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10.08.2013

Francisco, se pudesse, cantaria uma ode a você


     Eu o quero da mesma forma que eu o preciso. Ele sequer me vê. Conhece-me por minha fama - estranha - e por amigos em comum mas não se deu a me conhecer. Faz-me perder noites de sono, dias de vigília. Não é amor, é paixão: parte encantamento, parte revelação. Ele é doce, singelo, solitário, lindo, amável e tem uma aura que de tão bruxuleante, me estimulou. Perdi conceitos, fronteiras, decai, persisti, ousei e, no fim, ainda não tenho.

     Nada sequer a não ser algumas mensagens de telefone que não valem o peso do 'sim' que eu queria. Papos envoltos em outrem, papos sem papos, eu pergunto e não sou respondido, não sou perguntado. Mas o que eu poderia querer? Nunca daria frutos mesmo. Não adiantaria mais uma mulher em minha vida. Não sou mais homem, não como era antes. Não poderia recolhê-lo para mim, minha incognição o afugentaria no primeiro instante. Tal qual foram antes os que se amedrontaram ao observar de perto as presas.

    Ele é tudo o que falei e ainda mais, porque há algo oculto ali. Algo que não me deixa entrar, que não me pertence, que não me quer. Como isso é possível? Como? Por quê? Não haveria medo, fidelidade, compreensão. Não sei o que há que não o traz a mim de uma vez. Minhas investidas estão cada vez menos cortês e isso chega a me preocupar, em minutos estarei me rebaixando a implorar? Porque nossos olhos se cruzam mas ele desvia-os? Porque seu cheiro é tão suave que eu quase não o sinto? É tudo isso que me fascina? Perguntas que nunca serão respondidas pois nunca o terei. Abri mão ainda há pouco de falar sobre, mas precisei antes excretar minha frustração - mais uma vez.

     Pedir sua mão não bastaria, não seria apresentável. Torno-me feio, imundo, pedante, displicente, covarde e principalmente, não consigo mais ser homem ao pensar que não o tenho ao meu lado.

     Falta-me diminuir e ir para o Oeste.


Escrita há algum tempo, não havia "ido ao ar". Nos atuais, este sentimento já se fora, junto a todos os outros.

8.21.2011

Trapaças do meu amor - em quatro (pequenos) atos iniciais (ii)


Continuando.


-- Deuxième Acte:

Não escrevo para dizer como sou ou o que sou. Escrevo para para provar a mim mesmo que posso ser o que quero.
                                                                                                                                    L.L.

Este segundo ato começará diferente. Mostrará como as coisas acontecem sem que precisamos saber da importância delas.

Eu choro. Choro como a noite quando não antecede o dia. Choro como a alma perdida em busca ao Nirvana, encontrando apenas outras almas dilaceradas no caminho. Choro como a cobra que protegeu Buddha. Choro como a mãe do Cristo quando o viu na cruz. Choro como o povo hebreu, enquanto dançava pelo seu Espírito Santo, no êxodo.
Principalmente, choro como o vampiro que ainda não se adequou ao mundo.

De repente me sinto como em queda livre, tento me agarrar ao que não vejo, apenas confio, e, não consigo. Não quero fechar meus olhos, por medo do que posso encontrar.

E vós nunca vedes isto?


-- Fin du Deuxième Acte

3.15.2011

Instruções para chorar

    Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa enérgicamente.
    Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe parecer impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca.
    Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto.
    Duração média do choro, três minutos.


Júlio Cortázar

3.10.2011

Tudo o que eu quero

Tudo o que quero e Tudo o que preciso consiste simplesmente na volta do seu ódio. Não, não quero mais amor nem amar!
Chega de chorar lágrimas de sangue, quero envenenar mais alguém.
Preciso espalhar esta peçonha adiante.

No crespusculo de hoje inconscientemente eu dancei. Como há muito não fazia. Como era costume, senti meus pés saindo do chão e a elevação sendo materializada. Chorei e dancei.
Minhas mãos e pés sangraram enquanto eu dançava e chorava. E cantei! Cantei em línguas que achei ter esquecido.

Cantei, dancei e chorei.

No final do ritual havia uma poça de sangue coagulado, escuro e com o odor específico de sangue morto. Nada irreal, mas preciso compartilhar.

E ainda estamos na Lua Nova. Não vejo a hora da mudança, não aguento esta minha fraqueza.