Mostrando postagens com marcador Poe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poe. Mostrar todas as postagens

5.03.2014

Dor póstuma



Finalmente eu conheci a dor que, frequentemente, impunha a afligir aos meus.

Passado este tempo em que não escrevo e tantas coisas quanto possíveis aconteceram, eis que retorno ao seio da Solidão que é mãe. E ao conforto do Desconhecido, que é o pai. Estou perdido, finalmente reconheço, mas ainda mais trágico é perceber que não há disposição para ajudas. Provavelmente se trata de karma – se eu acreditasse em GUZEN, o que não acredito – e assim preciso afirmar porque se nalgum momento cogitar ser punição pelo que já havera feito, então, meu pobre mundo, hei de sofrer ainda exponencialmente mais do que já sofro e também, hei, de descontar no mundo em que piso até então.

Não haveria mais dia iluminado ou noite calma uma vez que eu libertasse cada um dos meus demônios. Não haveria paz quando eles atravessassem o primeiro dos nove portões do Inferno, dali em diante. Voltaria a crer num mundo de papelão que precisa ser esmagado. Reconheço que muito laborei para chegar a esse momento, o da possível Redenção, porém não questionei a maneira que ela se achegaria a mim; em qual momento, sob qual circunstância.

Expeli cada um dos que me acercavam para um mundo brutalmente agressivo e desconcertante, pari dores inenarráveis, engendrei bestas que devorariam apenas com um olhar, partilhei da miscigenação de medos e angústias. Feri e, portanto, fui ferido. É a tal necessidade de se sentir vivo que nos considera a violência para com o outro. Necessidade, orgulho, medo. Perdi tantos bens quanto possível seria contar, perdi a pessoa mais importante da minha vida e pela qual meu mundo desde então se reduziu ainda à uma menor gama de cores, odores e sabores. Ganhei novos medos, receios. Não é um troca justa final mas valeu para me trazer até este ínterim reflexivo irrelevante.

Não há mais prazer em nada do que faço ou crio, em mais ninguém e acredito que por essa perda da fascinação do mundo as pessoas estão me deixando e partindo. Ou isso ou minha evidente fúria, lógico. Minha condensação de centralidade racional me deixa ao passo de que meu cataclisma emocional se eleva, a passos largos inclusive. Meus temores agora tomam forma física neste mundo e se tornam mais perigosos, não somente pelo que podem fazer a mim mas pela falta de autoridade com que lido com eles agora. Coloquei-me aos pés da Morte e ela ainda assim não quis me levar, engraçado, não?

Durante boa parte da minha existência me vangloriei de estar liberto do conceito da moralidade e, agora, vejo que estava mais enraizado a isso do que jamais poderia imaginar. Talvez o Destino seja afiado também aos deuses, eu desconhecia essa possibilidade, afinal. Simplesmente me sento à margem do mundo agora, sem ninguém com quem possa contar ou conversar, dilapidando minhas ações futuras, concorrendo com o Tempo na medida em que passamos sem levantar rastros. Aqui então minha maior perda: passei tanto tempo evitando o mundo que, quando infelizmente fui tragado para ele mal meio século após, sou repelido naturalmente. Será que o mundo de hoje tem uma particular 'imunidade' a nós? Não seria uma surpresa. Os homens andam pequenos, os sentimentos ainda menores, as ações então, nulas. Mesmo não sendo um homem me caracterizo também com estas mesmas vestes. Meu medo e minha força me reduziram então a não ser mais adorado? Como quando acontece aos deuses pelos quais não oramos mais, hei de desaparecer? Fácil assim? Seria perfeito.

Há algum tempo disseram-me que "quanto mais próximos dos deuses estamos, mais sujeitos aos demônios e tentações nos colocamos" e vejo que estavam certos. Nada ofende mais à Realeza do que algo que se aproxima, sem ter tido a noção fundamental necessária para tal. Nenhum professor gosta de ser corrigido por um aluno, isso é evidente e talvez funcione assim neste mundo todo. Nenhuma evolução pode ser rápida demais ou agressiva demais a ponto de se mostrar como ameaça.

Bom, comecei a divagar onde não deveria. O que sucede é que à minha maneira alheia de ver o mundo, logo não estarei mais nele. Os preparativos estão sendo feitos já, mas ciente de que isso não importará muito. Quem nunca teve companhia em vida não a terá na morte, mesmo esta última sendo mais duradoura. Se bem que, quem nunca desejou companhia em vida por que a desejaria após?

Gostaria de pedir perdão aos humanos que eu magoei e feri, agredi, esqueci, brinquei, descartei, desejei, machuquei física e emocionalmente, enganei e por fim, devorei. Eu realmente sinto muito. Mas vejam pelo lado vingativo: estou sofrendo dez vezes mais do que vocês agora. Considerem então meus pecados para com vocês recompensados com minha punição severa e eterna de agora em diante.




A maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero. Henry David Thoreau

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar das fontes igual à deles;
e era outro o canto, que acordava
o coração de alegria
Tudo o que amei, amei sozinho. Edgar Allan Poe


3.26.2013

Do que se trata um sonho se não há Felicidade nele?


Era noite, como é agora, porém ontem. Ou anteontem, não me recordo. Chovia, também.

Estava eu a perambular pela minha própria vida, começando a adormecer - ao menos eu achava que estava. Pensei em como as coisas podem fugir do nosso controle e como as pessoas em si são efêmeras em nossas vidas. Ou não são, e nos levam a fazer loucuras por amor ou ódio. No meu caso, pelos dois.

Tinha um livro em minhas mãos, se bem me recordo. Ou era uma adaga? Tudo está tão caótico na minha lembrança agora. Havia um aroma que me perseguia e ainda não consegui descobrir do que se tratava. As Damas-da-Noite estão florescendo, provável, já que a Lua está para mudar.

Lembro-me de deitar em minha cama e lágrimas desciam-me aos olhos, mas não eram lágrimas comuns, havia fogo nelas. Um fogo líquido que eu já mencionara antes. Sentia minha pele arder e meu coração inchar como um balão de festas de aniversário. Lembro ainda de colocar os fones de ouvido e me propor a adormecer ouvindo alguma canção, era cedo ainda. Logo o sono chegou.

Durante o sono, me vi sonhando com a perseguição. Como um lobo segue sua presa pelo inverno europeu. Eu era o lobo, voraz e sedento não pela carne mas pela alma dele. Depois eu era como um corvo que o seguia apenas para agourar sua vida. Então eu era um verme gigantesco que se deliciava com sua carne morta, deitado no caixão ordenado. Por fim, eu era o demônio que exigia sua eternidade.

Recobrei a consciência, eu era homem novamente e estava à porta de alguém, não sabia exatamente quem até chamar pelo seu nome involuntariamente. Lembro da cor da sua varanda - verde-água - e de grades brancas que subiam na altura da cintura acima. Lembro que havia umas pequenas mudas de rosas em um canteiro e um cheiro de laranja-da-terra, barro, crisântemo e jasmim. Chamei seu nome novamente e eis que, àquela hora da madrugada, ele me atendeu, aturdido e desacreditado. Aproximou-se de mim, ao portão, questionando minha presença. Pedi o convite para entrar, ele hesitou. Pedi novamente e ele cedeu.

Daqui em diante só me recordo de cenas e um borrão inunda minha memória: com a velocidade de um ciclone eu entrei, agarrei-o fortemente, imobilizando seus movimentos. Beijei sua boca ferozmente e contra à sua vontade, desci com minha língua até seu pescoço e uma veia pulsava, quase que chamando por meu nome. Rasguei sua jugular com minhas presas e bebi até me fartar e engasgar, enquanto sua própria vida escoava e se juntava à minha. Bebi parte do seu cerne, mas o deixei ainda consciente - um pouco, queria que ele testemunhasse o erro que foi me convidar a entrar. Arrastei-o até o interior de sua casa e o movimento fez com que sua família se exaltasse. Na mesma velocidade, quebrei o pescoço de sua mãe com um gesto simples, para que não sentisse dor e rasguei seu pai do abdome para cima, após enfiar minhas unhas em suas vísceras e dilatá-las forçadamente. Havia sangue por todas as partes, isso colocou-me em frenesi. Levantei-o, o pouco que sobrara da sua vida e o beijei novamente, forçando seu pescoço para estancar a hemorragia já que minha intenção era beber ainda mais, de lugares diferentes, e assim o fiz. Bebi do seu peito, do seu pulso, da sua coxa, da sua boca e voltei à jugular. Já exangue, seus olhos se tornaram pálidos e enevoados, sua boca não mexia, completamente destroçada pelo meu beijo. Para não dizer que ele se foi sem dizer nada, uma única frase soou de sua boca, com muita fragilidade: "- Eu ia amá-lo, se tivesse me dado tempo". Eu sorri abertamente, quase como um monstro. Mais, exatamente pior que um monstro e mais alto que um demônio faria. Segurei novamente seu corpo e me juntei a ele, agarrando-o fortemente num abraço culposo.

Então despertei, exaurido do sonho e temeroso, nauseado e com dor de cabeça.

Porém, ao despertar, continuava a sentir aquele aroma inebriante e ferroso. Olhei as horas no despertador, quatro e quarenta e seis, tiquetaqueando. Levantei o lençol e pretendia ir ao banheiro jogar uma água gelada no rosto quando senti algo úmido. Passei a mão ao longo da cama e havia algo desconfortante lá. Acendi a lâmpada do abajur e eis que o corpo estava deitado junto a mim e a cama era uma sopa de suor e um pouco de sangue - o que havia coagulado dele.

Nada daquilo era sonho. Eu o matei e fiz com prazer. Matei seu corpo, sua familia, sua alma e seus sonhos e nada me deixou mais feliz. Voltei a dormir, deixando tudo como estava, mas agarrado ao cadáver como um boneco.



"Quando um louco lhe parecer completamente lúcido - eis a hora de colocar-lhe a camisa de força."
Poe, E. A.

1.01.2012

Réveillon


Para que serve o réveillon?



Entendo que era para festejar a passagem de ano e os novos votos, mas para que ele serve realmente? Talvez eu esteja frustrado porque o meu não rendeu os frutos que eu esperava, admito. Há quatro anos eu acompanho este processo de fireworks e hugs a desconhecidos e a cada ano parece que as coisas mutam de uma forma desordenada. Neste de ontem então, nem se fala. 
Eu poderia ter ido mais longe, poderia ter assistido de cima, da melhor vista mas me entreti junto aos outros - maldita hora. 

Acredito que se eu, naquele momento, tivesse mostrado um décimo do meu dom não estaria eu aqui agora, desorientado por ter perdido um grande amor. 
Cada cor que subia ao céu iluminava parte do meu coração, porém, passado este maravilhoso espetáculo, cada cor desbotou e se associou à mágoa e insanidade, tornando-se algo violentamente arrebatador. 

Eu o abracei mas não o beijei. Fiquei devendo-lhe o primeiro beijo do ano de Dois Mil e Doze naquele clima perfeito. Parte por vergonha parte por exposição. Não são todos que, mesmo em pleno século XXI e em terreno público, admitem beijos entre homens. Principalmente quando a família está nas proximidades, é aquele medo mesmo sabendo que eles sabem de tudo. 

Porém eu o abracei, vanglorio-me! Fiquei abraçado durante os dezessete minutos em que explosivos iam ao céu e se tornavam sonhos. Cores misturavam e tingiam o mar logo abaixo. E aquele calor, aquele cheiro, aquela sensação de proteção, Tudo aquilo me exauriu da forma mais bonita que eu pude perceber posteriormente. Então eu estraguei tudo, com minha sutileza de um patrono elefante idoso prestes a morrer.

Dei as costas a ele e parti, após uma acalorada discussão. Nunca deveria ter feito isso porque além de desrespeitá-lo eu o ofendi. Dei as costas a quem amo e aquele gesto significou minha despedida do seu coração. Perdoa-me, Céus, pela insanidade e Poe nunca fez - paradoxalmente - tanto sentido. Tenho vivido na Loucura acreditando ser realidade e quando me estabeleço são, ela se rompe.


Agora, que não passei pelo teste, envolvo outras almas enquanto falo. Não poderia amá-lo menos, seja reveillon ou qualquer outro dia. Perco-me no que sou quando não estou com ele. Amar é estar com o outro onde quer que ele esteja.




3.15.2011

Loucuras

Para exemplificar, cito dois grandes poetas:

"E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade, também."
"I became insane with long intervals of horrible sanity."

Creio que depois das melhores citações possíveis não há necessidade de falar mais nada, concordam? Caso precise, direi que minha insanidade está em níveis críticos. Mais um pequeno estímulo e ela há de implodir arrastando todas as estrelas que estiverem próximas a um raio de  oitocentos mil anos-luz, i.e., compreende a mim e a todos vocês.