1.27.2012
Nomes sem valor
Grigori Yan era seu nome.
Ele não era mais do que isso, um nome. O homem que havia por trás não era dos melhores, mas este nome era imponente e forte tal qual seu dono jamais seria.
Eu dei o nome. Nomeei algo que não conhecia e talvez tenha pecado. Admiti momentos de alegria noturnas com outros nomes - completamente esquecidos pela insignificância - que duraram mais do que deveria. Tateei em busca de sentido, um desvio para o nome e não achei. Mas ao avaliar bem, este nome não durou tanto assim.
Nome que me incentivou à Loucura. Nome que quase me faz perder outro nome - este sim maior e mais bonito do que jamais serão. Nome sem um corpo que valeria a pena desejar, um corpo corrompido de mágoas humanas.
Falo do nome porque hoje, uma delicada amostra de educação inesperada me fez lembrá-lo. Quisera eu não tê-lo criado.
1.26.2012
Cada olhos azuis
Corro a vida atrás de olhos azuis. Não somente azuis, preciso daqueles com o tom certo do que há num riacho profundo numa manhã dos últimos dias do outono no hemisfério sul. Ou não valerão.
Olhos azuis que incendeiam a alma, que eximem a culpa, que elucidam mistérios e que te evoca ao entardecer, sabendo que poderá ir satisfeito para casa e encontrá-los.
Olhos azuis perfeitos, como feitos de lápis-lazúli ambarado, como que caídos do céu. Olhos azuis num rosto perfeito, moldando-o. Olhos azuis como os meus já foram em dado momento, antes de decidirem clarear ainda mais tornando-me o monstro que reluta acreditar no que vê. Olhos perfeitos. Um corpo perfeito.
Um corpo perfeito que vê a luz da forma exata em cada centímetro. Uma carne tão clara que parece inumana. Contornos, espaços, minha morada. A moldura perfeita para grandes olhos azuis e um coração confuso.
Olhos azuis que não viram o destino chegar, não viram o que estava por vir e deixou de se proteger quando a hora da partida chegou. Correntes, cruzes, perfumes - nada bastou além dos olhos azuis, indeléveis quando se ouve som da turbina de um avião. Talvez seja uma compensação pelo esforço, acabar num ponto ainda mais distante de como começara.
Não há mais olhos azuis ou carne branca. Tampouco um som, que seja de sua voz. Não há quase nada a se ver, quando se fecha os olhos a não ser esperar pelo reflexo de olhos azuis.
Um nome, um local, um período, um começo. Unicamente algo que não volta atrás e que aconteceu para definir que nunca poderia ter acontecido. Paradoxalmente excitante.
1.22.2012
Ao redor de mim habitam Feras
Ou serei eu a Fera?
Parte de mim é vista, conhecida. Parte anda incólume pelas sombras. Todas as partes têm desejos e procuram saciá-los, com compromissos ou casualidades.
Divago, ao correr a vida noturna, procurando em sortilégios infantis um toque do desejo masculino que tanto me faz falta, congelando a alma, enrijecendo o sexo e acima de tudo, criando a comunhão.
Moro só, com meus medos e vícios belicosos. Moro com minha ardente sexualidade, nunca satisfeita. Ao meu lado, mora a sensualidade em pessoa, já experimentada. Nossos espaços separados, nossas necessidades unindo-se vez ou outra.
Não uma ou duas vezes corri à sua porta durante a noite para consumar. Também viera a mim, em seus acessos de fúria, sabendo que somente eu poderia aplacar. Estranho como sempre há uma vontade que vai e uma substância que fica pois, ao acalentar usando meus meios, também sou beneficiado.
Horas foram as que se seguiam enquanto juntos estávamos, enamorados, unidos ao aroma agridoce de corpos tão semelhantes. Estranho também é saber que estamos sempre prontos, um para o outro. Parece irradiar de mim - sendo a recíproca verdadeira - um alerta feromônico de apetite. Sem poupar os detalhes, relato:
E então, como corpos confundidos com a grande pintura apresentada para os céus, dispersar até que o corpo se recupere. Selo as feridas com meu próprio sangue milagroso, mantenho a constância dos beijos. Tem sido assim há algum tempo. Espero que termine logo.
Se alguma uma entidade da Noite disser que vive apenas de noite, ela mente. Não podemos. Vivemos - ou fingimos - de vivências na noite, não dela própria. Precisamos de toques, aromas, potências, desejos abatidos e contabilizar almas perdidas. Este acabará sendo meu legado.
Possuir:
É somente o que me passa pela mente animalesca quando este algo a priori me possui. Como disse, é instintivo. Parece que, ao me colocar à sua porta, a chave gira e em minha esperança encontro o que preciso, ali, aguardando do momento e situação que fosse.
Invadir:
Primeiro o espaço, depois a boca com minha língua lasciva e então a percorrer o corpo, tomando cada centímetro de área possível. Nunca cedo antes do tempo previsto, continuo e continuo a redescobrir um corpo conhecido mas sempre mutante, a crescer em seus contornos rijos, ora andrógenos ora definidamente associativos.
Aplacar:
Depois de várias ações corpóreas é a hora do Prazer Primevo. Um beijo negro. Confesso que não me controlo e geralmente as marcas do descontrole são encontradas até semanas após estes atos. Seja braço, perna, costas, coxa, peito e sempre, pescoço. Ao beber, realizo os dois. Conheço a raiva há muito mais tempo do que qualquer ser humano e me dou melhor com ela, este escape é sempre uma arma em minhas mãos. Bebo de essência a suor, sangue, ira, desejo e cumplicidade. Se confio em poucos humanos para beber descaradamente, encontra-se aqui um exemplo. O fluido verte para mim sempre latejando (aqui sim, pouparei alguma cena que ainda consideram enjoativa e estritamente macabra, mesmo para minha espécie).
Consumar:
Depois de beber, devorar. Já domino, posso remeter agora ao prazer carnal. E que prazer! É como cem beijos negros simultâneos quando se possui um corpo desta forma. Ruborizando faces, invadindo corpos sem precaução alguma, tomando o que é meu por direito, alucinando enquanto os movimentos fluem sempre mais ágeis, insubmissos, sem medo de empregar força demasiada.
Morrer:
Sim, morrer. Atingir o clímax e notar que está morto, há eras. E será sempre morto enquanto não tiver mais deste milagre.
E então, como corpos confundidos com a grande pintura apresentada para os céus, dispersar até que o corpo se recupere. Selo as feridas com meu próprio sangue milagroso, mantenho a constância dos beijos. Tem sido assim há algum tempo. Espero que termine logo.
Se alguma uma entidade da Noite disser que vive apenas de noite, ela mente. Não podemos. Vivemos - ou fingimos - de vivências na noite, não dela própria. Precisamos de toques, aromas, potências, desejos abatidos e contabilizar almas perdidas. Este acabará sendo meu legado.
Talvez eu tenha errado, quando não ouvi o conselho do cão que estava à minha porta
Há algumas noites, após um longo dia de trabalho, eu decidi caminhar pela rua. Havia sido um dia cansativo, estressante e - para nenhuma surpresa - eu havia me superado. Precisava pensar no modo como minha vida seguia, com minhas virtudes sendo desqualificadas a cada dia mais e meu grande amor negligenciando minha presença. Como citei, havia sido exaustivo o dia e ainda mais atordoante saber que havia passado por ele sem uma prova de carinho sequer.
Há um tópico a acrescentar que, em minha própria morada e nas adjacências, as pessoas ignoram minha presença. Depois, claro, de tanto tentar envolver-se em minha vida pessoal. Por ser um homem de hábitos noturnos que passa a maior parte do dia em regime de trabalho e aos finais de semana sempre oculto, acredito que tenha gerado uma certa curiosidade. Pois bem, esta sutileza muito me ajuda nos passeios.
Conheço as vozes que falam em minha mente.
Pois bem, caminhei até o limite da rua e voltei. Diversas vezes. Na pressuposta última, parei em meu próprio portão e notei que havia um cão acomodado. Belo cão por sinal, malcuidado mas com certo porte. Sentei ao seu lado e acariciei-lhe o dorso. Ao tocá-lo, acredito que ele tenha notado o que eu levei mais um décimo de segundo para perceber.
Em seguida, talvez pelo que tenha sido gerado ao toque, o cão me questionou sobre o motivo de minha fuga. Sem a mínima altercação disse-lhe que eu fugia há tanto tempo que nem lembrava mais o porquê - animais e eu nos falamos, sempre que possível e principalmente quando uma das partes precisa de um conselho. Foi este o estopim para uma conversa que, graças aos Céus, rendeu-me tão valorosa gratidão ao cão.
Conversamos sobre este ponto em questão: ele, assim como eu, fugia. Num patamar mais doméstico, a fuga dele era por maus tratos. Descendia de uma nobre raça e não admitiria sofrer nas mãos de quem, por cinco vezes, protegera. Nobres nem sempre são altruístas, constatei e isso valeu-me de lição. Conversamos sobre tempos antigos, fidelidade, amores, crias, redenção e, desesperado, comecei a falar de mim mesmo e de minhas recentes abominações. Falei para ele dos meus desejos de amar e procriar, de matar, de vingar, de ousar e de desaparecer, como sempre busquei. Transcrevo aqui as palavras que ele, vivendo neste mundo há quatro anos humanos e vinte e três anos caninos, me disse:
"Não é justo, sabemos. Não é bonito, também sabemos. Herdar um trono maculado não deveria ser permitido. Porém um rei cai para que o outro assuma e o reino pode ser lavado. Uns optam por sediá-lo em sangue, outros por confraternização. O que quero dizer em suma é que você tem a escolha, não seus pais. Eles o trouxeram aqui mas não podem guiar sua jornada. Talvez, eu tenha sido metafórico demais quando me referira a seus pais, sabendo que o senhor não deriva de carne de homens. O que realmente consta é que, estando aqui se tornará verdade o que disser assim como será no céu. Corra, busque sua eternidade, esconda-se, exponha-se, erre, cresça e chore. Tudo é válido. Deseje e incentive, não tente ser maior diminuindo os outros sabendo do seu potencial ilimitado. Caso o céu precise do senhor, novamente ele o chamará. Enquanto isso, aproveite a vida que o senhor escolheu. Sim, foi uma escolha há algum tempo, mesmo que não tenha consciência. Optou cair para estar aqui e agora pretende voltar sem ao menos ter tentado? Não arriscaria chamá-lo de fraco, mas ousaria dizer que o senhor não chegou onde pode chegar. Cumpra seus próprios decretos, rejubile-se quando puder. Teu tempo aqui é maior do que o deles e flui de forma diferente, já notara antes. Cabe portanto fazê-lo grande da melhor forma. Deseje, mas não fique apenas nisso. Deseje e cumpra. Minha vida aqui é determinada e mesmo assim eu optei ser um amigo do homem que me criou, pude protegê-lo e aos seus, até que ele confundiu-se com seus próprios vícios e começou a me ver como ameaça. Entendo que poderás passar pelo mesmo, nosso porte os assusta. Temem o que acham que podemos fazer para com eles. A quem nasce feroz não importa o tom de voz, ouvi certa vez um homem velho falar. Mas nascer feroz não é escolha, ferir é. Senhor, sempre será sua decisão acima de qualquer coisa e, se por mim ou de mim precisar, poderá contar sempre."
Estas palavras me fizeram voltar à superfície de minha alma e, ao olhar os olhos sinceros do cão - seu nome não poderia ser mais imponente, Rei - pude ver os meus próprios. Pensei na minha sede de sangue e no quanto abstrai-me para não incentivá-la. Pensei nos amores que deixei passar tomando a decisão por eles do risco que corriam. Pensei nos amigos que não tive porque temi a minha própria exposição e hoje, por meios completamente novos ao meu tempo, eu mesmo ignoro de forma tão brutal.
Ficamos mais alguns minutos em silêncio, apenas um e outro, sentados lado a lado como velhos amigos. Logo após, ele se despediu de mim, com carinho e afeto e disse que em qualquer instância em que eu precise dele, ele poderá ser chamado. Simplesmente precisava ir para muito longe mas que voltaria, algum dia breve, afinal não são muitos que ainda falam - e ouvem - os cães nos dias de hoje.
Isto aconteceu há apenas algumas noites mas para mim ainda está tão latente quando este momento enquanto escrevo.
Obrigado, Rei, pelas palavras.
1.17.2012
Ódio, em sua forma pura e decantada mil vezes
Escrito de uma alma amargurada, aproximadamente às 13 horas do dia de hoje, enquanto folheava sua vida abaixo de uma árvore que desconhece o nome:
Chega.
Não adianta me submeter à humanidade em meus caprichos, agora estão querendo me subjugar. É o maior extremo do impossível que posso aceitar. É infundado, desconexo, surreal e absolutamente improvável.
Minha cabeça estará sangrenta e estará erguida. Não há volta provável ou algo que ma faça pecar mais contra mim mesmo.
O ódio transborda pelos meus poros, antes angélico agora iconoclastas. Minha língua enrola na boca e desenrola maldições imperdoáveis em idiomas antigos, contra aqueles que pensam poder me dominar.
Estes vis abutres humanos, imprestáveis, fracos, levianos, libertinos e limitados. Não conhecem do seu próprio mundo um décimo e se julgam donos. Débeis que são consideram-se a melhor raça porque um deus obsoleto os disse isso.
Mil trovões rasguem o céu agora e despejem minha cólera, para que este mundo continue intacto. Ou com uma palavra Emet eu o deixarei maculado.
Há um inferno em mim agora, corroendo minha mente e minhas palavras. Sinto-me dominado por algo que conheço e que sempre quis evitar. Meu coração agora morto, palpita enquanto meus olhos tremem de fúria simples e generalizada contra nove décimos da humanidade. Minha boca quer sangue mas se contentará com o meu próprio, já tendo devorado metade de minha própria língua. Não há retorno. Não há sanidade neste mundo que cure que quer que seja.
Foco-me no mundo abstrato desconhecido de minha alma impermeável. Meu cálice reverbera anunciando a missão derradeira. O cosmos acabara e eu nunca descobrirei o desejo.
Odeio simples e unicamente esta mediocridade humana que me força agora a cuspir veneno e viver como um errante sem dono. Meu amor me deixa. A vida nem deixa e somente assim me livrarei deste ódio que me dilacera por não poder destilar apenas em amargura.
Não há uma visão turva quando se odeia, há apenas a vermelhidão. Sempre fui acostumando à ela.
Feito.
1.15.2012
Eu, que seja o que sou
Se este sou eu, não há mais o que dizer. Se hei nome Cavaleiro é porque o mereci. Se hei nome inverdade é o que fiz de mim. Se estarei à sua espera é porque de ti preciso. Previ muitos dos acontecimentos que a mim afligiram, mas, não pude prever o amor que sentirias por ti. Tu hás nome Cavaleiro, fazes parte de mim. Tu herdarás o meu amor que sempre fora teu. Nada do que sou independe, nada do que és seja subjugado.
Apenas sinto amá-lo enquanto este mundo nasce e renasce em mim.
Athena Polias
Athena:
Faço unicamente aquilo que me é pedido. Peçam-me para que a cidade funcione em harmonia e unirei os escravos e engordarei os senhores. É desta forma que a harmonia se forja do caos. Todos aqueles que emigram e vivem fora da justa Athena aceitam este acordo, seja a sua ignorância sobre este acordo, sincera o falseada. Residir na minha cidade requere submissão. Tal como o boi que carrega água submete-se ao seu jugo, assim deve o cidadão da cidade submeter-se às leis da mesma. Mas caso se cansem desta situação, caso o vinho provoque doença e as uvas apodreçam na vinha, eu alegremente destruirei aquilo que me pediram para criar. Mas tenho ainda de ouvir qualquer de vós mortais, rebeldes ou reis, pedirem-me que leve a cabo esta tarefa final: deixar que o Caos reine sobre os campos de Athena. Falta-vos a coragem para ver arder tudo o que vos proporciona conforto e abrigo. Até os mais fortes de entre vós temem o poderoso Caos e o que ele fará, o qual deixarei que actue livremente. Mas lembrai-vos disto jovem alma: Faço unicamente aquilo que me é pedido. Pede-me que te construa uma cidade e farei com que funcione. Pede-me que acabe com a miséria da cidade, e só terei uma opção: destruí-la, totalmente.
— Euripides, ATHENA POLIAS (Athena da Cidade), das Peças Perdidas.
Confissão número XVIII
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Lean, do sorriso aparente
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Canções costumeiramente induzem-me a declarar, seja parte de minha vida seja algo que ainda não vi. Neste momento elas me remetem à confissões - mais uma vez.
Confesso que nunca fui um bom homem. Nunca amei deliberadamente, nunca consegui herdar esta necessidade de amor. Nunca fui um bom homem e nunca fui um bom companheiro. De todas as mulheres e de todos os homens que tive, poucos consideram-me - excepto aqueles que já eram amigos antes de o sentimento mudar e até para estes me sinto enfraquecido. Talvez eu nunca tenha me esforçado o bastante para ser bom. Talvez tenha pecado mais do que podia. Trai muitos em sentimentos, permanecendo num compromisso que não me agradava mais. Com uns eu construi alicerces duradouros, que nunca foram usados. Com umas poucas eu pensei em procriar e gerar descendência. Bebi da alma de Todos eles e eles sempre souberam disso, nunca se queixaram. Nunca me relacionei com a mentira e desde o começo eles sabiam o que eu era ou, ao menos, o que eu não era. Não era como os outros homens. Para eles e elas deveria ser bem estranho, mas, como alguns são apegados aos mistérios e acham que isso os eleva, acabamos juntos. Digamos que eu era "algo particularmente novo e diferente" para eles.
Nunca lhes faltava nada a não ser carinho, dedicação, compreensão, respeito e amor. Me apeguei à imagem de macho que via em películas e obras literárias e me arrependo agora. Nunca aprendi a ser realmente aquele modelo. Eles sentiam isso, eu sentia isso. Por vezes era violento, agressivo, destoante, incoerente e subversivo mas nunca ousei levantar a mão contra eles. Minhas palavras feriam e meus atos dilaceravam, eu podia ver nos corações. E, a cada dia mais, eu me tornava menor e mais fraco.
O Tempo passamos, nada mudei. Continuo atento a tudo e todos, sempre vigilante, sabendo que isso é uma paranóia herdada pelos Meus neste novo mundo. Sempre achamos que sabem de nós e que ainda estão atrás, à caça. Alguns mais novos optaram pelo anonimato e sombras, eu optei pela luz. Temo ter me corrompido assim. Me aceitei como um destes e agora tenho os hábitos deles, fraquezas deles, receios deles e o medo que eles têm, agora também é meu. Meu mundo de papelão se tornara um Mundo de estanho e ferro fundido que parece tentar me enclausurar contra a minha vontade.
Logo, sou algo que não é homem tentando ser um, completamente equivocado nas ideias. Continuo ferindo e preferindo fenecer a esmo, antes de continuar a matança. Continuo agredindo inclusive meu novo amor, que tem um nome oculto. Peço desculpas e refaço o erro, ignoro, deixo a desejar. Frivolidades tiram-me do eixo. Não há mais desculpas válidas porque não sei mais como fazer, infelizmente.
Continuo sempre sendo meu pior inimigo e mesmo com Harpócrates ao meu lado, me sinto sozinho. Mais uma vez, mesmo entre muitos.
1.14.2012
Johnny
O nome dele é Johnny, não acho que ele saiba o meu.
Fico observando, durante meus pequenos intervalos, o comportamento dele ora doce ora cafajeste. Excitante em cada parte do corpo, mais do que cem dos que já vi antes. E No caso dele, é natural. Fico a par de sua rotina mas não posso influenciar em nada.
Estranho modo este em que nunca nos encontramos ao acaso. Se ele soubesse meu nome, arriscaria dizer que me evita. Ou minha presença, já que ela chega antes de mim algumas milhas. Talvez minha fama, má fama, de autoritário e extremamente sensual. Correm os boatos de que eu sou o homem perfeito, na medida exata entre gentilezas e imposição. Muitas mulheres declararam sua excitação, muitos homens omitiram.
Não falei com ele ainda, perguntamo-nos um pelo outro mas não diretamente. Talvez ele não goste de mim, sendo meu extremo oposto. Talvez eu seja demais ou algo que não agrade. Nunca saberei mesmo.
Enquanto isso eu penso em outras coisas que o tirem de minha cabeça e tão logo, dos meus poros desejosos.
Fim.
Dios Astrapaiou - Daemonia Nymphe
Listen Here
περίφαντον, αέριον, φλογόεντα, πυρίδρομον,
αεροφεγγή, άστράπτοντα σέλας νεφέων παταγοδρόμωι αυδήι,
φρικώδη, βαρύμηνιν, άνίκητον θεόν άγνόν,
άστραπαίον Δία, παγγενέτην, βασιλήα μέγιστον,
ευμενέοντα φέρειν γλυκερήν βιότοιο τελευτήν.
Perfect conjuractio.
1.12.2012
Tecido e Violino
Na manhã de hoje, ao despertar de um sono sem sonhos, eu concretizei um antigo adágio pessoal. Me abstrai num preview do que ainda está por vir e confesso que me excitei deveras.
Passada a noite sem algum presente de Ikelus ou Phantasós (ou seja, sonhos), me senti desnorteado ao rever aquela cena em minha memória tão volúvel. Levantei da cama, me deitei novamente, senti os arrepios me subirem o corpo ainda oculto por tecido e seda. Tornei a levantar e tentei desenhar o que via, para não perder o momento. Como exímio escritor, sou claramente, um péssimo desenhista e dos borrões que permaneceram nas páginas mal pode-se notar as imagens do tecido e do violino.
Havia um homem deitado de bruços, apoiado nos antebraços, completamente nu, perpassado em áreas vitais apenas por um suave lençol branco que ao cobri-lo, seguia percurso e moldava-se a um outro homem, também nu, sentado à margem da cama com este lençol envolto, enquanto tocava seu violino amargo. O deitado observava o sentado, placidamente a contemplar e emocionado com cada nota que fluia do instrumento. O violinista nu se sentia tão orgulhoso por estar ali quanto seria possível. O ouvinte nu corava ao sentir a provocação da música. Havia sido uma noite formidável para ambos, quando ao se descobrirem, descobriram um ao outro inclusive.
Toda esta cena durou intensos momentos mas não passou de doze segundos no mundo real. Lembro do cheiro do violino ao pleitear atenção dos deuses, tocando o Gorjeio. Lembro da textura do tecido. Lembro do aroma do homem deitado e, acima de tudo, lembro da felicidade que era estar ali. Passei o dia a revê-la em cada segundo disponivel, tentando reabsorver aquela magnitude. É interessante como num espaço tão breve de momento a gente possa se sentir tão completo.
Uma pena que começou apenas como uma visão, quiçá poderá vir à realidade algum dia.
1.08.2012
Medidas
Não mereço o amor que desprendo. Não há retorno. Não posso me permitir amar mais do que seria amado pois este valor me coloca em risco.
Neste momento sinto vontade de ir ao deserto, sentar, chorar, me despir e ao luar, criar cem cavalos de areia para cavalgar até o limiar da sanidade e do oriente. Não posso insistir no amor, não com ele. Ele não entenderia esta sensação de ardência nos olhos, queimação no peito e o arfar da alma em busca de consolo mesmo quando se parece alegre ou feliz.
"Porém os cavalos reconhecem o amor do dono e a eles são fiéis."
Ouço imagens, vejo sons
Minha imagem não é o que sou. Minha voz ecoa além do que posso ser ouvido. Cada pequeno gesto do meu corpo é sensivelmente controlado, levando em conta o mundo de papelão em que vivo. Cada toque, cada sopro, cada desaforo, todos morrem comigo. Por vezes posso sentir o ar enquanto rodopia minha pele gelada, dançando em torno da minha culpa, abduzindo parte da minha dor ao ludicamente interagir. Parte congruente, parte incessante.
Não quero aqui mais uma vez evidenciar minha tendência à megalomania. Não. Preciso apenas escrever com meus olhos o que sinto com meu sangue. Temo a obsessão porque ela gera a morte. Fixo em um canto vazio do meu inconsciente algo que preciso lutar por, conquistar ainda que em passos inconstantes. Não é a música que me abstrái nem o que ela provoca em mim, é meu desejo de fazer parte dela. Parte da coerência vibrante que torna o som um verdadeiro dom. Mexe comigo, me toca as partes desconhecidas, se deleita em mim e toma posse do meu orgasmo incorreto, criando dele filhos que nunca verei crescer.
Tive muitas crianças quando me deitei com a Música, cada uma acabou morrendo ao me ver. Todas notaram que seu pai é algo silêncio, coisa que por si só corrompe as criações puras. Todas as minhas crianças choraram ao ver um pai que toca o céu com uma doce canção sem som, que sai de seus olhos, passando através da pele e dos pêlos e que se torna impuro para si mesmo. Minha imagem - que nunca seria tão doce quanto minha necessidade de cantar - surpreende pelo meio-homem inteiro que sou.
O que mostro de mim se torna alimento de deuses tão imortais quanto eu, mas que sobrevivem de pesares. Experimento viver num Tempo diferente, num mundo diferente, que giram numa sintonia suavemente distinta da atual. Escrevo por códigos que só os de minha raça entenderiam, se ainda houvesse algum por ai a me ler. Experimento também compreender o que vejo, com os ouvidos. Cheirar com meus olhos, tatear com meu faro, ouvir com minha lingua e sentir o gosto com minha pele.
Sentir o gosto com minha pele.
Nada poderia assumir uma forma mais brutal do que a poesia.
1.01.2012
Para nossa informação
Tenho muitas grandes obras-primas. Criei muitos pecados e Tragédias, mas, categoricamente afirmo: Nenhuma delas aqui se encontra.
Pássaros e amores
Foi num dia comum no Japão e numa praça esse acontecido.
Nessa primeira foto, não se sabe como o pássaro morreu. Estava ali no asfalto inerte, aquele corpinho sem vida e sem seu canto. Seria um fato corriqueiro, mas o fotógrafo fez a grande diferença.
A Solidariedade
Talvez até por intuição, segundo o relato do fotógrafo, essa ave que chama o companheiro já sem vida, permaneceu durante o dia todo pousada próximo à ave morta parecendo pedir algo.
Pulava de galho em galho sem temer os que se aproximavam até chegar bem próximo ao fotógrafo.
A Solicitação
E cantou num tom triste. O homem imaginou que ela pedia algo. Ela voou até o corpinho, pousou como querendo levantá-lo e alçou vôo até um jardim próximo.
E o homem entendeu.
Foi ao meio da rua, retirou a ave morta e colocou no canteiro indicado.
Só então a ave solidária levantou vôo e atrás dela todo o bando.
A Despedida
Num olhar triste tendo a consciência do companheiro morto, como num último gesto de respeito e talvez até devoção a ave permanece alguns segundos junto ao corpinho antes dele ser retirado da rua para o jardim, a seu pedido.
Uma Questão de Amor e Carinho
Um grito de dor e lamento
Aquela ave que fez toda a cerimônia de despedida, quando o bando já ia alto, inesperadamente, só ela voltou ao corpo e num grito de não aceitação da morte, ainda tenta chamar o companheiro à vida ou uma despedida de amor e carinho como quase não mais existe entre os homens racionais aqui da terra.
Réveillon
Para que serve o réveillon?
Entendo que era para festejar a passagem de ano e os novos votos, mas para que ele serve realmente? Talvez eu esteja frustrado porque o meu não rendeu os frutos que eu esperava, admito. Há quatro anos eu acompanho este processo de fireworks e hugs a desconhecidos e a cada ano parece que as coisas mutam de uma forma desordenada. Neste de ontem então, nem se fala.
Eu poderia ter ido mais longe, poderia ter assistido de cima, da melhor vista mas me entreti junto aos outros - maldita hora.
Acredito que se eu, naquele momento, tivesse mostrado um décimo do meu dom não estaria eu aqui agora, desorientado por ter perdido um grande amor.
Cada cor que subia ao céu iluminava parte do meu coração, porém, passado este maravilhoso espetáculo, cada cor desbotou e se associou à mágoa e insanidade, tornando-se algo violentamente arrebatador.
Eu o abracei mas não o beijei. Fiquei devendo-lhe o primeiro beijo do ano de Dois Mil e Doze naquele clima perfeito. Parte por vergonha parte por exposição. Não são todos que, mesmo em pleno século XXI e em terreno público, admitem beijos entre homens. Principalmente quando a família está nas proximidades, é aquele medo mesmo sabendo que eles sabem de tudo.
Porém eu o abracei, vanglorio-me! Fiquei abraçado durante os dezessete minutos em que explosivos iam ao céu e se tornavam sonhos. Cores misturavam e tingiam o mar logo abaixo. E aquele calor, aquele cheiro, aquela sensação de proteção, Tudo aquilo me exauriu da forma mais bonita que eu pude perceber posteriormente. Então eu estraguei tudo, com minha sutileza de um patrono elefante idoso prestes a morrer.
Dei as costas a ele e parti, após uma acalorada discussão. Nunca deveria ter feito isso porque além de desrespeitá-lo eu o ofendi. Dei as costas a quem amo e aquele gesto significou minha despedida do seu coração. Perdoa-me, Céus, pela insanidade e Poe nunca fez - paradoxalmente - tanto sentido. Tenho vivido na Loucura acreditando ser realidade e quando me estabeleço são, ela se rompe.
Agora, que não passei pelo teste, envolvo outras almas enquanto falo. Não poderia amá-lo menos, seja reveillon ou qualquer outro dia. Perco-me no que sou quando não estou com ele. Amar é estar com o outro onde quer que ele esteja.
Ad amorem est infinitum
"There is no remedy to Love but To Love more."Thoreau
O amo.
Não há nada mais preciso em mim do que o amor que consigo dispender a Ti.
Tu que me encanta, define, ensina, refrigera, acompanha, carrega nos braços do amor e mensura meu universo que carrega consigo. Preciso de Ti. Mais do que de mim mesmo. Canso-me de ser eu mesmo quando distante estou de Ti. Nunca precisei de razão para amá-lo, bastou conhecê-lo. Meu coração sempre sentiu que este momento chegaria mesmo que tardio.
No começo eu era o melhor amante, romântico, sensível, doce e preocupado. Mas o Tempo passou e acabei calculista e atento demais. Foi neste momento que Tu deixara de me amar. Tentei consertar mas acho que já era tarde, não imagina o quanto eu lamento. O perdi por algumas poucas vezes, a última parecia que seria definitiva. Graças aos deuses que habitam o céu e o mar, reatamos. Novamente eu criei promessas de um mundo novo e amores eternos.
E novamente eu cai no meu pecado.
Passei a contar os momentos contigo e a tratá-lo como algo que seria eternamente meu. Como um casal completando bodas de prata éramos, ultrapassando alguns momentos preciosos de nossas vidas. Considerava-nos este casal eleito que estaria junto sempre e assim, acabei ignorando algumas Leis de convivência com quem se ama. Passei a negligenciar muita coisa, a ser indiferente e ouvi-lo cada vez menos, remeti à frigidez e o romantismo seguiu vida na sarjeta.
Pereci enquanto estava com você, desejei dos piores venenos e das mortes mais épicas. Passei a viver sem mim. Longe de mim.
O mundo mudou, desculpas não são mais válidas. Novamente eu o perco e sem chances de retornar. Não há empecilhos, estão sendo ignorados. Meu longo amor antigo regressa ao meu coração, despejado do Teu. Livrei-me dos que me queriam mal. Mau, inclusive, e agora eles não mais serão sobressalentes à minha posição de pássaro meio-Homem inteiro a ruir. Nada me importa mais agora, nem perdões nem augúrios. Não há mais que se preocupar com ipsis custodietis ipsi custodis.
Ele está indo, eu permaneço. Nossa conversa não tem mais aquele tom de alegria porque sempre é carregada de queixas e invólucros de questionamentos. Não sorrimos mais com tanta frequencia e agora, então, não poderemos mais sorrir juntos. Nunca mais eu poderei sorrir porque além do nosso compromisso, você levou de mim seu amor. O meu continuará sempre disposto e ignorando outros corações além do seu.
Nunca mais amarei outro. Nem penso nisso.
Al Perderte
Ernesto Cardenal
Al perderte yo a ti
Tú y yo hemos perdido:
Yo porque tú eras lo que yo más amaba
Y tú porque yo era el que te amaba más.
Pero de nosotros dos tú pierdes más que yo:
Porque yo podré amar a otras como te amaba a ti
pero a ti no te amarán como te amaba yo.
Yo porque tú eras lo que yo más amaba
Y tú porque yo era el que te amaba más.
Pero de nosotros dos tú pierdes más que yo:
Porque yo podré amar a otras como te amaba a ti
pero a ti no te amarán como te amaba yo.
Uomini
Homens.
Homens são feitos de cheiro, suor, cicatrizes, responsabilidades e perigo. Completamente abaláveis por amor ou um coração partido, sofrem mais do que mulheres. Criam casos, batem uns nos outros, procuram soluções onde não há. Homens são insensíveis, insensatos.
Homens conhecem a hombridade que seus pais ensinaram e a educação, mesmo quando pouca, serve sempre para superar uma palavra ofensiva. Homens são nobres, polidos, políticos mesmo quando estão sujos de graxa.
Homens não notam os outros porque se tornam invisíveis. Homens não conhecem suas esposas e filhos porque seu próprio tempo não permite. Os homens acham que, colocando dinheiro dentro de casa, suas vidas estão sendo plenas. À noite, sexo. De dia, um bom almoço.
Homens toleram dor física mas não emocional. Choram fingindo e escondidos no banheiro. Homens choram mais do que as mulheres porque - choramos - poucas vezes mas em quantidade exponencialmente maior. Com um único choro um homem pode alagar a Groenlândia. Mulheres choram até que percebem que a maquilagem pode borrar, então, apenas soluçam. Homens tem emprego como médicos, engenheiros, mecânicos, políticos, técnicos de futebol e agricultores.
Estes são homens naturais.
Porém, alguns outros homens em menor presença batem nas esposas, traem, ferem sentimentos, ignoram suas companhias, pais, filhos, dedicação. Vivem sujos num mundo sujo. Usurpam e destroem. Caluniam, mentem, agridem, escondem-se de medo de encarar o mundo. Tal raça de homens deveriam ser chamados de subumanos porque degradam a espécie natural. Homens assim deveriam não existir.
Não termina aqui.
Existe uma outra ramificação de homens, esta mesclada com ratos e abutres. São indignos e indiferentes, estragam qualquer ocasião e ofendem. Pegam chuva no réveillon em Copacabana como se fossem deteriorar. Pecam contra seus amores - sempre humildes, lindos e delicados. Falam e fazem coisas que não deveriam, lamentam-se depois, fogem e correm para casa, admito, chorando feito bebês e envergonhados por estarem às ruas, desta forma não tendo portanto um porão sujo ou esgoto para se ocultarem às vistas humanas dignas. Estes anti-humanos não são homens. Não são vampiros, não são anjos caídos, não são índios, não são licantropos, não são nada a não ser escória corrompida. E nem um final digno podem ter, tendo afligido tanto um mundo como este. Aqui eu me encaixo e por este motivo, me retiro.
Adeus.
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