Noite quente de verão, à beira-mar.
Mesmo com minha aversão instintiva à água corrente, acabei por deixar-me à deriva numa noite em que não havia Lua brilhante no céu. Imaginei que, desta forma, talvez o feitiço antigo sobre a proibição de nossa espécie à presença de marés pudesse ser de certa forma amenizado. Bom, era apenas uma tentativa que logo se mostrou infrutífera pois, a poucos metros da areia da praia que eu margeava, eu já me sentia encolhido e subitamente enjoado - mesmo não havendo algo internamente fisiológico que pudesse causar tal desconforto. Evitando assim colocar-me em risco, resolvi deixar o ambiente.
Logo ao me virar, pude notar um pequeno grupo de jovens que vinham alegres pela calçada, cantarolando alguma música moderna com suas rimas pobres e letra que faria um boêmio do século XVII se sentir enojado com a futilidade e decadência do pudor humano atual. Evitando o contato visual e assim mostrar minha atual fragilidade, coloquei-me de lado enquanto eles passavam. O bando era composto de dois jovens rapazes e quatro meninas, todos bem bonitos e atrativamente sensuais. Ainda com a intempérie da minha bagunça orgânica, pude ouvir que um dos jovens cochichou ao colega mais próximo a seguinte frase com exatidão: "- Nossa, mas que homem mais estranho. Parece um vampiro" e então deu um sorriso afetado, o outro acabou sorrindo também. Achei interessante a observação do jovem pois, de tantos adjetivos, qualidades e defeitos, ele enunciou justamente a minha raça, sem poder logicamente ter a garantia. Parei exatamente onde estava e passei a acompanhar sua reflexão, ainda sobre mim, com os colegas. Uma das meninas anunciou, ao me ver: "- Não olha agora mas estranhamente seu vampiro está parado ali na esquina, como que esperando" e então logo todos olharam em minha direção e sorriram, comprovando o fato. Eu, àquela distância, pronunciava um sorriso convidativo e intimidador, bastava observar pelo ângulo correto.
Permaneci então à sua espera, aguardando a decisão do jovem se viria ou não ter comigo. Óbvio, ele viria!
Deixou os colegas seguirem e deu meia volta, seguindo em minha direção que o aguardava pronunciando ainda mais minha intenção. Forcei deveras minha presença pois, ainda à beira-mar, me sentia vulnerável. Em alguns instantes estava ele defronte a mi e então pude notar como era realmente belo, com um ar infantil mesmo com alguns fios de cabelo grisalhos em sua cabeça, um sorriso expressivo, lábios sedutores e um corpo atlético - um profissional na arte que se considerava a melhor qualidade. O tempo todo em sua mente só girava uma palavra: VAMPIRO. E ele estava certo afinal.
No seu misto de curiosidade e receio, ele ousou verbalizar a suspeita, questionando-me. Como eu já por diversas vezes dissera, não oculto a quem perguntar a verdade e simplesmente confirmei. Ele parecia atordoado mas ainda, também dentro da lógica humana, desconfiado. Havia uma dedicação na intensidade com que ele desejava que aquilo fosse verdade, uma necessidade quase palatável. Era como se ele precisasse contar com aquilo, como se estivesse esperando há muito tempo, como se ansiasse mais do que a própria vida. De todos os que já possui, talvez este tenha sido o mais consciente da minha índole e intenção desde o começo.
Nos apresentamos e trocamos um aperto de mão formal, ele ainda excitado e reagindo bruscamente ao sentir meu toque gélido. Seus olhos brilhavam à menor luz exterior e seu interior queimava. Mais um adendo, talvez ainda de todos, este tenha sido o que mais facilmente se entregou pois não precisei sequer de um esforço ilusionista para seduzi-lo a me acompanhar. Ele o fazia com atitude e se valendo de uma adorável surpresa que estaria para ser revelada. Decidimos então nos instalarmos num local ali perto, sem hesitação disse-lhe que não o levaria à minha morada ainda e ele não se incomodou - estaria habituado a ocasiões de nenhuma formalidade? Provavelmente. Havia um hotel muito conhecido naquelas redondezas e ele se mostrou fascinado quando entramos no lobby e eu, sorrateiramente induzi à recepcionista com imagens mentais, poupando assim sua morte ao reconhecer meu rosto futuramente, e dando entrada numa das melhores suítes que poderia haver. Logo, o jovem me acompanhava no elevador, rumo à cobertura. Ainda mais sua fascinação era palpável, a cada milímetro andado e dada a proximidade com que ele esperava seu êxito.
O encaminhei à suíte e, ainda à meia-luz ele já se despia enquanto balbuciava pequenos estalidos alternando com gemidos de satisfação. Fazia isso em pé, defronte a mim, me incitando e seduzindo com olhares e provocações labiais. Logo então, eu estava de pé perante ele, acariciando seu corpo com meus dedos congelados. Ele beijava meu peito por sobre a blusa e levava suas mãos pelo meu corpo, do pescoço ao sexo, das costas ao encontro com minhas próprias mãos. Confesso aqui que não estava mais tão excitado quanto no começo, havia uma particularidade neste jovem que me incomodava. Talvez sua busca pela morte, sua frivolidade com a vida, sua fantasia sobre o que eu seria e o que faria por ele. Em seu desejo, eu o tomaria para mim e o faria dele vampiro, logo, viveríamos uma perfeita utopia amoroso e sexual - claro, como vista em filmes. Este desmerecimento e falta de reconhecimento me deixava obstante, ausente. Depois de se colocar nu e a mim também, pode provar do meu sexo.
Como a intimidade começou a me paralisar e suas emoções vinham a mim como um tufão, coloquei minha mente do lado de fora e não aproveitei a cópula. Hoje, sem me recordar com clareza, sequer chego a lembrar se houve. O momento crucial foi quando, na iminência de ser possuído por mim, sussurrando em meu ouvido disse ser portador de uma enfermidade sanguínea letal aos humanos. Disse tais palavras sem receio, pudor, dúvida, preocupação ou resignação. Como estas patologias não me afetam, ignorei e notei ali seu desejo aumentar. Crio um lapso aqui sobre o que julguei ser o evidente: ele, por estar numa vida um tanto quanto corrompida, acabou sendo vítima e, ao se encontrar em déficit no mundo, buscava por alguém com quem compartilhar. Em sua cabeça infantil e débil, julgava ser uma fantasia encontrar uma entidade qualquer que o aceitasse e, quando se deparara comigo, não hesitou e acreditou no que via em filmes, não no que a realidade crua e gélida poderia evidenciar. Vivia num mundo de sonhos e ausência e, ao encontrar uma criatura mítica, achou que sua vida poderia ser resumida e explicada. Deixei então que ele se calçasse desta fantasia por alguns momentos, enquanto alucinava, enquanto se revelava, enquanto era possuído.
Antes mesmo da terceira hora passada, deitado na cama, fazia planos sobre o futuro em que ambos compartilharíamos. Pensou em casa, família, bens, sangue, vingança, beleza e acima de tudo, pensou em imortalidade. Eu, simplesmente pensei que não valeria me alimentar e que precisava me livrar daquela presença.
Recompensei-lhe com o derradeiro desejo, mostrei minhas presas e, olhando em seus olhos, mudei a cor dos meus do azul-celeste para o carmesim-profundo, além de demonstrar minha incrível agilidade e flexibilidade. Ouvia o rugido dos espasmos de seu corpo, desejando aquele poder, desejando ser liberto. Havia um pequeno afluente de lágrimas em seus olhos enquanto já quase mascava sua imortalidade.
"- É seu desejo se tornar um imortal então? Por isso se arriscou tanto numa fantasia?"
"- Sim, é o que eu mais quero. Ser igual a você."
"- Está disposto a viver de vidas humanas, beber deles, livrar-se deles após sua fútil e tola ingesta? Com esta facilidade?"
"- Faria qualquer coisa para me livrar deste peso."
"- Peso? Tu por ventura sabe o que é carregar um peso?"
"- ..."
Me aproximei perto o suficiente para que meus cílios tocassem os dele e ele então cerrou os olhos, esperando pelo beijo negro. Continuou esperando. E esperando. Esperando. Seu coração tomado de pavor e angústia, quando ao abrir os olhos, não havia vivalma no quarto, apenas a janela aberta da cobertura e o frio rascante que adentrava o recinto. Suas lágrimas quase congelaram nos olhos e pode constatar que sua única chance havia simplesmente se livrado dele.
Já a algumas milhas de distância, sentado em um parque, comecei a pensar no sofrimento que ele estaria engendrando naquele momento. Quão terrível seria compreender que sua única chance de viver e ser como os contos de fadas se foi para sempre. Sua imortalidade, sua existência. Eu havia desaparecido e comigo sua cura, sua prosperidade, sua futura vida de Lorde. Ele desejou ter morrido, eu sabia disso. Sabia que o que fiz era pior que a morte para ele e me sentia renovado, mesmo não tendo bebido. O prazer era tanto que não precisei beber, não precisei sequer repousar no dia seguinte, apenas fiquei revendo toda a cena na minha mente e tendo orgasmos com o sofrimento e a loucura que acometeu o jovem tão jovem e, portanto, tão inconsequente. Ele não mais me veria, não conseguiria me localizar e passaria o que restasse de sua vida, insano, às ruas, caçando indiscriminadamente outra entidade que nunca acharia, ensandecido, vendo sua vida esvair gole a gole.
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Tenho consciente noção da minha maldade e do peso que eu sim carrego. Existem os que nasceram para morrer e os que não optam por isso. Existem os desesperados e os indiferentes, os tolos e os sábios, os poetas e os carrascos. Nenhum humano tem o direito de se rejubilar por ser poderoso o suficiente a ponto de usurpar outra vida humana e é neste pecado, que os mais débeis se perdem. Sei que sou mau, sujo, feio e inumano. Sei também que eu me criei assim. Tanto quanto sei que não desejo para ninguém mais esta maldição.
É válido procurarmos conhecer a que má e penosa servidão nos sujeitamos quando nos abandonamos ao poder alternado dos prazeres e das dores, esses dois amos tão caprichosos quanto tirânicos. // Sêneca