Mostrando postagens com marcador anima. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador anima. Mostrar todas as postagens

7.19.2014

Luta de sábado à noite


Algumas vezes eu penso que só me sentiria bem após lutar ferozmente contra um demônio.

Digamos que eu não tenha mais nada. Não seja mais nada. Não esteja desejando mais nada. O que me sobraria além do nada? Rancor? Provável. Ao pensar que não adquiri a experiência necessária para evitar (ou ao menos postergar) uma nova morte em vida, posso começar a pensar em punição. Dias e horas passam devagar, enquanto divago sobre um novo horizonte inalcançável. Cometerei os mesmos erros novamente, isso é evidente. O que eu faria diferente desta vez? Foi-me dito que um monstro só paga pelos seus próprios crimes mas não creio que seja a mais pura e real verdade, afinal, pagamos pelos erros que cometem contra nós e cometem por nós – até exponencialmente mais severo.

Pensei não haver vestígios da mágica em mim e assim me enganei mais uma vez. É fatal essa atração! Pensar que eu posso realizar qualquer desejo daquele que me procura mas não posso realizar o meu próprio.

Em um mundo perfeito eu teria companhia, cumplicidade, afeto, carinho, retribuição e conforto. Neste atual mundo real eu não tenho nada e ainda tenho responsabilidades. Quando me coloco a observar-me por outros olhos vejo o quão assustadoramente atractivo eu sou. E isso me refrigera a alma. Em um mundo perfeito eu poderia voltar atrás e desfazer todo o mal que eu acidentalmente cometi e não precisar pagar o preço agora. No mundo real eu pago, infinitesimalmente mais caro. Num mundo perfeito, cada pessoa teria sua própria opção e eu não estaria envolto nestas escolhas. No mundo real eu sou um pilar e um foco para as decisões alheias, como se em mim houvesse uma bússola cósmica que mostra as direções de cada destino – ainda que a contragosto. Em um mundo perfeito eu não precisaria estar escrevendo para o vazio, poderia estar conversando com alguém que se importaria em devorar até a última palavra do que eu dissesse.

Não há muito perfeito afinal, Buer já me dissera certa vez que "o mundo perfeito seria aquele em que as pessoas percebessem que não veem a si mesmas e sim suas sombras apenas".

E eis que então eu sofro sozinho mais uma vez.

6.14.2014

Conceito de sábado pela tarde, quase já sem energia pelas tarefas



Faz algum tempo que perdi o elo mais importante da minha existência com este mundo. Logo, as coisas começaram a desmoronar catastroficamente. Dias de angústia, dor, sofrimento, pesar e desconforto são seguidos, um após o outro. Percebo que a pouca luz que havia em meus olhos e cabia em meu coração está esvaindo, a passos largos. Não vejo um porto seguro onde possa afogar minhas desilusões, um contêiner de lamúrias eu me tornei – claro, sem que deixasse perceber aos outros. O mais forte sempre precisa de algo forte o equivalente para poder se manter, vejo que não consigo encontrar este poder em mim.

Os dias estão me passando desconsolados, fúteis, incólumes de amores e esperanças. Sinto que há uma queda abrupta nas minhas emoções, ainda mais o que havia antes. Perdi um longo amor, meu melhor amigo, minha matriarca, meu zelo pelo mundo e, a cada dia mais, ganho mais temor pelo meu iminente e perigoso descontrole. Fato que não estou mais conseguindo ludibriar minha sede e que isso pode me gerar um grande problema futuro, cogitei a ideia.

Há algum tempo eu não me importava em ser o ouvinte, o acalentador, o conforto, o padre, o psicólogo das pessoas. Era altruísta e isso me refletia bem. Via uma certa recompensa neste meu esforço sobre-humano. Agora não mais. Não me sinto bem tendo a obrigação de confortar as pessoas, me irrito fácil, sou um estopim curto prestes a inflamar e levar tudo comigo. Talvez eu sempre fora assim, agora eu apenas esteja menos centrado. Talvez. Lembro-me das altas horas passadas ouvindo problemas alheios e criando soluções, satisfazendo desejos, me anulando e consolando, sempre na expectativa de que isso acabasse ajudando de alguma maneira ao meu próprio caso. Hoje, eu percebo que não consigo a merecida retribuição daqueles a quem me dispus. Eles ainda me veem como o porto que não quero mais ser e isso me entristece deveras. Cansado estou de fingir algo que não preciso mais, que não tenho mais forças para seguir.

Não sou aquele homem bom, calmo, perseverante, que gosta de ajudar e se sente bem com isso. Sou egoísta, fúnebre, esgotado, irracional, livre de emoções e com uma grande tendência ao isolacionismo. Sou feio, bruto, rude, descrente, introspectivo, sexualmente extremo e impoluto. Sou meio maior medo e meu pior pesadelo, agora. O Alex bom deu lugar ao Alex mau, isso eu percebo com evidência.

Também há algum tempo, no auge da minha juventude e quando recebi de herança a loja de desejos, eu quis testá-la. Desejei ter meu maior amor junto a mim para todo o sempre e a magia deu-me. O preço foi parte dos meus próprios poderes uma vez que para viver junto dele – pensava eu – eu precisaria abandonar o mundo de qual eu venho. Ledo engano, eu nunca seria aceito. Meu desejo foi atendido apenas para que eu compreendesse que uma vez assumida a responsabilidade, eu precisaria abdicar de todo o resto. Uma vez perdidos, meus poderes não são mais os mesmos de antes e minha maneira de continuar com meu maior amor foi impregnar-me de magia natural (como já descrevi anteriormente). Sinto-me como se me faltasse um membro mas aprendi e desta maneira conceituo melhor os desejos feitos, e, com esta cicatriz, eu desenvolvi o discernimento necessário para prosseguir. Bom, viver tudo isso apenas me deixou mais susceptível a querer continuar desta forma: isolado, sozinho, independente. Confesso que sinto falta de um consolo, um conforto, um colo para me aquecer sendo eu tão frio mas sei também que preciso abdicar destes benefícios se quiser continuar ser eu mesmo. Enfim, prossigo minha etérea jornada pelo mundo humano ciente de que não encontrarei respostas e sim mais perguntas do que havia antes de começar. Ciente também estou de que a cada degrau, os desafios se tornam mais intensos e menos polidos, logo, devo me preparar para o futuro e anteceder as experiências se quiser continuar existindo – ainda que desta forma.

Perdi o desenvolvimento do que pretendia declarar, continuo quando retomar.

Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo.// Velho Buk

7.02.2013

Fei



Ao ouvir esta sublime canção, me veio à mente o quão superficial pode ser um sentimento. Quão absorto em si pode ser um vislumbre de uma boa intenção. Pensei em transcrever o que eu sentia enquanto ouvia a música - a letra é impossível de ser escrita porque deriva da "glossolalia" e, mesmo a banda sendo búlgara com toques árabes e persas, os lirics não vêm de nenhum destes idiomas.


E então houve um Fundamento.
Tudo o que havia na Terra sublimou
qualquer dor que poderia haver no coração do homem.
Céus estremeceram, Mares enalteceram sua majestade,
O choro da criança fora ouvido até o abalo,
a canção da mãe,
o ressoar da mão dos deuses.
E houve paz.
E houve amor.
E houve compreensão.
E houve uma ímpar confiança.
Logo o Vermelho se apossou do que era belo e,
carregado de desesperança,
bebeu da magnificência do que estava por vir.
E houve rancor.
E houve calor.
E houve uma infinitude de lamentos.

No final, o mundo todo se calou.

وبعد ذلك كان هناك نداء.
كل ما كان على الأرض مصعد
أي الألم الذي يمكن أن يكون في قلب الإنسان.
السماوات ترتعش، أشاد ماريس جلالته،
قد يبكي الطفل قد سمع من قبل ارتجاج،
أغنية للأم،
تلاحن من يد الآلهة.
وكان هناك سلام.
وكان هناك الحب.
وكان هناك تفاهم.
وكان هناك ثقة ونيف.
سرعان الأحمر حيازة ما كان جميلا و
ولدت من اليأس،
شربت من روعة ما كان ليأتي.
وسادت حالة من الغضب.
وكان هناك حرارة.
وكان هناك ما لا نهاية من ندم.

في النهاية، كان العالم كله صامتا.



И тогава е имало правно основание.
Всичко, което е на Земята сублимира
всяка болка, която може да бъде в сърцето на човека.
небеса треперят, море похвали Неговото величие,
На детето викове бяха изслушани от мозъчно сътресение,
песента на майка си,
дрънчене от ръката на боговете.
И имаше мир.
Имаше и любов.
И имаше разбиране.
И имаше странен доверие.
Скоро Red завладя това, което е красиво и
роден на безнадеждност,
пил от великолепието на това, което щеше да дойде.
И имаше гняв.
И имаше топлина.
И имаше безкрайно много съжалява.

В крайна сметка, целият свят мълчеше.

Wouter Madison, from Homotography

6.15.2013

Ég anda - Sigur Rós


Se você já construiu castelos no ar, não tenha vergonha deles. Estão onde devem estar. Agora, dê-lhes alicerces. Henry David Thoreau



6.12.2013

Vinho; e a estranha sensação de que não há verdade numa taça e sim hedonisno


Houve um sonho recentemente que envolvia estranhos sentimentos. Perturbados até eu diria. Confesso que a confusão deriva-se da necessidade de consumar algo que ainda não fora, mas que, simultaneamente, sabemos que não devemos. Após uma conversa breve, eis que a permissão para contá-lo havia sido dada. Talvez não o desenhe mais com tanta exatidão, ater-me-ei aos fatos mais interessantes.

Era começo de noite, mas, com uma certa cor crepuscular pareando com o horizonte. Algo belo de se ver, que costumamos esnobar por ser tão efêmero. Havia uma enorme janela colonial de vidros delicados, por onde Nix era aguardada e observada. Do lado de fora, um enorme ipê-roxo exalando seu aroma inebriantemente tóxico, uma relva baixa e um pequeno lago ao fundo. Uma típica casa semelhante àquelas do interior dos países bascos, mas, pela flora identificado como não pertencente aquele local. No interior, móveis singelos, de madeira clara e cheirando a chá de condoendro. Notas músicas saiam pensativas e envergonhadas do aparelho de som, Ingrid Kertesi - a soprando - cantando Händel de forma divina. Sob a janela, no interior, dois homens conversavam, enquanto jogados na cama de lençóis vermelhos e, aparentemente, nus em pelo.

Havia uma intimidade palpável entre eles - não só pela questão de estarem nus, não - que chegava a impressionar. Eles eram amantes mas acima de tudo, amigos. Notava-se pela forma carinhosa que um falava com o outro e como um olhava para o outro. Eram ligados por mais do que apetite e isso era evidente. Após uma pequena afirmação que fez os dois gargalharem, um deles levantou-se da cama e, ainda nu, dirigiu-se até uma pequena mesa marmorizada que havia em um canto, tomando duas taças altas rubras e uma pequena ânfora, encaminhando-se de volta à cama e servindo-os então de vinho, que o outro acabou tomando. Poucos goles e ambos colocaram suas taças no chão, paralelo à cama e então, o que havia permanecido deitado aninhou-se no peito do que havia levantado.

Então a noite caiu por vez toda, cobrindo aquelas terras com seu manto e sua proteção. Não que eles precisassem, mas, deveras belo de se acompanhar.

Após um breve sono, o que estava aninhado deitou um beijo no peito do outro, despertando-o com sua delicadeza. O outro acordou sorrindo e retribuiu o beijo, elevando sua cabeça até sua altura, na cama. Da forma como os amantes fazem, os beijos delicados deram lugar a algo mais sensual, caótico, desesperado e num frenesi inconstante de lábios, línguas e mãos. Logo, o primeiro estava por sobre o corpo do outro, enquanto suas mãos abriam caminho para sua boca, no corpo alheio. Percorrendo cada espaço conhecido e desconhecido, cada pequena dimensão, lascivamente saboreando aquela carne e deliciando-se com aquele cheiro.

Com o limiar da tentação sendo alcançado, o primeiro então colocou o segundo numa posição confortável na cama, deitado com seu dorso apoiado em sua mão, espalmado bem acima do cóccix e o admirava por cima. Admirava seus olhos desejosos, sua boca delineada, sua pequena interrogação marcada no peito. Delicadamente pressionando sua intimidade com a própria e sentindo então a pulsação que deriva de corpos apaixonados. Tomado por aquela necessidade de consumir (então descrita anteriormente), ele suavemente ajeitou seu parceiro, apoiando bem sua sinistra espalmada e com a destra, tateando a coxa rija e exercendo sobre ela uma pressão para ajustá-la à sua recepção tranquila.

Naquela posição, inicialmente, o outro fora possuído, olhos nos olhos. Altercando calma e severidade, gemidos, risos abafados, pedidos, suor e saliva. Então, outras posições foram adotadas e em todas, a intensidade estava presente. Longos momentos se passaram até que, como que magicamente, ambos chegaram juntos ao ápice do prazer e misturaram suas essências. Com menos agitação, postaram-se um ao lado do outro e então sorriram, como se esperassem por aquele momento já há algum tempo. Tomaram mais de suas taças e se preparam para a longa noite que ainda estava por vir.

Provavelmente, esqueci-me de algum fato. Essencialmente, o que me recordo era isso. Talvez pela minha inconstância insone eu não tenha o aproveitado mais e agora me arrependo. Teria sido válido retomar o sonho, lógico. Quisera eu poder fazê-lo. Contei os fatos como me recordava, mesmo tendo sido uma narrativa breve que deixo agora, portanto, à sua avaliação.



3.28.2013

Uma pequena perda, mas uma grande bebida


Pensei e andei pensando, acabei por convidá-lo para um pequeno jantar em algum restaurante conhecido. Era tarde ainda, mandei uma mensagem com o convite e recebi uma mensagem de aceite.

Chegou a noite, tomei uma ducha, me arrumei e peguei um taxi até a primeira parte do encontro programado. Mandei uma última mensagem de confirmação, como não houve retorno, resolvi telefonar. Conversamos e confirmamos o local. Cheguei pouco depois dele e nos dirigimos à nossa mesa.

Fomos atendidos, ele pediu carne com vinho tinto, eu optei por uma salada e vinho branco. Conversamos, colocamos os assuntos em dia, até sorrimos de alguns casais que estavam à nossa volta. Ficamos no restaurante por umas poucas horas, afinal tínhamos outros planos para aquela noite. Usando do subterfúgio do toalete, devolvi o que havia ingerido pois já me afetava internamente. Conta paga, saímos do restaurante e pegamos outro taxi, desta vez até um local mais reservado.

Pedi uma suíte com sauna, hidromassagem e o que mais o dinheiro poderia pagar. Não pude me conter e já comecei a devorar seus beijos, antes sequer de cerrar a porta. Uma cama espaçosa, à meia-luz, tratei de despi-lo e me despir. Fizemos amor umas duas vezes antes de irmos à hidromassagem. Fizemos amor novamente na hidro, depois na sauna, depois de volta à cama. O clima estava em absoluto gélido e isso me excitava. Poder abraçá-lo enquanto ele tremia de frio, sentir seu corpo rijo, tentar em vão aquecê-lo, seus olhos enevoados. Tudo tão fascinante! Liguei o aparelho de som que havia lá e começamos a acompanhar as músicas, todas miraculosamente escolhidas conhecidas e pensei ser um sinal dos deuses para não continuar. Fizemos amor mais umas duas ou três vezes.

Logo, ele dormia enquanto eu o mantinha abraçado. Enquanto dormia, eu beijei seus olhos e o amaldiçoei com a maldição da paixão. Não fiz somente isso, amarrei sua alma para que ela não escapasse e para poder encontrá-la mais facilmente dei um nó dourado em seu tornozelo - Nada disso ele acompanhou pois já estava sob feitiço. Le Petite boisson, comecei por aqui.

Era um delicioso aroma acompanhado de uma textura singular, fantástico, doce, limpo, nada das impurezas que costumamos encontrar. Não havia nada de mal naquela criatura. Acabei me engasgando com tanta fluidez e mesmo se tratando da pequena bebida, o sangue parecia querer vir para dentro de mim, como se inconscientemente ele quisesse se ceder a mim. Dei uma pequena mordida no meu dedo indicador e curei sua ferida com meu sangue, por hora.

Ele ainda torporoso pelo feitiço, mas por vaidade o mantive numa semi-consciência. Delicadamente o levei até dentro da banheira e o deitei lá, deixei que uma pequena parcela de água quente caísse e o aquecesse - indiretamente, me ajudaria a sorver o que queria. Parecia uma marionete e seus olhos me acompanhavam, mesmo não entendendo o que acontecia. Agora, instalado, rasguei seu pulso e tratei de beber, aquele sifão jorrava para dentro de mim, cálido, limpo, vivo, vermelho. O que escoava, caia na banheira e se mesclava à agua, dando um tom róseo digno de um alvorecer. Foi a imagem que coloquei em sua mente enquanto bebia. Rasguei seu pescoço e bebi, depois seu peito deliciosamente esculpido. Era tanta bondade e ingenuidade que num pequeno acesso de descontrole, acabei destroçando seus ossos da base do crânio e parte da sua espinha dorsal ficou presa à minha mandíbula: Havia quebrado meu belo boneco. Ora, o que fazer então?

Uma vez quebrado, arranquei seu coração pois precisava vê-lo, saber que existia mesmo um naquele corpo. Facilmente o retirei e bebi diretamente dele, enquanto batia, ao mesmo tempo querendo se entregar e manter sua vivacidade. Depois de bebê-lo e seco em minhas mãos, esfarelei-o e sujei meu rosto com ele, logo, precisando ser mais rápido antes que o sangue parasse de circular, comecei a mutilação de membros, trazendo-os todos à minha bebida. Arranquei seus braços e pernas, o crânio já estava partido.

Na banheira, no final, sobrou apenas um monte de massa e uma pequena dose de vida, misturada à água. Eu, satisfeito, me permiti descansar um pouco enquanto a música ainda oscilava entre o que eu podia ouvir e o que eu via da própria vida sofrida de minha vítima. Eram exatamente três e cinquenta e nove quando liguei para a recepção e pedi um taxi. Deixei pago pelas próximas 24 horas e a recepcionista pareceu intrigada, disse-lhe que houve uma emergência de família mas que não queria incomodar meu companheiro, que estava adormecido, pedi para que ela o acordasse por volta das duas da tarde e dissesse que precisei partir, mas que já havia deixado um recado junto aos seus pertences, para o caso dele se preocupar. Antes de sair, apaguei minha imagem da sua mente e o taxi me trouxe de volta até em casa, onde continuei acordado até que meu inimigo mortal apontasse no céu. Intensamente extasiado e feliz, como sempre fico, quando estou bêbado de bondade.


O Vampiro e o Helianto

Se amanhece, aqui estou a selar tua fonte
Com o beijo que marca que te protejo
E, se escurece, me falta tanto um rumo
Que me perco em memórias [...]


3.11.2013

Where is my Mind?


"- E o bom filho a casa torna."1

Na última noite, muitas coisas me colocaram numa posição difícil. Vi muitos casais felizes, juntos, cúmplices, enamorados, se beijando. Vi amor verdadeiro, amor passageiro e vi paixão. Vi sentimentos superiores, vi preocupações, significados e vi animosidade. Talvez inclusive faça parte do que se chama amor.

Coloquei meus melhores olhos ontem, quando decidi interagir com o mundo novamente. Provavelmente eu errei, mais uma vez, pois não consegui me manter e acabei abstraído e traído pelas minhas próprias feições e trejeitos. Logo, não foram poucos os que perceberam que eu estava descontente e me sentindo inadequado aquele local. Devo confessar que não era minha intenção ser tão evidente, mas não pude suplantar as memórias e boas lembranças.

Por instantes me vi como eles: enamorado, unido, beijando.

"- Saberá que é amor quando te perguntarem o que é isso e você não pensar num significado mas sim, num nome."2

Foi o que acontecera. Enquanto me deliciava do moderno hidromel - que Odin esteja conosco - eu criava uma outra linha do tempo. Uma em que eu, sem receios e olhares subversivos, podia amar sem medidas. E provar daquele amor. Me sentia mudando, colocando Fé naquilo que acreditava, me sentia bem e maior do que sou realmente. Olhava para todos os lados e via sempre duas personificações do Senhor Tempo. Me via, via meu mundo e, não obstante, via o mundo deles. Como nossos mundos.

Podia me ver com eles, sem eles, com o que eu mais queria naquele momento e que o nome guardo à mostra. Pensei em como seria caso ele estivesse ali comigo, entre os meus. Acredito que, no mundo deles, haveria desconforto mas, no mundo que eu criei não. Podia ser quem eu realmente era, sem medo. Não só medo pelo que optei amar mas pelo que refreio a todo instante dentro de mim: meu instinto. Não é só questão de índole e criação, é instinto. Chega a ser rude a forma com que me trato mas não me importo. Se para merecer um décimo do que tenho eu preciso ser um centésimo do que posso ser, que seja.

Não se trata aqui de uma história triste ou pequenos fragmentos de uma tristeza ímpar, não. É algo já enraizado que vai além da simples questão de cair enamorado. É a expressão, a liberdade, o conforto, a interação. Tudo isso faz com que percamos a esperança de uma felicidade, mesmo que momentânea. Uma mente mais sábia que a minha disse que "cuidado com a Tristeza, ela pode se tornar um vício"3 e foi rebatido com "a Felicidade não pode ser eterna. Ninguém pode ser sempre feliz pois se precisa de alguma tristeza - mesmo que eventualmente - ao menos para causar o contraste e assim, desta forma, equilibrar"4.

Logo, estou eu mais uma vez triste pelo que não posso fazer. Pelo que não tenho e que sinto que nunca terei. Eu o observei atentamente, mantive meu coração encarcerado, mas só o fiz até seu primeiro sorriso. E então, neste momento, eu caí de amores por algo que ainda desconhecia. Ao menos, achava desconhecer, por que no fundo eu sempre o sentia. Sempre o conheci, sempre e talvez o amei. Contei histórias antes da forma que sempre faço, para parecer ficção pois os que me leem não aceitariam meu 'modo de vida'. Não acreditam na minha raça, no que podemos fazer, logo, o que pensariam ao saber que eu sou ainda maior que eles supõe?

"- Nem meu doce suicídio poderia competir com seu doce adeus."5

Fiz programas, pensei em inúmeros encontros casuais, escrevi mensagens, redigi memórias. Fiz tudo o que um homem poderia fazer em busca de amor e não obtive êxito. Chorei sozinho e chorei na frente de pessoas que sequer notaram. Tentei compartilhar parte de minha dor com amigos, na esperança de uma forma de acalento mas eles sequer ouviram-me. Falei com meus amigos imaginários, minhas personalidades, meus olhos e só assim consegui me manter até agora. O Tempo passa enquanto penso e escrevo e não sei se vou conseguir me aguentar por mais uma era. Passei por tantas...

"
e quando o amor veio a nós pela segunda vez
e mentiu para nós pela segunda vez
decidimos nunca mais amar novamente
isso era justo
justo com a gente
e justo com o amor mesmo."6

Não deixo de pensar nele nem um instante. Imagino vidas, pessoas, lugares, as coloco em ordem e desordeno tudo depois, apenas para ter o prazer de refazer minha intrincada solidão. Ontem, enquanto via os amantes, eu só pensava nele. Nele e sua doçura. Nele e sua brancura. Nele e sua sede de conhecimento e fome de poder. Nele e sua ingenuidade tão singela quanto uma pétala de petúnia. Pensava nele como criança, minha criança, como meu amor, meu amante, meu amado, meu homem, minha mulher, meu coração e minha existência. E que os deuses nunca permitam que ele leia o que escrevo pois isso o dará poder sobre mim. O fato é que eu o amo, como já amei muitos e muitas antes. Mesmo sentindo que há algo diferente agora, não posso acreditar nisso e preciso seguir meus instintos. Preciso seguir em frente, continuar vendo outros casais, outras vidas, outros amores. Preciso continuar no meu plano e não mais chorar por não pertencer a este plano. O que me rege é a indiferença, sempre fora. Desta forma consegui viver tanto tempo, sozinho. Continuarei vivendo?

"- Eu conheci uma criança, um homem antes de voltar à vida, que pelo crime de amar acabou morto. Nesta vida, ele trouxe a marca do que acontecera: era cego de um olho. O que deveria tê-lo tornado dependente, inapto, fez justamente o contrário. O tornou um homem tão bonito como uma Lua. Fez dele um visionário e assim descobrimos que a matéria nunca importou. Ele escreveu - e escreve - as melhores canções e as que mais se aprofundam em nossas almas. Ele canta com a voz de um anjo e vê muito além do que os que estão à sua volta podem imaginar. E o melhor, ele reencontrou seu amor de outras vidas. Eu fico tão feliz por ele."7

Deixarei meu destino nas mãos do Destino, mesmo sabendo que este meu irmão é ardiloso, insensato e não pensa nas consequências dos seus próprios atos em nossas vidas. Talvez ele se compadeça por tudo o que eu já fiz por ele, anteriormente, e me dê discernimento para entender o que se passa. Não confio nele, mas não há uma outra opção agora pois neste exato momento ele já manipula a ordem das coisas, das casas e age. Quer seja a meu favor ou contra mim. Uma semente foi plantada, vejamos que fruto ela engendrará.

1: Autor desconhecido 
2: Carolina Bensino 
3: Gustave Flaubert 
4: Nietzsche 
5: Sacha Sacket, in Sweet Suicide 
6: Bukowski 
7: Apenas uma memória minha, nada digna de relato posterior. Nomes preservados.


8.04.2012

Certa tarde em Laoris


+++



Ela dançava beirando à insanidade, êxtase, enquanto ele pleiteava a atenção das fadas com seu violino.

Ela, por quase sobre a relva da planície, vestida apenas com um manto sujo, coroada com espinhos que faziam sua testa sangrar um sangue coagulado, olhos brancos de uma palidez lunar e asas deformadas, consumidas pelo fogo. Ele, recostado abaixo de um cedro que exalava até o próximo bosque. Vestido de branco impecável, olhos vermelhos ardentes e asas de uma clareza vislumbrante, todas as penas intactas e de um brilho dourado ao rebater da luz do sol. Eram anjos, ele e ela, porém ela havia caído e ele tocava pela Felicidade dela. Eram amantes desde antes as estrelas nascerem. Os animais silvestres os circundavam, também em glória pelo que viam. O urso sentado à beira de uma árvore morta servia de abrigo para coelhos pequeninos. As aves, de rapina e menores, se aglomeravam nos mesmos galhos. Serpentes, animais maiores daquela região - todos eles - sabiam que havia algo de supremo naquela cena.

Ele continuava a tocar e ela a dançar, sorrindo para ele como se a dor não a dilacerasse por dentro. A música preenchia as esferas e a anjo flutuava, sublime, aplaudida pelas fadas que compunham o cenário. Ele apenas estava ali por ela, nada mais. Nada o faria mais feliz do que acompanhá-la. Não era Orpheu, ele sabia, mas também sabia que seu violino já encantara deuses e demonios anteriormente, no passado breve e distante. Era uma daquelas sensações de alívio surreais que imaginamos ao pensarmos como seria nossa iluminação. Ela dançava com o corpo, com as vestes, com o cabelo e com os olhos. Ele tocava com as mãos e com o coração. Os beijos que eles trocavam eram etéreos e não precisavam de toques. Havia musque, sândalo, mirra e sálvia no ar. Criaturas estranhas também estavam lá, apenas para comprovar aquele amor.

Certa hora, ao início do pôr-do-sol, parecia que nada havia acontecido. Que tanto tempo não havia se passado pois os animais e as flores, além das fadas, permaneciam estáticos observando-os. A palavra correta para uma ocasião como está é Superior.

Quando metade dos acordes do violino já eram dedilhados, ela alçou voo e permaneceu acima da copa das árvores maiores. Ele a chamou pra si mas ela, de maneira lúdica, o convidou a subir. E foi o que ele fez. Juntos, no alto, eles continuavam. Ele deixou o violino cair propositadamente apenas para poder abraçá-la, sem medos de se contaminar, sem receios pelo que ela havia passado e o quanto isso poderia afetá-lo. O violino não se partiu, foi aparado pelos animais de longos pelos.

Ele a beijou - agora fisicamente - intensamente. Haviam estrelas caindo quando o sol se pôs e o horizonte parecia convida-los à uma festa parcamente iluminada, apenas com Evangeline ainda no Céu a admirá-los. Ela o beijou como se fosse um último beijo, o agarrou e se colocou sob sua proteção, à sua costela, como acontecera antes com a formação dos humanos pelo Mesmo que os criou. Ainda havia música no ar, não se sabe de onde vinha. (Ele suspeitava que eram seus corações compassados, ritmados numa frenética disposição um para com o outro). Era o rio, o vento, as folhas, as fadas, o Céu, Deus. Era tudo o que eles queriam mas queriam apenas um ao outro, para sempre.

Logo a noite caiu e o som se foi, assim como os animais. Os anjos permaneceram na mesma forma e posição, no alto, beirando as primeiras nuvens noturnas, enlaçados como se não houvesse Tempo para eles. É, realmente não havia...

E pelo primeiro brilho da lua, eles simplesmente desapareceram no ar.

Laoris, Duodécimo dia do Milésimo Septuagésimo ano em que eu a conheci.

7.21.2012

Nothing compares to You


Sonhei com você noite passada, novamente. Vi sua estrela, suas asas, seu violino. Vi tudo em você que me completava. Revi nossos momentos juntos - os sexuais e os emotivos - e chorei quando acordei. Não havia imperfeição, até que meus amigos interferiram em meus sonhos. Logo, você se tornou uma sombra etérea que me perseguia e precisei de feitiços para me livrar de você. Até os deuses estavam lá, alguns deles. Lágrimas, eram muitas.

Meu ego o livrou de mim?

Como eu amava esta estrela. Como ainda a amo. Como não posso passar por certos locais que me lembram você e como meus amigos, ao se recordarem de ti, ainda me ferem pois, não posso dizer a eles o que realmente aconteceu. Como eu pude ler que você "procurava um casamento" e que um "Lisso" poderia ser o seu fortúnio! Oh, deuses, porque me apego à coisas que não existem buscando fundamento para o que existe? Escrevi - e escreverei - minhas memórias aos mortos.

Quando acordei, eu vi isso e me emocionei porque desde ontem sinto uma vibração no ar.


Nothing compares 2 U - Sinead O'Connor

It's been seven hours and fifteen days
Since you took your love away
I go out every night and sleep all day
Since you took your love away
Since you've been gone I can do whatever I want
I can see whomever I choose
I can eat my dinner in a fancy restaurant
But nothing, I said nothing can take away these blues

'Cause nothing compares
Nothing compares to you

It's been so lonely without you here
Like a bird without a song
Nothing can stop these lonely tears from falling
Tell me, baby, where did I go wrong?
I could put my arms around every boy I see
But they'd only remind me of you
I went to the doctor and guess what he told me?
Guess what he told me?
He said: girl, you better try to have fun
No matter what you do
But he's a fool

'Cause nothing compares
Nothing compares to you

All the flowers that you planted, mama
In the backyard
All died when you went away
I know that living with you, baby, was sometimes hard
But I'm willing to give it another try

Nothing compares
Nothing compares to you

E isso foi EXATAMENTE o que aconteceu comigo. Lógico, isso e outras tantas desarmonias. Eu ainda o amo, sempre amarei. Mas o esquecerei, como sempre os esqueci. Falo pelos outros seis e principalmente por Olívia, que ainda teme este amor comprometer minha sanidade. 


Olívia, minha cara, eu já sou louco. E como diria Harpócrates "- melhor um louco que ama do que um são que nunca conheceu o amor". Tu teme amar, eu sou teu oposto. E estou com uma vontade insana de raspar minhas cabeça!

Por ti, amarei. 
Por ti, sofrerei.
Por ti, calarei.
Por ti, mandarei minha razão à Casa do Tolo.
Por ti, ALWAYS.


4.22.2012

O Filho de Lucca



ESTE NÃO É UM CONTO PARA MENORES DE 2.312 ANOS: CONTÉM PASSAGENS CONHECIDAS E FORMAS CASUAIS DE SEXO EXPLÍCITO.


Havia uma noite de Outono que precisava ser apreciada, porém, como sempre, estava eu sozinho a pleitear a atenção do Cosmos em busca de alguma satisfação que seja pessoal, sexual, educacional ou emocional. Ou todas elas.

Andava pelas ruas sempre sem medo, como aprendera há tempo mais do que devia, vestido apenas com uma calça de couro estreito preta, camiseta larga branca e uma jacket de couro também preta, com alguns talhos nas costas pela constância do uso. O tempo costuma vagar numa frequência diferente para mim, algo como lapsado entre passado e futuro, entre pressa e demora, entre realidade e imaginação. Nem sempre é uma coisa boa, admito. Já a algumas milhas da origem, sinto um cheiro familiar. Algo que me remetia a meados do século XVIII, meio cobre, meio acre, como cheiro de algum animal selvagem que ao invés de fugirmos, corremos na direção. Algo masculinamente atrativo, cheiro de macho em suma. Havia além do aroma, uma voz interna que dizia "Lobisomem".

"- Lucca!" - Foi o primeiro nome que me veio à mente e eu o chamei.

Virei-me mas não o encontrei. Não encontrei nada a não ser a sensação de algo estava por vir. Algo que me arrepiou da nuca aos esteticamente poucos pelos pubianos.

Continuei a caminhar, ouvindo os pensamentos alheios sobre matrimônios, grandes projetos empresariais, futuros assassinatos, felicidades por gestações e uma infinidade de outros impropérios que se manipulam na noite. É outro mal, não posso não deixar de ouvir. Mais alguns metros a frente e novamente a sensação, mais intensa e próxima desta vez.

"- Nunca ouse assustar alguém como eu, posso ser violento e ataca-lo antes de lhe permitir explicações." - Eu disse a ele, olhando em seus olhos rubros e estreitos, de origem mediterrânea, tão sedutores que eu me permitiria morrer ali, sem nem perguntar o porquê.
"- Não era minha intenção e pelo que sei, o senhor não se assusta. Parece-me que já sabe de tudo o que aconteceu e acontecerá. Algo mudou em sua existência, Mi Lorde?" - Ele, causticamente, disse-me.
"- Muita coisa mudou, mais do que eu esperava. A cada dia me torno mais humano e o que eu tinha de mais precioso cedi na Troca Equivalente." - Confidenciei.
"- Então realmente Mi Lorde está mudado".

Era o que veio depois de Lucca, o primeiro e único filho que ele fez, ainda tinha o seu cheiro e fascinantemente tinha sua presença e sua conquista sobre mim. Aparentava uns 20 anos, estatura mediana, pele morena clara, corpo rijo, forte, cabelos curtos pretos lisos bem cortados, braços deliciosamente torneados, sem pelos onde meus olhos podiam ver, olhos castanho-escuros singelos e uma boca que mesclava luxúria como sentimento puro e casto. Vestia uma calça comprida de um pano surrado, ocre, uma camiseta preta que se adaptava feito pele em seu corpo musculoso e um pequeno adorno no pescoço. Este era o filho de Lucca que passei a amar ainda mais jovem, da mesma forma que amei ao pai, que serviu comigo, que me amou, que dormiu comigo, que me protegeu por tanto tempo e que acabou sendo despedaçado por minha causa. Minha dívida com a prole dele seria eterna mas eu não poderia supor que meu amor à sua genética seria também. Meu oposto. Seu nome não vem ao caso, será dito em acróstico.

Logo, ele vinha atrás de mim. De imediato não compreendi e continuei a caminhar, mas, como os Lobisomens também tem em sua estrutura uma velocidade acima do normal, ele conseguiu me surpreender ao dar de encontro comigo, pela frente. Olhou-me nos olhos, os dele como brasas, os meus como gelo, segurou-me pelo lado do rosto, pôs se na ponta dos pés e me beijou. Não pensei, não agi, não era eu quem estava ali. Passei minha mão por sua cintura e correspondi o beijo, tornando-o mais quente, suportável à espécie dele. No meio da rua nos beijamos, valemo-nos da rua pouco movimentada, lógico. Tive a impressão de que durara horas, mas acho que não.

"- O que você quer, Filho de Lucca?" - Afastei e perguntei.
"- Há muito tempo estou atrás de você. Soube na alcatéia de meu pai suas histórias, sinto em meu sangue uma sede de você. Acho que quando meu pai me fez, passou pra mim a necessidade de estar contigo, de protegê-lo, de amá-lo. Como um Legado."
"- Pois eu então liberto-o desta obrigação. Teu pai me pertencia e eu a ele, e isso nunca mais poderá acontecer."
"- Será diferente agora." - Ele completou.

Naquele momento eu vi Lucca, quando da primeira vez que nos vimos, quando eu com uma espada de prata estava prestes a decapitá-lo por um equívoco brutal e me deixei seduzir pela inocência dele. Muita coisa aconteceu mas agora não é hora de falar.

"- Deixe-me ir contigo, por favor. Tenho tanto para falar e mostrar" - Ele falou.
"- Não posso andar mais com crianças."
"- Uma criança não saber amar um homem, nem um homem o amaria como eu o amo." - Com estas palavras eu declinei.

"- Teu pai lhe falou sobre o Dom das Nuvens?" - Falei e não dei tempo dele pensar. Tomei-o pela cintura, passei minha jacket por sobre seus ombros e pescoço e alçamos voo. Seus lindos olhos lacrimejavam pelo frio e eu, infelizmente, não podia aquecê-lo a não ser com minhas orações. Em dois instantes estávamos no quintal de minha morada, perto da minhas tão preciosa betúnias que exalavam como sempre em noites de calor ameno. Placidamente eu o coloquei no chão, retirei minha jacket e observei, enquanto ele parecia cada vez mais uma criança ao conhecer tamanho poder, em presença.

"- Meu pai me falara sobre seus dons e o que o tornava diferente dos da sua raça e das outras. Sua superioridade. Meu pai sempre me disse que você não era completamente deles e que era algo que a gente só veria uma vez enquanto pudesse respirar. Pouco antes daquele dia, ele me contou o quanto o amava e o quanto eu poderia contar com você caso acontecesse algo a ele mas que, se fosse por você, nunca aconteceria a nós."

Estas palavras me floresceram às vistas. Eu era o pai dele. O pai que o pai de sangue havia incumbido de proteger neste novo mundo e estávamos enganados. Eu o desejava e me tolhia por ele me ver como responsável. Eu desejava o corpo dele, o sangue dele, seu suor, seu sêmen, sua força. Desejava possuí-lo. Desejava tomá-lo até que o dia nascesse e o deixasse fraco de tanto me receber. Exaurido, desejava montá-lo. Convidei-o a entrar e a se sentar. Lobisomens tem vantagem sobre nós porque podem comer comida humana, em pequenas quantidades, sem que seja venenoso. Admito que eu mesmo arrisco mas nunca me privo de um bom chá. Ofereci algo a ele que recusou, mantinha seus olhos em mim como se eu fosse algo irreal mesmo estando tão perto.

"- Estive à sua procura, senhor. Andei por todos os lugares em que pensei que poderia encontrá-lo. Todos os lugares que meu pai contou-me histórias e lamentei quando não o achei."
"- Justamente por ser lugares especiais que precisei evitá-los, quando perdi Lucca." - Este comentário foi notado depois do constrangimento pessoal.
"- Perdoa-me. Não quero mais remeter ao passado."
"- Notará que não sou famoso por perdoar." - Nisso, seus olhos sibilaram como se encontrassem um desafio.
"- Logo amanhecerá, pode ficar por aqui se quiser. Como bem sabe, eu preciso me recolher. Por ser filho de quem é, confiarei minha casa a você." - Virei-me, sai da copa e ia me dirigindo aos meus aposentos ocultos quando ele segurou minha mão.
"- Temos ainda algumas horas até o amanhecer prejudicial" - Havia desejo ali, desejo reprimido, desejo inconsequente.
"- Sim, usá-las-ei para ler. Colocar a mente em dia, quando se vive há muito tempo, qualquer tempo precisa ser otimizado." - Falei e fiz para desvencilhar minha mão.
"- Sim, otimizado." - Ele como que enfatizou mas com uma força tremenda manteve minha mão à dele e com um puxão, nossas bocas enlaçaram mais uma vez."

***
Não havia para onde escapar. Não mais. Qualquer sentimento puro havia escoado com a primeira gota de sangue que sorvi de seu pescoço. Pude ver seu passado, seu presente, os fatos que conhecia com seu pai, sua inocência e sua castidade. Castidade. Dedicação. Lobos não podem nos conhecer pelo sangue, neste caso em especial, fiz com que ele me conhecesse pelo beijo. Éramos uma dualidade proibida, Frio e Calor, Noite e Dia, Mau e Indiferente. Eu vivo de vidas, ele não. Um pássaro e um peixe. Era uma Santidade Arrasadora, Mutua, Unanime, Entre Lados distintos.

Levei-o até meu aposento pouco iluminado com velas em castiçais provincianos, coloquei-o sobre a cama de baldaquim escuro com lençóis de cetim vermelho-sangue e almofadas de seda negra, beijei-o, mordi-o, gemia ao ouvir seus gemidos, deitei por sobre ele e senti seu sexo comprimir o meu. Arranquei sua camiseta no rasgo para poder vislumbrar aquele peito liso de pêlos, forte, másculo, da cor da macadâmia e mamilos rijos excitados. Ele sugava de mim luxúria, enquanto se esfregava em meu corpo marmorizado. Com a mesma força ele me despiu a camisa, novamente opostos. Ergueu-se alguns graus da cama, o suficiente para ter posição de me beijar o tronco, o ombro, as costelas, as cicatrizes que herdei da minha vida anterior, me virou de posição e colocou-se por cima, despiu-me a calça e observou.

Notei que ali eu descansava minha cabeça entre a cama e o céu.

Continuou a me beijar sem medo pois sabia que não poderia me machucar. Beijou-me o corpo, a boca, os olhos. Removeu a última peça de roupa que eu vestia e beijou também. Com maior intensidade, sua boca morna como o sangue de uma criança, conseguindo engolir-me em partes, num movimento tão suave quanto frenético, suas mãos percorrendo meu corpo em êxtase. Nem a janela aberta trazendo a brisa e pássaros na sacada poderiam desconcentra-lo. Suas veias pulsavam para mim, gritando "me ame, me ame". Após alguns momentos de maior prazer, ele mesmo despiu a calça. Não havia imperfeição naquele corpo, nada. Era tudo espantosamente bem planejado e moldado pelos deuses. Quando Lucca o havia criado (ele, obviamente, não era filho sangüíneo) eu pensei que seria para me substituir como macho, nunca passou pela minha cabeça que ele realmente queria uma criança para manter os princípios e seu Nome.

Em toda aquela perfeição, era minha vez de voltar ao inicio do mundo e sentir o prazer que foi ajudar a criar o primeiro homem e a primeira mulher, conhecer o nascimento de uma criança, protegê-la, ver impérios nascerem, morrerem, recriarem-se.

Eu, deitado nu sobre os lençóis. Ele, nu defronte a mim, incitando com os olhos qual era sua intenção. Embalados pelo som ambiente de uma fortaleza à beira mar, não havia mais o que preciso fosse falar. Deitado como estava, permaneci, acompanhando cada gesto sutil dele. Ele, ajoelhado sobre a cama, defronte a mim, mudou de posição. Aproximou-se, procurou meu sexo com suas mãos e usou nele. Dentro dele. Movimentou-se para cima e para baixo, sempre mais forte. O cheiro infestava a ilha e temi que outros seres, dos psicopompos aos incubos, acabariam aparecendo para a briga. Ele subia e descia, com as mãos passando dos ombros aos cabelos, depois apoiando nos meus braços, feroz, sensual, ora calmo ora violentamente prensado, durante tempo suficiente para que ele mostrasse o prazer líquido a jorrar. Eu havia entrado no Limbo pois já havia tido um orgasmo espiritual num primeiro momento, depois um emocional e , logo após o dele, um físico que o preencheria sem que pudéssemos ter controle. Continuei dentro dele - e sim, seres como eu podem fazer isso (não podem procriar porque nossa semente é morta, mas ela existe).

Ele tirou de dentro dele e deitou-se sobre meu corpo, exaurido, suado, exalando, contrastando com minha pele ainda fria o que o arrepiou - eu pude notar. Passou a mão pelos meus cabelos e os cheirou.

"- Você não tem cheiro de morte como dizem."
"- Depois de hoje, meu cheiro é o seu e você não é morte, nunca será. Minha promessa será mantida e se com minha espada ou meu sangue puder protegê-lo, considere feito."
"- Não quero sua subserviência! Quero seu amor."
"- Mas isso não precisava pedir, já era seu antes de nascer. Antes de eu notar, antes de qualquer coisa outra"

Deitamos um ao lado do outro, ele aninhado em meu peito e naquele momento o grande homem forte que parecia em primeira instancia, voltou a ser uma criança que precisava de cuidado. Lindo como a cantiga da Lua com todos os seus versos de prata. Enquanto o observava dormir, escrevi um poema que nunca mais recordei. Adotei um amor, que já era amor antes mesmo de eu perceber.

***
Na noite seguinte acordei em meu caixão, não me recordava de ter ido parar lá depois da noite que tive com ele. Acredito - e soube agora, com ele me falando ao ouvido enquanto me acompanha a escrever esta parte de nossa história - que ele me levou. Carregou-me adormecido, deitou-me, cobriu-me, beijou-me os olhos e o peito, trancou a tampa e vigiou-me durante todo o dia, assim como vigiou a casa. Os empregados diurnos logo entenderam que seu patrão havia escolhido alguém para compartilhar mais uma eternidade. Falarei com Lucca depois, se conseguir trazer sua essência de volta mais uma vez, saberei dele o que acha. Só o que acha, não peço permissões.


Sonhos Amanhecem, Mãos Unidas Em Liberdade.



 

1.12.2012

Tecido e Violino


Na manhã de hoje, ao despertar de um sono sem sonhos, eu concretizei um antigo adágio pessoal. Me abstrai num preview do que ainda está por vir e confesso que me excitei deveras.

Passada a noite sem algum presente de Ikelus ou Phantasós (ou seja, sonhos), me senti desnorteado ao rever aquela cena em minha memória tão volúvel. Levantei da cama, me deitei novamente, senti os arrepios me subirem o corpo ainda oculto por tecido e seda. Tornei a levantar e tentei desenhar o que via, para não perder o momento. Como exímio escritor, sou claramente, um péssimo desenhista e dos borrões que permaneceram nas páginas mal pode-se notar as imagens do tecido e do violino.

Havia um homem deitado de bruços, apoiado nos antebraços, completamente nu, perpassado em áreas vitais apenas por um suave lençol branco que ao cobri-lo, seguia percurso e moldava-se a um outro homem, também nu, sentado à margem da cama com este lençol envolto, enquanto tocava seu violino amargo. O deitado observava o sentado, placidamente a contemplar e emocionado com cada nota que fluia do instrumento. O violinista nu se sentia tão orgulhoso por estar ali quanto seria possível. O ouvinte nu corava ao sentir a provocação da música. Havia sido uma noite formidável para ambos, quando ao se descobrirem, descobriram um ao outro inclusive.

Toda esta cena durou intensos momentos mas não passou de doze segundos no mundo real. Lembro do cheiro do violino ao pleitear atenção dos deuses, tocando o Gorjeio. Lembro da textura do tecido. Lembro do aroma do homem deitado e, acima de tudo, lembro da felicidade que era estar ali. Passei o dia a revê-la em cada segundo disponivel, tentando reabsorver aquela magnitude. É interessante como num espaço tão breve de momento a gente possa se sentir tão completo.



Uma pena que começou apenas como uma visão, quiçá poderá vir à realidade algum dia.


10.15.2011

Mudanças


Mudam-se os Tempos, muda-se a vontade.
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo mundo é composto de mudanças, 
tomando sempre novas qualidades.

Mestre Camões


Confesso que me sinto mudado. Nos pensamentos, ações pequenas, ad amorem et expelia. Há algo de brutalmente novo em sentir-se confortado, seja com um toque ou com uma palavra doce orientada. Mais interações, menos rancor, mais projeções e planos a serem efetivados. Nova noite para abstrações. Lua cheia para contemplar. Trabalho a ser realizado para que a cama seja compartilhada. Nada é mais suave que a sensação do despertar.

Neste momento, ao bebericar do meu café envenenado, eu concluo: não há prazer sensato que me torne mais humano. Não nego o quanto preciso dele (e dela e disso) e não temo dizer a infinitude disso. Incentivado estou a escrever, ler, sentir o doce aroma da fútil intelectualidade que me atrai. 

Preciso do Sabujo de Deus. Preciso de mim mesmo. Preciso sentir os pêlos que roçam em meu peito. A carne branca de que me alimento e o sangue que esvai de suas costas quando eu as dilacero parcialmente. Minha sociedade para com os mortos exige de mim mais do que ofereço. E, não é por isso, que deixarei que parta. Preciso da rosa que se abre no meio das suas pernas, cheirá-la, prová-la, tomar dela.
Preciso forçar você contra mim. Nada seu pode ser escondido de mim, eu vejo o que quer que for, de onde estou e para onde vou. 

Minha delicadeza cai como minha máscara humana.


3.06.2011

Shinpai

Conceituando meu Principio da Inevitabilidade, há pouco reconhecido, afirmo: Não há do que se lamentar quando não houve desistência. Mesmo que os outros possam sorrir de você, da sua intenção, se estiveres fazendo a coisa certa, para si, vale o risco.

Não cabe desistir, nunca. Mesmo que tudo pareça perdido e suas penas tenham levado suas memórias, não desista! Preocupe-se, arrisque-se, diga o que quer dizer, faça o que pretende, seja quem és ou seja quem precisa ser para fazer valer o que quer. O mais importante sempre, é ser sincero consigo mesmo e com quem se ama. Nem sempre o tempo nos dá o que queremos, ai está a Inevitabilidade. Peregrinos encontram-se.

Não existe casualidade, existe causalidade. Neste mundo a forma de interação anima-animus é a Causa. Toujours! Pense sempre que há um outrem à sua espera enquanto você espera. Não é fraqueza saber a hora de parar, fraqueza é desistir sem tentar. E ainda assim pode não ser fraqueza em compleição, pode ser a causa. Não rejubile-se pelos seus feitos, pense no que ainda pode fazer. Não entre em parábolas confusas, seja simples. Faça o que deve e isso será bom, de qualquer forma. Tudo leva a marca de emet.

Lembre-se, eu ainda estarei ao seu lado mesmo que não me veja. Mesmo que não me sinta e mesmo que não me queira. Por que eu, eu sim o quero. E o levarei para todo o meu sempre.

Pour mon unique amour, T.