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6.25.2014

I'll disapear - ou Marcas de pinturas e de sexo



Terça-Feira, dia 24 de Junho de 2014.

Havia sido um exaustivo dia de trabalho. Pacientes insatisfeitos, premissas de confusões pelo evento desportivo internacional iminente, almoço rápido, sede alojada no âmago. Bem, não era um bom dia – como habitual. Às dezessete horas o esperado encerramento do expediente.

Dirijo-me ao estacionamento, cumprimento colegas, percebo que esqueci as chaves na primeira gaveta da minha mesa e preciso retornar. Convenientemente atendo uma ligação, nada de importante. O dia seguinte seria um descanso (pelo mesmo evento desportivo) e por isso deixei-me preparado para a monotonia da vida caseira. Deixo o hospital.

Pego o costumeiro caminho de retorno, algumas pistas expressas, ouvindo músicas da década de 90 que eu sequer vivenciei. Meia hora mais tarde estou no centro do município que meus pais moram, pensei em divergir da rotina e dar uma volta pela cidade, desacompanhado por falta de escolha e não de vontade. Passo em frente a um estúdio de tatuagens e piercings e decido me marcar, há tempos não faço isso. Entro, me apresento, converso com o tatuador – um jovem e belo efebo, dotado de uma pele branca contrastando com seus lábios rosados e olhos verdes, de estatura mediana, cabelos ruivos de corte moderno, tatuagens pelo corpo esguio assim como piercings e brincos – e percebo nele uma bela imagem. Peço para ver seus trabalhos, mesmo já decidido como será o meu futuro. Ele é delicado, decidido, bem destro e firme.

Acompanho sua narrativa sobre este e aquele trabalho, todos fascinantes em textura, coloração (aqui eu fingi perceber as nuances, para agradá-lo. Optei não dizer a ele que não percebo cores como as pessoas normais) e arte-final. Depois desse momento, sorri quando disse a ele que já havia escolhido o que estaria estampado em mim. Ambos sorrimos afinal e ele se desculpou pela impulsividade em mostrar seus trabalhos, eu, cavalheirescamente, disse-lhe que não era incomodo e que na verdade eu estava admirado com a qualidade. Decidi antes, porém, que também colocaria um piercings como o que ele me mostrou e, por sua indicação, onde ele achava que seria interessante. Um outro adendo: eu não sinto dor ou desconforto corporal, logo, essas marcas são mais para provarem a si mesmas do que por mim.

Enquanto ele preparava os materiais eu escolhia a peça, simples, como uma estrela em ascensão. Logo estávamos prontos ambos, ele então pediu para que eu retirasse minha blusa (os furos seriam em ambos os mamilos) e eu fiz, sem hesitação. Notei que ele corou neste momento e um cheiro inebriante tomou conta da sala onde estávamos. Percebi aquele cheiro e o conhecia: excitação. Não que eu seja um modelo adônico de homem, não, mas algo o provocou. Talvez minhas próprias tatuagens estratégicas, o que elas dizem a quem as lê, minha aparente falta de vergonha pelo meu corpo, ou tudo isso ao mesmo tempo, bom, o excitou e eu percebi. Percebi como suas mãos decididas pareciam frágeis e isso ao longe. Defronte a ele, sem blusa, recostado sobre uma maca usada para trabalhos enquanto o cliente está deitado. Ele, perante me, com os materiais apoiados na mesma maca, sem saber por onde começar.

Então ele sorriu. E eu sorri também. Ele disse que estava “sem jeito”, eu disse-lhe para “seguir e fazer o que necessário fosse, que não se preocupasse pois eu não sentiria dor”. Ele me questionou: “ - não sentirá dor? Mas e isso, sentirá? ”. Disse-me isso enquanto colocava seus lábios à altura do meu mamilo direito e o beijava, demoradamente. O contraste de uma boca morna com meu corpo frio de mármore deixou ambos arrepiados e ele sorriu pelo canto de sua boca, percebendo isso. Provavelmente eu era o primeiro “cadáver” que ele havia sentido. Beijava um mamilo enquanto acariciava o outro e trocando de posição. Lambeu os mamilos, o peito, a linha traçada entre o tórax até o umbigo. Percebi aqui como a destreza de suas mãos retornaram rapidamente quando, com elas, apressava em desabotoar meu cinto e minha calça. De repente, a percepção de que a qualquer momento poderia entrar alguém. Levantando-se, à minha frente, pediu licença enquanto trancava as portas do estúdio e logo voltou à posição de antes. Eu sequer me movi um centímetro cúbico de onde estava. Aproveitando sua posição inferior, levantei-lhe os braços e retirei também sua blusa, apenas para perceber que havia ali sim um corpo decididamente excitante, moldado como nas peças do meu povo, tão branco que beirava à diafania com exceção às tatuagens coloridas e vibrantes. De calças abertas, ele então massageava meu sexo com os mesmos lábios que outrora perseguiam algum suposto calor pelo meu corpo.

E assim o fez, excitando-me até onde minha compreensão seria capaz de guiar. Havia um sabor naquela boca que eu desconhecia, mesmo depois de todos os meus séculos de vivência. Era fascinante e apavorante.

Houve um chamado à porta mas ambos ignoramos. Logo, satisfeito daquela maneira, ele se levantou e acompanhou meus olhos que mesclavam as cores que eu conhecia – um erro que eu sempre, fatalmente, cometo quando estou excitado – mas em vez de assustá-lo, isso o deixou intrigado. Eu o beijava no ombro, na clavícula, no pescoço, no peito, no cóccix. Tomei sua posição e o imprensei na maca, apertando firme o que sobrara intacto do meu corpo contra o dele. Mordia seu ombro e suas costas conforme arrancava-lhe suspiros, desejos e sua calça. Uma leve mordiscada na cintura que causa aquele frisson fervoroso. Domado pelo pescoço e pelos cabelos, de costas pra mim, sendo maculado pelo desejo, ele pedia mais. Por um momento praguejou por não haver “proteção” para ir adiante quando eu, precavidamente, disse-lhe que havia em minha bolsa algo a ser usado. Novamente os olhos se incendiaram e então ele pedia para ser possuído. Naquela maca (que eu também já estou habituado a lidar) eu o tomei várias vezes e de várias maneiras, durante vários minutos.

Aquele corpo estava então já marcado além das pinturas pelas dores do amor consciente e era um conjunto maravilhoso de ser observado.

Após algumas horas talvez, saciados, conversamos sobre nossas vidas, posturas, interesses e coisas em comum. Ele se desculpou inúmeras vezes pela ousadia mas não se dizia arrependido. “Para uma primeira vez, há de haver mais outras. O que é bom torna-se um vício e um vício só torna-se perigoso quando não é saciado” – era sua colocação e eu a achei válida. Trocamos telefones e combinamos um café.

Finalmente tomei meu rumo de retorno, sem tatuagem ou piercings, mas com uma nova promessa de vida.




O sexo é um acidente: o que dele recebemos é momentâneo e casual; visamos a algo mais secreto e misterioso do qual o sexo é apenas um sinal, um símbolo. //Cesare Pavese

1.08.2012

Ouço imagens, vejo sons


Minha imagem não é o que sou. Minha voz ecoa além do que posso ser ouvido. Cada pequeno gesto do meu corpo é sensivelmente controlado, levando em conta o mundo de papelão em que vivo. Cada toque, cada sopro, cada desaforo, todos morrem comigo. Por vezes posso sentir o ar enquanto rodopia minha pele gelada, dançando em torno da minha culpa, abduzindo parte da minha dor ao ludicamente interagir. Parte congruente, parte incessante.

Não quero aqui mais uma vez evidenciar minha tendência à megalomania. Não. Preciso apenas escrever com meus olhos o que sinto com meu sangue. Temo a obsessão porque ela gera a morte. Fixo em um canto vazio do meu inconsciente algo que preciso lutar por, conquistar ainda que em passos inconstantes. Não é a música que me abstrái nem o que ela provoca em mim, é meu desejo de fazer parte dela. Parte da coerência vibrante que torna o som um verdadeiro dom. Mexe comigo, me toca as partes desconhecidas, se deleita em mim e toma posse do meu orgasmo incorreto, criando dele filhos que nunca verei crescer.

Tive muitas crianças quando me deitei com a Música, cada uma acabou morrendo ao me ver. Todas notaram que seu pai é algo silêncio, coisa que por si só corrompe as criações puras. Todas as minhas crianças choraram ao ver um pai que toca o céu com uma doce canção sem som, que sai de seus olhos, passando através da pele e dos pêlos e que se torna impuro para si mesmo. Minha imagem - que nunca seria tão doce quanto minha necessidade de cantar - surpreende pelo meio-homem inteiro que sou.

O que mostro de mim se torna alimento de deuses tão imortais quanto eu, mas que sobrevivem de pesares. Experimento viver num Tempo diferente, num mundo diferente, que giram numa sintonia suavemente distinta da atual. Escrevo por códigos que só os de minha raça entenderiam, se ainda houvesse algum por ai a me ler. Experimento também compreender o que vejo, com os ouvidos. Cheirar com meus olhos, tatear com meu faro, ouvir com minha lingua e sentir o gosto com minha pele.

Sentir o gosto com minha pele.

Nada poderia assumir uma forma mais brutal do que a poesia.




11.15.2011

Lately


Os caracteres, que escrevo com minha pena, estão desvanecendo.
A incontestável parte mágica do meu ego, que outrora tão afável e negligentemente subtil, escoa com minha parte desumana latente. Por diversas cores eu sou encontrado e até sem cor, dependendo da conjunção celeste entre as constelações de Andrômeda e da Palma da mão de Virgo.
Lamúrios, lamentos, raiva, pesadelo, dor palpável.
Mas longe de ser algo rejeitado é desejável. Moldo-me ao que preciso e isso alegra-me deveras. Não há dor que eu não tenha já suportado e não haverá ainda no mundo alguém que possa me infligir mais dissabores do que eu mesmo. Não almejo ser mais nada além do que fui.
Não são palavras melancólicas entretanto.

São apenas palavras.


4.21.2011

O menino e o falcão

Conta a lenda que certo dia um pai falcoeiro por tradição, ou seja, criador de falcões e usado na caça, resolveu que era hora de seu filho aprender a nobre arte para prosseguir. Levou o menino à uma montanha conhecida por ser a mais promissora em engendrar falcões para a caça, de onde o próprio pai havia tomado o seu companheiro na arte. No sopé da montanha, explicou como o menino deveria escolher o ninho, batalhar com a mãe falcão se fosse necessário, avaliar os ovos e escolher o melhor filhote para a cria. E tal o menino fez, suportando todas as intempéries naturais possíveis, em busca do seu mascote e futuro meio de sobrevivência.

4.08.2011

Yeux

Então chegamos a um ápice aqui hoje. Rumando através de um peristilo temporal criado por mim, sento-me à beira da insanidade.

Escondo meus olhos por que tenho medo não de enxergar, mas de ser visto por através deles. Por trás de meus olhos brancos há uma alma tão densa e funesta quanto possível mas eles não vêem, tacham-me do que querem, por ser assim, diferente. Não temo a irie dies nem tampouco o que venha das mãos humanas, mas receio que meu tempo esteja acabando por opção. Mesmo após tanto passado ainda conservo-me com dotes e defeitos que não deveria e o primordial é aceitar, ao invés de repelir. Eles tentaram comprar uma estrela, a mais próxima, e não obtiveram êxito. Tentaram suprimir e suplantar o que era antigo e falharam. Tentaram supervalorizar o que são e cairam ainda mais. Mesmo de tão longe.

E há quem ainda não acredite, mesmo ouvindo. Não confiam nos deuses dos mares, dos ares e da terra mas se colocam nesta posição. Tornam-se deuses de si, nunca inferiores.

Com tudo isso, meus olhos tornam-se carmins como o fogo da abóbada que pinto.

Eles tentaram comprar sonhos e imputí-los à almas. Não é tão dificil viver uma vida, por que corrompê-la?

Eu sou a estrela do Norte e falo entre vocês, assim como falo do Afelio ao Periélio deste cosmo.

3.11.2011

Elul

Falta apenas mais um dia para a Lua Crescente.

Neste momento me pego negligenciando minha humanidade. Estou apegado aos amores do passado e de um passado ainda anterior. Não adiantou a minha humilhação perante meu julgador. Meu Eidolun. Tenho a sensação par de agonia e tristeza. É um peso até para um coração morto como o meu. Um coração negro, lembra-te disso? BlackHeart. Como eu o quero. Como eu preciso. Comer.

Teu aroma agridoce, a suavidade de sua pele intima, seu hálito e na forma como me olhava parecia conseguir ver o monstro em mim. No mundo inteiro, você me conhecia e eu perdi este vínculo. Não sei mais quem sou ou de onde vim, justo eu, o Arauto. Minha Flauta perdeu a entonação natural e minhas mãos fraquejam a cada segundo, segurando minha mais preciosa taça. Não há mais medo quando a manhã vem, me exponho até meu instinto de proteção agir e dai me oculto, sentindo a escória que sou. Estou quase desistindo deste fantasma de amor, meu castelo e minha devoção estão ruindo. Passo meu tempo relembrando e agonizando, ainda, fronte ao enorme sentimento que ainda carrego por você. Carrego-o sozinho, eu sei. Oh como eu o quero. E como preciso. Perdido nos seus braços eu me achava. Nosso amor era o melhor, você conseguia acender minhas partes mortas como ninguém conseguiu anteriormente e isso ainda me impressiona. Nunca mais serei a parte de homem que era. Parte, Meio Homem inteiro. Me basta a hematolagnia!

Tenho medo de ser eterno, quero abdicar. Os ultimos acontecimentos só me mostram que sim, devo aceitar o abrigo do deus-uno dos hebreus e perecer servindo-o, como já fiz e reneguei. Pense o que é perecer para mim, que sou eterno. Minha carne não morre, minha alma jaz morta e meus desejos continuam vivos.

Não temo ser o que sou mas temo o que deixei meu, contigo. Não. Estaremos sempre a meio caminho de onde poderíamos estar e a meio caminho de qualquer lugar.

Por que me foi tomado? Eu não consigo respirar. Eu tinha prazer em respirar. Não tenho mais prazer em nada. Não estamos terminados, estamos? Eu não conseguirei suportar. Meu único vinculo com esta época se foi.

O que eu sozinho posso fazer? Não saio mais, não me alimento mais, estou sendo mantido cativo por mim. Meu maior carrasco sou eu mesmo agora. Por que?

Não consigo entender, menos ainda quando sinto que meu amor não pode continuar unilateral. Por que não acredita no meu suicidio virtuoso?

3.04.2011

Respostas

Oh, who can answer at the throne of Godess?

É deveras lamentável mais uma vez escrever dizendo que estou cansado. Mas desta vez, após passar inteiramente uma noite a pensar, sendo afligido por outros demônios e reflectindo em minha alma a intrínseca forma de estar ausente de mim mesmo. Fiz uma descoberta - ou fui permitido saber, ainda não cheguei a conclusão - de que eu amei todo este tempo uma pessoa dentro de outra pessoa. Talvez Platão entenda o que quero dizer. Talvez, não. Pode ir além, pode ter Ptolomeós envolvido nisso. Galatheas era ou não criada? Enfim...

Eu posso ter criado minha Galatheas noite passada. E que Mulher! Eu havia esquecido como podem ser fascinantes após todo este tempo de reclusão emocional e bilateralidade. O fato é que eu a amo, profundamente e que mesmo com minha 'prévia' equivocada, eu insisto.

Por um delírio eu assumi Erzbeth mas acho que esta a pertence. É o meu padrão, a Condessa de sangue (para os que não a conhecem). Preciso estar atento agora, a cada dia mais. Minha posição de incógnito está sendo ameaçada por esta mulher. E o mais soberbo? Eu quero estar ameaçado.