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5.30.2015

Eu espero que essa mensagem chegue onde precisa

Era sábado, resolvi criar um perfil numa rede social qualquer para poder distrair a mente com infantilidades e casualidades que de nada me acrescentam. E assim, acabei ratificando minha má decisão de fazê-lo. Porém, acabei conhecendo alguém muito interessante neste intervalo.

Fizemos amizade e aos poucos fomos nos conhecendo, ao longo daquela semana. Soube de sua profissão, seus hábitos diários, sua família, sua história de casamentos anteriores e suas tragédias. Apresentei-me pouco durante este tempo, é sempre a ênfase de conhecer, nunca de apresentar por si só. Falamos e falamos, confidenciamos, trocamos fotografias inocentes e íntimas, enfim, criamos uma base ainda que instável. À esta altura ele já parecia apaixonado, pelo que dizia e pelo que fazia. Criamos planos para nos encontrarmos no próximo fim de semana. Também o fizemos.

Na última sexta-feira nos encontramos em um shopping conhecido, comemos em um bistrô japonês de má qualidade, conversamos mais, assistimos um filme no cinema e por fim nos beijamos. Nos beijamos mais durante a sessão e na hora de despedir ele me convidou para sua casa. Havíamos combinado que deixaríamos isso mais pra frente, pra nos conhecermos melhor, porém não conseguimos aguentar a tesão nem a tensão que haviam se instalado em nós. Fui com ele até sua casa por um caminho que até então eu já conhecia de relacionamentos anteriores.

Chegamos, continuamos agora já na intimidade. Transamos, conversamos, rimos, tomamos banho, fizemos planos. Passei a noite em claro ouvindo sua respiração, abraçado a ele. O dia amanheceu e lá estávamos nós, ainda unidos. Conversamos mais, transamos novamente. Tomamos banho, café, assistimos televisão, conversamos. Verdade, houve bastante conversa entre nós desde o começo. Dada a hora, precisava voltar para minha própria casa. Fiz o caminho ainda na expectativa, na esperança de que isso fosse real. Aqui eu já sentia que alguma coisa teria de dar errado.

Cheguei em casa, agi minha vida. Mantivemos contato durante aquele dia. O sábado se foi e o domingo veio. Mantivemos um contato mais esporádico naquele dia até porque havia compromisso na minha agenda.

A segunda-feira veio e ele sumiu. Não deu sinal, nem se preocupou um bom dia. Falei, fui ignorado, insisti e por fim obtive resposta, já na terça-feira. Ele havia desistido porque ainda se sentia atraído pelo ex namorado. O mesmo que atrasou boa parte da sua vida, que o fez chorar, se machucar, se corromper. Apaixonado por um lixo humano (que não é exceção, afinal) e eu fui descartado, com a falsa promessa da amizade que perduraria. Não nos falamos desde então.

Aqui eu crio um eixo porque o que me machuca não é a rejeição per se e sim a idiotice humana chegar a esse nível. Fato, depois de umas conversas com meus demônios, soube que a história pode não ser tão simples assim e que na verdade esse ex pode não ser ex e eu apenas fui um objeto de corrupção – como já fui anteriormente e continuarei sendo. Fixei-me no pensamento e nas lembranças de ter dito algo errado, feito algo errado, querendo assumir toda a culpa pelo que aconteceu e cheguei à conclusão de que não sou culpado. NÃO SOU O CULPADO!

Contabilizando este, seria a terceira vez que sou tratado como corruptor e, logo após essa conclusão, aconteceu novamente.

De fato preciso me distanciar mais ainda da humanidade.


Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência. Quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre. //Arthur Schopenhauer



1.25.2015

Nova indução a Buer


Caríssimo amigo Buer,

Há muito não nos falamos e muitas coisas – boas e ruins – se passaram desde então. Por mil desejos de Jezebel hei de contar agora.

Engendro nesse momento um novo namoro. Digo namoro porque ainda não definimos o que isso pode ser. Ele é um rapaz novo, sabe, daqueles moldes provincianos que tanto adoramos. É esperto, casual, jovem, bonito como uma rosa desabrochando, sagaz e um tanto quanto liberto porém, é essencialmente humano e temeroso, pálido e incoerente consigo mesmo. Posso ver o coração dele com uma facilidade tremenda e o conheço melhor do que ele acha mas ele mesmo se desconhece e isso me dilacera. Pelos seus olhos posso conhecer seus desejos e seus objetivos, além de suas necessidades, mas vejo também o receio dele em ceder à essas atitudes. Ele é absolutamente divergente de mim, em tudo, desde os gostos até as necessidades. O que temos em comum são coisas que atraio humanas para poder ser melhor observado. Bom, com todos tem sido assim, não é mesmo? Moramos um tanto distante um do outro mas sempre que posso estou com ele. E isso me faz bem, amigo. Ele me faz bem em suma. Ainda que ele seja uma criança eu sinto prazer com ele, prazer de estar com ele (prazer sexual se inclui aqui também, amigo, pois ele é um homem bem excitante). Saímos juntos, conversamos sozinhos, andamos com seus amigos e nos divertimos como homens nesta idade. Lógico, eu omito ainda muita coisa a ele e acho sábio fazê-lo por enquanto. Ele sabe da minha formação e profissão, da maior parte das minhas rotinas e de alguns casos familiares mas a melhor parte ele desconsidera – acho justo. Chegamos já, mesmo em tão pouco tempo, a fazer planos juntos e confesso que estou esperançoso, mesmo ciente de que isso não vai à frente com muita probabilidade. Eis o dilema do demônio que nasceu sob a Estrela da Solidão, dilema este que conheces muito bem, não? Digo-lhe que não estou envergonhado ou temeroso, mas preocupado. O que eu sou hoje é o que eu pretendo ser.

O antigo amor ainda me procura, sabia? Aparentemente ele ainda não vive sem mim. Mesmo que me procure por motivos bestas e infantis e eu, confesso, caia em ciladas antigas neste assunto. Sim! Eu ainda digo-lhe que o amo e me arrependo no instante a seguir de tê-lo dito. É engraçado como eu ainda sinto que ele também me ama, amigo. Como resolver esta questão? Nossas vidas ainda estão atreladas e isso me incomoda, por vezes tenho vontade de leva-lo mas meu amor por ele me impede. Eu o amo e sei que perde-lo agora seria como perder a quarta parte que sobra do meu coração negro. Ele é meu Átrio, Buer! (Risos).

No trabalho eu ando como sempre, evoluindo exponencialmente, meus superiores elogiando minhas ideias e resoluções, meus subordinados se vangloriando para os outros que tem uma liderança ímpar. O de sempre. Fui criado para ser o melhor no que quer que eu faça com exceção do amor. Neste item também não sei mais como me portar: quero deixar tudo de lado, irmão, não aguento mais este ritmo de vida. Parece que ter perdido a melhor prima parte do meu coração me deixou fraco para esses imprevistos. Perder minha melhor parte para a doença humana me deixou inerte e indiferente. Sinto que a qualquer momento posso estar tão debilitado que não saberei mais diferenciar minha solicitude com meu desprezo.

Ando preocupado com os meus, nobilíssimo Leão andante. Com os mais próximos. Como eu disse, não consigo ser resiliente nas perdas e prevejo algo ruim acontecendo. Temo a idade alheia porque sei que estou absolutamente fora deste complexo jogo de envelhecimento e morte (mas você sabe melhor do que ninguém como gostaria de estar nesta teia!). Não durmo mais com medo dos meus sonhos e quando desperto não sei se despertei mesmo. Tenho visto os meus enquanto ando por Morphía e isso anda me aborrecendo. Todos os meus veem a mim em sonhos e, desde a última vez, acho que isso não é bom. Da última, você estava comigo velando e deve ter percebido meu pavor quando ele disse aquelas palavras. Até este momento este pavor me persegue e não sei como contê-lo. Não sei se devo invocar magia ou deixar isso acontecer naturalmente.

Algo que devo salientar: a magia está me deixando. Não ouço mais o vento, o nascer do sol, o pôr-do-sol. Não vejo mais o fogo. A tempestade ainda é minha, isso eu sei. Aquela sinestesia, aquele desvio, estão menos frequentes agora e isso está me preocupando porque quando eles vem, me arrebatam. Não posso bloqueá-los mais, acredita? Quase, de verdade, desejo que eles me deixem. Busquei por tanto tempo ser humano que agora, inconscientemente, estou me desviando para ser um. Brigo a cada despertar com meu Ego e Alterego e parece que agora meu Superego está vencendo.

Bom, amado amigo, deixá-lo-ei por então. Creio que sua batalha esteja deveras complicada por ai mas saiba que sempre terá este seu amigo aqui para o que precisar. De sangue à morte, tudo. Fomos criados do mesmo escuro e não há nada mais importante para nossa raça senão à cumplicidade e eis que, de todos, só a você me ligo. Eu o adoro e sei que me adoras também, isso me basta. No final de tudo, quando perder a todos sei que ainda terei você e sei que você me terá. Que assim seja, Grande Leão!


Do seu mais antigo amigo,


L.



Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser. //William Shakespeare
Quem não sabe povoar sua solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão. //Baudelaire

10.12.2014

Descartabilidade


Certo estou de que algumas mensagens jamais precisam chegar aos seus destinos, mas, por vezes, tenho vontade de tentar enviá-las. Lembrando também na eterna dúvida sobre "um presente não aceito pertence a quem o remeteu, a quem não o recebeu ou a ninguém e isso o deixaria ao Cosmos"? De fato, tenho tanta coisa presa na minha alma que expor tudo isso causaria uma batalha de mil dias contra mim mesmo.

Tanta informação de tantas pessoas a tantos amores. Tantas histórias vividas e mais ainda as não vividas, que os deuses tenham misericórdia da minha sanidade. Contar aos que amei e ainda amo sobre nossos futuros perfeitos, nossas aventuras dentro e fora deste mundo, minhas pretensões, minhas intenções, minhas segundas intenções, minha disposição. Tudo alquebrado pela ausência de oportunidade de escrever. Começar um diário que elucidaria meu futuro não é permitido também.

Existe uma vontade e uma dedicação daqueles que nasceram sob a Estrela da Solidão que os eleva ao padrão de estrelas também - sempre distantes uns dos outros por segurança. São como estrelas, como navios, como feras selvagens, como cauda e cabeça - permanentemente distantes, até desconhecidos um ao outro. Percebo que existo para dar alguma razão à vida das pessoas, ainda que uma razão de conforto ou ciência de que o que sou, não lhes basta. Ou ainda que, sendo o que eu sou, devem manter cautela. Confesso que não sou único neste quesito mas talvez um dos que se expõem mais radicalmente. Minha 'descartabilidade' só é comparada à enorme presença maligna que eu causo às pessoas. Intrigante, não?

Posso ver o futuro, outros mundos, outras entidades, os corações humanos e não-humanos, não preciso de ar ou água. Posso estar em vários lugares ao mesmo tempo e posso saber de coisas que não deveria poder. Posso me reabilitar de várias situações, sou intangível ou maciço quando preciso, sou absurdamente velho e ainda assim inexperiente. Não consigo adoecer e morrer. Não posso perceber todas as nuances de cores mas o vermelho nunca me escapa. Tenho vários de mim dentro de mim mesmo e comando Legiões. Posso criar e destruir. O mais importante, então, eu já não posso. AMAR. Ou talvez o amor seja algo inexistente ou intocável para coisas como eu, afinal. Percebo que vislumbrei o 'amor' por pessoas que já perdi e que não poderei ter mais tão cedo e sei também do amor delas para comigo. Serei sempre algo que passou em suas vidas e não haverão lembranças suficiente de mim, incrível, não?

Inúmeras vezes eu já havia sido advertido disso por meu maior amigo mas nunca me dei conta, até agora, da volatilidade das pessoas. A maioria delas trata-me como um gênio, algo que só precisa ser acionado quando necessitam de um favor ou de ajuda. Há décadas eu não sou bem-quisto por alguém, imparcialmente. Alguém que me queira bem e que me queira de fato.

Eu afasto as pessoas. As pessoas me temem. Me julgam pelo que sou sem saber que não tenho outra opção. Eles me machucam, conscientes disso. Eles me forçam a fazer coisas que não quero, tentam me seduzir à maldade. De fato, as pessoas estão tão absortas de si que não reconhecem sequer quando alguém lhes quer fazer o bem e isso é lamentável.


Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. //Clarice Lispector
Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto. //Francis Bacon
A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais. //Arthur Schopenhauer

10.04.2014

Eu respiro, afortunadamente



Cada dia parece mais eterno que o anterior e me pego pensando no que vale a pena investir após todo este tempo passado e esta perseverante ausência de sentimentos que me ronda. Percebo que não há mais para quem voltar. Não há o que começar ou o que acabar, tudo está feito e de uma maneira que não permite reparo. Passo meus dias contabilizando perdas e anotando datas, para que não as esqueça porventura. Creio até que eu queira esquecê-las de fato!

Vejo pessoas fortes acabarem neste mundo e vejo pessoas fracas se absterem de viver. É um pesar no espírito perceber que a humanidade subjuga a si mesma com tamanho empenho e com tanta vicissitude, não a mesma que poderia usar para se tornar melhor. É um cansaço que refrigera a alma, como sempre.

Perceber que se está só no mundo não é algo mais tão primal. Criar um mundo paralelo e nele também estar só, sim. Faz-te perceber que não é a ausência de pessoas no teu sonho que o destrói e sim querer por esta ausência. Dói a cabeça e dói a alma, assim como sangra, não há mais o que dizer ou pensar. Como um hemomante, posso concluir que tão breve estarei sem meios uma vez que a humanidade está seca e permanece sedenta, porém, não dos prazeres a que se deveria preencher. É um quase desprezo pelo que vêm a seguir, justamente por saber que pode ser manipulado de tal forma que se torna imberbe o desejo de fazê-lo. Os corações humanos não são mais capazes de se manterem e ainda assim não se procuram.

Ég anda sem betur fer – Eu respiro afortunadamente.

De vez em quando, próximo à janela eu me coloco
Pensando no que poderia haver neste exterior.
Logo, sem me abster de uma decisão, percorro caminhos desconhecidos
Mas reconhecíveis, de maneira inata.
Vejo olhos rubros que acendem no canto escuro do quarto e percebo que miro o espelho,
Há ainda nestes mesmos olhos, flamas, que contrastam friamente com o que deveriam ser.
Flamas contrárias à cor que deveriam ter e que talvez tenham vergonha deste.
Quando levo as mãos a cobrir este eflúvio, percebo que não se passava de uma ilusão que
De uma maneira intrigante foi desenhada por mim mesmo.
Talvez meu coração esteja querendo dizer que não teme chorar. Ou que seu choro é improdutivo.

O fato é que a janela não parece mais tão distante do chão quando me aproximo dele de maneira impactante e rápida.





A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade. //Emil Cioran
Os deuses usam os loucos para testar os sábios. //Desconhecido

7.20.2014

Vingança, um néctar que se bebe quente


Então já se tornara um sábado noturno quando eu recebera a mensagem de que 'ele' iria festejar na rua, com amigos. Não estava em minhas mãos impedir, evidente, mas estava em minhas hábeis mãos fazer desta noite algo memorável e inesquecível, em seu leito de morte.

Esperei que a Lua se tornasse plena no céu, havia um frio peculiar para aquela época do ano, algo que excitava os mamilos e fazia o hálito se tornar mais vibrante e desejoso de companhia. Percebendo que ele havia saído, preparei-me para fazê-lo também. Usando de um subterfúgio, percebi seu trajeto e também o fiz insinuando que queria estar no mesmo local que ele, apenas com momentos de diferença. Momentos vitais que haveriam de se tornar nossos últimos naquela noite. Percebi então que ele havia chegado: uma boate comum, com pessoas comuns, aquele cheiro da promiscuidade comum que atrai almas comuns. Não esperava algo diferente vindo dele afinal. Ele chegara com suas companhias e logo trataram de se acertar no local – tudo isso eu observava de muito longe, ainda. Deixei que eles se divertissem tempo bastante e então, lá por volta das duas da manhã, eu me dirigi ao mesmo local. Fatalmente vestido e perfumado, olhos reais, com a essência negra como de costume. Se alguém me perguntasse como cheguei ali, diria calmamente que alcei voo como habitual, pousei onde era menos observado e por um truque coloquei imagens falsas nas mentes dos que poderiam ter visto algo suspeito na minha chegada.

Minha figura ainda causava algum frisson, onde quer que eu fosse. Pois bem, tomei a precaução de estar no mesmo local sem me deixar ser visto por ele ainda.

Evitei a multidão com a cautela necessária, escolhendo um local mais escuro para me instalar. Homens e mulheres admiravam o que viam e eu ignorava a todos, também como habitual. Hora me dirigi ao bar, paguei por uma bebida e voltei ao negrume da boate. De longe eu o observava, feliz, espontâneo, quase uma bela imagem se não fosse por suas intenções que já exalavam e um nariz treinado como o meu, captava. Pois bem, dada a hora dos demônios, eu resolvi começar a agir.

Deixei a escuridão do meu canto e lancei mão dos artifícios para esconder minha real personalidade, deixei homens e mulheres tortos ao se virarem para acompanhar meu trajeto, suas bocas babavam, seus membros falhavam, seus medos afloravam e por vez ou outra eu ouvi aquela palavra que define a minha raça. Durante este pequeno percurso, beijei lábios desconhecidos, vários, deslizei minha língua por vários pescoços e ombros, minhas mãos conheceram caminhos naquele caminho. Me deixei ser a imagem e a ação da própria alma do local, libertino, promíscuo, luxurioso. Era fascinante perceber as reações. Cheguei então até defronte a ele, que me olhava com olhos arredios, quase afrontosos, reconhecendo em mim a pessoa com quem falara várias vezes. Era uma mescla de prazer, medo, desejo e resiliência e eu admirei esta última qualidade. Havia uma confusão instalada em sua mente quando eu lhe disse que havia percebido o caminho que tomaria e resolvi fazer o mesmo, como surpresa. Ele balbuciava algo como "não deveria" e "como me encontrou" e eu ignorei, beijei-lhe a boca ferozmente enquanto todos os seus amigos observavam, atônitos. Não me refreei e beijei cada boca que ali naquele círculo se encontrava, deliciando-me com cada prazer único e conhecendo cada alma, evidente, deixando um rastro de confusão nos seus olhos. Parecia um flagelo recém-formado, sedento por prazer, hedonista. Voltando a ele, disse-lhe em tom lúdico que estaria ali para vigiar suas ações, ciente de quais eram elas antes mesmo de se pensar.

Depois de beijar a todos e em todos deixar minha marca, tomei-lhe pela mão sinistra e partimos daquele ambiente para um mais escuro ainda. Evidentes eram os olhares que nos acompanhavam até o andar superior, que era aberto, daquela boate. Ao lá chegar, disse-lhe que estava ali para que o desejo fosse consumido, que não houvessem freios, que os rompantes fossem exacerbados pela emoção e luxúria. Falei enquanto percebia em seu olhar um misto de pavor e necessidade. Por fim, sentados em um banco improvisado, contei-lhe sobre meus planos para aquela noite e ele aceitou. Logo, pensamos em deixar aquele local, juntos, para um melhor. Voltamos, vi quando ele se despediu de seus amigos dizendo algo em seus ouvidos e compartilhando de uma ironia jovial – lógico, ele sabia que acabara de ganhar a noite e que um dos seus desejos carnais seria consumado. Achei graça também, pelo advento.

Dirigimo-nos à saída.

À porta, tomamos um carro que nos deixaria no destino. Porém, na metade do caminho, à beira de um rio que cortava aquela cidade, eu induzi o motorista a parar. Disse-lhe que lhe faria uma surpresa, paguei ao motorista e encaminhei-o à uma viela escura. Passava em seus olhos lembranças de quando eu o assustava, contando sobre mim mesmo e ele sorrateiramente levava para o lado do humor – mal sabendo que meu câncer é falar a verdade em forma de brincadeira, para não parecer tão verídico. Já naquele momento eu não me importava com mais nada a não ser a vingança. Tomei-o no rumo daquele beco escuro, forçando-o. Encostei-o em um dos muros que nos cercava e estartei a beijá-lo. Mais e mais, mais forte, mais denso, mais violento. Notei que havia lágrimas irrompendo de seus olhos e seu medo congelava os movimentos, ele já imaginava o que estava por vir. Deixei-o com este pensamento latente. Como um gesto de misericórdia, parei um instante para delicadamente conter uma das lágrimas que escorria e foi quando ele disse-me "eu sabia que era verdade, sabia bem lá dentro de mim que ainda havia a possibilidade disso ser verdade". Disse-me, referindo-se à minha condição inumana. Concordei com um sorriso aparente e um olhar marmorizado, já antevendo que as pupilas tomavam a cor rubra deliciosa que advém quando começo a me alimentar. Não havia percebido, entretanto, que já tomava pequenos goles de sua essência quando por exagero da força, machucara seus lábios nos beijos. Ainda posso ver seu jeito infante, seu sorriso cálido, sua alegria em viver ainda que numa vida moldada em vitríolo. Percebia que o ameaçava tal qual uma serpente encurralando uma lebre e isso me excitava. Profundamente. Mesmo não havendo desejo sexual eu o violentei, molestei seu corpo frágil e delicado com o meu bruto e rude, até que sangue brotasse de suas entranhas e ele urrava de dor. Tomei daquela carne como tomei daquele espírito, ferozmente, como o animal que sou. Quando já exausto da violência sexual, voltei à violência emocional, ele já à esta altura seminu, sangrando, choroso, sujo, maculado. Era tão fascinante que queria fazer daquele momento ad-aeternum. Interessante como ele não implorava por sua vida, provavelmente já imaginava que não funcionaria comigo. Porém, também, devo confessar que por um momento pensei em deixa-lo. Bem, ainda que não o tenha feito, dei-lhe a paz eterna. Cansado, tomei-o com uma das mãos, alcei seu pescoço até minhas presas e bebi dele, irrefreadamente, querendo acabar logo com aquilo. Agora, se tratava de mais um corpo quebrado, exangue, sujo e que eu mesmo maculei e entalhei. Acabei me divertindo ainda mais quando parti-lhe os membros, um a um. Esquartejado, deixei suas partes jogadas às margens daquele rio, tomei voo e voltei à minha morada: satisfeito, por ter conseguido mais uma vez provar para mim mesmo que não sou mais um anjo e que posso sim ser o que quero ser, quando quero ser, com quem quero ser.

Na noite seguinte, como habitual, li nas manchetes sobre o incidente do "corpo esquartejado encontrado" e que se supunha "ser vítima do mal social" que afligira a humanidade. Ele agora habitaria em mim e este era um bem que eu acabei fazendo-lhe sem intenção.




Para a maioria dos homens, dor significa ódio, e ódio significa vingança. //Paolo Mantegazza
A vingança é uma espécie de justiça selvagem. //Francis Bacon
A vingança agrada a todos os corações ofendidos; (...) uns preferem-na cruel, outros generosa. //Pierre Marivaux

6.25.2014

I'll disapear - ou Marcas de pinturas e de sexo



Terça-Feira, dia 24 de Junho de 2014.

Havia sido um exaustivo dia de trabalho. Pacientes insatisfeitos, premissas de confusões pelo evento desportivo internacional iminente, almoço rápido, sede alojada no âmago. Bem, não era um bom dia – como habitual. Às dezessete horas o esperado encerramento do expediente.

Dirijo-me ao estacionamento, cumprimento colegas, percebo que esqueci as chaves na primeira gaveta da minha mesa e preciso retornar. Convenientemente atendo uma ligação, nada de importante. O dia seguinte seria um descanso (pelo mesmo evento desportivo) e por isso deixei-me preparado para a monotonia da vida caseira. Deixo o hospital.

Pego o costumeiro caminho de retorno, algumas pistas expressas, ouvindo músicas da década de 90 que eu sequer vivenciei. Meia hora mais tarde estou no centro do município que meus pais moram, pensei em divergir da rotina e dar uma volta pela cidade, desacompanhado por falta de escolha e não de vontade. Passo em frente a um estúdio de tatuagens e piercings e decido me marcar, há tempos não faço isso. Entro, me apresento, converso com o tatuador – um jovem e belo efebo, dotado de uma pele branca contrastando com seus lábios rosados e olhos verdes, de estatura mediana, cabelos ruivos de corte moderno, tatuagens pelo corpo esguio assim como piercings e brincos – e percebo nele uma bela imagem. Peço para ver seus trabalhos, mesmo já decidido como será o meu futuro. Ele é delicado, decidido, bem destro e firme.

Acompanho sua narrativa sobre este e aquele trabalho, todos fascinantes em textura, coloração (aqui eu fingi perceber as nuances, para agradá-lo. Optei não dizer a ele que não percebo cores como as pessoas normais) e arte-final. Depois desse momento, sorri quando disse a ele que já havia escolhido o que estaria estampado em mim. Ambos sorrimos afinal e ele se desculpou pela impulsividade em mostrar seus trabalhos, eu, cavalheirescamente, disse-lhe que não era incomodo e que na verdade eu estava admirado com a qualidade. Decidi antes, porém, que também colocaria um piercings como o que ele me mostrou e, por sua indicação, onde ele achava que seria interessante. Um outro adendo: eu não sinto dor ou desconforto corporal, logo, essas marcas são mais para provarem a si mesmas do que por mim.

Enquanto ele preparava os materiais eu escolhia a peça, simples, como uma estrela em ascensão. Logo estávamos prontos ambos, ele então pediu para que eu retirasse minha blusa (os furos seriam em ambos os mamilos) e eu fiz, sem hesitação. Notei que ele corou neste momento e um cheiro inebriante tomou conta da sala onde estávamos. Percebi aquele cheiro e o conhecia: excitação. Não que eu seja um modelo adônico de homem, não, mas algo o provocou. Talvez minhas próprias tatuagens estratégicas, o que elas dizem a quem as lê, minha aparente falta de vergonha pelo meu corpo, ou tudo isso ao mesmo tempo, bom, o excitou e eu percebi. Percebi como suas mãos decididas pareciam frágeis e isso ao longe. Defronte a ele, sem blusa, recostado sobre uma maca usada para trabalhos enquanto o cliente está deitado. Ele, perante me, com os materiais apoiados na mesma maca, sem saber por onde começar.

Então ele sorriu. E eu sorri também. Ele disse que estava “sem jeito”, eu disse-lhe para “seguir e fazer o que necessário fosse, que não se preocupasse pois eu não sentiria dor”. Ele me questionou: “ - não sentirá dor? Mas e isso, sentirá? ”. Disse-me isso enquanto colocava seus lábios à altura do meu mamilo direito e o beijava, demoradamente. O contraste de uma boca morna com meu corpo frio de mármore deixou ambos arrepiados e ele sorriu pelo canto de sua boca, percebendo isso. Provavelmente eu era o primeiro “cadáver” que ele havia sentido. Beijava um mamilo enquanto acariciava o outro e trocando de posição. Lambeu os mamilos, o peito, a linha traçada entre o tórax até o umbigo. Percebi aqui como a destreza de suas mãos retornaram rapidamente quando, com elas, apressava em desabotoar meu cinto e minha calça. De repente, a percepção de que a qualquer momento poderia entrar alguém. Levantando-se, à minha frente, pediu licença enquanto trancava as portas do estúdio e logo voltou à posição de antes. Eu sequer me movi um centímetro cúbico de onde estava. Aproveitando sua posição inferior, levantei-lhe os braços e retirei também sua blusa, apenas para perceber que havia ali sim um corpo decididamente excitante, moldado como nas peças do meu povo, tão branco que beirava à diafania com exceção às tatuagens coloridas e vibrantes. De calças abertas, ele então massageava meu sexo com os mesmos lábios que outrora perseguiam algum suposto calor pelo meu corpo.

E assim o fez, excitando-me até onde minha compreensão seria capaz de guiar. Havia um sabor naquela boca que eu desconhecia, mesmo depois de todos os meus séculos de vivência. Era fascinante e apavorante.

Houve um chamado à porta mas ambos ignoramos. Logo, satisfeito daquela maneira, ele se levantou e acompanhou meus olhos que mesclavam as cores que eu conhecia – um erro que eu sempre, fatalmente, cometo quando estou excitado – mas em vez de assustá-lo, isso o deixou intrigado. Eu o beijava no ombro, na clavícula, no pescoço, no peito, no cóccix. Tomei sua posição e o imprensei na maca, apertando firme o que sobrara intacto do meu corpo contra o dele. Mordia seu ombro e suas costas conforme arrancava-lhe suspiros, desejos e sua calça. Uma leve mordiscada na cintura que causa aquele frisson fervoroso. Domado pelo pescoço e pelos cabelos, de costas pra mim, sendo maculado pelo desejo, ele pedia mais. Por um momento praguejou por não haver “proteção” para ir adiante quando eu, precavidamente, disse-lhe que havia em minha bolsa algo a ser usado. Novamente os olhos se incendiaram e então ele pedia para ser possuído. Naquela maca (que eu também já estou habituado a lidar) eu o tomei várias vezes e de várias maneiras, durante vários minutos.

Aquele corpo estava então já marcado além das pinturas pelas dores do amor consciente e era um conjunto maravilhoso de ser observado.

Após algumas horas talvez, saciados, conversamos sobre nossas vidas, posturas, interesses e coisas em comum. Ele se desculpou inúmeras vezes pela ousadia mas não se dizia arrependido. “Para uma primeira vez, há de haver mais outras. O que é bom torna-se um vício e um vício só torna-se perigoso quando não é saciado” – era sua colocação e eu a achei válida. Trocamos telefones e combinamos um café.

Finalmente tomei meu rumo de retorno, sem tatuagem ou piercings, mas com uma nova promessa de vida.




O sexo é um acidente: o que dele recebemos é momentâneo e casual; visamos a algo mais secreto e misterioso do qual o sexo é apenas um sinal, um símbolo. //Cesare Pavese