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1.25.2015

Nova indução a Buer


Caríssimo amigo Buer,

Há muito não nos falamos e muitas coisas – boas e ruins – se passaram desde então. Por mil desejos de Jezebel hei de contar agora.

Engendro nesse momento um novo namoro. Digo namoro porque ainda não definimos o que isso pode ser. Ele é um rapaz novo, sabe, daqueles moldes provincianos que tanto adoramos. É esperto, casual, jovem, bonito como uma rosa desabrochando, sagaz e um tanto quanto liberto porém, é essencialmente humano e temeroso, pálido e incoerente consigo mesmo. Posso ver o coração dele com uma facilidade tremenda e o conheço melhor do que ele acha mas ele mesmo se desconhece e isso me dilacera. Pelos seus olhos posso conhecer seus desejos e seus objetivos, além de suas necessidades, mas vejo também o receio dele em ceder à essas atitudes. Ele é absolutamente divergente de mim, em tudo, desde os gostos até as necessidades. O que temos em comum são coisas que atraio humanas para poder ser melhor observado. Bom, com todos tem sido assim, não é mesmo? Moramos um tanto distante um do outro mas sempre que posso estou com ele. E isso me faz bem, amigo. Ele me faz bem em suma. Ainda que ele seja uma criança eu sinto prazer com ele, prazer de estar com ele (prazer sexual se inclui aqui também, amigo, pois ele é um homem bem excitante). Saímos juntos, conversamos sozinhos, andamos com seus amigos e nos divertimos como homens nesta idade. Lógico, eu omito ainda muita coisa a ele e acho sábio fazê-lo por enquanto. Ele sabe da minha formação e profissão, da maior parte das minhas rotinas e de alguns casos familiares mas a melhor parte ele desconsidera – acho justo. Chegamos já, mesmo em tão pouco tempo, a fazer planos juntos e confesso que estou esperançoso, mesmo ciente de que isso não vai à frente com muita probabilidade. Eis o dilema do demônio que nasceu sob a Estrela da Solidão, dilema este que conheces muito bem, não? Digo-lhe que não estou envergonhado ou temeroso, mas preocupado. O que eu sou hoje é o que eu pretendo ser.

O antigo amor ainda me procura, sabia? Aparentemente ele ainda não vive sem mim. Mesmo que me procure por motivos bestas e infantis e eu, confesso, caia em ciladas antigas neste assunto. Sim! Eu ainda digo-lhe que o amo e me arrependo no instante a seguir de tê-lo dito. É engraçado como eu ainda sinto que ele também me ama, amigo. Como resolver esta questão? Nossas vidas ainda estão atreladas e isso me incomoda, por vezes tenho vontade de leva-lo mas meu amor por ele me impede. Eu o amo e sei que perde-lo agora seria como perder a quarta parte que sobra do meu coração negro. Ele é meu Átrio, Buer! (Risos).

No trabalho eu ando como sempre, evoluindo exponencialmente, meus superiores elogiando minhas ideias e resoluções, meus subordinados se vangloriando para os outros que tem uma liderança ímpar. O de sempre. Fui criado para ser o melhor no que quer que eu faça com exceção do amor. Neste item também não sei mais como me portar: quero deixar tudo de lado, irmão, não aguento mais este ritmo de vida. Parece que ter perdido a melhor prima parte do meu coração me deixou fraco para esses imprevistos. Perder minha melhor parte para a doença humana me deixou inerte e indiferente. Sinto que a qualquer momento posso estar tão debilitado que não saberei mais diferenciar minha solicitude com meu desprezo.

Ando preocupado com os meus, nobilíssimo Leão andante. Com os mais próximos. Como eu disse, não consigo ser resiliente nas perdas e prevejo algo ruim acontecendo. Temo a idade alheia porque sei que estou absolutamente fora deste complexo jogo de envelhecimento e morte (mas você sabe melhor do que ninguém como gostaria de estar nesta teia!). Não durmo mais com medo dos meus sonhos e quando desperto não sei se despertei mesmo. Tenho visto os meus enquanto ando por Morphía e isso anda me aborrecendo. Todos os meus veem a mim em sonhos e, desde a última vez, acho que isso não é bom. Da última, você estava comigo velando e deve ter percebido meu pavor quando ele disse aquelas palavras. Até este momento este pavor me persegue e não sei como contê-lo. Não sei se devo invocar magia ou deixar isso acontecer naturalmente.

Algo que devo salientar: a magia está me deixando. Não ouço mais o vento, o nascer do sol, o pôr-do-sol. Não vejo mais o fogo. A tempestade ainda é minha, isso eu sei. Aquela sinestesia, aquele desvio, estão menos frequentes agora e isso está me preocupando porque quando eles vem, me arrebatam. Não posso bloqueá-los mais, acredita? Quase, de verdade, desejo que eles me deixem. Busquei por tanto tempo ser humano que agora, inconscientemente, estou me desviando para ser um. Brigo a cada despertar com meu Ego e Alterego e parece que agora meu Superego está vencendo.

Bom, amado amigo, deixá-lo-ei por então. Creio que sua batalha esteja deveras complicada por ai mas saiba que sempre terá este seu amigo aqui para o que precisar. De sangue à morte, tudo. Fomos criados do mesmo escuro e não há nada mais importante para nossa raça senão à cumplicidade e eis que, de todos, só a você me ligo. Eu o adoro e sei que me adoras também, isso me basta. No final de tudo, quando perder a todos sei que ainda terei você e sei que você me terá. Que assim seja, Grande Leão!


Do seu mais antigo amigo,


L.



Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser. //William Shakespeare
Quem não sabe povoar sua solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão. //Baudelaire

8.02.2013

Lettere ao amigo há muito derrotado, porém não ausente de minhas memórias e apreço


Caríssimo amigo Buer,



Escrevo-te após todo este tempo passado, desculpando-me pela ausência de minhas epístolas. Ando tão atormentado e pusilânime que faltam-me forças até para redigir-vos. Tenho tanto a dizer-te que nem sequer sei por onde devo começar. Começo pelas novidades amorosas e sentimentais, pela raiva que esta situação mesma anda me provocando, pelos infortúnios da vida humana, pelas preocupações que me acercam ou questionando como anda vós?

Tratarei de não ser altruísta e falarei de mim, portanto, ao começar.

Desde que meu antigo amor deixou-me, venho sofrendo de amnésia, meu caro amigo. Não daquelas percepções errôneas que sofremos esporadicamente, não, algo mais severo. Algo que se mescla com meu passado emaranhado ao meu futuro e acerca de fatos premeditados. Está deveras complicado acalentar minha consciência ultimamente, parece-me que ela tem obliterado meu senso de julgamento. Tentei abstrair-me de mim com músicas, composições literárias, novas intenções, desejos, café, distrações mundanas e fugazes. Não estou sendo feliz no empreendimento!
Há dias que n'alma me tem posto um não sei o quê,
Que nasce não sei onde,
Vem não sei como e
Dói não sei porque. // Camões
Divago entre a leviandade e a plenitude, a cada alvorecer. Tento atrelar minha sanidade em pequenos recomeços, ao amanhecer, visando assim uma estabilidade emocional ainda que deflagrada, submissa. Houve um ínterim romântico neste período, amado amigo, que mais me rendeu preocupações e dívidas do que companheirismo e cumplicidade. Fui enganado por diversas vezes seguidas, vê amigo meu, que reviravolta exemplar do destino? Coube a mim um desfecho não muito agradável uma vez que notei que estava me tornando vítima - em diversas aceitações, devo salientar - numa relação que não havia fundamento e sede de manutenção. Eis que hoje estou refazendo o que posso, confessando o que posso, criando o que posso e reverberando ainda na questão de não querer terminar sozinho.

Muita coisa mudou, precioso amigo. Da vida humana à celeste. Falemos da celeste.

Bom, parece que meu posto está ainda vago pelo que ouvi de meus irmãos. Passado todo este tempo Ele ainda não conseguiu alguém que fosse capaz de aguentar o peso imenso que eu suportei. E pensar que Ele não nos fez insubstituíveis, oras. Ainda estes irmãos me perturbam, cumplice, sobre as coisas da vida. Alguns me procuram com ameaças sobre ruínas da Cidadela de Prata (recorda ainda da magnificência da nossa vizinhança?), outros apenas vem aprender (e questionam-me sobre a Abdicação), poucos tentam se manter incólumes e ocultos e uma mínima parcela ainda se mostra leal a mim e aos meus preceitos. São estes últimos que me dão força, compadre. Inclusive, um amigo em comum, mais próximo seu do que meu, esteve recentemente vigiando minha nova aquisição. Fiquei intrigado com a posição dele, enfim. A cada dia perco mais e mais minhas forças, definho a nove vezes nove, em matéria celeste ao passo de que minha forma humana exerce maior influência neste mundo. Sabe, meu caro, que por noites eu me arrependo de ter descido? Me descubro reconhecendo que aquele por quem desapercebi de toda minha posição e força, que sequer anda mais por esta terra, não mereceu o que deixei. Tudo, meu amado, que eu podia antes se mostra mais complexo e delicado agora. Não porque perdi em absoluto minhas capacidades, mas porque estou perdendo meu juízo celeste e, ao passo que minha presença se torna maciça, meu discernimento encolhe e regride. Vês que derrota sofro antes mesmo de lutar? Não vou me render e não pretendo tão cedo voltar, mas, temo também deixar esta bomba em contagem regressiva. O que me aconselhas tu, nobilíssimo Leão?

Na minha vida humana, bom, como já disse, estou empreendendo um novo romance. Ele é deveras belo, o jovem, mas é tenso, frágil, volátil, temeroso e ausente. É sagaz, devo salientar, e me sinto confortável em abrir parte da minha outra vida com ele - mesmo que omitindo origem, vivência, capacidades e afins, seria muito, não? Recorda-te do último a quem nos revelamos? Tentei a abordagem de não mentir, apenas omitir, e revelar o que for questionado. Tem dado certo até agora, mas em dias como ontem, hoje, amanhã, bom, sinto que minha tensão sobrepuja qualquer intenção boa que eu possa ter. Temo que eu possa estar fazendo mal a ele de muitas formas diferentes, só por estar presente. Acha que devo me desvencilhar desta relação enquanto é cedo? Acredita que possa dar certo? Tu ainda tem o dom da visão, não? Diz-me que rumo tomar nesta questão? Afora isso, no âmbito profissional, nunca me vi tão absorto e supérfluo. Tanto que chega a me incomodar, tendo visto meu passado de demasiada atenção ao trabalho braçal e intelectual. Os humanos tem um ditado que diz "sorte no amor, azar no jogo" e que pode ser o oposto. Bom, eu passei por um momento de solidão amorosa que coincidiu com minha elevação profissional. Agora, estou engendrando nova relação, será que perderei os benefícios portanto?

Ainda me isolo, caro andador amigo, mais tempo do que devia. Eu mesmo reconheço. Me isolo no mundo da música, da literatura, da simples arte da alienação e, por mais que tenho evitado, acabo me voltando para o outro mundo eventualmente. Algumas vezes penso em ir vê-lo, logo recobro a sanidade e me recordo do porquê não poderia. Então penso em convocá-lo e novamente caio em mim. É mais do que evidente que eu sinto tua falta mais do que qualquer um. Tu eras a única e pouca família que eu já me orgulhei de reconhecer. Fico pensando na tua calma, virtudes, sabedoria, inteligência, humor, sagacidade e bem-aventurança. Tudo isso sempre vai me remeter a ti e à tua sublime figura. É notório também, caro amigo, que eu queria mais do que este mundo pode me dar e não sei mais como extrair vida dele, quando passo a maior parte do tempo desejando não estar mais nele.

Enfim, acabei redigindo mais do que queria. Sei que menos do que tu gostarias de ler, afinal sempre devorou minhas palavras com tanto afinco, meu mais precioso ouvinte e leitor, que contemplava seu interesse com minhas lágrimas. Neste momento eis que estou solitário, pensativo, resiliente no que posso ser, categorizando e avaliando cada probabilidade possível de uma saída verdadeiramente sadia a tudo que venho passando, nestes últimos tempos. Gostaria de um retorno teu, amigo. Da maneira que achar melhor. Apenas lembre-se de que eles não estão acostumados à tua figura então, caso resolva aparecer em público, estejamos preparados para estacas, gadanhos, foices e tochas, além claro de cruzes e orações das mais variadas possíveis (risos).



Terminando, eu o adoro. E espero que minha mensagem chegue a vós.


Do teu mais terno amigo,
L.

2.24.2013

Respire em mim, rápido!


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Noite de inverno.

Gélido como só os montes podem ser. Século XII se não me engano, estava eu caminhando pelas montanhas, em busca de alguma satisfação solitária. No meio da floresta havia um lago tão cristalino - e congelado - em que, se eu tivesse ainda algum reflexo, poderia me ver espelhado. Mesmo sabendo do destino que me reserva, voltei-me a ele nesta mesma expectativa. Pensei "- quem sabe no gelo, que não contém prata alguma, eu possa ver em mim o que o tempo fez comigo?".

Tal qual foi meu espanto quando pude ver-me novamente. E que imagem! Era algo entre o disforme e o angelical. De tanto vislumbre acabei por deslizar pela pedra congelada e me abster em adoração pelo que via. Embriaguei-me de mim mesmo de modo que não notei quando alguém se aproximou, mesmo naquela noite gelada. Não notei até que ela estava a uns quatro pés de mim. Não só não a notei como não senti seu perfume - ou odor, que seja - a ponto de surpreender-me com aquela presença. No mesmo momento postei-me rijo, preparado para atacar ou correr, dependendo da reação que apresentaria.

Espantou-me sua ação seguinte: ela curvou-se. Curvou-se para mim e numa língua que só nossa raça conhece pela idade, chamou-me de senhor. Percebendo mais a fundo pude ver que ela era como eu - ou quase. Uma recém-nascida pelo sangue, poderosa e linda e ao mesmo tempo respeitosa e meiga. Falava em minha mente, mas de uma forma descoordenada. Vi que ela havia sido criada há menos de dez anos humanos e que seu mestre a havia abandonado por ela "se apegar demais à humanidade". Pior, eu conhecia quem a fez, na verdade, eu o havia liquidado alguns anos após ele tê-la feito por uma disputa antiga (e isso é outra história futura, talvez). Me compadeci de sua dor - momentaneamente, afinal não sinto mais certos sentimentos - e pensei em tomá-la para mim, criá-la, adotá-la como minha cria mesmo não sendo. Ensiná-la o que sabia, era só o que eu pensava. Estava começando a Era das Trevas e mais do que antes eu temia pela minha sanidade e precisava de uma companhia que me entendesse depois de já ter tentado tantos humanos.

Senti que ela também esperava isso, esperava uma companhia, alguém de nossa espécie que a ensinasse onde seu senhor havera falhado. Tomei novamente a compostura e com dois passos cruzei o caminho que nos distanciava. Olhei dentro dos seus olhos e ela se inclinou, se oferecendo à minha bebida. Bebi e pude ver ainda mais, vi porque seu criador a escolhera e porque ele, depois, temendo-a, a deixou à deriva neste mundo absorto e vil. A jovem tinha um estranho dom de possuir o que tocava, mesmo quando ainda era humana. Ela podia entrar em sonhos de uma pessoa adormecida e podia domá-las, falar por elas, apenas com seu toque. Caí num frenesi de excitação pois nunca havia conhecido alguém, homem ou monstro, que pudesse tal artimanha sem algum tipo de feitiço. Dali tomei a decisão de que ela seria minha enquanto eu quisesse mantê-la!

Coloquei meu braço ao redor de sua cintura e partimos dali, com o Dom das Nuvens, que ela não conhecia pois se espantou tanto que seu corpo tremia junto ao meu firme, enquanto alcançávamos alturas inimagináveis. Ela acabou se mostrando irrequieta e insegura, temerosa, afinal era jovem e ainda não conhecia tanto nossos dons como conhecia seu próprio. Logo, chegamos à uma clareira, naquela mesma montanha, onde havia uma pequena caverna à direita e um lago - menos congelado que o anterior - à esquerda. A deitei em uma pedra e começamos a conversar como os humanos fazem.

"Seu nome era Ludmylia e era uma foragida. Primeiro de sua família, depois de sua aldeia, e então do seu criador que a encontrou vagando sozinha naquela montanha. Quando ela viu aquele homem, vestido àquela forma, achou que usando de seu dom poderia fugir para ainda mais longe pois sentia nele algo diferente. Claro que ele deixou ser visto para não afugentá-la - era uma de suas táticas vis que eu desprezava tanto. Ela viu que mesmo ao se aproximar, a figura não deixava de sorrir e convidá-la com os olhos e, pensando em tomar aquele corpo aparentemente forte, continuou a caminhar em sua direção. Quando a dois centímetros de toca-lhe o rosto, sua mão a parou. Naquele momento então ela agonizou e temeu. Ele mantinha o sorriso e numa fração de segundo, já bebia dela pelo pulso que havia agarrado. Parecia que ele a conhecia, que a esperava, que a testava e queria saber até onde ela poderia ir. Fraca e quase sem vida, ela ousou. E conseguiu! Usando do seu sangue vertido como catalisador, conseguiu por poucos instantes tomar o corpo do homem que, ao se ver enclausurado na própria prisão carnal, abandonou a bebida e se lançou para trás. Ao constatar que ela o surpreendera, ele compreendeu ainda mais a vontade de tê-la e que precisaria ser rápido pois ela estava à beira da morte. Cortando de seu próprio pulso, a deu de beber e assim fez dela uma de Nós. Tentou não passar a ela seus dons, com medo, porém não pôde controlar e acabou a fazendo mais poderosa do que imaginaria. Ao beber dela ele não herdara seu dom como imaginava, apenas a deixou mais forte quando deu-lhe seu Beijo Negro. Então ele a adotou e começou a ensiná-la, sempre mantendo a distância segura e assim cinco anos se passaram. Nela, ele notou um estranho apego ao que sentia desde antes, achou-a fraca e como é comum de nossa espécie, abandonou-a simplesmente, uma noite. Sem despedidas ou formalidades. Desde então ela vagava pelas mesmas montanhas, sem aprender mais nada a não ser a dor da solidão e desprezo."
Devo confessar que não tive pena. Conhecia sua história e pronto. Sentia que ela esperaria que eu fosse diferente do seu criador e que a tomasse, cuidasse dela e a protegesse. Ou seja, o que toda menina humana espera de uma figura masculina e isso me entristeceu. Concordei com a lembrança do seu criador de que ela não era para nós já que não imaginava o que poderia fazer com o Beijo e o que herdou com ele, parecia não entender que havia deixado o mundo humano e que agora poderia ser o que quisesse. Mesmo com tudo, sua fragilidade ainda me mantinha ligado à ela pois me recordava alguém que amei muito, muito tempo atrás, e que acabei perdendo por imaturidade minha. Ambos, acredito, colocamos nossos amores na figura um do outro e por este motivo, apenas, eu permiti que ela andasse comigo.

Descemos a montanha na noite seguinte em busca de alimento e, enquanto eu bebia de dez ela se manteve em apenas um homem que muito se parecia comigo. Notei que ela nutria ao mesmo tempo amor e raiva por aquele tipo e que se alimentava deles quase como que por vingança. Percebi também que ela usava seu dom para coisas fúteis e desnecessárias. Novamente, lamentei pela sua criação e pelo erro do criador. Mais algumas noites se passaram e os atos se repetiam: ela se alimentava dos homens, se deitava comigo quando parecia amanhecer, na montanha, e repetia a mesma intempérie na noite seguinte, em outra cidade. Ela era cansativa e nada interessante, exceto pelo seu dom. Noite após noite eu me cansava, mas ela não notava.

Meses, talvez anos, tenham se passado nestas condições quando de uma certa cidade, já exangue pela cristandade e a Era das Trevas com sua santa inquisição, começou a caçar seres que ameaçariam os seus. De predadores nos tornamos presas, aparentemente, pois eu não os temia. Ela, au contrárie, ainda se atendo à humanidade, tinha medo de ser pega e não poder fugir, como era quando da sua infância. Dado destino, certa noite, enquanto nos alimentávamos, um grupo de cerca de doze homens nos cercaram. Eu, sem esboçar que aquilo parecia um risco, mantive minha calma. Ela porém, ardia em febre de pavor. Parecia que completamente havia esquecido o que se tornara e voltara a ser a menina indefesa que era antes. Confesso que não recuei, não me movi um centímetro sequer, enquanto ela partia para cima deles, inconsciente da força que poderia aplicar e do poder que tinha.

Eu, cansado da sua presença fraca e pouco competitiva, a deixei ser capturada. Quatro deles foram suficientes para domá-la, não porque ela era desprovida em termos de física, mas era em termos mentais. Os outros oito se voltaram contra mim e na mesma fração que piscaram os olhos, estavam retalhados e sequer viram a morte chegar. Enquanto a levavam eu não me mexi, mesmo sob seu olhar fulminante. Minha última esperança era de que ela se recordaria do que era ou que ao menos usaria seu dom e tomaria um dos homens, expondo os outros à loucura. Nada disso fez, se deixando levar em desespero e em sua mente ela me apedrejava. Eu segui o cortejo inquisidor e em nenhum momento ela ousou, apenas se deixou intimidar.

Não tive pena, novamente, quando prepararam a pira e quando o fogo já estava alcançando os mesmos céus que eu a levara antes, eles a lançaram. Não senti tristeza ou dor ao vê-la sendo rapidamente consumida, não por eu ser um monstro, mas por achar que era seu destino. Quando não servem a nós, servem a si mesmos e, então, morrem por sua própria vontade. Logo ela não era mais nada, como sempre pareceu ser, apenas uma dama que tinha um dom extraordinário e não sabia usá-lo. Ou não parecia saber.

Depois deste fato, voltei a caminhar para a floresta, passando por um campo cultivado de milho de um daqueles mesmos camponeses que liquidaram a existência da minha breve companhia. Perambulando, deparei-me com uma destas réplicas que fazem de si para espantar aves de rapina que destroem as plantações e sorri, pois realmente me confundira fazendo acreditar que era um deles. Meu sorriso se transformou em seriedade e mordi meus próprios lábios quando a réplica (que hoje descobri que chamam-no de Espantalho) se jogou em minha direção. Me afastei como um trovão e ele caiu aos meus pés. Olhei em volta, imaginando quem poderia ter feito aquilo e então a réplica se levantou. Havia um estranho brilho verde por sobre ela e então começou a se contorcer e trazer as mãos ao rosto, como que chorando. Se contorcia de forma aparentemente dolorosa e chorava, sem emitir um som, seu corpo caricato ainda mais deformado enquanto se partia por todos os lados e ainda levando as mãos ao rosto. Veio em minha direção e por um instante, pela surpresa, não pude me mexer: a réplica pegou meu braço e colocou ao redor de sua cintura - o mesmo ato inicial que eu havia feito com Ludmylia - e então percebi que era parte dela que tomava àquela réplica e que, com aquele sinal, mostrava-me sua identidade. Logo, deixou-me e se contorceu ainda mais, por uma última vez, quando o brilho de tom musgo também desapareceu e a réplica deixou à vida, caindo no campo de milho como se nunca houvesse mexido uma polegada, porém, destroçado.

Esta foi a primeira vez que tive a certeza do dom de Ludmylia e o quão poderoso poderia ser se ela pudesse ter aprendido a usá-lo. Tive medo e senti tristeza então, me repreendi, por não ter visto seu potencial. Deixei que meus milênios me tornassem inóspito ao companheirismo. Também foi a primeira vez que vi um espírito dos nossos e não sei até hoje se era apenas parte do que sobrou de etéreo dela. De uma forma estranha também me senti confortado pois comecei a imaginar que não somos tão vazios quanto dizem e que talvez, mesmo quando nos formos, parte de nós possa se manter atrelado à este plano. Hoje, sinto falta de Ludmylia pois tenho andado muito sozinho mas, desde aquela noite, não presenciei mais alguma manifestação dela ou qualquer que seja. Logo, permaneço sozinho.

In Memoriam Ludmylia Schirivaniskova - Que amava tanto à humanidade que, mesmo ao se tornar um dos monstros, não se perdeu dela como Todos nós fazemos. 



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11.09.2012

O preço de uma rejeição e o que fazemos por quem já amamos


Como um bom Noctívago, escrevo sempre melhor durante a noite e me valho da noite para esconder meus pecados e traições. Logo, todo e qualquer conto que eu - ou uma das minhas personalidades - escrevo será, em maioria, baseados e ocorridos na Noite, que é meu ambiente. Ou nos sonhos, com a ajuda de um grande amigo. Ou serão lembranças, com ajuda de uma grande amiga. Enfim, ai está. Este, bem, não é totalmente irreal.

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Era noite do dia 12 de Maio de 1998. Não me recordo que idade tinha na época, somente que cursava - novamente - o último ano do colegial. Estava deitado em minha cama, ainda no estado de vigília, sentindo que alguma coisa estava errada porque a energia oscilava quando eu piscava os olhos e algumas mariposas avermelhadas estava pousadas na minha janela. Inúmeras delas, querendo entrar para me contar um segredo ou pedir ajuda - eu brinquei.

Ao se aproximar das duas da manhã, ouvi um ruído distante vindo da frente de minha residência. Um murmurinho. Pensei ser animais ou alguns transeuntes. O barulho permaneceu e junto a isso batidas enérgicas em meu alto portão. Em um segundo, todas as mariposas que estavam pousadas na janela simplesmente bateram as asas e se foram, diagnostiquei o mau presságio. Resolvi inquirir o barulho, me dirigi à porta e, pelo vidro jateado pude ver que haviam pessoas exatamente defronte ao meu portão. Hesitei por um instante e ouvi além, com meus preciosos ouvidos inumanos. Havia choro, desespero e medo em suas falas. Ouvi um homem dizer que era 'bobeira o que a mulher estava fazendo' e ela revidou dizendo 'que era o melhor, já que ele só citava meu nome no delírio'. Fiquei deveras confuso mas reconheci as vozes de imediato.

Vesti um robe qualquer que estava ao pé da cama e fui até eles, quando percebi que chamavam era por um dos meus nomes. A porta se abriu para eu passar, desci as escadas e a chuva não me molhava, fui até o portão e o abri para eles. A cena que vi, quando me recordo, ainda me choca: lá estava uma mãe em desespero absoluto, com o rosto jovem borrado de lágrimas e as roupas em frangalhos e junto dela um jovem homem, seu irmão. Claro, conhecia as duas figuras de longa data. Quando ela me viu agradeceu ao seu deus por eu estar presente e tê-los atendidos, havia uma incredulidade no olhar do irmão.  Ela, se ajoelhou aos meus pés implorando ajuda, alegando que seu filho estava sob algum tipo de doença estranha e que em seu delírio de alta febre, dizia meu nome e no único momento de lucidez que teve, disse que eu e somente eu poderia ajuda-lo.

Estranhei, afinal eu o conhecia há décadas mas não o via há muito mais tempo do que queria. Porém, antes de entender a situação eu já havia compreendido o sofrimento da mãe. Não era nada simples, eu imaginei. Ela insistia para que eu os acompanhasse, quase que me sequestrando apenas de robe. Eu pedi somente um minuto para vestir algo e em menos de cinco minutos estava pronto para acompanha-los. Não sabia para onde ou para quê. Durante a curta viagem, ela me contou os maiores: seu filho havia chegado em casa naquela tarde nauseabundo, com uma coloração pálida nos olhos, fosco, trocando as palavras e a ordem e se sentindo absolutamente cansado. De começo, ela pensou que pudesse ser algo com bebidas ou drogas, coisa que ele nunca havia feito, mas os jovens de hoje não são mais tão confiáveis como os da minha época. Logo, o problema se tornou maior quando ele desmaiou e ao medir sua temperatura, girava em torno de 42 graus. Trataram de chamar o médico que, ao medir a temperatura novamente e fazer uma pequena avaliação, prognosticou como algo viral, prescreveu antibióticos e disse que em dois dias ele se sentiria melhor. Algo no coração da mãe sabia que não era apenas aquilo - o que se comprovou quando a pirexia elevou e, ao beirar os 44 perigosos graus, ele começou a ter espasmos involuntários pelo corpo. Ela temeu por sua vida.

Logo, ao delirar, ele começou a balbuciar umas palavras inteligíveis. De princípio era algo como 'Ler', 'Lion', 'Lá'. Depois passou a 'Lianjo', 'chama Lianjo, só ele pode me ajudar'. A mãe não imaginava quem poderia ser e permaneceu ao seu lado, tentando entender. Delirando ainda, ele pediu uma caneta que ela prontamente atendeu. No braço dela, ele escreveu 'Lean' com um traço final que a feriu. Levou um tempo para ela identificar quem seria, como eu disse, não nos víamos há bastante tempo. Como um baque, ela se recordou a quem pertencia o nome incomum e chamou o irmão, na expectativa de que o alvo ainda estivesse alcançável. Foi quando ela, se dirigindo à minha casa, me encontrou.

Voltando ao tempo real, nos dirigimos de volta à sua casa e eu tentei, confesso que tentei imaginar o porquê daquilo tudo. Não havia explicação plausível para mim, mas, as mariposas vermelhas na janela poderiam ter algo a ver. Talvez era o que tentavam me alertar. Em menos de vinte minutos chegamos em sua casa e sua família parecia já estar preparada para o pior. Havia outro irmão, a namorada dele, avó, tio e chegando comigo, mãe e outro tio. Minha presença causou certo burburinho mas evitei chamar mais atenção do que devia. Em suas mentes, eles achavam que eu era o culpado e apenas a mãe e a namorada sabiam que eu poderia ser o único que poderia ajudar (eu já conhecia sua namorada, mãe de seu filho, há bastante tempo também). Houve uma pequena discussão quanto à minha presença mas a mãe logo me encaminhou ao quarto do filho, deitado, prostrado na cama, com um ar cadavérico como se houvessem tentado tomar sua alma. A mãe apenas chorava e o irmão dela a acalentava. Então, ela me perguntou o que eu poderia fazer já que ele me chamara. Ou se era apenas para se despedir, uma vez que ela sabia que em outros tempos, havíamos sido melhores amigos.

Sentei-me ao chão, ao lado da cama e ele meio que sentiu minha presença pois virou a cabeça em minha direção e disse meu nome, com um esboço de um sorriso fraco. Sabia que não se tratava de um mal físico imediatamente, então pedi um pedaço de pano à mãe que prontamente atendeu, rasgando parte de sua blusa. Amarrei-o em sua cabeça de forma que só um olho ficasse descoberto e agora o que vi, foi o que mais me entristeceu mas era tarde para deixá-los e eu me comprometi a ajudar, deixei minha vergonha e meu antigo amor na porta quando entrei àquela casa:

"Ele estava dirigindo numa rodovia de alta circulação, perto de uma área de baixo meretrício, quando foi abordado por uma das 'profissionais'. Ela era belíssima, com um corpo escultural e não aparentava mais do que 25 anos, com belos lábios vermelhos e uma roupa provocante. Ele chegou a cogitar seus serviços porém, ao se recordar da namorada em casa, hesitou. A prostituta então se revelou, abrindo a boca apenas para proferir algumas palavras que de início ele não entendeu, e, logo partiu com seu carro. Sentia-se mal, diferente, desde que a encontrara. Quase bateu com o carro umas duas ou três vezes e por fim chegou em casa. O que ele não sabia, mas eu vi quando olhei em seu olho e sua memória, é que aquela não era uma puta qualquer. Era uma sucubo, que eu conhecia há muito e muito tempo e chamava-se Balquis. Era um demônio sexual feminino que existia desde a antiga Babilônia e pela qual muitos reis entregaram seus domínios e todos faleceram, misteriosamente, de uma peste. Balquis podia extrair a parte boa da alma das pessoas e se alimentar dela, era o que fazia quando aparentemente se deitava com os homens (e as mulheres eventualmente). Não era apenas sexo, era alimento. Balquis era ardilosa e intempestiva, desde que eu a conhecera. As palavras que ela proferira eram num dialeto muito antigo e significavam "Tu, que optou pela rejeição, herdará parte de mim e deixará sua melhor parte comigo". Por este motivo ele caíra em doença. Balquis era, além de um insaciável demônio, uma força poderosa em maldições. Meu amigo deu o azar de encontrar justo quem não devia e estava pagando por isso."

Removi o acessório e já sabia então o que fazer. Logicamente, não contei aos parentes os pormenores mas disse que ele sofria de algo que médico algum poderia tratar. Pelo estado mental da mãe, de tanto desespero, nem pediu detalhes e passou a obedecer cegamente o que eu pedia. Água numa bacia de porcelana, um pedaço de pano virgem vermelho, alho, alecrim, uma corda fina e uma faca de prata pura. Os que presenciaram se assustaram com o pedido da faca, principalmente porque não tinha utensílios de prata pura na casa - como a maioria dos lares atualmente. Dei minha chave ao tio e disse onde encontraria uma, em minha própria casa. O jovem oscilava entre a consciência e inconsciência, mas quando consciente, sorria para mim que estava ao lado de sua cama.

Logo, tudo o que eu precisava estava em mãos. Pedi que se retirassem e que apenas a mãe ficasse, para testemunhar que eu não faria mal à seu filho mas que, o que quer que visse, não acreditasse. Amarrei a corda no braço do jovem, a faca estava mergulhada na bacia com o pano vermelho preso, o alho e o alecrim. De repente, ele pareceu se contorcer ainda mais na cama, suava uma substancia negra com um odor insuportável e seus olhos reviravam nas órbitas. A mãe apenas chorava, pedi que não se aproximasse. A esta altura, as mesmas mariposas já infestavam as janelas da casa, por completo, e todos achavam aquele fenômeno algo sobrenatural e envolto na minha presença na casa. A corda que estava amarrada em seu braço começou a apertar e ele urrava de dor, mas não era ele, era a maldição - a parte de Balquis - que rugia. O pano vermelho, preso pela faca dentro da bacia, se agitava. Era algo terrível, mesmo para mim, que o amava. Tive pena dele, mas sabia que era melhor assim. Tirei a faca que prendia o pano vermelho, peguei-o e coloquei sobre a testa do jovem. Aquele momento, ele se sentou à beira da cama, mas não era mais ele, era a própria Balquis falando: "- Ora, ora. Mas se eu sou digna de vossa presença. Nunca em sã consciência eu mexeria com alguém que lhe pertence, senhor".

Eu ouvia Balquis pela boca do jovem. A mãe entrava num desespero ímpar mas com a porta trancada, nenhum dos outros parentes ousaria entrar e atrapalhar. Ela prosseguiu: "- Este belo jovem ousou me rejeitar. Ninguém rejeita Balquis. Minha maldição para ele foi bem trabalhada, acredite. Mas, se eu soubesse que o senhor seria envolvido, não o teria feito. Não quero problemas com Vossa Excelência, mas, como sabe, não posso desfazer minhas próprias maldições."

Eu disse que conhecia muito bem a fama e o que ela já havia me causado. Devo confessar, Balquis era uma velha amiga que precisou de mim certa vez e eu a ajudei. O preço foi algo que eu não esperava. Não permitiria que isso acontecesse novamente e disse a ela que esta seria resolvida mas se eu soubesse de mais alguma, ela seria exterminada. Ela sorriu entredentes, insatisfeita, mas nunca desacataria pois sabia que eu a encontraria onde quer que estivesse. Ela se desculpou, também entredentes e o lenço caiu da testa do jovem. Ele, voltou à cama e aos espasmos. O lenço, ao cair, tornara-se negro e pegajoso e quando a mãe se aproximou eu gritei para que ela não o tocasse mas que abrisse as janelas daquele quarto que alguns outros amigos se livrariam daquela impureza, depois. Com a faca ainda em mãos, dei um talho na minha destra o suficiente para que um pouco de sangue escorresse. Deixei a faca de lado - a mãe lembra aqui, a faca se tornou enferrujada imediatamente - e com a mão esquerda e a ajuda da mãe, tiramos a blusa do jovem. Com a mão ensaguentada, passei por seu pescoço, peito, abdome e olhos. A mãe observada com ares de pavor mas talvez este mesmo medo a impedia de qualquer atitude inesperada. O que eu criei com meu sangue, no corpo dele, era uma proteção. Algo que transferia a mim o que ele pesava. Logo, enquanto a mão o percorria, ele se acalmava e sua coloração natural voltava. Seus olhos estavam tranquilos e sua temperatura normalizava. Tudo muito rapidamente. O meu sangue, no corpo dele, tomava um aspecto dourado bruxuleante. Depois de criado, mergulhei a mão na bacia e a água, outrora translúcida, se tornou piche. Eu não me alterei em momento algum pois era imune a qualquer maldição ou afins.

Pedi a mãe que se livrasse do conteúdo da bacia e assobiei, para a janela. Ela se assustou quando milhares de mariposas adentraram o quarto e tomaram o lenço negro - outrora vermelho - e partiram, carregando-o. A faca, enquanto ela não via, esfarelei com a mão e espalhei o pó sobre as asas das mariposas, que adquiriram uma tonalidade também dourada. Quando estava prestes a me levantar, a mão do jovem segurou a minha e com olhos cálidos de cansaço ele apenas disse "- Obrigado. Quando eu percebi no que havia me metido também percebi que só você poderia me salvar. Você que me protegeu de tanta coisa e já me salvou mais vezes do que qualquer um sabe. E salvou meu filho. Não tenho como agradecer e ainda te amo..".

Ele não precisava agradecer, muito menos terminar com estas três palavras. Mas ele o fez. Por um longo tempo ele era o presente que os deuses me deram mas por causa disso, precisei Abdicar. E no final, ele era só humano. Um dia teve medo de mim e eu vi nos seus olhos como seria o futuro. Deixei-o, para que ele seguisse uma vida normal, como um homem normal faria. Porém, nunca sai de perto. Sempre o via em meus sonhos e sempre mantinha minha proteção. Falhei desta vez? Sim, falhei. Porque estou cansado. Cansado demais.

Me despedi dele, dizendo que não precisava agradecer e abstrai suas palavras finais. Ele se deitou na cama e caiu no sono. No sono normal dos humanos. Sua mãe regressou e disse-me que jogara a bacia fora com tudo o que havia dentro, ainda em prantos, quando ela notou que seu filho dormia tranquilamente. Novamente ela se pôs aos meus pés, agradecendo. Pedi para que se levantasse pois eu não era digno desta forma de agradecimento e que, o que fiz, faria por qualquer um que me pedisse ajuda sinceramente. Ela chegou a pensar em me questionar o que havia acontecido. Por precaução, antes que ela abrisse a boca, lancei uma nuvem em seus pensamentos com imagens de que seu filho apenas precisava descansar e que ela cuidasse muito bem dele. Fiz com que ela me acompanhasse e enquanto eu saia, fiz o mesmo com todos os que estavam na casa, deixando suas memórias vagas sobre o acontecido e colocando outras informações, menos fantasiosas no lugar.

Por fim, andei até minha residência enquanto as mariposas me acompanhavam. Sentei ainda um pouco na varanda para conversar com elas, agradecê-las pelo aviso e pela ajuda. Pedi noticias de todos os que eu acompanhavam e parecia que todos estavam bem. Logo, me despedi delas e entrei, me deitei e voltei a pensar como a vida teria sido mais simples se há milhares de bilhões de anos atrás eu tivesse simplesmente permanecido onde estava e com este pensamento, eu adormeci.



+++

Este é apenas mais um dos casos que já passei, durante este pouco tempo. Durante esta minha Quarta Abdicação.

7.06.2012

Meu doce amigo Buer e como encontramos o menino perdido


Era noite e eu estava deitado, refletindo sobre meu dia exaustivo de trabalho. Cama com lençóis brancos e vermelhos, incenso de mirra queimando e uma garrafa de merlot aberta, jogada aos pés da cama, já pela metade. Isso, umas duas da manhã, aproximadamente, de uma mudança de sexta-feira para sábado.

Sozinho. Absolutamente sozinho. Bebi para poder parar de ouvir e dar valor à minha inapta Necromancia. Ou talvez se houvesse alguém eu não lutava em vê-lo. Passada uma meia hora, ouço burburinhos ao meu redor. Vozes pequenas, que geralmente indicam que vozes reais estão a me chamar e como o local onde moro não é privilegiadamente próximo à exterioridade, tenho certa dificuldade em ouvir se me chamarem ao portão. Ser necromante, nestas horas, é melhor do que ter uma campanhia ou um vigia de portões.

Era. Era meu nome que chamavam incessantemente.

Levantei-me, vesti-me afinal estava apenas com uma cueca branca que costumo usar na intimidade e fui atender. Em desespero, a mãe de um amigo meu que por sinal tinha um irmão menor, pedia por minha ajuda na busca deste. Talvez pela minha (má) fama registrada pelo amigo, ela sugestionou de que eu pudesse ajudar de alguma outra forma que não levando-os à polícia e perguntando a esmo - como todos fazem. Senti pena do desconsolo da mãe e decidi usar da (má) fama, portanto. Convidei-a a entrar e se acalmar, deixei-a no hall de estar e fui até meu quarto.

Não existe entidade mais poderosa neste mundo - nem mesmo eu - capaz de encontrar coisas e pessoas perdidas como o demônio Buer é capaz. Evoquei-o. Precisava. Trouxe-o oferecendo sempre o que ofereço e pedi sua ajuda. Como eu já descrevi anteriormente, as feições de Buer são como as de leão, mas ele pode falar, e possui cinco patas de cabra ao redor do corpo que o permitem andar para todos os lados sem precisar mover a face de posição. Além disso, ele é mestre em Medicina e artes mágicas naturais. Não havia, literalmente, ninguém mais capaz de me ajudar neste momento. Algo que ainda melhora, é que ele só pode ser visto por pessoas especiais - ou seja, somente eu o veria durante sua ajuda, tanto que não houve sequer um petit frisson quando eu voltei de meu quarto, já vestido, com aquela imagem ao meu lado que somente eu podia ver. Éramos nós quatro, Buer na frente, me guiando até onde o menino estaria. A mãe sem entender como eu era tão categórico sobre que posição tomar, o filho mais velho - meu até então amigo - temeroso e o último da fila. Não pudemos tomar o carro, Buer não é afeiçoado à máquinas humanas. Tive de explicar isso delicadamente aos parentes do sumido.

Andamos por aproximadamente oito ou nove quilômetros, entre ruas e ruelas, pistas, planícies e planaltos e por fim, debaixo de uma árvore semi-morta, estava o corpo estendido do menino. Ensangüentado com uma evidente ferida em sua testa provocada por algo maciço. Uns dois quilômetros antes, o próprio menino já nos acompanhava, ciente de sua morte e de certa forma, velando por seu pequeno corpo inerte, vítima, ainda não sabendo do que e porquê. A mãe quando pressentiu, caiu novamente em prantos e o filho mais velho tentou consolá-la. Eu simplesmente considerei meu trabalho feito e, enquanto agradecia a Buer e o libertava do meu feitiço, o filho mais velho veio até mim, interrompendo-me.

- Pára, eu sei que você pode mais do que isso. Você não acharia meu irmãozinho aqui somente por intuição e sei que não foi você quem fez isso com ele, afinal ele também já foi seu irmão mais novo. - Em prantos - Por favor, pelo amor que você tinha por mim e que eu ainda tenho por você, faça alguma coisa por ele. Minha mãe, meu pai, meus familiares e ninguém mais do que eu pode viver sem ele. Você acha justo o que fizeram?

- Acalma-te - Eu pedi - Não trata-se aqui de uma questão de justiça. Trata-se de feito e desfeito. Uma vez eu cedi a tudo por você e levei milhares de anos pra recuperar. Me pede agora para arriscar novamente tudo o que tenho?

- Deixe que o risco seja meu. Eu morreria no lugar dele. Se é o que quer saber, pode trocar. Troque-o, por mim, não é assim que "vocês" fazem?

Voltei-me a Buer, que já chorava.

- Quem nos trouxe aqui esta noite não fui eu, foi um grande amigo que tenho muito antes de seus primeiros pais pensarem em nascer. Ele chora pela morte do seu irmão e chora por ver o seu sofrimento. Talvez ele chore ainda mais ao poder prever o que eu pedirei a ele que faça. Ele é o Mestre no que faz e somente ele, agora, pode me ajudar a ajudar seu irmão.

- Amigo - Dirigi-me a Buer - Preciso da sua ajuda pelo meu grande amor. Tu que és o mestre nas artes médicas, há algo de humano que possa ser feito pela ferida e pelo corpo morto? Da alma eu posso cuidar, sabes.

- Meu senhor - Ele a mim - Há ainda uma maneira mas dependerá mais do senhor. Teu sangue, por sobre a ferida pode curá-la. Minha saliva, pode unir as peças ruídas e o corpo restaurado. Mas será que a alma vai querer voltar?

- Nem que eu precise arrastá-la e brigar com Lúcifer novamente, eu farei. Meu medo é que ele deixe de ser humano, sabemos que corremos este risco.

Eu falava, na visão do amigo e de sua mãe, com um nada sem-forma. Ela, de tanto chorar, já beirava à insanidade então minha preocupação era menor. Ele, por me conhecer e aos meus prodígios, temia, tremia, chorava.

- Ele será um humano diferente, sabes. Mas vale a pena correr o risco? Dependerá somente do senhor - Foi a decisão de Buer.

- Vale, comecemos.

Em direção ao corpo, afastei a mãe e pedi que seu filho mais velho a acolhesse. Com a unha do anelar direito, cortei parte do meu sistema venoso do antebraço esquerdo e deixei que algumas gotas de sangue fluíssem até diretamente a marca protusa da contusão que havia sido criada na face tão imaculada da criança. Vítima. Em questão de segundos, a ferida fechou e o sangue parou de escorrer. Buer veio em nossa direção, sempre sem se virar e com sua língua enorme e grossa, lambeu a ferida. Sua saliva com meu sangue reconstruíram toda a deformidade que havia sido criada. Pronto, corpo refeito. A alma acompanhava-nos sempre surpresa por nunca imaginar tal feito. Virei-me pra ele e perguntei:

- Você quer voltar? Não pela sua mãe ou pelo seu irmão, mas por tudo o que você ainda pode fazer? Ou prefere descansar como um doce anjinho ao lado do seu Senhor e de seus pais? - Ele ficou em dúvida por alguns instantes - Mas não temos muito tempo, logo, meus irmãos virão buscá-lo e não podem me ver aqui, fazendo o que estou fazendo.

Ele só meneou a cabeça, afirmativamente. Pedi sua mão e uni à mão do corpo sem vida. Cantei uma música antiga de uma só nota, os humanos não puderam ouvir, Buer continuava a chorar.

- Mi Lorde, desde mil anos não o ouço. Desde aquele outro que o senhor trouxe. - Falava, chorava, rugia de uma forma ensurdecedora - mas os humanos não ouviam ou viam aquela belíssima imagem.

A criança deu alguns espasmos, abriu os olhos e chorou. Levou a mão à testa e chorou ainda mais. A mãe e o irmão mais velho o abraçaram tão fortemente que temi pela vida da criança novamente. Ambos, ajoelharam-se e declararam seu agradecimento a mim, eu, recusei. Disse que não fizera tudo sozinho e que se deveriam agradecer a alguém, este alguém era a Seu Deus e não a mim. Deixei-os sozinhos, aos prantos e retirei-me, caminhando com Buer. Não me virei sequer.

No caminho de volta, pude andar na minha velocidade então em menos de dois segundos já estava de volta. O demônio ainda me acompanhava, o agradeci imensamente e suas palavras foram as mais humildes possíveis sobre como amigos ajudam amigos. Por fim, ele se virou e partiu do meu encantamento. Tomei nova ducha e voltei à minha meia garrafa de merlot, isso já quase clareando o dia.

Quando o sol nasceu eu já não via mais nada, adormecido.



***

Não mais vi a família, soube que se mudaram do bairro. Talvez por medo, talvez por medo de mim. O meu velho amigo e outrora amante ainda tenta se corresponder comigo por emails mas eu ignoro. Aprendi a ser sozinho e para aqueles que não me compreendem e me temem, eu só tenho meu lamento. Não gosto de aparências falsas. Meus amigos de verdade estão em toda parte, basta que eu os chame. E eles a mim, sempre.

FIM.

7.01.2012

Juramento



"Abandona-te Homem, abandona-te. Abandone as impurezas da carne pois no peito de fogo o coração arde. Abandona-te a forma humana, a vilã. Erga-se o demônio."




4.01.2012

Conversas - ou o Algo que já se fora


...
     Ele estava em sua cadeira de estofamento aveludado rubro, de madeira antiga, sentado de forma casual, a pensar no que há depois de amanhã e quando esta sensação de Traição cessaria. De repente, um cheiro inebriante de hibiscus, valeriana, erva-de-coração-de-bruxa e sangue coagulado pairou no ar de forma violenta e confusa, atraindo sua atenção, junto de um ruído bem exato às suas costas.

     Ao mesmo tempo, houve alguns retalhos no mundo. Talvez o vento, a chuva que estava prestes a cair, uma respiração e uma criança que estava para nascer - todos enclausurados dentro de si. Logo percebido, era um demônio que vinha até ele. Seu nome, Buer - o Sábio, cabeça de leão com cinco patas que giram em volta do seu corpo levando-o em todas as direções sem precisar virar a face. Junto dele à direita, Harpócrates e à esquerda, Vermelho. Estes últimos dois grandes amigos do passado. Todas aquelas entidades juntas provocaram um arrepio insensato e inesperado, atraindo pensamentos mascarados e letargia emocional.
"- Pois então, vim." - Soou a voz do demônio. "- Vim por que precisavas de mim e de meus conselhos, vossos amigos foram à minha presença contar-me o que está a acontecer e pelos Rubros Sete Magníficos, preocupei-me com vossa força e presença inconstante."
"- Não é nada" - Falou o jovem sentado à sua cadeira. "- Nada que mais mil anos não resolvam depois que a decisão for tomada." - Parecia cansado, confuso, débil, com os olhos marejados e uma sombra sanguínea a percorrer a tez.
"- Temo que desta vez não possa ser assim." - Mais uma vez o demônio falou.
"- Se não for assim, não será."
     Do mesmo modo que o mundo parecia congelado, assim era o desenvolver do pensamento. Ou diferente, pois parecia fugir contra a ordem e voltarem um a um desde o princípio. Era como rever todas as decisões tomadas que o fizeram chegar até ali. Pôde rever o início do mundo, sua paixão pelo primeiro homem, seu primeiro pecado, sua exclusão da vida, sua primeira sede, sua primeira morte e seu despertar. Notou-se tão pequeno agora que mal caberia na mão de um deus sem escoar por entre os dedos.
"- Diga-me o que queres saber que ainda não sabes. Eu direi. Falas de Traição mas não a compreende, não conhece o coração do homem para quem vive e por quem continua aqui. Não conhece sequer o próprio coração adormecido. Tua visão embaça ao espiá-lo e teus crimes são contra si mesmo. Perdoa-me esta direção do assunto, in veritas, mas preciso caber dentro da sinceridade e do respeito que tenho por vós para que entendais e compreendais vossa sua própria situação. Nunca digas que alguém o trai até que seja feito, não culpeis um inocente mais uma vez. Vejais, com a ajuda dos seus grandes Basanos a verdade que há, não percas o que lhe resta de divino, uma vez que sua primeira decisão fora abandonar este nosso mundo. Tua morte não pode ser morte, sabes bem disso porque tu és proibido de morrer. Teu corpo que se mostra, tua alma, teu poder, tua presença, tudo evapora quando não é aproveitado. Podes mudar a direção da Terra e dos outros mundos se quisesse mas não consegue esquecer? Por dez legiões dos que já foram, aposto minhas cento e trinta e oito armadas como o senhor há de perdoar. Perdoar a si mesmo, entender o quão grande pode ser se apenas se permitir. No Céu e no Sheol és bem vindo e temido, pelos próprios deuses é deus e dos anjos e demônios, senhor. Nove vezes Nove seu Nome e seu poder permaneçam à minha frente para que eu tenha meu próprio poder para prosseguir." - Rugiu a cabeça de Leão sem mexer um músculo sequer.


     O jovem permaneceu inalterado, como se apenas uma brisa passasse por ele sem pedir. Não havia emoção, não havia nada em sua aparência delicada que sugerisse comportamento. Ele desejou poder matar, beber, assustar e dançar por sobre uma nuvem carregada de trovões, como sempre fazia quando tinha medo ou precisava de companhia. Desta vez, ele não pôde, havia algo de diferente na forma como encarava o mundo. Ele ignorou o Leão, enquanto se aproximava e lambia seu rosto complacente. Estava vazio de forma e substância, a um passo de se deixar ser esquecido e acabar com todos os problemas de uma só vez.


...

5.16.2011

Nós (iii) - Este sou Eu que aqui estamos




Buer, é um espírito que aparece no século 16, no grimorio da Pseudomonarchia Daemonum (Pseudomonarchia Daemonum), e seus derivados, onde ele é descrito como um grande Presidente do inferno, tendo cinquenta legiões de demónios sob seu comando. Ele aparece quando o Sol está em Sagitário.

Buer ensina Filosofia Moral e Natural, Lógica, e as virtudes de todas as ervas e plantas. Ele também cura as enfermidades, especialmente a dos homens, e dá bons familiares.

Ele é retratado na forma de um Sagitário, que é como um centauro, com um arco e flechas.

De acordo com outros autores, ele ensina Medicina, e tem a cabeça de um leão e cinco pernas cabra, para andar em torno do corpo dele em todas as direções.

Embora a etimologia do seu nome é incerta, curiosamente houve uma antiga cidade chamada "Buer" (agora Gelsenkirchen) na Vestefália, na Alemanha.

3.17.2011

"Odes Quebradas" - Mescla de Três Faces

Eu sou o Demônio das Três faces.
Sou aquele que corre a Terra à noite,
que caça os sonhos dos desesperados para torná-los reais.
Passo como o Escuro, tenho um estranho poder sobre o Caos.
Sei como é morrer sozinho e viver sem esperança.
De que me vale mil dons, se não posso mudar
o que já foi ?
Sou mescla de Vento, Tempo e Maré.
Sou um foço de Almas perdidas
e desamparadas pela Lua.
Carrego em minhas mãos
a tristeza da Morte Solitária.
Visto meu capuz feito de Estrelas
e calço meus sapatos de míngua ...
Sou o Imortal ferido, cansado das correntes.
Caminho com o Sombrio
despertar do Coração Negro.
Minha Alma de Vento me leva onde não preciso estar,
minha Alma de Tempo me mostra o que não pude nem quis ter e
minha Alma de Maré, arrasta o pesar dos fracassados, todos para mim.
Meu consolo em ser Vento é ser turbilhão.
É gerar fúria em tudo e em todos.
É espalhar por todas as lápides, o quanto sou poderoso.
É padecer só, no longínquo lugar onde ninguém me alcança, ou vê.
Meu único alívio em ser Tempo é saber que um dia irei ser
tudo aquilo que não fui ainda.
É estar aqui e lá, ao mesmo tempo e em hora nenhuma.
É conhecer tudo que foi, quem virá e merecer o julgo.
É consumir-me em conhecimento quisto e absorto e usá-lo em prol de mim mesmo,
afinal ninguém ousa me impedir. Ou tocar !
Meu único conforto em ser Maré é poder me sentir Céu Vermelho,
quando Ele me olha no final do dia.
É saber que começo onde termino e termino onde você precisa de mim.
É vislumbrar a imensidão de mim mesmo, sem precisar de ninguém mais.
É poder amar um e outro, em cada lugar e hora, em todas as vida e desamores ...
Reconhecer que tenho as Três Faces é merecer meu lugar no reino do desconhecido,
que só existe num lugar real,
que aflige somente um ser condenado,
que torna Treva, a existência do real e do imaginário.
Profundo é esse Demônio ...
que possui Três Faces e que acaba por uni-las por simples e pura
obrigação de ser Eterno, Solitário e Obscuro.

3.16.2011

Desencontros

Enquanto eu comemoro reencontros, os mais próximos e amados preferem se afastar. É humilhante esta situação e estou às vésperas de começar a ignorar.

"Se Hitler invadisse o Inferno, eu cogitaria de uma aliança com o Demônio."
Winston Churchill

3.14.2011

Apocalyptica - Bittersweet




I'm giving up the ghost of love
Into the shadows cast on devotion

She is the one that I adore
Creed of my silent suffocation

Break this bittersweet spell on me
Lost in the arms of destiny
Bittersweet

I won't give up
I'm possessed by her

I'm bearing her cross
She's turned into my curse

Break this bittersweet spell on me
Lost in the arms of destiny
Bittersweet

I want you

I'm only wanting you

And I need you

I'm needing you

Break this bittersweet spell on me
Lost in the arms of destiny

Break this bittersweet spell on me
Lost in the arms of destiny

Bittersweet

3.12.2011

Maybe Tonight

Cada momento jaz, precioso.
Eu amei tanto as estrelas por que tinha medo de ficar sozinho, no final. Percebo que estou, já agora.

Eu espero por agridoce até a parte que o primeiro demonio revela me querer. Esta voz retumba no corpo oco e deixa-me alheio - petit male - pelos primeiros timbres. Logo em seguida me leva ao orgasmo.

No final, sigo a mim mesmo.

3.04.2011

Demonio

E voltando aos demonios.

Há algum tempo, Vossa Excelência Reverendíssima, um bispo amigo que não convém citar nome, confirmou-me as informações: quanto mais perto dos deuses mais susceptível aos demonios estamos. Tenho sentido nitidamente esta questão, diretamente. Parece que mesmo eu, estando livre de algumas esferas humanas, preciso passar por este torpor. No meu caso, o que difere é a intensidade. Existe a regra da possessão para humanos e alguns que podem se comunicar com outras esferas, comigo é mais complexo. Não só posso comunicar como posso interagir, tem sido assim desde a 'mudança'. No começo, diziam Os Antigos que não era permitido e que na verdade, não passavam de entidades nulas, agora vejo que estavam enganados. Não têm a mesma força que nós mas ainda assim conseguem algum feitos interessantes.

Não entendi ainda por que vêm a mim, mas quero saber. Penso que pode ter alguém envolvido nisso e justamente alguém da minha mais alta confiança. Não é simplesmente pelo contato ou, mais futilmente, em busca de ajuda. Não ajudaria, já o fiz uma vez para arrepender-me por bastante tempo.

Todos, neste e nos outros mundos, conhecem meu carater misantropo e sabem que problemas comigo tornam-se mortais. O que molda estes contatos mais inexpressivos. Porquê? Por que se dariam ao trabalho e ao risco? Preciso entender. Claro, não é minha prioridade mas preciso.

3.03.2011

Das Irrlicht

Para encerrar este período humanamente meloso e bucólico, acrescento minh'alma cantada:

Nachts auf schwarzen land
Finsternes, keine führende Hand
Dort, ein Licht hackert im winde
Ein Haus, ein Wanderers Laterne?
Folge es geschwinde...

"Komm näher" lockt das düstere Moor
Kein Baum sich mehr rührt
Und das Irrlicht dich zum Tode führt

Höre die toten Seelen
Sie rufen deinem Namen
Bei Nacht und Nebel wirst du begraben

Aghast foi um projecto de duas bruxas irmãs: Nebelhëxe e Nachtexe ambas de origem norueguesa. Este álbum converteu-se num disco de cultos nos anos 90.
Foi gravado em obscuros bosques da Noruega, em santuários abandonados e antigas igrejas. Sua música nos leva a uma espécie de ritual suicida de desespero, agonia e obscuridade extrema. 
Na música são invocadas todas as classes de demónios e espíritos malignos. Não é aconselhável a pessoas sensíveis escuta-la, pois este disco causou muita polêmica por ter causado sérios transtornos. 
Algumas canções são muito místicas, outras estão mais ligadas aos orientados no esoterismo. Durante a tal gravação os técnicos de som passaram mal em algumas horas. Algumas canções são carregadas com um mar de lamentações e cantos de agonia, segundo alguns chega um momento que o disco se torna insuportável.

3.01.2011

Sangue impuro

Chamam-no de sangue impuro.

Eu chamo de vislumbre do que os deuses podem oferecer sem estarem presentes. São as crianças de um deus-menor, infantil, rancoroso e alheio à desgraça. É um bem alcançável mas não dividido por quem o possue. Falo por mim que ao longo da existência compartilhei com apenas três dos seres viventes que possui.

É um sangue poderoso, escuro, indelével e não-volátil.

E um teste, sempre.

2.28.2011

E se eu fosse seu vampiro

Estou a ouvir uma musica do mestre Manson (if i was your vampire) e óbvio, identifico-me com ela em numero, gênero e grau. Talvez mais. Mestre Manson não teria a ousadia que eu tenho, viver como um homem sem medo, algo indecifrável, algo inóspito por si mesmo, um homem que não é homem, é meio homem inteiro e nenhum homem por nada.

Lembro-me dos seus pedidos para se tornar um de nós..

Tola criança, mal sabe o que é despertar ao crespusculo e ter de se alimentar. Tomar vidas indiscriminadamente e suas almas, aprendizado. Não, não estou dizendo que um vampiro eu sou. Não da forma como vocês imaginam. Na verdade, não estou dizendo nada.

É nauseante ver do que dispomos a raça, digo, pictoricamente. Poucos conhecem a verdade e ainda eles não a tem intrinsecamente. Não importa-nos.

Eu tenho quem quero e quem não me quer, lamentar-se-á em dias.

Recomeço

Então...
O Diabo volta à sua forma e recomeça algo sempre mascarado. Não adianta, este veículo também será esgotado tão brevemente meu coração negro seja preenchido pelo estúpido sentimento que é o amor. É notório que o amor me deixa débil, ignóbil e acima de tudo, fraco. Minha natureza é ser forte, poderoso e eterno e me vejo em desvantagem perante meus irmãos e meus filhos. Tentarei ao máximo manter mas é fato que não o farei. Antecipo-me dizendo que tão vasto é o caminho que percorro para me encontrar é a distancia entre o pico e o abismo em que sempre me lanço. É perpendicular minha necessidade de sorver vida e meu asco pelos homens.

Estes malditos e imbecis homens que não sabem o que é amar, doar, ceder.

Sê maldito o homem que me traz à humanidade, devora o que restava da minha alma e agora me abandona, alegando que sua humanidade é superior. Que sua alma passe por Cocytos, Giudeca, Antenora e Tolomea e nunca descanse. Um ultimo feitiço me remonta à Cadernal: "pero a ti, a ti nunca te amaram como te amaba yo!"

Eu sou um demonio de mil formas e cada uma agora empenhar-se-à a esquecer-te.

Enfim, este era meu teste de começo de post. Logo a peçonha tende a se tornar mais severa, maldita, lancinante e feroz.