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1.25.2015

Nova indução a Buer


Caríssimo amigo Buer,

Há muito não nos falamos e muitas coisas – boas e ruins – se passaram desde então. Por mil desejos de Jezebel hei de contar agora.

Engendro nesse momento um novo namoro. Digo namoro porque ainda não definimos o que isso pode ser. Ele é um rapaz novo, sabe, daqueles moldes provincianos que tanto adoramos. É esperto, casual, jovem, bonito como uma rosa desabrochando, sagaz e um tanto quanto liberto porém, é essencialmente humano e temeroso, pálido e incoerente consigo mesmo. Posso ver o coração dele com uma facilidade tremenda e o conheço melhor do que ele acha mas ele mesmo se desconhece e isso me dilacera. Pelos seus olhos posso conhecer seus desejos e seus objetivos, além de suas necessidades, mas vejo também o receio dele em ceder à essas atitudes. Ele é absolutamente divergente de mim, em tudo, desde os gostos até as necessidades. O que temos em comum são coisas que atraio humanas para poder ser melhor observado. Bom, com todos tem sido assim, não é mesmo? Moramos um tanto distante um do outro mas sempre que posso estou com ele. E isso me faz bem, amigo. Ele me faz bem em suma. Ainda que ele seja uma criança eu sinto prazer com ele, prazer de estar com ele (prazer sexual se inclui aqui também, amigo, pois ele é um homem bem excitante). Saímos juntos, conversamos sozinhos, andamos com seus amigos e nos divertimos como homens nesta idade. Lógico, eu omito ainda muita coisa a ele e acho sábio fazê-lo por enquanto. Ele sabe da minha formação e profissão, da maior parte das minhas rotinas e de alguns casos familiares mas a melhor parte ele desconsidera – acho justo. Chegamos já, mesmo em tão pouco tempo, a fazer planos juntos e confesso que estou esperançoso, mesmo ciente de que isso não vai à frente com muita probabilidade. Eis o dilema do demônio que nasceu sob a Estrela da Solidão, dilema este que conheces muito bem, não? Digo-lhe que não estou envergonhado ou temeroso, mas preocupado. O que eu sou hoje é o que eu pretendo ser.

O antigo amor ainda me procura, sabia? Aparentemente ele ainda não vive sem mim. Mesmo que me procure por motivos bestas e infantis e eu, confesso, caia em ciladas antigas neste assunto. Sim! Eu ainda digo-lhe que o amo e me arrependo no instante a seguir de tê-lo dito. É engraçado como eu ainda sinto que ele também me ama, amigo. Como resolver esta questão? Nossas vidas ainda estão atreladas e isso me incomoda, por vezes tenho vontade de leva-lo mas meu amor por ele me impede. Eu o amo e sei que perde-lo agora seria como perder a quarta parte que sobra do meu coração negro. Ele é meu Átrio, Buer! (Risos).

No trabalho eu ando como sempre, evoluindo exponencialmente, meus superiores elogiando minhas ideias e resoluções, meus subordinados se vangloriando para os outros que tem uma liderança ímpar. O de sempre. Fui criado para ser o melhor no que quer que eu faça com exceção do amor. Neste item também não sei mais como me portar: quero deixar tudo de lado, irmão, não aguento mais este ritmo de vida. Parece que ter perdido a melhor prima parte do meu coração me deixou fraco para esses imprevistos. Perder minha melhor parte para a doença humana me deixou inerte e indiferente. Sinto que a qualquer momento posso estar tão debilitado que não saberei mais diferenciar minha solicitude com meu desprezo.

Ando preocupado com os meus, nobilíssimo Leão andante. Com os mais próximos. Como eu disse, não consigo ser resiliente nas perdas e prevejo algo ruim acontecendo. Temo a idade alheia porque sei que estou absolutamente fora deste complexo jogo de envelhecimento e morte (mas você sabe melhor do que ninguém como gostaria de estar nesta teia!). Não durmo mais com medo dos meus sonhos e quando desperto não sei se despertei mesmo. Tenho visto os meus enquanto ando por Morphía e isso anda me aborrecendo. Todos os meus veem a mim em sonhos e, desde a última vez, acho que isso não é bom. Da última, você estava comigo velando e deve ter percebido meu pavor quando ele disse aquelas palavras. Até este momento este pavor me persegue e não sei como contê-lo. Não sei se devo invocar magia ou deixar isso acontecer naturalmente.

Algo que devo salientar: a magia está me deixando. Não ouço mais o vento, o nascer do sol, o pôr-do-sol. Não vejo mais o fogo. A tempestade ainda é minha, isso eu sei. Aquela sinestesia, aquele desvio, estão menos frequentes agora e isso está me preocupando porque quando eles vem, me arrebatam. Não posso bloqueá-los mais, acredita? Quase, de verdade, desejo que eles me deixem. Busquei por tanto tempo ser humano que agora, inconscientemente, estou me desviando para ser um. Brigo a cada despertar com meu Ego e Alterego e parece que agora meu Superego está vencendo.

Bom, amado amigo, deixá-lo-ei por então. Creio que sua batalha esteja deveras complicada por ai mas saiba que sempre terá este seu amigo aqui para o que precisar. De sangue à morte, tudo. Fomos criados do mesmo escuro e não há nada mais importante para nossa raça senão à cumplicidade e eis que, de todos, só a você me ligo. Eu o adoro e sei que me adoras também, isso me basta. No final de tudo, quando perder a todos sei que ainda terei você e sei que você me terá. Que assim seja, Grande Leão!


Do seu mais antigo amigo,


L.



Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser. //William Shakespeare
Quem não sabe povoar sua solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão. //Baudelaire

3.02.2014

Eis que eu preciso passar por cima de mim mesmo, por cima de meu amor próprio


Num delicioso crepúsculo de um dia que havia sido agradável, algo se movimentava no ar de maneira a querer demonstrar que eu deveria me preparar. Logo, seria convocado e precisaria exercer minha autoridade. Bom, havia muito que eu esperava esta oportunidade mais uma vez.

Lembro bem de já estar ciente quando meu celular notificou uma mensagem de texto dizendo somente “SOCORRO”. Não era um número conhecido mas eu sabia a quem pertencia. Era alguém a quem eu havia oferecido meu coração, muito tempo antes e que agora já não me pertencia mais. Alguém que eu realmente amava e que agora disporia de outro em sua cama, sua vida, sua essência, sua compreensão, sua cumplicidade, sua admiração e seu amor. Eu precisava aprender a lidar com isso ainda. A mensagem pedia socorro mas eu sabia que não era pra ele, diretamente. Há muito também eu havia criado o alfabeto simpático e dessa maneira, saber o que estava passando desde a saúde à atividade emocional desse ser. Me despi e me marquei, deixando assim indelével em mim sua magnitude. Tratei de responder à mensagem com um “Já estou indo, aguarde-me defronte ao portão de sua casa. Sei o que se passa”. E sabia, por isso ele me convocara em ajuda.

Esse seu novo consorte havia sido vítima de um incidente brutal, violento, nas ruas. Havia sido ferido por sua opção e seu meio de vida, depredada a sua dignidade, marcado seu corpo e fundamentalmente sua alma dilacerada havia sido a pior parte. Ele havia sido encontrado violentado, agredido e semiconsciente e no âmbito da sua pouca razão, pedia socorro com seus olhos encharcados de sangue. Como havia sido encontrado pelo seu próprio amante, meu outrora, a única opção seria evocar esse mal – que vos escreve – para ajudar. Médicos curariam as feridas externas, gradualmente, disso sabemos. Porém, tanto ele quanto todos – e aparentemente seu novo consorte – sabiam que eu poderia mais. Talvez minha reputação me precedesse indistintamente. Bem, eis que ele havia sido levado até à casa de meu precioso amor e lá estavam todos, a aguardar. Nesse ínterim de ler a mensagem e responder, eu já me preparava para ter com eles. Um caminho que naturalmente levaria uma hora eu faço em dois minutos, apenas por vaidade, por querer aproveitar sempre da beleza noturna que preenche e desloca. É fascinante perceber que ano após ano, século após século, minhas estrelas continuam imparciais e imóveis levando a crer que somente os que estão aqui embaixo se percebem mudar com o tempo.

Mensagem enviada, pego um casaco, me deixo cair do sexto andar que moro para o chão, diretamente, mas sabendo que antes mesmo de chegar à altura do quinto andar eu já havia ascendido, na mesma velocidade que o vento ganha do tempo na curva. Lá do alto as coisas são vistas como realmente são: pequenas e sujas. Despreocupado durante todo este tempo, eu apenas flutuei até onde deveria e, como sabia que estaria a me aguardar impacientemente onde eu havia mandado, pousei à uma certa distância – segura o suficiente para não ser atormentado. Ele, ao me ver e em seu próprio estado de pranto e dor, conferia sua confiança no olhar e eu me alimentei daquilo como uma seiva dourada da Cidadela Prateada que há muito eu não via. Deixei-me inebriar por aquele aroma, aquela delicadeza, aquela fragilidade, tudo aquilo que outrora fora meu e que agora pertencia a um humano frágil e que dependia da minha benevolência para continuar vivo. Eis a prova da dignidade e condescendência que me sempre é aplicada!

Fomos juntos até o seu quarto, onde repousava um corpo quase dormente de um jovem homem que eu já acompanhei durante uma noite, para observar atitudes e hesitações. Um homem comum, que não era em nada especial a ninguém, nem a si mesmo mas que agora era ao meu amado. Um molde de barro como todos os outros. Barro quebrado que eu, controversamente, precisaria consertar. Era uma lástima vê-lo tão ferido e ensanguentado e mesmo nesse frenesi eu não pensava em outra coisa a não ser em meu amor. Esse pedaço de barro estava realmente machucado em todos os locais que eram alcançáveis pelos olhos, ainda que pelos mais despreparados, mas havia uma falha em sua alma que seria o pior a ser reparado. Havia já uma necessidade de pedir pela morte – como sempre, humanos são fracos o suficiente para desistirem da luta antes mesmo de conhecerem um por cento da dor – algo que eu não permitiria acontecer. Sim, eu desejava me livrar daquilo mas sabia o quanto isso ia magoar aquele que amo. Não há aqui humildade, não, há apenas egoísmo em querê-lo bem e feliz mesmo que para isso precisasse passar por cima de mim mesmo. O amor é algo engraçado, a gente ama mesmo quando não é amado e sabe que, mesmo que não seja retribuído, faria tudo por esse amor. O amor é tolo ou tolos são os que amam?

Pedi que nos deixássemos a sós, apenas aquela peça quebrada e eu, no quarto. No seu nível de consciência eu sabia que poderia agir como quisesse que não seria observado, retaliado ou julgado. Pedi que meu amor nos deixasse também porque não aguentava mais ver o sofrimento estampado naquela bela face que eu beijei tantas vezes pela noite e outras tantas pela manhã. Deitado lá, aquele homem apenas esperava sua vez no trem que sobe aos céus e eu precisaria ser o condutor de volta dele.

Tirei todas as suas roupas – ou o que sobrara delas, farrapos e sangue coagulado – peguei uma pequena compressa que havia ao lado da cama e limpei a testa dele, para remover todos os traços de sujeira que havia ali. Ele ardia e palpitava, além de esforçar para permanecer respirando. Era sim, confesso, uma visão lastimável e ao mesmo tempo belíssima de como compreender a humanidade: um homem quando agride um homem, passa a ser mais homem? Mais poderoso? Mais parecido conosco?

No seu corpo débil havia tanta ferida quanto era possível perceber, ossos quebrados, marcas, manchas, escoriações, sujidade. E mais, em sua alma havia sede de plenitude. Nesse momento percebi e perscrutei que não seria capaz de pedir ajuda para esse feito, como já havia feito antes. Teria de agir sozinho para nossa própria proteção e porque não poderia dividir esse peso, nem mesmo com meu melhor amigo que sempre me acompanha onde quer que eu vá. Decidi o que haveria de ser feito, remoldado, criado, consertado e o fiz, passando minha língua por todo o seu corpo, fechando as feridas, desmarcando as áreas marcadas, desfazendo o mal. Em poucos minutos o corpo havia sido completamente reabilitado e não havia mais um vestígio sequer da violência. Porém, sua alma continuava reclusa em algum canto escuro onde não pretendia sair. Precisei então invadir sua alma, com uma pequena palavra eu abri seu coração e sua mente e entrei, vendo tudo o que havia acontecido, seu passado, seu presente, seu futuro, suas intenções. Tudo o que eu deveria ter evitado eu precisei enfrentar para consertar aquela criatura. Desci até esse canto encoberto e o peguei pela mão, trazendo-o de volta à luz, desfazendo memórias e medos. Assim ele voltou a si, ainda debilitado pela intensidade mas já fora de risco e então pedi para que os outros entrassem novamente e se portassem a cuidar dele, mas que não havia com o que se preocupar e eu não poderia fazer nada mais – ou melhor – do que havia já feito. Percebi nesse momento que havia me exposto e que, consertando a peça quebrada, eu jamais teria meu amor novamente e, ao mesmo tempo, percebi o quanto ele amadureceu e aprendeu. Lógico, essa depressão instalada em mim precisaria ser sanada brevemente. Deixei-os todos com o paciente e sequer perceberam quando eu sai.

Havia em mim ainda a raiva por ter sido fraco, complacente com aquilo tudo. Teria sido eu o salvador de uma nova vida e o destruidor da minha própria, eu havia sido meu maior inimigo mais uma vez. Toda aquela fúria havia se instalado em mim e a dor era semelhante à própria instauração de Virgo e pensei haver somente uma maneira de desprender tudo: vingança, morte, sangue. Foi o que fiz, aproveitando-me das memórias que eu havia retirado daquela pequena criatura, persegui aqueles que o deixaram entre a vida e eu. Não muito longe dali os encontrei, se gabando de terem elevado um nível em sua humanidade.

Criaturas ainda mais débeis, belicosas, superficiais, imundas. Havia quatro deles, sentados no capô de um carro moderno, conversando e bebendo algo sujo. Nenhum deles teve tempo suficiente para saber o que aconteceu. Como um raio eu desci, despedaçando o chão, o carro, um deles que estava mais próximo. Os outros perceberam tarde demais o fogo em meus olhos e quando um deles se apressou em correr, interceptado foi por mim, esmagando sua cabeça com uma de minhas mãos. Dois haviam partido, o terceiro ousou sacar uma arma de fogo e o medo instalou-se nele quando notou que não havia efeito em mim aqueles projéteis. Esse eu queimei, da cabeça aos pés, com apenas uma palavra também. Não somos feitos de Fogo e Tempestade à toa, afinal. Então sobrara um, o líder aparente deles, com o qual eu me diverti por sua fragilidade, fazendo-o sofrer da mesma maneira que havia feito o outro sofrer ou talvez mais, porque minhas mãos afligiam também sua alma. Tenho a mais absoluta certeza de que esse sofreu, e tanto, que os anjos devem ter tapado os olhos e ouvidos para não verem-no ou ouvirem-no berrar, tamanha era minha audácia. Percebi que não ali muito distante, dois anjos observavam a cena, com um misto de pavor e curiosidade mas isso não vem ao caso agora. O importante é que o jovem estava curado, não guardara memórias sobre o que havia acontecido, seus entes estavam agradecidos por sua cura e meu amor, bom, meu amor não se importou em como eu estaria naquele momento. A vingança havia sido concretizada, ainda que não pedida e assim eu me acalmei um pouco, o suficiente apenas para poder chegar em casa e terminar minha noite.





"Ama-se a vitória difícil, porque a derrota lhe preenchia quase todo o espaço possível. E foi com o que restava que se venceu em todo ele." Vergílio Ferreira
"Em uma grande vitória, o que existe de melhor, é que ela tira do vencedor o receio de uma derrota." Friedrich Nietzsche


11.06.2013

“Reticenticidades”


Palavras são correntes, você não pode escapar delas. Uma vez ditas, não podem ser recolhidas. Uma vez ditas, se tornarão verdade, quer queira ou não. Conhecimentos aprendidos, mesmo que em locais improváveis, se mostram eficazes e duradouros, além de edificantes. Eis que o passado retorna, o futuro não deixa brechas para um recomeço. Penso nas decisões, enquanto me delicio ouvindo Azam Ali e sua voz etérea, sem, por isso, deixar de ser marcante. Não são músicas para serem ouvidas com os ouvidos e sim com o coração, são para serem sentidas.

Penso em escrever nova carta ao meu amigo mas não sei bem o que dizer. Não posso dizer que muita coisa mudou, que estou sendo amado, que estou amando outra pessoa. Não posso discorrer sobre meu progresso, quer seja no mundo material ou espiritual. Mesmo que as coisas andem estagnadas, não significa que seja uma coisa boa. Também não posso dizer a ele que estou tentando mudar, não pretendo mentir. Posso dizer que aprendi sobre as palavras, sobre as decisões que tomamos em nossas existências, as companhias que tomamos como nossas, o que nos reflete neste e nos outros mundos, no que entregamos a alguém quando somos sinceros e dizer o que aprendi sobre retaliação e retorno. É, posso dizer que tenho aprendido bastante mesmo com meu silêncio profundo. Talvez seja bom dizer que minha alma, pela inabilidade e inaptidão ao mundo real, pode ser considerada apaziguada. Não acontece nada de bom nem de ruim, logo, nada acontece, logo, isso deve ser uma coisa boa. Posso dizer também que estou pensando em rever minhas últimas decisões, sobre quem amava e quem prometera amar e ainda poderia incluir o porquê dessas colocações – claro, sem lhe parecer pedante como de costume pois também notei que o pedantismo cai melhor nas pessoas pobres e fracas de espirito, não em deuses. Contar-lhe-ei que conheci novos poetas, novas canções, novos sentimentos (que não pretendo usá-los), novas receitas e a importância do que eu falo, para algumas pessoas em particular. Talvez até deva-lhe isso. Devo muita coisa.

A estagnação tem sua maneira positiva de dizer que você está caminhando para uma construção melhor, visto que, como diz o ditado “não se mexe em time que está ganhando”. Fora isso, nada muda. Nada nunca muda a não ser quando há um incentivo. É uma conjunção de Leis Físicas, Mentais, Espirituais, Cármicas e Pessoais.

Ou não devo dizer nada e guardar para mim estas desnecessárias experiências.

8.14.2013

Novamente, ao meu amado


Caríssimo amigo,

Escrevo a ti novamente - vês em que curto espaço de tempo? - pois fatos significantes dão agora um novo rumo à minha tão inebriada vida. Mais uma vez, permita-me omitir o interesse acerca do que sucede com você, adorável e altruísta amigo.

Acontece que eu, em conversa com um outro colega antigo, aceitei uma proposta de cunho filantrópico: hei de cuidar e orientar a população carente de um pequeno município, a pedido do jovem padre que preside a paróquia daquela região. Cuidados básicos com a saúde, ensinamentos acerca de profilaxia, algumas aulas de epidemia e higiene, orientações à maternidade e o mais que eu puder ajudar. É uma troca, amado amigo, pelo que eu já recebi de boa vontade. Não da população, é claro, uma boa parte deles sequer conhece-me, mas pelo meu grande amigo que está lá em cima. Olhando por eles. Como eu disse a ti, Ele acaba agindo por formas misteriosas e num ímpeto de exaspero, parece-me que resolveu "usar" um dos seus para me coagir - da forma mais amorosa e humilde possível - a ajudar na sua empreitada. O que é bom. Bom para mim e bom para todos.

É uma metamorfose belíssima, meu caro, o que se vê diante os olhos até do mais incrédulo.

Na questão que havia citado anteriormente e na que mais me dá trabalho e recompensa, não houve mudança significativa. Passei por alguns momentos de tensão há algumas noites que acredito já terem sido esquecidas. Volto-me, no entanto, às memórias de todas as vezes que passei por momentos de tensão. Estamos absentes um do outro, durante este período, mais por intenção minha do que acredito ser possível. Eu quero decidir, amigo, mas temo. Temo porque pude contemplar o meu futuro e sei que no mais breve, não estarei aqui. E, não estando aqui, sei exatamente o que acontecerá. Porque, meu amigo, eu posso ver além de distâncias e corações e sei - mais sinto do que sei - que o coração que eu desejo está ainda desejando outro que se fora.

Toda a minha existência será envolvida em querer quem já tem um querido?

Desta vez não me demorarei, apenas queria colocá-lo a par do que está acontecendo. Há muito mais do que isso, mas recebi o seu recado e portanto, de uma maneira sucinta e breve, redigo o que acontece de mais relevante. Breve, serei mais detalhista e acrescentarei algo vital que não conto agora mas que você, por ter os olhos que tem, já sabe o que é. Por obséquio, não espalhe a boa nova e não se altere. Não posso permitir percalços neste momento.

Considere-se fraternalmente abraçado.


Do seu menos importante e mais dedicado amigo,
Eu.




Ps: soube que o senhor foi visto numa região da antiga Escandinávia, procede? Olha lá o que anda aprontando, jovem senhor.

8.02.2013

Lettere ao amigo há muito derrotado, porém não ausente de minhas memórias e apreço


Caríssimo amigo Buer,



Escrevo-te após todo este tempo passado, desculpando-me pela ausência de minhas epístolas. Ando tão atormentado e pusilânime que faltam-me forças até para redigir-vos. Tenho tanto a dizer-te que nem sequer sei por onde devo começar. Começo pelas novidades amorosas e sentimentais, pela raiva que esta situação mesma anda me provocando, pelos infortúnios da vida humana, pelas preocupações que me acercam ou questionando como anda vós?

Tratarei de não ser altruísta e falarei de mim, portanto, ao começar.

Desde que meu antigo amor deixou-me, venho sofrendo de amnésia, meu caro amigo. Não daquelas percepções errôneas que sofremos esporadicamente, não, algo mais severo. Algo que se mescla com meu passado emaranhado ao meu futuro e acerca de fatos premeditados. Está deveras complicado acalentar minha consciência ultimamente, parece-me que ela tem obliterado meu senso de julgamento. Tentei abstrair-me de mim com músicas, composições literárias, novas intenções, desejos, café, distrações mundanas e fugazes. Não estou sendo feliz no empreendimento!
Há dias que n'alma me tem posto um não sei o quê,
Que nasce não sei onde,
Vem não sei como e
Dói não sei porque. // Camões
Divago entre a leviandade e a plenitude, a cada alvorecer. Tento atrelar minha sanidade em pequenos recomeços, ao amanhecer, visando assim uma estabilidade emocional ainda que deflagrada, submissa. Houve um ínterim romântico neste período, amado amigo, que mais me rendeu preocupações e dívidas do que companheirismo e cumplicidade. Fui enganado por diversas vezes seguidas, vê amigo meu, que reviravolta exemplar do destino? Coube a mim um desfecho não muito agradável uma vez que notei que estava me tornando vítima - em diversas aceitações, devo salientar - numa relação que não havia fundamento e sede de manutenção. Eis que hoje estou refazendo o que posso, confessando o que posso, criando o que posso e reverberando ainda na questão de não querer terminar sozinho.

Muita coisa mudou, precioso amigo. Da vida humana à celeste. Falemos da celeste.

Bom, parece que meu posto está ainda vago pelo que ouvi de meus irmãos. Passado todo este tempo Ele ainda não conseguiu alguém que fosse capaz de aguentar o peso imenso que eu suportei. E pensar que Ele não nos fez insubstituíveis, oras. Ainda estes irmãos me perturbam, cumplice, sobre as coisas da vida. Alguns me procuram com ameaças sobre ruínas da Cidadela de Prata (recorda ainda da magnificência da nossa vizinhança?), outros apenas vem aprender (e questionam-me sobre a Abdicação), poucos tentam se manter incólumes e ocultos e uma mínima parcela ainda se mostra leal a mim e aos meus preceitos. São estes últimos que me dão força, compadre. Inclusive, um amigo em comum, mais próximo seu do que meu, esteve recentemente vigiando minha nova aquisição. Fiquei intrigado com a posição dele, enfim. A cada dia perco mais e mais minhas forças, definho a nove vezes nove, em matéria celeste ao passo de que minha forma humana exerce maior influência neste mundo. Sabe, meu caro, que por noites eu me arrependo de ter descido? Me descubro reconhecendo que aquele por quem desapercebi de toda minha posição e força, que sequer anda mais por esta terra, não mereceu o que deixei. Tudo, meu amado, que eu podia antes se mostra mais complexo e delicado agora. Não porque perdi em absoluto minhas capacidades, mas porque estou perdendo meu juízo celeste e, ao passo que minha presença se torna maciça, meu discernimento encolhe e regride. Vês que derrota sofro antes mesmo de lutar? Não vou me render e não pretendo tão cedo voltar, mas, temo também deixar esta bomba em contagem regressiva. O que me aconselhas tu, nobilíssimo Leão?

Na minha vida humana, bom, como já disse, estou empreendendo um novo romance. Ele é deveras belo, o jovem, mas é tenso, frágil, volátil, temeroso e ausente. É sagaz, devo salientar, e me sinto confortável em abrir parte da minha outra vida com ele - mesmo que omitindo origem, vivência, capacidades e afins, seria muito, não? Recorda-te do último a quem nos revelamos? Tentei a abordagem de não mentir, apenas omitir, e revelar o que for questionado. Tem dado certo até agora, mas em dias como ontem, hoje, amanhã, bom, sinto que minha tensão sobrepuja qualquer intenção boa que eu possa ter. Temo que eu possa estar fazendo mal a ele de muitas formas diferentes, só por estar presente. Acha que devo me desvencilhar desta relação enquanto é cedo? Acredita que possa dar certo? Tu ainda tem o dom da visão, não? Diz-me que rumo tomar nesta questão? Afora isso, no âmbito profissional, nunca me vi tão absorto e supérfluo. Tanto que chega a me incomodar, tendo visto meu passado de demasiada atenção ao trabalho braçal e intelectual. Os humanos tem um ditado que diz "sorte no amor, azar no jogo" e que pode ser o oposto. Bom, eu passei por um momento de solidão amorosa que coincidiu com minha elevação profissional. Agora, estou engendrando nova relação, será que perderei os benefícios portanto?

Ainda me isolo, caro andador amigo, mais tempo do que devia. Eu mesmo reconheço. Me isolo no mundo da música, da literatura, da simples arte da alienação e, por mais que tenho evitado, acabo me voltando para o outro mundo eventualmente. Algumas vezes penso em ir vê-lo, logo recobro a sanidade e me recordo do porquê não poderia. Então penso em convocá-lo e novamente caio em mim. É mais do que evidente que eu sinto tua falta mais do que qualquer um. Tu eras a única e pouca família que eu já me orgulhei de reconhecer. Fico pensando na tua calma, virtudes, sabedoria, inteligência, humor, sagacidade e bem-aventurança. Tudo isso sempre vai me remeter a ti e à tua sublime figura. É notório também, caro amigo, que eu queria mais do que este mundo pode me dar e não sei mais como extrair vida dele, quando passo a maior parte do tempo desejando não estar mais nele.

Enfim, acabei redigindo mais do que queria. Sei que menos do que tu gostarias de ler, afinal sempre devorou minhas palavras com tanto afinco, meu mais precioso ouvinte e leitor, que contemplava seu interesse com minhas lágrimas. Neste momento eis que estou solitário, pensativo, resiliente no que posso ser, categorizando e avaliando cada probabilidade possível de uma saída verdadeiramente sadia a tudo que venho passando, nestes últimos tempos. Gostaria de um retorno teu, amigo. Da maneira que achar melhor. Apenas lembre-se de que eles não estão acostumados à tua figura então, caso resolva aparecer em público, estejamos preparados para estacas, gadanhos, foices e tochas, além claro de cruzes e orações das mais variadas possíveis (risos).



Terminando, eu o adoro. E espero que minha mensagem chegue a vós.


Do teu mais terno amigo,
L.

6.12.2013

Vinho; e a estranha sensação de que não há verdade numa taça e sim hedonisno


Houve um sonho recentemente que envolvia estranhos sentimentos. Perturbados até eu diria. Confesso que a confusão deriva-se da necessidade de consumar algo que ainda não fora, mas que, simultaneamente, sabemos que não devemos. Após uma conversa breve, eis que a permissão para contá-lo havia sido dada. Talvez não o desenhe mais com tanta exatidão, ater-me-ei aos fatos mais interessantes.

Era começo de noite, mas, com uma certa cor crepuscular pareando com o horizonte. Algo belo de se ver, que costumamos esnobar por ser tão efêmero. Havia uma enorme janela colonial de vidros delicados, por onde Nix era aguardada e observada. Do lado de fora, um enorme ipê-roxo exalando seu aroma inebriantemente tóxico, uma relva baixa e um pequeno lago ao fundo. Uma típica casa semelhante àquelas do interior dos países bascos, mas, pela flora identificado como não pertencente aquele local. No interior, móveis singelos, de madeira clara e cheirando a chá de condoendro. Notas músicas saiam pensativas e envergonhadas do aparelho de som, Ingrid Kertesi - a soprando - cantando Händel de forma divina. Sob a janela, no interior, dois homens conversavam, enquanto jogados na cama de lençóis vermelhos e, aparentemente, nus em pelo.

Havia uma intimidade palpável entre eles - não só pela questão de estarem nus, não - que chegava a impressionar. Eles eram amantes mas acima de tudo, amigos. Notava-se pela forma carinhosa que um falava com o outro e como um olhava para o outro. Eram ligados por mais do que apetite e isso era evidente. Após uma pequena afirmação que fez os dois gargalharem, um deles levantou-se da cama e, ainda nu, dirigiu-se até uma pequena mesa marmorizada que havia em um canto, tomando duas taças altas rubras e uma pequena ânfora, encaminhando-se de volta à cama e servindo-os então de vinho, que o outro acabou tomando. Poucos goles e ambos colocaram suas taças no chão, paralelo à cama e então, o que havia permanecido deitado aninhou-se no peito do que havia levantado.

Então a noite caiu por vez toda, cobrindo aquelas terras com seu manto e sua proteção. Não que eles precisassem, mas, deveras belo de se acompanhar.

Após um breve sono, o que estava aninhado deitou um beijo no peito do outro, despertando-o com sua delicadeza. O outro acordou sorrindo e retribuiu o beijo, elevando sua cabeça até sua altura, na cama. Da forma como os amantes fazem, os beijos delicados deram lugar a algo mais sensual, caótico, desesperado e num frenesi inconstante de lábios, línguas e mãos. Logo, o primeiro estava por sobre o corpo do outro, enquanto suas mãos abriam caminho para sua boca, no corpo alheio. Percorrendo cada espaço conhecido e desconhecido, cada pequena dimensão, lascivamente saboreando aquela carne e deliciando-se com aquele cheiro.

Com o limiar da tentação sendo alcançado, o primeiro então colocou o segundo numa posição confortável na cama, deitado com seu dorso apoiado em sua mão, espalmado bem acima do cóccix e o admirava por cima. Admirava seus olhos desejosos, sua boca delineada, sua pequena interrogação marcada no peito. Delicadamente pressionando sua intimidade com a própria e sentindo então a pulsação que deriva de corpos apaixonados. Tomado por aquela necessidade de consumir (então descrita anteriormente), ele suavemente ajeitou seu parceiro, apoiando bem sua sinistra espalmada e com a destra, tateando a coxa rija e exercendo sobre ela uma pressão para ajustá-la à sua recepção tranquila.

Naquela posição, inicialmente, o outro fora possuído, olhos nos olhos. Altercando calma e severidade, gemidos, risos abafados, pedidos, suor e saliva. Então, outras posições foram adotadas e em todas, a intensidade estava presente. Longos momentos se passaram até que, como que magicamente, ambos chegaram juntos ao ápice do prazer e misturaram suas essências. Com menos agitação, postaram-se um ao lado do outro e então sorriram, como se esperassem por aquele momento já há algum tempo. Tomaram mais de suas taças e se preparam para a longa noite que ainda estava por vir.

Provavelmente, esqueci-me de algum fato. Essencialmente, o que me recordo era isso. Talvez pela minha inconstância insone eu não tenha o aproveitado mais e agora me arrependo. Teria sido válido retomar o sonho, lógico. Quisera eu poder fazê-lo. Contei os fatos como me recordava, mesmo tendo sido uma narrativa breve que deixo agora, portanto, à sua avaliação.



2.24.2013

Respire em mim, rápido!


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Noite de inverno.

Gélido como só os montes podem ser. Século XII se não me engano, estava eu caminhando pelas montanhas, em busca de alguma satisfação solitária. No meio da floresta havia um lago tão cristalino - e congelado - em que, se eu tivesse ainda algum reflexo, poderia me ver espelhado. Mesmo sabendo do destino que me reserva, voltei-me a ele nesta mesma expectativa. Pensei "- quem sabe no gelo, que não contém prata alguma, eu possa ver em mim o que o tempo fez comigo?".

Tal qual foi meu espanto quando pude ver-me novamente. E que imagem! Era algo entre o disforme e o angelical. De tanto vislumbre acabei por deslizar pela pedra congelada e me abster em adoração pelo que via. Embriaguei-me de mim mesmo de modo que não notei quando alguém se aproximou, mesmo naquela noite gelada. Não notei até que ela estava a uns quatro pés de mim. Não só não a notei como não senti seu perfume - ou odor, que seja - a ponto de surpreender-me com aquela presença. No mesmo momento postei-me rijo, preparado para atacar ou correr, dependendo da reação que apresentaria.

Espantou-me sua ação seguinte: ela curvou-se. Curvou-se para mim e numa língua que só nossa raça conhece pela idade, chamou-me de senhor. Percebendo mais a fundo pude ver que ela era como eu - ou quase. Uma recém-nascida pelo sangue, poderosa e linda e ao mesmo tempo respeitosa e meiga. Falava em minha mente, mas de uma forma descoordenada. Vi que ela havia sido criada há menos de dez anos humanos e que seu mestre a havia abandonado por ela "se apegar demais à humanidade". Pior, eu conhecia quem a fez, na verdade, eu o havia liquidado alguns anos após ele tê-la feito por uma disputa antiga (e isso é outra história futura, talvez). Me compadeci de sua dor - momentaneamente, afinal não sinto mais certos sentimentos - e pensei em tomá-la para mim, criá-la, adotá-la como minha cria mesmo não sendo. Ensiná-la o que sabia, era só o que eu pensava. Estava começando a Era das Trevas e mais do que antes eu temia pela minha sanidade e precisava de uma companhia que me entendesse depois de já ter tentado tantos humanos.

Senti que ela também esperava isso, esperava uma companhia, alguém de nossa espécie que a ensinasse onde seu senhor havera falhado. Tomei novamente a compostura e com dois passos cruzei o caminho que nos distanciava. Olhei dentro dos seus olhos e ela se inclinou, se oferecendo à minha bebida. Bebi e pude ver ainda mais, vi porque seu criador a escolhera e porque ele, depois, temendo-a, a deixou à deriva neste mundo absorto e vil. A jovem tinha um estranho dom de possuir o que tocava, mesmo quando ainda era humana. Ela podia entrar em sonhos de uma pessoa adormecida e podia domá-las, falar por elas, apenas com seu toque. Caí num frenesi de excitação pois nunca havia conhecido alguém, homem ou monstro, que pudesse tal artimanha sem algum tipo de feitiço. Dali tomei a decisão de que ela seria minha enquanto eu quisesse mantê-la!

Coloquei meu braço ao redor de sua cintura e partimos dali, com o Dom das Nuvens, que ela não conhecia pois se espantou tanto que seu corpo tremia junto ao meu firme, enquanto alcançávamos alturas inimagináveis. Ela acabou se mostrando irrequieta e insegura, temerosa, afinal era jovem e ainda não conhecia tanto nossos dons como conhecia seu próprio. Logo, chegamos à uma clareira, naquela mesma montanha, onde havia uma pequena caverna à direita e um lago - menos congelado que o anterior - à esquerda. A deitei em uma pedra e começamos a conversar como os humanos fazem.

"Seu nome era Ludmylia e era uma foragida. Primeiro de sua família, depois de sua aldeia, e então do seu criador que a encontrou vagando sozinha naquela montanha. Quando ela viu aquele homem, vestido àquela forma, achou que usando de seu dom poderia fugir para ainda mais longe pois sentia nele algo diferente. Claro que ele deixou ser visto para não afugentá-la - era uma de suas táticas vis que eu desprezava tanto. Ela viu que mesmo ao se aproximar, a figura não deixava de sorrir e convidá-la com os olhos e, pensando em tomar aquele corpo aparentemente forte, continuou a caminhar em sua direção. Quando a dois centímetros de toca-lhe o rosto, sua mão a parou. Naquele momento então ela agonizou e temeu. Ele mantinha o sorriso e numa fração de segundo, já bebia dela pelo pulso que havia agarrado. Parecia que ele a conhecia, que a esperava, que a testava e queria saber até onde ela poderia ir. Fraca e quase sem vida, ela ousou. E conseguiu! Usando do seu sangue vertido como catalisador, conseguiu por poucos instantes tomar o corpo do homem que, ao se ver enclausurado na própria prisão carnal, abandonou a bebida e se lançou para trás. Ao constatar que ela o surpreendera, ele compreendeu ainda mais a vontade de tê-la e que precisaria ser rápido pois ela estava à beira da morte. Cortando de seu próprio pulso, a deu de beber e assim fez dela uma de Nós. Tentou não passar a ela seus dons, com medo, porém não pôde controlar e acabou a fazendo mais poderosa do que imaginaria. Ao beber dela ele não herdara seu dom como imaginava, apenas a deixou mais forte quando deu-lhe seu Beijo Negro. Então ele a adotou e começou a ensiná-la, sempre mantendo a distância segura e assim cinco anos se passaram. Nela, ele notou um estranho apego ao que sentia desde antes, achou-a fraca e como é comum de nossa espécie, abandonou-a simplesmente, uma noite. Sem despedidas ou formalidades. Desde então ela vagava pelas mesmas montanhas, sem aprender mais nada a não ser a dor da solidão e desprezo."
Devo confessar que não tive pena. Conhecia sua história e pronto. Sentia que ela esperaria que eu fosse diferente do seu criador e que a tomasse, cuidasse dela e a protegesse. Ou seja, o que toda menina humana espera de uma figura masculina e isso me entristeceu. Concordei com a lembrança do seu criador de que ela não era para nós já que não imaginava o que poderia fazer com o Beijo e o que herdou com ele, parecia não entender que havia deixado o mundo humano e que agora poderia ser o que quisesse. Mesmo com tudo, sua fragilidade ainda me mantinha ligado à ela pois me recordava alguém que amei muito, muito tempo atrás, e que acabei perdendo por imaturidade minha. Ambos, acredito, colocamos nossos amores na figura um do outro e por este motivo, apenas, eu permiti que ela andasse comigo.

Descemos a montanha na noite seguinte em busca de alimento e, enquanto eu bebia de dez ela se manteve em apenas um homem que muito se parecia comigo. Notei que ela nutria ao mesmo tempo amor e raiva por aquele tipo e que se alimentava deles quase como que por vingança. Percebi também que ela usava seu dom para coisas fúteis e desnecessárias. Novamente, lamentei pela sua criação e pelo erro do criador. Mais algumas noites se passaram e os atos se repetiam: ela se alimentava dos homens, se deitava comigo quando parecia amanhecer, na montanha, e repetia a mesma intempérie na noite seguinte, em outra cidade. Ela era cansativa e nada interessante, exceto pelo seu dom. Noite após noite eu me cansava, mas ela não notava.

Meses, talvez anos, tenham se passado nestas condições quando de uma certa cidade, já exangue pela cristandade e a Era das Trevas com sua santa inquisição, começou a caçar seres que ameaçariam os seus. De predadores nos tornamos presas, aparentemente, pois eu não os temia. Ela, au contrárie, ainda se atendo à humanidade, tinha medo de ser pega e não poder fugir, como era quando da sua infância. Dado destino, certa noite, enquanto nos alimentávamos, um grupo de cerca de doze homens nos cercaram. Eu, sem esboçar que aquilo parecia um risco, mantive minha calma. Ela porém, ardia em febre de pavor. Parecia que completamente havia esquecido o que se tornara e voltara a ser a menina indefesa que era antes. Confesso que não recuei, não me movi um centímetro sequer, enquanto ela partia para cima deles, inconsciente da força que poderia aplicar e do poder que tinha.

Eu, cansado da sua presença fraca e pouco competitiva, a deixei ser capturada. Quatro deles foram suficientes para domá-la, não porque ela era desprovida em termos de física, mas era em termos mentais. Os outros oito se voltaram contra mim e na mesma fração que piscaram os olhos, estavam retalhados e sequer viram a morte chegar. Enquanto a levavam eu não me mexi, mesmo sob seu olhar fulminante. Minha última esperança era de que ela se recordaria do que era ou que ao menos usaria seu dom e tomaria um dos homens, expondo os outros à loucura. Nada disso fez, se deixando levar em desespero e em sua mente ela me apedrejava. Eu segui o cortejo inquisidor e em nenhum momento ela ousou, apenas se deixou intimidar.

Não tive pena, novamente, quando prepararam a pira e quando o fogo já estava alcançando os mesmos céus que eu a levara antes, eles a lançaram. Não senti tristeza ou dor ao vê-la sendo rapidamente consumida, não por eu ser um monstro, mas por achar que era seu destino. Quando não servem a nós, servem a si mesmos e, então, morrem por sua própria vontade. Logo ela não era mais nada, como sempre pareceu ser, apenas uma dama que tinha um dom extraordinário e não sabia usá-lo. Ou não parecia saber.

Depois deste fato, voltei a caminhar para a floresta, passando por um campo cultivado de milho de um daqueles mesmos camponeses que liquidaram a existência da minha breve companhia. Perambulando, deparei-me com uma destas réplicas que fazem de si para espantar aves de rapina que destroem as plantações e sorri, pois realmente me confundira fazendo acreditar que era um deles. Meu sorriso se transformou em seriedade e mordi meus próprios lábios quando a réplica (que hoje descobri que chamam-no de Espantalho) se jogou em minha direção. Me afastei como um trovão e ele caiu aos meus pés. Olhei em volta, imaginando quem poderia ter feito aquilo e então a réplica se levantou. Havia um estranho brilho verde por sobre ela e então começou a se contorcer e trazer as mãos ao rosto, como que chorando. Se contorcia de forma aparentemente dolorosa e chorava, sem emitir um som, seu corpo caricato ainda mais deformado enquanto se partia por todos os lados e ainda levando as mãos ao rosto. Veio em minha direção e por um instante, pela surpresa, não pude me mexer: a réplica pegou meu braço e colocou ao redor de sua cintura - o mesmo ato inicial que eu havia feito com Ludmylia - e então percebi que era parte dela que tomava àquela réplica e que, com aquele sinal, mostrava-me sua identidade. Logo, deixou-me e se contorceu ainda mais, por uma última vez, quando o brilho de tom musgo também desapareceu e a réplica deixou à vida, caindo no campo de milho como se nunca houvesse mexido uma polegada, porém, destroçado.

Esta foi a primeira vez que tive a certeza do dom de Ludmylia e o quão poderoso poderia ser se ela pudesse ter aprendido a usá-lo. Tive medo e senti tristeza então, me repreendi, por não ter visto seu potencial. Deixei que meus milênios me tornassem inóspito ao companheirismo. Também foi a primeira vez que vi um espírito dos nossos e não sei até hoje se era apenas parte do que sobrou de etéreo dela. De uma forma estranha também me senti confortado pois comecei a imaginar que não somos tão vazios quanto dizem e que talvez, mesmo quando nos formos, parte de nós possa se manter atrelado à este plano. Hoje, sinto falta de Ludmylia pois tenho andado muito sozinho mas, desde aquela noite, não presenciei mais alguma manifestação dela ou qualquer que seja. Logo, permaneço sozinho.

In Memoriam Ludmylia Schirivaniskova - Que amava tanto à humanidade que, mesmo ao se tornar um dos monstros, não se perdeu dela como Todos nós fazemos. 



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3.14.2012

Um diário perdido outrora, outro criado agora


A semana passara com os planos em evidência: haveria luxúria na noite de sábado para refestelar o tempo perdido com compromissos e acidentes de percurso emocionais. Planos, propostas, amigo envolvido (cujo nome será revelado em acróstico quando menos se perceber), boate, bebidas, fogo, água, gelo, sonho, cuidado, rancor, asas e sêmen. Ao menos era o que havia em mente.

Eu, paradoxalmente antigo tentando me adaptar ao moderno, sensual, denso, intenso, mergulhado em sujidade e ressonante. O amigo, neutro, diurno, responsável e espirituoso. Mistura perigosa, no entanto havia um pacto.

Sábado chegara e com ele as mentiras deslavadas e incongruentes. Manhã, Tarde, enfim, Noite. Últimas decisões, desespero momentâneo, notícias ruins, mortes, desapego. Rumo ao que o diabo esperava após atrasos da minha parte. Local, hidromel moderno, conversa, observação. Trajeto, entrada, ambientação, repulsa, nova adaptação. Festa, homens, sorrisos e falsidades. Ele, eu, meus irmãos-deuses conosco. Dança, ruído, sinal, sinais, concepções.

- Em Noite adentro.

Lá pelas tantas, o ostracismo me encontrara. Tentava manter-me erigido na minha ausência e plenitude. A certa hora - receio que por volta de, tarde demais - vislumbrei-o. Não somente o vi, antecedi sua presença à minha e, como descrito no relato anterior, o conhecia da mesma forma que conheço todos os outros. Me divertira com as mentiras humanas contadas e a decadência do "sexo forte". Confesso que mesclei sorriso com decepção durante boa parte da noite mas, meu amigo supino-reto-à-90º, manteve-me absorto dos outros com suas vibrantes transliterações do que víamos (perdoa-me, amigo, mas para poupá-lo ocultarei alguns detalhes). Eu o vi, lindo como a luz da Lua com todos os seus versos de prata. Algo imponente sua maneira esnobe, cabelos, olhos, corpo, cheiro. Cheiro.

O tempo passou de forma sucinta, me apeguei àquela hora em que o vi e o tempo congelara. Não era amor, óbvio, era necessidade de contato.

Cacei, espreitei, deliciei meus olhos e meu corpo se manteve rijo, ereto, ocultei meus olhos desejosos dos dele e esperei. Esperei o momento certo para atacar, enquanto no sofá de uma pequena sala de estar eu aumentei a dose de sedução e, em décimos de segundo, eu o beijei. Antes de saber seu nome ou de onde vinha. Ele retribuiu o beijo, lógico, e me chamou do que eles sempre me chamam: Vampiro. Confessei minha raça mas não dei tempo para réplicas e o beijei novamente. E de novo e de novo e de novo. Para garantir, de novo. Não me cabia somente em mim.

A conversa então precisou aflorar e ouvi cada detalhe com a atenção de um lobo. Falei pouco sobre mim, deixei o restante à própria descoberta. Conversamos mais, dançamos juntos, beijamos um ao outro enquanto a noite voltava a ser uma criança que perdi de vista por instantes suficientes para que derrubasse meu vaso da era Tokugawa favorito e me deixasse a culpa. Uma lástima!

- Noite afora.

O tempo acabara, a viagem de retorno precisaria ser refeita. Por um acaso do destino (sim, EU destino) os amigos o deixaram cedo demais por algo urgente (sim, confesso) e meu convite de ser acompanhado por mim e por meu amigo o agradou. Talvez tenha agradado a todos, acredito, o interesse era meu mas meu amigo é um amigo complacente com meus caprichos e agradeço-o por isso (mas não me deixe mimado). No caminho de volta peguei seus contatos e nos falamos uma vez após este dia. Muitas horas de conversa até descobrir gostos iguais, não semelhantes, realmente iguais e constatar que ele era mais um Dele, destes que são um só e que estão sempre comigo. Meus sentidos se afloraram porque ele era exatamente os dois décimos que faltavam para minha completude.

Eles são como os Jacks, estão em toda parte, me seduzindo, me tornando um escravo deles, se fazendo em mim e no meu corpo, se aproveitando da minha idade, da minha raça.

Não dormimos juntos mas é como se tivéssemos. Isso me assusta. Hoje, passados três dias da conversa me sinto só, culpado e magoado pela sua displicência. Ao mesmo tempo me sinto feliz pois nunca gostei de ser controlado. Temo entrar em contato e não suportar a culpa. Temo deixar esta fluidez se perder e nunca mais tornar a vê-lo. Temo que meu amor descubra que escrevo este diário secreto de traição literária, tão fundamentada quanto um escaravelho esmeralda carregando um jornal de domingo.

Temo que outro Jack se aposse do espaço que todos estes Jacks estão desbravando. Tornei-me um temerário de Jacks e não sei o que fazer.

Para falar mais dele gastaria umas cem páginas: vi seu futuro e seu passado, vi o que construiríamos juntos, vi seus pais, mãe, irmãos, conversa, desejos, medos, posses, vontades e senti seu cheiro. Isso marcou-me deveras.

A conversa foi realmente uma das melhores que já tive ao longo de uma existência capciosa desde o último milênio. E como ele é/era deslumbrante!

- qualquer nome aqui não descrito pertence a alguém que pode ou não ter corpo sólido, não interessa. Eu sou o Alfa e o Ômega e exijo meu direito de criar. 

3.28.2011

Falando às paredes

Nova recomendação antiga. Minha melhor amiga nesta vida de agora e minha melhor parte neste mundo, minha salvadora e minha mantenedora de muitos feitos. Por ela eu ainda estou aqui e graças à intervenção dela. Não há elogios ou créditos suficientes neste mundo para competir com tamanha amizade e amor.

Lhes entrego, Madame Carolli.

http://janejcjc.blogspot.com/

3.25.2011

Liberdade do Cemitério

Posso eu mesmo não estar reconhecendo o que anda acontecendo, mas entenda que a vida de um incógnito pode ser muito fugaz, melhor, efêmera. Digo da vida social já que técnicamente não morremos para nós mesmo e sim para os outros. Fazer da minha pequena existência algo memorável não é de meu feitio. Fato.

Mas perecer escondido também não.

Dadas as circunstâncias, não é a morte que nos faz mal e sim o que ela nos tira. Pense nisso enquanto conhece alguém que já perdeu Tudo. Tudo o que era pois não pode-se perder algo que não se tenha ou que seja ou ainda que usufrua temporariamente como um avatar. Fala-se sobre morte e sobre angústia? Pense como é ter isso em vida. Ou no conceito mais difundido atualmente, a morte em vida.

O embate não é fenecer ou permanecer, é como fazê-lo. E fazer bem feito.