3.30.2013

Compartilhávamos uma estrela, porém em locais diferentes


Quarta-Feira de um feriado comum. Resolvi cruzar a linha novamente e ousar interferir no que era humano. Mandei uma mensagem, aguardei pouco, o retorno quase imediato: sim.

Era um convite para um passeio até então aleatório, à noite. Combinamos às vinte horas para facilitar meu acesso às rodovias principais uma vez que o buscaria em sua residência. Claro, porque preciso da luz estrelada para poder caminhar em segurança e no conforto que as sombras me proporcionam. Nos conhecíamos há alguns meses, fruto de uma desventura traidora ação que eu cometera, em plena boda. E por várias vezes já havíamos nos encontrado, desenvolvemos uma certa dependência do que um não poderia dar ao outro. Engraçado, não?
Dormimos juntos, acordamos juntos, sofri com a luz matutina por causa dele e no fim, acabamos um em cada lado da moeda. Não como inimigos, nunca. Mas conforme citado, por que não tínhamos muito em comum a não ser o gosto pelo sexo. E talvez o desinteresse pela humanidade no geral.

Notei como se tornara fácil, ao longo dos tempos, tirar uma pessoa de sua casa mesmo quando se é um completo desconhecido. Antes, precisávamos de feitiços, artifícios, hoje basta um convite. Claro, quando preciso retornar às origens nada que uma boa sedução não se torne um jogo prazeroso e intenso. Logo, às dezenove horas chegaram e com o crepúsculo, pude tornar a despertar. Tomei uma ducha, me arrumei, telefonei confirmando, peguei o carro e parti em sua direção, em sua busca.

Pontualmente, às vinte, eu estava a aguardar do lado de fora de sua casa. Ele saiu, se despediu da mãe que veio com ele até o portão (provavelmente na intenção de guardar minha fisionomia e, antevendo isso, coloquei uma imagem falsa em sua mente), entrou no carro e beijou-me. Não esperava por aquele beijo, não havia intimidade entre a gente e não éramos um casal. Enfim, parti e demos início à nossa aventura.

Às vinte horas e vinte e sete minutos chegamos ao restaurante em que havia feito reservas. Jantamos – culinária japonesa – e então pensamos em dar uma pequena volta antes de nos dirigirmos de volta à casa. Ou talvez passarmos a noite juntos, ele pensava. Eu já havia feito planos para aquela noite. Convidei-o para um passeio a pé, num local em que muito gostava e lembrava minha juventude e ele prontamente aceitou. Dirigi até o local, evitando a entrada principal e ele não notou que estávamos em um cemitério reservado, mas muito conhecido e antigo, até que passamos pelo descampado e chegamos à área dos mausoléus. Ele estranhou o local, mas suspeito como sempre fora acerca da minha ‘individualidade’, não se queixou desde que eu prometesse não demorar por lá. Andamos a esmo, o cemitério tinha seu toque de sofisticação digna do século XVIII e apreciei a boa arte das construções. Então, de repente, cheguei ao local conhecido mas mantendo-me distante, esperava uma reação. Não obstante, ele notou que sob um antigo mausoléu havia meu sobrenome de família: me questionou sobre a coincidência. Neguei que fosse coincidência pois meus antepassados lá repousavam e, prevendo o acidente, disse-lhe que eu mesmo já descansava ali, há algum tempo, desde que me mudei para este Novo Mundo. Ele ou não entendeu ou achou incoerente pois sorriu, imaginando minha insanidade, talvez. Porém não imaginava que era verdade, era onde eu repousava quando me cansava das multidões e eras barulhentas que se seguiam. Então eu achei graça e sorri.

Olhei no relógio, faltava pouco para a Hora Negra e então, comecei a me descontrolar.

Questionei se não queria conhecer o interior do local e ver as pinturas que minha família guardava, estranhamente, ele aceitou. Talvez por medo, de relance vi que meus olhos, refletidos nos dele, pareciam brilhar como a luz noturna. Sede. Entramos no aposento que de fora esconde o real tamanho que se percebe ao entrar, andamos e pude mostrar-lhe. Surpreendeu-me sua sagacidade quando notou que na maioria das pinturas havia uma figura muito parecida à minha, em quase todas elas, mesmo das mais antigas. Senti que seu coração já começava a palpitar menos ritmado, mais frenético e, como música para meus ouvidos, aceitei aquele som de bom grado.

Intempestivamente, cerquei-o e o lancei contra a parede mais próxima, assustando-o mas a ponto de roubar-lhe um beijo. Ele temeu mas acabou sorrindo, era um destes homens em que a brutalidade – moderada – lhe excitava. Beijei-o novamente e mais e mais. Beijei seu pescoço e seu ombro, afastando parte da camisa que lhe cobria. Arrancando-lhe, beijei seu peito à altura do coração. Com a mão destra, assegurava que ele olhasse para cima enquanto o beijo o sedava, como um morcego que anestesia sua presa com as poucas toxinas presentes em sua saliva para se alimentar do que sorve. Sem que ele sentisse ou visse, pude perfurar-lhe o mamilo e beber seu sangue balsâmico, numa mistura agridoce que muito me intrigava. Deixei que sua sedação química diminuísse para que meu cantarolar o excitasse e assim comecei a cantar, num idioma que ele jamais conheceria eu narrei parte da minha vida enquanto jovem.
Ainda assegurando-me que ele não visse o sangue a escorrer, mordi seu pescoço e drenei. Ele estaria mais extasiado do que eu? Cheguei a cogitar. Algo dentro dele buscava a Morte já há algum tempo e minha decisão fora baseada neste conhecimento. Drenei até que ele não pudesse mais permanecer de pé com suas próprias forças, então me sentei no canto do mausoléu e coloquei-o em meu colo. Abraçado a mim, ele jazia enquanto eu bebia, indiferente. Sua vida era tão efêmera quanto qualquer outra, nada de especial. Seu sabor agridoce, bom, derivava da sua intensa depressão – algo que não me comoveu.

Por fim, morto em meu colo, me pus a chorar. Não entendo até hoje porque o fizera, mas sentia que absorvia parte da sua depressão e revivi então meus melhores momentos. Até os de antes de me tornar uma Fera. Lágrimas de sangue que vertiam dos olhos começaram então a pingar sobre ele, cobrindo-o e, para evitar que acidentalmente eu o revivesse dentro da minha espécie, corri a desmembrá-lo. Separei todas as suas partes e ateei fogo, numa espécie de balsa que havia dentro do mausoléu, como fazíamos com os holocaustos antigamente. Ele queimava mas ainda assim a minha tristeza não passava. Usando meu sangue como combustível, terminei com seus restos. Da pequena pilha de cinzas que sobrou, retirei um pouco e esfreguei em meus próprios rosto e braços. De uma outra pequena porção, corri até fora do local e deixei que o vento levasse. A porção que restou, deixei em meu próprio caixão que lá estava, guardado para sempre em minhas memórias e longe das vistas de todos os outros e para que assim, em solo santo, descansasse. Foi meu último gesto de generosidade para com ele. Voltei e me sentei onde estava antes, caído, sujo com suas cinzas e ainda triste, com a face numa máscara de cinzas e sangue. Meu sangue, que ainda se esvaía. Temi, mas acabei adormecendo sem preocupação pois o local jamais seria afetado pela Luz do sol vindouro. Naquele sono da manhã, eu o vi em minhas lembranças e era como se ele agradecesse o que eu fizera.

Logo, ao anoitecer, eu voltei à minha casa.



Sangrando, sangrando, minha doce Estrela.
Criando um universo em que caibamos e nossos desejos,
ardente, como que em flamas vermelhas delicadas,
repousa minha obscuridade vertiginosa.

3.28.2013

Uma pequena perda, mas uma grande bebida


Pensei e andei pensando, acabei por convidá-lo para um pequeno jantar em algum restaurante conhecido. Era tarde ainda, mandei uma mensagem com o convite e recebi uma mensagem de aceite.

Chegou a noite, tomei uma ducha, me arrumei e peguei um taxi até a primeira parte do encontro programado. Mandei uma última mensagem de confirmação, como não houve retorno, resolvi telefonar. Conversamos e confirmamos o local. Cheguei pouco depois dele e nos dirigimos à nossa mesa.

Fomos atendidos, ele pediu carne com vinho tinto, eu optei por uma salada e vinho branco. Conversamos, colocamos os assuntos em dia, até sorrimos de alguns casais que estavam à nossa volta. Ficamos no restaurante por umas poucas horas, afinal tínhamos outros planos para aquela noite. Usando do subterfúgio do toalete, devolvi o que havia ingerido pois já me afetava internamente. Conta paga, saímos do restaurante e pegamos outro taxi, desta vez até um local mais reservado.

Pedi uma suíte com sauna, hidromassagem e o que mais o dinheiro poderia pagar. Não pude me conter e já comecei a devorar seus beijos, antes sequer de cerrar a porta. Uma cama espaçosa, à meia-luz, tratei de despi-lo e me despir. Fizemos amor umas duas vezes antes de irmos à hidromassagem. Fizemos amor novamente na hidro, depois na sauna, depois de volta à cama. O clima estava em absoluto gélido e isso me excitava. Poder abraçá-lo enquanto ele tremia de frio, sentir seu corpo rijo, tentar em vão aquecê-lo, seus olhos enevoados. Tudo tão fascinante! Liguei o aparelho de som que havia lá e começamos a acompanhar as músicas, todas miraculosamente escolhidas conhecidas e pensei ser um sinal dos deuses para não continuar. Fizemos amor mais umas duas ou três vezes.

Logo, ele dormia enquanto eu o mantinha abraçado. Enquanto dormia, eu beijei seus olhos e o amaldiçoei com a maldição da paixão. Não fiz somente isso, amarrei sua alma para que ela não escapasse e para poder encontrá-la mais facilmente dei um nó dourado em seu tornozelo - Nada disso ele acompanhou pois já estava sob feitiço. Le Petite boisson, comecei por aqui.

Era um delicioso aroma acompanhado de uma textura singular, fantástico, doce, limpo, nada das impurezas que costumamos encontrar. Não havia nada de mal naquela criatura. Acabei me engasgando com tanta fluidez e mesmo se tratando da pequena bebida, o sangue parecia querer vir para dentro de mim, como se inconscientemente ele quisesse se ceder a mim. Dei uma pequena mordida no meu dedo indicador e curei sua ferida com meu sangue, por hora.

Ele ainda torporoso pelo feitiço, mas por vaidade o mantive numa semi-consciência. Delicadamente o levei até dentro da banheira e o deitei lá, deixei que uma pequena parcela de água quente caísse e o aquecesse - indiretamente, me ajudaria a sorver o que queria. Parecia uma marionete e seus olhos me acompanhavam, mesmo não entendendo o que acontecia. Agora, instalado, rasguei seu pulso e tratei de beber, aquele sifão jorrava para dentro de mim, cálido, limpo, vivo, vermelho. O que escoava, caia na banheira e se mesclava à agua, dando um tom róseo digno de um alvorecer. Foi a imagem que coloquei em sua mente enquanto bebia. Rasguei seu pescoço e bebi, depois seu peito deliciosamente esculpido. Era tanta bondade e ingenuidade que num pequeno acesso de descontrole, acabei destroçando seus ossos da base do crânio e parte da sua espinha dorsal ficou presa à minha mandíbula: Havia quebrado meu belo boneco. Ora, o que fazer então?

Uma vez quebrado, arranquei seu coração pois precisava vê-lo, saber que existia mesmo um naquele corpo. Facilmente o retirei e bebi diretamente dele, enquanto batia, ao mesmo tempo querendo se entregar e manter sua vivacidade. Depois de bebê-lo e seco em minhas mãos, esfarelei-o e sujei meu rosto com ele, logo, precisando ser mais rápido antes que o sangue parasse de circular, comecei a mutilação de membros, trazendo-os todos à minha bebida. Arranquei seus braços e pernas, o crânio já estava partido.

Na banheira, no final, sobrou apenas um monte de massa e uma pequena dose de vida, misturada à água. Eu, satisfeito, me permiti descansar um pouco enquanto a música ainda oscilava entre o que eu podia ouvir e o que eu via da própria vida sofrida de minha vítima. Eram exatamente três e cinquenta e nove quando liguei para a recepção e pedi um taxi. Deixei pago pelas próximas 24 horas e a recepcionista pareceu intrigada, disse-lhe que houve uma emergência de família mas que não queria incomodar meu companheiro, que estava adormecido, pedi para que ela o acordasse por volta das duas da tarde e dissesse que precisei partir, mas que já havia deixado um recado junto aos seus pertences, para o caso dele se preocupar. Antes de sair, apaguei minha imagem da sua mente e o taxi me trouxe de volta até em casa, onde continuei acordado até que meu inimigo mortal apontasse no céu. Intensamente extasiado e feliz, como sempre fico, quando estou bêbado de bondade.


O Vampiro e o Helianto

Se amanhece, aqui estou a selar tua fonte
Com o beijo que marca que te protejo
E, se escurece, me falta tanto um rumo
Que me perco em memórias [...]


3.26.2013

Do que se trata um sonho se não há Felicidade nele?


Era noite, como é agora, porém ontem. Ou anteontem, não me recordo. Chovia, também.

Estava eu a perambular pela minha própria vida, começando a adormecer - ao menos eu achava que estava. Pensei em como as coisas podem fugir do nosso controle e como as pessoas em si são efêmeras em nossas vidas. Ou não são, e nos levam a fazer loucuras por amor ou ódio. No meu caso, pelos dois.

Tinha um livro em minhas mãos, se bem me recordo. Ou era uma adaga? Tudo está tão caótico na minha lembrança agora. Havia um aroma que me perseguia e ainda não consegui descobrir do que se tratava. As Damas-da-Noite estão florescendo, provável, já que a Lua está para mudar.

Lembro-me de deitar em minha cama e lágrimas desciam-me aos olhos, mas não eram lágrimas comuns, havia fogo nelas. Um fogo líquido que eu já mencionara antes. Sentia minha pele arder e meu coração inchar como um balão de festas de aniversário. Lembro ainda de colocar os fones de ouvido e me propor a adormecer ouvindo alguma canção, era cedo ainda. Logo o sono chegou.

Durante o sono, me vi sonhando com a perseguição. Como um lobo segue sua presa pelo inverno europeu. Eu era o lobo, voraz e sedento não pela carne mas pela alma dele. Depois eu era como um corvo que o seguia apenas para agourar sua vida. Então eu era um verme gigantesco que se deliciava com sua carne morta, deitado no caixão ordenado. Por fim, eu era o demônio que exigia sua eternidade.

Recobrei a consciência, eu era homem novamente e estava à porta de alguém, não sabia exatamente quem até chamar pelo seu nome involuntariamente. Lembro da cor da sua varanda - verde-água - e de grades brancas que subiam na altura da cintura acima. Lembro que havia umas pequenas mudas de rosas em um canteiro e um cheiro de laranja-da-terra, barro, crisântemo e jasmim. Chamei seu nome novamente e eis que, àquela hora da madrugada, ele me atendeu, aturdido e desacreditado. Aproximou-se de mim, ao portão, questionando minha presença. Pedi o convite para entrar, ele hesitou. Pedi novamente e ele cedeu.

Daqui em diante só me recordo de cenas e um borrão inunda minha memória: com a velocidade de um ciclone eu entrei, agarrei-o fortemente, imobilizando seus movimentos. Beijei sua boca ferozmente e contra à sua vontade, desci com minha língua até seu pescoço e uma veia pulsava, quase que chamando por meu nome. Rasguei sua jugular com minhas presas e bebi até me fartar e engasgar, enquanto sua própria vida escoava e se juntava à minha. Bebi parte do seu cerne, mas o deixei ainda consciente - um pouco, queria que ele testemunhasse o erro que foi me convidar a entrar. Arrastei-o até o interior de sua casa e o movimento fez com que sua família se exaltasse. Na mesma velocidade, quebrei o pescoço de sua mãe com um gesto simples, para que não sentisse dor e rasguei seu pai do abdome para cima, após enfiar minhas unhas em suas vísceras e dilatá-las forçadamente. Havia sangue por todas as partes, isso colocou-me em frenesi. Levantei-o, o pouco que sobrara da sua vida e o beijei novamente, forçando seu pescoço para estancar a hemorragia já que minha intenção era beber ainda mais, de lugares diferentes, e assim o fiz. Bebi do seu peito, do seu pulso, da sua coxa, da sua boca e voltei à jugular. Já exangue, seus olhos se tornaram pálidos e enevoados, sua boca não mexia, completamente destroçada pelo meu beijo. Para não dizer que ele se foi sem dizer nada, uma única frase soou de sua boca, com muita fragilidade: "- Eu ia amá-lo, se tivesse me dado tempo". Eu sorri abertamente, quase como um monstro. Mais, exatamente pior que um monstro e mais alto que um demônio faria. Segurei novamente seu corpo e me juntei a ele, agarrando-o fortemente num abraço culposo.

Então despertei, exaurido do sonho e temeroso, nauseado e com dor de cabeça.

Porém, ao despertar, continuava a sentir aquele aroma inebriante e ferroso. Olhei as horas no despertador, quatro e quarenta e seis, tiquetaqueando. Levantei o lençol e pretendia ir ao banheiro jogar uma água gelada no rosto quando senti algo úmido. Passei a mão ao longo da cama e havia algo desconfortante lá. Acendi a lâmpada do abajur e eis que o corpo estava deitado junto a mim e a cama era uma sopa de suor e um pouco de sangue - o que havia coagulado dele.

Nada daquilo era sonho. Eu o matei e fiz com prazer. Matei seu corpo, sua familia, sua alma e seus sonhos e nada me deixou mais feliz. Voltei a dormir, deixando tudo como estava, mas agarrado ao cadáver como um boneco.



"Quando um louco lhe parecer completamente lúcido - eis a hora de colocar-lhe a camisa de força."
Poe, E. A.

3.25.2013

Íilya, especialmente


"Pensando como um pobre andarilho estranho..."

Fico imaginando como teria sido minha vida se, ao final da Era Média, eu tivesse optado pela redenção e seguido o caminho que meu melhor amigo - na época - se forçara a seguir. Eu o amava como só um amigo de eras amaria. Nos conhecemos em meados do século VII quando por acidente eu esbarrei com ele numa taverna, na antiga Holanda. Eram tempos fáceis aqueles em que haviam tantas mortes e desaparecimentos que ninguém dava por falta de nossas vítimas. Lembro-me exatamente do momento em que o vi: belíssimo, alto como um nativo, olhos pálidos azuis de uma brancura enevoada, um corpo másculo de possível origem camponesa, uma boca deliciosamente rósea mesmo após a morte. Havia um traço nele inconfundível de perturbação com um novo mundo que estava descobrindo.

Eu saía da taverna no exato momento em que ele entrara, pois temos, como regra, a não interferência nos domínios de nossos companheiros de espécie e eu, mesmo sendo quem era, não usaria deste fato para interferir com o Conselho caso houvesse alguma rixa. Talvez a cerca de umas cinco milhas eu já sentia o aroma da morte e portanto, resolvi não permanecer. O mesmo aroma da morte me cativava de uma forma estranhamente familiar, como se eu conhecesse o possuidor. Por vaidade (e por que era no meu tempo de querer conquistar minha individualidade) permaneci no ambiente até poder vê-lo. Curiosamente, ele não deu pela minha presença, o que me chocou: ou era confiante demais ou tolo demais para se permitir a isso, sabendo que se fosse um caso de tomar posse dos domínios dele eu o faria sem hesitar e com facilidade ímpar.

Acompanhei todo o momento em que ele entrava, se assentava numa mesa próxima e instantaneamente, várias mulheres tomavam seu caminho e se assentavam com ele. Deveria ser menos evidente - eu pensei. Mais incógnito, menos expositor. Acompanhando seus olhos, notei que ele realmente fazia daquele momento algo particularmente necessário para se manter vivo naquele lugar. Como se quisesse que ninguém desse por sua falta. Talvez até fosse alguma personalidade importante para o vilarejo, antes de ser tomado pelo beijo das Trevas, e queria continuar assim. Isso fascinou-me deveras.

Por curiosidade, novamente, resolvi ler o que as presentes pensavam e em um devaneio, entendi o motivo de tanta submissão: ele pertencia ao clero - paradoxalmente - antes de se tornar um de nós. Mesmo jovem, já era o padre responsável por toda aquela região e as pessoas notavam sua aparente mudança de humor como um sinal de alerta e automaticamente faziam dele algo valoroso e interessante. Um clérigo que de repente se entrega aos prazeres do mundo sem motivo aparente, realmente era fascinante se olhasse de fora. E ainda após todo este tempo, ele me ignorava por completo, rejubilando-se em meio aquela orgia emocional das jovens e dos homens em seu meio. Um artista - eu pensava.

Neste momento, exausto pela apresentação do companheiro, realmente retirei-me do estabelecimento. Andei em direção à uma viela mais próxima, me preparando para tomar as nuvens, quando o senti se aproximar. Parei e aguardei. Ele veio até mim, curvou-se e se apresentou: chamava-se Íilya e tentou contar mais da sua história. Eu disse que não precisava pois o mais importante já havia colhido de uma de suas 'acompanhantes'. Ele corou (provavelmente havia bebido de alguma delas e o sangue roubado corria por suas veias vazias e imundas). Ignorei-o, virei-me e tomei as nuvens. Olhei para trás por um instante e vi seu pavor ao me ver fazendo isso. Porém, não demorou e começou a correr na mesma direção que eu seguia, me perseguia, até então não me deixando entender o porquê. Geralmente, os assustados correm em direção oposta, claro.

Seguiu-me por um bom espaço até que, por curiosidade, baixei e fui ter com ele. Sua expressão de fascinação elevou meu ego - lógico - e pude comprovar que nada do nosso mundo lhe fora apresentado ou era familiar. Durante uns cinco minutos ele permaneceu impassível, apenas contemplando, como que olhando o céu e logo olhando a mim. A única palavra que disse depois disso foi: "Como?".

Acredito que o tenha olhado com desdém pois sua aparência parecia de alguém envergonhado. Nem todos nós temos os mesmos dons, partilhamos alguns e afloramos outros que já eram, particularmente, nossos desde que nascemos e que precisavam apenas do estopim para deflagrar. O dom das nuvens, costuma ser adquirido pelos mais velhos e raramente um jovem consegue. Ele era um jovem, mas parecia poderoso. Seu criador deveria ter sido um poderoso e ou não compreendia o dom ou nunca comentou com sua cria sobre as circunstâncias que nos fazem mais fortes ao passar da eternidade. Outro fato é que, quando criamos, escolhemos de certa forma o que passamos à geração. O seu criador por medo ou por alguma lição desnecessária, pode ter omitido estas qualidades na sua cria. Enfim, nunca saberei ao certo.

O que sei é que ele começou a me encher de perguntas tolas porém a primeira delas foi a essencial: "Há quanto tempo o senhor é o que é, godheid?". Eu sorri, era realmente uma criança e, a julgar pela sua educação religiosa, muita coisa havia mudado. Não respondi, logicamente, mas meu sorriso o deixou menos desconfortável. Por fim, acabei me interessando pela figura e resolvi dar-lhe o voto de confiança necessário para trazê-lo até meus domínios. O convite foi prontamente aceito e, segurando-o pela cintura, o tomei mais perto e novamente estávamos nas nuvens. Pedi para que fechasse seus olhos (afinal não poderia me arriscar com seu conhecimento sobre minha morada) e em menos de alguns segundos já estávamos no chão. Notei que pequenos cristais de gelo se instalaram em seus cabelos e cílios e me dei conta de que ele poderia não estar preparado para a altitude e que seu corpo talvez não fosse tão invulnerável. Isso me colocou numa delicada sensação de culpa até o momento em que ele abriu os olhos e sorriu. Aparentemente ignorou a congelação infernal e trocou os sentimentos para algo palpável, que era a fascinação. Em minha morada, antes que eu oferece um tour, ele já havia corrido por todos os cômodos e aproveitado cada pequeno espaço do local. Novamente sorri e o que me veio à mente é que, lembrando que pertencia ao clero, não estava acostumado aos confortos da vida. Ou da pós-vida.

Sentei em minha poltrona favorita daquele lugar e aguardei, pacientemente, que sua fúria infantil acalmasse e pudéssemos ter uma conversa. Me interessava saber quem o havia feito e porque o havia abandonado, sendo evidentemente tão belo e com um potencial ainda não explorado. Horas mais tarde, ele se acalmou e continuou com suas perguntas infames sobre idade e poderes que continuei evitando. Mandei que se calasse e perguntei eu, quando ele, delicadamente tirou a gola que cobria seu pescoço e se ofereceu à minha bebida. Sabíamos que assim seria mais rápido, mas sempre fui a favor de uma boa conversa entre homens. Ignorei o movimento e novamente perguntei, senti que ele corou (talvez já tivesse usado deste subterfúgio com outros antes de mim, não me interessava). Logo, ele me contava uma breve história sobre sua criação e abandono. Notei que acertei quando o defini como de origem camponesa, seus pais o eram, e o entregaram a um bispo que passava por suas terras para a criação. Queriam que ele fosse um grande padre para que pudesse ajudar as pessoas da vila (era uma época em que só o Clero continha o poder de todas as esferas). O bispo, mais interessado no jovem menino do que na intenção, aceitou-o e levou-o consigo. Mesmo abusando dele, acabou por ensinar-lhe os preceitos (os mesmos que não seguia) e anos mais tarde, o levou à Catedral para sua ordenação. Logo em seguida, o bispo falecera vítima de um dos jovens que ainda mantinha, morto por veneno em sua comida. O recém-ordenado não se comoveu tanto quanto esperava. E seguiram assim suas obrigações para com a Eclésia atual. Passados mais alguns poucos anos, conseguira a permissão de voltar à sua terra e prosseguir com a orientação do rebanho local. Voltou e descobriu seus pais mortos, há bastante tempo e isso sim o afetou deveras. Não viveram o suficiente para ver seu filho como o padre que sempre esperavam. Não era comensurável sua obrigação para com a igreja mas em seu coração, algo mudara. Não se sentia um bom padre, um bom homem ou uma boa pessoa e passou então a vagar durante a noite, sentava perto de uma construção abandonada e escrevia suas memórias. Uma certa noite ouviu um sorriso macabro vindo do interior da construção e tratou de averiguar. Parecia que vinha das paredes e de todo o lugar ao mesmo tempo, como se estivesse vivo. Logo, uma figura alta e com uma aparência de altivez insana o encarou, com um largo sorriso na face. - Eu o conhecia, mas nomes não são importante e agora sei o porquê do abandono do jovem iniciado. Era um de nós que não se adequava às regras, um menor, que o Conselho já havia banido e que andara perambulando e apenas dando trabalho aos nossos demais. Porém, mesmo sendo menor, era antigo e consequentemente forte. Abateu todos os que cruzaram seu caminho até que, por fim, a missão foi dada a mim. Pude ver sua felicidade enquanto queimava na pira que fiz com seus restos e sua alma desengonçada pairava rumo ao Limbo. Ele apenas provocava a sua própria morte mas não poderia morrer por si só, suas intenções vis e sujas eram simplesmente um meio de provocar os outros para que, um no final sendo mais poderoso que ele, acabasse com seu sofrimento de viver eternamente. Não fui um herói por isso, nem me considerei, apenas tive pena dele e, passado todo este tempo e nos dias de hoje, em pleno século XXI, é um dos que me lembro com mais clareza de expressão.

Bom, ele havia interceptado o jovem padre e brincado com ele, subjugando-o. Por fim, bebeu dele e o tomou. Deu de beber de seu peito e fez de Íilya um de nós. Ficou com ele tempo suficiente para abandoná-lo antes de ensinar-lhe algo valioso e Íilya ficou à mercê do mundo novo que ainda desconhecia. Com uma certa piedade que não era comum em mim, acolhi Íilya pela história que ele me contara.

Íilya acabou se tornando uma companhia valiosa nos períodos de solidão do meu coração e falávamos sobre tudo. Aos poucos, eu lhe contava histórias antigas e ele, fascinado e com este sentimento que aprendera enquanto estudava, sempre ansiava por mais. Ele era diferente dos errantes simplórios que eu já encontrei pelo caminho, havia cultura nele. E sede de conhecimento intelectual. Muito tempo se passou desta forma e acabamos amigos. Íilya saia todas as noites até as bibliotecas e museus, buscava contato com os intelectuais das épocas (mesmo na era Média, havia alguns a se recorrer) e acabou influenciando muitos outros com suas pesquisas. Claro, sem nunca dar detalhes de onde as conhecia e sem nunca se apegar demais a um ou outra. Eu inveja sua interação com o mundo porque ele acabou sendo meu elo com o exterior. Todas as noites, quando voltava de suas caminhadas, ele contava-me tudo o que havia aprendido e o que havia passado. Durante este tempo eu tive amores, Íilya nunca se importara, porém ele sempre se dedicou à perspectiva do mundo que estava mudando. Enfrentamos muitas brigas juntos durante os séculos que vieram e então, quando já no final do XIV ele se decidiu por partir. Estávamos no final da Era das Trevas e ele via um horizonte, o aconselhei a declinar pois seria perigoso e nossa principal obrigação era sermos incógnitos. Claro, mais na tentativa de que ele permanecesse comigo do que possível, eu sentiria sua falta.

Novamente, tomado por uma piedade que não me pertencia e tendo Íilya como um filho, aceitei sua decisão de voltar ao Clero. Até então, muito eu já o havia ensinado sobre nossos dons e nossas obrigações, assim como o que ele precisaria aprender sobre o que eu já sabia mesmo antes dos seus antepassados nascerem. O levei até Avignon, na França, para que se juntasse aos seus.

Regularmente nos correspondíamos e logo fiquei sabendo que se tornara amigo de um monge beneditino, chamado Pierre Roger, se não me engano. Nunca confessou sua origem, mas eram amigos e conversavam sobre particularmente tudo, Íilya parecia fascinado com as ideias do monge e participava as suas a ele - mesmo sendo um período particularmente delicado para a igreja. Acompanhei de longe o que se sucedera, na época eu já estava no Mundo Novo. Passados mais uns anos, recebi uma epístola de Íilya que dizia que seu amigo havia se tornado a maior autoridade dentro da Eclésia e adotado um novo nome - Passara a ser Clemens sextus, ou Papa Clementino Sexto - e isso me fascinou. Continuei observando e notei como parecia ser uma boa pessoa e pelos seus modos, notei que aprendera muito com meu adorável amigo Íilya. Por fim, sua história estava desenrolando.

Ficamos muito tempo sem nos falarmos até que eu mesmo fui à nova sede da igreja, depois dos conflitos, atrás de Íilya. Não o encontrei. Não nos correspondemos mais, nunca mais soube dele. Mais recentemente, encontrei um amigo (humano, arcebispo) que me sugerira onde poderia estar meu amigo mas, por opção, o deixei e deixarei seguir sua vida. Bastava-me saber que ainda estava entre nós.

Caso esteja me acompanhado, doce, adorável e verdadeiro companheiro, procure-me. Talvez não me reconheça mas neste novo mundo, precisei mudar para me adaptar. Na nossa época era tudo mais fácil porém descobri facilidades também nestes dias. Ignore as regras, como já fizemos e venha ter comigo. Aprenda a sentir o aroma e conecte-se, venha até mim. Ou escreva, preciso apenas ter a comprovação de que está bem e são, que a nova entidade que se tornou a igreja não o corrompeu. Estarei sempre disponível a você, quando você vier. E me perdoe se expus nossa história, desde o começo era a intenção de trazê-lo até mim nesta hora escura em que todos me faltam. Me perdoe.




Yours,

Lean.

Ps: Agora me chamo assim, mudei meu nome mais uma vez. Esperto como você sempre foi, note a inicial, o anagrama e veja que o que falta, é exatamente como você costumava me chamar.


3.21.2013

Sobre o "Tratado da Imortalidade"


Faz tempo que estive com o Tratado da Imortalidade sob minha posse. Muito tempo. Trata-se de um compêndio escrito há tanto tempo que se perde na eternidade. A língua empregada já era considerada morta quando os humanos vieram com seus primeiros hieroglifos. A julgar pelo que descreve, vem perambulando de raça em raça e tempos em tempos desde os primórdios pelo que conta. Não se sabe ao certo quem(quantos) escreveu(ram) mas sabe-se que o(s) autor(es) não pertencia(m) à classe humana. Ao menos não efetivamente pois no seu 'breve' relato inicial, nota-se a passagem de mais de dois mil anos e, excetuando alguns personagens no Livro de Constantino, nenhum humano viveu tanto - continuando humano, claro. E que era um visionário, que o manteve em posse e sempre atualizando-o conforme os milênios iam passando. Não se sabe inclusive que poder o escritor teria ou de que raça ele seria, só sabemos que é um dos Antigos e isso basta.


"Não adianta existir para sempre se não se é poderoso, belo, forte e incógnito. Não busque o reconhecimento pela sua juventude eterna pois, além de ser invejável a eles é perigoso para nós. Não nos ferimos como eles mas, juntos, eles podem nos enfraquecer." 
O Livro fala basicamente sobre como sobreviver aos anos, mas não é em si um manual. É mais como um diário de ensinamentos e, como não sabemos a origem, não podemos afirmar pelo quê e para o quê fora criado. São quatorze mil páginas de uma filosofia obscura, pregações e reafirmações, todas em terceira pessoa (mesmo sendo um diário). O escritor provavelmente deve ter começado com esta intenção pois lemos sobre seu nascimento, criação, adolescência, fase adulta - aqui um salto espaço-temporal - e logo em seguida seus devaneios. Por vezes, parece que ele fala consigo mesmo. Descreve espécies, raças inteiras, sua convivência com elas e inclusive a criação de algumas delas.
"Não somos como o Povo das Sombras: eles não têm formas e são subjugados pelo amanhecer. Não são conscientes como nós e não podem procriar. Nós podemos tomar a forma deles mas eles não a nossa. Nós podemos viver o caminho deles mas eles não o nosso. Eles são criados a partir do Todo e nisso não competimos."
Muito interessante de se ler e mais ainda de revelar que outros vieram antes de você e descreveram um mundo que, mesmo sendo um antigo mundo, é digno de ser recordado. É quase como eu e muitos outros fazem, mesmo tendo nossos Escribas oficiais.

Percebo hoje, após muitos anos, que o Tratado deveria ter permanecido comigo. Não deveria tê-lo entregue.
"Crer em deuses é crer em nós mesmos, Nós somos deuses. Eles vieram de Nós, muito antes de existirem os rótulos. E somos demônios também, pois nem todos nós caminhamos na Escuridão. O mais importante é que somos o que queremos ser, independente do Ӕon e concepções." - acredito que isso era uma das mais recentes citações do Livro
Talvez se ainda o tivesse, poderia compreender os fatos que têm me acontecido mais facilmente. Esta abstinência, este pavor, estes sentimentos mínimos, esta sede. Poderia apaziguar lendo como já fiz antes, por tanto tempo. Parei minha existência para me acercar do que havia no Tratado. Hoje, assim como antes mas diferente, tenho amores corrompidos, visões turvas, rancor, fascinação, desejo, sentimentos que antes eu conseguia controlar. Até a sede era controlável. Não consigo mais suportar uma decepção que nem deveria existir! Não tenho mais aquela solidão benigna de antes. O mundo acabou me corrompendo também, como eu temia.
"Se um dia tiveres de escolher entre o amor ou o poder, escolha o poder. O amor é medido, contemplado de forma impregnada, vivenciamo-nos pelo tempo que perdura a chama, enquanto dura a companhia. Quando isso se vai, a chama apaga e a escuridão parece ainda maior. O poder é eterno e por ele você sempre será lembrado."
É fascinante como este mundo atual pode convencê-lo de que você já possui tudo o que pode possuir.

Necessidades descritivas


Tenho pensado nas coisas da vida e como acontecem para conosco. Palavras, ações, cada ato julgado, cada atenção refletida e o que pensamos estar sob nosso controle, acabamos, deixando no controle de outrem. Estas mesmas ações são atuadas, previstas, criadas para nosso afeto mas podem ser tanto destruídas como aplaudidas.

Talvez nada faça mais jus à misantropia do que a extrema necessidade de ser aceito.

O que acontecera há alguns dias foi apenas a comprovação do que eu precisava para reforçar minha necessidade de escrever: atenho-me aos fatos:

1. Há alguns meses, mais especificamente na véspera do meu aniversário há dois anos, conheci pessoalmente um certo jovem que vinha trocando correspondência eletrônica e telefonemas. Já nos conhecíamos há talvez três ou quatro semanas antes quando arquitetamos o plano de nos encontrarmos. Um desconhecido, que atiçava minha necessidade de comprovar a intensidade do meu próprio relacionamento - é, eu sei, pode parecer traição, mas o que será contado é apenas parte do que aconteceu e não, não houve traição física neste encontro. Apenas dois homens bebendo bebidas alcólicas durante toda uma noite em um posto de gasolina. Ele tinha namorada - isso, namorada - mas se sentia inclinado à relacionamentos com outros homens. Tudo isso eu sabia pois fizemos questão de sermos sinceros um para com o outro, na maioria dos fatos. Em resumo, passamos a noite juntos conversando e acabamos trocando opiniões um acerca do outro. Muito ele falara sobre mim: minha beleza, minha intelectualidade, minha intangível personalidade, minha estranheza para com a noite e com as bebidas (eu não consigo inebriar-me, de maneira alguma) e, por fim, minha atenção aos escritos. O que eu gosto de deixar registrado para o mundo. Tentei explicar a ele sobre a incongruência do que escrevo-penso-exponho mas acho que ele não compreendeu pois sua frase - a que ficou marcada e dá título a este devaneio - foi "se você escreve para si, não seria melhor um diário? Por que compartilhar suas pessoalidades se não há interesse de mais ninguém a não ser o seu próprio. Não acredito que você viva num ostracismo tal que precise relatar sua 'viagem' por este mundo estranho". Neste momento, pensei em muitos amigos que já se foram e nos que ainda tenho. Amigos, não colegas ou conhecidos, e o quanto isso afetaria a eles tanto quanto a mim. Pensei em Hemingway e sua necessidade constante de descrever todas as minúcias de tudo que havia; pensei em Agnes e sua intelectualidade religiosa dada a explicar o deus-uno sob todas as suas formas; pensei em Aristóteles e suas evidências da presença da Constância Adquirida; pensei em amigos menos famosos que portam algumas doenças peculiares como a Esclerodermia Sistêmica[1], a Cinestesia[2]; pensei nos amigos que não podem ver, ouvir, falar; por fim pensei nos que não aprenderem o rebusco e o requinte que há na poesia e na prosa antiga. Pensei no que eles perderiam se eu me mantivesse a guardar tudo o que vejo, sinto e descrevo apenas para mim. Percebi que um completo desconhecido pode julgar com a mesma facilidade com que se entregaria. O mais fascinante foi que o mesmo jovem, ao decorrer da noite, se disse maravilhado com minha forma de expressão que definia seus sentimentos melhor que ele mesmo poderia se definir e encontramo-nos numa Teia. Ele repreendera meu estilo e, posteriormente, me elogiara pelas descrições. Paradoxalmente excitante!

Falei um pouco da nossa situação na época, antevendo, justamente o que queria para que, dado ele ao julgamento e tendo sido contada parte da história inicial, como poderia ele julgar algo? Bem, finalizando (por que quando começo, termino), nos despedimos naquela manhã e nunca mais nos vimos.

2. Mais recentemente, um pequeno desentendimento me fez voltar à esta tecla: descrições. Por que, segundo dados levantados, me excedo em descrições? Acaso as pessoas já não sabem o gosto da pêra sem que que eu conte como são arenosas, adstringentes, suculentas e com um aroma que lembra a infância coletiva?

Em meus contos, faço questão de detalhes. Por quê? Porque não escrevo somente para mim e sim para todo aquele que vier? Porque de uma forma grotesca preciso mostrar minha visão do que descrevo? Porque simplesmente não sinto as coisas tais como são? Serei eu uma vítima destas mesmas doenças que meus amigos sofreram? (Fato que uma comorbidade me assola e está descrita inclusive, uma visual, que até então só causa-me mais embaraço estético do que realmente afeta minha concepção do mundo e/ou reduziria minha acuidade visual).

Até então, quando digo contos digo toda e qualquer literatura que exponho porque me escondo atrás e através do que escrevo - é minha Zona de Conforto como diriam. Revelo o que sou e o que fui pelo que escrevo. Porque deveria me sentir culpado então se dissesse como era ardente o odor da antiga Roma na época em que eu vivia por lá, oculto? Porque não seria interessante, para os que não tiveram a mesma experiência, saber como é adormecer sob a terra nevada de uma montanha? Ou - aqui seria rotulado como pedante - mostrar como o amor e outros sentimentos podem fazer nosso coração estalar pela simples presença do ser amado? Minúcias são minha forma de ver o mundo, talvez seja minha forma de compensar aqueles que não podem, por um motivo ou outro.
"Use os olhos como se fosse ficar cego amanhã. (...) Escute a música das vozes, o canto dos pássaros, as poderosas notas de uma orquestra, como se amanhã fosse ficar surdo. Toque cada objeto como se o sentido do tato fosse lhe faltar amanhã. Sinta o aroma das flores e o sabor de cada bocado de comida como se amanhã já não pudesse cheirar nem sentir o gosto de nada."[3]
Bertil Nilsson from site homotography.blogspot.com

O que persisto é, imponderavelmente, desnecessário e por isso volto a escrever. À minha maneira, não importa o que pensam os outros a respeito da minha escrita porque, hora ou outra, alguém vai se encontrar no mesmo sentimento que eu e então para este eu fiz uma ligeira diferença dos outros. Resiliência, eis o segredo!

[1] Esclerodermia sistêmica é uma patologia reumática onde o acometido possui uma degeneração gradativa exponencial das sensações do tato. Logo, a pele vai se tornando mais rija, insensível e não incomum é surgirem áreas grossas, com alta densidade de epitélio, similares à constituição de minerais. Leva também o paciente à tetraplegia flácida - impossibilidade de locomover qualquer dos membros. Geralmente, letal. 
[2] Cinestesia, geralmente em crises e raramente como uma condição constante, é um reflexo do cérebro quando 'troca' as informações organolépticas por algum ruído neurossinápticotransmissor. O paciente é afetado por uma sensação de desequilíbrio e sentidos alterados. Literalmente, começa a enxergar com o olfato, ver os sons, sentir na pele os odores. Não letal. 
[3] Hellen Keller - ativista americana cega, surda e muda. 

3.16.2013

Personal Renewal, um ponto relevante recém-aprendido


Fato, resolvi não insistir mais em algo que não me levaria a qualquer lugar. Optei por me retirar, cavalheirescamente, antes que meu mundo novamente caísse. Não, não foi uma decisão covarde. Apenas uma tática de combate visando a proteção integral do pouco que sobrou do meu coração.

Era de suma comprovação que não nos pertencíamos. Eu escrevia mas não via respostas. Eu pensava mas não sentia o mesmo. Perguntava mas nunca precisei dar uma satisfação sobre como eu estava, ou sentia, ou vivia, ou planos. Fiz meu melhor e tentei mostrar meu melhor para que desse certo, mas não deu. Logo, a melancolia se tornaria minha fiel amiga, mais uma vez, sendo da última vez a dispensei por míseros abraços injustos e uma frustração ímpar que é, hoje, digna dos maiores arrependimentos. O renomado psiquiatra diz que:
"Por vezes buscamos mais a companhia do que a pessoa em si. Nos vemos por elas, com elas, mais poderíamos estar muito melhores sem elas. Porém, quando elas se vão, o vazio volta. O vazio pelo que fazíamos para elas, com elas, por elas. Não sentimos falta portanto da companhia e sim dos hábitos que adquirimos. Tão importante quanto é a presença: quanto mais longe, menos se pensa."1 
Devo concordar com ele, uma vez que nos víamos em dias alternados já não mantínhamos algo salutar (o que é estranho pois suas palavras discorriam justamente sobre isso: a aproximação) imagina agora que não nos vemos!

Não por falta de desejo meu, já os deixei expressos. É aquela famigerada sensação de plenitude inicial, acompanhada pelas malditas borboletas que brotam no estômago mas que dada a ausência de alguma forma de carinho ou compensação, acabam mortas, devoradas pelo ego que preenche todo o vazio corrompido mais o ácido estomacal acompanhado do veneno que engolimos enquanto vemos a pessoas que tanto queremos, ir embora. Não quero mais que ninguém vá embora por minha causa.

"O que se aprende na maturidade não são as coisas simples, como adquirir habilidades e informações. Aprende-se a não voltar a ter condutas autodestrutivas, a não desperdiçar energia por conta da ansiedade. Descobre-se como dominar as tenções e que o ressentimento e a autocomiseração são duas das drogas mais tóxicas. Aprende-se que o mundo adora o talento, mas recompensa o caráter. Entende-se que quase todas as pessoas não estão a nosso favor nem contra nós, mas absortas em sí mesmas. Aprende-se, finalmente, que, por maior que seja nosso empenho em agradar aos demais, sempre haverá pessoas que não nos amam. Trata-se de uma dura lição no início, mas que no fim se mostra muito tranquilizadora."2

font site homotography.blogspot.com

1. Nietzsche
2. Gardner, J. W. in Personal Renewal

3.14.2013

O que significa amar


Liberdade e amor andam juntos. Amor não é reação. Se eu o amo porque você me ama, trata-se de mero comércio, algo que pode ser comprado no mercado. Amar é não pedir nada em troca, é nem mesmo sentir que se está oferecendo algo. Somente um Amor assim pode conhecer a Liberdade. (...) Quando vemos uma pedra pontiaguda em um caminho frequentado por pedestres descalços, nós a retiramos não porque nos pedem, mas porque nos preocupamos com os outros, não importam quem sejam. Plantar uma árvore e cuidar dela, olhar o rio e desfrutar da plenitude da terra... para tudo isso é preciso Liberdade - e, para ser livre, é preciso amar.

Jiddu Krishnamurti

3.11.2013

Where is my Mind?


"- E o bom filho a casa torna."1

Na última noite, muitas coisas me colocaram numa posição difícil. Vi muitos casais felizes, juntos, cúmplices, enamorados, se beijando. Vi amor verdadeiro, amor passageiro e vi paixão. Vi sentimentos superiores, vi preocupações, significados e vi animosidade. Talvez inclusive faça parte do que se chama amor.

Coloquei meus melhores olhos ontem, quando decidi interagir com o mundo novamente. Provavelmente eu errei, mais uma vez, pois não consegui me manter e acabei abstraído e traído pelas minhas próprias feições e trejeitos. Logo, não foram poucos os que perceberam que eu estava descontente e me sentindo inadequado aquele local. Devo confessar que não era minha intenção ser tão evidente, mas não pude suplantar as memórias e boas lembranças.

Por instantes me vi como eles: enamorado, unido, beijando.

"- Saberá que é amor quando te perguntarem o que é isso e você não pensar num significado mas sim, num nome."2

Foi o que acontecera. Enquanto me deliciava do moderno hidromel - que Odin esteja conosco - eu criava uma outra linha do tempo. Uma em que eu, sem receios e olhares subversivos, podia amar sem medidas. E provar daquele amor. Me sentia mudando, colocando Fé naquilo que acreditava, me sentia bem e maior do que sou realmente. Olhava para todos os lados e via sempre duas personificações do Senhor Tempo. Me via, via meu mundo e, não obstante, via o mundo deles. Como nossos mundos.

Podia me ver com eles, sem eles, com o que eu mais queria naquele momento e que o nome guardo à mostra. Pensei em como seria caso ele estivesse ali comigo, entre os meus. Acredito que, no mundo deles, haveria desconforto mas, no mundo que eu criei não. Podia ser quem eu realmente era, sem medo. Não só medo pelo que optei amar mas pelo que refreio a todo instante dentro de mim: meu instinto. Não é só questão de índole e criação, é instinto. Chega a ser rude a forma com que me trato mas não me importo. Se para merecer um décimo do que tenho eu preciso ser um centésimo do que posso ser, que seja.

Não se trata aqui de uma história triste ou pequenos fragmentos de uma tristeza ímpar, não. É algo já enraizado que vai além da simples questão de cair enamorado. É a expressão, a liberdade, o conforto, a interação. Tudo isso faz com que percamos a esperança de uma felicidade, mesmo que momentânea. Uma mente mais sábia que a minha disse que "cuidado com a Tristeza, ela pode se tornar um vício"3 e foi rebatido com "a Felicidade não pode ser eterna. Ninguém pode ser sempre feliz pois se precisa de alguma tristeza - mesmo que eventualmente - ao menos para causar o contraste e assim, desta forma, equilibrar"4.

Logo, estou eu mais uma vez triste pelo que não posso fazer. Pelo que não tenho e que sinto que nunca terei. Eu o observei atentamente, mantive meu coração encarcerado, mas só o fiz até seu primeiro sorriso. E então, neste momento, eu caí de amores por algo que ainda desconhecia. Ao menos, achava desconhecer, por que no fundo eu sempre o sentia. Sempre o conheci, sempre e talvez o amei. Contei histórias antes da forma que sempre faço, para parecer ficção pois os que me leem não aceitariam meu 'modo de vida'. Não acreditam na minha raça, no que podemos fazer, logo, o que pensariam ao saber que eu sou ainda maior que eles supõe?

"- Nem meu doce suicídio poderia competir com seu doce adeus."5

Fiz programas, pensei em inúmeros encontros casuais, escrevi mensagens, redigi memórias. Fiz tudo o que um homem poderia fazer em busca de amor e não obtive êxito. Chorei sozinho e chorei na frente de pessoas que sequer notaram. Tentei compartilhar parte de minha dor com amigos, na esperança de uma forma de acalento mas eles sequer ouviram-me. Falei com meus amigos imaginários, minhas personalidades, meus olhos e só assim consegui me manter até agora. O Tempo passa enquanto penso e escrevo e não sei se vou conseguir me aguentar por mais uma era. Passei por tantas...

"
e quando o amor veio a nós pela segunda vez
e mentiu para nós pela segunda vez
decidimos nunca mais amar novamente
isso era justo
justo com a gente
e justo com o amor mesmo."6

Não deixo de pensar nele nem um instante. Imagino vidas, pessoas, lugares, as coloco em ordem e desordeno tudo depois, apenas para ter o prazer de refazer minha intrincada solidão. Ontem, enquanto via os amantes, eu só pensava nele. Nele e sua doçura. Nele e sua brancura. Nele e sua sede de conhecimento e fome de poder. Nele e sua ingenuidade tão singela quanto uma pétala de petúnia. Pensava nele como criança, minha criança, como meu amor, meu amante, meu amado, meu homem, minha mulher, meu coração e minha existência. E que os deuses nunca permitam que ele leia o que escrevo pois isso o dará poder sobre mim. O fato é que eu o amo, como já amei muitos e muitas antes. Mesmo sentindo que há algo diferente agora, não posso acreditar nisso e preciso seguir meus instintos. Preciso seguir em frente, continuar vendo outros casais, outras vidas, outros amores. Preciso continuar no meu plano e não mais chorar por não pertencer a este plano. O que me rege é a indiferença, sempre fora. Desta forma consegui viver tanto tempo, sozinho. Continuarei vivendo?

"- Eu conheci uma criança, um homem antes de voltar à vida, que pelo crime de amar acabou morto. Nesta vida, ele trouxe a marca do que acontecera: era cego de um olho. O que deveria tê-lo tornado dependente, inapto, fez justamente o contrário. O tornou um homem tão bonito como uma Lua. Fez dele um visionário e assim descobrimos que a matéria nunca importou. Ele escreveu - e escreve - as melhores canções e as que mais se aprofundam em nossas almas. Ele canta com a voz de um anjo e vê muito além do que os que estão à sua volta podem imaginar. E o melhor, ele reencontrou seu amor de outras vidas. Eu fico tão feliz por ele."7

Deixarei meu destino nas mãos do Destino, mesmo sabendo que este meu irmão é ardiloso, insensato e não pensa nas consequências dos seus próprios atos em nossas vidas. Talvez ele se compadeça por tudo o que eu já fiz por ele, anteriormente, e me dê discernimento para entender o que se passa. Não confio nele, mas não há uma outra opção agora pois neste exato momento ele já manipula a ordem das coisas, das casas e age. Quer seja a meu favor ou contra mim. Uma semente foi plantada, vejamos que fruto ela engendrará.

1: Autor desconhecido 
2: Carolina Bensino 
3: Gustave Flaubert 
4: Nietzsche 
5: Sacha Sacket, in Sweet Suicide 
6: Bukowski 
7: Apenas uma memória minha, nada digna de relato posterior. Nomes preservados.


3.08.2013

Momentos e o que se esperar


"Havia um tempo em que eu vivia um sentimento quase infantil."

E não foi há tanto tempo assim, na verdade, ainda estou neste tempo. Como pude imaginar que acabaria assim? Depois de todos os incentivos, desejos, repreensões, olhares, conversa, mensagens. Pude acreditar que haveria alguma espécie de sentimento, mesmo que ainda florescendo, e que pudesse ser despertado e que tudo ficaria acertado. Engano.

Ele não está pronto, não é seu momento.

Me enganei ao pensar que humanos se atém à coisas maiores, que estão dispostos a enfrentarem a si mesmos se necessário e que poderiam viver uma vida mesmo após tudo o que passaram. Ou talvez tudo isso seja uma prova de que meu tempo ainda não findou. Esperar? Esperá-lo? Esperar-me? Por quê eu sempre preciso estar disponível enquanto os outros se valem do direito ímpar de, por serem criados à Sua Imagem, optar ou não?

Como Gabriel e Azrael eu os invejo, de tempos em tempos. Pela escolha.