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3.30.2013

Compartilhávamos uma estrela, porém em locais diferentes


Quarta-Feira de um feriado comum. Resolvi cruzar a linha novamente e ousar interferir no que era humano. Mandei uma mensagem, aguardei pouco, o retorno quase imediato: sim.

Era um convite para um passeio até então aleatório, à noite. Combinamos às vinte horas para facilitar meu acesso às rodovias principais uma vez que o buscaria em sua residência. Claro, porque preciso da luz estrelada para poder caminhar em segurança e no conforto que as sombras me proporcionam. Nos conhecíamos há alguns meses, fruto de uma desventura traidora ação que eu cometera, em plena boda. E por várias vezes já havíamos nos encontrado, desenvolvemos uma certa dependência do que um não poderia dar ao outro. Engraçado, não?
Dormimos juntos, acordamos juntos, sofri com a luz matutina por causa dele e no fim, acabamos um em cada lado da moeda. Não como inimigos, nunca. Mas conforme citado, por que não tínhamos muito em comum a não ser o gosto pelo sexo. E talvez o desinteresse pela humanidade no geral.

Notei como se tornara fácil, ao longo dos tempos, tirar uma pessoa de sua casa mesmo quando se é um completo desconhecido. Antes, precisávamos de feitiços, artifícios, hoje basta um convite. Claro, quando preciso retornar às origens nada que uma boa sedução não se torne um jogo prazeroso e intenso. Logo, às dezenove horas chegaram e com o crepúsculo, pude tornar a despertar. Tomei uma ducha, me arrumei, telefonei confirmando, peguei o carro e parti em sua direção, em sua busca.

Pontualmente, às vinte, eu estava a aguardar do lado de fora de sua casa. Ele saiu, se despediu da mãe que veio com ele até o portão (provavelmente na intenção de guardar minha fisionomia e, antevendo isso, coloquei uma imagem falsa em sua mente), entrou no carro e beijou-me. Não esperava por aquele beijo, não havia intimidade entre a gente e não éramos um casal. Enfim, parti e demos início à nossa aventura.

Às vinte horas e vinte e sete minutos chegamos ao restaurante em que havia feito reservas. Jantamos – culinária japonesa – e então pensamos em dar uma pequena volta antes de nos dirigirmos de volta à casa. Ou talvez passarmos a noite juntos, ele pensava. Eu já havia feito planos para aquela noite. Convidei-o para um passeio a pé, num local em que muito gostava e lembrava minha juventude e ele prontamente aceitou. Dirigi até o local, evitando a entrada principal e ele não notou que estávamos em um cemitério reservado, mas muito conhecido e antigo, até que passamos pelo descampado e chegamos à área dos mausoléus. Ele estranhou o local, mas suspeito como sempre fora acerca da minha ‘individualidade’, não se queixou desde que eu prometesse não demorar por lá. Andamos a esmo, o cemitério tinha seu toque de sofisticação digna do século XVIII e apreciei a boa arte das construções. Então, de repente, cheguei ao local conhecido mas mantendo-me distante, esperava uma reação. Não obstante, ele notou que sob um antigo mausoléu havia meu sobrenome de família: me questionou sobre a coincidência. Neguei que fosse coincidência pois meus antepassados lá repousavam e, prevendo o acidente, disse-lhe que eu mesmo já descansava ali, há algum tempo, desde que me mudei para este Novo Mundo. Ele ou não entendeu ou achou incoerente pois sorriu, imaginando minha insanidade, talvez. Porém não imaginava que era verdade, era onde eu repousava quando me cansava das multidões e eras barulhentas que se seguiam. Então eu achei graça e sorri.

Olhei no relógio, faltava pouco para a Hora Negra e então, comecei a me descontrolar.

Questionei se não queria conhecer o interior do local e ver as pinturas que minha família guardava, estranhamente, ele aceitou. Talvez por medo, de relance vi que meus olhos, refletidos nos dele, pareciam brilhar como a luz noturna. Sede. Entramos no aposento que de fora esconde o real tamanho que se percebe ao entrar, andamos e pude mostrar-lhe. Surpreendeu-me sua sagacidade quando notou que na maioria das pinturas havia uma figura muito parecida à minha, em quase todas elas, mesmo das mais antigas. Senti que seu coração já começava a palpitar menos ritmado, mais frenético e, como música para meus ouvidos, aceitei aquele som de bom grado.

Intempestivamente, cerquei-o e o lancei contra a parede mais próxima, assustando-o mas a ponto de roubar-lhe um beijo. Ele temeu mas acabou sorrindo, era um destes homens em que a brutalidade – moderada – lhe excitava. Beijei-o novamente e mais e mais. Beijei seu pescoço e seu ombro, afastando parte da camisa que lhe cobria. Arrancando-lhe, beijei seu peito à altura do coração. Com a mão destra, assegurava que ele olhasse para cima enquanto o beijo o sedava, como um morcego que anestesia sua presa com as poucas toxinas presentes em sua saliva para se alimentar do que sorve. Sem que ele sentisse ou visse, pude perfurar-lhe o mamilo e beber seu sangue balsâmico, numa mistura agridoce que muito me intrigava. Deixei que sua sedação química diminuísse para que meu cantarolar o excitasse e assim comecei a cantar, num idioma que ele jamais conheceria eu narrei parte da minha vida enquanto jovem.
Ainda assegurando-me que ele não visse o sangue a escorrer, mordi seu pescoço e drenei. Ele estaria mais extasiado do que eu? Cheguei a cogitar. Algo dentro dele buscava a Morte já há algum tempo e minha decisão fora baseada neste conhecimento. Drenei até que ele não pudesse mais permanecer de pé com suas próprias forças, então me sentei no canto do mausoléu e coloquei-o em meu colo. Abraçado a mim, ele jazia enquanto eu bebia, indiferente. Sua vida era tão efêmera quanto qualquer outra, nada de especial. Seu sabor agridoce, bom, derivava da sua intensa depressão – algo que não me comoveu.

Por fim, morto em meu colo, me pus a chorar. Não entendo até hoje porque o fizera, mas sentia que absorvia parte da sua depressão e revivi então meus melhores momentos. Até os de antes de me tornar uma Fera. Lágrimas de sangue que vertiam dos olhos começaram então a pingar sobre ele, cobrindo-o e, para evitar que acidentalmente eu o revivesse dentro da minha espécie, corri a desmembrá-lo. Separei todas as suas partes e ateei fogo, numa espécie de balsa que havia dentro do mausoléu, como fazíamos com os holocaustos antigamente. Ele queimava mas ainda assim a minha tristeza não passava. Usando meu sangue como combustível, terminei com seus restos. Da pequena pilha de cinzas que sobrou, retirei um pouco e esfreguei em meus próprios rosto e braços. De uma outra pequena porção, corri até fora do local e deixei que o vento levasse. A porção que restou, deixei em meu próprio caixão que lá estava, guardado para sempre em minhas memórias e longe das vistas de todos os outros e para que assim, em solo santo, descansasse. Foi meu último gesto de generosidade para com ele. Voltei e me sentei onde estava antes, caído, sujo com suas cinzas e ainda triste, com a face numa máscara de cinzas e sangue. Meu sangue, que ainda se esvaía. Temi, mas acabei adormecendo sem preocupação pois o local jamais seria afetado pela Luz do sol vindouro. Naquele sono da manhã, eu o vi em minhas lembranças e era como se ele agradecesse o que eu fizera.

Logo, ao anoitecer, eu voltei à minha casa.



Sangrando, sangrando, minha doce Estrela.
Criando um universo em que caibamos e nossos desejos,
ardente, como que em flamas vermelhas delicadas,
repousa minha obscuridade vertiginosa.

3.26.2013

Do que se trata um sonho se não há Felicidade nele?


Era noite, como é agora, porém ontem. Ou anteontem, não me recordo. Chovia, também.

Estava eu a perambular pela minha própria vida, começando a adormecer - ao menos eu achava que estava. Pensei em como as coisas podem fugir do nosso controle e como as pessoas em si são efêmeras em nossas vidas. Ou não são, e nos levam a fazer loucuras por amor ou ódio. No meu caso, pelos dois.

Tinha um livro em minhas mãos, se bem me recordo. Ou era uma adaga? Tudo está tão caótico na minha lembrança agora. Havia um aroma que me perseguia e ainda não consegui descobrir do que se tratava. As Damas-da-Noite estão florescendo, provável, já que a Lua está para mudar.

Lembro-me de deitar em minha cama e lágrimas desciam-me aos olhos, mas não eram lágrimas comuns, havia fogo nelas. Um fogo líquido que eu já mencionara antes. Sentia minha pele arder e meu coração inchar como um balão de festas de aniversário. Lembro ainda de colocar os fones de ouvido e me propor a adormecer ouvindo alguma canção, era cedo ainda. Logo o sono chegou.

Durante o sono, me vi sonhando com a perseguição. Como um lobo segue sua presa pelo inverno europeu. Eu era o lobo, voraz e sedento não pela carne mas pela alma dele. Depois eu era como um corvo que o seguia apenas para agourar sua vida. Então eu era um verme gigantesco que se deliciava com sua carne morta, deitado no caixão ordenado. Por fim, eu era o demônio que exigia sua eternidade.

Recobrei a consciência, eu era homem novamente e estava à porta de alguém, não sabia exatamente quem até chamar pelo seu nome involuntariamente. Lembro da cor da sua varanda - verde-água - e de grades brancas que subiam na altura da cintura acima. Lembro que havia umas pequenas mudas de rosas em um canteiro e um cheiro de laranja-da-terra, barro, crisântemo e jasmim. Chamei seu nome novamente e eis que, àquela hora da madrugada, ele me atendeu, aturdido e desacreditado. Aproximou-se de mim, ao portão, questionando minha presença. Pedi o convite para entrar, ele hesitou. Pedi novamente e ele cedeu.

Daqui em diante só me recordo de cenas e um borrão inunda minha memória: com a velocidade de um ciclone eu entrei, agarrei-o fortemente, imobilizando seus movimentos. Beijei sua boca ferozmente e contra à sua vontade, desci com minha língua até seu pescoço e uma veia pulsava, quase que chamando por meu nome. Rasguei sua jugular com minhas presas e bebi até me fartar e engasgar, enquanto sua própria vida escoava e se juntava à minha. Bebi parte do seu cerne, mas o deixei ainda consciente - um pouco, queria que ele testemunhasse o erro que foi me convidar a entrar. Arrastei-o até o interior de sua casa e o movimento fez com que sua família se exaltasse. Na mesma velocidade, quebrei o pescoço de sua mãe com um gesto simples, para que não sentisse dor e rasguei seu pai do abdome para cima, após enfiar minhas unhas em suas vísceras e dilatá-las forçadamente. Havia sangue por todas as partes, isso colocou-me em frenesi. Levantei-o, o pouco que sobrara da sua vida e o beijei novamente, forçando seu pescoço para estancar a hemorragia já que minha intenção era beber ainda mais, de lugares diferentes, e assim o fiz. Bebi do seu peito, do seu pulso, da sua coxa, da sua boca e voltei à jugular. Já exangue, seus olhos se tornaram pálidos e enevoados, sua boca não mexia, completamente destroçada pelo meu beijo. Para não dizer que ele se foi sem dizer nada, uma única frase soou de sua boca, com muita fragilidade: "- Eu ia amá-lo, se tivesse me dado tempo". Eu sorri abertamente, quase como um monstro. Mais, exatamente pior que um monstro e mais alto que um demônio faria. Segurei novamente seu corpo e me juntei a ele, agarrando-o fortemente num abraço culposo.

Então despertei, exaurido do sonho e temeroso, nauseado e com dor de cabeça.

Porém, ao despertar, continuava a sentir aquele aroma inebriante e ferroso. Olhei as horas no despertador, quatro e quarenta e seis, tiquetaqueando. Levantei o lençol e pretendia ir ao banheiro jogar uma água gelada no rosto quando senti algo úmido. Passei a mão ao longo da cama e havia algo desconfortante lá. Acendi a lâmpada do abajur e eis que o corpo estava deitado junto a mim e a cama era uma sopa de suor e um pouco de sangue - o que havia coagulado dele.

Nada daquilo era sonho. Eu o matei e fiz com prazer. Matei seu corpo, sua familia, sua alma e seus sonhos e nada me deixou mais feliz. Voltei a dormir, deixando tudo como estava, mas agarrado ao cadáver como um boneco.



"Quando um louco lhe parecer completamente lúcido - eis a hora de colocar-lhe a camisa de força."
Poe, E. A.