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10.15.2013

Havia uma unidade disposta a partir


Havia um jovem que, certo dia, decido revelar seu mais precioso segredo, resolvera juntar seus entes queridos em uma reunião para isso. Convocou mãe, avós, irmãos, primos mais próximo, tios e tias e animais de estimação que eram considerados parte da família. Fez isso numa tarde de quarta-feira do Oitavo mês do calendário gregoriano – como exigia a regra (?!) estipulada pelos antigos escribas. Todos reunidos, sem expressarem a curiosidade evidente para a ocasião, estavam lá, aguardando. Passava pelas suas mentes revelações de cunho sexual, matrimonial, profissional, residencial mas nunca poderiam supor que seria deste nível.

Lá estava ele, chegando alguns instantes antes do que havia programado – beirando às dezessete horas daquela quarta-feira daquele Oitavo mês – com uma calma ímpar que não lhe rendia honra. Ele chegou, cumprimentou a todos e disse-lhes que estava honrado em recebe-los todos para sua declaração. Todos se entreolharam mas não ousaram arriscar as ideias. “- Bem” – Ele disse – “- É hora então de lhes contar o porquê de tudo isso”. Ainda dentro da sua calma ímpar ele o fez.

Dirigindo-se ao centro da sala, afastando os objetos próximos, ele cerrou os olhos e a energia oscilou. Havia uma tensão no ar, algo estático, que eles não compreendiam. Logo, uma luz o envolveu e cegou a todos momentaneamente. Do foco da luz, quando amenizada, surgia dois pares de enormes asas tão alvas quanto cálidas, de uma imparcialidade nunca dantes vista. Não se pareciam com asas de gaivota ou de falcão ou de águia ou de pássaro algum. Enormes asas, que preenchiam o espaço e aterrorizava quem estava observando. Metade dos espectadores altercava entre o choro e o desespero, uma parte louvava a seu deus nas alturas e uma parte simplesmente entrava em choque. Avô e avó jubilavam pela glória do senhor das nações, a mãe chorava em desespero, as tias apenas encaravam atônitas, as crianças sorriam e o que estava surgindo os contemplava. Ainda desabrochando as asas, entre a luz, ele observou para que não as tocassem. Perceberam então que a unidade que saia da luz era ele e não era ele, era algo diferente mesmo sendo ele, havia sua presença mas ela era irradiada mais além, havia também uma voz latejando em suas mentes. A roupa dele mudara para um conjunto de tecidos quase tão brancos como suas asas, porém menos etéreo. Havia uma coroa alojada em sua cabeça também, feita de luz e semblantes encrustados no ouro.

Elevando suas asas então, ele sorriu para eles. Disse-lhes que ainda era o mesmo que eles criaram, mas também era criatura do Altíssimo. Moldado por Ele, lá em cima. Antevendo seus avós – religiosos – ele disse quase num tom brincalhão que era ele a quem Ezequiel viu e descreveu, mas de uma outra maneira. Pela surpresa, seus avós hesitaram e ele, recitando as nobres palavras do profeta mostrou-lhes mais.

“Olhei e vi uma tempestade que vinha do norte: uma nuvem imensa, com relâmpagos e faíscas, cercada por uma luz brilhante. O centro do fogo parecia metal reluzente” – E se dirigia aos presentes – “Assim eram os seus rostos. Suas asas estavam estendidas para cima; cada um deles tinha duas asas que se encostavam na de outro ser vivente, de um lado e do outro, e duas asas que co­briam os seus corpos.” – E ao dizer isso, ainda mantendo uma distância segura, evocou mais um par de asas de seu dorso. A surpresa de antes ainda era a de agora, ao perceberem que ainda havia mais mistério naquela unidade. Logo, postado com quatro asas semiabertas, no meio de uma sala entre sua família, ele sorria-lhes com os olhos. “Quan­do os seres viventes se moviam, elas também se mo­viam; quan­do eles ficavam imóveis, elas também ficavam; e, quan­do os seres viventes se elevavam do chão, as rodas também se elevavam com eles, porque o mesmo Espírito deles estava nelas.” – E então evocou mais um par de asas: seis ao todo, todas brilhando e tremeluzindo, desassociando até a luz elétrica presente.

Havia um desespero entre os presentes, apenas a unidade parecia incontestavelmente segura de si. Tratou então de explicar-lhes o motivo, dizendo que era planos dEle que ele viesse mas que estava na hora de voltar, por isso, achando por bem trabalhar com a verdade e por amá-los, se expôs. No seu íntimo sabia que logo eles esqueceriam dele, como a regra também diz, mas resolvera arriscar. Dizendo isso, encolheu as asas e disse-lhes que poderiam tocar se quisessem, para comprovar que ele era real – como se necessitasse, depois de tudo. Explicou-lhes que era da Falange dos Serafins, anjos de fogo, que trabalham diretamente com o Elo e por isso os seis pares de asas. Contou-lhes que, mesmo entre eles, ele era especial. Era o braço direito dEle, um escriba e retalhou o assunto dizendo que era ele quem escrevia o Verbo. Seus avós entenderam a essência, os outros não. Contou-lhes que as asas eram sua ordem e sua arma e que são mais quentes que o sol por isso só tocariam com a permissão dele. Falou-lhes da sua idade, parte do que podia fazer e omitiu muita coisa mais.

Não havia ainda uma calma, uma tranquilidade, porém estavam mais conscientes e isso bastava. Havia choro e lágrimas, que logo seriam confortadas. Falou então da sua intenção, dizendo que uma das magnitudes da sua Falange era que, para cada pena de sua asa, havia um desejo e que entregaria uma pena para cada, para seus próprios desejos. Logicamente houve um desconserto entre eles, duvidando entre o que viam, o que imaginavam e o que poderia de fato ser real e palpável de tudo. Explicou-lhes detalhadamente que, conjunto a estes desejos, havia a responsabilidade do anjo, logo, caso desejassem algo mal esse mal seria revertido em culpa para ele. Isso, ainda nos dias de hoje, é a única coisa que pode macular a integridade das asas de um ser angélico. Havia o burburinho comum, esperado de fato, com os pensamentos voltados aonde conseguiriam ir. Nestes casos (não vou excluir os presentes disso) sempre o primeiro pensamento é a riqueza, nunca entendi o porquê. Deixou-lhes pensar durante alguns instantes, enquanto respondia superficialmente as perguntas como: então isso explica tudo, não?

Passado o tempo, ele se voltou a eles. Haviam oito pessoas entre eles – os que puderam estar presentes, havia uma intenção de repetir o fato ao outro lado da família naquela mesma noite – todos a família mais próxima que a unidade tinha. Oito pessoas: avô, avó, mãe, duas tias, irmã, primo e prima. Oito penas foram recolhidas da asa que estava mais próxima. Notaram que, para cada pena tirada, não havia sangue ou mácula ou espaço aberto. Era como se a asa fosse uma entidade em si, se mantendo. Chamou um por um para concretizar o que havia prometido. Seus avós foram os primeiros, desejaram – como matriarca e patriarca de uma grande família – sabiamente, a saúde de todos, inclusive a própria. Neste momento as duas penas sumiram e com elas toda fragilidade e doença que haviam em seus corpos, desaparecendo também todo conhecimento de como elas foram adquiridas. Deixando claro: o pedido era simples e a responsabilidade enorme, não haveria como oferecer a imortalidade quando se priva das doenças. Eliminar doenças existentes é um grande feito mas tornar os humanos imunes é ousado demais. O que havia foi eliminado por milagre mas não podemos simplesmente dizer que de agora em diante não precisarão se preocupar. Imaginem pessoas se jogando na frente de veículos sabendo que não podem morrer ou sendo descuidados com a saúde porque sabem que não podem adoecer. O desejo da mãe era mais detalhado, ela pedia a saúde da filha, do esposo, dos parentes e que a vida financeira desse certo e, neste momento, a unidade disse-lhe que, por estar deixando esse mundo, todos os bens que ele possuíra seriam passados a ela, ou seja, uma enorme quantia em dinheiro que seria suficiente para que não trabalhassem pelos próximos cem anos além de suprir todas as necessidades básicas e até moderadas de conforto. Novamente, não há como explicar a riqueza espontânea aos outros mas, ao saberem de um ente querido trabalhador e justo, que partira, a herança era algo previsto. A primeira tia pediu pela saúde do filho, do esposo e da família, além de que os planos fossem sempre observados para que dessem certo e que houvesse consenso na família. A saúde já estava prevista e a unidade disse-lhe que intensificaria a proteção da guarda dele, para todo o sempre. Tudo o que quisessem, se desejado de bom coração, seria deles. Seja o que fosse, bastasse a boa intenção. Também aqui, algo relativamente previsto. A próxima tia desejou que sua vida matrimonial voltasse a ser como antes, ele disse-lhe que o passado não pode ser desfeito mas que há um futuro pela frente. Que ela deveria batalhar pela filha e por si mesma, como um conselho. Ela não aceitou, queria o que julgava ser seu. A unidade tentou reconsiderar, mostrando-lhe como seria caso insistisse. Ela acatou, então a unidade deu-lhe o que ela amava. Ela não se importava com riqueza ou bens, apenas com sua perda. A unidade, ciente, disse-lhe que no dia em que ele encostasse-lhe a mão, ele seria fulminado por mil estacas porque estaria indo contra o primeiro pedido – o da saúde – e se ela arriscaria. Ela arriscou e então a unidade lhe disse que no dia seguinte o seu antigo consorte a procuraria. A prima desejou apenas felicidade e sim riquezas. A unidade disse-lhe que, quando se tornasse maior de idade, ganharia uma recompensa inesperada e que – até lá, seria responsabilidade de sua mãe e, como ela não pediu riquezas, seria como sempre foi mas que, quando respondesse por si teria tudo o que quiser. O primo desejou riqueza também e, por ser já maior de idade, a unidade disse-lhe que ele seria rico e aconselhou a saber usar o dinheiro ou o mesmo mal o arrastaria de volta. A irmã, a última em que a unidade havia depositado esperança, recusou o desejo pois disse-lhe que todos já haviam pedido o que deveriam pedir e que ela estava satisfeita com o dinheiro que chegaria.

Assim, as oito penas foram usadas em prol do bem maior.

Eles não notaram que a unidade parecia recolher-se em si, enquanto pediam. Ele apenas observava, com suas asas encolhidas farfalhando, aguardando e explicando desejo por desejo e como faria acontecer. Por fim, ele disse que precisava se tornar homem novamente, recolheu as asas para si, com a calma já quase instalada entre os presentes, e que precisava descansar. O clima etéreo e fantástico se encarregava de fazer com que todos achassem que estavam em um sonho ou algo parecido então boa parte das explicações eram desnecessárias. Disse-lhes a unidade que repetiria o gesto, pelo outro lado da família pela justiça uma vez que também o criaram mas que eles não se lembrariam do que acontecera ali de uma forma clara. Todos os desejos iam sendo realizados e eles saberiam o porquê, mas não conseguiriam contar a história adiante e aquele jovem, que pertencia a família, seria tido como alguém que se foi apenas. Parecia que todos estavam cientes disso. Logo, a unidade recolheu suas asas e se tornou o mesmo homem que chegara ali algumas horas antes. E então notaram que haviam lágrimas de sangue em seus olhos, que transbordava. A visão causava dor e constrangimento, culpa, remorso e náusea. Sua avó perguntou-lhe se “aquilo” significava que ele estava chorando e ele assentiu. Todos imaginavam a dor que ele poderia estar sentindo por ter de partir.

Ele concordou que chorava por esta dor, porém como que, usada pelo Santo Espírito, sua irmã interveio. “- Espera ai, você precisa mesmo ir embora?”. A unidade disse-lhe “- Se algum de vocês tivesse desejado que eu ficasse, eu poderia ter ficado”. E partiu.

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4.16.2013

Pequena dissertação acerca do erro cometido hoje


Como homem eu sou um tolo, débil, incapaz. Declino perante leviandades e me excitam, paradoxalmente, situações constrangedoras. Não basta ser rico, poderoso, belo e indiferente. Preciso testar estas condições no cotidiano. Não me oculto mais, mantenho-me aos holofotes. Parece que para cada esperança que acorda comigo, já é criada uma desesperança que se alimenta com o mesmo ardor inicial. É quase que uma descriação para as minhas criações, como um pássaro que nasce sabendo que será devorado por um gato, todos os dias, sem sequer ter a chance de escapar.

É como me sinto, invariavelmente, quando caio em armadilhas que já nasceram fragilizadas. Para mim, não para os meus captores. Pego-me pensando se Van Gogh, Rimbaud, Baudelaire, Poe, Doyle... Todos estes sofreram dos mesmos augúrios. Einstein. Sei que Shaw era indiferente o bastante para se manter por sobre todas estas frivolidades, assim como Wilde. Pensara eu ser indiferente o suficiente tendo aprendido com os mestres. Hoje vejo que não. Basta um olhar que meu senso de übermenschz aflore e desencadeie em mim uma necessidade de ajudar o 'próximo' - entre aspas porque não existe próximo a mim, excetuando a Morte. Basta uma pequena interferência que eu já me considero o protetor dos fracos, o herói singular de contos de fadas, o presunçoso capitão-qualquer-coisa que existe somente para determinar a justiça e aplicá-la aos merecedores. Uma besteira sem-fim, eu reconheço. Reconheço que não sou o herói nem o quero ser. Faço o que faço visando meu próprio benefício e ainda assim não o tenho. Nunca fiz nada pelo Bem Maior ou pela Felicidade Coletiva, não sou o Mister Mundo que almeja a paz mundial, não sou o estereótipo do SuperMan. 
Fui à floresta porque queria viver de verdade.
Eu queria viver profundamente e tirar toda a essência da vida.
Fazer apodrecer tudo que não era e vida, e não, quando eu morrer descobrir que não vivi.
Thoreau
Eu sou o anti-herói, o corrupto, o corruptor, o sujo, pérfido, macabro, leviano, escuro. E como isso me fascina! Sentir o medo que refrigera a alma dos que estão em meus caminhos. Não sou um anjo e sim aquele que se diverte arrancando suas asas, pelo simples prazer de vê-los incendiando e repudiando seu próprio criador. Sou antigo, vivi no aterro do mundo apenas esperando para emergir. Sou tudo isso mas ainda sofro por pequenas maledicências em que me coloco envolvido. Vejo minha vida com dois rumos, seguindo a Mão Esquerda dos deuses quando estou consciente e paralelamente, afilando minhas espada dourada e contemplando minha coroa de cristal, cedidas pelo deus-uno quando me lançou nesta maldição de mundo. Talvez esta seja a recompensa sombria dele, me ver dividido. Como que com um dos olhos furados, na dúvida sobre qual caminho escolher.

Homens pequenos, sentimentos pequenos, ocasiões pequenas. Tudo isso me estrangula a intensidade. Porque de todo o sempre esperarei recompensa pelo que faço e pelo que sou, e preciso que seja da forma que eu espero. Quero ser pago com sexo, amor puro, impuro, medo, respeito, vingança, ódio, temor, matança. Só não me permito ser recompensado com indiferença pois esta era justamente minha arma inicial.

Deixei de ser indiferente no momento que optei descer e viver aqui, mas, mesmo assim, prossigo. Nada é valioso o bastante pra mim, nem as poesias de Thoreau, nem as prosas de Henley, nem sequer os ensinamentos do Pentateuco Moshía. Nem a sangria que já me encheu a boca, nem os corpos que se deitaram em minha cama ou comigo - dos mais violentos ao mais recluso deles. Nem mesmo o dinheiro ou o que ele me compra. O conhecimento do passado, presente e futuro além das coisas da vida. Nem a aptidão inata, nem a pluriciência. NADA. Nada mais me causa algum tipo de fascinação atrevida, apenas desencanto e desilusão - todos iniciados por uma decisão minha. Nenhum homem me merece mais, nenhuma mulher, nenhum demônio. Nem me apetece estar para com eles. Da minha Fortaleza Abandonada da Solidão eu vejo o mundo e prevejo onde irá parar, mas sem me atrever a descer e acidentalmente causar uma ruptura nesta concepção de papelão.

Tudo começa em mim mas nada termina. Não estou aqui quando penso que estou, nem estou em qualquer lugar. Escrevo sobre mortes porque as desejo e decerto as conseguirei, nem que custe, uma vida. Tenho muitas e isso é meu bem e meu mal. Tenho todo o tempo do mundo e não preciso de absolutamente nada, o que significa que, não queira ser surpreendido algum dia, por alguém... Imploro por esta surpresa.


"Somos todos geniais. Mas se você passar a vida julgando um peixe pela sua capacidade de subir em árvores, ele passará a vida inteira acreditando ser estúpido." Einstein.

3.21.2013

Necessidades descritivas


Tenho pensado nas coisas da vida e como acontecem para conosco. Palavras, ações, cada ato julgado, cada atenção refletida e o que pensamos estar sob nosso controle, acabamos, deixando no controle de outrem. Estas mesmas ações são atuadas, previstas, criadas para nosso afeto mas podem ser tanto destruídas como aplaudidas.

Talvez nada faça mais jus à misantropia do que a extrema necessidade de ser aceito.

O que acontecera há alguns dias foi apenas a comprovação do que eu precisava para reforçar minha necessidade de escrever: atenho-me aos fatos:

1. Há alguns meses, mais especificamente na véspera do meu aniversário há dois anos, conheci pessoalmente um certo jovem que vinha trocando correspondência eletrônica e telefonemas. Já nos conhecíamos há talvez três ou quatro semanas antes quando arquitetamos o plano de nos encontrarmos. Um desconhecido, que atiçava minha necessidade de comprovar a intensidade do meu próprio relacionamento - é, eu sei, pode parecer traição, mas o que será contado é apenas parte do que aconteceu e não, não houve traição física neste encontro. Apenas dois homens bebendo bebidas alcólicas durante toda uma noite em um posto de gasolina. Ele tinha namorada - isso, namorada - mas se sentia inclinado à relacionamentos com outros homens. Tudo isso eu sabia pois fizemos questão de sermos sinceros um para com o outro, na maioria dos fatos. Em resumo, passamos a noite juntos conversando e acabamos trocando opiniões um acerca do outro. Muito ele falara sobre mim: minha beleza, minha intelectualidade, minha intangível personalidade, minha estranheza para com a noite e com as bebidas (eu não consigo inebriar-me, de maneira alguma) e, por fim, minha atenção aos escritos. O que eu gosto de deixar registrado para o mundo. Tentei explicar a ele sobre a incongruência do que escrevo-penso-exponho mas acho que ele não compreendeu pois sua frase - a que ficou marcada e dá título a este devaneio - foi "se você escreve para si, não seria melhor um diário? Por que compartilhar suas pessoalidades se não há interesse de mais ninguém a não ser o seu próprio. Não acredito que você viva num ostracismo tal que precise relatar sua 'viagem' por este mundo estranho". Neste momento, pensei em muitos amigos que já se foram e nos que ainda tenho. Amigos, não colegas ou conhecidos, e o quanto isso afetaria a eles tanto quanto a mim. Pensei em Hemingway e sua necessidade constante de descrever todas as minúcias de tudo que havia; pensei em Agnes e sua intelectualidade religiosa dada a explicar o deus-uno sob todas as suas formas; pensei em Aristóteles e suas evidências da presença da Constância Adquirida; pensei em amigos menos famosos que portam algumas doenças peculiares como a Esclerodermia Sistêmica[1], a Cinestesia[2]; pensei nos amigos que não podem ver, ouvir, falar; por fim pensei nos que não aprenderem o rebusco e o requinte que há na poesia e na prosa antiga. Pensei no que eles perderiam se eu me mantivesse a guardar tudo o que vejo, sinto e descrevo apenas para mim. Percebi que um completo desconhecido pode julgar com a mesma facilidade com que se entregaria. O mais fascinante foi que o mesmo jovem, ao decorrer da noite, se disse maravilhado com minha forma de expressão que definia seus sentimentos melhor que ele mesmo poderia se definir e encontramo-nos numa Teia. Ele repreendera meu estilo e, posteriormente, me elogiara pelas descrições. Paradoxalmente excitante!

Falei um pouco da nossa situação na época, antevendo, justamente o que queria para que, dado ele ao julgamento e tendo sido contada parte da história inicial, como poderia ele julgar algo? Bem, finalizando (por que quando começo, termino), nos despedimos naquela manhã e nunca mais nos vimos.

2. Mais recentemente, um pequeno desentendimento me fez voltar à esta tecla: descrições. Por que, segundo dados levantados, me excedo em descrições? Acaso as pessoas já não sabem o gosto da pêra sem que que eu conte como são arenosas, adstringentes, suculentas e com um aroma que lembra a infância coletiva?

Em meus contos, faço questão de detalhes. Por quê? Porque não escrevo somente para mim e sim para todo aquele que vier? Porque de uma forma grotesca preciso mostrar minha visão do que descrevo? Porque simplesmente não sinto as coisas tais como são? Serei eu uma vítima destas mesmas doenças que meus amigos sofreram? (Fato que uma comorbidade me assola e está descrita inclusive, uma visual, que até então só causa-me mais embaraço estético do que realmente afeta minha concepção do mundo e/ou reduziria minha acuidade visual).

Até então, quando digo contos digo toda e qualquer literatura que exponho porque me escondo atrás e através do que escrevo - é minha Zona de Conforto como diriam. Revelo o que sou e o que fui pelo que escrevo. Porque deveria me sentir culpado então se dissesse como era ardente o odor da antiga Roma na época em que eu vivia por lá, oculto? Porque não seria interessante, para os que não tiveram a mesma experiência, saber como é adormecer sob a terra nevada de uma montanha? Ou - aqui seria rotulado como pedante - mostrar como o amor e outros sentimentos podem fazer nosso coração estalar pela simples presença do ser amado? Minúcias são minha forma de ver o mundo, talvez seja minha forma de compensar aqueles que não podem, por um motivo ou outro.
"Use os olhos como se fosse ficar cego amanhã. (...) Escute a música das vozes, o canto dos pássaros, as poderosas notas de uma orquestra, como se amanhã fosse ficar surdo. Toque cada objeto como se o sentido do tato fosse lhe faltar amanhã. Sinta o aroma das flores e o sabor de cada bocado de comida como se amanhã já não pudesse cheirar nem sentir o gosto de nada."[3]
Bertil Nilsson from site homotography.blogspot.com

O que persisto é, imponderavelmente, desnecessário e por isso volto a escrever. À minha maneira, não importa o que pensam os outros a respeito da minha escrita porque, hora ou outra, alguém vai se encontrar no mesmo sentimento que eu e então para este eu fiz uma ligeira diferença dos outros. Resiliência, eis o segredo!

[1] Esclerodermia sistêmica é uma patologia reumática onde o acometido possui uma degeneração gradativa exponencial das sensações do tato. Logo, a pele vai se tornando mais rija, insensível e não incomum é surgirem áreas grossas, com alta densidade de epitélio, similares à constituição de minerais. Leva também o paciente à tetraplegia flácida - impossibilidade de locomover qualquer dos membros. Geralmente, letal. 
[2] Cinestesia, geralmente em crises e raramente como uma condição constante, é um reflexo do cérebro quando 'troca' as informações organolépticas por algum ruído neurossinápticotransmissor. O paciente é afetado por uma sensação de desequilíbrio e sentidos alterados. Literalmente, começa a enxergar com o olfato, ver os sons, sentir na pele os odores. Não letal. 
[3] Hellen Keller - ativista americana cega, surda e muda. 

3.11.2013

Where is my Mind?


"- E o bom filho a casa torna."1

Na última noite, muitas coisas me colocaram numa posição difícil. Vi muitos casais felizes, juntos, cúmplices, enamorados, se beijando. Vi amor verdadeiro, amor passageiro e vi paixão. Vi sentimentos superiores, vi preocupações, significados e vi animosidade. Talvez inclusive faça parte do que se chama amor.

Coloquei meus melhores olhos ontem, quando decidi interagir com o mundo novamente. Provavelmente eu errei, mais uma vez, pois não consegui me manter e acabei abstraído e traído pelas minhas próprias feições e trejeitos. Logo, não foram poucos os que perceberam que eu estava descontente e me sentindo inadequado aquele local. Devo confessar que não era minha intenção ser tão evidente, mas não pude suplantar as memórias e boas lembranças.

Por instantes me vi como eles: enamorado, unido, beijando.

"- Saberá que é amor quando te perguntarem o que é isso e você não pensar num significado mas sim, num nome."2

Foi o que acontecera. Enquanto me deliciava do moderno hidromel - que Odin esteja conosco - eu criava uma outra linha do tempo. Uma em que eu, sem receios e olhares subversivos, podia amar sem medidas. E provar daquele amor. Me sentia mudando, colocando Fé naquilo que acreditava, me sentia bem e maior do que sou realmente. Olhava para todos os lados e via sempre duas personificações do Senhor Tempo. Me via, via meu mundo e, não obstante, via o mundo deles. Como nossos mundos.

Podia me ver com eles, sem eles, com o que eu mais queria naquele momento e que o nome guardo à mostra. Pensei em como seria caso ele estivesse ali comigo, entre os meus. Acredito que, no mundo deles, haveria desconforto mas, no mundo que eu criei não. Podia ser quem eu realmente era, sem medo. Não só medo pelo que optei amar mas pelo que refreio a todo instante dentro de mim: meu instinto. Não é só questão de índole e criação, é instinto. Chega a ser rude a forma com que me trato mas não me importo. Se para merecer um décimo do que tenho eu preciso ser um centésimo do que posso ser, que seja.

Não se trata aqui de uma história triste ou pequenos fragmentos de uma tristeza ímpar, não. É algo já enraizado que vai além da simples questão de cair enamorado. É a expressão, a liberdade, o conforto, a interação. Tudo isso faz com que percamos a esperança de uma felicidade, mesmo que momentânea. Uma mente mais sábia que a minha disse que "cuidado com a Tristeza, ela pode se tornar um vício"3 e foi rebatido com "a Felicidade não pode ser eterna. Ninguém pode ser sempre feliz pois se precisa de alguma tristeza - mesmo que eventualmente - ao menos para causar o contraste e assim, desta forma, equilibrar"4.

Logo, estou eu mais uma vez triste pelo que não posso fazer. Pelo que não tenho e que sinto que nunca terei. Eu o observei atentamente, mantive meu coração encarcerado, mas só o fiz até seu primeiro sorriso. E então, neste momento, eu caí de amores por algo que ainda desconhecia. Ao menos, achava desconhecer, por que no fundo eu sempre o sentia. Sempre o conheci, sempre e talvez o amei. Contei histórias antes da forma que sempre faço, para parecer ficção pois os que me leem não aceitariam meu 'modo de vida'. Não acreditam na minha raça, no que podemos fazer, logo, o que pensariam ao saber que eu sou ainda maior que eles supõe?

"- Nem meu doce suicídio poderia competir com seu doce adeus."5

Fiz programas, pensei em inúmeros encontros casuais, escrevi mensagens, redigi memórias. Fiz tudo o que um homem poderia fazer em busca de amor e não obtive êxito. Chorei sozinho e chorei na frente de pessoas que sequer notaram. Tentei compartilhar parte de minha dor com amigos, na esperança de uma forma de acalento mas eles sequer ouviram-me. Falei com meus amigos imaginários, minhas personalidades, meus olhos e só assim consegui me manter até agora. O Tempo passa enquanto penso e escrevo e não sei se vou conseguir me aguentar por mais uma era. Passei por tantas...

"
e quando o amor veio a nós pela segunda vez
e mentiu para nós pela segunda vez
decidimos nunca mais amar novamente
isso era justo
justo com a gente
e justo com o amor mesmo."6

Não deixo de pensar nele nem um instante. Imagino vidas, pessoas, lugares, as coloco em ordem e desordeno tudo depois, apenas para ter o prazer de refazer minha intrincada solidão. Ontem, enquanto via os amantes, eu só pensava nele. Nele e sua doçura. Nele e sua brancura. Nele e sua sede de conhecimento e fome de poder. Nele e sua ingenuidade tão singela quanto uma pétala de petúnia. Pensava nele como criança, minha criança, como meu amor, meu amante, meu amado, meu homem, minha mulher, meu coração e minha existência. E que os deuses nunca permitam que ele leia o que escrevo pois isso o dará poder sobre mim. O fato é que eu o amo, como já amei muitos e muitas antes. Mesmo sentindo que há algo diferente agora, não posso acreditar nisso e preciso seguir meus instintos. Preciso seguir em frente, continuar vendo outros casais, outras vidas, outros amores. Preciso continuar no meu plano e não mais chorar por não pertencer a este plano. O que me rege é a indiferença, sempre fora. Desta forma consegui viver tanto tempo, sozinho. Continuarei vivendo?

"- Eu conheci uma criança, um homem antes de voltar à vida, que pelo crime de amar acabou morto. Nesta vida, ele trouxe a marca do que acontecera: era cego de um olho. O que deveria tê-lo tornado dependente, inapto, fez justamente o contrário. O tornou um homem tão bonito como uma Lua. Fez dele um visionário e assim descobrimos que a matéria nunca importou. Ele escreveu - e escreve - as melhores canções e as que mais se aprofundam em nossas almas. Ele canta com a voz de um anjo e vê muito além do que os que estão à sua volta podem imaginar. E o melhor, ele reencontrou seu amor de outras vidas. Eu fico tão feliz por ele."7

Deixarei meu destino nas mãos do Destino, mesmo sabendo que este meu irmão é ardiloso, insensato e não pensa nas consequências dos seus próprios atos em nossas vidas. Talvez ele se compadeça por tudo o que eu já fiz por ele, anteriormente, e me dê discernimento para entender o que se passa. Não confio nele, mas não há uma outra opção agora pois neste exato momento ele já manipula a ordem das coisas, das casas e age. Quer seja a meu favor ou contra mim. Uma semente foi plantada, vejamos que fruto ela engendrará.

1: Autor desconhecido 
2: Carolina Bensino 
3: Gustave Flaubert 
4: Nietzsche 
5: Sacha Sacket, in Sweet Suicide 
6: Bukowski 
7: Apenas uma memória minha, nada digna de relato posterior. Nomes preservados.


12.15.2012

Marcas nem sempre são cicatrizes, às vezes, optamos por elas


Há em mim mais de uma marca. Física, íntima, emocional, racional, espiritual, devedora. Cada uma delas representa um Eo de mim, como já dissera antes. Minha atual vida é regida por um rei sem coroa - que outrora eu mesmo fora.
Há um azul, um branco, um vermelho. Não havia me dado conta de que sete é o número mais cabalístico possível - uma Sephiróth - e tomei-o por mim e para mim.

O (1)título deste diário é algo escrito em meu peito, circundado por uma Lua crescente e uma Minguante - celebrando que o que nasce, morre eventualmente, para renascer. (2)São as iniciais do meu nome, tanto revelado quanto oculto. E, inclusive, a inicial de um grande amigo, exposto no meu sinistro. (3)É o que mais amo porque tenho medo da escuridão e de estar sozinho nela - uma estrela que me segue de perto, no pescoço, para me contar segredos. (4)É minha designação, como Psicopompo, que tenho escrito no meu antebraço destro, acompanhada da fruta que mais gosto e uma parte do que perdi por Decair. (5)É uma homenagem à última personalidade que descobri oculta em mim, exibindo uma Lemniscata reta e a Árvore da Vida por sobre ela, significando minha existência anterior e o que ainda há por vir. (6)É meu mais precioso objeto de adoração, meu amigo que se fora, me deixando na mais completa escuridão. Dante, era seu nome, Felina, era sua raça, Amarelos, eram seus olhos. Exposto está agora para mim e para o mundo, como prova da sua importância, em minha panturrilha esquerda. (7)E última, é a mais recente: O melhor amor, escrito. O breve resumo de um amor que durou além da morte e da vida. É a palavra mais imponente que o Homem mais Bravo que conheci dissera, certa vez, a quem não sabia. Não só disse como provou, por seus atos. Uma única palavra que contém tudo o que existe no mundo, SEMPRE.

Não sei por que motivo me expus, talvez para que entrasse para a história. Talvez. Talvez por que as cicatrizes são a forma do Guerreiro mostrar que lutou, mesmo que não tenha vencido e as minhas marcas feitas são, intrinsecamente, essenciais a mim. Quando quero mostrar algo importante, geralmente me marco. Exponho já que não posso gritar ou carregar na alma. Exteriorizo, digamos.

Eis o que sou, um diário ambulante que carrega consigo uma parte do que é, do que são, do que já teve e do que mais teme, para poder encarar o que ainda está à sua frente.


12.03.2012

Pequeno Eu de mim


"I have died everyday waiting for you
Darling don't be afraid I have loved you
For a thousand years
I'll love you for a thousand more"



Penso que preciso de alguém que me entenda. Alguém que não fuja. Alguém que mesmo que não compreenda, aceite. Alguém que não pergunte onde eu vou, com quem eu vou, porque meus olhos não tem cor. 
Um algo que simplesmente vivencie a si mesmo, estimulado, sabendo que eu serei companhia e não motivo para dependência, seja emocional ou afim. 

Corro atrás de um que foge, por medo de se revelar. Corria atrás de um que optou pelo não-amor e agora descobriu-se amando - outro. Perdi algo tão valioso simplesmente por medo. Passei a existência a vagar atrás de meias-verdades e agora que as tenho, não acho justo. Perseguir uma Estrela Cadente é um sonho que não vai se concretizar. É uma lástima tão grande...



11.28.2012

Saída do trabalho


19:35 - Hora de deixar o trabalho.

Já havia passado mais de quatro horas do meu expediente normal, mas, por problemas internos não consegui deixar de cumprir minha missão profissional. Enfim, sai. Dirigi-me ao banheiro, lavei as mãos, hidratei-as e segui em direção às escadas. Cumprimentei alguns colegas, expliquei a diferença entre Buscopan e Buscofen a uma recepcionista e segui em direção ao coffe shop - local de saída especial da diretoria e chefes de setores.

Sai em direção ao estacionamento, destravei o carro - uma Pajero - e entrei. Joguei a bolsa literalmente de lado, no banco do carona, fiz uma ligação que não deu resultado e girei a chave do carro. Peguei um retorno para seguir à minha casa, coloquei um pendrive com músicas que costumo ouvir para relaxar (Sigur Rós, Sheila Chandra, Aimee Allen, Sarah Mchlaghan, Sade, Irfan, Caprice, Daemonia Nymphe e afins), o cinto de segurança e sai do hospital. Desta vez, até o dia seguinte. Troquei algumas mensagens pelo celular enquanto ouvia música e simplesmente abstrai. Sequer notei que meus amigos estavam comigo, no banco de trás, me incentivando depois de um dia dificil. Desculpei-me com eles e me despedi deles: minha cabeça doía demais para manter laços espirituais àquela hora.

Durante todo o trajeto de volta, pensei em você - principalmente nos túneis. Traduzindo as músicas em islandês da banda Sigur Rós, parece que só ouvia seu nome. Por várias vezes perdi a concentração ao volante e precisei me reestabelecer. Chorei, bastante. Sorri, algumas vezes quando me lembrava de fatos engraçados. Peguei um tráfego intenso na volta pra casa mas finalmente cheguei. Com um aperto no coração pois sentia que faltavam algumas coisas: alguém me esperando, comida pronta, alguém pra ajudar no banho, fazer uma massagem, ouvir sobre o meu dia extremamente cansativo e arriscado e um gato enroscando em minhas pernas.

Não havia ninguém, a não ser os mesmos amigos que dispensei pela estafa mental mas que me acompanharam.

Agora sento aqui e descrevo como simplesmente tudo teria sido diferente se eu tivesse para quem voltar...

11.18.2012

Mesa


Para a mesa que nunca consegui preencher de amigos eu digo: Não.

Não porque não há mais amigos como eram antes. Me pergunto o que eu fiz para que tudo isto acontecesse tão repentinamente. Melhor, sei que nasci da união da Estrela da Solidão Fria com a Estrela Desértica, mas não desejei pais como estes. Há algum tempo, digamos uns seis anos, eu ouvia incessantemente que eu era perfeito demais para alguém poder gostar. Tudo em mim era perfeito, da minha voz à minha sanidade. E o que fiz? Nada. Não pude fazer nada a não ser dizer adeus quando fui trocado por algo 'tangível', imperfeito.

Recentemente, ouvi este mesmo 'adjetivo', perfeito demais. Me pergunto o fiz de tão errado para ter de ouvir isso porquê de tão certo não pode ser. A perfeição é algo utópico, acredito que baseado nestes termos sou costumeiramente confundido. Novamente me pergunto, porquê?

O que eu sempre e mais quis foi poder compartilhar tudo o que sou, tudo o que tenho. Hoje mesmo, em conversa, admiti que preciso de um ancião - como eu - para que minha completude seja sanada. Os jovens não sabem o que é persistir, perseverar, permanecer. São impulsivos, autoritários, reclamões. Não estão acostumados às idades que têm e por isso jogam o peso sobre tudo às suas voltas. Os antigos, como eu, aprendemos a canalizar, sintetizar. A viver como a pedra, como a montanha e como o rio. Cada segundo sendo bem apreciado, cada situação por mais banal que pareça ganhar um certo valor. Não confundamos atemporalidade com deslocamento, não, afinal somos mais rápidos e ágeis que todos. Vivemos num mundo que gira tão devagar que podemos correr e alcançar nossos próprios pés marcados no Tempo e nas Areias do Espaço. Mas não é porque estamos em todos os lugares que somos vagos, isso nos torna independentes.

Minha sanidade dependia disso, de ter alguém para compartilhar mais um milhão de vidas. De poder falar ilimitadamente  quantas vezes eu vi o sol nascer e se por, de quantos lugares diferentes e depois de tantas batalhas ou paz. Poder falar de como tudo começou, de como tudo desandou, de como tudo foi recriado. Todas as histórias, sejam conhecidas pela humanidade ou não. Apenas contá-las. Contar tudo o que eu fui, o que eu sou. Entender que alguém, por algum motivo, algum dia, sentirá orgulho de mim e farei parte de uma constelação de outros antigos que completaram sua missão. Apenas.



Não muito o que dizer


Tenho andado distraído com as consequências de uma vida.

Amigos, locais, dinheiro, perseguições. Afins.
Tenho sentido as incertezas da vida sobre muitos aspectos, relevantes em suma, o que me faz pensar se o caminho que escolhi é realmente o que devo seguir. Incondicionalmente. Tenho passado por decepções que não imaginaria nem em meus maiores pesadelos. Não tenho mais sono ou fome ou sede. Tudo por consequência indireta de uma orgânica forma de compensação conhecida como amor. Se bem que, como o poeta já dizia "só é amor de verdade quando ambos sentem". É engraçado porque contradiz com "você só saberá o que amor quando ao te perguntarem, você não pensar em algo e sim em um nome". É o que faço, penso num nome que infelizmente não poderá ser meu.
Logo, não sou um bom homem para com quem devo ser. Isso entristece-me deveras mas no amor não se manda, apenas se obedece e chora posteriormente. Também é o que vem acontecendo. Um descontrole tal que nem meus melhores e mais antigos - e únicos - amigos conseguem acalmar. Uma lástima para alguém que já foi tão grande como eu era, no passado...

10.16.2012

Não haveria um título se não houvesse um espaço


Tenho andado distraído com as coisas simples da vida. Focado em abstinências e superações, teço minha Teia de Anansi mal fundada. Ora sem ilusões ora com ilusões majestosas, tornei-me o meio-irmão do Rei Merlin em suas peregrinações.

Há dias que não me reconheço. E há ainda outros dias em que não me vejo reflectido como sempre fora. Na maior parte do tempo não sou eu mesmo, mas não sei qual dos outros eu sou. Choro por ser humano, sem ser um efectivamente.

Durante as tardes, abstraio-me do mundo que há lá fora e me reservo apenas no meu. Vejo as pessoas como que em câmera lenta, ao passo de que o tempo parece não correr mais na mesma velocidade que corria antes, para mim. Afasto as pessoas sem ao menos tocá-las. Porém, me preocupa a forma com que elas vão.

Minha mesa permanece inabitada, sem reservas, ninguém para se sentar e tomar uma xícara de chá.

Se de todos os meus inimigos o mais perigoso for o Tempo, não temo. Sendo Vento, me torno parte dele, percorro seus caminhos e os transpasso, ao passo de que não me deixo ser tomado. Falo como já falei e hei nome Legião, pois, além de sermos muitos, somos diferentes cada um por si.

Cada qual toma seu lado, sua parte, segue suas memórias e seus atos se formam individuais. Não temo o pecado como antes mas continuo temendo o Medo. Talvez o termo para isso seja AghoraPhobias - não quero nem preciso rotular - porém de maior aceitação se faz.

Prendo meus olhos a toda e qualquer forma de vida que encontro. As desejo. De algumas, possuo. De outras, esperança. Do que mais quero, não vejo mais. Passo a ser juiz e júri. Meus recentes atos me condenam mas ainda sabendo disso, não me puno. Sei que escolhi um caminho errado há algumas semanas, meses. Sei que influencio muitas vidas, mesmo tendo perdido a maior parte dos meus poderes.

Falo com sinceridade pois tenho muito a esconder e qual não é a melhor forma do que expor? Dissera isso certa vez, "mostrar o que pouco para que o muito seja oculto, meias verdades, meias mentiras, mea culpa". Faço pessoas sofrerem, pela minha presença e principalmente pela minha ausência, me coloco à mercê da sorte neste momento. Descrevo sem detalhes o que me vêm à mente e meus dedos antigos e acabados dedilham parte da minha história que sequer entrará no tempo pela parcialidade que prossegue.

Esperança perdida na Fé que abandonei, nas pessoas que deixei o próprio tempo se encarregar de livrar de minh'alma. Não conheço outra forma de existência! Levei muitos ao túmulo, enxergo no escuro total da Lua Nova. Deixei de ser um deus quando ameacei minha própria divindade. O cheiro e o sabor do sangue me excitam, assim como a alma. Corruptor, alguns diriam. Não sirvo a ninguém senão a mim mesmo.

Acabei deixando meu ego falar e esquecendo do homem. O homem que ousaria cruzar a linha novamente? Deixar o coração falar, gritar, gemer. Recordar dos gemidos da última semana que não eram meus.

Sou um preconceito em mim mesmo porque ao mesmo tempo que sinto vontade de escrever, algo me encerra.


Persista!

9.23.2012

Até meu próprio final


Sucessão de fatores que influenciariam a vida de um homem. Paixão, Loucura, uma calmaria de sanidade. Lembro-me dele coberto de neve, afogado, enquanto eu lutava contra lobos. Minhas memórias aos poucos regressam, mantendo-me absorto nas conversas sociais e me encabulando perante os amigos que já se dedicam ao meu jeito 'petit epilepsie' de ser. Lembro-me de ter falado com os lobos. Com as árvores e com a vida em si. Um retorno ao que há de interior.

Agora não há mais nada.

Resta uma casca de Presépio, das constelações. Um local para onde tudo converge no final. Porque me sinto ligado de forma tão íntima à coisas insubstanciais? Um avatar, por assim dizer, de ideias contrárias às regras físicas. Vivo sob meu próprio controle, meu mundo de papelão como costumo dizer para mim mesmo, sendo o único übermensch que conheço. Uma cultura de um homem só, um Legado.

Permaneço a amá-lo. Amá-los. Enquanto os desconheço gradativamente. Fujo deles e para eles. Coesão. Por um momento tudo para uma flor venenosa nasce. Pouco a pouco minha tangicidade se esvai, escoa e o que é uma mente sem um receptáculo?



Altair, Remo, Virgem, Polaris e Recanto. Amei tanto as estrelas por que tinha medo de ficar sozinho. E como estou agora?

...

8.25.2012

E eu fiz


E mais uma vez eu o fiz.



Criei meu monstro, com minhas formas e parte da minha voz. Minhas feições, meus trejeitos - dos mais másculos - e minha delicadeza purista Elizabetana. O alimentei, ensinei-lhe a falar sobre seus sentimentos, demonstrei como é o nosso amor e por fim, o matei.

Era um estorvo e será melhor assim. Fim.


7.27.2012

Não me preocupei com este título


***

É noite de sexta-feira. Harmoniosamente quente e enquanto ouvia como permanecer são e salvo, com headphones, senti o frio catalisador. Senti como se, começando por uma brisa, a mudança brusca seguinte daria inicio a uma noite de desafios e desafetos.

Notei como que, falando com amores antigos, eu me sentia frágil e isso entristeceu-me deveras.

Fechei meus olhos e imaginei-me no tempo bom em que, semente, eu era homem e não me preocupava com homens. Lembrei-me do tempo em que somente com uma cartola e magia, podia-se criar um mundo perfeito, intransponível. Minha raça me desmente, fato.

Lembrei da noite em que me descobri, sentado em um bosque na Gália. Nesta mesma noite, conheci três valorosos amigos que me seguiram durante toda uma eternidade, até padecerem recentemente. Lembrei-me de antes, quando as terras eram pouco habitadas. Lembrei-me de ainda antes, quando o mundo se partiu pela primeira vez. Percebi que nunca fui tão triste e pedante como estou sendo agora, depois de tantas eras. Ouço as mesmas músicas, vejo os mesmos filmes e faço sempre as mesmas coisas. Choro ainda, ao ver um bom amor se partindo - Nunca estive tão emotivo.

Talvez minha vida esteja chegando ao seu fim.

2 meses, 29 dias


E uma vida inteira desperdiçada por que ele simplesmente prefere viver sem amor.

7.21.2012

Nothing compares to You


Sonhei com você noite passada, novamente. Vi sua estrela, suas asas, seu violino. Vi tudo em você que me completava. Revi nossos momentos juntos - os sexuais e os emotivos - e chorei quando acordei. Não havia imperfeição, até que meus amigos interferiram em meus sonhos. Logo, você se tornou uma sombra etérea que me perseguia e precisei de feitiços para me livrar de você. Até os deuses estavam lá, alguns deles. Lágrimas, eram muitas.

Meu ego o livrou de mim?

Como eu amava esta estrela. Como ainda a amo. Como não posso passar por certos locais que me lembram você e como meus amigos, ao se recordarem de ti, ainda me ferem pois, não posso dizer a eles o que realmente aconteceu. Como eu pude ler que você "procurava um casamento" e que um "Lisso" poderia ser o seu fortúnio! Oh, deuses, porque me apego à coisas que não existem buscando fundamento para o que existe? Escrevi - e escreverei - minhas memórias aos mortos.

Quando acordei, eu vi isso e me emocionei porque desde ontem sinto uma vibração no ar.


Nothing compares 2 U - Sinead O'Connor

It's been seven hours and fifteen days
Since you took your love away
I go out every night and sleep all day
Since you took your love away
Since you've been gone I can do whatever I want
I can see whomever I choose
I can eat my dinner in a fancy restaurant
But nothing, I said nothing can take away these blues

'Cause nothing compares
Nothing compares to you

It's been so lonely without you here
Like a bird without a song
Nothing can stop these lonely tears from falling
Tell me, baby, where did I go wrong?
I could put my arms around every boy I see
But they'd only remind me of you
I went to the doctor and guess what he told me?
Guess what he told me?
He said: girl, you better try to have fun
No matter what you do
But he's a fool

'Cause nothing compares
Nothing compares to you

All the flowers that you planted, mama
In the backyard
All died when you went away
I know that living with you, baby, was sometimes hard
But I'm willing to give it another try

Nothing compares
Nothing compares to you

E isso foi EXATAMENTE o que aconteceu comigo. Lógico, isso e outras tantas desarmonias. Eu ainda o amo, sempre amarei. Mas o esquecerei, como sempre os esqueci. Falo pelos outros seis e principalmente por Olívia, que ainda teme este amor comprometer minha sanidade. 


Olívia, minha cara, eu já sou louco. E como diria Harpócrates "- melhor um louco que ama do que um são que nunca conheceu o amor". Tu teme amar, eu sou teu oposto. E estou com uma vontade insana de raspar minhas cabeça!

Por ti, amarei. 
Por ti, sofrerei.
Por ti, calarei.
Por ti, mandarei minha razão à Casa do Tolo.
Por ti, ALWAYS.


7.08.2012

Hagia Sophia


Outrora Sheraphim.



Não é volatilidade ou volubilidade, é apenas uma questão de perder o encanto. Por algo, por alguém, por uma fração do segundo que se segue. Acontece sempre, para cada felicidade da paixão existe uma alegria pela perda desta obsessão. Ama-los não é nada, permanecer amando-os sim. Não precisam de muito para me deixar em êxtase.
Existe uma estória oculta no meio de todas estas entrelinhas que não convém.

Basta dizer que uma de minhas personalidades caiu por amores por alguém, que não correspondeu. Uma outra personalidade quis insistir, mesmo descompromissada. Uma terceira personalidade afirmou - categoricamente, como ele sempre faz - que isso não daria certo. Uma quarta personalidade permaneceu submissa. A quinta neutra. A sexta brigou e a sétima ouvia música enquanto tudo isso acontecia. Agora, Todas pagam. Tudo por uma estrela cor-de-bosque. O trabalho do sol foi feito, o ouro voltou a ser carvão e agora, ainda que prometendo não chorar, chorarei. Não de mágoa, talvez de raiva pela minha ainda evidente ilusão de que a humanidade de hoje é como a de antes. Peco e pago pela minha sinceridade, Fei.

في نفس الطريق، وسوف تدفع به.

Minha lucidez voltará em breve, quando a Noite cair e começarem a lamentar pelo calor que era a luz do dia. Passo-a-passo eu vou mudar, crescer, evoluir, conhecer o auto-comedimento, passar a falar menos, agir menos, ser mais eu mesmo e evitar ser alguém que não sou para agradar. Mesmo sabendo que, em suma, não posso assumir o que sou. É como o Juramento, anterior. Não há como espaçar a forma humana. É quase como li, certa vez, numa ficção.

Não basta apenas conhecer o demônio que há em você, é preciso domina-lo, coagi-lo, revertê-lo. Assumi-lo somente quando convier um holocausto. Meus cabelos e meus olhos inflamam com labaredas de discórdia, rancor e violência bruta - Não posso permitir que isso aconteça pois, uma vez aberta a anêmora do demônio, ela não pode ser fechada com tanta facilidade.


Ι’

«Πέθανες στα δεκαεφτά σου, ερωτοπαθής.»

Είμαι ελεύθερος, μαζί σου, καλέ μου φίλε,
ελεύθερος από κοινότοπες, ηθικές συνήθεις:
θωρώ το ωχρό σου πρόσωπο, αγένειο,
ανάμεσα σε άσπρα λουλούδια· χλωμός βρίσκομαι
και σε λυτρώνω, χωρίς καμιά επιφύλαξη,
για απόλαυσή μου και γοητεία, μεταγενέστερες.

Συγκινημένος, χωρίς την ματαιοδοξία του θρήνου,
με συγκρατημένο ενθουσιασμό, αιθέριο,
μια που ο πολύς ενθουσιασμός κρυσταλλώνει
και, ο λίγος, σκοτώνει, μαρασμός είναι.

Σε φιλώ στον αποχαιρετισμό, χωρίς να με βλέπουν.

Ούτε καν σε γνώρισα, κι όμως το σώμα σου
τώρα μ’ ανήκει, αν και χαμένο, αιώνιο.

Defino tudo o que é amor como algo que se mantém e amorem, do latim, como algo que veio e - unicamente - partiu.

7.01.2012

Juramento



"Abandona-te Homem, abandona-te. Abandone as impurezas da carne pois no peito de fogo o coração arde. Abandona-te a forma humana, a vilã. Erga-se o demônio."




5.19.2012

Réquiem para Coisas Mortas


Porque estou defronte à inumanidades que me superam,
me deixam à sua mercê,
me colocam subjugado ao que sinto.
Porque amo ao que vejo, sinto.
Logo que exaspero, ressôo, alço vôo,
no encalço daquele que a mim despoja nojo.
Penso no que perdi e no que fiz para perder,
penso na matéria-bruta, no ouro.
Congelo, sabendo que meu sangue é de gelo.
Resfrio não só a mim como aos que envolto estão.

Choro perdido, partido, cansado.
Coloco-me à disposição da Morte que nunca me ouve.
Ou me ouve e chora comigo, já me dissera antes,
porque da mesma dor que sofro e padeço, ela já o fizera e se tornara o que é.
Não por concorrência, mas por sofreguidão não deseja o mesmo pra mim.
E eu a amo por isso. A amo por não dormir e me acompanhar durante toda a noite,
seja quente, morna, o frio eu não sinto mesmo.

Porque vivo num mundo de papelão e a uma velocidade que não compreendo.



3.18.2012

Novos sonhos


Sonhei com você novamente, noite passada.

Não falarei sobre o sonho, afinal era de cunho mais sexual do que eu mesmo poderia ter me policiado a sonhar, mas falarei sobre o que senti ao revê-lo. Foi deveras, reconfortante. Reconfortante e necessário.
De uma forma estranha eu admito que você foi um dos poucos que me deu o valor que eu precisava ter, nem me subestimou ou superestimou. Conheceu vários lados da minha face, nunca julgou, nunca se eximiu de culpa pelo que cativara e nunca - até o rompimento - absteve-se de brigar por mim. Claro, até que abriu mão de mim por fraqueza.

Não o culpo, mesmo. Maior parte da culpa foi minha de não forçar um maior amor. Tu sempre me deixou ser o macho que eu gosto de ser, forte, protetor, sarcástico. Entretanto, nunca foi uma dama comigo. Tivemos que dizer adeus. Sinto falta de você, num mundo subatômico. Lamento ter me deixado partir. Lamento mais ainda porque vejo sua vida daqui e ela não é nem nunca será tão perfeita quanto se fosse compartilhada comigo.

Bom, mas o erro foi seu e isso eu não posso perdoar. Posso continuar sonhando com seu amor e seu sexo, mas não posso mais tê-los.


2.09.2012

Saber de você


Eu sei que você está ai. Me permito seguir o funambulismo. Eu a vejo enquanto você me vê. E a você.
Não há como não saber...

Calado ao Acaso, Romeiro entre Olivas e Laranjais, Estou à Um passo de Aceitar a Mácula Oriunda de Vossa Onipresença Capaz de Extinguir o que sou.

E amo acrósticos tanto quanto amo você.

From yours,
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