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9.02.2013

Dá-lhes a eles, o valor deles

 
Noite.
Calidamente mudando os ventos, chuvas por virem breve.

Setembro, 2013.
Estava eu, apenas sendo eu mesmo, após uma série de ocorrências de desestímulo emocional e orgânico, sentado em minha poltrona favorita, ouvindo toda a coleção de R&B que eu achei ter esquecido depois de 1990 - entre as joias, Simone, Franklin, Fitzgerald, James e conterrâneos. Tomei meu telefone e disquei, parte subconscientemente, para minha irmã. Ela atendeu do outro lado:

(Pallas) - Tava preocupada, você não dá notícias desde cedo.
(L.) - Você bem sabe que têm sido dias difíceis.
(Pallas) - Eu sei. Pode vir. Não contei, Ingrip colocou ovos depois deste tempo todo, acredita? Pode vir, apenas ela está aqui.
(Eu) - Tô indo.

Telefone, chaves do carro, chaves do apartamento.
Durante todo o pequeno trajeto pensei no que me ocorrera nas últimas vinte e quatro horas e estava, enumerando os acontecimentos para maior fluidez ao falar. Doze, talvez quatorze, minutos depois lá estava eu. Numa interseção de dois mundos, batendo à porta da minha irmã mais ouvinte e protetora.

(Pallas) - Oi.
(Eu) - Kaliçpéra. Esqueceu os bons modos, Pallas?
(Pallas) - Não é porque você é mais velho que pensa que pode me corrigir, n'ai?
(Risos)
(Eu) - É bom te ver novamente.
(Pallas) - Verdade, entra.

Pallas era minha adorada desde sempre, minha alma gêmea mesmo sendo minha irmã. Uma querida que ajudei a surgir e desde então nos adaptamos um ao outro. Tínhamos gostos semelhantes, logo, não era difícil. O que nos diferenciava porém era a necessidade dela por ser vista enquanto eu optava por permanecer incógnito.

(Pallas) - Tu quer um chá? Não tem mais daquele que você gosta, mas tenho Earls e Ceilão. Ah, e um novo que ela trouxe dia destes, desde que veio ficar comigo este tempo. Já estamos na época? Aliróthe! Como passa.

(Eu) - Me dá qualquer coisa de beber ai, eu preferia alcoólico.
(Pallas) - Ambos sabemos que você não pode, abusado.
(Eu) - Eu sei, você não sabe de nada.
(Risos)
(Eu) - Vai este novo ai mesmo, vontade de provar coisas novas esta noite.
(Pallas) - N'ai. Senta lá na sua azul. Ainda está lá pra você e ninguém mais se senta nela.
(Eu) - Puxa, Pal. Não acredito que você ainda mantém aquela porcaria velha.

Minha poltrona favorita desde sempre, azul, com bordados de grandes feitos históricos muito antigos. Me sentei e me confortei com anos de bondade e alívio. Fiquei apenas um instante, ao me recordar, fui parabenizar Ingrip pelos ovos. 

(Eu) - Até que enfim, Ingrip. Achávamos que você nunca mais ia se decidir.

Falei para mim mesmo, a coruja apenas me contemplou e assentiu, como se entendesse. Bem, ela entendia mesmo.

(Eu) - E dois desta vez? Tem certeza disso?

Parei no momento em que minha irmã vinha com duas xícaras, torrões de açúcar mascavo e uma pequena jarra de creme de leite cremoso, numa bandeja antiga, com logicamente nosso chá.

(Eu) - Acredito que você já esteja ciente do que está acontecendo.
(Pallas) - Sim, mas preferia que você me contasse. Duas pessoas, ainda que no mesmo lugar, ao mesmo tempo, nunca contarão a mesma história da mesma maneira. É fascinante ouvir as versões. E você sabe, ela não fala muito. Só chora e bebe chá, desde que chegou.
(Eu) - Acha que devemos falar com ela?
(Pallas) - Não, melhor não. Deixe-a ruminar mais um pouco.
(Eu) - Mas Pallas, já faz milhares de milhares de anos.
(Pallas) - Você sabe bem, irmão, como dói. Graças que eu nunca passei por isso.
(Eu) - Nunca? Tem certeza?
(Risos)

Nos sentamos na varanda, noite fresca, lua boa para conversar. Eu, na minha poltrona favorita desde sempre. Minha irmã na dela, um pouco mais moderna e bruta do que a minha, com a mesa de chá entre a gente.

(Eu) - Bem, mais cedo eu passei por algumas "chatices humanas", como você chama.
(Pallas) - Tu ainda se porta a isso? Achei que depois daquele dia você estivesse fora de novo.
(Eu) - Nada, menina, é interessante e deveras intrigante. Não venha me dizer que está fora disso também, por favor.
(Pallas) - Bem, você que sabe. E ai a revista...
(Eu) - Sim, a revista. Ou você fala sozinha ou me deixa falar, ainda não perdeu este hábito?
(Pallas) - E tu ainda não perdeu o hábito de ser estressadinho? Estamos quites.
(Eu) - Então, a revista. Eu estava lá, do nada, esperando o atendimento e peguei aquela revista para passar o tempo. Uma destas que você adora ler e que eu passo longe.
(Pallas) - "Meninas com coisas de meninas". Parece que é um costume que você também não perdeu.
(Eu) - Posso continuar? Então. Peguei a revista e, folheando ocasionalmente, adivinha quem eu encontro lá? Estampado? Numa propaganda de roupa masculina de praia? Espera, não adivinha. Ele mesmo.
(Pallas) - Então ele está indo de vento em popa? Que bom hein.

E então ela fez aquela cara de que não dava a mínima, para me proteger afinal, ela sabe o quanto eu sofri e por conseguinte ela, pelo que aconteceu. Tentando não demonstrar interesse, para me poupar.

(Eu) - Pois é, Pal. Parece que sim. Fico feliz.
(Pallas) - Que seja.
(Eu) - E, como sempre, acabei causando uma infelicidade que me acompanhou durante o dia e o motivo da minha vinda aqui.
(Pallas) - Irmão, tu és meu irmão. Não é filho do meu pai ou da minha mãe, nem cria dos meus avós, mas é meu irmão desde que eu cheguei aqui, do Oceano. Tu fora meu amigo, meu companheiro, meu mentor, meu instrutor e meu salvador por várias vezes. Tu nunca precisa de motivos para vir me ver, mas por tua distância prefere não fazê-lo.
(Eu) - Pal, eu sei. Posso continuar e você voltar aos tempos modernos, efcharistó?
(Risos)
(Eu) - Continuando. Vi a foto dele e notei que ele não mudou nada. NADA, desde o acontecido. Fiquei tanto com aquilo na mente que acabou não sendo surpresa quando meu celular tocou e era ele. Diz ele que "me ouviu chamando" - claro, era verdade - mas eu não daria opção. Conversamos alguns instantes poucos a ponto apenas de me reiterar com o que acontecia, elogiar pelos trabalhos recentes, ele dizer que havia voltado para o pais há uma semana e que estava pensando em me convidar para um jantar informal, nada demais, com os pais, como fazíamos antes, pelos velhos momentos. Recusei de cara - e me arrependi.
(Pallas) - Nem acredito que você atendeu ao celular.
(Eu) - Não me julgue, apenas me ouça.
(Pallas) - Eu achei que você queria seguir em frente, irmão. Tu já não está seguindo? Não tem uma coisa nova?
(Eu) - Coisa não, um homem. Sim, tem.
(Pallas) - Também humano, eu sei.
(Eu) - Não me julgue, eu disse. Você além de velha está surda?
(Pallas) - E você além de velho está burro.
(Risos)

Tempo de beber mais uma xícara de chá, um gosto exótico, abacaxi com alguma coisa.

(Eu) - Bom, ai conversamos mais alguns instantes e eu acabei dizendo que sim. Ia encontrá-lo breve. Ele perguntou de você também.
(Pallas) - Aliróthe, culpa sua. Eu disse que era melhor esquecer tudo.
(Eu) - Nada, ouve ai. Terminamos de falar, eu fui atendido, fiz uns exames, chegamos à uma conclusão e acabei lá por mais um tempo, tomando algumas poções.
(Pallas) - Tu ainda realmente se sujeita a isso, não? Cada ano passa e você está mais imerso nisso tudo, não sei nem se o verei no próximo milênio se continuar como está. Quando é que você vai parar de viver na sua cabeça?

Havia uma complacência na sua voz, uma condescendência que eu não esperava. Minha irmã estava realmente preocupada comigo e à nossa maneira de falar, ela descobriu como eu mesmo me causava tanto mal. Tive de admitir.

(Eu) - Falei com ele, irmã, apenas. E o suficiente para que os anos viessem todos a mim de uma vez.
(Silêncio)

Durante cerca de meia hora apenas bebemos nosso chá, calmamente, sem uma palavra. Apenas ouvia-se o piado de Ingrip, orgulhosa da cria, mais nada. E então, Pallas recomeçou:

(Pallas) - Falaram e então vão se ver?
(Eu) - N'ai. No próximo final de semana. Preferi não dizer onde estava na hora da ligação e nem citei que estava mal das vísceras, apenas deixei o assunto de anos fluir.
(Pallas) - Entendo. E quais seus planos? Esquecer da coisa que está vivendo e voltar como se nada tivesse acontecido? Mais uma vez? Depois de tudo que passamos?
(Eu) - Não. Não sei... Não sei.

Verdade que eu não sabia como me sentia após aquela conversa. Notei que nunca pensei muito no que aconteceu, apenas segui adiante. Sofri bastante na época e não posso dizer que porque era uma criança, nunca pude ser uma criança. O que talvez eu tenha sentido foi remorso, pelo que matei em mim quando vivemos juntos e quando infelizmente tive de deixar de viver. Fiz muitas coisas na minha existência de não me arrependo, a não ser aqui. É uma longa história.

(Eu) - Por isso vim até você, querendo ajuda.
(Pallas) - Não posso tomar a decisão por você, sabe bem.
(Eu) - Mas é você quem governa a inteligência, não?
(Pallas) - Inteligência, não decisões. Posso mostrar o que será melhor mas não decidir por você. Nunca pude. Ainda mais com você, que é infinitamente mais velho que eu. Não confunda, irmão.
(Eu) - Eu sei, Pal. Era apenas brincadeira. Parece que sua seriedade também precisa ser trabalhada. E depois eu sou o antissocial.
(Risos)

Neste momento, nossa irmã acabou se aproximando.

(Art) - Tu, aqui?
(Eu) - Hei. Como você está? Não quis incomodar.
(Art) - Pal, por que não me chamou?

E me abraçou carinhosamente. Ainda havia lágrimas aos olhos e seu cabelo exalava tristeza e apreensão.

(Art) - Já entendi. Parece que, tirando esta daí (se referindo à Pallas) parece que nós temos o mau hábito de sofrer por amor.
(Pallas) - Hei.

Todos rimos, afinal.

(Eu) - Junte-se a nós, irmã. Estamos tomando um chá e conversando aleatoriedades.
(Art) - Não me diga, ele de novo?
(Eu) - Sim, ele.
(Art) - Pal, sirva-me. Ainda sou mais velha que você, mesmo não sendo a mais velha da sala.
(Pallas) - Se idade fosse posto...

Todos tomamos chá no fim, acabei adormecendo na minha poltrona, sonhando com acontecimentos antigos. Acordei no meio da madrugada, apenas para perceber - e me emocionar - que estávamos os três adormecidos, cada qual no seu “reino", como era antes do novo mundo. Levantei-me, cobri ambas em suas poltronas, peguei as chaves do carro e do apartamento e voltei. Não sem antes deixar uma mensagem que dizia apenas obrigado, para as duas. Sentia-me mais leve, disposto, determinado e corajoso. Havia deixado minha armadura silenciosa por lá mesmo, porém, mal sabia eu o que ainda estava por vir.

Quando a filosofia pinta cinza sobre o grisalho,
uma forma de vida já envelheceu e, com o cinza
sobre cinza não se pode rejuvenescer, apenas reconhecer;
A coruja de Minerva alça seu voo.

Magia
Presságios
Espaço e tempo.
A verdade emergira
Da luta silenciosa
Dissipando a ilusão?
Pássaro da Cura Sagrada
.
 
Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1830)



 

1.08.2012

Ouço imagens, vejo sons


Minha imagem não é o que sou. Minha voz ecoa além do que posso ser ouvido. Cada pequeno gesto do meu corpo é sensivelmente controlado, levando em conta o mundo de papelão em que vivo. Cada toque, cada sopro, cada desaforo, todos morrem comigo. Por vezes posso sentir o ar enquanto rodopia minha pele gelada, dançando em torno da minha culpa, abduzindo parte da minha dor ao ludicamente interagir. Parte congruente, parte incessante.

Não quero aqui mais uma vez evidenciar minha tendência à megalomania. Não. Preciso apenas escrever com meus olhos o que sinto com meu sangue. Temo a obsessão porque ela gera a morte. Fixo em um canto vazio do meu inconsciente algo que preciso lutar por, conquistar ainda que em passos inconstantes. Não é a música que me abstrái nem o que ela provoca em mim, é meu desejo de fazer parte dela. Parte da coerência vibrante que torna o som um verdadeiro dom. Mexe comigo, me toca as partes desconhecidas, se deleita em mim e toma posse do meu orgasmo incorreto, criando dele filhos que nunca verei crescer.

Tive muitas crianças quando me deitei com a Música, cada uma acabou morrendo ao me ver. Todas notaram que seu pai é algo silêncio, coisa que por si só corrompe as criações puras. Todas as minhas crianças choraram ao ver um pai que toca o céu com uma doce canção sem som, que sai de seus olhos, passando através da pele e dos pêlos e que se torna impuro para si mesmo. Minha imagem - que nunca seria tão doce quanto minha necessidade de cantar - surpreende pelo meio-homem inteiro que sou.

O que mostro de mim se torna alimento de deuses tão imortais quanto eu, mas que sobrevivem de pesares. Experimento viver num Tempo diferente, num mundo diferente, que giram numa sintonia suavemente distinta da atual. Escrevo por códigos que só os de minha raça entenderiam, se ainda houvesse algum por ai a me ler. Experimento também compreender o que vejo, com os ouvidos. Cheirar com meus olhos, tatear com meu faro, ouvir com minha lingua e sentir o gosto com minha pele.

Sentir o gosto com minha pele.

Nada poderia assumir uma forma mais brutal do que a poesia.




12.11.2011

Aurora Escarlate


Há muito tempo atrás, quando do início da raça criada, um dos mais antigos cometeu um erro brutal. Ele se associou a quem não devia, esperando por um maior poder. O poder de desfazer o que acabara de ser feito.

Ele recorreu a um deus pedindo por um tempo maior durante o dia, para que ele pudesse estar com quem amava. Logo após a transformação, dos Seis Iniciais, este Um ainda temia o que se tornara. Ele sabia que daquele momento em diante estaria incapaz à luz do dia, teria de viver nas sombras e nas trevas, alimentar-se de homens, mulheres e almas e principalmente, manter-se incógnito. Lógico, ele não aceitou. Havia algo nele maior do que esta sede, que era o carinho que ele tinha a um ser que ele havia visto crescer. Era sua família até então.

Bom, o deus concedeu em vez de ajuda, uma maldição. Conhecida posteriormente como Aurora Escarlate.

Em certas ocasiões e muito especiais, estes seres podem andar durante o dia sem temor. Na época, o Um achou que era a melhor coisa, já que ele poderia viver parte da sua vida da forma mais humana possível. Enganou-se. Quando da primeira Aurora Escarlate, ele viu sua sede crescer, desenvolver aspectos brutais em sua força, torná-lo um sádico monstro, violento, desumano, descontrolado, excessivamente viril, consternado e não pior, alheio à qualquer emoção. O que era pra ser o seu momento acabou como a maior desgraça que poderia ter acontecido: ele viu o Sol nascer e se assustou, já havia desacostumado àquela presença. Ele vagou pela vila durante o dia, espantou moradores com sua aparência, bebeu deles, violentou-os, matou e destruiu. Mais, ele acabou com seu próprio amor, por fim, inerte em seus braços poderosamente infantis a ponto de esmagar.

Numa única Aurora ele terminou seus medos. E então, sentou-se e chorou. Chorou até a poça de sangue-lágrimas se tornar revolta e arrastar o que havia em volta. Ele chorou e partiu montanhas. Abriu vales entre os mares. Criou Tempestades. E não pode trazer seu amor de volta, jaz afogado, em sua essência.

Os outros Cincos levaram a Aurora tão funestamente quanto este, porém não tinham muito o que perder. Lamentaram pelo seu irmão mas não podiam fazer nada também. Desde então, a Aurora Escarlate é algo tão temido quanto possível, entre nós. É um tempo em que nos recolhemos acorrentados uns aos outros, para que não façamos mais mal à Humanidade. O mundo de hoje já comporta bestas demais para que sejamos as mais poderosas à solta.

Houve um tempo em que se tentou barganhar com este deus a libertação, mas ele já havia partido. Morto em batalha por um outro deus. A maldição ficou e ele foi, até nisso há injustiça. Mas conquanto haja um trabalho divino ele não é desfeito, sabemos disso na carne pelo que nós mesmos fazemos. De nós mesmos, entre os Seis, um se foi mas seu lugar continua tão forte quanto antes, repelindo qualquer invasor.

Enfim, o momento da Aurora está chegando. Eu posso sentir no ar e na noite que persigo. Mas como eu disse, não terei mais o que destruir.


6.07.2011

Orphíos & Eurídicie

Conforme havera dito na postagem anterior, faço aqui um passo cultural à minhas origens, contando como um amor e uma música podem ser tão intensos e tão funestos.
Bom, contarei como isso realmente aconteceu, sem interferências tão poéticas ou visualmente comprometidas.

--- Lembro de há algum tempo ter conhecido um jovem chamado Orphíos (Ορφέας em grego, onde nos conhecemos) que era um exímio músico. Este Orfeo cresceu abençoado por nosso irmão Apollo com um dom para a música tanto que era dotado a acalmar bestas e deuses enfurecidos (desta forma nos conhecemos, no momento que eu mais precisei dele mas isso é uma outra história). Orfeo cresceu conhecendo este dom e acalentando corações com suas odes brutalmente sinceras, tanto que um certo dia encontrou uma beleza sem par chamada Eurídicie (μυθολογία, ibidem) e por ela se apaixonou. Ela idem e um dos maiores amores que eu já vi havia iniciado, contrariando todas as perspectivas.

Se amaram por incontável tempo, Orfeo sempre com sua lira e sua amada e elas o acompanhando, num belíssimo jardim que havia sido presente deste que vos escreve (como forma de recompensa, por aquela outra história). Passado algum tempo o amor dos dois se tornou algo invejável aos corações menores e a música de Orfeo era apreciada desde o Jardim das Hespérides até o Submundo. Encantado com a lira, Hades a desejou pra si. Como sabia não poder convencer o tocador de modo natural e sem querer parecer suspeito ao sumiço do rapaz já que todos os deuses da Terra também o apreciavam, criou um ardil para resgatar Orfeo pra si: enviou uma serpente venenosa para matá-lo e assim o teria sob seus domínios.

Acontece que a serpente também se encantou com o som e usou sua peçonha em Eurídicie, com inveja do amor por Orfeo. Eurídicie morreu e Orfeo perdeu o consolo. Rogou ajuda e proteção e permitiu-se que tentasse com Hades resgatar sua amada.

Orfeo desceu solo ao Submundo ter com aquele senhor, pedir por Eurídicie. Hades logicamente recusou-se, mas tendo ali o que precisava: Orfeo em seu reino. No entanto Hades não esperava por aquilo, Orfeo de tão triste acabou somente com notas que faziam a todos chorar, seja animal, vegetal, deus ou fera. Havia perdido parte de sua alegria em tocar, que era Euridicie. Para Hades não havia tormento, sendo um deus de decepções e trevas, era excitante. Tão excitante que teve medo:

"- Orfeo, meu doce jovem e espetacular soberano. Me coloco sob seus pés e para escapar da beleza de sua lira eu o permito ir, antes que isso me custe a destruição. Porém, assim que tiveres minha permissão saia do Submundo com Eurídicie sem olhar pra trás ou nunca mais poderá tentar novamente e habitará meu reino até o final dos tempos."

Orfeo concordou e antes agradeceu o deus com sua ode mais famosa " A Simphonia Final". Saiu do palácio com Eurídicie e seguiram à saída do Erebus. Eurídicie, sem mal no coração, acabou por acidentalmente olhar pra trás quando achavam já estar saído do inferno e o que aconteceu então foi pior que a morte: seu corpo começou a tomar a forma de uma estátua, até a altura do busto e sem poderem mais sair daquele reino, Orfeo - ainda vivo - acompanhou a amada. No Submundo ele tocou - e ainda toca - para amenizar o sofrimento da bela e declarar seu amor incondicional, que supera a morte. ---

Por isso até hoje, conhecendo de perto como os conheci, temo a música e o amor. Nunca me coloquei na posição do jovem mas acredito que não teria sido tão forte e isso me envergonha deveras. Em intervalos de tempo regulares, infrinjo o pedido da divindade que lá comanda e tenho com o casal, controlando-me para não parecer triste perante eles que se amam tanto e para não ferir o orgulho do meu grande amigo. Mesmo passado todo este tempo eles continuam os mesmos, em amor, carinho e respeito. Talvez se algo tenha mudado não notei, as flores que crescem lá continuam crescendo, o que é pedra continua sendo pedra e o amor somente cresce, como todo amor deve ser.

Antes que perguntem, não posso ajudar. Foi um acordo e seria descomunalmente perigoso romper, além do mais vejo a Felicidade de Orfeo. Não importa onde eles estejam desde que estejam sempre juntos.

5.13.2011

Icelus

In Greek mythology, Phobetor ("frightening") was one of the Oneiroi, the personifications of dreaming. According to Hesiod, Phobetor is the son of Nyx, the primordial goddess of the Night, produced parthenogenically, or as Cicero claims, with Erebus, the embodiment of Darkness. Phobetor was the personification of nightmares and appeared in dreams in the form of animals or monsters. Among the gods he was known by his true name, Icelus (Ikelos"semblance"). Together with his brothers, Phobetor resided in the land of dreams (Demos Oneiroi), a part of the underworld.


Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Phobetor

3.30.2011

Ninguém e Athena

Eu sou o Ninguém que cegou Polifemo, não sou senhor de outro Reino senão o que comigo levo onde quer que eu esteja.
Me chamam Ulisses Rei, Polifemo me chama Morte, Calypso me chama desejo, Penélope me chama amor eterno.
E tu não me chama mais de amo.
Por que não sou mais egoista ao ponto que quere-lo só pra mim.
É querer o ar ou o vento ou a mim mesmo.
Nobre Atena Deusa que me guia,
Senhora da Razão de muitos, toma o meu fardo e me deixe apenas com o louro da tão sagrada dádiva que se mostra a meus olhos agora.
Toma, Oh Deusa intempestiva, a razão que a mim não julga e permita-me viver aqui,
serenamente.
Na insensatez de amar este Homem.
Ai Palas que a mim não serve mais,
Deusa arconte que se mostra a quem não te chama.
Mostra-te somente pra nos trazer à tona o preço da amargura,
seja como Eros que nos faz viver em Leviandade.
Outrora amava-a como a um sol,
hoje submeto-te à minha opção: viver plenamente em amor ou redimir-me a sapiência e voltar a ver o mundo com os olhos que outrora me destes.

Oh Palas, soberana e vingativa...

1.25.2011

Descumprindo Promessas

Ok.
Descumpri o que havia dito sobre o retorno da Inspiração. Mas ela me arrebatou durante a noite. Minha noite. Começou a fazer sentido que o silêncio é violento e que eu não estou mais esperando nada, de ninguém. Mesmo que eu esteja tentando quebrá-lo, não consigo. Não sei o que acontece, mas isso dói.
Mais uma vez apelo à Mnemósine: Tire-o de mim. Tire este Monsieur que me aflige. Por Lestan e pelos outros, este eu preciso que me permita fluir. Meu amor é líquido mas sólida é minha necessidade de sangue.
Me sinto queimando e queimando, você não?
Conquanto haja fôlego irreal em meu peito arquejante, antigo e vazio eu estarei esperando minha resposta. Pensei coisas impensáveis, tudo para trazê-lo de volta mesmo desejando sua partida.
É a ambiguidade de Hamelim, é o Canôn de Morgan e o Mito de Eco - Todos infundidos.

É ter a nítida vidência de que o universo realmente conspira, colocando em nossas mentes algo que não precisamos ou queremos, mas talvez o próprio universo não considere isso como afronta e sim como superação. Instigante, não? É uma mentalidade multidisciplinar, de origens diversas e catalisadas mas sem foco. Começo a ser lamexo, oras.

Não tento ser um deus maior do que já sou, mas estou cansado. Muito cansado, exaurido.

E no final de tudo isso ainda me resta apenas o silêncio, Harpócrates, meu venerável amigo. E não há Basano agora, deixarei que o próprio universo se encarregue de tudo. Não mexerei um Æon.