Certa noite, já há mais Luas que o calendário de um ancião poderia contar, estava eu sentado sob um olmo, na região da antiga Gália, descansando e observando o conjurar de belas estrelas - principalmente Aldebaram, a Grande estrela da constelação de Tavrvs. Estava com meu violino deitado ao colo, sem uma certeira inspiração do porquê tocá-lo. Apenas ouvia o ranger estático do movimento dos planetas e meu próprio, inerte na Terra junto aos animais que me rodeavam. Parecia que estávamos em uníssono com o cosmo, sem uma sequer agitação. De repente, então, senti que havia algo incomodando a mim e à minha quietude. Declinei que pudesse ser alguma espécie de entidade maligna já que os animais não se preocuparam, era talvez algo que já estivessem acostumado a presenciar. Eu, particularmente, ainda não.
Deixei meu violino encostado ao olmo e segui então em direção ao som que ouvia, nitidamente, como me evocando e seduzindo. Havia um lago no meio daquela planície, algo que eu não vira antes – captei. Na borda extrema do lago havia uma bela mulher, pálida como o brilho da Lua – e eu até então o atribuía a isso – que bebericava. Era tão suave e sublime que parecia encantar as flores ao redor para que florescessem mais depressa e pudessem observá-la. A própria Lua parecia segui-la de tão fascinante era sua beleza e graça. Algumas aves vieram até ela e também beberam da fonte, como que querendo absorver parte daquela beleza. Fiquei extasiado com a superioridade da cena e automaticamente me recordei do tempo em que os deuses pisavam por sobre a terra. Ela certamente seria um deles, ou confundida com um.
Durante uns bons minutos a cena não mudava até que ela percebeu minha presença e sentiu-se intimidada. Recolheu-se rapidamente para trás de uma pedra média e me encarava. Notei que a olhava com tanto interesse que poderia estar assustando-a. Logo, reverenciei e tentei me aproximar. Ela assustou-se e correu, em alguns passos largos e infringindo as Leis da matéria, sua forma acabou por adentrar uma árvore alta e majestosa que se elevava por ali. Instantaneamente assegurei-me então: era uma banshee. Já havia ouvido falar delas mas nunca pude ver uma de tão perto. Claro, suas histórias não fazem jus à sua beleza. Porém, senti que a havia perdido no momento que me deixei levar pelo frenesi de sua majestade esculpida.
Voltei-me logo, portanto, à árvore que estava assentado e continuei a observar as grandes estrelas, imaginativo agora, pensando como teria sido um encontro daqueles. Desta vez, diferentemente, sentia uma inspiração deprimente para me estimular a dedilhar meu violino. E comecei. Uma doce sinfonia que partia a pesada e voltava à depressão palpável, cantarolava algo que se mesclava ao som que emitia e gerava uma cadaveria que os animais, se pudessem, chorariam. Um sofrimento nem lapidado, uma lástima, um desejo, uma desventura. Logo quando já me dava por exaurido da sonata, eis que a figura da banshee surge, caminhando em minha direção. Notei que o som que eu fazia a encantava e portanto decidi não interromper até que pudesse estar defronte a ela. Ela andava por entre os animais e eles lhe davam passagem, até que um urso de pelo marrom se deitou e ela recostou nele. Notei também que ela, por ser um espírito da floresta, talvez também falasse com os animais. Na música que eu tentava elaborar enquanto tocava, inclui palavras de bondade e recepção, visto que se ela pudesse entende-las, saberia que eu não tinha más intenções. Curiosamente ela sequer notou, não entendera mesmo. Nos mantivemos assim, eu tocando, ela ouvindo, os animais salvaguardando-nos, as estrelas girando no universo.
Pela exaustão, parei. Deitei o violino e ela, exaltada, gesticulava me pedindo para continuar. Fiz-me de desentendido, esperando que ela tentasse ao menos pedir, para que eu ouvisse sua voz. Não deu certo, ela se tornava mais exaltada e seus gestos se excediam, quase beirando a insanidade. Talvez não tivesse o dom da fala, eu imaginei e para calar seus movimentos, continuei a tocar. A paz então reinou novamente dentro dela.
Continuamos assim durante toda a noite, em minhas pausas para o descanso ela se manifestava e parecia não ter fim sua insaciabilidade. Numa manobra ousada, parei de tocar e ofereci a ela o violino, na esperança de que ela se interessasse e, se eu pudesse, ensiná-la a tocar. Ela parecia receosa mas aceitou. Havia nela um dom natural para a música quando ela empunhou o corpo do violino na posição que eu ensinara e salteava o arco sobre as cordas. Fluía dela os sons e as imagens, como antes fluíra de mim. Não precisei de muito para que ela logo estivesse abalada com o que podia fazer, com o que havia descoberto. Por fim, me senti realizado quando ela me agradecia com os olhos marejados, sem nem parar um minuto sequer de criar a sua própria música.
Com o tempo noturno passando e logo a alvorada se fazendo presente, precisava me ocultar. Debaixo daquele mesmo olmo eu comecei a cavar usando minhas unhas e mãos. Ela interrompeu sua música, pela primeira vez, e ajudou-me. Uma figura platinada belíssima, suja de terra molhada e cheirando à alecrim – eis a visão da eterna juventude que eu nunca esqueci, mesmo após todo este tempo. Logo havia uma cova profunda o suficiente para que nenhum raio solar pudesse alcançar o fundo. Quando ela notou minha intenção, veio a mim com um olhar sofrido, devolver o instrumento. O recusei, dei-lhe de presente e então ela chorou de alegria e me abraçou tão intensamente que se fosse mortal, teria sido esmagado (desconhecia a força de uma banshee até então). Ela logo se lançou a tocar novamente e eu me recolhi na cova, fugindo dos primeiros raios solares.
Permaneci ali, meio consciente, a ponto de ouvir outros passos se aproximando. Delicados passos. Novamente não ouve excitação dos animais então presumi que poderiam ser outras banshee e meu desejo de enfrentar o sol e ver a magnitude daquele acontecimento me preencheu. Precisei me controlar e então tive uma ideia: veria o que acontecia pelos olhos dos animais que estavam presentes. Haviam cinco outras banshee com a minha, todas exaltadas e tão bonitas quanto. Elas vocalizavam algo que parecia uma repreensão à minha banshee pelo violino e em todo o tempo ela não soltava sua voz. Provavelmente não era dotada e por isso precisava do instrumento, para se comunicar. Assim como o doce e nobre Minotavrvs dançava por não poder falar. Ela tentou comovê-las com o som mas pareciam impassíveis. Ela chorava e tocava, com sua alma (se tivesse uma) mas nada parecia declinar a intenção das irmãs sobre manter o instrumento em sua posse. Elas então a arrastaram pela floresta, com os animais impedidos de ajudar uma vez que obedeceriam a todas, indiscriminadamente. Todos se sentiam aflitos mas incontestavelmente, impotentes. Eu idem, pois não poderia sair ainda à luz do sol. Por sorte, um pequeno esquilo as seguiu e mostrou-me o aconteceria. Minha banshee era acorrentada em uma espécie de emaranhado de cabelos e eu sentia que ela não poderia sair dali. Meu violino foi deixado bem à sua frente, para que ela olhasse o instrumento que causou sua prisão.
Lá, acorrentada, ela chorou até que a noite veio. Pude me levantar novamente e no mesmo instante fui até ela, como para aplacar sua tristeza. Peguei o violino e toquei. O som era tão rascante que suas irmãs voltaram, achando que ela havia conseguido se libertar de alguma forma. Temeram quando me viram, seus olhos se tornaram labaredas de pavor e associaram sua prisioneira a mim, claro. Repudiaram-na e ela só chorava. Desta vez eu entendia o que diziam e a acusavam de romper a irmandade e de outras injúrias que eu sabia que ela não havia cometido. Não ousaram me enfrentar, certamente, mas as palavras que disseram me machucaram tanto quanto à minha banshee. Como não poderia aturar mais aquela situação, evoquei um pequeno feitiço para assustá-las e logo não se via mais rastros de nenhuma delas. Infelizmente, também não pude romper as correntes que a aprisionavam, mesmo usando de todas as minhas forças. Até então, não sabia de que matéria era feita aquela corrente – hoje eu descobri – e me frustrei por não poder libertá-la. Como também tinha minhas limitações, engendrei um plano para que ela não se sentisse sozinha e pudesse, de alguma forma, continuar vivendo mesmo com minha ausência. Durante as primeiras noites que passei com ela, eu tocava todas as canções que conhecia e inventava algumas, tudo pela sua felicidade. Porém, logo precisaria deixa-la.
Tratei de enfeitiçar o mesmo olmo em que adormeci sob suas raízes para que seus galhos pudessem tocar o violino para minha banshee. Deixei-o sob sua proteção e ela sob a do olmo. Os fiz amantes para que estivessem sempre juntos e que nenhum dos dois partisse antes do outro. O imponente olmo pleiteando a atenção das estrelas, tocando violino e fazendo minha banshee sorrir e sonhar enquanto o ouvia.
Algum tempo depois, soube que do amor intocado deles nasceu um híbrido e me fascinei. Dispus-me a encontra-lo porém não consegui até hoje. Toda vez que estou naquela região, coloco meus ouvidos a caçar um som que se pareça com o do meu antigo violino e, assim, talvez encontrar o local preciso onde deixei meus preciosos companheiros de viagem.




