suado, exalando, contrastando com minha pele ainda fria o que o arrepiou - eu pude notar. Passou a mão pelos meus cabelos e os cheirou.

"- Você não tem cheiro de morte como dizem."
"- Depois de hoje, meu cheiro é o seu e você não é morte, nunca será. Minha promessa será mantida e se com minha espada ou meu sangue puder protegê-lo, considere feito."
"- Não quero sua subserviência! Quero seu amor."
"- Mas isso não precisava pedir, já era seu antes de nascer. Antes de eu notar, antes de qualquer coisa outra"

Deitamos um ao lado do outro, ele aninhado em meu peito e naquele momento o grande homem forte que parecia em primeira instancia, voltou a ser uma criança que precisava de cuidado. Lindo como a cantiga da Lua com todos os seus versos de prata. Enquanto o observava dormir, escrevi um poema que nunca mais recordei. Adotei um amor, que já era amor antes mesmo de eu perceber.

***
Na noite seguinte acordei em meu caixão, não me recordava de ter ido parar lá depois da noite que tive com ele. Acredito - e soube agora, com ele me falando ao ouvido enquanto me acompanha a escrever esta parte de nossa história - que ele me levou. Carregou-me adormecido, deitou-me, cobriu-me, beijou-me os olhos e o peito, trancou a tampa e vigiou-me durante todo o dia, assim como vigiou a casa. Os empregados diurnos logo entenderam que seu patrão havia escolhido alguém para compartilhar mais uma eternidade. Falarei com Lucca depois, se conseguir trazer sua essência de volta mais uma vez, saberei dele o que acha. Só o que acha, não peço permissões.


Sonhos Amanhecem, Mãos Unidas Em Liberdade.



 

4.07.2012

Auto de Easter (e seu desejo reprimido de aniquilar o Cristo mais uma vez)


Era tarde da conhecida sexta-feira santa(1) quando eu me decidi por compartilhá-la. Jubilar-me com a tradicional compra e posterior troca de chocolates(2), estreitando laços de amizade e familiares e continuar mascarando a real intenção do ato.

Deixei meu apartamento após um bom banho e água gelada, vestir-me e tornar-me apresentável à luz do sol. Por opção de comodidade, resolvi usar meios próprios de caminhar. Afinal, a delicatessen era bem próxima à minha morada. Sai, enfrentei a claridade, enfrentei o mundo mais uma vez.

Cheguei à delicatessen apenas para constatar o quão grande é esta data festiva, havia mais pessoas do que a loja poderia suportar. Por sorte um dos atendentes já havia sido tratado por mim, então ganhei a preferência para minha alegria e inveja dos outros concorrentes. Após as compras e algum dinheiro gasto, resolvi voltar.

No caminho existe uma eclesia aos moldes evangélicos e pelo que notei - até eles - já desvirtuaram um pouco o que se comemora nesta data. Havia um grupo de maioria mulheres à porta, distribuindo panfletos e pregando o amor do senhor seu deus, enquanto ofereciam miúdos ovos de chocolate aos pedestres. Parei para recolher um destes panfletos e uma das mais senhoras me abordou.

"- Está na hora de voltar para deus, varão." - Ela se dirigiu a mim.
"- Senhora, eu nunca o deixei. Se ele me deixou e acabou de dizer à senhora, então que ele resolva comigo depois." - Eu.

Não sei por que cargas d'água eu parecia suspeito e ela, que apoiava-se em um cajado(3), resolveu tocá-lo em mim(4). Tocou, e eu, notei. Ela o recolheu. Parecia em partes, desapontada. Notando este desapontamento:

"- Senhora, o que aconteceu?"
"- Nada. A Paz do senhor."
"- Claro!" - Reconheci instantâneamente. "- A senhora esperava um milagre, não?"
"- Ora meu filho, só nosso senhor Jesus Cristo opera milagres."
"- Então porque a suspeita?"
"- ..."

Colhi o ensejo e:

"- Bom, mas não a deixarei desapontada."

Tomei o cajado da mão dela, fechei meus olhos e lembrei-me do tempo em que os homens eram apenas macacos débeis e que sempre precisavam de provas para reconhecer suas divindades. O cajado vibrou e de sua ponta brotou um ramo de Taraxaco(5), que desabrochou e seguiu caminho até o céu. Ela piscou os olhos, irrompeu em lágrimas e acabou inconsciente. Os outros notaram seu desfalecimento e eu continuei meu caminho, intocado e desprezado.

Aguardo o domingo para distribuir os chocolates, como manda a tradição.


Notas:

(1) Tecnicamente, a Sexta-Feira Santa é reconhecida pelos cristãos como o dia em que o I.N.R.I. sofreu e foi crucificado para pagar pelos pecados do mundo. Não é uma data marcada, muda conforme a Lua após o carnaval e outros fatores adversos que contrariam o paradoxo da infalibilidade da igreja católica romana.
(2) A troca de chocolates é um acontecimento pagão, em homenagem à deusa Easter, que era conhecida e venerada por trazer fartura à colheita e proteção dos camponeses.
(3) Alguns evangélicos por tradição gostam de se tornar importantes imitando os que já se foram. A representação do cajado é para o pastor de ovelhas - analogamente - o guia dos filhos de deus.
(4) Hoje não é muito dificil de encontrar tais servos do Cristo que usam de artificios para enganar os puros de coração. Existem tantos artefatos impregnados com o poder de deus quando os que são blasfemos. Ternos, peões, cajados, estátuas e afins são usados como amuleto e uma espécie de radar aos que se opõem.
(5) Taraxaco - ou dente-de-leão selvagem - é uma planta tradicional dos desertos de Jerusalém.


9.03.2011

"Odes Quebradas" - Coroas e achados


E então a coroa mágica de Cori ele usa.

Porém ela não o tornou especial, somente diferente. E isso faz tanto tempo quanto possível. Talvez lá pelo tempo em que ele havia sido banido do céu, pelas ordens-prior do seu Próprio Criador. Talves depois, quem sabe de verdade? Nem ele mesmo sabe.

O que ele sabe é do fardo que carrega, com esta coroa deposta. Ombros largos, opulência e uma questão incondicional do que ela o fez. A coroa o ensinou a orar, o fez mais forte, mais decidido, menos ilusório. Ele trocou, portanto, as asas pela coroa. Mas o que a coroa o deu?
Bom, a coroa o deu tudo o que ele quis. Estranhamente, deu-lhe novas asas dotadas de trinta e seis mil pares de olhos criados em cada centímetro.
Deu-lhe poder, razão, constância, amor. Deu-lhe uma vida nova. Trouxe de volta uma outra vida.

Hoje, eles não conhecem mais a Lenda da Coroa. Não sabem mais o que significa usá-la. Uma história, uma frase, nada mais. Hoje eles o vêem como louco.
Não sabem que ele pode ser anjo, um demônio, uma alma antiga, um feiticeiro, um padre, um homem, uma mulher, um animal, um índio Lakotan, um árabe... Pode ser tudo. Todos. A qualquer hora, pela Coroa. Ele inclusive pode ser nada e estar em qualquer lugar. Pode ser muitos em um. Pode conhecer tudo. Ele é um deus-menor que aceita seu posto, com potencial para ser uno, Trimegisto, mas que não quer mais pesares e perdas. Conquista-se um novo mundo, então, perde-se o antigo.

A Coroa é algo divino, feita de aura e gelo submarino, ornada com pedras desconhecidas na Terra, algo que a aproxima do diamante, só que negro. Todas as pedras incrustadas nela são foscas, e todas em cores leitosas, azuis, vermelhas e verdes. Não se pode olhar por muito tempo para ela e ainda assim ela passa imperceptível. Ele a usa sempre mas poucos a vêem, geralmente os mais extremos: os mais dimensionais ou os menos conectados. Ela pesa mais do que a Terra, ele a carrega sentindo-a leve. Ela o torna um nefelibata, mas ele aceita. Ela o tenta e então, ele quase nunca escapa.

" - Ela o torna mais fraco quando ele está mais forte."

A Coroa é algo que ele quer compartilhar.



6.24.2011

Novos sonhos

Novos sonhos se fazem presentes. Há uma clareira. Há um som retumbante.

Há uma canção e uma intensa luz dourada, cálida, encontro-me debaixo a uma faia com trajes simples, claros e leves, embainhando um florete com punho de ouro e haste de cristal ou algo parecido. Talvez gelo submarino. Noto que há um sabor refrescante em minha boca e um aroma inebriante circunda todo o local. Após tomar consciência, ponho-me de pé e penso investigar o local. No momento exato que me levanto a voz, por trás de mim, diz-me uma cortesia num idioma tão antigo que eu mesmo quase esquecera. Viro-me mas não vejo quem o disse e assumindo nova posição ouço a voz, novamente por detrás. Percebo que não importa para que lado olhe a voz sempre encontra-se atrás, sendo ouvida por sobre os ombros. Novamente ela fala, num idioma mais atual, e me questiona a presença. Reafirmo a minha inocência e fico sem entender, mas parece tudo tão real.

Odi et amo.

Fico ainda a imaginar qual seja o peso do que me fala, sem sequer dar-me conta do reconhecimento da voz. É Ele! Não pode ser outro a não ser Ele.

...

4.21.2011

O menino e o falcão

Conta a lenda que certo dia um pai falcoeiro por tradição, ou seja, criador de falcões e usado na caça, resolveu que era hora de seu filho aprender a nobre arte para prosseguir. Levou o menino à uma montanha conhecida por ser a mais promissora em engendrar falcões para a caça, de onde o próprio pai havia tomado o seu companheiro na arte. No sopé da montanha, explicou como o menino deveria escolher o ninho, batalhar com a mãe falcão se fosse necessário, avaliar os ovos e escolher o melhor filhote para a cria. E tal o menino fez, suportando todas as intempéries naturais possíveis, em busca do seu mascote e futuro meio de sobrevivência.

3.25.2011

O velho e a Morte



Um miserável velho se afligia
Com um feixe de lenha que trazia:
Jogou com ele ao chão, já de cansado,
E chamou pela Morte, agoniado.

Aparecendo-lhe esta, perguntava
Com que fim tão solícito a chamava.
- Rogo-te – disse o velho, de mãos postas
- Que me ajudes a pôr o feixe às costas.



Tradução de Couto Guerreiro

3.18.2011

NightStar - O Conto do recomeço - Cap. i

Capítulo Uno:

No conhecido cemitério Les Morem Admorem, localizado em Nova Orleans, desperta uma alma antiga. Um vampiro há muito adormecido conhecido em seu tempo como Estrela Noturna. Conhecido digamos mais pela sua fama – outrora tida como alegorias – do que por sua pessoa em suma. Entre sua raça imaginavam-no como um conto, uma entidade desconhecida e até mesmo negligenciada. NightStar há muito não vivia entre os não-vivos conhecidos. Sabia-se que o enclaustro – se é que realmente existia este vampiro – havia sido há muito. Nighstar ainda deitado em sua alcova, lembra de fatos anteriores à sua inanidade assumida porém sabe que não é o momento de compartilhar ainda sua dor. Sabe que é hora de acordar e tomar novamente seu posto e desta forma tornar real seus antigos sonhos além do que mostrar que realmente existe, esta entidade.

Com sua destra remove a tampa do seu altamente ornado leito de mármore branco manchado de negro pelo desgaste. Mesmo em sua oculta cripta havia sinal humano de outras épocas. Escolhera bem o local e seu repouso, ciente de que qualquer mão humana jamais poderia revelá-lo. Muitos foram os que tentaram e desistiram, talvez por sua força expressa nos medos humanos quando tentavam, alucinando em suas mentes seus piores medos quer seja pelo ainda desgaste espiritual em que se encontram alguns jovens, temerosos em expressar sua crença ainda no sacrossanto. Removido o claustro e pela primeira vez em 300 anos, sente novamente o ar vivo, mesmo que em extremo diferente de quando havia inspirado pela última vez. Automaticamente começam os ruidos modernos deste novo mundo afligirem seus ouvidos. Buzinas, chiados, mentes humanas descontroladas, tudo isso chega simultaneamente à sua mente limpa e poderosa. Usando seu antigo truque, impede que isso o enlouqueça porém ciente de que o mundo mudara mais do que poderia imaginar. Levanta-se, tem uma rápida percepção do seu atual estado que acidentalmente dispara o estopim para lembranças e isso tudo rápido o suficiente para que ainda não tenha se movido o ponteiro dos segundos do relógio. Nightstar é um homem de porte, alto, com a pele clara aveludada, cabelos curtos castanho-escuros, olhos que mesclam cores como uma pedra furta-cor dependendo da luz que se instala e do movimento rápido de pestanas, poucos pelos à mostra inclusive em sua face a marca da barba por fazer, sinal de que se tornara vampiro no auge da idade e da masculinidade. Herdada as características da especie antiga, a cada ano que passa sua tez torna-se mais marmorizada e suas unhas lampejam como vidro vivo. Vestia-se com uma calça justa de couro escuro, blusa de linho caro branca, colete de um vermelho rubro que a idade ainda não conseguia esconder, sapatos empoeirados envernizados e um sobretudo gasto pelo tempo mas ainda assim uma bela figura apresentável. Mesmo seu corpo coberto de uma espessa camada de pó é um elegante homem.

Com um ligeiro espanar, Nightstar se livra da aparente inanição e dirige-se à entrada da capela onde adormecera há muito. Diante dela, apenas o ranger das fechaduras é ouvido e de forma natural as portas consumidas pela ferrugem se abrem, permitindo a saida de nossa imagem espectral. – O mundo muda mas Nova Orleans sempre tera o mesmo cheiro. Vejo imagens e sinto presenças porém o mundo mudara de uma forma tão exponencial que até mesmo para mim será complicado me adaptar.

Nighstar caminha pelo cemitério e ouve um pequeno ruido de vozes humanas, presentes. Consegue captar a fragrancia há muito negligenciada e sua sede instantaneamente surge em sua face desprovida de cor ou emoção. É sangue. Fresco, sujo e inocentemente voraz. Algo dispara em suas visceras e uma pressão lhe sobe pela espinha medular – se é que tais materiais organicos habitam aquele involucro antigo e pernicioso. Dirige-se aos sonhos e entende esta nova lingua automaticamente. É um novo inglês sendo pronunciado, algo vulgar e com expressões desconhecidas porém fracamente carregado da antiga lingua-mãe de Nova Orleans. Jovens, em seu ritual de auto-flagelação consumindo todo e qualquer tipo de alcool e drogas, rebeliando-se intimamente mas coletivamente reunidos, ouvindo um som estranho e rejubilando-se de sua juventude. Todo o cenário atrai nosso vampiro que de forma furtiva aparece junto aos reunidos. – Todos vocês são tão bonitos – engrandece Night. Os presentes assustam-se com a figura mas o assumem como parte do grupo, afinal estão quase todos no mesmo patamar de inconsciência provocada. – Ei, irmão, junte-se ao Filhos da Noite aqui neste cemitério – diz um dos jovens, completando com uma risada esclarecedora e elevando sua bebida em direção ao monstro. – É, então vocês são meus filhos – completa Night. Os jovens ou os que ainda estão de certa forma despertos, acham graça do que ouvem. Night ignora a oferta da bebida e novamente de relance aparece por trás do jovem, que fica espantado, enquanto Night com a mão esquerda segura sua cintura e com a direita sente o calor vindo de sua arteria aorta. O jovem sente que não pode se mexer então lhe sobe uma pressão aos olhos, lacrimejando mesmo sem saber o porque. Night fala bem perto ao seu pescoço – seu cheiro. É cheiro de quem sabe viver. E o beija. Os outros jovens oscilam entre a ignorancia e a contemplação da cena. Uma jovem de olhos bem marcados, vestida infimamente com um vestido negro rasgado e um par de meias dilaceradas acha graça. – Monsieur, não o tome. Tome a mim que sou mais apetitosa – diz, não entendendo a gravidade da situação em que se coloca, imaginando ser tudo uma atuação. Night vira seus olhos a ela e, no mesmo interim, surge por trás da dama colocando suas mãos em seu rosto. Novamente a pequena plateia alucina porém mais temerosa.

De repente, Night sente uma estranha ressonancia e desvia seu olhar à Lua ainda mantendo as mãos no rosto da jovem. Tem um estranho pressentimento e isso o deixa agressivo, sem sequer notar que emprega força demais nas mãos, sem notar o rugido da jovem que segura e sem perceber que este impacto acaba de esmagar o cranio da jovem em suas mãos, enquanto os outros reunidos começam a chorar e a correr feito ratos da luz, alguns pranteando a morte e outros apenas preocupados em escapar pelas suas vidas. Night sequer nota o ocorrido, ainda virado à Lua e, antes que virasse totalmente seus olhos agora assumidos num tom avermelhado, desaparece do cemiterio por completo.



Continua...

NightStar - O Conto do recomeço - Prólogo

Prólogo:

- É chegada a hora – diz o vampiro antigo, conhecido pelo nome de NightStar (Estrela Noturna). Ciente das muitas ocasiões em que poderia ter despertado do seu sono secular. Deitado lá, em seu antigo jazigo e vendo que o mundo mudara desde seu último despertar, sente que é hora de se juntar novamente ao seu povo. Durante seu sono, já havia ouvido algumas histórias de como seu povo estaria mudado, moderno, com novas concepções e caracteres dominantes. Precisava ver. Em sua mente monstruosa, talvez, não estivesse preparado para o choque que o seu sangue teria quando encontrasse a nova geração.

3.17.2011

O Pastor e o Leão

Um pastor que apascentava seus animais perdeu um bezerro. Como já andara todo o campo em vão, fez uma promessa a Zeus: sacrificar-lhe um cabrito se descobrisse quem era o ladrão. Nesse ínterim, ele viu, à beira de uma floresta, um leão devorando o bezerro. Tomado pelo medo, levantou os braços para o céu e exclamou: "Ó Zeus soberano, há pouco fiz uma promessa para te oferecer um cabrito se eu encontrasse o ladrão; agora imolarei um touro se eu escapar das garras dele".

Assim agem os que, na dificuldade, procuram uma saída que, depois de encontrada, só pensam em se safar.


Fábulas de Esopo

3.11.2011

Autumn Night (ii)

Capítulo II


Meu leito não mais tem o cheiro que tinha antes ou será que eu parei de sentir? Antes sentia ali um certo conforto, que se foi. Procuro por mais e preciso de mais, como conseguir? Sinto em minhas gélidas veias uma fome e uma sede não sentidas ainda, pareço estar possuído por algum tipo de sentimento de desejo inato, algo ainda não observado. Tenho fome mas comida não me alimenta , tenho sede e água não me basta, preciso achar o que me falta. Completar-me. Resolvo que devo sair e buscar o que preciso, sinto-me renovado com a ideia da busca em si, ainda que não encontre. Pareço precisar disso, precisar sair à noite, reencontrar o que me foi tomado. O ar gelado me toma mesmo antes de aspira-lo e cada sensação aparentemente nova me excita deveras. Pronto, está decido: vou à caça!


Capítulo III


Minha boca sente um gosto doce no pensamento da caça, parece estar intrinsecamente ligado a mim esta adaptação irracional. Já havia sentido por diversas vezes porém pude me manter no controle, desta vez tem algo diferente, algo estranho. Sinto calores onde outrora não sentia e calafrios na alma receando não poder conter toda esta fúria.

Autumn Night

Capítulo I

É noite e Lord sente que algo está para acontecer. Recolhe-se mais cedo em seus aposentos antevendo a necessidade de interferir ao andar da carruagem de Nyx. Sentia o cheiro de tragédia no ar e isso o excitava estranhamente ao precipício que criara, tentando manter-se ausente do que fosse impuro e não natural. Sentia em um único momento sua vida passar diante dos seus olhos, sem conseguir contar seus poucos feitos até então. Sabia que precisava de mais, procurava mais. Porém, onde buscar? E mais, como achar sem que suspeitas levantasse? Questões deveras complicadas de serem respondidas. Ousaria insistir...