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3.04.2017

Vicissitude

É estranho.
Sinto-me estranho.
Escrever tão seguidamente assim me deixa tenso, preocupado e concernente.

Bom, nada mudou. Ainda não tenho companhias e isso me abala a cada dia mais. Quem eu amava se fora e levara consigo tudo o que eu poderia esperar de boas ações futuras. Levou até meu amor próprio! Levou minha melhor parte e deixara apenas a que ninguém mais poderia querer. Talvez tenha sido tolice minha deixar chegar a este ponto, afinal.

Neste momento, enquanto ouço música, recordo-me dos bons dias passados. Hoje, inclusive, teria sido um dia a ser lembrado por instantes e fotografias. Todas nossas, é claro. Hoje eu me olhei no espelho e vi um homem diferente, comum, bonito até. Percebo que estou me tornando mais humano com essas dores cotidianas. É como se essa dor me deixasse menos etéreo, uma maneira simplória de analogia. Eu queria só que fosse um pouco diferente.

A noite se aproxima devagar, ninguém me procura. Parece que eu sou uma ilha que não querem se perder. Ou talvez eu seja um cão tão desacostumado à ordens que não pode ser levado para passear, com o medo sólido do dono ser devorado depois de cada um de todos os transeuntes próximos. Uma fera, acho que sim. É a melhor forma de me descrever sem muitas palavras bonitas e perdidas desde a escrita elisabetana medieval. " - Uma fera à mercê da morte" - diria. Hoje, nesta noite, eu não sei o que pensar, como agir ou o que procurar. Não é bonito, também, buscar o que não se pode achar? Eu já nem sei mais. Sei apenas que minha solidão está sufocante e dilacerante e eu queria apenas que alguém me convidasse para um café - ou uma cerveja. Eu pago.

7.20.2014

Vingança, um néctar que se bebe quente


Então já se tornara um sábado noturno quando eu recebera a mensagem de que 'ele' iria festejar na rua, com amigos. Não estava em minhas mãos impedir, evidente, mas estava em minhas hábeis mãos fazer desta noite algo memorável e inesquecível, em seu leito de morte.

Esperei que a Lua se tornasse plena no céu, havia um frio peculiar para aquela época do ano, algo que excitava os mamilos e fazia o hálito se tornar mais vibrante e desejoso de companhia. Percebendo que ele havia saído, preparei-me para fazê-lo também. Usando de um subterfúgio, percebi seu trajeto e também o fiz insinuando que queria estar no mesmo local que ele, apenas com momentos de diferença. Momentos vitais que haveriam de se tornar nossos últimos naquela noite. Percebi então que ele havia chegado: uma boate comum, com pessoas comuns, aquele cheiro da promiscuidade comum que atrai almas comuns. Não esperava algo diferente vindo dele afinal. Ele chegara com suas companhias e logo trataram de se acertar no local – tudo isso eu observava de muito longe, ainda. Deixei que eles se divertissem tempo bastante e então, lá por volta das duas da manhã, eu me dirigi ao mesmo local. Fatalmente vestido e perfumado, olhos reais, com a essência negra como de costume. Se alguém me perguntasse como cheguei ali, diria calmamente que alcei voo como habitual, pousei onde era menos observado e por um truque coloquei imagens falsas nas mentes dos que poderiam ter visto algo suspeito na minha chegada.

Minha figura ainda causava algum frisson, onde quer que eu fosse. Pois bem, tomei a precaução de estar no mesmo local sem me deixar ser visto por ele ainda.

Evitei a multidão com a cautela necessária, escolhendo um local mais escuro para me instalar. Homens e mulheres admiravam o que viam e eu ignorava a todos, também como habitual. Hora me dirigi ao bar, paguei por uma bebida e voltei ao negrume da boate. De longe eu o observava, feliz, espontâneo, quase uma bela imagem se não fosse por suas intenções que já exalavam e um nariz treinado como o meu, captava. Pois bem, dada a hora dos demônios, eu resolvi começar a agir.

Deixei a escuridão do meu canto e lancei mão dos artifícios para esconder minha real personalidade, deixei homens e mulheres tortos ao se virarem para acompanhar meu trajeto, suas bocas babavam, seus membros falhavam, seus medos afloravam e por vez ou outra eu ouvi aquela palavra que define a minha raça. Durante este pequeno percurso, beijei lábios desconhecidos, vários, deslizei minha língua por vários pescoços e ombros, minhas mãos conheceram caminhos naquele caminho. Me deixei ser a imagem e a ação da própria alma do local, libertino, promíscuo, luxurioso. Era fascinante perceber as reações. Cheguei então até defronte a ele, que me olhava com olhos arredios, quase afrontosos, reconhecendo em mim a pessoa com quem falara várias vezes. Era uma mescla de prazer, medo, desejo e resiliência e eu admirei esta última qualidade. Havia uma confusão instalada em sua mente quando eu lhe disse que havia percebido o caminho que tomaria e resolvi fazer o mesmo, como surpresa. Ele balbuciava algo como "não deveria" e "como me encontrou" e eu ignorei, beijei-lhe a boca ferozmente enquanto todos os seus amigos observavam, atônitos. Não me refreei e beijei cada boca que ali naquele círculo se encontrava, deliciando-me com cada prazer único e conhecendo cada alma, evidente, deixando um rastro de confusão nos seus olhos. Parecia um flagelo recém-formado, sedento por prazer, hedonista. Voltando a ele, disse-lhe em tom lúdico que estaria ali para vigiar suas ações, ciente de quais eram elas antes mesmo de se pensar.

Depois de beijar a todos e em todos deixar minha marca, tomei-lhe pela mão sinistra e partimos daquele ambiente para um mais escuro ainda. Evidentes eram os olhares que nos acompanhavam até o andar superior, que era aberto, daquela boate. Ao lá chegar, disse-lhe que estava ali para que o desejo fosse consumido, que não houvessem freios, que os rompantes fossem exacerbados pela emoção e luxúria. Falei enquanto percebia em seu olhar um misto de pavor e necessidade. Por fim, sentados em um banco improvisado, contei-lhe sobre meus planos para aquela noite e ele aceitou. Logo, pensamos em deixar aquele local, juntos, para um melhor. Voltamos, vi quando ele se despediu de seus amigos dizendo algo em seus ouvidos e compartilhando de uma ironia jovial – lógico, ele sabia que acabara de ganhar a noite e que um dos seus desejos carnais seria consumado. Achei graça também, pelo advento.

Dirigimo-nos à saída.

À porta, tomamos um carro que nos deixaria no destino. Porém, na metade do caminho, à beira de um rio que cortava aquela cidade, eu induzi o motorista a parar. Disse-lhe que lhe faria uma surpresa, paguei ao motorista e encaminhei-o à uma viela escura. Passava em seus olhos lembranças de quando eu o assustava, contando sobre mim mesmo e ele sorrateiramente levava para o lado do humor – mal sabendo que meu câncer é falar a verdade em forma de brincadeira, para não parecer tão verídico. Já naquele momento eu não me importava com mais nada a não ser a vingança. Tomei-o no rumo daquele beco escuro, forçando-o. Encostei-o em um dos muros que nos cercava e estartei a beijá-lo. Mais e mais, mais forte, mais denso, mais violento. Notei que havia lágrimas irrompendo de seus olhos e seu medo congelava os movimentos, ele já imaginava o que estava por vir. Deixei-o com este pensamento latente. Como um gesto de misericórdia, parei um instante para delicadamente conter uma das lágrimas que escorria e foi quando ele disse-me "eu sabia que era verdade, sabia bem lá dentro de mim que ainda havia a possibilidade disso ser verdade". Disse-me, referindo-se à minha condição inumana. Concordei com um sorriso aparente e um olhar marmorizado, já antevendo que as pupilas tomavam a cor rubra deliciosa que advém quando começo a me alimentar. Não havia percebido, entretanto, que já tomava pequenos goles de sua essência quando por exagero da força, machucara seus lábios nos beijos. Ainda posso ver seu jeito infante, seu sorriso cálido, sua alegria em viver ainda que numa vida moldada em vitríolo. Percebia que o ameaçava tal qual uma serpente encurralando uma lebre e isso me excitava. Profundamente. Mesmo não havendo desejo sexual eu o violentei, molestei seu corpo frágil e delicado com o meu bruto e rude, até que sangue brotasse de suas entranhas e ele urrava de dor. Tomei daquela carne como tomei daquele espírito, ferozmente, como o animal que sou. Quando já exausto da violência sexual, voltei à violência emocional, ele já à esta altura seminu, sangrando, choroso, sujo, maculado. Era tão fascinante que queria fazer daquele momento ad-aeternum. Interessante como ele não implorava por sua vida, provavelmente já imaginava que não funcionaria comigo. Porém, também, devo confessar que por um momento pensei em deixa-lo. Bem, ainda que não o tenha feito, dei-lhe a paz eterna. Cansado, tomei-o com uma das mãos, alcei seu pescoço até minhas presas e bebi dele, irrefreadamente, querendo acabar logo com aquilo. Agora, se tratava de mais um corpo quebrado, exangue, sujo e que eu mesmo maculei e entalhei. Acabei me divertindo ainda mais quando parti-lhe os membros, um a um. Esquartejado, deixei suas partes jogadas às margens daquele rio, tomei voo e voltei à minha morada: satisfeito, por ter conseguido mais uma vez provar para mim mesmo que não sou mais um anjo e que posso sim ser o que quero ser, quando quero ser, com quem quero ser.

Na noite seguinte, como habitual, li nas manchetes sobre o incidente do "corpo esquartejado encontrado" e que se supunha "ser vítima do mal social" que afligira a humanidade. Ele agora habitaria em mim e este era um bem que eu acabei fazendo-lhe sem intenção.




Para a maioria dos homens, dor significa ódio, e ódio significa vingança. //Paolo Mantegazza
A vingança é uma espécie de justiça selvagem. //Francis Bacon
A vingança agrada a todos os corações ofendidos; (...) uns preferem-na cruel, outros generosa. //Pierre Marivaux

11.09.2012

Flauta, Noite e um coração desperto


+++

Estava eu, andando sozinho por uma noite escura, em busca de uma presa consideravelmente culpada por crimes hediondos. Não que eu sempre aja como o mocinho moderno e só beba dos maus, mas porque neste noite, em especial, eu precisava provar de um sangue sujo para equivaler ao que eu sentia corroer minhas tripas mortas. Era uma noite de Primavera, se não me engano, com um clima ameno e previsão de chuva, quase como hoje. Por uns vinte quilômetros eu andei, na minha velocidade, vasculhando cada coração em busca do corrompimento necessário para que a sede aflorasse.

Eis, quando, ao dobrar uma esquina pouco movimentada, vejo um jovem rapaz sentado à sarjeta. Havia uma caixa de forração ao seu lado. Notei que não haveria de ser um pedinte pois estava bem vestido e penteado, mesmo àquela distancia eu poderia ver. Seu coração era sensato mas, por um momento, era como se buscasse a morte ou estivesse desesperado por algo, que não conseguia encontrar. O jovem emanava uma aura de auto-flagelação e misericórdia que ainda não havia visto, era com se realmente buscasse algo além da morte, uma punição ou um perdão.

Fui andando em sua direção, havíamos apenas nós dois e mais uns poucos casais que não se deram conta da minha sorrateira aproximação. Fui diretamente a ele, buscando em sua mente exacerbada de emoções alguma razão para que um homem tão distinto estivesse naquelas condições. Ao me ver aproximando, primeiro ele se assustou, afinal já era tarde da noite (ou da manhã). Logo, se recompôs e abriu a caixa. Confesso que receei ser algum tipo de arma e meus olhos cintilaram de vermelho, quando numa fração de segundo eu segurei sua mão que buscava algo dentro da forração. Ele se assustou com o tom rubro dos meus olhos e minha velocidade ao percorrer tamanha distancia, mas notei que o que ele buscava não se tratava de nada mais do que uma flauta transversa. Era intenção dele tocar, talvez em troca de algum dinheiro. Tentei me esquivar de perguntas e o soltei, apenas para que ele se colocasse em posição e tocasse uma belíssima sinfonia para mim.
"Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mão incríveis tocar flauta no jardim." - Adélia Prado, Trecho de "A Serenata"
Ele sorriu, empunhou sua flauta e em poucos segundos eu perdi meu chão. Sentia como se fosse um Sem-Forma novamente, cada som preenchia meu ego e minha existência como nunca antes. Cada toque, cada acorde, cada resfolegar dele me excitava. Ele tocava com tanto amor, paixão, sensibilidade, coração. Era como a Yamibue que tantos falam estar perdida. Naquele momento eu revivi mil eras e talvez mais. Pude ver seu coração partido, o porquê dele estar na sarjeta, suas frustrações, seus sonhos, seus desejos suas vontades e aquilo só aumentou meu desejo de tê-lo. De bebê-lo. Junte isso a uma bela figura loura com olhos azuis tão claros, um corpo palpável e uma pele tão branca que reluzia os lampiões que estavam nos iluminando. Não poderia me permitir chorar ou ele veria minhas lágrimas de sangue. Na rua, de repente, éramos só ele e eu, pleiteando a atenção das estrelas, ele com sua música e eu com o amor que me consumia.

Tocou toda a sinfonia e por fim, fez a reverência. Me agachei perto da caixa da flauta para dar-lhe algum dinheiro (o que me sobrava mas talvez faltasse-lhe) quando ele se recusou. E então, o que pediu em troca deixou-me boquiaberto. Como se não fosse um enorme passo, ele pediu-me em troca do dinheiro, um lugar pra dormir e onde pudesse se trocar. Novamente me pegou desprevenido. Não poderia imaginá-lo como um michê ou algo parecido e eu mesmo tinha minhas formas de me proteger. Pensei por uma fração de instante e, pelo mesmo orgulho que Hades manteve Orphíos no Erebus, acabei trazendo-o à minha casa. Tomamos um taxi (afinal, não tenho o costume de usar carros mas não poderia deixá-lo saber como eu me locomovia pelo dom das sombras) enquanto ele me falava sobre sua própria vida.

- Era um flautista em ascensão, nos seus tenros 25 anos de idade, e aprendera a flauta transversa desde os quatro. Naquele dia estava em um concerto, no Teatro Municipal e quando acabou, sentiu-se estranhamente vazio, como se tocasse por obrigação e não por prazer. Confessou-me que tocar para multidões o apavorava o que diferia quando tocada para um ou outro. Desde os 14 anos tocava profissionalmente em filarmônicas e progredia no instituto de artes e que, àquela altura, já estava saturado. Queria talvez uma nova vida independente, mesmo que precisasse da flauta para isso. Era um jovem de princípios, o que lembrou-me minha era, quando os jovens já eram homens e que hoje não passam e sempre continuarão crianças sem discernimento. Contou-me sobre os pais, irmã e sobre como vivia numa cidade próxima, para onde não pensava em voltar. Enfim, durante nossa viagem de uns quarenta minutos eu soube mais dele do que queria.

Em minha casa, bem situada num ambiente singular e emergente, convidei-o a entrar e cumprir o que pediu-me: trocar-se, banhar-se e aproveitei questionando se não queria comer algo (não poderia dizer que estava à vontade com estes preceitos). Ofereci algo que pudesse ser comprado e entregue, por telefone, quando ele reparou que em minha residência não havia uma destas máquinas que mantém as refeições conservadas. Enquanto ele se banhava, preparei roupas minhas para ele, telefone e pedi uma variedade de pratos da culinária japonesa (há tanto tempo que não como comida humana que não sei mais como é o apetite dos jovens). Alguns minutos mais tarde, ele saiu do banho vestido com meu roupão negro de seda, se desculpando e questionando se não haveriam roupas mais claras uma vez que todas as que dei a ele eram negras. Dei liberdade para buscar em meu closet algo que o agradava mas o segui de perto, afinal, ainda não o conhecia e como já deixei claro, não ia buscar em sua mente seus propósitos. Juntos, fomos ao quarto para que ele escolhesse. Chegando ao closet, ele deixou o robe cair e simplesmente ficou nu, em minha frente. Olhou para trás acanhado mas com uma certa intenção e eu desviei os olhos para dar-lhe liberdade.

Ele, após apanhar o robe, enrubescido, escolheu uma camisa vermelha e uma calça branca, sapatos pretos e um cinto vermelho. Ofereci uma bolsa para guardar suas roupas trocadas e ele aceitou. Mais uma coisa que ele notou: não havia cama em meu quarto. Isso eu pude ver em seus olhos mas, como ele não questionou, não precisei mentir ou omitir. Havia apenas uma esteira coberta com um edredom vermelho sangue e acredito que ele imaginou que eu me deitasse ali. Depois que estava quase vestido, a campanhia tocou e fui atender. Era o entregador. Paguei, deixei uma bela gorjeta, fiz com que ele esquecesse meu rosto e o deixei partir. Preparei precariamente a mesa e distribui a refeição. Quando ele veio do quarto, completamente vestido, tive mais uma surpresa. Como era belíssimo aquele homem e como era elegante e distinto, mesmo com seus 25 anos. Parecia uma destas marionetes antigas e por um segundo meus olhos ficaram azuis, tratei logo de retratar, convidando-o à mesa. Toda a refeição estava disposta somente para ele e ele me questionou sobre o que eu comeria, disse-lhe apenas que havia tido uma ótima refeição antes de encontrá-lo aquela noite (pobre desabrigado que me serviu de alimento, não pude parar de beber até que ele morresse, me livrei do corpo mutilando-o e espalhando-o - mas ainda havia sede). Ele comeu toda a refeição e bebeu do vinho branco que eu servi. Por fim, se levantou e veio em minha direção, parou bem defronte a mim e questionou como poderia agradecer. Eu disse que, continuando a tocar daquela forma e acalentando corações partidos já era um bom começo, além de viver como um bom homem (claro, era apenas uma fuga já que eu o desejava e me refreava).

Por sorte minha, ele não levou a serio e aproveitando que eu estava sentado à sua frente, sentou-se em meu colo. Beijou minha testa e meus olhos, logo depois  minha boca. E, como sempre, há o comentário sobre como minha pele é fria. Tocou meu pescoço, meu peito e se preparava para levantar minha blusa quando eu o interrompi, dizendo que não poderia fazer aquilo, que estava cansado mentalmente e confuso, seria um erro. Ele simplesmente sorriu com o sorriso mais doce que já vi num adulto e disse que fazia exatamente o que queria fazer, sempre, e que se houvesse um primeiro a fazer aquilo, que fosse eu. Discuti, dizendo que ele mal me conhecia e que não deveria ser desta forma, mas ele soube me dobrar com um longo beijo em que precisei esconder as presas que já saltavam, excitadas (e não só elas).

Um momento depois eu o peguei no colo e o levei para o quarto, para a esteira no chão com o edredom vermelho e comecei a tirar suas roupas recém-colocadas, peça a peça. O corpo que havia era esculturalmente belo, não como estes modelos de estátuas gregas, mas como um corpo bem cuidado de um jovem. Permiti que ele tirasse minhas roupas também e acabamos fazendo amor naquele chão. Só houve um momento de fraqueza meu ao, quando chegar ao clímax, acabei por morder seu pescoço e beber dele. Ele não notou, faz parte do nosso poder, o que inclusive deu mais prazer a ele. Depois de algumas horas, adormecemos - ele, na verdade, enquanto eu cobria os vestígios da mordida com umas gotas do meu sangue e me preparava para caçar. Ele dormiria sob feitiço, até o dia amanhecer. Me vesti novamente, mas agora com a camisa que ele vestira, queria sentir mais um pouco daquele cheiro enquanto ia à caça. Logo, achei uma prostituta que por poucas moedas "faria o que eu quisesse, até de ponta-a-cabeça". Paguei a mulher e sem misericórdia, quebrei seu pescoço enquanto bebia. Então, excitado, arranquei sua espinha e seu coração e bebi diretamente dele. Com o Fogo, livrei-me dos pedaços daquela carne imunda.

Andei mais um pouco entre os mais altos prédios da cidade, em busca de alguma resposta. Não as encontrei. Como faria para voltar pra casa, como faria quando ele, Vincent, acordasse e não me visse por lá? Talvez ele se sentisse rejeitado de alguma forma e se retirasse. Porém algo era diferente naquele garoto e eu podia sentir. Não me sentiria bem abandonando-o, mas não sabia se valeria mantê-lo por perto. Era algo com que eu mesmo precisaria lidar. Havia uma possibilidade...
Escuta a flauta de bambu,
como se queixa,
lamentando seu desterro:
“Desde que me separaram de minha raiz,
minhas notas queixosas arrancam
lágrimas de homens e mulheres.
Meu peito se rompe,
lutando para libertar meus suspiros,
e expressar os acessos de saudade de meu lugar.
Aquele que mora longe de sua casa
está sempre ansiando
pelo dia em que há de voltar.
Ouve-se meu lamento por toda a gente,
em harmonia com os que se alegram
e os que choram.
Cada um interpreta minhas notas
de acordo com seus sentimentos,
mas ninguém penetra os segredos de meu coração.
Meus segredos não destoam de minhas notas queixosas,
e, no entanto não se manifestam
ao olho e ao ouvido sensual.
Nenhum véu esconde o corpo da alma,
nem a alma do corpo,
e, no entanto homem algum jamais viu uma alma”
A flauta é confidente dos amantes infelizes;
Sim, sua melodia desnuda meus segredos mais íntimos...
A flauta conta a história do caminho, manchado de sangue, do amor...
Excertos do prólogo de MASNAVI de Jalaluddin Rumi


Continua...

3.14.2012

Um diário perdido outrora, outro criado agora


A semana passara com os planos em evidência: haveria luxúria na noite de sábado para refestelar o tempo perdido com compromissos e acidentes de percurso emocionais. Planos, propostas, amigo envolvido (cujo nome será revelado em acróstico quando menos se perceber), boate, bebidas, fogo, água, gelo, sonho, cuidado, rancor, asas e sêmen. Ao menos era o que havia em mente.

Eu, paradoxalmente antigo tentando me adaptar ao moderno, sensual, denso, intenso, mergulhado em sujidade e ressonante. O amigo, neutro, diurno, responsável e espirituoso. Mistura perigosa, no entanto havia um pacto.

Sábado chegara e com ele as mentiras deslavadas e incongruentes. Manhã, Tarde, enfim, Noite. Últimas decisões, desespero momentâneo, notícias ruins, mortes, desapego. Rumo ao que o diabo esperava após atrasos da minha parte. Local, hidromel moderno, conversa, observação. Trajeto, entrada, ambientação, repulsa, nova adaptação. Festa, homens, sorrisos e falsidades. Ele, eu, meus irmãos-deuses conosco. Dança, ruído, sinal, sinais, concepções.

- Em Noite adentro.

Lá pelas tantas, o ostracismo me encontrara. Tentava manter-me erigido na minha ausência e plenitude. A certa hora - receio que por volta de, tarde demais - vislumbrei-o. Não somente o vi, antecedi sua presença à minha e, como descrito no relato anterior, o conhecia da mesma forma que conheço todos os outros. Me divertira com as mentiras humanas contadas e a decadência do "sexo forte". Confesso que mesclei sorriso com decepção durante boa parte da noite mas, meu amigo supino-reto-à-90º, manteve-me absorto dos outros com suas vibrantes transliterações do que víamos (perdoa-me, amigo, mas para poupá-lo ocultarei alguns detalhes). Eu o vi, lindo como a luz da Lua com todos os seus versos de prata. Algo imponente sua maneira esnobe, cabelos, olhos, corpo, cheiro. Cheiro.

O tempo passou de forma sucinta, me apeguei àquela hora em que o vi e o tempo congelara. Não era amor, óbvio, era necessidade de contato.

Cacei, espreitei, deliciei meus olhos e meu corpo se manteve rijo, ereto, ocultei meus olhos desejosos dos dele e esperei. Esperei o momento certo para atacar, enquanto no sofá de uma pequena sala de estar eu aumentei a dose de sedução e, em décimos de segundo, eu o beijei. Antes de saber seu nome ou de onde vinha. Ele retribuiu o beijo, lógico, e me chamou do que eles sempre me chamam: Vampiro. Confessei minha raça mas não dei tempo para réplicas e o beijei novamente. E de novo e de novo e de novo. Para garantir, de novo. Não me cabia somente em mim.

A conversa então precisou aflorar e ouvi cada detalhe com a atenção de um lobo. Falei pouco sobre mim, deixei o restante à própria descoberta. Conversamos mais, dançamos juntos, beijamos um ao outro enquanto a noite voltava a ser uma criança que perdi de vista por instantes suficientes para que derrubasse meu vaso da era Tokugawa favorito e me deixasse a culpa. Uma lástima!

- Noite afora.

O tempo acabara, a viagem de retorno precisaria ser refeita. Por um acaso do destino (sim, EU destino) os amigos o deixaram cedo demais por algo urgente (sim, confesso) e meu convite de ser acompanhado por mim e por meu amigo o agradou. Talvez tenha agradado a todos, acredito, o interesse era meu mas meu amigo é um amigo complacente com meus caprichos e agradeço-o por isso (mas não me deixe mimado). No caminho de volta peguei seus contatos e nos falamos uma vez após este dia. Muitas horas de conversa até descobrir gostos iguais, não semelhantes, realmente iguais e constatar que ele era mais um Dele, destes que são um só e que estão sempre comigo. Meus sentidos se afloraram porque ele era exatamente os dois décimos que faltavam para minha completude.

Eles são como os Jacks, estão em toda parte, me seduzindo, me tornando um escravo deles, se fazendo em mim e no meu corpo, se aproveitando da minha idade, da minha raça.

Não dormimos juntos mas é como se tivéssemos. Isso me assusta. Hoje, passados três dias da conversa me sinto só, culpado e magoado pela sua displicência. Ao mesmo tempo me sinto feliz pois nunca gostei de ser controlado. Temo entrar em contato e não suportar a culpa. Temo deixar esta fluidez se perder e nunca mais tornar a vê-lo. Temo que meu amor descubra que escrevo este diário secreto de traição literária, tão fundamentada quanto um escaravelho esmeralda carregando um jornal de domingo.

Temo que outro Jack se aposse do espaço que todos estes Jacks estão desbravando. Tornei-me um temerário de Jacks e não sei o que fazer.

Para falar mais dele gastaria umas cem páginas: vi seu futuro e seu passado, vi o que construiríamos juntos, vi seus pais, mãe, irmãos, conversa, desejos, medos, posses, vontades e senti seu cheiro. Isso marcou-me deveras.

A conversa foi realmente uma das melhores que já tive ao longo de uma existência capciosa desde o último milênio. E como ele é/era deslumbrante!

- qualquer nome aqui não descrito pertence a alguém que pode ou não ter corpo sólido, não interessa. Eu sou o Alfa e o Ômega e exijo meu direito de criar. 

1.22.2012

Ao redor de mim habitam Feras


Ou serei eu a Fera?

Parte de mim é vista, conhecida. Parte anda incólume pelas sombras. Todas as partes têm desejos e procuram saciá-los, com compromissos ou casualidades.

Divago, ao correr a vida noturna, procurando em sortilégios infantis um toque do desejo masculino que tanto me faz falta, congelando a alma, enrijecendo o sexo e acima de tudo, criando a comunhão.

Moro só, com meus medos e vícios belicosos. Moro com minha ardente sexualidade, nunca satisfeita. Ao meu lado, mora a sensualidade em pessoa, já experimentada. Nossos espaços separados, nossas necessidades unindo-se vez ou outra.

Não uma ou duas vezes corri à sua porta durante a noite para consumar. Também viera a mim, em seus acessos de fúria, sabendo que somente eu poderia aplacar. Estranho como sempre há uma vontade que vai e uma substância que fica pois, ao acalentar usando meus meios, também sou beneficiado.

Horas foram as que se seguiam enquanto juntos estávamos, enamorados, unidos ao aroma agridoce de corpos tão semelhantes. Estranho também é saber que estamos sempre prontos, um para o outro. Parece irradiar de mim - sendo a recíproca verdadeira - um alerta feromônico de apetite. Sem poupar os detalhes, relato:

Possuir:
É somente o que me passa pela mente animalesca quando este algo a priori me possui. Como disse, é instintivo. Parece que, ao me colocar à sua porta, a chave gira e em minha esperança encontro o que preciso, ali, aguardando do momento e situação que fosse.

Invadir:
Primeiro o espaço, depois a boca com minha língua lasciva e então a percorrer o corpo, tomando cada centímetro de área possível. Nunca cedo antes do tempo previsto, continuo e continuo a redescobrir um corpo conhecido mas sempre mutante, a crescer em seus contornos rijos, ora andrógenos ora definidamente associativos.

Aplacar:
Depois de várias ações corpóreas é a hora do Prazer Primevo. Um beijo negro. Confesso que não me controlo e geralmente as marcas do descontrole são encontradas até semanas após estes atos. Seja braço, perna, costas, coxa, peito e sempre, pescoço. Ao beber, realizo os dois. Conheço a raiva há muito mais tempo do que qualquer ser humano e me dou melhor com ela, este escape é sempre uma arma em minhas mãos. Bebo de essência a suor, sangue, ira, desejo e cumplicidade. Se confio em poucos humanos para beber descaradamente, encontra-se aqui um exemplo. O fluido verte para mim sempre latejando (aqui sim, pouparei alguma cena que ainda consideram enjoativa e estritamente macabra, mesmo para minha espécie).

Consumar:
Depois de beber, devorar. Já domino, posso remeter agora ao prazer carnal. E que prazer! É como cem beijos negros simultâneos quando se possui um corpo desta forma. Ruborizando faces, invadindo corpos sem precaução alguma, tomando o que é meu por direito, alucinando enquanto os movimentos fluem sempre mais ágeis, insubmissos, sem medo de empregar força demasiada.

Morrer:
Sim, morrer. Atingir o clímax e notar que está morto, há eras. E será sempre morto enquanto não tiver mais deste milagre.

E então, como corpos confundidos com a grande pintura apresentada para os céus, dispersar até que o corpo se recupere. Selo as feridas com meu próprio sangue milagroso, mantenho a constância dos beijos. Tem sido assim há algum tempo. Espero que termine logo.

Se alguma uma entidade da Noite disser que vive apenas de noite, ela mente. Não podemos. Vivemos - ou fingimos - de vivências na noite, não dela própria. Precisamos de toques, aromas, potências, desejos abatidos e contabilizar almas perdidas. Este acabará sendo meu legado.

Talvez eu tenha errado, quando não ouvi o conselho do cão que estava à minha porta


Há algumas noites, após um longo dia de trabalho, eu decidi caminhar pela rua. Havia sido um dia cansativo, estressante e - para nenhuma surpresa - eu havia me superado. Precisava pensar no modo como minha vida seguia, com minhas virtudes sendo desqualificadas a cada dia mais e meu grande amor negligenciando minha presença. Como citei, havia sido exaustivo o dia e ainda mais atordoante saber que havia passado por ele sem uma prova de carinho sequer.

Há um tópico a acrescentar que, em minha própria morada e nas adjacências, as pessoas ignoram minha presença. Depois, claro, de tanto tentar envolver-se em minha vida pessoal. Por ser um homem de hábitos noturnos que passa a maior parte do dia em regime de trabalho e aos finais de semana sempre oculto, acredito que tenha gerado uma certa curiosidade. Pois bem, esta sutileza muito me ajuda nos passeios.

Conheço as vozes que falam em minha mente.

Pois bem, caminhei até o limite da rua e voltei. Diversas vezes. Na pressuposta última, parei em meu próprio portão e notei que havia um cão acomodado. Belo cão por sinal, malcuidado mas com certo porte. Sentei ao seu lado e acariciei-lhe o dorso. Ao tocá-lo, acredito que ele tenha notado o que eu levei mais um décimo de segundo para perceber.

Em seguida, talvez pelo que tenha sido gerado ao toque, o cão me questionou sobre o motivo de minha fuga. Sem a mínima altercação disse-lhe que eu fugia há tanto tempo que nem lembrava mais o porquê - animais e eu nos falamos, sempre que possível e principalmente quando uma das partes precisa de um conselho. Foi este o estopim para uma conversa que, graças aos Céus, rendeu-me tão valorosa gratidão ao cão.

Conversamos sobre este ponto em questão: ele, assim como eu, fugia. Num patamar mais doméstico, a fuga dele era por maus tratos. Descendia de uma nobre raça e não admitiria sofrer nas mãos de quem, por cinco vezes, protegera. Nobres nem sempre são altruístas, constatei e isso valeu-me de lição. Conversamos sobre tempos antigos, fidelidade, amores, crias, redenção e, desesperado, comecei a falar de mim mesmo e de minhas recentes abominações. Falei para ele dos meus desejos de amar e procriar, de matar, de vingar, de ousar e de desaparecer, como sempre busquei. Transcrevo aqui as palavras que ele, vivendo neste mundo há quatro anos humanos e vinte e três anos caninos, me disse:

"Não é justo, sabemos. Não é bonito, também sabemos. Herdar um trono maculado não deveria ser permitido. Porém um rei cai para que o outro assuma e o reino pode ser lavado. Uns optam por sediá-lo em sangue, outros por confraternização. O que quero dizer em suma é que você tem a escolha, não seus pais. Eles o trouxeram aqui mas não podem guiar sua jornada. Talvez, eu tenha sido metafórico demais quando me referira a seus pais, sabendo que o senhor não deriva de carne de homens. O que realmente consta é que, estando aqui se tornará verdade o que disser assim como será no céu. Corra, busque sua eternidade, esconda-se, exponha-se, erre, cresça e chore. Tudo é válido. Deseje e incentive, não tente ser maior diminuindo os outros sabendo do seu potencial ilimitado. Caso o céu precise do senhor, novamente ele o chamará. Enquanto isso, aproveite a vida que o senhor escolheu. Sim, foi uma escolha há algum tempo, mesmo que não tenha consciência. Optou cair para estar aqui e agora pretende voltar sem ao menos ter tentado? Não arriscaria chamá-lo de fraco, mas ousaria dizer que o senhor não chegou onde pode chegar. Cumpra seus próprios decretos, rejubile-se quando puder. Teu tempo aqui é maior do que o deles e flui de forma diferente, já notara antes. Cabe portanto fazê-lo grande da melhor forma. Deseje, mas não fique apenas nisso. Deseje e cumpra. Minha vida aqui é determinada e mesmo assim eu optei ser um amigo do homem que me criou, pude protegê-lo e aos seus, até que ele confundiu-se com seus próprios vícios e começou a me ver como ameaça. Entendo que poderás passar pelo mesmo, nosso porte os assusta. Temem o que acham que podemos fazer para com eles. A quem nasce feroz não importa o tom de voz, ouvi certa vez um homem velho falar. Mas nascer feroz não é escolha, ferir é. Senhor, sempre será sua decisão acima de qualquer coisa e, se por mim ou de mim precisar, poderá contar sempre."

Estas palavras me fizeram voltar à superfície de minha alma e, ao olhar os olhos sinceros do cão - seu nome não poderia ser mais imponente, Rei - pude ver os meus próprios. Pensei na minha sede de sangue e no quanto abstrai-me para não incentivá-la. Pensei nos amores que deixei passar tomando a decisão por eles do risco que corriam. Pensei nos amigos que não tive porque temi a minha própria exposição e hoje, por meios completamente novos ao meu tempo, eu mesmo ignoro de forma tão brutal.

Ficamos mais alguns minutos em silêncio, apenas um e outro, sentados lado a lado como velhos amigos. Logo após, ele se despediu de mim, com carinho e afeto e disse que em qualquer instância em que eu precise dele, ele poderá ser chamado. Simplesmente precisava ir para muito longe mas que voltaria, algum dia breve, afinal não são muitos que ainda falam - e ouvem - os cães nos dias de hoje.

Isto aconteceu há apenas algumas noites mas para mim ainda está tão latente quando este momento enquanto escrevo.

Obrigado, Rei, pelas palavras.

5.29.2011

Famíliares

Oh Lords! Fico lisonjeado e agradecido pela bela obra Noite que tive. Não poderia ter sido melhor como nunca é, nunca será e sempre poderá ser.

Mais e mais venham!

3.15.2011

Nicht

"Ó noite onde as estrelas mentem luz, ó noite, única coisa do tamanho do universo, torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo, que eu me perca em ser mera treva e me torne noite também, sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol esperado que ilumine do futuro." 

Fernando Pessoa

3.13.2011

Lua Crescente

Então Ela veio.

Contemplada com comemoração Ela foi e seduzido pelo seu novo brilho pálido eu enfeitiçado estou, novamente. No aguardo solitário da mudança eu havia me esquecido das más almas que me seguem. No exacto, eu as agradeço. Pela Própria Noite e em meu barco, eu agradeço. Passei uma das melhores noites neste século. Nunca poderia imaginar. É como se Autumn Night tivesse tomado forma real e se tornado um script, seguido, porém com tamanha intensidade que mal pude compreender. Eu, mes amie, voltei à caça depois de todo este tempo enclausurado.

E mais, mesmo depois de tanto petit gole foi ótimo beber completamente. Revelo agora. Conhecer da alma do poeta, da cantora, do mendigo e do bruto. É inominável. É o mesmo frenesi, nada mudou. Pude experimentar o acre, o agridoce e o suave, o gosto do suor, da maquiagem, dos novos cosméticos, da humanidade. Pude ver as crianças que não vieram ao mundo pelas visceras da cantora - a mais interessante do quarteto. Pude ver o seu maior sonho, caído, quando abandonado nas mãos do homem amado. Pude sentir o desprazer do sucesso que ela tinha. Menos intenso é sentir a vida morna dos outros. O poeta ressequido sem vitríolo, apenas mascarado, frágil, vivisectado há muito. O bruto ínfimo, tão pequeno que jazia sozinho perdido. O doce flagelo, com a melhor das almas porém tão consumida como as outras.

Como citara, não estava sozinho. Estava muito bem acompanhado por almas tão antigas quanto a minha. É como se não os visse desde a ultima Macabra, na antiga Antioquia. Não somos seres sociáveis, factum, e escondemos nossa presença sempre que necessário. Por descuido, acabei deixando que entrassem em meu território e esta fora a melhor surpresa.

Eles sabiam da minha necessidade e viram minha fraqueza, tomaram-me como antes e aos seus cuidados eu novamente conheci a Noite. Confesso que a noite está maior e mais produtiva do que antes, há mais pessoas nas ruas e não se assustam mais com tanta facilidade. Hoje, podemos andar as ruas e sermos melhor confundidos. Nunca poderia pensar isso há dois séculos, sempre fora o maior pecado do orgulhoso. Para melhor caracterizar, imaginem três grandes homens e uma divina dama. Todos com as peles mais alvas possíveis e mesmo Phelipós com sua negritude mostrava já os primeiros sinais da idade que nossa Mãe apresentara. Éramos Les Catre Chevaliers du Apocalipse, de novo. Como haviamos sido mais recentemente no Egito, antes na Ásia e anterior na Europa setentrional e os novos países divididos. Christopher ainda com sua tez loura incomum, como um gaulês e suas grandes pupilas, olhos mais azuis do que o mar nocturno das ilhas Caribenhas. De grande estatura e porte e Dorigen, a Bela Dorigen, ainda a mesma mulher ruiva-fogo-raposa com suas esmeraldas, fascinante, de origem inglesa que eu conheci - e mudara - em meados da idade Negra. Éramos perfeitos há eras e a mais nova, nosso Farol e nossa Guia. Nosso melhor quarteto, almas diferentes intrinsecamente mas tão unidas. Uma única filha no nosso meio.

Parfaits!

Tomamos a noite como era de costume, selvagens, impuros, sujos e paradoxalmente, poderosos, brilhantes, sutis e mortais. "Nunca revelar a presa até que esteja fincada na alma da vítima" - era nosso lema. O que acontece depois é um mistério e continuará assim, somente os envolvidos sabem e agora parte da minha 'grande rede'. Os detalhes continuarão meus a não ser que um peça. O importante é a vida que agora corre novamente, de uma forma ainda a desobstruir os diques que haviam sido criados por mágoa coagulada.

Este é o preço, simples perante o ganho porém um preço que nenhum humano, seja homem ou mulher, vivido ou limpo, intelectual ou ignóbil, sofrido ou não, esteja disposto a pagar.

Para isso existe a força.

1.15.2011

Nuit

É.
É verdade.
Eu não durmo.

'I put a spell on you. You'll fall asleep. 
I put a spell on you... and
When i wake you i'll be the first thing you'll see, and
You'll realise that you loved me.'

1.11.2011

Night

Estranha também minha ligação com a Noite.

Ela me persegue e eu gosto disso. Eu a persigo por vezes e sinto que ela também admira. Conheci há muito tempo um índio que se casou com uma estrela, se bem me lembro ela se chamava Evangeline e descendia de uma raça ariana. Depois do retorno precoce de Evangeline aos Céus, meu amigo índio chorou sem parar até criar uma poça de lágrimas onde durante a noite, Evangeline se via refletida.

Meio como Narciso havia feito antes por auto-proclamação no caso, meu amigo acabou se afogando na busca por Evangeline. Hoje, eu ainda aqui, consigo vê-la no Céu e vê-lo no Mar, juntos somente quando a noite cai. Ele ainda chora, evidente, e assim mantém o nível dos oceanos e ela ainda chora também, algumas lágrimas dela aqui na terra, estes brancos chamam de estrelas cadentes.

No fundo, sinto falta dos dois. Minha estrela não chora mais por mim, a única estrela que tive e que realmente amei. Eu, como meu amigo, choro. Talvez chore por ainda muito tempo, mesmo sendo ameaçado por mim mesmo, tentando não demonstrar minha fraqueza.

Na época, eu era chamado de Fazedor de Estrelas e meu amigo, Yelo.