Mostrando postagens com marcador Morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Morte. Mostrar todas as postagens

11.02.2013

Dia Dois - Sonhos


Estávamos meu avô e eu, o que eu perdi há aproximadamente nove anos, sentados em um sofá. Ambos ríamos, ele me contava algo, parecia quarenta anos mais jovem (ele falecera aos setenta e seis anos de idade). Acordei com meu terço de prata embolado na mão esquerda, sem saber como ele fora parar lá.

∞

Havia uma grande sombra negra, alada, seis pares se não me engano, bem defronte a mi. Elevada, a uns seis pés de altura, enorme, exaltada, ameaçadoramente infringindo em mim, medos. Por um instante eu cedi e encolhi, mas, recobrei minha essência e ascendi à mesma altura, desgarrei meus trinta e seis pares de asas cobertas de olhos e encarei a sombra. Ela não parecia tão assustadora neste momento. Ela vergou suas asas, como uma concha e se tornou etérea. Eu a assombrei quando verguei as minhas ao máximo e por um instante parecia que do espaço se veria a sombra que eu causei graças a este esforço. A sombra se fora, eu retornei a mim.

Despertei.

∞

Estava em um campo aberto, com o chão coberto de barro e lama, uma dama loura, alta e elegante falava comigo sobre alguém ao mesmo tempo que me encarava e intimidava. Era a Morte. Não a figura da morte, encapuzada e esquelética. Era a Lady Morte, a que fora criada pela mão dEle, antes de tudo. Ela portava uma foice de cabo preto e lâmina prato-cristalizada, falava comigo no nosso antigo idioma e não me ameaçava diretamente. Falava comigo sobre um homem – que supondo eu deveria conhecer – e aconselhava-me sobre ele. Recordo do nome mas não crio expectativa de saber quem é, o único homônimo que conheci jaz há alguns anos e era um dos meus melhores amigos nesta vida. Lembro que num acesso dela, por eu não reconhecer, decidiu um duelo. Ela com sua foice, eu com uma extremamente semelhante, como uma sombra, apenas sem o brilho e a magnitude da que ela própria portava.

Ela estancou para cima de mim, desviei, ela sorriu. Dissera algo sobre eu não haver mudado muito desde “aquela época”. Novo ataque, novo recuo meu, nossas foices se encontraram e o ruído abriu uma tormenta no chão de barro e lama. Ela, se aproveitando da distração, se mesclou à sombra, no chão e tentava me imobilizar. Ciente e destro, usei o bico da lâmina prato-fosca da minha foice para pregar aquela sombra ao chão e foi onde eu venci. Selei sua sombra, com a ponta da lâmina.

Não havia mais foice, a Lady estava defronte a mim, sorrindo, me incitando a recordar do nome e fazendo uma reverência como quem termina um duelo.

∞

Estava com uma vassoura em mãos, percorrendo meu apartamento novo. Não recordo se a vassoura estava fazendo o seu trabalho, mas havia uma quantidade de insetos razoável.

Acordei perturbado.


Dia Um - Sonhos



Era um momento especial. Havia ele, havia eu, havia uma câmera de fotografias, havia uma intenção além do que o romantismo seria capaz de conceber. O romantismo deste insignificante ser, conscientemente falando, afinal quem troca o próprio coração por um pedaço de pão velho e meio copo de vodca não estaria habilitado a compreender. Bem, psicanálise e terapia de autoconhecimento a parte, era um belíssimo sonho. Durou pouco, o bastante para ouvir (e sentir):

- Cola aqui.

E nos aproximamos, eu sobressaltado pela ideia, ele a par do que pretendia. Neste momento, ele me beijou e havia sorrisos entre os lábios colados.

Com a voz entrecortada:

- O que você está fazendo?

Sons de cliques da câmera sendo disparada.

- Tirando fotos, registrando o momento. Tirarei quarenta fotos e postarei todas, em todas as redes sociais. Assim, as pessoas verão o quanto eu amo você, não pela quantidade de fotos, mas pelo ato simbólico.

Tiramos as quarenta fotos nos beijando. Eu acordei. 


∞ 


Éramos em quatro: ele, eu, um rapaz mais novo e uma menina. Conversando e decidindo como chegaríamos (não sei onde) e definimos que iríamos a menina e eu, em uma moto, ele e o rapaz, em outra. Provavelmente apenas nós dois sabíamos pilotar. Em um átimo de segundo, por estarmos em um campo aberto, uma abelha ferroou o rapaz mais novo. Ele ignorou até então, montamos às motos e partimos. A viagem durou cerca de vinte ou trinta minutos, durante o caminho, o ferrão da abelha preso ao corpo gerou uma reação anafilática no jovem que não poderíamos prever. Uma intensa reação, ele chocou, eu não teria como saber ou ajudar, não pude observar o prurido do ferrão e estávamos em motos diferentes.

No dia seguinte foi o velório dele, estávamos todos.

Acordei sobressaltado deste sonho.


7.02.2013

Você que quase soube da verdade mas era alheio à realidade, eis que veja que não importou muito


Noite quente de verão, à beira-mar.

Mesmo com minha aversão instintiva à água corrente, acabei por deixar-me à deriva numa noite em que não havia Lua brilhante no céu. Imaginei que, desta forma, talvez o feitiço antigo sobre a proibição de nossa espécie à presença de marés pudesse ser de certa forma amenizado. Bom, era apenas uma tentativa que logo se mostrou infrutífera pois, a poucos metros da areia da praia que eu margeava, eu já me sentia encolhido e subitamente enjoado - mesmo não havendo algo internamente fisiológico que pudesse causar tal desconforto. Evitando assim colocar-me em risco, resolvi deixar o ambiente.

Logo ao me virar, pude notar um pequeno grupo de jovens que vinham alegres pela calçada, cantarolando alguma música moderna com suas rimas pobres e letra que faria um boêmio do século XVII se sentir enojado com a futilidade e decadência do pudor humano atual. Evitando o contato visual e assim mostrar minha atual fragilidade, coloquei-me de lado enquanto eles passavam. O bando era composto de dois jovens rapazes e quatro meninas, todos bem bonitos e atrativamente sensuais. Ainda com a intempérie da minha bagunça orgânica, pude ouvir que um dos jovens cochichou ao colega mais próximo a seguinte frase com exatidão: "- Nossa, mas que homem mais estranho. Parece um vampiro" e então deu um sorriso afetado, o outro acabou sorrindo também. Achei interessante a observação do jovem pois, de tantos adjetivos, qualidades e defeitos, ele enunciou justamente a minha raça, sem poder logicamente ter a garantia. Parei exatamente onde estava e passei a acompanhar sua reflexão, ainda sobre mim, com os colegas. Uma das meninas anunciou, ao me ver: "- Não olha agora mas estranhamente seu vampiro está parado ali na esquina, como que esperando" e então logo todos olharam em minha direção e sorriram, comprovando o fato. Eu, àquela distância, pronunciava um sorriso convidativo e intimidador, bastava observar pelo ângulo correto.

Permaneci então à sua espera, aguardando a decisão do jovem se viria ou não ter comigo. Óbvio, ele viria!

Deixou os colegas seguirem e deu meia volta, seguindo em minha direção que o aguardava pronunciando ainda mais minha intenção. Forcei deveras minha presença pois, ainda à beira-mar, me sentia vulnerável. Em alguns instantes estava ele defronte a mi e então pude notar como era realmente belo, com um ar infantil mesmo com alguns fios de cabelo grisalhos em sua cabeça, um sorriso expressivo, lábios sedutores e um corpo atlético - um profissional na arte que se considerava a melhor qualidade. O tempo todo em sua mente só girava uma palavra: VAMPIRO. E ele estava certo afinal.

No seu misto de curiosidade e receio, ele ousou verbalizar a suspeita, questionando-me. Como eu já por diversas vezes dissera, não oculto a quem perguntar a verdade e simplesmente confirmei. Ele parecia atordoado mas ainda, também dentro da lógica humana, desconfiado. Havia uma dedicação na intensidade com que ele desejava que aquilo fosse verdade, uma necessidade quase palatável. Era como se ele precisasse contar com aquilo, como se estivesse esperando há muito tempo, como se ansiasse mais do que a própria vida. De todos os que já possui, talvez este tenha sido o mais consciente da minha índole e intenção desde o começo.

Nos apresentamos e trocamos um aperto de mão formal, ele ainda excitado e reagindo bruscamente ao sentir meu toque gélido. Seus olhos brilhavam à menor luz exterior e seu interior queimava. Mais um adendo, talvez ainda de todos, este tenha sido o que mais facilmente se entregou pois não precisei sequer de um esforço ilusionista para seduzi-lo a me acompanhar. Ele o fazia com atitude e se valendo de uma adorável surpresa que estaria para ser revelada. Decidimos então nos instalarmos num local ali perto, sem hesitação disse-lhe que não o levaria à minha morada ainda e ele não se incomodou - estaria habituado a ocasiões de nenhuma formalidade? Provavelmente. Havia um hotel muito conhecido naquelas redondezas e ele se mostrou fascinado quando entramos no lobby e eu, sorrateiramente induzi à recepcionista com imagens mentais, poupando assim sua morte ao reconhecer meu rosto futuramente, e dando entrada numa das melhores suítes que poderia haver. Logo, o jovem me acompanhava no elevador, rumo à cobertura. Ainda mais sua fascinação era palpável, a cada milímetro andado e dada a proximidade com que ele esperava seu êxito.

O encaminhei à suíte e, ainda à meia-luz ele já se despia enquanto balbuciava pequenos estalidos alternando com gemidos de satisfação. Fazia isso em pé, defronte a mim, me incitando e seduzindo com olhares e provocações labiais. Logo então, eu estava de pé perante ele, acariciando seu corpo com meus dedos congelados. Ele beijava meu peito por sobre a blusa e levava suas mãos pelo meu corpo, do pescoço ao sexo, das costas ao encontro com minhas próprias mãos. Confesso aqui que não estava mais tão excitado quanto no começo, havia uma particularidade neste jovem que me incomodava. Talvez sua busca pela morte, sua frivolidade com a vida, sua fantasia sobre o que eu seria e o que faria por ele. Em seu desejo, eu o tomaria para mim e o faria dele vampiro, logo, viveríamos uma perfeita utopia amoroso e sexual - claro, como vista em filmes. Este desmerecimento e falta de reconhecimento me deixava obstante, ausente. Depois de se colocar nu e a mim também, pode provar do meu sexo.

Como a intimidade começou a me paralisar e suas emoções vinham a mim como um tufão, coloquei minha mente do lado de fora e não aproveitei a cópula. Hoje, sem me recordar com clareza, sequer chego a lembrar se houve. O momento crucial foi quando, na iminência de ser possuído por mim, sussurrando em meu ouvido disse ser portador de uma enfermidade sanguínea letal aos humanos. Disse tais palavras sem receio, pudor, dúvida, preocupação ou resignação. Como estas patologias não me afetam, ignorei e notei ali seu desejo aumentar. Crio um lapso aqui sobre o que julguei ser o evidente: ele, por estar numa vida um tanto quanto corrompida, acabou sendo vítima e, ao se encontrar em déficit no mundo, buscava por alguém com quem compartilhar. Em sua cabeça infantil e débil, julgava ser uma fantasia encontrar uma entidade qualquer que o aceitasse e, quando se deparara comigo, não hesitou e acreditou no que via em filmes, não no que a realidade crua e gélida poderia evidenciar. Vivia num mundo de sonhos e ausência e, ao encontrar uma criatura mítica, achou que sua vida poderia ser resumida e explicada. Deixei então que ele se calçasse desta fantasia por alguns momentos, enquanto alucinava, enquanto se revelava, enquanto era possuído.

Antes mesmo da terceira hora passada, deitado na cama, fazia planos sobre o futuro em que ambos compartilharíamos. Pensou em casa, família, bens, sangue, vingança, beleza e acima de tudo, pensou em imortalidade. Eu, simplesmente pensei que não valeria me alimentar e que precisava me livrar daquela presença.

Recompensei-lhe com o derradeiro desejo, mostrei minhas presas e, olhando em seus olhos, mudei a cor dos meus do azul-celeste para o carmesim-profundo, além de demonstrar minha incrível agilidade e flexibilidade. Ouvia o rugido dos espasmos de seu corpo, desejando aquele poder, desejando ser liberto. Havia um pequeno afluente de lágrimas em seus olhos enquanto já quase mascava sua imortalidade.

"- É seu desejo se tornar um imortal então? Por isso se arriscou tanto numa fantasia?"
"- Sim, é o que eu mais quero. Ser igual a você."
"- Está disposto a viver de vidas humanas, beber deles, livrar-se deles após sua fútil e tola ingesta? Com esta facilidade?"
"- Faria qualquer coisa para me livrar deste peso."
"- Peso? Tu por ventura sabe o que é carregar um peso?"
"- ..."

Me aproximei perto o suficiente para que meus cílios tocassem os dele e ele então cerrou os olhos, esperando pelo beijo negro. Continuou esperando. E esperando. Esperando. Seu coração tomado de pavor e angústia, quando ao abrir os olhos, não havia vivalma no quarto, apenas a janela aberta da cobertura e o frio rascante que adentrava o recinto. Suas lágrimas quase congelaram nos olhos e pode constatar que sua única chance havia simplesmente se livrado dele.

Já a algumas milhas de distância, sentado em um parque, comecei a pensar no sofrimento que ele estaria engendrando naquele momento. Quão terrível seria compreender que sua única chance de viver e ser como os contos de fadas se foi para sempre. Sua imortalidade, sua existência. Eu havia desaparecido e comigo sua cura, sua prosperidade, sua futura vida de Lorde. Ele desejou ter morrido, eu sabia disso. Sabia que o que fiz era pior que a morte para ele e me sentia renovado, mesmo não tendo bebido. O prazer era tanto que não precisei beber, não precisei sequer repousar no dia seguinte, apenas fiquei revendo toda a cena na minha mente e tendo orgasmos com o sofrimento e a loucura que acometeu o jovem tão jovem e, portanto, tão inconsequente. Ele não mais me veria, não conseguiria me localizar e passaria o que restasse de sua vida, insano, às ruas, caçando indiscriminadamente outra entidade que nunca acharia, ensandecido, vendo sua vida esvair gole a gole.


+++

Tenho consciente noção da minha maldade e do peso que eu sim carrego. Existem os que nasceram para morrer e os que não optam por isso. Existem os desesperados e os indiferentes, os tolos e os sábios, os poetas e os carrascos. Nenhum humano tem o direito de se rejubilar por ser poderoso o suficiente a ponto de usurpar outra vida humana e é neste pecado, que os mais débeis se perdem. Sei que sou mau, sujo, feio e inumano. Sei também que eu me criei assim. Tanto quanto sei que não desejo para ninguém mais esta maldição.



É válido procurarmos conhecer a que má e penosa servidão nos sujeitamos quando nos abandonamos ao poder alternado dos prazeres e das dores, esses dois amos tão caprichosos quanto tirânicos. // Sêneca

6.15.2013

Dying To Be With You - Eric Allaman


Dying To Be With You

Like a knife
in my heart
I'm dying
Dying to be with you
Burning inside me
Dying, dying to be

Like a moth to a flame
I'm dying
Dying to be with you
Run but you can't hide
Dying
Dying to be with you

When I first saw you
A feeling crept over me
You'd be my savior
With one kiss, you'd set me free

Your fleshand your blood
It's just a small sacrifice
Do not resist me
Eternal life has its price

I can't kill this deep desire for you
I must have the rush of capturing you
I can't save myself from thinking of you
I won't stop until the day I do
Burning inside me
Burning inside me
Dying to be with you
Dying to be with you


6.01.2013

Passa-se entre o Médico e o Monstro, mas não a original - ou em partes


"Se cada um pudesse habitar numa entidade diferente, a vida se libertaria de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a sua contraparte boa. E esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendradas pelo perverso. Constitui uma maldição do gênero humano que esses dois elementos estejam tão estreitamente ligados; que no âmago torturado da consciência, continuem a digladiar-se." / Robert Louis Stevenson

Realmente há algo que incomoda o monstro que se abstrai dentro do médico. Algo real e sólido, que mesmo ele atemporal é capaz de farejar. Algo que incomoda não na carne mas na essência. Tão estranho é o fato do monstro sentir que o médico vê a eloquência da situação.
É como sentir um espinho sendo cravado lentamente na jugular. Um espinho feito de resignação sem doses de resiliência. É como saber que há um fim permeável após todos estes anos. É como antever uma máscara caindo e que, mesmo depois da festa, insiste em permanecer galvanizada.

O monstro sente, vê e fala com o médico. O médico reage mas não toma uma atitude.
O monstro grita e pede clemência da presença, o médico se exalta sem mexer um músculo.
O monstro gira em torno de si e se agarra à lembrança mais antiga e fundamental da memória compartilhada, o médico a considera supérflua e a desintegra com um acenar.
O monstro geme, enrijece, tenta destoar do ambiente-alma em que padece por estar revolto, o médico sorri diante de um espelho ignorando-o de completo.
O monstro alterna entre as faces que possui na tentativa de chamar mais atenção, o médico reconhece cada uma delas e rompe a maldição.
O monstro se aliena e deita por sobre o próprio comprometimento, o médico se enaltece por haver vencido.
O monstro se vê aterrorizado diante da queda do seu ente pensante e chora. Chora por uma vida de cativeiro e o médico, simplesmente jaz fulminado ao chão por balas de prata encrustadas de sangue coagulado.


Logo, não há mais médico e o monstro está novamente liberto.
"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você." / Nietzsche


7.06.2012

Meu doce amigo Buer e como encontramos o menino perdido


Era noite e eu estava deitado, refletindo sobre meu dia exaustivo de trabalho. Cama com lençóis brancos e vermelhos, incenso de mirra queimando e uma garrafa de merlot aberta, jogada aos pés da cama, já pela metade. Isso, umas duas da manhã, aproximadamente, de uma mudança de sexta-feira para sábado.

Sozinho. Absolutamente sozinho. Bebi para poder parar de ouvir e dar valor à minha inapta Necromancia. Ou talvez se houvesse alguém eu não lutava em vê-lo. Passada uma meia hora, ouço burburinhos ao meu redor. Vozes pequenas, que geralmente indicam que vozes reais estão a me chamar e como o local onde moro não é privilegiadamente próximo à exterioridade, tenho certa dificuldade em ouvir se me chamarem ao portão. Ser necromante, nestas horas, é melhor do que ter uma campanhia ou um vigia de portões.

Era. Era meu nome que chamavam incessantemente.

Levantei-me, vesti-me afinal estava apenas com uma cueca branca que costumo usar na intimidade e fui atender. Em desespero, a mãe de um amigo meu que por sinal tinha um irmão menor, pedia por minha ajuda na busca deste. Talvez pela minha (má) fama registrada pelo amigo, ela sugestionou de que eu pudesse ajudar de alguma outra forma que não levando-os à polícia e perguntando a esmo - como todos fazem. Senti pena do desconsolo da mãe e decidi usar da (má) fama, portanto. Convidei-a a entrar e se acalmar, deixei-a no hall de estar e fui até meu quarto.

Não existe entidade mais poderosa neste mundo - nem mesmo eu - capaz de encontrar coisas e pessoas perdidas como o demônio Buer é capaz. Evoquei-o. Precisava. Trouxe-o oferecendo sempre o que ofereço e pedi sua ajuda. Como eu já descrevi anteriormente, as feições de Buer são como as de leão, mas ele pode falar, e possui cinco patas de cabra ao redor do corpo que o permitem andar para todos os lados sem precisar mover a face de posição. Além disso, ele é mestre em Medicina e artes mágicas naturais. Não havia, literalmente, ninguém mais capaz de me ajudar neste momento. Algo que ainda melhora, é que ele só pode ser visto por pessoas especiais - ou seja, somente eu o veria durante sua ajuda, tanto que não houve sequer um petit frisson quando eu voltei de meu quarto, já vestido, com aquela imagem ao meu lado que somente eu podia ver. Éramos nós quatro, Buer na frente, me guiando até onde o menino estaria. A mãe sem entender como eu era tão categórico sobre que posição tomar, o filho mais velho - meu até então amigo - temeroso e o último da fila. Não pudemos tomar o carro, Buer não é afeiçoado à máquinas humanas. Tive de explicar isso delicadamente aos parentes do sumido.

Andamos por aproximadamente oito ou nove quilômetros, entre ruas e ruelas, pistas, planícies e planaltos e por fim, debaixo de uma árvore semi-morta, estava o corpo estendido do menino. Ensangüentado com uma evidente ferida em sua testa provocada por algo maciço. Uns dois quilômetros antes, o próprio menino já nos acompanhava, ciente de sua morte e de certa forma, velando por seu pequeno corpo inerte, vítima, ainda não sabendo do que e porquê. A mãe quando pressentiu, caiu novamente em prantos e o filho mais velho tentou consolá-la. Eu simplesmente considerei meu trabalho feito e, enquanto agradecia a Buer e o libertava do meu feitiço, o filho mais velho veio até mim, interrompendo-me.

- Pára, eu sei que você pode mais do que isso. Você não acharia meu irmãozinho aqui somente por intuição e sei que não foi você quem fez isso com ele, afinal ele também já foi seu irmão mais novo. - Em prantos - Por favor, pelo amor que você tinha por mim e que eu ainda tenho por você, faça alguma coisa por ele. Minha mãe, meu pai, meus familiares e ninguém mais do que eu pode viver sem ele. Você acha justo o que fizeram?

- Acalma-te - Eu pedi - Não trata-se aqui de uma questão de justiça. Trata-se de feito e desfeito. Uma vez eu cedi a tudo por você e levei milhares de anos pra recuperar. Me pede agora para arriscar novamente tudo o que tenho?

- Deixe que o risco seja meu. Eu morreria no lugar dele. Se é o que quer saber, pode trocar. Troque-o, por mim, não é assim que "vocês" fazem?

Voltei-me a Buer, que já chorava.

- Quem nos trouxe aqui esta noite não fui eu, foi um grande amigo que tenho muito antes de seus primeiros pais pensarem em nascer. Ele chora pela morte do seu irmão e chora por ver o seu sofrimento. Talvez ele chore ainda mais ao poder prever o que eu pedirei a ele que faça. Ele é o Mestre no que faz e somente ele, agora, pode me ajudar a ajudar seu irmão.

- Amigo - Dirigi-me a Buer - Preciso da sua ajuda pelo meu grande amor. Tu que és o mestre nas artes médicas, há algo de humano que possa ser feito pela ferida e pelo corpo morto? Da alma eu posso cuidar, sabes.

- Meu senhor - Ele a mim - Há ainda uma maneira mas dependerá mais do senhor. Teu sangue, por sobre a ferida pode curá-la. Minha saliva, pode unir as peças ruídas e o corpo restaurado. Mas será que a alma vai querer voltar?

- Nem que eu precise arrastá-la e brigar com Lúcifer novamente, eu farei. Meu medo é que ele deixe de ser humano, sabemos que corremos este risco.

Eu falava, na visão do amigo e de sua mãe, com um nada sem-forma. Ela, de tanto chorar, já beirava à insanidade então minha preocupação era menor. Ele, por me conhecer e aos meus prodígios, temia, tremia, chorava.

- Ele será um humano diferente, sabes. Mas vale a pena correr o risco? Dependerá somente do senhor - Foi a decisão de Buer.

- Vale, comecemos.

Em direção ao corpo, afastei a mãe e pedi que seu filho mais velho a acolhesse. Com a unha do anelar direito, cortei parte do meu sistema venoso do antebraço esquerdo e deixei que algumas gotas de sangue fluíssem até diretamente a marca protusa da contusão que havia sido criada na face tão imaculada da criança. Vítima. Em questão de segundos, a ferida fechou e o sangue parou de escorrer. Buer veio em nossa direção, sempre sem se virar e com sua língua enorme e grossa, lambeu a ferida. Sua saliva com meu sangue reconstruíram toda a deformidade que havia sido criada. Pronto, corpo refeito. A alma acompanhava-nos sempre surpresa por nunca imaginar tal feito. Virei-me pra ele e perguntei:

- Você quer voltar? Não pela sua mãe ou pelo seu irmão, mas por tudo o que você ainda pode fazer? Ou prefere descansar como um doce anjinho ao lado do seu Senhor e de seus pais? - Ele ficou em dúvida por alguns instantes - Mas não temos muito tempo, logo, meus irmãos virão buscá-lo e não podem me ver aqui, fazendo o que estou fazendo.

Ele só meneou a cabeça, afirmativamente. Pedi sua mão e uni à mão do corpo sem vida. Cantei uma música antiga de uma só nota, os humanos não puderam ouvir, Buer continuava a chorar.

- Mi Lorde, desde mil anos não o ouço. Desde aquele outro que o senhor trouxe. - Falava, chorava, rugia de uma forma ensurdecedora - mas os humanos não ouviam ou viam aquela belíssima imagem.

A criança deu alguns espasmos, abriu os olhos e chorou. Levou a mão à testa e chorou ainda mais. A mãe e o irmão mais velho o abraçaram tão fortemente que temi pela vida da criança novamente. Ambos, ajoelharam-se e declararam seu agradecimento a mim, eu, recusei. Disse que não fizera tudo sozinho e que se deveriam agradecer a alguém, este alguém era a Seu Deus e não a mim. Deixei-os sozinhos, aos prantos e retirei-me, caminhando com Buer. Não me virei sequer.

No caminho de volta, pude andar na minha velocidade então em menos de dois segundos já estava de volta. O demônio ainda me acompanhava, o agradeci imensamente e suas palavras foram as mais humildes possíveis sobre como amigos ajudam amigos. Por fim, ele se virou e partiu do meu encantamento. Tomei nova ducha e voltei à minha meia garrafa de merlot, isso já quase clareando o dia.

Quando o sol nasceu eu já não via mais nada, adormecido.



***

Não mais vi a família, soube que se mudaram do bairro. Talvez por medo, talvez por medo de mim. O meu velho amigo e outrora amante ainda tenta se corresponder comigo por emails mas eu ignoro. Aprendi a ser sozinho e para aqueles que não me compreendem e me temem, eu só tenho meu lamento. Não gosto de aparências falsas. Meus amigos de verdade estão em toda parte, basta que eu os chame. E eles a mim, sempre.

FIM.

5.14.2012

Afogar: afogo-me esperando por um contato teu que nunca virá



Nunca virá mas eu continuarei esperando, não sei porquê, não sei de onde viria, não sei qual a tua intençao. Preciso de um 'olá', de um sorriso, de um aperto de mão. Antes que eu sufoque.



Angels Or Devils

"
This is the last time
that I'm ever gonna come here tonight
this is the last time - I will fall
into a place that fails us all - inside"

1.01.2012

Pássaros e amores


Foi num dia comum no Japão e numa praça esse acontecido.

Nessa primeira foto, não se sabe como o pássaro morreu. Estava ali no asfalto inerte, aquele corpinho sem vida e sem seu canto. Seria um fato corriqueiro, mas o fotógrafo fez a grande diferença.

1a-morte.jpg 

A Solidariedade 

Talvez até por intuição, segundo o relato do fotógrafo, essa ave que chama o companheiro já sem vida, permaneceu durante o dia todo pousada próximo à ave morta parecendo pedir algo.

Pulava de galho em galho sem temer os que se aproximavam até chegar bem próximo ao fotógrafo.

2-a-solidariedade.jpg 

A Solicitação

E cantou num tom triste. O homem imaginou que ela pedia algo. Ela voou até o corpinho, pousou como querendo levantá-lo e alçou vôo até um jardim próximo.
E o homem entendeu.
Foi ao meio da rua, retirou a ave morta e colocou no canteiro indicado.
Só então a ave solidária levantou vôo e atrás dela todo o bando.

3-a-solidao.jpg

A Despedida

Num olhar triste tendo a consciência do companheiro morto, como num último gesto de respeito e talvez até devoção a ave permanece alguns segundos junto ao corpinho antes dele ser retirado da rua para o jardim, a seu pedido.

4-a-despedida.jpg

Uma Questão de Amor e Carinho

Num ato emocionante todo o bando segundo o relato de testemunhas, com dezenas de aves sobrevoaram o corpinho do companheiro morto antes de partirem. A foto diz quanta verdade existiu naquele momento de dor e respeito.


5-uma-questao.jpg

Um grito de dor e lamento

Aquela ave que fez toda a cerimônia de despedida, quando o bando já ia alto, inesperadamente, só ela voltou ao corpo e num grito de não aceitação da morte, ainda tenta chamar o companheiro à vida ou uma despedida de amor e carinho como quase não mais existe entre os homens racionais aqui da terra.

6-um-grito.jpg

5.25.2011

Juri

"... e o júri ainda não havia se decidido sobre o veredicto ..."

Me sinto consternado, preciso escrever e não sei por onde começar. Perco-me em idades aleatórias sem um fundamento. Não consigo distinguir entre um azul e um cinza, não há conforto sequer humano que pudesse aplacar, agora, o que antevejo.



Encontro-me palpavelmente lacerado, incumbido ainda de cuidar de minhas próprias feridas e desamores internos. Em alguns momentos enfrento demonios em outros os evoco, peco em acreditar na fragilidade alheia, me corrompo por pouco e vejo ressoantes pesares - Nada mais indigno do que já tenho, seria inconcebível.
Não haveria palavra certa que fosse mais escura do que o sangue que se esvai, agora. Nenhuma prece alçaria maior altura do que o aroma desta infelicidade imersa em soberba indeclarada. Caso houvesse ainda luz ela seria uma mescla de melancolia em desejo e feitiçaria. 
Não há uma composição.

E de falar no que não há, esqueço do que carrego. Em vermelho, com cheiro de mil mortes puras e dez mil impuras, moldado em inverdades e vidas contrabandeadas por eras. No dia que puder ser compensado, bom, ai quando a decisão for tomada já me darei por inexistente pois serão mil mortes a responder e este peso eu não suportarei, peso contínuo até este mesmo dia. Declara-me-ei inocente, faço o que faço (e sou acusado) para continuar a existir e se é explicado assim poderei ser absolvido por eles, sabendo que nunca o serei por mim já que cada um destes ainda vive em mim. 

Comigo, sendo eu e mutando dentro de mim. Cem mil cofres com um milhão de segredos abertos, não há nada que eu não possa ver se quiser. E aprender. Eu já citei que aprendo com o poeta, o músico, o escritor, o sábio, o mendigo, o incoerente, o especialista e é assim em toda espécie de conhecimento possível. O que ofereço em troca? Meus lamentos, como faço agora. Se houvesse uma Lei real de Troca Equivalente eu seria punido. Tomo tudo e ofereço meu tudo, que não lhes vale nada.

Bom, mas quem está atrás de julgamentos nos dias de hoje, não é mesmo?


3.25.2011

O velho e a Morte



Um miserável velho se afligia
Com um feixe de lenha que trazia:
Jogou com ele ao chão, já de cansado,
E chamou pela Morte, agoniado.

Aparecendo-lhe esta, perguntava
Com que fim tão solícito a chamava.
- Rogo-te – disse o velho, de mãos postas
- Que me ajudes a pôr o feixe às costas.



Tradução de Couto Guerreiro

3.23.2011

Música da Morte

A música da Morte, a nebulosa
estranha, imensa música sombria,
passa a tremer pela minh’alma e fria
gela, fica a tremer, maravilhosa.

Onda nervosa e atroz, onda nervosa.
Letes sinistro e torvo da agonia
Recresce, numa lancinante sinfonia

Sobre, numa volúpia dolorosa.

Sobe, recresce, tumultuando e amarga
tremenda, absurda, imponderada e larga
de Pavores e Trevas alucina.
E alucinando, e em Trevas delirando
como um ópio letal, vertiginando meus nervos
letárgica, fascina.

3.17.2011

Red Luna

Não considero uma nova Fase Lunar. Não completamente.

Estou gasto, mes amie... Fracassadamente deixado para apodrecer sozinho. No escuro e no limo que eu mesmo cultivei para lançar meus inimigos. Meus maiores amores vão sem ao menos despedir, novos amores os tomam. Para ser sincero, estarei confessando algo a quem me lê, agora: Eu tenho uma Maldição. Uma maldição que me traz à mente tudo o que quero saber. Meus irmãos chamavam de o "dom da AnteCiência". Em termos médicos explico como uma facilidade de cognição ou aprimoramento que faz com que o individuo (ou monstro, no meu caso) tenha um melhor reflexo neurossensorial e organoléptico a uma determinada situação, i.e., aquele individuo (enfim...) antevê e reage instintivamente a mudanças abruptas e/ou subtis à sensibilidade - motora e funcional. Digerindo, é como prever uma situação. Peguem um reactivo e multipliquem por mil. Peguem este mesmo individuo (ou, esquece) e tornem-no um monstro ou fera ou demonio... este será eu. Melhor, meu dom me permite antever tanto a parte substancial deste mundo quanto a outra parte, a emotiva límbica irracional. Em suma, posso prever tudo o que quiser e as respostas a tudo vem à minha mente. Foi assim minha aprovação em tudo que fiz na vida humana, antes mesmo de ser Fera. E agora, bom, agora só piorou.

Posso ser o que chamam de sensitivo, mas não quero isso, não quero saber de coisas que me afetam tão diretamente. Meu amor tem um novo amor - é o tipo de coisa que não quero saber. Mais, eu vejo a face deste impostor emocional a cada vez que fecho os olhos. Minhas entranhas mortas e putrefatas se refrigeram e sinto uma estranha sensação de dor, coisa que tecnicamente não deveria sentir. É visceralmente enjoativo. Meu coração morto dói, minha carne suja dói, minh'alma ou o que restou dela dói, minha vista dói e mesmo com meus olhos nas sombras.

Neste momento estou mal. Mal, mau, enjoado, dolorido, agressivo, com a boca cheia de sangue por tê-la devorado internamente de rancor, minha hematolagnia dispara e meu coração está partido.

Minha mensagem aos meus amigos que lêem - e que tive a prova recentemente que lêem - é esta: Não se apaixonem, não amem, não a estes mortais. Não houve sequer um que tenha mantido a sua palavra em nos amar depois de conhecer nossa verdadeira forma. Sejam vocês quem forem, não amem. Se amem, matem-nos agora e dêem um fim a isso. Depois, se houver ainda tristeza, façam-se presentes no meu banquete onde devoraremos estes sentimentos puros e carregados, regados a sangue e vísceras.

3.08.2011

Poissons (iv)

Todos mortos.
Envenenados com cicuta.
Não há mais Esperança, ela se foi quando adentrou cegamente o Muro dos desesperados, em busca de alguma espécie de subterfúgio lúdico.

Não peço perdão, inclusive.

Tampouco deixarei de ser Pássaro, ainda.