4.18.2013

A Banshee e o Olmo


Certa noite, já há mais Luas que o calendário de um ancião poderia contar, estava eu sentado sob um olmo, na região da antiga Gália, descansando e observando o conjurar de belas estrelas - principalmente Aldebaram, a Grande estrela da constelação de Tavrvs. Estava com meu violino deitado ao colo, sem uma certeira inspiração do porquê tocá-lo. Apenas ouvia o ranger estático do movimento dos planetas e meu próprio, inerte na Terra junto aos animais que me rodeavam. Parecia que estávamos em uníssono com o cosmo, sem uma sequer agitação. De repente, então, senti que havia algo incomodando a mim e à minha quietude. Declinei que pudesse ser alguma espécie de entidade maligna já que os animais não se preocuparam, era talvez algo que já estivessem acostumado a presenciar. Eu, particularmente, ainda não.

Deixei meu violino encostado ao olmo e segui então em direção ao som que ouvia, nitidamente, como me evocando e seduzindo. Havia um lago no meio daquela planície, algo que eu não vira antes – captei. Na borda extrema do lago havia uma bela mulher, pálida como o brilho da Lua – e eu até então o atribuía a isso – que bebericava. Era tão suave e sublime que parecia encantar as flores ao redor para que florescessem mais depressa e pudessem observá-la. A própria Lua parecia segui-la de tão fascinante era sua beleza e graça. Algumas aves vieram até ela e também beberam da fonte, como que querendo absorver parte daquela beleza. Fiquei extasiado com a superioridade da cena e automaticamente me recordei do tempo em que os deuses pisavam por sobre a terra. Ela certamente seria um deles, ou confundida com um.

Durante uns bons minutos a cena não mudava até que ela percebeu minha presença e sentiu-se intimidada. Recolheu-se rapidamente para trás de uma pedra média e me encarava. Notei que a olhava com tanto interesse que poderia estar assustando-a. Logo, reverenciei e tentei me aproximar. Ela assustou-se e correu, em alguns passos largos e infringindo as Leis da matéria, sua forma acabou por adentrar uma árvore alta e majestosa que se elevava por ali. Instantaneamente assegurei-me então: era uma banshee. Já havia ouvido falar delas mas nunca pude ver uma de tão perto. Claro, suas histórias não fazem jus à sua beleza. Porém, senti que a havia perdido no momento que me deixei levar pelo frenesi de sua majestade esculpida.

Voltei-me logo, portanto, à árvore que estava assentado e continuei a observar as grandes estrelas, imaginativo agora, pensando como teria sido um encontro daqueles. Desta vez, diferentemente, sentia uma inspiração deprimente para me estimular a dedilhar meu violino. E comecei. Uma doce sinfonia que partia a pesada e voltava à depressão palpável, cantarolava algo que se mesclava ao som que emitia e gerava uma cadaveria que os animais, se pudessem, chorariam. Um sofrimento nem lapidado, uma lástima, um desejo, uma desventura. Logo quando já me dava por exaurido da sonata, eis que a figura da banshee surge, caminhando em minha direção. Notei que o som que eu fazia a encantava e portanto decidi não interromper até que pudesse estar defronte a ela. Ela andava por entre os animais e eles lhe davam passagem, até que um urso de pelo marrom se deitou e ela recostou nele. Notei também que ela, por ser um espírito da floresta, talvez também falasse com os animais. Na música que eu tentava elaborar enquanto tocava, inclui palavras de bondade e recepção, visto que se ela pudesse entende-las, saberia que eu não tinha más intenções. Curiosamente ela sequer notou, não entendera mesmo. Nos mantivemos assim, eu tocando, ela ouvindo, os animais salvaguardando-nos, as estrelas girando no universo.

Pela exaustão, parei. Deitei o violino e ela, exaltada, gesticulava me pedindo para continuar. Fiz-me de desentendido, esperando que ela tentasse ao menos pedir, para que eu ouvisse sua voz. Não deu certo, ela se tornava mais exaltada e seus gestos se excediam, quase beirando a insanidade. Talvez não tivesse o dom da fala, eu imaginei e para calar seus movimentos, continuei a tocar. A paz então reinou novamente dentro dela.

Continuamos assim durante toda a noite, em minhas pausas para o descanso ela se manifestava e parecia não ter fim sua insaciabilidade. Numa manobra ousada, parei de tocar e ofereci a ela o violino, na esperança de que ela se interessasse e, se eu pudesse, ensiná-la a tocar. Ela parecia receosa mas aceitou. Havia nela um dom natural para a música quando ela empunhou o corpo do violino na posição que eu ensinara e salteava o arco sobre as cordas. Fluía dela os sons e as imagens, como antes fluíra de mim. Não precisei de muito para que ela logo estivesse abalada com o que podia fazer, com o que havia descoberto. Por fim, me senti realizado quando ela me agradecia com os olhos marejados, sem nem parar um minuto sequer de criar a sua própria música.

Com o tempo noturno passando e logo a alvorada se fazendo presente, precisava me ocultar. Debaixo daquele mesmo olmo eu comecei a cavar usando minhas unhas e mãos. Ela interrompeu sua música, pela primeira vez, e ajudou-me. Uma figura platinada belíssima, suja de terra molhada e cheirando à alecrim – eis a visão da eterna juventude que eu nunca esqueci, mesmo após todo este tempo. Logo havia uma cova profunda o suficiente para que nenhum raio solar pudesse alcançar o fundo. Quando ela notou minha intenção, veio a mim com um olhar sofrido, devolver o instrumento. O recusei, dei-lhe de presente e então ela chorou de alegria e me abraçou tão intensamente que se fosse mortal, teria sido esmagado (desconhecia a força de uma banshee até então). Ela logo se lançou a tocar novamente e eu me recolhi na cova, fugindo dos primeiros raios solares.

Permaneci ali, meio consciente, a ponto de ouvir outros passos se aproximando. Delicados passos. Novamente não ouve excitação dos animais então presumi que poderiam ser outras banshee e meu desejo de enfrentar o sol e ver a magnitude daquele acontecimento me preencheu. Precisei me controlar e então tive uma ideia: veria o que acontecia pelos olhos dos animais que estavam presentes. Haviam cinco outras banshee com a minha, todas exaltadas e tão bonitas quanto. Elas vocalizavam algo que parecia uma repreensão à minha banshee pelo violino e em todo o tempo ela não soltava sua voz. Provavelmente não era dotada e por isso precisava do instrumento, para se comunicar. Assim como o doce e nobre Minotavrvs dançava por não poder falar. Ela tentou comovê-las com o som mas pareciam impassíveis. Ela chorava e tocava, com sua alma (se tivesse uma) mas nada parecia declinar a intenção das irmãs sobre manter o instrumento em sua posse. Elas então a arrastaram pela floresta, com os animais impedidos de ajudar uma vez que obedeceriam a todas, indiscriminadamente. Todos se sentiam aflitos mas incontestavelmente, impotentes. Eu idem, pois não poderia sair ainda à luz do sol. Por sorte, um pequeno esquilo as seguiu e mostrou-me o aconteceria. Minha banshee era acorrentada em uma espécie de emaranhado de cabelos e eu sentia que ela não poderia sair dali. Meu violino foi deixado bem à sua frente, para que ela olhasse o instrumento que causou sua prisão.

Lá, acorrentada, ela chorou até que a noite veio. Pude me levantar novamente e no mesmo instante fui até ela, como para aplacar sua tristeza. Peguei o violino e toquei. O som era tão rascante que suas irmãs voltaram, achando que ela havia conseguido se libertar de alguma forma. Temeram quando me viram, seus olhos se tornaram labaredas de pavor e associaram sua prisioneira a mim, claro. Repudiaram-na e ela só chorava. Desta vez eu entendia o que diziam e a acusavam de romper a irmandade e de outras injúrias que eu sabia que ela não havia cometido. Não ousaram me enfrentar, certamente, mas as palavras que disseram me machucaram tanto quanto à minha banshee. Como não poderia aturar mais aquela situação, evoquei um pequeno feitiço para assustá-las e logo não se via mais rastros de nenhuma delas. Infelizmente, também não pude romper as correntes que a aprisionavam, mesmo usando de todas as minhas forças. Até então, não sabia de que matéria era feita aquela corrente – hoje eu descobri – e me frustrei por não poder libertá-la. Como também tinha minhas limitações, engendrei um plano para que ela não se sentisse sozinha e pudesse, de alguma forma, continuar vivendo mesmo com minha ausência. Durante as primeiras noites que passei com ela, eu tocava todas as canções que conhecia e inventava algumas, tudo pela sua felicidade. Porém, logo precisaria deixa-la.

Tratei de enfeitiçar o mesmo olmo em que adormeci sob suas raízes para que seus galhos pudessem tocar o violino para minha banshee. Deixei-o sob sua proteção e ela sob a do olmo. Os fiz amantes para que estivessem sempre juntos e que nenhum dos dois partisse antes do outro. O imponente olmo pleiteando a atenção das estrelas, tocando violino e fazendo minha banshee sorrir e sonhar enquanto o ouvia.


Algum tempo depois, soube que do amor intocado deles nasceu um híbrido e me fascinei. Dispus-me a encontra-lo porém não consegui até hoje. Toda vez que estou naquela região, coloco meus ouvidos a caçar um som que se pareça com o do meu antigo violino e, assim, talvez encontrar o local preciso onde deixei meus preciosos companheiros de viagem.

4.17.2013

Last Night - Kazaky



"Tutto cambiò il giorno in cui la conobbi..il cielo cadde sulla terra e io mi sentii senza peso. Scesi come pioggia bianca e sapevo che tra la folla esistevamo solo noi. Non ho chiesto il suo nome, senza dubbio, si chiamava, Amore.
Il mondo delle illusioni non è eterno, presto conobbi il suo nome, Passione. E' così che la chiamano. Viene da me quando vuole, e lasciandomi strappa un pezzo dal mio cuore. Ho provato a sciacquar via il suo profumo dai miei palmi, ma mi segue, ovunque. Non posso farci nulla, l'unica cosa che posso fare è stare a guardare il mio corpo affondare lentamente nel suo sangue." - Last Night / KAZAKY, The Hills Chronicles

 Amor. Paixão. Como diferenciar tais sentimentos? Como saber onde um acaba e o outro começa, vice-versa? Como elucidar um mistério-arcano? Claro, se compensarmos que Feras podem amar.

4.16.2013

Pequena dissertação acerca do erro cometido hoje


Como homem eu sou um tolo, débil, incapaz. Declino perante leviandades e me excitam, paradoxalmente, situações constrangedoras. Não basta ser rico, poderoso, belo e indiferente. Preciso testar estas condições no cotidiano. Não me oculto mais, mantenho-me aos holofotes. Parece que para cada esperança que acorda comigo, já é criada uma desesperança que se alimenta com o mesmo ardor inicial. É quase que uma descriação para as minhas criações, como um pássaro que nasce sabendo que será devorado por um gato, todos os dias, sem sequer ter a chance de escapar.

É como me sinto, invariavelmente, quando caio em armadilhas que já nasceram fragilizadas. Para mim, não para os meus captores. Pego-me pensando se Van Gogh, Rimbaud, Baudelaire, Poe, Doyle... Todos estes sofreram dos mesmos augúrios. Einstein. Sei que Shaw era indiferente o bastante para se manter por sobre todas estas frivolidades, assim como Wilde. Pensara eu ser indiferente o suficiente tendo aprendido com os mestres. Hoje vejo que não. Basta um olhar que meu senso de übermenschz aflore e desencadeie em mim uma necessidade de ajudar o 'próximo' - entre aspas porque não existe próximo a mim, excetuando a Morte. Basta uma pequena interferência que eu já me considero o protetor dos fracos, o herói singular de contos de fadas, o presunçoso capitão-qualquer-coisa que existe somente para determinar a justiça e aplicá-la aos merecedores. Uma besteira sem-fim, eu reconheço. Reconheço que não sou o herói nem o quero ser. Faço o que faço visando meu próprio benefício e ainda assim não o tenho. Nunca fiz nada pelo Bem Maior ou pela Felicidade Coletiva, não sou o Mister Mundo que almeja a paz mundial, não sou o estereótipo do SuperMan. 
Fui à floresta porque queria viver de verdade.
Eu queria viver profundamente e tirar toda a essência da vida.
Fazer apodrecer tudo que não era e vida, e não, quando eu morrer descobrir que não vivi.
Thoreau
Eu sou o anti-herói, o corrupto, o corruptor, o sujo, pérfido, macabro, leviano, escuro. E como isso me fascina! Sentir o medo que refrigera a alma dos que estão em meus caminhos. Não sou um anjo e sim aquele que se diverte arrancando suas asas, pelo simples prazer de vê-los incendiando e repudiando seu próprio criador. Sou antigo, vivi no aterro do mundo apenas esperando para emergir. Sou tudo isso mas ainda sofro por pequenas maledicências em que me coloco envolvido. Vejo minha vida com dois rumos, seguindo a Mão Esquerda dos deuses quando estou consciente e paralelamente, afilando minhas espada dourada e contemplando minha coroa de cristal, cedidas pelo deus-uno quando me lançou nesta maldição de mundo. Talvez esta seja a recompensa sombria dele, me ver dividido. Como que com um dos olhos furados, na dúvida sobre qual caminho escolher.

Homens pequenos, sentimentos pequenos, ocasiões pequenas. Tudo isso me estrangula a intensidade. Porque de todo o sempre esperarei recompensa pelo que faço e pelo que sou, e preciso que seja da forma que eu espero. Quero ser pago com sexo, amor puro, impuro, medo, respeito, vingança, ódio, temor, matança. Só não me permito ser recompensado com indiferença pois esta era justamente minha arma inicial.

Deixei de ser indiferente no momento que optei descer e viver aqui, mas, mesmo assim, prossigo. Nada é valioso o bastante pra mim, nem as poesias de Thoreau, nem as prosas de Henley, nem sequer os ensinamentos do Pentateuco Moshía. Nem a sangria que já me encheu a boca, nem os corpos que se deitaram em minha cama ou comigo - dos mais violentos ao mais recluso deles. Nem mesmo o dinheiro ou o que ele me compra. O conhecimento do passado, presente e futuro além das coisas da vida. Nem a aptidão inata, nem a pluriciência. NADA. Nada mais me causa algum tipo de fascinação atrevida, apenas desencanto e desilusão - todos iniciados por uma decisão minha. Nenhum homem me merece mais, nenhuma mulher, nenhum demônio. Nem me apetece estar para com eles. Da minha Fortaleza Abandonada da Solidão eu vejo o mundo e prevejo onde irá parar, mas sem me atrever a descer e acidentalmente causar uma ruptura nesta concepção de papelão.

Tudo começa em mim mas nada termina. Não estou aqui quando penso que estou, nem estou em qualquer lugar. Escrevo sobre mortes porque as desejo e decerto as conseguirei, nem que custe, uma vida. Tenho muitas e isso é meu bem e meu mal. Tenho todo o tempo do mundo e não preciso de absolutamente nada, o que significa que, não queira ser surpreendido algum dia, por alguém... Imploro por esta surpresa.


"Somos todos geniais. Mas se você passar a vida julgando um peixe pela sua capacidade de subir em árvores, ele passará a vida inteira acreditando ser estúpido." Einstein.

4.02.2013

Apenas mais um desavisado que cruza o caminho, de quem não deveria cruzar


Faz exatamente três semanas desde que aconteceu e por isso, a frescura em minha mente, consigo narrar com clareza que chega a surpreender meus sentidos.

Andava eu por uma rua muito conhecida, a esmo, sem uma real necessidade de caminhar e, por mais incrível que pareça, sem sede ou vontade de caçar. Era uma noite comum, de uma semana comum, com sentimentos comuns, até então. Havia sonhado com pessoas que eu já pensara ter esquecido e sentido um aroma conhecido. Estava eu em um certo tipo de depressão. Claro, nada fora do comum. Havia suplantado a ideia de caçar àquela noite porque me imaginei completo de emoções que eu não conseguiria suportar, infelizmente. Quanto mais o tempo passa mais ficamos indispostos à Sede, mais indiferentes também. Ela não nos afeta como aos jovens na necessidade da vitalidade, passando a ser algo mais como costume do que como constância. Andava eu por uma rua conhecida, já a altas horas da madrugada.

Chegando em um cruzamento estreito das ruas, famosas, à beira-mar, fui interceptado por um jovem, de aparência flácida e doentia, pálido, torporoso e com um cheiro de matéria belicosa. Algo no espírito daquele homem me incomodava, no seu olhar. O ignorei de imediato, mantive-me em postura e acidentalmente, com o impacto, ele caiu. Com o impacto e por sua negligente maneira de andar, acrescento. Em vez de se desculpar, ele ousou olhar-me diretamente aos olhos, confrontando minha figura. De repente, sua tez pálida se tornou ainda mais pálida – acidentalmente devo ter incendiado meus olhos. Porém, mesmo com sua reação, a apatia pela matéria que ele havia ingerido o coibiu de correr ou processar aquela informação como perigosa. Então ele abaixou a cabeça e estagnou. Dei mais alguns passos adiante, não tinha intenção de perder tempo com reles protótipo de humano. Quando do meu decimo ou undécimo passo, voltei-me para trás pois ouvira uma preposição que provavelmente entenderia como um chamado. Ele não estava só, haviam com ele mais duas moças e um rapaz, ambos passaram então a me seguir após o chamado dele. Situação desconfortável, asseguro, ser perseguido intencionalmente por alguém que não compreende o que se passa e justamente numa noite em que resolvi não mandar mais uma alma ao Scheol. Desconfortável para ele, que buscava a morte em um dia em que ela pensara que tiraria folga. O ignorei novamente e mantive o passo, sem altercações. Ele, por fim e após um prolongado esforço físico, agarrou-me a mão intempestivamente, deixando-o em situação ainda mais delicada. Estranhamente naquela noite meu humor era complacente com a ausência de sede, então não o matei imediatamente. Mais uma vez, sorte dele.

Virei-me e o encarei, reforçando em minha mente que aquela noite deveria permanecer apenas nostálgica como começara, não haveria sede ou fome e tampouco uma morte desnecessária – era o que eu pensava até então. O assunto dele era hilário, o que ele pensara em dizer. Estava prestes a achar que seu golpe daria certo comigo. Como não estava para humor mas também não estava para a dor, acabei achando que uma brincadeira seria a distração que eu precisaria. Pensei em fingir até que ele desse por satisfeito e fosse embora, me deixando na paz merecida – claro, se ele realmente conseguisse sobreviver. Questionou-me veementemente sobre o nome, que não revelei, e disse que tinha a certeza de que me conhecia. Não se recordava de onde, quando ou como, mas sabia que me conhecera em uma situação que no mínimo era degradante para mim. Apenas reforcei que não o conhecia de onde quer que fosse. Enquanto tudo isso acontecia, seus amigos estavam a apenas alguns metros de distância, acompanhando, talvez ofereciam o suporte necessário caso ele precisasse. Ou não. Numa situação de perigo, geralmente os humanos correm em direção contrária ao que acontece. Aquele momento eu já havia me irritado e ele conheceria a morte em mim, decidi-me. E sorria por dentro.

Continuando a me inquerir sobre origem, inventando claro, e sobre nomes, acabou revelando que não me conhecia mesmo. Mas queria conhecer (até hoje não entendo como os humanos realmente chamam a morte). Começou então a segunda parte do jogo: a sedução descarada. Elogiou-me do cabelo à cor escolhida para o sapato, enquanto tentava através de uma simulação barata, se mostrar interessado nas minhas negativas. Pensava eu “- mas que desilusão perfeita para ele”. Prosseguindo, chegamos a etapa semifinal: a barganha.

Passado então este tempo em que as frivolidades eram as maiores armas, passamos para a arte da tentativa de convencimento do amor espontâneo. Não duvido que isso aconteça, já passei por diversas vezes por esta situação. Mas naquele caso, impossível. Já esgotado, cedi. Cedi à minha necessidade de fazer calar aquela criatura rapidamente, mas se possível, com o requinte de crueldade necessário para que isso me livrasse da sujeira que ele me trouxera. Aceitei seu pedido de casualidade sexual, por fim. Notei que ele usara seu telefone para sinalizar aos seus que “conseguira mais uma vítima” naquela noite, mal sabendo que a vítima logo seria a improvável. Novamente sorri, da estupidez e arrogância com que tratara seu velório adiantado. Deixei que ele me encaminhasse até onde pretendia mas acabei arrependido. Naquele mesmo beco em que ocasionalmente nos encontramos, havia um pequeno rendez-vous. Nos dirigimos até lá, seus amigos nos acompanhavam com uma certa distância.

Quase à porta, ele se desviou e, numa primeira tentativa infrutífera, sacou uma pequena faca que havia escondido nas suas vestes, na intenção de roubar-me. Achando que ia me intimidar, afrontou-me. Permaneci estático no mesmo lugar, apenas contemplando a cena toda. Tive de admitir que ele era determinado, vendo quanto tempo gasto para empreender aquela façanha digna de filmes de comédia classe C. Aproveitando-me que ninguém nos assistia, passei eu a intimidar: incendiei os olhos e novamente vi o terror nos dele, revelei as presas e sorri. Naquela hora ele se despediu de toda a determinação e coragem que havia tomado e não pensava em outra coisa a não ser fugir e se esconder. Mas, involuntariamente a isso e pelo medo e pela quantidade de drogas que havia ingerido, não conseguia se mexer. O espanto em seus olhos me excitava e eu sorria ainda mais alto. Ele apavorado, convocava todos os nomes de deus que conhecia. Rápida e furtivamente, nos retirei dali, subindo no mesmo prédio. Tão rápido que ele não poderia acompanhar e seu medo tornou-se algo tão surreal pela contestação que quase sentia seu coração parar dentro do corpo. Esquecera da faca em sua mão, esquecera de tudo o que havia visto, talvez amaldiçoara o momento em que decidira investir em mim, aquela noite. Seu corpo eliminava suor e por fim, suas secreções, quando eu o soltei apenas para que pudesse permanecer me encarando, sem conseguir fugir. Era quase palpável o terror que sentia e cada vez mais eu me excitava. Seu coração batia tão rápido que, se não explodisse, acabaria parando. E foi o que aconteceu, acabou parando. O medo escoava em suas veias, intoxicando-o, juntamente com a substância perigosa. Não foi forte, seu coração, deixando-o na hora em que ele mais precisaria. Acompanhei cada momento único, sorrindo, agora com mais calma. Seu corpo se batia no telhado, um som rouco saia de sua garganta, enquanto seu corpo eliminava excreções. Sua mente esvaziava aos poucos, mas numa intensa velocidade. Em menos de cinco minutos, sua alma havia deixado o corpo oco. Assim, nos despedíamos de mais um desavisado deste pequeno mundo.

Não ousei ajuda-lo, menos ainda me apeteceu o sangue. Primeiro porque era morto, segundo porque haveria de ser mais sujo que o Rio Tâmisa. Lá embaixo, ouvia as vozes dos seus amigos, que já àquela hora esperavam que havia cumprido o trabalho e se excediam em regozijos sobre o que fariam com o arrecadado pelo amigo. Já pensavam em mais drogas, bebidas e se possível, pagar um local para dormirem quando amanhecesse. Para terminar a noite, portanto, no melhor estilo, tomei-o e na mesma velocidade, subi às nuvens. Quando calculado e perto dos seus amigos, larguei o corpo. Pude ouvir, mesmo lá de cima, o som abafado que o impacto causara. Claro, ouvi também os gritos e choros dos amigos e dos transeuntes daquele local. Enfim, a morte se deu por contente.


"Não tenhais piedade dos caídos. Eu nunca os conheci. Eu não sou para eles. Eu não consolo, eu odeio o consolado o consolador." Liber AL vel Legis
É um conto interessante, principalmente porque dentro das Cronicans, é um dos primeiros em que o sexo não é o foco principal e a bebida, o foco secundário.

4.01.2013

Sweet Suicide - Sacha Sacket



Give it everything you've got
You're your own worst enemy
Drinking spirits, taking shots
Glass still remains half empty
You wish that you won't wake up
But you can't even get to sleep
Six feet under for these six months
Just dying to be buried

And I'm the one to lift you up
'Cause I can't be your Francis Bean
The love I give will never stop
You don't want to wait and see

It's Sweet
Suicide to my life
Saving you every time
I catch you half-alive
Wish I could compete
With your perfect goodbye
The sweat of your thousand tries
The threat of the same blue sky

You know what it's like to touch
The edge with all apologies
Where just this once is one too much
And you have nothing left to be.
You know how it feels alone
To catch yourself still thinking
"Sticks and stones may break my bones,
But words will never hurt me"

But I'm the one to lift you up
'Cause I won't be your Francis Bean
The love I give will never stop
You don't want to wait and see

It's Sweet
Suicide to my life
Saving you every time
I catch you half-alive
Wish I could compete
With your perfect good-bye
The sweat of your thousand tries
The threat of the same blue sky

And I would be your answer
Would be your savior
Would be your sign
And I would be your water
Would be your shoulder
Would be your sigh