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8.02.2013

Lettere ao amigo há muito derrotado, porém não ausente de minhas memórias e apreço


Caríssimo amigo Buer,



Escrevo-te após todo este tempo passado, desculpando-me pela ausência de minhas epístolas. Ando tão atormentado e pusilânime que faltam-me forças até para redigir-vos. Tenho tanto a dizer-te que nem sequer sei por onde devo começar. Começo pelas novidades amorosas e sentimentais, pela raiva que esta situação mesma anda me provocando, pelos infortúnios da vida humana, pelas preocupações que me acercam ou questionando como anda vós?

Tratarei de não ser altruísta e falarei de mim, portanto, ao começar.

Desde que meu antigo amor deixou-me, venho sofrendo de amnésia, meu caro amigo. Não daquelas percepções errôneas que sofremos esporadicamente, não, algo mais severo. Algo que se mescla com meu passado emaranhado ao meu futuro e acerca de fatos premeditados. Está deveras complicado acalentar minha consciência ultimamente, parece-me que ela tem obliterado meu senso de julgamento. Tentei abstrair-me de mim com músicas, composições literárias, novas intenções, desejos, café, distrações mundanas e fugazes. Não estou sendo feliz no empreendimento!
Há dias que n'alma me tem posto um não sei o quê,
Que nasce não sei onde,
Vem não sei como e
Dói não sei porque. // Camões
Divago entre a leviandade e a plenitude, a cada alvorecer. Tento atrelar minha sanidade em pequenos recomeços, ao amanhecer, visando assim uma estabilidade emocional ainda que deflagrada, submissa. Houve um ínterim romântico neste período, amado amigo, que mais me rendeu preocupações e dívidas do que companheirismo e cumplicidade. Fui enganado por diversas vezes seguidas, vê amigo meu, que reviravolta exemplar do destino? Coube a mim um desfecho não muito agradável uma vez que notei que estava me tornando vítima - em diversas aceitações, devo salientar - numa relação que não havia fundamento e sede de manutenção. Eis que hoje estou refazendo o que posso, confessando o que posso, criando o que posso e reverberando ainda na questão de não querer terminar sozinho.

Muita coisa mudou, precioso amigo. Da vida humana à celeste. Falemos da celeste.

Bom, parece que meu posto está ainda vago pelo que ouvi de meus irmãos. Passado todo este tempo Ele ainda não conseguiu alguém que fosse capaz de aguentar o peso imenso que eu suportei. E pensar que Ele não nos fez insubstituíveis, oras. Ainda estes irmãos me perturbam, cumplice, sobre as coisas da vida. Alguns me procuram com ameaças sobre ruínas da Cidadela de Prata (recorda ainda da magnificência da nossa vizinhança?), outros apenas vem aprender (e questionam-me sobre a Abdicação), poucos tentam se manter incólumes e ocultos e uma mínima parcela ainda se mostra leal a mim e aos meus preceitos. São estes últimos que me dão força, compadre. Inclusive, um amigo em comum, mais próximo seu do que meu, esteve recentemente vigiando minha nova aquisição. Fiquei intrigado com a posição dele, enfim. A cada dia perco mais e mais minhas forças, definho a nove vezes nove, em matéria celeste ao passo de que minha forma humana exerce maior influência neste mundo. Sabe, meu caro, que por noites eu me arrependo de ter descido? Me descubro reconhecendo que aquele por quem desapercebi de toda minha posição e força, que sequer anda mais por esta terra, não mereceu o que deixei. Tudo, meu amado, que eu podia antes se mostra mais complexo e delicado agora. Não porque perdi em absoluto minhas capacidades, mas porque estou perdendo meu juízo celeste e, ao passo que minha presença se torna maciça, meu discernimento encolhe e regride. Vês que derrota sofro antes mesmo de lutar? Não vou me render e não pretendo tão cedo voltar, mas, temo também deixar esta bomba em contagem regressiva. O que me aconselhas tu, nobilíssimo Leão?

Na minha vida humana, bom, como já disse, estou empreendendo um novo romance. Ele é deveras belo, o jovem, mas é tenso, frágil, volátil, temeroso e ausente. É sagaz, devo salientar, e me sinto confortável em abrir parte da minha outra vida com ele - mesmo que omitindo origem, vivência, capacidades e afins, seria muito, não? Recorda-te do último a quem nos revelamos? Tentei a abordagem de não mentir, apenas omitir, e revelar o que for questionado. Tem dado certo até agora, mas em dias como ontem, hoje, amanhã, bom, sinto que minha tensão sobrepuja qualquer intenção boa que eu possa ter. Temo que eu possa estar fazendo mal a ele de muitas formas diferentes, só por estar presente. Acha que devo me desvencilhar desta relação enquanto é cedo? Acredita que possa dar certo? Tu ainda tem o dom da visão, não? Diz-me que rumo tomar nesta questão? Afora isso, no âmbito profissional, nunca me vi tão absorto e supérfluo. Tanto que chega a me incomodar, tendo visto meu passado de demasiada atenção ao trabalho braçal e intelectual. Os humanos tem um ditado que diz "sorte no amor, azar no jogo" e que pode ser o oposto. Bom, eu passei por um momento de solidão amorosa que coincidiu com minha elevação profissional. Agora, estou engendrando nova relação, será que perderei os benefícios portanto?

Ainda me isolo, caro andador amigo, mais tempo do que devia. Eu mesmo reconheço. Me isolo no mundo da música, da literatura, da simples arte da alienação e, por mais que tenho evitado, acabo me voltando para o outro mundo eventualmente. Algumas vezes penso em ir vê-lo, logo recobro a sanidade e me recordo do porquê não poderia. Então penso em convocá-lo e novamente caio em mim. É mais do que evidente que eu sinto tua falta mais do que qualquer um. Tu eras a única e pouca família que eu já me orgulhei de reconhecer. Fico pensando na tua calma, virtudes, sabedoria, inteligência, humor, sagacidade e bem-aventurança. Tudo isso sempre vai me remeter a ti e à tua sublime figura. É notório também, caro amigo, que eu queria mais do que este mundo pode me dar e não sei mais como extrair vida dele, quando passo a maior parte do tempo desejando não estar mais nele.

Enfim, acabei redigindo mais do que queria. Sei que menos do que tu gostarias de ler, afinal sempre devorou minhas palavras com tanto afinco, meu mais precioso ouvinte e leitor, que contemplava seu interesse com minhas lágrimas. Neste momento eis que estou solitário, pensativo, resiliente no que posso ser, categorizando e avaliando cada probabilidade possível de uma saída verdadeiramente sadia a tudo que venho passando, nestes últimos tempos. Gostaria de um retorno teu, amigo. Da maneira que achar melhor. Apenas lembre-se de que eles não estão acostumados à tua figura então, caso resolva aparecer em público, estejamos preparados para estacas, gadanhos, foices e tochas, além claro de cruzes e orações das mais variadas possíveis (risos).



Terminando, eu o adoro. E espero que minha mensagem chegue a vós.


Do teu mais terno amigo,
L.

7.02.2013

Você que quase soube da verdade mas era alheio à realidade, eis que veja que não importou muito


Noite quente de verão, à beira-mar.

Mesmo com minha aversão instintiva à água corrente, acabei por deixar-me à deriva numa noite em que não havia Lua brilhante no céu. Imaginei que, desta forma, talvez o feitiço antigo sobre a proibição de nossa espécie à presença de marés pudesse ser de certa forma amenizado. Bom, era apenas uma tentativa que logo se mostrou infrutífera pois, a poucos metros da areia da praia que eu margeava, eu já me sentia encolhido e subitamente enjoado - mesmo não havendo algo internamente fisiológico que pudesse causar tal desconforto. Evitando assim colocar-me em risco, resolvi deixar o ambiente.

Logo ao me virar, pude notar um pequeno grupo de jovens que vinham alegres pela calçada, cantarolando alguma música moderna com suas rimas pobres e letra que faria um boêmio do século XVII se sentir enojado com a futilidade e decadência do pudor humano atual. Evitando o contato visual e assim mostrar minha atual fragilidade, coloquei-me de lado enquanto eles passavam. O bando era composto de dois jovens rapazes e quatro meninas, todos bem bonitos e atrativamente sensuais. Ainda com a intempérie da minha bagunça orgânica, pude ouvir que um dos jovens cochichou ao colega mais próximo a seguinte frase com exatidão: "- Nossa, mas que homem mais estranho. Parece um vampiro" e então deu um sorriso afetado, o outro acabou sorrindo também. Achei interessante a observação do jovem pois, de tantos adjetivos, qualidades e defeitos, ele enunciou justamente a minha raça, sem poder logicamente ter a garantia. Parei exatamente onde estava e passei a acompanhar sua reflexão, ainda sobre mim, com os colegas. Uma das meninas anunciou, ao me ver: "- Não olha agora mas estranhamente seu vampiro está parado ali na esquina, como que esperando" e então logo todos olharam em minha direção e sorriram, comprovando o fato. Eu, àquela distância, pronunciava um sorriso convidativo e intimidador, bastava observar pelo ângulo correto.

Permaneci então à sua espera, aguardando a decisão do jovem se viria ou não ter comigo. Óbvio, ele viria!

Deixou os colegas seguirem e deu meia volta, seguindo em minha direção que o aguardava pronunciando ainda mais minha intenção. Forcei deveras minha presença pois, ainda à beira-mar, me sentia vulnerável. Em alguns instantes estava ele defronte a mi e então pude notar como era realmente belo, com um ar infantil mesmo com alguns fios de cabelo grisalhos em sua cabeça, um sorriso expressivo, lábios sedutores e um corpo atlético - um profissional na arte que se considerava a melhor qualidade. O tempo todo em sua mente só girava uma palavra: VAMPIRO. E ele estava certo afinal.

No seu misto de curiosidade e receio, ele ousou verbalizar a suspeita, questionando-me. Como eu já por diversas vezes dissera, não oculto a quem perguntar a verdade e simplesmente confirmei. Ele parecia atordoado mas ainda, também dentro da lógica humana, desconfiado. Havia uma dedicação na intensidade com que ele desejava que aquilo fosse verdade, uma necessidade quase palatável. Era como se ele precisasse contar com aquilo, como se estivesse esperando há muito tempo, como se ansiasse mais do que a própria vida. De todos os que já possui, talvez este tenha sido o mais consciente da minha índole e intenção desde o começo.

Nos apresentamos e trocamos um aperto de mão formal, ele ainda excitado e reagindo bruscamente ao sentir meu toque gélido. Seus olhos brilhavam à menor luz exterior e seu interior queimava. Mais um adendo, talvez ainda de todos, este tenha sido o que mais facilmente se entregou pois não precisei sequer de um esforço ilusionista para seduzi-lo a me acompanhar. Ele o fazia com atitude e se valendo de uma adorável surpresa que estaria para ser revelada. Decidimos então nos instalarmos num local ali perto, sem hesitação disse-lhe que não o levaria à minha morada ainda e ele não se incomodou - estaria habituado a ocasiões de nenhuma formalidade? Provavelmente. Havia um hotel muito conhecido naquelas redondezas e ele se mostrou fascinado quando entramos no lobby e eu, sorrateiramente induzi à recepcionista com imagens mentais, poupando assim sua morte ao reconhecer meu rosto futuramente, e dando entrada numa das melhores suítes que poderia haver. Logo, o jovem me acompanhava no elevador, rumo à cobertura. Ainda mais sua fascinação era palpável, a cada milímetro andado e dada a proximidade com que ele esperava seu êxito.

O encaminhei à suíte e, ainda à meia-luz ele já se despia enquanto balbuciava pequenos estalidos alternando com gemidos de satisfação. Fazia isso em pé, defronte a mim, me incitando e seduzindo com olhares e provocações labiais. Logo então, eu estava de pé perante ele, acariciando seu corpo com meus dedos congelados. Ele beijava meu peito por sobre a blusa e levava suas mãos pelo meu corpo, do pescoço ao sexo, das costas ao encontro com minhas próprias mãos. Confesso aqui que não estava mais tão excitado quanto no começo, havia uma particularidade neste jovem que me incomodava. Talvez sua busca pela morte, sua frivolidade com a vida, sua fantasia sobre o que eu seria e o que faria por ele. Em seu desejo, eu o tomaria para mim e o faria dele vampiro, logo, viveríamos uma perfeita utopia amoroso e sexual - claro, como vista em filmes. Este desmerecimento e falta de reconhecimento me deixava obstante, ausente. Depois de se colocar nu e a mim também, pode provar do meu sexo.

Como a intimidade começou a me paralisar e suas emoções vinham a mim como um tufão, coloquei minha mente do lado de fora e não aproveitei a cópula. Hoje, sem me recordar com clareza, sequer chego a lembrar se houve. O momento crucial foi quando, na iminência de ser possuído por mim, sussurrando em meu ouvido disse ser portador de uma enfermidade sanguínea letal aos humanos. Disse tais palavras sem receio, pudor, dúvida, preocupação ou resignação. Como estas patologias não me afetam, ignorei e notei ali seu desejo aumentar. Crio um lapso aqui sobre o que julguei ser o evidente: ele, por estar numa vida um tanto quanto corrompida, acabou sendo vítima e, ao se encontrar em déficit no mundo, buscava por alguém com quem compartilhar. Em sua cabeça infantil e débil, julgava ser uma fantasia encontrar uma entidade qualquer que o aceitasse e, quando se deparara comigo, não hesitou e acreditou no que via em filmes, não no que a realidade crua e gélida poderia evidenciar. Vivia num mundo de sonhos e ausência e, ao encontrar uma criatura mítica, achou que sua vida poderia ser resumida e explicada. Deixei então que ele se calçasse desta fantasia por alguns momentos, enquanto alucinava, enquanto se revelava, enquanto era possuído.

Antes mesmo da terceira hora passada, deitado na cama, fazia planos sobre o futuro em que ambos compartilharíamos. Pensou em casa, família, bens, sangue, vingança, beleza e acima de tudo, pensou em imortalidade. Eu, simplesmente pensei que não valeria me alimentar e que precisava me livrar daquela presença.

Recompensei-lhe com o derradeiro desejo, mostrei minhas presas e, olhando em seus olhos, mudei a cor dos meus do azul-celeste para o carmesim-profundo, além de demonstrar minha incrível agilidade e flexibilidade. Ouvia o rugido dos espasmos de seu corpo, desejando aquele poder, desejando ser liberto. Havia um pequeno afluente de lágrimas em seus olhos enquanto já quase mascava sua imortalidade.

"- É seu desejo se tornar um imortal então? Por isso se arriscou tanto numa fantasia?"
"- Sim, é o que eu mais quero. Ser igual a você."
"- Está disposto a viver de vidas humanas, beber deles, livrar-se deles após sua fútil e tola ingesta? Com esta facilidade?"
"- Faria qualquer coisa para me livrar deste peso."
"- Peso? Tu por ventura sabe o que é carregar um peso?"
"- ..."

Me aproximei perto o suficiente para que meus cílios tocassem os dele e ele então cerrou os olhos, esperando pelo beijo negro. Continuou esperando. E esperando. Esperando. Seu coração tomado de pavor e angústia, quando ao abrir os olhos, não havia vivalma no quarto, apenas a janela aberta da cobertura e o frio rascante que adentrava o recinto. Suas lágrimas quase congelaram nos olhos e pode constatar que sua única chance havia simplesmente se livrado dele.

Já a algumas milhas de distância, sentado em um parque, comecei a pensar no sofrimento que ele estaria engendrando naquele momento. Quão terrível seria compreender que sua única chance de viver e ser como os contos de fadas se foi para sempre. Sua imortalidade, sua existência. Eu havia desaparecido e comigo sua cura, sua prosperidade, sua futura vida de Lorde. Ele desejou ter morrido, eu sabia disso. Sabia que o que fiz era pior que a morte para ele e me sentia renovado, mesmo não tendo bebido. O prazer era tanto que não precisei beber, não precisei sequer repousar no dia seguinte, apenas fiquei revendo toda a cena na minha mente e tendo orgasmos com o sofrimento e a loucura que acometeu o jovem tão jovem e, portanto, tão inconsequente. Ele não mais me veria, não conseguiria me localizar e passaria o que restasse de sua vida, insano, às ruas, caçando indiscriminadamente outra entidade que nunca acharia, ensandecido, vendo sua vida esvair gole a gole.


+++

Tenho consciente noção da minha maldade e do peso que eu sim carrego. Existem os que nasceram para morrer e os que não optam por isso. Existem os desesperados e os indiferentes, os tolos e os sábios, os poetas e os carrascos. Nenhum humano tem o direito de se rejubilar por ser poderoso o suficiente a ponto de usurpar outra vida humana e é neste pecado, que os mais débeis se perdem. Sei que sou mau, sujo, feio e inumano. Sei também que eu me criei assim. Tanto quanto sei que não desejo para ninguém mais esta maldição.



É válido procurarmos conhecer a que má e penosa servidão nos sujeitamos quando nos abandonamos ao poder alternado dos prazeres e das dores, esses dois amos tão caprichosos quanto tirânicos. // Sêneca

4.02.2013

Apenas mais um desavisado que cruza o caminho, de quem não deveria cruzar


Faz exatamente três semanas desde que aconteceu e por isso, a frescura em minha mente, consigo narrar com clareza que chega a surpreender meus sentidos.

Andava eu por uma rua muito conhecida, a esmo, sem uma real necessidade de caminhar e, por mais incrível que pareça, sem sede ou vontade de caçar. Era uma noite comum, de uma semana comum, com sentimentos comuns, até então. Havia sonhado com pessoas que eu já pensara ter esquecido e sentido um aroma conhecido. Estava eu em um certo tipo de depressão. Claro, nada fora do comum. Havia suplantado a ideia de caçar àquela noite porque me imaginei completo de emoções que eu não conseguiria suportar, infelizmente. Quanto mais o tempo passa mais ficamos indispostos à Sede, mais indiferentes também. Ela não nos afeta como aos jovens na necessidade da vitalidade, passando a ser algo mais como costume do que como constância. Andava eu por uma rua conhecida, já a altas horas da madrugada.

Chegando em um cruzamento estreito das ruas, famosas, à beira-mar, fui interceptado por um jovem, de aparência flácida e doentia, pálido, torporoso e com um cheiro de matéria belicosa. Algo no espírito daquele homem me incomodava, no seu olhar. O ignorei de imediato, mantive-me em postura e acidentalmente, com o impacto, ele caiu. Com o impacto e por sua negligente maneira de andar, acrescento. Em vez de se desculpar, ele ousou olhar-me diretamente aos olhos, confrontando minha figura. De repente, sua tez pálida se tornou ainda mais pálida – acidentalmente devo ter incendiado meus olhos. Porém, mesmo com sua reação, a apatia pela matéria que ele havia ingerido o coibiu de correr ou processar aquela informação como perigosa. Então ele abaixou a cabeça e estagnou. Dei mais alguns passos adiante, não tinha intenção de perder tempo com reles protótipo de humano. Quando do meu decimo ou undécimo passo, voltei-me para trás pois ouvira uma preposição que provavelmente entenderia como um chamado. Ele não estava só, haviam com ele mais duas moças e um rapaz, ambos passaram então a me seguir após o chamado dele. Situação desconfortável, asseguro, ser perseguido intencionalmente por alguém que não compreende o que se passa e justamente numa noite em que resolvi não mandar mais uma alma ao Scheol. Desconfortável para ele, que buscava a morte em um dia em que ela pensara que tiraria folga. O ignorei novamente e mantive o passo, sem altercações. Ele, por fim e após um prolongado esforço físico, agarrou-me a mão intempestivamente, deixando-o em situação ainda mais delicada. Estranhamente naquela noite meu humor era complacente com a ausência de sede, então não o matei imediatamente. Mais uma vez, sorte dele.

Virei-me e o encarei, reforçando em minha mente que aquela noite deveria permanecer apenas nostálgica como começara, não haveria sede ou fome e tampouco uma morte desnecessária – era o que eu pensava até então. O assunto dele era hilário, o que ele pensara em dizer. Estava prestes a achar que seu golpe daria certo comigo. Como não estava para humor mas também não estava para a dor, acabei achando que uma brincadeira seria a distração que eu precisaria. Pensei em fingir até que ele desse por satisfeito e fosse embora, me deixando na paz merecida – claro, se ele realmente conseguisse sobreviver. Questionou-me veementemente sobre o nome, que não revelei, e disse que tinha a certeza de que me conhecia. Não se recordava de onde, quando ou como, mas sabia que me conhecera em uma situação que no mínimo era degradante para mim. Apenas reforcei que não o conhecia de onde quer que fosse. Enquanto tudo isso acontecia, seus amigos estavam a apenas alguns metros de distância, acompanhando, talvez ofereciam o suporte necessário caso ele precisasse. Ou não. Numa situação de perigo, geralmente os humanos correm em direção contrária ao que acontece. Aquele momento eu já havia me irritado e ele conheceria a morte em mim, decidi-me. E sorria por dentro.

Continuando a me inquerir sobre origem, inventando claro, e sobre nomes, acabou revelando que não me conhecia mesmo. Mas queria conhecer (até hoje não entendo como os humanos realmente chamam a morte). Começou então a segunda parte do jogo: a sedução descarada. Elogiou-me do cabelo à cor escolhida para o sapato, enquanto tentava através de uma simulação barata, se mostrar interessado nas minhas negativas. Pensava eu “- mas que desilusão perfeita para ele”. Prosseguindo, chegamos a etapa semifinal: a barganha.

Passado então este tempo em que as frivolidades eram as maiores armas, passamos para a arte da tentativa de convencimento do amor espontâneo. Não duvido que isso aconteça, já passei por diversas vezes por esta situação. Mas naquele caso, impossível. Já esgotado, cedi. Cedi à minha necessidade de fazer calar aquela criatura rapidamente, mas se possível, com o requinte de crueldade necessário para que isso me livrasse da sujeira que ele me trouxera. Aceitei seu pedido de casualidade sexual, por fim. Notei que ele usara seu telefone para sinalizar aos seus que “conseguira mais uma vítima” naquela noite, mal sabendo que a vítima logo seria a improvável. Novamente sorri, da estupidez e arrogância com que tratara seu velório adiantado. Deixei que ele me encaminhasse até onde pretendia mas acabei arrependido. Naquele mesmo beco em que ocasionalmente nos encontramos, havia um pequeno rendez-vous. Nos dirigimos até lá, seus amigos nos acompanhavam com uma certa distância.

Quase à porta, ele se desviou e, numa primeira tentativa infrutífera, sacou uma pequena faca que havia escondido nas suas vestes, na intenção de roubar-me. Achando que ia me intimidar, afrontou-me. Permaneci estático no mesmo lugar, apenas contemplando a cena toda. Tive de admitir que ele era determinado, vendo quanto tempo gasto para empreender aquela façanha digna de filmes de comédia classe C. Aproveitando-me que ninguém nos assistia, passei eu a intimidar: incendiei os olhos e novamente vi o terror nos dele, revelei as presas e sorri. Naquela hora ele se despediu de toda a determinação e coragem que havia tomado e não pensava em outra coisa a não ser fugir e se esconder. Mas, involuntariamente a isso e pelo medo e pela quantidade de drogas que havia ingerido, não conseguia se mexer. O espanto em seus olhos me excitava e eu sorria ainda mais alto. Ele apavorado, convocava todos os nomes de deus que conhecia. Rápida e furtivamente, nos retirei dali, subindo no mesmo prédio. Tão rápido que ele não poderia acompanhar e seu medo tornou-se algo tão surreal pela contestação que quase sentia seu coração parar dentro do corpo. Esquecera da faca em sua mão, esquecera de tudo o que havia visto, talvez amaldiçoara o momento em que decidira investir em mim, aquela noite. Seu corpo eliminava suor e por fim, suas secreções, quando eu o soltei apenas para que pudesse permanecer me encarando, sem conseguir fugir. Era quase palpável o terror que sentia e cada vez mais eu me excitava. Seu coração batia tão rápido que, se não explodisse, acabaria parando. E foi o que aconteceu, acabou parando. O medo escoava em suas veias, intoxicando-o, juntamente com a substância perigosa. Não foi forte, seu coração, deixando-o na hora em que ele mais precisaria. Acompanhei cada momento único, sorrindo, agora com mais calma. Seu corpo se batia no telhado, um som rouco saia de sua garganta, enquanto seu corpo eliminava excreções. Sua mente esvaziava aos poucos, mas numa intensa velocidade. Em menos de cinco minutos, sua alma havia deixado o corpo oco. Assim, nos despedíamos de mais um desavisado deste pequeno mundo.

Não ousei ajuda-lo, menos ainda me apeteceu o sangue. Primeiro porque era morto, segundo porque haveria de ser mais sujo que o Rio Tâmisa. Lá embaixo, ouvia as vozes dos seus amigos, que já àquela hora esperavam que havia cumprido o trabalho e se excediam em regozijos sobre o que fariam com o arrecadado pelo amigo. Já pensavam em mais drogas, bebidas e se possível, pagar um local para dormirem quando amanhecesse. Para terminar a noite, portanto, no melhor estilo, tomei-o e na mesma velocidade, subi às nuvens. Quando calculado e perto dos seus amigos, larguei o corpo. Pude ouvir, mesmo lá de cima, o som abafado que o impacto causara. Claro, ouvi também os gritos e choros dos amigos e dos transeuntes daquele local. Enfim, a morte se deu por contente.


"Não tenhais piedade dos caídos. Eu nunca os conheci. Eu não sou para eles. Eu não consolo, eu odeio o consolado o consolador." Liber AL vel Legis
É um conto interessante, principalmente porque dentro das Cronicans, é um dos primeiros em que o sexo não é o foco principal e a bebida, o foco secundário.

3.21.2013

Necessidades descritivas


Tenho pensado nas coisas da vida e como acontecem para conosco. Palavras, ações, cada ato julgado, cada atenção refletida e o que pensamos estar sob nosso controle, acabamos, deixando no controle de outrem. Estas mesmas ações são atuadas, previstas, criadas para nosso afeto mas podem ser tanto destruídas como aplaudidas.

Talvez nada faça mais jus à misantropia do que a extrema necessidade de ser aceito.

O que acontecera há alguns dias foi apenas a comprovação do que eu precisava para reforçar minha necessidade de escrever: atenho-me aos fatos:

1. Há alguns meses, mais especificamente na véspera do meu aniversário há dois anos, conheci pessoalmente um certo jovem que vinha trocando correspondência eletrônica e telefonemas. Já nos conhecíamos há talvez três ou quatro semanas antes quando arquitetamos o plano de nos encontrarmos. Um desconhecido, que atiçava minha necessidade de comprovar a intensidade do meu próprio relacionamento - é, eu sei, pode parecer traição, mas o que será contado é apenas parte do que aconteceu e não, não houve traição física neste encontro. Apenas dois homens bebendo bebidas alcólicas durante toda uma noite em um posto de gasolina. Ele tinha namorada - isso, namorada - mas se sentia inclinado à relacionamentos com outros homens. Tudo isso eu sabia pois fizemos questão de sermos sinceros um para com o outro, na maioria dos fatos. Em resumo, passamos a noite juntos conversando e acabamos trocando opiniões um acerca do outro. Muito ele falara sobre mim: minha beleza, minha intelectualidade, minha intangível personalidade, minha estranheza para com a noite e com as bebidas (eu não consigo inebriar-me, de maneira alguma) e, por fim, minha atenção aos escritos. O que eu gosto de deixar registrado para o mundo. Tentei explicar a ele sobre a incongruência do que escrevo-penso-exponho mas acho que ele não compreendeu pois sua frase - a que ficou marcada e dá título a este devaneio - foi "se você escreve para si, não seria melhor um diário? Por que compartilhar suas pessoalidades se não há interesse de mais ninguém a não ser o seu próprio. Não acredito que você viva num ostracismo tal que precise relatar sua 'viagem' por este mundo estranho". Neste momento, pensei em muitos amigos que já se foram e nos que ainda tenho. Amigos, não colegas ou conhecidos, e o quanto isso afetaria a eles tanto quanto a mim. Pensei em Hemingway e sua necessidade constante de descrever todas as minúcias de tudo que havia; pensei em Agnes e sua intelectualidade religiosa dada a explicar o deus-uno sob todas as suas formas; pensei em Aristóteles e suas evidências da presença da Constância Adquirida; pensei em amigos menos famosos que portam algumas doenças peculiares como a Esclerodermia Sistêmica[1], a Cinestesia[2]; pensei nos amigos que não podem ver, ouvir, falar; por fim pensei nos que não aprenderem o rebusco e o requinte que há na poesia e na prosa antiga. Pensei no que eles perderiam se eu me mantivesse a guardar tudo o que vejo, sinto e descrevo apenas para mim. Percebi que um completo desconhecido pode julgar com a mesma facilidade com que se entregaria. O mais fascinante foi que o mesmo jovem, ao decorrer da noite, se disse maravilhado com minha forma de expressão que definia seus sentimentos melhor que ele mesmo poderia se definir e encontramo-nos numa Teia. Ele repreendera meu estilo e, posteriormente, me elogiara pelas descrições. Paradoxalmente excitante!

Falei um pouco da nossa situação na época, antevendo, justamente o que queria para que, dado ele ao julgamento e tendo sido contada parte da história inicial, como poderia ele julgar algo? Bem, finalizando (por que quando começo, termino), nos despedimos naquela manhã e nunca mais nos vimos.

2. Mais recentemente, um pequeno desentendimento me fez voltar à esta tecla: descrições. Por que, segundo dados levantados, me excedo em descrições? Acaso as pessoas já não sabem o gosto da pêra sem que que eu conte como são arenosas, adstringentes, suculentas e com um aroma que lembra a infância coletiva?

Em meus contos, faço questão de detalhes. Por quê? Porque não escrevo somente para mim e sim para todo aquele que vier? Porque de uma forma grotesca preciso mostrar minha visão do que descrevo? Porque simplesmente não sinto as coisas tais como são? Serei eu uma vítima destas mesmas doenças que meus amigos sofreram? (Fato que uma comorbidade me assola e está descrita inclusive, uma visual, que até então só causa-me mais embaraço estético do que realmente afeta minha concepção do mundo e/ou reduziria minha acuidade visual).

Até então, quando digo contos digo toda e qualquer literatura que exponho porque me escondo atrás e através do que escrevo - é minha Zona de Conforto como diriam. Revelo o que sou e o que fui pelo que escrevo. Porque deveria me sentir culpado então se dissesse como era ardente o odor da antiga Roma na época em que eu vivia por lá, oculto? Porque não seria interessante, para os que não tiveram a mesma experiência, saber como é adormecer sob a terra nevada de uma montanha? Ou - aqui seria rotulado como pedante - mostrar como o amor e outros sentimentos podem fazer nosso coração estalar pela simples presença do ser amado? Minúcias são minha forma de ver o mundo, talvez seja minha forma de compensar aqueles que não podem, por um motivo ou outro.
"Use os olhos como se fosse ficar cego amanhã. (...) Escute a música das vozes, o canto dos pássaros, as poderosas notas de uma orquestra, como se amanhã fosse ficar surdo. Toque cada objeto como se o sentido do tato fosse lhe faltar amanhã. Sinta o aroma das flores e o sabor de cada bocado de comida como se amanhã já não pudesse cheirar nem sentir o gosto de nada."[3]
Bertil Nilsson from site homotography.blogspot.com

O que persisto é, imponderavelmente, desnecessário e por isso volto a escrever. À minha maneira, não importa o que pensam os outros a respeito da minha escrita porque, hora ou outra, alguém vai se encontrar no mesmo sentimento que eu e então para este eu fiz uma ligeira diferença dos outros. Resiliência, eis o segredo!

[1] Esclerodermia sistêmica é uma patologia reumática onde o acometido possui uma degeneração gradativa exponencial das sensações do tato. Logo, a pele vai se tornando mais rija, insensível e não incomum é surgirem áreas grossas, com alta densidade de epitélio, similares à constituição de minerais. Leva também o paciente à tetraplegia flácida - impossibilidade de locomover qualquer dos membros. Geralmente, letal. 
[2] Cinestesia, geralmente em crises e raramente como uma condição constante, é um reflexo do cérebro quando 'troca' as informações organolépticas por algum ruído neurossinápticotransmissor. O paciente é afetado por uma sensação de desequilíbrio e sentidos alterados. Literalmente, começa a enxergar com o olfato, ver os sons, sentir na pele os odores. Não letal. 
[3] Hellen Keller - ativista americana cega, surda e muda. 

3.02.2011

Hungria

Estou em uma estrada com apenas um caminho escolhido. O caminho de Permanecer.
Não posso mais optar, já fiz todas as minhas escolhas e não me venham com o Livre-arbítrio pois este factor é concedido a quem veio dEle, teoricamente. No momento da minha criação este conceito ainda não havia sido imposto, logo, sofro com o estratagema do 'governo anterior'. Neste mesmo momento de criação, como é da nossa raça, houve um eflúvio contrário ao meu. Um outro foco, digamos para simplificar. 

Corte para explicações: no momento da criação, na verdade é sempre ambidestra a formação, i.e., nascem ou são criados dois seres simultâneamente com conceitos opostos (macho e fêmea, branco e preto, bom e mau, ...) e estes escolhem viver juntos ou completarem-se em conhecimento até o reencontro. Não foi diferente comigo.

Onde quero chegar.

Digo isso pois o momento da Compleição está se aproximando. E melhor, eu estou comigo mesmo já há algum tempo, logo...