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1.25.2015

Nova indução a Buer


Caríssimo amigo Buer,

Há muito não nos falamos e muitas coisas – boas e ruins – se passaram desde então. Por mil desejos de Jezebel hei de contar agora.

Engendro nesse momento um novo namoro. Digo namoro porque ainda não definimos o que isso pode ser. Ele é um rapaz novo, sabe, daqueles moldes provincianos que tanto adoramos. É esperto, casual, jovem, bonito como uma rosa desabrochando, sagaz e um tanto quanto liberto porém, é essencialmente humano e temeroso, pálido e incoerente consigo mesmo. Posso ver o coração dele com uma facilidade tremenda e o conheço melhor do que ele acha mas ele mesmo se desconhece e isso me dilacera. Pelos seus olhos posso conhecer seus desejos e seus objetivos, além de suas necessidades, mas vejo também o receio dele em ceder à essas atitudes. Ele é absolutamente divergente de mim, em tudo, desde os gostos até as necessidades. O que temos em comum são coisas que atraio humanas para poder ser melhor observado. Bom, com todos tem sido assim, não é mesmo? Moramos um tanto distante um do outro mas sempre que posso estou com ele. E isso me faz bem, amigo. Ele me faz bem em suma. Ainda que ele seja uma criança eu sinto prazer com ele, prazer de estar com ele (prazer sexual se inclui aqui também, amigo, pois ele é um homem bem excitante). Saímos juntos, conversamos sozinhos, andamos com seus amigos e nos divertimos como homens nesta idade. Lógico, eu omito ainda muita coisa a ele e acho sábio fazê-lo por enquanto. Ele sabe da minha formação e profissão, da maior parte das minhas rotinas e de alguns casos familiares mas a melhor parte ele desconsidera – acho justo. Chegamos já, mesmo em tão pouco tempo, a fazer planos juntos e confesso que estou esperançoso, mesmo ciente de que isso não vai à frente com muita probabilidade. Eis o dilema do demônio que nasceu sob a Estrela da Solidão, dilema este que conheces muito bem, não? Digo-lhe que não estou envergonhado ou temeroso, mas preocupado. O que eu sou hoje é o que eu pretendo ser.

O antigo amor ainda me procura, sabia? Aparentemente ele ainda não vive sem mim. Mesmo que me procure por motivos bestas e infantis e eu, confesso, caia em ciladas antigas neste assunto. Sim! Eu ainda digo-lhe que o amo e me arrependo no instante a seguir de tê-lo dito. É engraçado como eu ainda sinto que ele também me ama, amigo. Como resolver esta questão? Nossas vidas ainda estão atreladas e isso me incomoda, por vezes tenho vontade de leva-lo mas meu amor por ele me impede. Eu o amo e sei que perde-lo agora seria como perder a quarta parte que sobra do meu coração negro. Ele é meu Átrio, Buer! (Risos).

No trabalho eu ando como sempre, evoluindo exponencialmente, meus superiores elogiando minhas ideias e resoluções, meus subordinados se vangloriando para os outros que tem uma liderança ímpar. O de sempre. Fui criado para ser o melhor no que quer que eu faça com exceção do amor. Neste item também não sei mais como me portar: quero deixar tudo de lado, irmão, não aguento mais este ritmo de vida. Parece que ter perdido a melhor prima parte do meu coração me deixou fraco para esses imprevistos. Perder minha melhor parte para a doença humana me deixou inerte e indiferente. Sinto que a qualquer momento posso estar tão debilitado que não saberei mais diferenciar minha solicitude com meu desprezo.

Ando preocupado com os meus, nobilíssimo Leão andante. Com os mais próximos. Como eu disse, não consigo ser resiliente nas perdas e prevejo algo ruim acontecendo. Temo a idade alheia porque sei que estou absolutamente fora deste complexo jogo de envelhecimento e morte (mas você sabe melhor do que ninguém como gostaria de estar nesta teia!). Não durmo mais com medo dos meus sonhos e quando desperto não sei se despertei mesmo. Tenho visto os meus enquanto ando por Morphía e isso anda me aborrecendo. Todos os meus veem a mim em sonhos e, desde a última vez, acho que isso não é bom. Da última, você estava comigo velando e deve ter percebido meu pavor quando ele disse aquelas palavras. Até este momento este pavor me persegue e não sei como contê-lo. Não sei se devo invocar magia ou deixar isso acontecer naturalmente.

Algo que devo salientar: a magia está me deixando. Não ouço mais o vento, o nascer do sol, o pôr-do-sol. Não vejo mais o fogo. A tempestade ainda é minha, isso eu sei. Aquela sinestesia, aquele desvio, estão menos frequentes agora e isso está me preocupando porque quando eles vem, me arrebatam. Não posso bloqueá-los mais, acredita? Quase, de verdade, desejo que eles me deixem. Busquei por tanto tempo ser humano que agora, inconscientemente, estou me desviando para ser um. Brigo a cada despertar com meu Ego e Alterego e parece que agora meu Superego está vencendo.

Bom, amado amigo, deixá-lo-ei por então. Creio que sua batalha esteja deveras complicada por ai mas saiba que sempre terá este seu amigo aqui para o que precisar. De sangue à morte, tudo. Fomos criados do mesmo escuro e não há nada mais importante para nossa raça senão à cumplicidade e eis que, de todos, só a você me ligo. Eu o adoro e sei que me adoras também, isso me basta. No final de tudo, quando perder a todos sei que ainda terei você e sei que você me terá. Que assim seja, Grande Leão!


Do seu mais antigo amigo,


L.



Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser. //William Shakespeare
Quem não sabe povoar sua solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão. //Baudelaire

5.03.2014

Dor póstuma



Finalmente eu conheci a dor que, frequentemente, impunha a afligir aos meus.

Passado este tempo em que não escrevo e tantas coisas quanto possíveis aconteceram, eis que retorno ao seio da Solidão que é mãe. E ao conforto do Desconhecido, que é o pai. Estou perdido, finalmente reconheço, mas ainda mais trágico é perceber que não há disposição para ajudas. Provavelmente se trata de karma – se eu acreditasse em GUZEN, o que não acredito – e assim preciso afirmar porque se nalgum momento cogitar ser punição pelo que já havera feito, então, meu pobre mundo, hei de sofrer ainda exponencialmente mais do que já sofro e também, hei, de descontar no mundo em que piso até então.

Não haveria mais dia iluminado ou noite calma uma vez que eu libertasse cada um dos meus demônios. Não haveria paz quando eles atravessassem o primeiro dos nove portões do Inferno, dali em diante. Voltaria a crer num mundo de papelão que precisa ser esmagado. Reconheço que muito laborei para chegar a esse momento, o da possível Redenção, porém não questionei a maneira que ela se achegaria a mim; em qual momento, sob qual circunstância.

Expeli cada um dos que me acercavam para um mundo brutalmente agressivo e desconcertante, pari dores inenarráveis, engendrei bestas que devorariam apenas com um olhar, partilhei da miscigenação de medos e angústias. Feri e, portanto, fui ferido. É a tal necessidade de se sentir vivo que nos considera a violência para com o outro. Necessidade, orgulho, medo. Perdi tantos bens quanto possível seria contar, perdi a pessoa mais importante da minha vida e pela qual meu mundo desde então se reduziu ainda à uma menor gama de cores, odores e sabores. Ganhei novos medos, receios. Não é um troca justa final mas valeu para me trazer até este ínterim reflexivo irrelevante.

Não há mais prazer em nada do que faço ou crio, em mais ninguém e acredito que por essa perda da fascinação do mundo as pessoas estão me deixando e partindo. Ou isso ou minha evidente fúria, lógico. Minha condensação de centralidade racional me deixa ao passo de que meu cataclisma emocional se eleva, a passos largos inclusive. Meus temores agora tomam forma física neste mundo e se tornam mais perigosos, não somente pelo que podem fazer a mim mas pela falta de autoridade com que lido com eles agora. Coloquei-me aos pés da Morte e ela ainda assim não quis me levar, engraçado, não?

Durante boa parte da minha existência me vangloriei de estar liberto do conceito da moralidade e, agora, vejo que estava mais enraizado a isso do que jamais poderia imaginar. Talvez o Destino seja afiado também aos deuses, eu desconhecia essa possibilidade, afinal. Simplesmente me sento à margem do mundo agora, sem ninguém com quem possa contar ou conversar, dilapidando minhas ações futuras, concorrendo com o Tempo na medida em que passamos sem levantar rastros. Aqui então minha maior perda: passei tanto tempo evitando o mundo que, quando infelizmente fui tragado para ele mal meio século após, sou repelido naturalmente. Será que o mundo de hoje tem uma particular 'imunidade' a nós? Não seria uma surpresa. Os homens andam pequenos, os sentimentos ainda menores, as ações então, nulas. Mesmo não sendo um homem me caracterizo também com estas mesmas vestes. Meu medo e minha força me reduziram então a não ser mais adorado? Como quando acontece aos deuses pelos quais não oramos mais, hei de desaparecer? Fácil assim? Seria perfeito.

Há algum tempo disseram-me que "quanto mais próximos dos deuses estamos, mais sujeitos aos demônios e tentações nos colocamos" e vejo que estavam certos. Nada ofende mais à Realeza do que algo que se aproxima, sem ter tido a noção fundamental necessária para tal. Nenhum professor gosta de ser corrigido por um aluno, isso é evidente e talvez funcione assim neste mundo todo. Nenhuma evolução pode ser rápida demais ou agressiva demais a ponto de se mostrar como ameaça.

Bom, comecei a divagar onde não deveria. O que sucede é que à minha maneira alheia de ver o mundo, logo não estarei mais nele. Os preparativos estão sendo feitos já, mas ciente de que isso não importará muito. Quem nunca teve companhia em vida não a terá na morte, mesmo esta última sendo mais duradoura. Se bem que, quem nunca desejou companhia em vida por que a desejaria após?

Gostaria de pedir perdão aos humanos que eu magoei e feri, agredi, esqueci, brinquei, descartei, desejei, machuquei física e emocionalmente, enganei e por fim, devorei. Eu realmente sinto muito. Mas vejam pelo lado vingativo: estou sofrendo dez vezes mais do que vocês agora. Considerem então meus pecados para com vocês recompensados com minha punição severa e eterna de agora em diante.




A maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero. Henry David Thoreau

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar das fontes igual à deles;
e era outro o canto, que acordava
o coração de alegria
Tudo o que amei, amei sozinho. Edgar Allan Poe


6.15.2013

Ég anda - Sigur Rós


Se você já construiu castelos no ar, não tenha vergonha deles. Estão onde devem estar. Agora, dê-lhes alicerces. Henry David Thoreau



4.16.2013

Pequena dissertação acerca do erro cometido hoje


Como homem eu sou um tolo, débil, incapaz. Declino perante leviandades e me excitam, paradoxalmente, situações constrangedoras. Não basta ser rico, poderoso, belo e indiferente. Preciso testar estas condições no cotidiano. Não me oculto mais, mantenho-me aos holofotes. Parece que para cada esperança que acorda comigo, já é criada uma desesperança que se alimenta com o mesmo ardor inicial. É quase que uma descriação para as minhas criações, como um pássaro que nasce sabendo que será devorado por um gato, todos os dias, sem sequer ter a chance de escapar.

É como me sinto, invariavelmente, quando caio em armadilhas que já nasceram fragilizadas. Para mim, não para os meus captores. Pego-me pensando se Van Gogh, Rimbaud, Baudelaire, Poe, Doyle... Todos estes sofreram dos mesmos augúrios. Einstein. Sei que Shaw era indiferente o bastante para se manter por sobre todas estas frivolidades, assim como Wilde. Pensara eu ser indiferente o suficiente tendo aprendido com os mestres. Hoje vejo que não. Basta um olhar que meu senso de übermenschz aflore e desencadeie em mim uma necessidade de ajudar o 'próximo' - entre aspas porque não existe próximo a mim, excetuando a Morte. Basta uma pequena interferência que eu já me considero o protetor dos fracos, o herói singular de contos de fadas, o presunçoso capitão-qualquer-coisa que existe somente para determinar a justiça e aplicá-la aos merecedores. Uma besteira sem-fim, eu reconheço. Reconheço que não sou o herói nem o quero ser. Faço o que faço visando meu próprio benefício e ainda assim não o tenho. Nunca fiz nada pelo Bem Maior ou pela Felicidade Coletiva, não sou o Mister Mundo que almeja a paz mundial, não sou o estereótipo do SuperMan. 
Fui à floresta porque queria viver de verdade.
Eu queria viver profundamente e tirar toda a essência da vida.
Fazer apodrecer tudo que não era e vida, e não, quando eu morrer descobrir que não vivi.
Thoreau
Eu sou o anti-herói, o corrupto, o corruptor, o sujo, pérfido, macabro, leviano, escuro. E como isso me fascina! Sentir o medo que refrigera a alma dos que estão em meus caminhos. Não sou um anjo e sim aquele que se diverte arrancando suas asas, pelo simples prazer de vê-los incendiando e repudiando seu próprio criador. Sou antigo, vivi no aterro do mundo apenas esperando para emergir. Sou tudo isso mas ainda sofro por pequenas maledicências em que me coloco envolvido. Vejo minha vida com dois rumos, seguindo a Mão Esquerda dos deuses quando estou consciente e paralelamente, afilando minhas espada dourada e contemplando minha coroa de cristal, cedidas pelo deus-uno quando me lançou nesta maldição de mundo. Talvez esta seja a recompensa sombria dele, me ver dividido. Como que com um dos olhos furados, na dúvida sobre qual caminho escolher.

Homens pequenos, sentimentos pequenos, ocasiões pequenas. Tudo isso me estrangula a intensidade. Porque de todo o sempre esperarei recompensa pelo que faço e pelo que sou, e preciso que seja da forma que eu espero. Quero ser pago com sexo, amor puro, impuro, medo, respeito, vingança, ódio, temor, matança. Só não me permito ser recompensado com indiferença pois esta era justamente minha arma inicial.

Deixei de ser indiferente no momento que optei descer e viver aqui, mas, mesmo assim, prossigo. Nada é valioso o bastante pra mim, nem as poesias de Thoreau, nem as prosas de Henley, nem sequer os ensinamentos do Pentateuco Moshía. Nem a sangria que já me encheu a boca, nem os corpos que se deitaram em minha cama ou comigo - dos mais violentos ao mais recluso deles. Nem mesmo o dinheiro ou o que ele me compra. O conhecimento do passado, presente e futuro além das coisas da vida. Nem a aptidão inata, nem a pluriciência. NADA. Nada mais me causa algum tipo de fascinação atrevida, apenas desencanto e desilusão - todos iniciados por uma decisão minha. Nenhum homem me merece mais, nenhuma mulher, nenhum demônio. Nem me apetece estar para com eles. Da minha Fortaleza Abandonada da Solidão eu vejo o mundo e prevejo onde irá parar, mas sem me atrever a descer e acidentalmente causar uma ruptura nesta concepção de papelão.

Tudo começa em mim mas nada termina. Não estou aqui quando penso que estou, nem estou em qualquer lugar. Escrevo sobre mortes porque as desejo e decerto as conseguirei, nem que custe, uma vida. Tenho muitas e isso é meu bem e meu mal. Tenho todo o tempo do mundo e não preciso de absolutamente nada, o que significa que, não queira ser surpreendido algum dia, por alguém... Imploro por esta surpresa.


"Somos todos geniais. Mas se você passar a vida julgando um peixe pela sua capacidade de subir em árvores, ele passará a vida inteira acreditando ser estúpido." Einstein.