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5.30.2015

Eu espero que essa mensagem chegue onde precisa

Era sábado, resolvi criar um perfil numa rede social qualquer para poder distrair a mente com infantilidades e casualidades que de nada me acrescentam. E assim, acabei ratificando minha má decisão de fazê-lo. Porém, acabei conhecendo alguém muito interessante neste intervalo.

Fizemos amizade e aos poucos fomos nos conhecendo, ao longo daquela semana. Soube de sua profissão, seus hábitos diários, sua família, sua história de casamentos anteriores e suas tragédias. Apresentei-me pouco durante este tempo, é sempre a ênfase de conhecer, nunca de apresentar por si só. Falamos e falamos, confidenciamos, trocamos fotografias inocentes e íntimas, enfim, criamos uma base ainda que instável. À esta altura ele já parecia apaixonado, pelo que dizia e pelo que fazia. Criamos planos para nos encontrarmos no próximo fim de semana. Também o fizemos.

Na última sexta-feira nos encontramos em um shopping conhecido, comemos em um bistrô japonês de má qualidade, conversamos mais, assistimos um filme no cinema e por fim nos beijamos. Nos beijamos mais durante a sessão e na hora de despedir ele me convidou para sua casa. Havíamos combinado que deixaríamos isso mais pra frente, pra nos conhecermos melhor, porém não conseguimos aguentar a tesão nem a tensão que haviam se instalado em nós. Fui com ele até sua casa por um caminho que até então eu já conhecia de relacionamentos anteriores.

Chegamos, continuamos agora já na intimidade. Transamos, conversamos, rimos, tomamos banho, fizemos planos. Passei a noite em claro ouvindo sua respiração, abraçado a ele. O dia amanheceu e lá estávamos nós, ainda unidos. Conversamos mais, transamos novamente. Tomamos banho, café, assistimos televisão, conversamos. Verdade, houve bastante conversa entre nós desde o começo. Dada a hora, precisava voltar para minha própria casa. Fiz o caminho ainda na expectativa, na esperança de que isso fosse real. Aqui eu já sentia que alguma coisa teria de dar errado.

Cheguei em casa, agi minha vida. Mantivemos contato durante aquele dia. O sábado se foi e o domingo veio. Mantivemos um contato mais esporádico naquele dia até porque havia compromisso na minha agenda.

A segunda-feira veio e ele sumiu. Não deu sinal, nem se preocupou um bom dia. Falei, fui ignorado, insisti e por fim obtive resposta, já na terça-feira. Ele havia desistido porque ainda se sentia atraído pelo ex namorado. O mesmo que atrasou boa parte da sua vida, que o fez chorar, se machucar, se corromper. Apaixonado por um lixo humano (que não é exceção, afinal) e eu fui descartado, com a falsa promessa da amizade que perduraria. Não nos falamos desde então.

Aqui eu crio um eixo porque o que me machuca não é a rejeição per se e sim a idiotice humana chegar a esse nível. Fato, depois de umas conversas com meus demônios, soube que a história pode não ser tão simples assim e que na verdade esse ex pode não ser ex e eu apenas fui um objeto de corrupção – como já fui anteriormente e continuarei sendo. Fixei-me no pensamento e nas lembranças de ter dito algo errado, feito algo errado, querendo assumir toda a culpa pelo que aconteceu e cheguei à conclusão de que não sou culpado. NÃO SOU O CULPADO!

Contabilizando este, seria a terceira vez que sou tratado como corruptor e, logo após essa conclusão, aconteceu novamente.

De fato preciso me distanciar mais ainda da humanidade.


Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência. Quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre. //Arthur Schopenhauer



10.12.2014

Descartabilidade


Certo estou de que algumas mensagens jamais precisam chegar aos seus destinos, mas, por vezes, tenho vontade de tentar enviá-las. Lembrando também na eterna dúvida sobre "um presente não aceito pertence a quem o remeteu, a quem não o recebeu ou a ninguém e isso o deixaria ao Cosmos"? De fato, tenho tanta coisa presa na minha alma que expor tudo isso causaria uma batalha de mil dias contra mim mesmo.

Tanta informação de tantas pessoas a tantos amores. Tantas histórias vividas e mais ainda as não vividas, que os deuses tenham misericórdia da minha sanidade. Contar aos que amei e ainda amo sobre nossos futuros perfeitos, nossas aventuras dentro e fora deste mundo, minhas pretensões, minhas intenções, minhas segundas intenções, minha disposição. Tudo alquebrado pela ausência de oportunidade de escrever. Começar um diário que elucidaria meu futuro não é permitido também.

Existe uma vontade e uma dedicação daqueles que nasceram sob a Estrela da Solidão que os eleva ao padrão de estrelas também - sempre distantes uns dos outros por segurança. São como estrelas, como navios, como feras selvagens, como cauda e cabeça - permanentemente distantes, até desconhecidos um ao outro. Percebo que existo para dar alguma razão à vida das pessoas, ainda que uma razão de conforto ou ciência de que o que sou, não lhes basta. Ou ainda que, sendo o que eu sou, devem manter cautela. Confesso que não sou único neste quesito mas talvez um dos que se expõem mais radicalmente. Minha 'descartabilidade' só é comparada à enorme presença maligna que eu causo às pessoas. Intrigante, não?

Posso ver o futuro, outros mundos, outras entidades, os corações humanos e não-humanos, não preciso de ar ou água. Posso estar em vários lugares ao mesmo tempo e posso saber de coisas que não deveria poder. Posso me reabilitar de várias situações, sou intangível ou maciço quando preciso, sou absurdamente velho e ainda assim inexperiente. Não consigo adoecer e morrer. Não posso perceber todas as nuances de cores mas o vermelho nunca me escapa. Tenho vários de mim dentro de mim mesmo e comando Legiões. Posso criar e destruir. O mais importante, então, eu já não posso. AMAR. Ou talvez o amor seja algo inexistente ou intocável para coisas como eu, afinal. Percebo que vislumbrei o 'amor' por pessoas que já perdi e que não poderei ter mais tão cedo e sei também do amor delas para comigo. Serei sempre algo que passou em suas vidas e não haverão lembranças suficiente de mim, incrível, não?

Inúmeras vezes eu já havia sido advertido disso por meu maior amigo mas nunca me dei conta, até agora, da volatilidade das pessoas. A maioria delas trata-me como um gênio, algo que só precisa ser acionado quando necessitam de um favor ou de ajuda. Há décadas eu não sou bem-quisto por alguém, imparcialmente. Alguém que me queira bem e que me queira de fato.

Eu afasto as pessoas. As pessoas me temem. Me julgam pelo que sou sem saber que não tenho outra opção. Eles me machucam, conscientes disso. Eles me forçam a fazer coisas que não quero, tentam me seduzir à maldade. De fato, as pessoas estão tão absortas de si que não reconhecem sequer quando alguém lhes quer fazer o bem e isso é lamentável.


Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. //Clarice Lispector
Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto. //Francis Bacon
A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais. //Arthur Schopenhauer

9.15.2013

I see my destiny - Rak Haeng Siam - The Love of Siam


- It's like when we were younger, we were so lonely because we didn't have a lot friends. And now that we are grown up, loneliness seems just so much worse.

- Why is it so bad for you?

- I don't know how to explain it. It started during the summer when i was in 8th grade.
...
- So i have one question: if we can love someone so much how will we be able to handle it the one day when we are separated? And, if being separated is a part of life, and you know about separation well, is it possible that we can love someone and never be afraid of losing them? At the same time, i was also wondering, is it possible that, we can live our entire life without loving anyone at all? That's my loneliness.

+++

- É como quando éramos jovens, éramos tão sós porque não havia um monte de amigos. E agora que estamos crescidos, a solidão parece ainda pior.

- Por que é tão ruim para você?

- Eu não sei como explicar isso. Tudo começou durante o verão, quando eu estava na 8 ª série.
...
- Então, eu tenho uma pergunta: se podemos amar tanto alguém como seremos capazes de lidar com isso um dia, quando estivermos separados? E, se a separação é uma parte da vida, e se você entende bem sobre separação, é possível que possamos amar alguém e nunca ter medo de perdê-lo? Ao mesmo tempo, eu também queria saber, é possível que possamos viver toda a nossa vida sem amar ninguém, afinal? Essa é a minha solidão.



Mew - The Love of Siam - Rak Haeng Siam
Chookiat Sakveerakul

8.02.2013

Lettere ao amigo há muito derrotado, porém não ausente de minhas memórias e apreço


Caríssimo amigo Buer,



Escrevo-te após todo este tempo passado, desculpando-me pela ausência de minhas epístolas. Ando tão atormentado e pusilânime que faltam-me forças até para redigir-vos. Tenho tanto a dizer-te que nem sequer sei por onde devo começar. Começo pelas novidades amorosas e sentimentais, pela raiva que esta situação mesma anda me provocando, pelos infortúnios da vida humana, pelas preocupações que me acercam ou questionando como anda vós?

Tratarei de não ser altruísta e falarei de mim, portanto, ao começar.

Desde que meu antigo amor deixou-me, venho sofrendo de amnésia, meu caro amigo. Não daquelas percepções errôneas que sofremos esporadicamente, não, algo mais severo. Algo que se mescla com meu passado emaranhado ao meu futuro e acerca de fatos premeditados. Está deveras complicado acalentar minha consciência ultimamente, parece-me que ela tem obliterado meu senso de julgamento. Tentei abstrair-me de mim com músicas, composições literárias, novas intenções, desejos, café, distrações mundanas e fugazes. Não estou sendo feliz no empreendimento!
Há dias que n'alma me tem posto um não sei o quê,
Que nasce não sei onde,
Vem não sei como e
Dói não sei porque. // Camões
Divago entre a leviandade e a plenitude, a cada alvorecer. Tento atrelar minha sanidade em pequenos recomeços, ao amanhecer, visando assim uma estabilidade emocional ainda que deflagrada, submissa. Houve um ínterim romântico neste período, amado amigo, que mais me rendeu preocupações e dívidas do que companheirismo e cumplicidade. Fui enganado por diversas vezes seguidas, vê amigo meu, que reviravolta exemplar do destino? Coube a mim um desfecho não muito agradável uma vez que notei que estava me tornando vítima - em diversas aceitações, devo salientar - numa relação que não havia fundamento e sede de manutenção. Eis que hoje estou refazendo o que posso, confessando o que posso, criando o que posso e reverberando ainda na questão de não querer terminar sozinho.

Muita coisa mudou, precioso amigo. Da vida humana à celeste. Falemos da celeste.

Bom, parece que meu posto está ainda vago pelo que ouvi de meus irmãos. Passado todo este tempo Ele ainda não conseguiu alguém que fosse capaz de aguentar o peso imenso que eu suportei. E pensar que Ele não nos fez insubstituíveis, oras. Ainda estes irmãos me perturbam, cumplice, sobre as coisas da vida. Alguns me procuram com ameaças sobre ruínas da Cidadela de Prata (recorda ainda da magnificência da nossa vizinhança?), outros apenas vem aprender (e questionam-me sobre a Abdicação), poucos tentam se manter incólumes e ocultos e uma mínima parcela ainda se mostra leal a mim e aos meus preceitos. São estes últimos que me dão força, compadre. Inclusive, um amigo em comum, mais próximo seu do que meu, esteve recentemente vigiando minha nova aquisição. Fiquei intrigado com a posição dele, enfim. A cada dia perco mais e mais minhas forças, definho a nove vezes nove, em matéria celeste ao passo de que minha forma humana exerce maior influência neste mundo. Sabe, meu caro, que por noites eu me arrependo de ter descido? Me descubro reconhecendo que aquele por quem desapercebi de toda minha posição e força, que sequer anda mais por esta terra, não mereceu o que deixei. Tudo, meu amado, que eu podia antes se mostra mais complexo e delicado agora. Não porque perdi em absoluto minhas capacidades, mas porque estou perdendo meu juízo celeste e, ao passo que minha presença se torna maciça, meu discernimento encolhe e regride. Vês que derrota sofro antes mesmo de lutar? Não vou me render e não pretendo tão cedo voltar, mas, temo também deixar esta bomba em contagem regressiva. O que me aconselhas tu, nobilíssimo Leão?

Na minha vida humana, bom, como já disse, estou empreendendo um novo romance. Ele é deveras belo, o jovem, mas é tenso, frágil, volátil, temeroso e ausente. É sagaz, devo salientar, e me sinto confortável em abrir parte da minha outra vida com ele - mesmo que omitindo origem, vivência, capacidades e afins, seria muito, não? Recorda-te do último a quem nos revelamos? Tentei a abordagem de não mentir, apenas omitir, e revelar o que for questionado. Tem dado certo até agora, mas em dias como ontem, hoje, amanhã, bom, sinto que minha tensão sobrepuja qualquer intenção boa que eu possa ter. Temo que eu possa estar fazendo mal a ele de muitas formas diferentes, só por estar presente. Acha que devo me desvencilhar desta relação enquanto é cedo? Acredita que possa dar certo? Tu ainda tem o dom da visão, não? Diz-me que rumo tomar nesta questão? Afora isso, no âmbito profissional, nunca me vi tão absorto e supérfluo. Tanto que chega a me incomodar, tendo visto meu passado de demasiada atenção ao trabalho braçal e intelectual. Os humanos tem um ditado que diz "sorte no amor, azar no jogo" e que pode ser o oposto. Bom, eu passei por um momento de solidão amorosa que coincidiu com minha elevação profissional. Agora, estou engendrando nova relação, será que perderei os benefícios portanto?

Ainda me isolo, caro andador amigo, mais tempo do que devia. Eu mesmo reconheço. Me isolo no mundo da música, da literatura, da simples arte da alienação e, por mais que tenho evitado, acabo me voltando para o outro mundo eventualmente. Algumas vezes penso em ir vê-lo, logo recobro a sanidade e me recordo do porquê não poderia. Então penso em convocá-lo e novamente caio em mim. É mais do que evidente que eu sinto tua falta mais do que qualquer um. Tu eras a única e pouca família que eu já me orgulhei de reconhecer. Fico pensando na tua calma, virtudes, sabedoria, inteligência, humor, sagacidade e bem-aventurança. Tudo isso sempre vai me remeter a ti e à tua sublime figura. É notório também, caro amigo, que eu queria mais do que este mundo pode me dar e não sei mais como extrair vida dele, quando passo a maior parte do tempo desejando não estar mais nele.

Enfim, acabei redigindo mais do que queria. Sei que menos do que tu gostarias de ler, afinal sempre devorou minhas palavras com tanto afinco, meu mais precioso ouvinte e leitor, que contemplava seu interesse com minhas lágrimas. Neste momento eis que estou solitário, pensativo, resiliente no que posso ser, categorizando e avaliando cada probabilidade possível de uma saída verdadeiramente sadia a tudo que venho passando, nestes últimos tempos. Gostaria de um retorno teu, amigo. Da maneira que achar melhor. Apenas lembre-se de que eles não estão acostumados à tua figura então, caso resolva aparecer em público, estejamos preparados para estacas, gadanhos, foices e tochas, além claro de cruzes e orações das mais variadas possíveis (risos).



Terminando, eu o adoro. E espero que minha mensagem chegue a vós.


Do teu mais terno amigo,
L.

3.25.2013

Íilya, especialmente


"Pensando como um pobre andarilho estranho..."

Fico imaginando como teria sido minha vida se, ao final da Era Média, eu tivesse optado pela redenção e seguido o caminho que meu melhor amigo - na época - se forçara a seguir. Eu o amava como só um amigo de eras amaria. Nos conhecemos em meados do século VII quando por acidente eu esbarrei com ele numa taverna, na antiga Holanda. Eram tempos fáceis aqueles em que haviam tantas mortes e desaparecimentos que ninguém dava por falta de nossas vítimas. Lembro-me exatamente do momento em que o vi: belíssimo, alto como um nativo, olhos pálidos azuis de uma brancura enevoada, um corpo másculo de possível origem camponesa, uma boca deliciosamente rósea mesmo após a morte. Havia um traço nele inconfundível de perturbação com um novo mundo que estava descobrindo.

Eu saía da taverna no exato momento em que ele entrara, pois temos, como regra, a não interferência nos domínios de nossos companheiros de espécie e eu, mesmo sendo quem era, não usaria deste fato para interferir com o Conselho caso houvesse alguma rixa. Talvez a cerca de umas cinco milhas eu já sentia o aroma da morte e portanto, resolvi não permanecer. O mesmo aroma da morte me cativava de uma forma estranhamente familiar, como se eu conhecesse o possuidor. Por vaidade (e por que era no meu tempo de querer conquistar minha individualidade) permaneci no ambiente até poder vê-lo. Curiosamente, ele não deu pela minha presença, o que me chocou: ou era confiante demais ou tolo demais para se permitir a isso, sabendo que se fosse um caso de tomar posse dos domínios dele eu o faria sem hesitar e com facilidade ímpar.

Acompanhei todo o momento em que ele entrava, se assentava numa mesa próxima e instantaneamente, várias mulheres tomavam seu caminho e se assentavam com ele. Deveria ser menos evidente - eu pensei. Mais incógnito, menos expositor. Acompanhando seus olhos, notei que ele realmente fazia daquele momento algo particularmente necessário para se manter vivo naquele lugar. Como se quisesse que ninguém desse por sua falta. Talvez até fosse alguma personalidade importante para o vilarejo, antes de ser tomado pelo beijo das Trevas, e queria continuar assim. Isso fascinou-me deveras.

Por curiosidade, novamente, resolvi ler o que as presentes pensavam e em um devaneio, entendi o motivo de tanta submissão: ele pertencia ao clero - paradoxalmente - antes de se tornar um de nós. Mesmo jovem, já era o padre responsável por toda aquela região e as pessoas notavam sua aparente mudança de humor como um sinal de alerta e automaticamente faziam dele algo valoroso e interessante. Um clérigo que de repente se entrega aos prazeres do mundo sem motivo aparente, realmente era fascinante se olhasse de fora. E ainda após todo este tempo, ele me ignorava por completo, rejubilando-se em meio aquela orgia emocional das jovens e dos homens em seu meio. Um artista - eu pensava.

Neste momento, exausto pela apresentação do companheiro, realmente retirei-me do estabelecimento. Andei em direção à uma viela mais próxima, me preparando para tomar as nuvens, quando o senti se aproximar. Parei e aguardei. Ele veio até mim, curvou-se e se apresentou: chamava-se Íilya e tentou contar mais da sua história. Eu disse que não precisava pois o mais importante já havia colhido de uma de suas 'acompanhantes'. Ele corou (provavelmente havia bebido de alguma delas e o sangue roubado corria por suas veias vazias e imundas). Ignorei-o, virei-me e tomei as nuvens. Olhei para trás por um instante e vi seu pavor ao me ver fazendo isso. Porém, não demorou e começou a correr na mesma direção que eu seguia, me perseguia, até então não me deixando entender o porquê. Geralmente, os assustados correm em direção oposta, claro.

Seguiu-me por um bom espaço até que, por curiosidade, baixei e fui ter com ele. Sua expressão de fascinação elevou meu ego - lógico - e pude comprovar que nada do nosso mundo lhe fora apresentado ou era familiar. Durante uns cinco minutos ele permaneceu impassível, apenas contemplando, como que olhando o céu e logo olhando a mim. A única palavra que disse depois disso foi: "Como?".

Acredito que o tenha olhado com desdém pois sua aparência parecia de alguém envergonhado. Nem todos nós temos os mesmos dons, partilhamos alguns e afloramos outros que já eram, particularmente, nossos desde que nascemos e que precisavam apenas do estopim para deflagrar. O dom das nuvens, costuma ser adquirido pelos mais velhos e raramente um jovem consegue. Ele era um jovem, mas parecia poderoso. Seu criador deveria ter sido um poderoso e ou não compreendia o dom ou nunca comentou com sua cria sobre as circunstâncias que nos fazem mais fortes ao passar da eternidade. Outro fato é que, quando criamos, escolhemos de certa forma o que passamos à geração. O seu criador por medo ou por alguma lição desnecessária, pode ter omitido estas qualidades na sua cria. Enfim, nunca saberei ao certo.

O que sei é que ele começou a me encher de perguntas tolas porém a primeira delas foi a essencial: "Há quanto tempo o senhor é o que é, godheid?". Eu sorri, era realmente uma criança e, a julgar pela sua educação religiosa, muita coisa havia mudado. Não respondi, logicamente, mas meu sorriso o deixou menos desconfortável. Por fim, acabei me interessando pela figura e resolvi dar-lhe o voto de confiança necessário para trazê-lo até meus domínios. O convite foi prontamente aceito e, segurando-o pela cintura, o tomei mais perto e novamente estávamos nas nuvens. Pedi para que fechasse seus olhos (afinal não poderia me arriscar com seu conhecimento sobre minha morada) e em menos de alguns segundos já estávamos no chão. Notei que pequenos cristais de gelo se instalaram em seus cabelos e cílios e me dei conta de que ele poderia não estar preparado para a altitude e que seu corpo talvez não fosse tão invulnerável. Isso me colocou numa delicada sensação de culpa até o momento em que ele abriu os olhos e sorriu. Aparentemente ignorou a congelação infernal e trocou os sentimentos para algo palpável, que era a fascinação. Em minha morada, antes que eu oferece um tour, ele já havia corrido por todos os cômodos e aproveitado cada pequeno espaço do local. Novamente sorri e o que me veio à mente é que, lembrando que pertencia ao clero, não estava acostumado aos confortos da vida. Ou da pós-vida.

Sentei em minha poltrona favorita daquele lugar e aguardei, pacientemente, que sua fúria infantil acalmasse e pudéssemos ter uma conversa. Me interessava saber quem o havia feito e porque o havia abandonado, sendo evidentemente tão belo e com um potencial ainda não explorado. Horas mais tarde, ele se acalmou e continuou com suas perguntas infames sobre idade e poderes que continuei evitando. Mandei que se calasse e perguntei eu, quando ele, delicadamente tirou a gola que cobria seu pescoço e se ofereceu à minha bebida. Sabíamos que assim seria mais rápido, mas sempre fui a favor de uma boa conversa entre homens. Ignorei o movimento e novamente perguntei, senti que ele corou (talvez já tivesse usado deste subterfúgio com outros antes de mim, não me interessava). Logo, ele me contava uma breve história sobre sua criação e abandono. Notei que acertei quando o defini como de origem camponesa, seus pais o eram, e o entregaram a um bispo que passava por suas terras para a criação. Queriam que ele fosse um grande padre para que pudesse ajudar as pessoas da vila (era uma época em que só o Clero continha o poder de todas as esferas). O bispo, mais interessado no jovem menino do que na intenção, aceitou-o e levou-o consigo. Mesmo abusando dele, acabou por ensinar-lhe os preceitos (os mesmos que não seguia) e anos mais tarde, o levou à Catedral para sua ordenação. Logo em seguida, o bispo falecera vítima de um dos jovens que ainda mantinha, morto por veneno em sua comida. O recém-ordenado não se comoveu tanto quanto esperava. E seguiram assim suas obrigações para com a Eclésia atual. Passados mais alguns poucos anos, conseguira a permissão de voltar à sua terra e prosseguir com a orientação do rebanho local. Voltou e descobriu seus pais mortos, há bastante tempo e isso sim o afetou deveras. Não viveram o suficiente para ver seu filho como o padre que sempre esperavam. Não era comensurável sua obrigação para com a igreja mas em seu coração, algo mudara. Não se sentia um bom padre, um bom homem ou uma boa pessoa e passou então a vagar durante a noite, sentava perto de uma construção abandonada e escrevia suas memórias. Uma certa noite ouviu um sorriso macabro vindo do interior da construção e tratou de averiguar. Parecia que vinha das paredes e de todo o lugar ao mesmo tempo, como se estivesse vivo. Logo, uma figura alta e com uma aparência de altivez insana o encarou, com um largo sorriso na face. - Eu o conhecia, mas nomes não são importante e agora sei o porquê do abandono do jovem iniciado. Era um de nós que não se adequava às regras, um menor, que o Conselho já havia banido e que andara perambulando e apenas dando trabalho aos nossos demais. Porém, mesmo sendo menor, era antigo e consequentemente forte. Abateu todos os que cruzaram seu caminho até que, por fim, a missão foi dada a mim. Pude ver sua felicidade enquanto queimava na pira que fiz com seus restos e sua alma desengonçada pairava rumo ao Limbo. Ele apenas provocava a sua própria morte mas não poderia morrer por si só, suas intenções vis e sujas eram simplesmente um meio de provocar os outros para que, um no final sendo mais poderoso que ele, acabasse com seu sofrimento de viver eternamente. Não fui um herói por isso, nem me considerei, apenas tive pena dele e, passado todo este tempo e nos dias de hoje, em pleno século XXI, é um dos que me lembro com mais clareza de expressão.

Bom, ele havia interceptado o jovem padre e brincado com ele, subjugando-o. Por fim, bebeu dele e o tomou. Deu de beber de seu peito e fez de Íilya um de nós. Ficou com ele tempo suficiente para abandoná-lo antes de ensinar-lhe algo valioso e Íilya ficou à mercê do mundo novo que ainda desconhecia. Com uma certa piedade que não era comum em mim, acolhi Íilya pela história que ele me contara.

Íilya acabou se tornando uma companhia valiosa nos períodos de solidão do meu coração e falávamos sobre tudo. Aos poucos, eu lhe contava histórias antigas e ele, fascinado e com este sentimento que aprendera enquanto estudava, sempre ansiava por mais. Ele era diferente dos errantes simplórios que eu já encontrei pelo caminho, havia cultura nele. E sede de conhecimento intelectual. Muito tempo se passou desta forma e acabamos amigos. Íilya saia todas as noites até as bibliotecas e museus, buscava contato com os intelectuais das épocas (mesmo na era Média, havia alguns a se recorrer) e acabou influenciando muitos outros com suas pesquisas. Claro, sem nunca dar detalhes de onde as conhecia e sem nunca se apegar demais a um ou outra. Eu inveja sua interação com o mundo porque ele acabou sendo meu elo com o exterior. Todas as noites, quando voltava de suas caminhadas, ele contava-me tudo o que havia aprendido e o que havia passado. Durante este tempo eu tive amores, Íilya nunca se importara, porém ele sempre se dedicou à perspectiva do mundo que estava mudando. Enfrentamos muitas brigas juntos durante os séculos que vieram e então, quando já no final do XIV ele se decidiu por partir. Estávamos no final da Era das Trevas e ele via um horizonte, o aconselhei a declinar pois seria perigoso e nossa principal obrigação era sermos incógnitos. Claro, mais na tentativa de que ele permanecesse comigo do que possível, eu sentiria sua falta.

Novamente, tomado por uma piedade que não me pertencia e tendo Íilya como um filho, aceitei sua decisão de voltar ao Clero. Até então, muito eu já o havia ensinado sobre nossos dons e nossas obrigações, assim como o que ele precisaria aprender sobre o que eu já sabia mesmo antes dos seus antepassados nascerem. O levei até Avignon, na França, para que se juntasse aos seus.

Regularmente nos correspondíamos e logo fiquei sabendo que se tornara amigo de um monge beneditino, chamado Pierre Roger, se não me engano. Nunca confessou sua origem, mas eram amigos e conversavam sobre particularmente tudo, Íilya parecia fascinado com as ideias do monge e participava as suas a ele - mesmo sendo um período particularmente delicado para a igreja. Acompanhei de longe o que se sucedera, na época eu já estava no Mundo Novo. Passados mais uns anos, recebi uma epístola de Íilya que dizia que seu amigo havia se tornado a maior autoridade dentro da Eclésia e adotado um novo nome - Passara a ser Clemens sextus, ou Papa Clementino Sexto - e isso me fascinou. Continuei observando e notei como parecia ser uma boa pessoa e pelos seus modos, notei que aprendera muito com meu adorável amigo Íilya. Por fim, sua história estava desenrolando.

Ficamos muito tempo sem nos falarmos até que eu mesmo fui à nova sede da igreja, depois dos conflitos, atrás de Íilya. Não o encontrei. Não nos correspondemos mais, nunca mais soube dele. Mais recentemente, encontrei um amigo (humano, arcebispo) que me sugerira onde poderia estar meu amigo mas, por opção, o deixei e deixarei seguir sua vida. Bastava-me saber que ainda estava entre nós.

Caso esteja me acompanhado, doce, adorável e verdadeiro companheiro, procure-me. Talvez não me reconheça mas neste novo mundo, precisei mudar para me adaptar. Na nossa época era tudo mais fácil porém descobri facilidades também nestes dias. Ignore as regras, como já fizemos e venha ter comigo. Aprenda a sentir o aroma e conecte-se, venha até mim. Ou escreva, preciso apenas ter a comprovação de que está bem e são, que a nova entidade que se tornou a igreja não o corrompeu. Estarei sempre disponível a você, quando você vier. E me perdoe se expus nossa história, desde o começo era a intenção de trazê-lo até mim nesta hora escura em que todos me faltam. Me perdoe.




Yours,

Lean.

Ps: Agora me chamo assim, mudei meu nome mais uma vez. Esperto como você sempre foi, note a inicial, o anagrama e veja que o que falta, é exatamente como você costumava me chamar.


3.11.2013

Where is my Mind?


"- E o bom filho a casa torna."1

Na última noite, muitas coisas me colocaram numa posição difícil. Vi muitos casais felizes, juntos, cúmplices, enamorados, se beijando. Vi amor verdadeiro, amor passageiro e vi paixão. Vi sentimentos superiores, vi preocupações, significados e vi animosidade. Talvez inclusive faça parte do que se chama amor.

Coloquei meus melhores olhos ontem, quando decidi interagir com o mundo novamente. Provavelmente eu errei, mais uma vez, pois não consegui me manter e acabei abstraído e traído pelas minhas próprias feições e trejeitos. Logo, não foram poucos os que perceberam que eu estava descontente e me sentindo inadequado aquele local. Devo confessar que não era minha intenção ser tão evidente, mas não pude suplantar as memórias e boas lembranças.

Por instantes me vi como eles: enamorado, unido, beijando.

"- Saberá que é amor quando te perguntarem o que é isso e você não pensar num significado mas sim, num nome."2

Foi o que acontecera. Enquanto me deliciava do moderno hidromel - que Odin esteja conosco - eu criava uma outra linha do tempo. Uma em que eu, sem receios e olhares subversivos, podia amar sem medidas. E provar daquele amor. Me sentia mudando, colocando Fé naquilo que acreditava, me sentia bem e maior do que sou realmente. Olhava para todos os lados e via sempre duas personificações do Senhor Tempo. Me via, via meu mundo e, não obstante, via o mundo deles. Como nossos mundos.

Podia me ver com eles, sem eles, com o que eu mais queria naquele momento e que o nome guardo à mostra. Pensei em como seria caso ele estivesse ali comigo, entre os meus. Acredito que, no mundo deles, haveria desconforto mas, no mundo que eu criei não. Podia ser quem eu realmente era, sem medo. Não só medo pelo que optei amar mas pelo que refreio a todo instante dentro de mim: meu instinto. Não é só questão de índole e criação, é instinto. Chega a ser rude a forma com que me trato mas não me importo. Se para merecer um décimo do que tenho eu preciso ser um centésimo do que posso ser, que seja.

Não se trata aqui de uma história triste ou pequenos fragmentos de uma tristeza ímpar, não. É algo já enraizado que vai além da simples questão de cair enamorado. É a expressão, a liberdade, o conforto, a interação. Tudo isso faz com que percamos a esperança de uma felicidade, mesmo que momentânea. Uma mente mais sábia que a minha disse que "cuidado com a Tristeza, ela pode se tornar um vício"3 e foi rebatido com "a Felicidade não pode ser eterna. Ninguém pode ser sempre feliz pois se precisa de alguma tristeza - mesmo que eventualmente - ao menos para causar o contraste e assim, desta forma, equilibrar"4.

Logo, estou eu mais uma vez triste pelo que não posso fazer. Pelo que não tenho e que sinto que nunca terei. Eu o observei atentamente, mantive meu coração encarcerado, mas só o fiz até seu primeiro sorriso. E então, neste momento, eu caí de amores por algo que ainda desconhecia. Ao menos, achava desconhecer, por que no fundo eu sempre o sentia. Sempre o conheci, sempre e talvez o amei. Contei histórias antes da forma que sempre faço, para parecer ficção pois os que me leem não aceitariam meu 'modo de vida'. Não acreditam na minha raça, no que podemos fazer, logo, o que pensariam ao saber que eu sou ainda maior que eles supõe?

"- Nem meu doce suicídio poderia competir com seu doce adeus."5

Fiz programas, pensei em inúmeros encontros casuais, escrevi mensagens, redigi memórias. Fiz tudo o que um homem poderia fazer em busca de amor e não obtive êxito. Chorei sozinho e chorei na frente de pessoas que sequer notaram. Tentei compartilhar parte de minha dor com amigos, na esperança de uma forma de acalento mas eles sequer ouviram-me. Falei com meus amigos imaginários, minhas personalidades, meus olhos e só assim consegui me manter até agora. O Tempo passa enquanto penso e escrevo e não sei se vou conseguir me aguentar por mais uma era. Passei por tantas...

"
e quando o amor veio a nós pela segunda vez
e mentiu para nós pela segunda vez
decidimos nunca mais amar novamente
isso era justo
justo com a gente
e justo com o amor mesmo."6

Não deixo de pensar nele nem um instante. Imagino vidas, pessoas, lugares, as coloco em ordem e desordeno tudo depois, apenas para ter o prazer de refazer minha intrincada solidão. Ontem, enquanto via os amantes, eu só pensava nele. Nele e sua doçura. Nele e sua brancura. Nele e sua sede de conhecimento e fome de poder. Nele e sua ingenuidade tão singela quanto uma pétala de petúnia. Pensava nele como criança, minha criança, como meu amor, meu amante, meu amado, meu homem, minha mulher, meu coração e minha existência. E que os deuses nunca permitam que ele leia o que escrevo pois isso o dará poder sobre mim. O fato é que eu o amo, como já amei muitos e muitas antes. Mesmo sentindo que há algo diferente agora, não posso acreditar nisso e preciso seguir meus instintos. Preciso seguir em frente, continuar vendo outros casais, outras vidas, outros amores. Preciso continuar no meu plano e não mais chorar por não pertencer a este plano. O que me rege é a indiferença, sempre fora. Desta forma consegui viver tanto tempo, sozinho. Continuarei vivendo?

"- Eu conheci uma criança, um homem antes de voltar à vida, que pelo crime de amar acabou morto. Nesta vida, ele trouxe a marca do que acontecera: era cego de um olho. O que deveria tê-lo tornado dependente, inapto, fez justamente o contrário. O tornou um homem tão bonito como uma Lua. Fez dele um visionário e assim descobrimos que a matéria nunca importou. Ele escreveu - e escreve - as melhores canções e as que mais se aprofundam em nossas almas. Ele canta com a voz de um anjo e vê muito além do que os que estão à sua volta podem imaginar. E o melhor, ele reencontrou seu amor de outras vidas. Eu fico tão feliz por ele."7

Deixarei meu destino nas mãos do Destino, mesmo sabendo que este meu irmão é ardiloso, insensato e não pensa nas consequências dos seus próprios atos em nossas vidas. Talvez ele se compadeça por tudo o que eu já fiz por ele, anteriormente, e me dê discernimento para entender o que se passa. Não confio nele, mas não há uma outra opção agora pois neste exato momento ele já manipula a ordem das coisas, das casas e age. Quer seja a meu favor ou contra mim. Uma semente foi plantada, vejamos que fruto ela engendrará.

1: Autor desconhecido 
2: Carolina Bensino 
3: Gustave Flaubert 
4: Nietzsche 
5: Sacha Sacket, in Sweet Suicide 
6: Bukowski 
7: Apenas uma memória minha, nada digna de relato posterior. Nomes preservados.


11.09.2012

O preço de uma rejeição e o que fazemos por quem já amamos


Como um bom Noctívago, escrevo sempre melhor durante a noite e me valho da noite para esconder meus pecados e traições. Logo, todo e qualquer conto que eu - ou uma das minhas personalidades - escrevo será, em maioria, baseados e ocorridos na Noite, que é meu ambiente. Ou nos sonhos, com a ajuda de um grande amigo. Ou serão lembranças, com ajuda de uma grande amiga. Enfim, ai está. Este, bem, não é totalmente irreal.

+++

Era noite do dia 12 de Maio de 1998. Não me recordo que idade tinha na época, somente que cursava - novamente - o último ano do colegial. Estava deitado em minha cama, ainda no estado de vigília, sentindo que alguma coisa estava errada porque a energia oscilava quando eu piscava os olhos e algumas mariposas avermelhadas estava pousadas na minha janela. Inúmeras delas, querendo entrar para me contar um segredo ou pedir ajuda - eu brinquei.

Ao se aproximar das duas da manhã, ouvi um ruído distante vindo da frente de minha residência. Um murmurinho. Pensei ser animais ou alguns transeuntes. O barulho permaneceu e junto a isso batidas enérgicas em meu alto portão. Em um segundo, todas as mariposas que estavam pousadas na janela simplesmente bateram as asas e se foram, diagnostiquei o mau presságio. Resolvi inquirir o barulho, me dirigi à porta e, pelo vidro jateado pude ver que haviam pessoas exatamente defronte ao meu portão. Hesitei por um instante e ouvi além, com meus preciosos ouvidos inumanos. Havia choro, desespero e medo em suas falas. Ouvi um homem dizer que era 'bobeira o que a mulher estava fazendo' e ela revidou dizendo 'que era o melhor, já que ele só citava meu nome no delírio'. Fiquei deveras confuso mas reconheci as vozes de imediato.

Vesti um robe qualquer que estava ao pé da cama e fui até eles, quando percebi que chamavam era por um dos meus nomes. A porta se abriu para eu passar, desci as escadas e a chuva não me molhava, fui até o portão e o abri para eles. A cena que vi, quando me recordo, ainda me choca: lá estava uma mãe em desespero absoluto, com o rosto jovem borrado de lágrimas e as roupas em frangalhos e junto dela um jovem homem, seu irmão. Claro, conhecia as duas figuras de longa data. Quando ela me viu agradeceu ao seu deus por eu estar presente e tê-los atendidos, havia uma incredulidade no olhar do irmão.  Ela, se ajoelhou aos meus pés implorando ajuda, alegando que seu filho estava sob algum tipo de doença estranha e que em seu delírio de alta febre, dizia meu nome e no único momento de lucidez que teve, disse que eu e somente eu poderia ajuda-lo.

Estranhei, afinal eu o conhecia há décadas mas não o via há muito mais tempo do que queria. Porém, antes de entender a situação eu já havia compreendido o sofrimento da mãe. Não era nada simples, eu imaginei. Ela insistia para que eu os acompanhasse, quase que me sequestrando apenas de robe. Eu pedi somente um minuto para vestir algo e em menos de cinco minutos estava pronto para acompanha-los. Não sabia para onde ou para quê. Durante a curta viagem, ela me contou os maiores: seu filho havia chegado em casa naquela tarde nauseabundo, com uma coloração pálida nos olhos, fosco, trocando as palavras e a ordem e se sentindo absolutamente cansado. De começo, ela pensou que pudesse ser algo com bebidas ou drogas, coisa que ele nunca havia feito, mas os jovens de hoje não são mais tão confiáveis como os da minha época. Logo, o problema se tornou maior quando ele desmaiou e ao medir sua temperatura, girava em torno de 42 graus. Trataram de chamar o médico que, ao medir a temperatura novamente e fazer uma pequena avaliação, prognosticou como algo viral, prescreveu antibióticos e disse que em dois dias ele se sentiria melhor. Algo no coração da mãe sabia que não era apenas aquilo - o que se comprovou quando a pirexia elevou e, ao beirar os 44 perigosos graus, ele começou a ter espasmos involuntários pelo corpo. Ela temeu por sua vida.

Logo, ao delirar, ele começou a balbuciar umas palavras inteligíveis. De princípio era algo como 'Ler', 'Lion', 'Lá'. Depois passou a 'Lianjo', 'chama Lianjo, só ele pode me ajudar'. A mãe não imaginava quem poderia ser e permaneceu ao seu lado, tentando entender. Delirando ainda, ele pediu uma caneta que ela prontamente atendeu. No braço dela, ele escreveu 'Lean' com um traço final que a feriu. Levou um tempo para ela identificar quem seria, como eu disse, não nos víamos há bastante tempo. Como um baque, ela se recordou a quem pertencia o nome incomum e chamou o irmão, na expectativa de que o alvo ainda estivesse alcançável. Foi quando ela, se dirigindo à minha casa, me encontrou.

Voltando ao tempo real, nos dirigimos de volta à sua casa e eu tentei, confesso que tentei imaginar o porquê daquilo tudo. Não havia explicação plausível para mim, mas, as mariposas vermelhas na janela poderiam ter algo a ver. Talvez era o que tentavam me alertar. Em menos de vinte minutos chegamos em sua casa e sua família parecia já estar preparada para o pior. Havia outro irmão, a namorada dele, avó, tio e chegando comigo, mãe e outro tio. Minha presença causou certo burburinho mas evitei chamar mais atenção do que devia. Em suas mentes, eles achavam que eu era o culpado e apenas a mãe e a namorada sabiam que eu poderia ser o único que poderia ajudar (eu já conhecia sua namorada, mãe de seu filho, há bastante tempo também). Houve uma pequena discussão quanto à minha presença mas a mãe logo me encaminhou ao quarto do filho, deitado, prostrado na cama, com um ar cadavérico como se houvessem tentado tomar sua alma. A mãe apenas chorava e o irmão dela a acalentava. Então, ela me perguntou o que eu poderia fazer já que ele me chamara. Ou se era apenas para se despedir, uma vez que ela sabia que em outros tempos, havíamos sido melhores amigos.

Sentei-me ao chão, ao lado da cama e ele meio que sentiu minha presença pois virou a cabeça em minha direção e disse meu nome, com um esboço de um sorriso fraco. Sabia que não se tratava de um mal físico imediatamente, então pedi um pedaço de pano à mãe que prontamente atendeu, rasgando parte de sua blusa. Amarrei-o em sua cabeça de forma que só um olho ficasse descoberto e agora o que vi, foi o que mais me entristeceu mas era tarde para deixá-los e eu me comprometi a ajudar, deixei minha vergonha e meu antigo amor na porta quando entrei àquela casa:

"Ele estava dirigindo numa rodovia de alta circulação, perto de uma área de baixo meretrício, quando foi abordado por uma das 'profissionais'. Ela era belíssima, com um corpo escultural e não aparentava mais do que 25 anos, com belos lábios vermelhos e uma roupa provocante. Ele chegou a cogitar seus serviços porém, ao se recordar da namorada em casa, hesitou. A prostituta então se revelou, abrindo a boca apenas para proferir algumas palavras que de início ele não entendeu, e, logo partiu com seu carro. Sentia-se mal, diferente, desde que a encontrara. Quase bateu com o carro umas duas ou três vezes e por fim chegou em casa. O que ele não sabia, mas eu vi quando olhei em seu olho e sua memória, é que aquela não era uma puta qualquer. Era uma sucubo, que eu conhecia há muito e muito tempo e chamava-se Balquis. Era um demônio sexual feminino que existia desde a antiga Babilônia e pela qual muitos reis entregaram seus domínios e todos faleceram, misteriosamente, de uma peste. Balquis podia extrair a parte boa da alma das pessoas e se alimentar dela, era o que fazia quando aparentemente se deitava com os homens (e as mulheres eventualmente). Não era apenas sexo, era alimento. Balquis era ardilosa e intempestiva, desde que eu a conhecera. As palavras que ela proferira eram num dialeto muito antigo e significavam "Tu, que optou pela rejeição, herdará parte de mim e deixará sua melhor parte comigo". Por este motivo ele caíra em doença. Balquis era, além de um insaciável demônio, uma força poderosa em maldições. Meu amigo deu o azar de encontrar justo quem não devia e estava pagando por isso."

Removi o acessório e já sabia então o que fazer. Logicamente, não contei aos parentes os pormenores mas disse que ele sofria de algo que médico algum poderia tratar. Pelo estado mental da mãe, de tanto desespero, nem pediu detalhes e passou a obedecer cegamente o que eu pedia. Água numa bacia de porcelana, um pedaço de pano virgem vermelho, alho, alecrim, uma corda fina e uma faca de prata pura. Os que presenciaram se assustaram com o pedido da faca, principalmente porque não tinha utensílios de prata pura na casa - como a maioria dos lares atualmente. Dei minha chave ao tio e disse onde encontraria uma, em minha própria casa. O jovem oscilava entre a consciência e inconsciência, mas quando consciente, sorria para mim que estava ao lado de sua cama.

Logo, tudo o que eu precisava estava em mãos. Pedi que se retirassem e que apenas a mãe ficasse, para testemunhar que eu não faria mal à seu filho mas que, o que quer que visse, não acreditasse. Amarrei a corda no braço do jovem, a faca estava mergulhada na bacia com o pano vermelho preso, o alho e o alecrim. De repente, ele pareceu se contorcer ainda mais na cama, suava uma substancia negra com um odor insuportável e seus olhos reviravam nas órbitas. A mãe apenas chorava, pedi que não se aproximasse. A esta altura, as mesmas mariposas já infestavam as janelas da casa, por completo, e todos achavam aquele fenômeno algo sobrenatural e envolto na minha presença na casa. A corda que estava amarrada em seu braço começou a apertar e ele urrava de dor, mas não era ele, era a maldição - a parte de Balquis - que rugia. O pano vermelho, preso pela faca dentro da bacia, se agitava. Era algo terrível, mesmo para mim, que o amava. Tive pena dele, mas sabia que era melhor assim. Tirei a faca que prendia o pano vermelho, peguei-o e coloquei sobre a testa do jovem. Aquele momento, ele se sentou à beira da cama, mas não era mais ele, era a própria Balquis falando: "- Ora, ora. Mas se eu sou digna de vossa presença. Nunca em sã consciência eu mexeria com alguém que lhe pertence, senhor".

Eu ouvia Balquis pela boca do jovem. A mãe entrava num desespero ímpar mas com a porta trancada, nenhum dos outros parentes ousaria entrar e atrapalhar. Ela prosseguiu: "- Este belo jovem ousou me rejeitar. Ninguém rejeita Balquis. Minha maldição para ele foi bem trabalhada, acredite. Mas, se eu soubesse que o senhor seria envolvido, não o teria feito. Não quero problemas com Vossa Excelência, mas, como sabe, não posso desfazer minhas próprias maldições."

Eu disse que conhecia muito bem a fama e o que ela já havia me causado. Devo confessar, Balquis era uma velha amiga que precisou de mim certa vez e eu a ajudei. O preço foi algo que eu não esperava. Não permitiria que isso acontecesse novamente e disse a ela que esta seria resolvida mas se eu soubesse de mais alguma, ela seria exterminada. Ela sorriu entredentes, insatisfeita, mas nunca desacataria pois sabia que eu a encontraria onde quer que estivesse. Ela se desculpou, também entredentes e o lenço caiu da testa do jovem. Ele, voltou à cama e aos espasmos. O lenço, ao cair, tornara-se negro e pegajoso e quando a mãe se aproximou eu gritei para que ela não o tocasse mas que abrisse as janelas daquele quarto que alguns outros amigos se livrariam daquela impureza, depois. Com a faca ainda em mãos, dei um talho na minha destra o suficiente para que um pouco de sangue escorresse. Deixei a faca de lado - a mãe lembra aqui, a faca se tornou enferrujada imediatamente - e com a mão esquerda e a ajuda da mãe, tiramos a blusa do jovem. Com a mão ensaguentada, passei por seu pescoço, peito, abdome e olhos. A mãe observada com ares de pavor mas talvez este mesmo medo a impedia de qualquer atitude inesperada. O que eu criei com meu sangue, no corpo dele, era uma proteção. Algo que transferia a mim o que ele pesava. Logo, enquanto a mão o percorria, ele se acalmava e sua coloração natural voltava. Seus olhos estavam tranquilos e sua temperatura normalizava. Tudo muito rapidamente. O meu sangue, no corpo dele, tomava um aspecto dourado bruxuleante. Depois de criado, mergulhei a mão na bacia e a água, outrora translúcida, se tornou piche. Eu não me alterei em momento algum pois era imune a qualquer maldição ou afins.

Pedi a mãe que se livrasse do conteúdo da bacia e assobiei, para a janela. Ela se assustou quando milhares de mariposas adentraram o quarto e tomaram o lenço negro - outrora vermelho - e partiram, carregando-o. A faca, enquanto ela não via, esfarelei com a mão e espalhei o pó sobre as asas das mariposas, que adquiriram uma tonalidade também dourada. Quando estava prestes a me levantar, a mão do jovem segurou a minha e com olhos cálidos de cansaço ele apenas disse "- Obrigado. Quando eu percebi no que havia me metido também percebi que só você poderia me salvar. Você que me protegeu de tanta coisa e já me salvou mais vezes do que qualquer um sabe. E salvou meu filho. Não tenho como agradecer e ainda te amo..".

Ele não precisava agradecer, muito menos terminar com estas três palavras. Mas ele o fez. Por um longo tempo ele era o presente que os deuses me deram mas por causa disso, precisei Abdicar. E no final, ele era só humano. Um dia teve medo de mim e eu vi nos seus olhos como seria o futuro. Deixei-o, para que ele seguisse uma vida normal, como um homem normal faria. Porém, nunca sai de perto. Sempre o via em meus sonhos e sempre mantinha minha proteção. Falhei desta vez? Sim, falhei. Porque estou cansado. Cansado demais.

Me despedi dele, dizendo que não precisava agradecer e abstrai suas palavras finais. Ele se deitou na cama e caiu no sono. No sono normal dos humanos. Sua mãe regressou e disse-me que jogara a bacia fora com tudo o que havia dentro, ainda em prantos, quando ela notou que seu filho dormia tranquilamente. Novamente ela se pôs aos meus pés, agradecendo. Pedi para que se levantasse pois eu não era digno desta forma de agradecimento e que, o que fiz, faria por qualquer um que me pedisse ajuda sinceramente. Ela chegou a pensar em me questionar o que havia acontecido. Por precaução, antes que ela abrisse a boca, lancei uma nuvem em seus pensamentos com imagens de que seu filho apenas precisava descansar e que ela cuidasse muito bem dele. Fiz com que ela me acompanhasse e enquanto eu saia, fiz o mesmo com todos os que estavam na casa, deixando suas memórias vagas sobre o acontecido e colocando outras informações, menos fantasiosas no lugar.

Por fim, andei até minha residência enquanto as mariposas me acompanhavam. Sentei ainda um pouco na varanda para conversar com elas, agradecê-las pelo aviso e pela ajuda. Pedi noticias de todos os que eu acompanhavam e parecia que todos estavam bem. Logo, me despedi delas e entrei, me deitei e voltei a pensar como a vida teria sido mais simples se há milhares de bilhões de anos atrás eu tivesse simplesmente permanecido onde estava e com este pensamento, eu adormeci.



+++

Este é apenas mais um dos casos que já passei, durante este pouco tempo. Durante esta minha Quarta Abdicação.

9.23.2011

Pausa (iii)


Descumpri a sentença que havia determinado na nota anterior: voltei às redes sociais. Não considero como fraqueza, apenas senti que meu foco era desvirtuado.
Minha raiva não era com a exposição, mas essencialmente com alguns poucos que manipularam minha mostra com desdém e uma invariável descrença e antipatia.

Well, i'll continue.

9.20.2011

Constrangimento


‎"Sua existência exige do mundo melhores peles, melhores líquidos, melhores pelos. Você constrange a humanidade só de respirar."

Foi com estas palavras (dirigidas a mim, por minha doce e especial irmã) que eu despertei para o mundo hoje. Melhor, além de despertar eu quis o mundo. O quis como não havia quisto ontem, anteontem e na semana passada por completo. Eu o quis e precisaria mudá-lo para mim.
Tenho pensado em coisas que não deveria. Coisas pequenas, improcedentes, desnecessárias e em horas assim eu insisto em recordar o que Harpócrates sempre me dissera sobre a congruência da sanidade que preciso manter: "- Não se reduza para que seus feitos ou pertences pareçam maiores."
Comecei a notar que dou valor à coisas pequenas demais, esnobes demais e permito-me influenciar por situações ainda menores. Me concedo à reações intempestivas por má interpretação de pensamentos externos e me prejudico com isso. Leio meus amigos com outros olhos e os abomino por isto. Logo, me odeio por excluí-los.

> Observa-se que eu não disse que os traria de volta.

É enigmático como mesmo as pessoas que categoricamente afirmam me conhecer, mentem. Há um equívoco letal nesta colocação e espero que um dia eles notem. Eles não sabem o que em mim ressoa, não sabem o que transpassa meu coração inseguro e nunca - efetivamente - entenderam que certas brincadeiras me dilaceram única e exclusivamente quando se colocam entre meus sonhos e no que acredito.

Pode parecer superficial, não admito que não seja, mas acaba sendo difícil de aceitar.

Mexer com coisas que eu tomo para mim não é a melhor forma de incentivar minha humildade que já tão pouca, se estabelece. Claro que, numa hora destas, eu faço o que é melhor para ambos: me anulo. Me mantenho fora do quociente comum. Eu sei que para me adaptar ao mundo, inicialmente sempre tento me adaptar ao que tenho mais próximo. Tomo gostos comuns, sigo a fólea coletiva, me asseguro do que está no centro das atenções para que o mantenha e - a olhos honestos e fanáticos - eu me encontrarei sempre fora deste mesmo mundo em que tento me incluir. Este é exatamente o sentimento deste post.
Me pego aprendendo sobre o que não devo e me categorizando para no final ainda estar alheio a tudo e todos.

É um erro meu, concordo, mas me julguem por querer fazer o bem e estar com vocês, não por querer tomar algo que os pertence. Talvez por amá-los tanto eu sinta necessidade de amar também o que vocês amam, para estar mais perto, poder ter do que falar, poder criar planos, enfim, suprir minha carência humana ainda tão exacerbada. Neste mesmo tempo eu peço perdão por isto. Com minha espada e minha vida eu prometo não me intrometer mais ou ser leviano ao falar sobre. Meus gostos continuarão meus e os de vocês, seus. O que houver de paralelo que seja aproveitado, eu defenderei o que me pertence até o fim, deixo isso bem claro.

E quanto ao pesar que eu sentia e o rancor que estava alimentando, bom, eles serão esvaziado assim que o ponto final deste texto for colocado. Ou seja, agora.

8.06.2011

Harry Potter - E o que este mundo me fez

Pensei em como relatar este absurdo aqui.


Dizer como um inocente programa entre amigos poderia me gerar tamanha extroversão de sentidos. Farei um breve resumo histórico do que houve e então partirei para as devidas conclusões e antecipações.

No dia sete de Julho começou um mega empreendimento: Maratona Harry Potter, nos cinemas Cinemark (mais especificamente no cinema Downtown - Barra da Tijuca) onde exibiriam os sete filmes anteriores ao que estava para ser lançado, um por noite, logicamente durante sete noites. E somente após, os espectadores que cumprissem a exigência de assistir os sete filmes seriam recompensados com uma entrada extra para a maior apresentação já esperada: O lançamento do ultimo filme da franquia, numa première que contaria com um dos atores em pessoa, no Morro da Urca.
Bom, para acompanhar e proteger meu amor e uma irmã querida, achei por bem participar de parte deste projeto. Lutei bravamente contra meu orgulho e parti a assistir então os 3º, 4º e 7º filmes com eles.

[Passo no Tempo] Neste momento inicial, quando na chegada ao 3º filme confesso que já me espantei. Eu estava sentindo uma euforia, uma intensidade e uma ansiedade pouco vista antes. Talvez parte devia aos fãs (de verdade) que se encontravam, vestidos a caráter com seus personagens e trocando informações. Ainda contra meu orgulho permaneci. E a experiência não pôde ser mais maravilhosa. Somente tive noção disso quando, ao sair, comecei a sentir falta do período que havia passado ali. E realmente me doeu deveras - confesso agora. Para o 4º filme já fui mais estimulado, sem demonstrar claro. E novamente, talvez ainda mais explosivo, eu senti aquela vibração boa, repassada de uma forma tão sublime que me envergonhei do sentimento inicial. Este dia ainda se completou pois passei o restante da noite em amores e cumplicidade. Se eu cogitei haver perfeição na vida, ali estava ela.

Dois outros dias se passaram, até o então 7º e último filme antes do lançamento. Neste período eu já me mostrava bem interessado e colocado no assunto, buscava por informações de pessoas e histórias e me emocionava a cada segundo, com o amor que aqueles jovens desprendiam à obra. Era palpável o carinho que sentiam uns pelos outros pelo simples fato de compartilharem aquele gosto. Era visual e emocionalmente perturbador pela mesma beleza.

E eu me entreguei.

No último dia eu já não me aguentava em expectativa. Precisei - novamente confesso e com prazer - que precisei de artimanhas um tanto quanto ilegais para assistir o filme. E eu o vi e chorei escondido e me arrependi pelo julgamento que havia feito da obra. Realmente me arrependi. Nesta mesma noite, compartilhei com meu amor a hospitalidade de minha irmã e a noite se completou perfeita. Não havia mais onde eu me colocar dentro de mim, mesmo evitando demonstrar. Alguns percalços aconteceram, lógico, mas todos reversíveis.

Foi uma das mais belas semanas que já passei, indubitavelmente.
E desde então meu interesse tem aumentado. Lógico, os que eu acompanhei presenciaram o grande lançamento, apareceram e desabrocharam, foram felizes em suma. E feliz eu fui ao vê-los felizes.

E desde então meu interesse tem aumentado. Insisto. Exponencialmente aumentado. Me integro agora às redes em busca de informações, me faço presente em eventos e reuniões que falem do assunto, gosto de estar, gosto de sentir, gosto de ver pelo prisma que eles viam já há algum tempo e eu deixei passar. Lamento hoje não ter me permitido antes. É um mundo maravilhoso a se conhecer e não falarei mais por que ainda não posso, deixarei para mais adiante.

Me permito agora, vendo tanta gente boa apreciando e sendo felizes por isso. Meu amor, minha irmã de sangue, minha irmã de alma, meus amigos, conhecidos, desconhecidos. Todos. Todos se apegaram muito antes de mim e eu somente agora notei a beleza essencial que esta obra representa. Estou fantasticamente feliz por ter tido tempo de conhecer, agradeço a eles por isso.

Muito obrigado Thales, Taynann, Jane e Carlinhos. E muito obrigado Marister, Daniê, Filipe e outros tantos que estiveram presentes. Mesmo, devo a vocês uma nova e bonita fase de minha vida que começou naquele dia em que chorei, apreciando antes a psicologia fantástica. E depois a emoção em si. E sabe, ainda choro. Pelo que perdi, pelo que estou conhecendo e pelo que ainda terei, mesmo que tecnicamente a história tenha acabado dos meios literários. Quando é bom, a gente guarda para sempre.

Longa vida, Harry Potter. E obrigado, pelo que você me trouxe e pelo que pode aproximar ainda mais de mim, a mim, com os outros, que são eu mesmo.


4.25.2011

Conjunto EGO - e sucursais

Passado este tempo, recordo que não fiz a honrosa indicação de um grande amigo-humano, tão imponente neste mundo virtual. Ele - e seus vértices - escrevem com tanta distinção que por vezes penso que estão por ai, a vagar, experimentando realmente um avatar diferente a cada possessão. Porém, lembro que o dono destas entidades é uma mesma pessoa, dotada de um intelecto proporcional à sua necessidade literária.

É cativante, fascinante e intrigante este Prior avatar, chamado André.

Suas obras, se é que devo atribuir a apenas um, enfim:

Conjunto EGO
CREDIBILITER CRIVVS SANCTVS SILVA
INSANVS IMMODERATE SANCTVS SILVA
IRONIARVM FALVS SANCTVS SILVA
NARCISSVS FLORIS-SANCTIS SILVA
OBVMBRATIO DARK SANCTVS SILVA - Mon favorite.
PESSIME PAVCVS SANCTVS SILVA
Andre L S Silva


4.21.2011

Linhas incertas

Mais uma nobre mademoiselle engendrando nossa cultura de subsistência. Excelente escrita, intensa, surreal e com uma manobra arriscada de intercalação de valores. Ou seja, promissora redatora.

Que venha, Débora Brauner.

http://linhasincertasdadezy.blogspot.com/

3.23.2011

La Bella Donna

Há algum tempo encontrei uma bela dama perdida em seus caminhos ocultos. Dei-lhe o nome de Bella Donna (uma alusão à boticária) e este ato despertou uma memória emotiva na jovem que preencheu-nos de satisfação. Ela é poetisa e sempre fora, mas havia guardado para si suas crônicas tão brilhantes. Tão fascinante como pessoa, ela resolvera voltar ao cotidiano de Musa e de Obra e escrevera para mim algumas belas passagens carregadas de emoção e expressas em sangue, lágrimas e águas florais. Com a sua permissão literária ainda não concedida mas valendo-me do pressuposto da amizade, cito uma delas:

Loba

A Lua está tão linda, tão brilhante.
Ela liberta a Loba.
Loba que vivia aprisionada
No âmago do meu ser.
Em dia sou menina,
À noite sou moleca,
Nos teus sonhos musa,
Nos teus braços, mulher.
Quero sentir tua língua quente,
Minhas costas arrepiando de frio.
Quero sentir seu toque
E minha alma a sua se juntar.
Nós dois seremos um:
Deusa e deus nos tornar
Incubus e sucubus juntos a delirar.
Você vai ter febre,
Seu sangue sentirá ferver.
Quero virar uma vampira
E o seu pescoço morder.
Quero ser amada
E muito mais que isso: quero amar!
Com meu olhar te penetrar,
Meu perfume te inebriar.
Com minha boca te fazer homem e
Com o roçar da minha pele te fazer gemer,
Com a menina brincar com você e
Com a loba te surpreender.
Minhas unhas garras vão virar
E nas suas costas marcas irão deixar
Eu sou a Loba,
Mas é você quem vai uivar...

La Bella Donna

Ela está sumida, mas voltará. É como um zéphyr esta musa e assim que em novas obras eu tiver posto as mãos, torná-las-ei públicas para incentivo.

3.17.2011

Red Luna

Não considero uma nova Fase Lunar. Não completamente.

Estou gasto, mes amie... Fracassadamente deixado para apodrecer sozinho. No escuro e no limo que eu mesmo cultivei para lançar meus inimigos. Meus maiores amores vão sem ao menos despedir, novos amores os tomam. Para ser sincero, estarei confessando algo a quem me lê, agora: Eu tenho uma Maldição. Uma maldição que me traz à mente tudo o que quero saber. Meus irmãos chamavam de o "dom da AnteCiência". Em termos médicos explico como uma facilidade de cognição ou aprimoramento que faz com que o individuo (ou monstro, no meu caso) tenha um melhor reflexo neurossensorial e organoléptico a uma determinada situação, i.e., aquele individuo (enfim...) antevê e reage instintivamente a mudanças abruptas e/ou subtis à sensibilidade - motora e funcional. Digerindo, é como prever uma situação. Peguem um reactivo e multipliquem por mil. Peguem este mesmo individuo (ou, esquece) e tornem-no um monstro ou fera ou demonio... este será eu. Melhor, meu dom me permite antever tanto a parte substancial deste mundo quanto a outra parte, a emotiva límbica irracional. Em suma, posso prever tudo o que quiser e as respostas a tudo vem à minha mente. Foi assim minha aprovação em tudo que fiz na vida humana, antes mesmo de ser Fera. E agora, bom, agora só piorou.

Posso ser o que chamam de sensitivo, mas não quero isso, não quero saber de coisas que me afetam tão diretamente. Meu amor tem um novo amor - é o tipo de coisa que não quero saber. Mais, eu vejo a face deste impostor emocional a cada vez que fecho os olhos. Minhas entranhas mortas e putrefatas se refrigeram e sinto uma estranha sensação de dor, coisa que tecnicamente não deveria sentir. É visceralmente enjoativo. Meu coração morto dói, minha carne suja dói, minh'alma ou o que restou dela dói, minha vista dói e mesmo com meus olhos nas sombras.

Neste momento estou mal. Mal, mau, enjoado, dolorido, agressivo, com a boca cheia de sangue por tê-la devorado internamente de rancor, minha hematolagnia dispara e meu coração está partido.

Minha mensagem aos meus amigos que lêem - e que tive a prova recentemente que lêem - é esta: Não se apaixonem, não amem, não a estes mortais. Não houve sequer um que tenha mantido a sua palavra em nos amar depois de conhecer nossa verdadeira forma. Sejam vocês quem forem, não amem. Se amem, matem-nos agora e dêem um fim a isso. Depois, se houver ainda tristeza, façam-se presentes no meu banquete onde devoraremos estes sentimentos puros e carregados, regados a sangue e vísceras.

3.16.2011

Loucuras (ii)

tasyaiva hetoh prayateta kovido 
               na labhyate yad bhramatām upary adhah 
tal labhyate duhkhavad anyatah sukham 
               kālena sarvatra gabhira-ramhasā

“Pessoas que sejam realmente inteligentes e filosoficamente propensas devem esforçar-se apenas por esse fim significativo que não pode ser alcançado nem mesmo vagando desde o planeta mais elevado (Brahmaloka) até o planeta mais baixo (patala). Quanto à felicidade obtida do gozo dos sentidos, ela pode ser obtida automaticamente com o decorrer do tempo, assim como no decorrer do tempo obtemos misérias apesar de não as desejarmos.”


Reencontros (ii)

Hoje eu descobri que existem amores para serem vividos. Mas a maioria, é apenas para ser lembrado.

 Na data de ontem, por intermédio de uma jovem mestra que já comentei sobre, acabei confirmando minhas suposições. É verdade, ainda estamos por ai. Por um destino do azar topei com um nome conhecido há muito, tido como fictício. Não foi um encontro direto como eu esperava mas me serviu para manter no prumo. Rumo ao coven oculto.
E devo dizer que isso emocionou-me deveras, provou minha teoria de que esperamos nas sombras para a revelação final que está breve de acontecer. Eu, por vaidade e orgulho, já me mostro a quem queira (ou possa) ver mas alguns de nós ainda são acuados. Não os reprimo, quanto mais jovens mais temerosos.

Fato notoriamente conhecido até por almas humanas que, a cada século, ficamos mais fortes. Muitas Literaturas já afirmaram isso. No começo a Luz-do-Rei é mortal mas a cada ano ela pode ser mais suportada até que não muito longe passe a ser apenas agressiva, cáustica, não mortiferamente abalável quanto outrora. " - É o maior beneficío para os fracos e a pior matéria para os fortes", como já dizia uma personagem tão bem escrita. Nossa força, nosso poder, nosso desejo, nossa necessidade de consumação, tudo isso aumenta, mas quando digo anos, bom, são décadas e séculos.
Eu categoricamente estou apto a muita coisa que não poderia antes, outros ainda não, por isso este medo. Mas outro fato é que cada um de nós ganha (talvez como forma de compensar a maldição) um certo dom, diferente um dos outros. Penso que este meu amigo possa ter conseguido o que há tanto desejara e por isso se mostrou, em partes, a mim.

Aguardarei outras provas da sua presença, mo chara.

3.13.2011

Lua Crescente

Então Ela veio.

Contemplada com comemoração Ela foi e seduzido pelo seu novo brilho pálido eu enfeitiçado estou, novamente. No aguardo solitário da mudança eu havia me esquecido das más almas que me seguem. No exacto, eu as agradeço. Pela Própria Noite e em meu barco, eu agradeço. Passei uma das melhores noites neste século. Nunca poderia imaginar. É como se Autumn Night tivesse tomado forma real e se tornado um script, seguido, porém com tamanha intensidade que mal pude compreender. Eu, mes amie, voltei à caça depois de todo este tempo enclausurado.

E mais, mesmo depois de tanto petit gole foi ótimo beber completamente. Revelo agora. Conhecer da alma do poeta, da cantora, do mendigo e do bruto. É inominável. É o mesmo frenesi, nada mudou. Pude experimentar o acre, o agridoce e o suave, o gosto do suor, da maquiagem, dos novos cosméticos, da humanidade. Pude ver as crianças que não vieram ao mundo pelas visceras da cantora - a mais interessante do quarteto. Pude ver o seu maior sonho, caído, quando abandonado nas mãos do homem amado. Pude sentir o desprazer do sucesso que ela tinha. Menos intenso é sentir a vida morna dos outros. O poeta ressequido sem vitríolo, apenas mascarado, frágil, vivisectado há muito. O bruto ínfimo, tão pequeno que jazia sozinho perdido. O doce flagelo, com a melhor das almas porém tão consumida como as outras.

Como citara, não estava sozinho. Estava muito bem acompanhado por almas tão antigas quanto a minha. É como se não os visse desde a ultima Macabra, na antiga Antioquia. Não somos seres sociáveis, factum, e escondemos nossa presença sempre que necessário. Por descuido, acabei deixando que entrassem em meu território e esta fora a melhor surpresa.

Eles sabiam da minha necessidade e viram minha fraqueza, tomaram-me como antes e aos seus cuidados eu novamente conheci a Noite. Confesso que a noite está maior e mais produtiva do que antes, há mais pessoas nas ruas e não se assustam mais com tanta facilidade. Hoje, podemos andar as ruas e sermos melhor confundidos. Nunca poderia pensar isso há dois séculos, sempre fora o maior pecado do orgulhoso. Para melhor caracterizar, imaginem três grandes homens e uma divina dama. Todos com as peles mais alvas possíveis e mesmo Phelipós com sua negritude mostrava já os primeiros sinais da idade que nossa Mãe apresentara. Éramos Les Catre Chevaliers du Apocalipse, de novo. Como haviamos sido mais recentemente no Egito, antes na Ásia e anterior na Europa setentrional e os novos países divididos. Christopher ainda com sua tez loura incomum, como um gaulês e suas grandes pupilas, olhos mais azuis do que o mar nocturno das ilhas Caribenhas. De grande estatura e porte e Dorigen, a Bela Dorigen, ainda a mesma mulher ruiva-fogo-raposa com suas esmeraldas, fascinante, de origem inglesa que eu conheci - e mudara - em meados da idade Negra. Éramos perfeitos há eras e a mais nova, nosso Farol e nossa Guia. Nosso melhor quarteto, almas diferentes intrinsecamente mas tão unidas. Uma única filha no nosso meio.

Parfaits!

Tomamos a noite como era de costume, selvagens, impuros, sujos e paradoxalmente, poderosos, brilhantes, sutis e mortais. "Nunca revelar a presa até que esteja fincada na alma da vítima" - era nosso lema. O que acontece depois é um mistério e continuará assim, somente os envolvidos sabem e agora parte da minha 'grande rede'. Os detalhes continuarão meus a não ser que um peça. O importante é a vida que agora corre novamente, de uma forma ainda a desobstruir os diques que haviam sido criados por mágoa coagulada.

Este é o preço, simples perante o ganho porém um preço que nenhum humano, seja homem ou mulher, vivido ou limpo, intelectual ou ignóbil, sofrido ou não, esteja disposto a pagar.

Para isso existe a força.

3.12.2011

Maybe Tonight

Cada momento jaz, precioso.
Eu amei tanto as estrelas por que tinha medo de ficar sozinho, no final. Percebo que estou, já agora.

Eu espero por agridoce até a parte que o primeiro demonio revela me querer. Esta voz retumba no corpo oco e deixa-me alheio - petit male - pelos primeiros timbres. Logo em seguida me leva ao orgasmo.

No final, sigo a mim mesmo.

3.07.2011

Fase Lunar

Conversando com um grande partidário à causa da 'imperfeição exposta', noto que não comentei anteriormente sobre minha relação com a Lua e suas Fases.

Ora, o blog convida o leitor a saber sobre a Lua mas de nada é citado! Como pôde?

Traçarei um pequeno tratado sobre a influência e postarei, mais tarde.

3.06.2011

Interação

Por vezes, eu queria abandonar a Misantropia e ver se realmente é verdade que um coração preenchido é mais leve.
Ter uma mesa com inúmeras cadeiras, para que todos os amigos que ainda não conheço possam se sentar, um dia.. Queria maior interação com o mundo, bons amigos eu já tenho, mas que se ocultam. Poucos por se acharem pequenos - justo os maiores - e muitos por medo.

Enfim... Queria uma maior participação.

"Breve eu não estarei mais aqui, vocês ouvirão minhas histórias pelo meu sangue e meu povo" - caso eles apareçam.