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3.02.2014

Eis que eu preciso passar por cima de mim mesmo, por cima de meu amor próprio


Num delicioso crepúsculo de um dia que havia sido agradável, algo se movimentava no ar de maneira a querer demonstrar que eu deveria me preparar. Logo, seria convocado e precisaria exercer minha autoridade. Bom, havia muito que eu esperava esta oportunidade mais uma vez.

Lembro bem de já estar ciente quando meu celular notificou uma mensagem de texto dizendo somente “SOCORRO”. Não era um número conhecido mas eu sabia a quem pertencia. Era alguém a quem eu havia oferecido meu coração, muito tempo antes e que agora já não me pertencia mais. Alguém que eu realmente amava e que agora disporia de outro em sua cama, sua vida, sua essência, sua compreensão, sua cumplicidade, sua admiração e seu amor. Eu precisava aprender a lidar com isso ainda. A mensagem pedia socorro mas eu sabia que não era pra ele, diretamente. Há muito também eu havia criado o alfabeto simpático e dessa maneira, saber o que estava passando desde a saúde à atividade emocional desse ser. Me despi e me marquei, deixando assim indelével em mim sua magnitude. Tratei de responder à mensagem com um “Já estou indo, aguarde-me defronte ao portão de sua casa. Sei o que se passa”. E sabia, por isso ele me convocara em ajuda.

Esse seu novo consorte havia sido vítima de um incidente brutal, violento, nas ruas. Havia sido ferido por sua opção e seu meio de vida, depredada a sua dignidade, marcado seu corpo e fundamentalmente sua alma dilacerada havia sido a pior parte. Ele havia sido encontrado violentado, agredido e semiconsciente e no âmbito da sua pouca razão, pedia socorro com seus olhos encharcados de sangue. Como havia sido encontrado pelo seu próprio amante, meu outrora, a única opção seria evocar esse mal – que vos escreve – para ajudar. Médicos curariam as feridas externas, gradualmente, disso sabemos. Porém, tanto ele quanto todos – e aparentemente seu novo consorte – sabiam que eu poderia mais. Talvez minha reputação me precedesse indistintamente. Bem, eis que ele havia sido levado até à casa de meu precioso amor e lá estavam todos, a aguardar. Nesse ínterim de ler a mensagem e responder, eu já me preparava para ter com eles. Um caminho que naturalmente levaria uma hora eu faço em dois minutos, apenas por vaidade, por querer aproveitar sempre da beleza noturna que preenche e desloca. É fascinante perceber que ano após ano, século após século, minhas estrelas continuam imparciais e imóveis levando a crer que somente os que estão aqui embaixo se percebem mudar com o tempo.

Mensagem enviada, pego um casaco, me deixo cair do sexto andar que moro para o chão, diretamente, mas sabendo que antes mesmo de chegar à altura do quinto andar eu já havia ascendido, na mesma velocidade que o vento ganha do tempo na curva. Lá do alto as coisas são vistas como realmente são: pequenas e sujas. Despreocupado durante todo este tempo, eu apenas flutuei até onde deveria e, como sabia que estaria a me aguardar impacientemente onde eu havia mandado, pousei à uma certa distância – segura o suficiente para não ser atormentado. Ele, ao me ver e em seu próprio estado de pranto e dor, conferia sua confiança no olhar e eu me alimentei daquilo como uma seiva dourada da Cidadela Prateada que há muito eu não via. Deixei-me inebriar por aquele aroma, aquela delicadeza, aquela fragilidade, tudo aquilo que outrora fora meu e que agora pertencia a um humano frágil e que dependia da minha benevolência para continuar vivo. Eis a prova da dignidade e condescendência que me sempre é aplicada!

Fomos juntos até o seu quarto, onde repousava um corpo quase dormente de um jovem homem que eu já acompanhei durante uma noite, para observar atitudes e hesitações. Um homem comum, que não era em nada especial a ninguém, nem a si mesmo mas que agora era ao meu amado. Um molde de barro como todos os outros. Barro quebrado que eu, controversamente, precisaria consertar. Era uma lástima vê-lo tão ferido e ensanguentado e mesmo nesse frenesi eu não pensava em outra coisa a não ser em meu amor. Esse pedaço de barro estava realmente machucado em todos os locais que eram alcançáveis pelos olhos, ainda que pelos mais despreparados, mas havia uma falha em sua alma que seria o pior a ser reparado. Havia já uma necessidade de pedir pela morte – como sempre, humanos são fracos o suficiente para desistirem da luta antes mesmo de conhecerem um por cento da dor – algo que eu não permitiria acontecer. Sim, eu desejava me livrar daquilo mas sabia o quanto isso ia magoar aquele que amo. Não há aqui humildade, não, há apenas egoísmo em querê-lo bem e feliz mesmo que para isso precisasse passar por cima de mim mesmo. O amor é algo engraçado, a gente ama mesmo quando não é amado e sabe que, mesmo que não seja retribuído, faria tudo por esse amor. O amor é tolo ou tolos são os que amam?

Pedi que nos deixássemos a sós, apenas aquela peça quebrada e eu, no quarto. No seu nível de consciência eu sabia que poderia agir como quisesse que não seria observado, retaliado ou julgado. Pedi que meu amor nos deixasse também porque não aguentava mais ver o sofrimento estampado naquela bela face que eu beijei tantas vezes pela noite e outras tantas pela manhã. Deitado lá, aquele homem apenas esperava sua vez no trem que sobe aos céus e eu precisaria ser o condutor de volta dele.

Tirei todas as suas roupas – ou o que sobrara delas, farrapos e sangue coagulado – peguei uma pequena compressa que havia ao lado da cama e limpei a testa dele, para remover todos os traços de sujeira que havia ali. Ele ardia e palpitava, além de esforçar para permanecer respirando. Era sim, confesso, uma visão lastimável e ao mesmo tempo belíssima de como compreender a humanidade: um homem quando agride um homem, passa a ser mais homem? Mais poderoso? Mais parecido conosco?

No seu corpo débil havia tanta ferida quanto era possível perceber, ossos quebrados, marcas, manchas, escoriações, sujidade. E mais, em sua alma havia sede de plenitude. Nesse momento percebi e perscrutei que não seria capaz de pedir ajuda para esse feito, como já havia feito antes. Teria de agir sozinho para nossa própria proteção e porque não poderia dividir esse peso, nem mesmo com meu melhor amigo que sempre me acompanha onde quer que eu vá. Decidi o que haveria de ser feito, remoldado, criado, consertado e o fiz, passando minha língua por todo o seu corpo, fechando as feridas, desmarcando as áreas marcadas, desfazendo o mal. Em poucos minutos o corpo havia sido completamente reabilitado e não havia mais um vestígio sequer da violência. Porém, sua alma continuava reclusa em algum canto escuro onde não pretendia sair. Precisei então invadir sua alma, com uma pequena palavra eu abri seu coração e sua mente e entrei, vendo tudo o que havia acontecido, seu passado, seu presente, seu futuro, suas intenções. Tudo o que eu deveria ter evitado eu precisei enfrentar para consertar aquela criatura. Desci até esse canto encoberto e o peguei pela mão, trazendo-o de volta à luz, desfazendo memórias e medos. Assim ele voltou a si, ainda debilitado pela intensidade mas já fora de risco e então pedi para que os outros entrassem novamente e se portassem a cuidar dele, mas que não havia com o que se preocupar e eu não poderia fazer nada mais – ou melhor – do que havia já feito. Percebi nesse momento que havia me exposto e que, consertando a peça quebrada, eu jamais teria meu amor novamente e, ao mesmo tempo, percebi o quanto ele amadureceu e aprendeu. Lógico, essa depressão instalada em mim precisaria ser sanada brevemente. Deixei-os todos com o paciente e sequer perceberam quando eu sai.

Havia em mim ainda a raiva por ter sido fraco, complacente com aquilo tudo. Teria sido eu o salvador de uma nova vida e o destruidor da minha própria, eu havia sido meu maior inimigo mais uma vez. Toda aquela fúria havia se instalado em mim e a dor era semelhante à própria instauração de Virgo e pensei haver somente uma maneira de desprender tudo: vingança, morte, sangue. Foi o que fiz, aproveitando-me das memórias que eu havia retirado daquela pequena criatura, persegui aqueles que o deixaram entre a vida e eu. Não muito longe dali os encontrei, se gabando de terem elevado um nível em sua humanidade.

Criaturas ainda mais débeis, belicosas, superficiais, imundas. Havia quatro deles, sentados no capô de um carro moderno, conversando e bebendo algo sujo. Nenhum deles teve tempo suficiente para saber o que aconteceu. Como um raio eu desci, despedaçando o chão, o carro, um deles que estava mais próximo. Os outros perceberam tarde demais o fogo em meus olhos e quando um deles se apressou em correr, interceptado foi por mim, esmagando sua cabeça com uma de minhas mãos. Dois haviam partido, o terceiro ousou sacar uma arma de fogo e o medo instalou-se nele quando notou que não havia efeito em mim aqueles projéteis. Esse eu queimei, da cabeça aos pés, com apenas uma palavra também. Não somos feitos de Fogo e Tempestade à toa, afinal. Então sobrara um, o líder aparente deles, com o qual eu me diverti por sua fragilidade, fazendo-o sofrer da mesma maneira que havia feito o outro sofrer ou talvez mais, porque minhas mãos afligiam também sua alma. Tenho a mais absoluta certeza de que esse sofreu, e tanto, que os anjos devem ter tapado os olhos e ouvidos para não verem-no ou ouvirem-no berrar, tamanha era minha audácia. Percebi que não ali muito distante, dois anjos observavam a cena, com um misto de pavor e curiosidade mas isso não vem ao caso agora. O importante é que o jovem estava curado, não guardara memórias sobre o que havia acontecido, seus entes estavam agradecidos por sua cura e meu amor, bom, meu amor não se importou em como eu estaria naquele momento. A vingança havia sido concretizada, ainda que não pedida e assim eu me acalmei um pouco, o suficiente apenas para poder chegar em casa e terminar minha noite.





"Ama-se a vitória difícil, porque a derrota lhe preenchia quase todo o espaço possível. E foi com o que restava que se venceu em todo ele." Vergílio Ferreira
"Em uma grande vitória, o que existe de melhor, é que ela tira do vencedor o receio de uma derrota." Friedrich Nietzsche


4.16.2013

Pequena dissertação acerca do erro cometido hoje


Como homem eu sou um tolo, débil, incapaz. Declino perante leviandades e me excitam, paradoxalmente, situações constrangedoras. Não basta ser rico, poderoso, belo e indiferente. Preciso testar estas condições no cotidiano. Não me oculto mais, mantenho-me aos holofotes. Parece que para cada esperança que acorda comigo, já é criada uma desesperança que se alimenta com o mesmo ardor inicial. É quase que uma descriação para as minhas criações, como um pássaro que nasce sabendo que será devorado por um gato, todos os dias, sem sequer ter a chance de escapar.

É como me sinto, invariavelmente, quando caio em armadilhas que já nasceram fragilizadas. Para mim, não para os meus captores. Pego-me pensando se Van Gogh, Rimbaud, Baudelaire, Poe, Doyle... Todos estes sofreram dos mesmos augúrios. Einstein. Sei que Shaw era indiferente o bastante para se manter por sobre todas estas frivolidades, assim como Wilde. Pensara eu ser indiferente o suficiente tendo aprendido com os mestres. Hoje vejo que não. Basta um olhar que meu senso de übermenschz aflore e desencadeie em mim uma necessidade de ajudar o 'próximo' - entre aspas porque não existe próximo a mim, excetuando a Morte. Basta uma pequena interferência que eu já me considero o protetor dos fracos, o herói singular de contos de fadas, o presunçoso capitão-qualquer-coisa que existe somente para determinar a justiça e aplicá-la aos merecedores. Uma besteira sem-fim, eu reconheço. Reconheço que não sou o herói nem o quero ser. Faço o que faço visando meu próprio benefício e ainda assim não o tenho. Nunca fiz nada pelo Bem Maior ou pela Felicidade Coletiva, não sou o Mister Mundo que almeja a paz mundial, não sou o estereótipo do SuperMan. 
Fui à floresta porque queria viver de verdade.
Eu queria viver profundamente e tirar toda a essência da vida.
Fazer apodrecer tudo que não era e vida, e não, quando eu morrer descobrir que não vivi.
Thoreau
Eu sou o anti-herói, o corrupto, o corruptor, o sujo, pérfido, macabro, leviano, escuro. E como isso me fascina! Sentir o medo que refrigera a alma dos que estão em meus caminhos. Não sou um anjo e sim aquele que se diverte arrancando suas asas, pelo simples prazer de vê-los incendiando e repudiando seu próprio criador. Sou antigo, vivi no aterro do mundo apenas esperando para emergir. Sou tudo isso mas ainda sofro por pequenas maledicências em que me coloco envolvido. Vejo minha vida com dois rumos, seguindo a Mão Esquerda dos deuses quando estou consciente e paralelamente, afilando minhas espada dourada e contemplando minha coroa de cristal, cedidas pelo deus-uno quando me lançou nesta maldição de mundo. Talvez esta seja a recompensa sombria dele, me ver dividido. Como que com um dos olhos furados, na dúvida sobre qual caminho escolher.

Homens pequenos, sentimentos pequenos, ocasiões pequenas. Tudo isso me estrangula a intensidade. Porque de todo o sempre esperarei recompensa pelo que faço e pelo que sou, e preciso que seja da forma que eu espero. Quero ser pago com sexo, amor puro, impuro, medo, respeito, vingança, ódio, temor, matança. Só não me permito ser recompensado com indiferença pois esta era justamente minha arma inicial.

Deixei de ser indiferente no momento que optei descer e viver aqui, mas, mesmo assim, prossigo. Nada é valioso o bastante pra mim, nem as poesias de Thoreau, nem as prosas de Henley, nem sequer os ensinamentos do Pentateuco Moshía. Nem a sangria que já me encheu a boca, nem os corpos que se deitaram em minha cama ou comigo - dos mais violentos ao mais recluso deles. Nem mesmo o dinheiro ou o que ele me compra. O conhecimento do passado, presente e futuro além das coisas da vida. Nem a aptidão inata, nem a pluriciência. NADA. Nada mais me causa algum tipo de fascinação atrevida, apenas desencanto e desilusão - todos iniciados por uma decisão minha. Nenhum homem me merece mais, nenhuma mulher, nenhum demônio. Nem me apetece estar para com eles. Da minha Fortaleza Abandonada da Solidão eu vejo o mundo e prevejo onde irá parar, mas sem me atrever a descer e acidentalmente causar uma ruptura nesta concepção de papelão.

Tudo começa em mim mas nada termina. Não estou aqui quando penso que estou, nem estou em qualquer lugar. Escrevo sobre mortes porque as desejo e decerto as conseguirei, nem que custe, uma vida. Tenho muitas e isso é meu bem e meu mal. Tenho todo o tempo do mundo e não preciso de absolutamente nada, o que significa que, não queira ser surpreendido algum dia, por alguém... Imploro por esta surpresa.


"Somos todos geniais. Mas se você passar a vida julgando um peixe pela sua capacidade de subir em árvores, ele passará a vida inteira acreditando ser estúpido." Einstein.

3.21.2013

Necessidades descritivas


Tenho pensado nas coisas da vida e como acontecem para conosco. Palavras, ações, cada ato julgado, cada atenção refletida e o que pensamos estar sob nosso controle, acabamos, deixando no controle de outrem. Estas mesmas ações são atuadas, previstas, criadas para nosso afeto mas podem ser tanto destruídas como aplaudidas.

Talvez nada faça mais jus à misantropia do que a extrema necessidade de ser aceito.

O que acontecera há alguns dias foi apenas a comprovação do que eu precisava para reforçar minha necessidade de escrever: atenho-me aos fatos:

1. Há alguns meses, mais especificamente na véspera do meu aniversário há dois anos, conheci pessoalmente um certo jovem que vinha trocando correspondência eletrônica e telefonemas. Já nos conhecíamos há talvez três ou quatro semanas antes quando arquitetamos o plano de nos encontrarmos. Um desconhecido, que atiçava minha necessidade de comprovar a intensidade do meu próprio relacionamento - é, eu sei, pode parecer traição, mas o que será contado é apenas parte do que aconteceu e não, não houve traição física neste encontro. Apenas dois homens bebendo bebidas alcólicas durante toda uma noite em um posto de gasolina. Ele tinha namorada - isso, namorada - mas se sentia inclinado à relacionamentos com outros homens. Tudo isso eu sabia pois fizemos questão de sermos sinceros um para com o outro, na maioria dos fatos. Em resumo, passamos a noite juntos conversando e acabamos trocando opiniões um acerca do outro. Muito ele falara sobre mim: minha beleza, minha intelectualidade, minha intangível personalidade, minha estranheza para com a noite e com as bebidas (eu não consigo inebriar-me, de maneira alguma) e, por fim, minha atenção aos escritos. O que eu gosto de deixar registrado para o mundo. Tentei explicar a ele sobre a incongruência do que escrevo-penso-exponho mas acho que ele não compreendeu pois sua frase - a que ficou marcada e dá título a este devaneio - foi "se você escreve para si, não seria melhor um diário? Por que compartilhar suas pessoalidades se não há interesse de mais ninguém a não ser o seu próprio. Não acredito que você viva num ostracismo tal que precise relatar sua 'viagem' por este mundo estranho". Neste momento, pensei em muitos amigos que já se foram e nos que ainda tenho. Amigos, não colegas ou conhecidos, e o quanto isso afetaria a eles tanto quanto a mim. Pensei em Hemingway e sua necessidade constante de descrever todas as minúcias de tudo que havia; pensei em Agnes e sua intelectualidade religiosa dada a explicar o deus-uno sob todas as suas formas; pensei em Aristóteles e suas evidências da presença da Constância Adquirida; pensei em amigos menos famosos que portam algumas doenças peculiares como a Esclerodermia Sistêmica[1], a Cinestesia[2]; pensei nos amigos que não podem ver, ouvir, falar; por fim pensei nos que não aprenderem o rebusco e o requinte que há na poesia e na prosa antiga. Pensei no que eles perderiam se eu me mantivesse a guardar tudo o que vejo, sinto e descrevo apenas para mim. Percebi que um completo desconhecido pode julgar com a mesma facilidade com que se entregaria. O mais fascinante foi que o mesmo jovem, ao decorrer da noite, se disse maravilhado com minha forma de expressão que definia seus sentimentos melhor que ele mesmo poderia se definir e encontramo-nos numa Teia. Ele repreendera meu estilo e, posteriormente, me elogiara pelas descrições. Paradoxalmente excitante!

Falei um pouco da nossa situação na época, antevendo, justamente o que queria para que, dado ele ao julgamento e tendo sido contada parte da história inicial, como poderia ele julgar algo? Bem, finalizando (por que quando começo, termino), nos despedimos naquela manhã e nunca mais nos vimos.

2. Mais recentemente, um pequeno desentendimento me fez voltar à esta tecla: descrições. Por que, segundo dados levantados, me excedo em descrições? Acaso as pessoas já não sabem o gosto da pêra sem que que eu conte como são arenosas, adstringentes, suculentas e com um aroma que lembra a infância coletiva?

Em meus contos, faço questão de detalhes. Por quê? Porque não escrevo somente para mim e sim para todo aquele que vier? Porque de uma forma grotesca preciso mostrar minha visão do que descrevo? Porque simplesmente não sinto as coisas tais como são? Serei eu uma vítima destas mesmas doenças que meus amigos sofreram? (Fato que uma comorbidade me assola e está descrita inclusive, uma visual, que até então só causa-me mais embaraço estético do que realmente afeta minha concepção do mundo e/ou reduziria minha acuidade visual).

Até então, quando digo contos digo toda e qualquer literatura que exponho porque me escondo atrás e através do que escrevo - é minha Zona de Conforto como diriam. Revelo o que sou e o que fui pelo que escrevo. Porque deveria me sentir culpado então se dissesse como era ardente o odor da antiga Roma na época em que eu vivia por lá, oculto? Porque não seria interessante, para os que não tiveram a mesma experiência, saber como é adormecer sob a terra nevada de uma montanha? Ou - aqui seria rotulado como pedante - mostrar como o amor e outros sentimentos podem fazer nosso coração estalar pela simples presença do ser amado? Minúcias são minha forma de ver o mundo, talvez seja minha forma de compensar aqueles que não podem, por um motivo ou outro.
"Use os olhos como se fosse ficar cego amanhã. (...) Escute a música das vozes, o canto dos pássaros, as poderosas notas de uma orquestra, como se amanhã fosse ficar surdo. Toque cada objeto como se o sentido do tato fosse lhe faltar amanhã. Sinta o aroma das flores e o sabor de cada bocado de comida como se amanhã já não pudesse cheirar nem sentir o gosto de nada."[3]
Bertil Nilsson from site homotography.blogspot.com

O que persisto é, imponderavelmente, desnecessário e por isso volto a escrever. À minha maneira, não importa o que pensam os outros a respeito da minha escrita porque, hora ou outra, alguém vai se encontrar no mesmo sentimento que eu e então para este eu fiz uma ligeira diferença dos outros. Resiliência, eis o segredo!

[1] Esclerodermia sistêmica é uma patologia reumática onde o acometido possui uma degeneração gradativa exponencial das sensações do tato. Logo, a pele vai se tornando mais rija, insensível e não incomum é surgirem áreas grossas, com alta densidade de epitélio, similares à constituição de minerais. Leva também o paciente à tetraplegia flácida - impossibilidade de locomover qualquer dos membros. Geralmente, letal. 
[2] Cinestesia, geralmente em crises e raramente como uma condição constante, é um reflexo do cérebro quando 'troca' as informações organolépticas por algum ruído neurossinápticotransmissor. O paciente é afetado por uma sensação de desequilíbrio e sentidos alterados. Literalmente, começa a enxergar com o olfato, ver os sons, sentir na pele os odores. Não letal. 
[3] Hellen Keller - ativista americana cega, surda e muda. 

11.10.2012

Qualquer explicação plausível seria eufemismo, um pesar de eufemismos


Um certo dia, na data específica das minhas Bodas de Cera, eu conheci outro homem. Marquei com ele numa praça qualquer de algum lugar qualquer e nos encontramos. Ele era lindo e exalava Luxúria, quase como eu. Fomos para uma destas casas em que se alugam quartos para usá-los com fins sexuais, qualquer, e lá passamos a Noite consumando. Não foi tão bom, admito.

Outras noites vieram depois destas, uma melhor do que a outra. Meu coração e minha alma se renderam.

Um dia, um hoje qualquer, eu li algo que não devia em algum lugar, qualquer, me desesperei, enlouqueci, enfureci-me, fui até ele e abri sua cabeça com minhas próprias mãos. Mas não antes de deixa-lo exangue, mutilado e profundamente queimado com as brasas que saiam de meus olhos.

Enfim, eu tive paz. E não tive medo de punições, meu orgulho me impelira a isso. Eu sou Legião, Comando mais do que o próprio Lúcifer pois os que estão comigo estão sempre.



Finitun.


6.08.2012

Caprice e a Felicidade das Fadas, enquanto eu choro


Posto-me a esconder lágrimas de sangue que comprovam a necessidade de Ser, Ter, Estar. Sem destino provável, sem músicas esféricas quando nos virmos, sem mais Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry e suas cativantes frases feitas que fariam Winston Churchill se sentir enojado.


Sem mais encontros, sem mais dedicação, sem mais curtas mensagens, sem mais promessas, sem mais desejos, sem mais amor. Sem ti.

Congelo em noites de Lua clara, como ontem, ao passar por toda ela a pensar no que perdemos juntos. O sono que já era pouco, se fora por completo - não há mais graça dormir acorrentado a pesadelos da sua partida. Ouço Caprice e lamento, as fadas parecem tão mais felizes agora. Saltatio Lors Fatium Lorem Exit.

É incontestável que eu o amo, ainda, e que a melhor e maior de todas as suas mentiras foi corresponder a este amor. Converto palavras, parábolas bíblicas para o teu nome em busca de algum tipo de satisfação blasfema.

Novamente sinto-me como a ave ferida, sem consolo. Oh! Aos que mantém amores e admorii, fujam enquanto há tempo pois se ao final de tudo vós ainda permanecerdes neste controle, ai de ti que amou ou achou que amara pois ai de mi, meio-homem inteiro, ao experimentar esta nova forma dolor de exílio. Era feliz enquanto havia ti, sou murcho sem ti. Tento não fazer disto algo corrompível mas a sanidade me deixa à mercê. Faze-me empírico do que já houve amor, faze-me. Apague de mim o emet e torna-me barro outra vez. Vazio estou, mais ainda do que sempre fora. O que muda agora é que não há sequer vontade.

Porque de todas as raças que vivem pouco, sofre-se também pouco? Será sinônimo de imortalidade a eterna tristeza e a sempre sofrível perda? A borboleta poderia amar, sabendo que viveria somente por um dia? Valeria amar? Porque de todos, os que vi nascer e vi partir, somente eu sofro mais? É a minha força que me torna mais fraco? É meu desespero, meu medo de viver sozinho e minha aparente indiferença aos outros - que não ao meu próprio amor encarnado - que me torna excluído? Todos os que já mentiram para mim, mentiram que me amaram. Eu nunca menti.

Mesmo na minha Quinta Abdicação eu sofro, depois de Quatro. Sinto falta de quando ainda era Enoch.



"De Dezoito em Oito, Mil cairão. Comigo mais Quatro. Sozinho de mim mesmo"



1.17.2012

Ódio, em sua forma pura e decantada mil vezes



Escrito de uma alma amargurada, aproximadamente às 13 horas do dia de hoje, enquanto folheava sua vida abaixo de uma árvore que desconhece o nome:



Chega.

Não adianta me submeter à humanidade em meus caprichos, agora estão querendo me subjugar. É o maior extremo do impossível que posso aceitar. É infundado, desconexo, surreal e absolutamente improvável.

Minha cabeça estará sangrenta e estará erguida. Não há volta provável ou algo que ma faça pecar mais contra mim mesmo.

O ódio transborda pelos meus poros, antes angélico agora iconoclastas. Minha língua enrola na boca e desenrola maldições imperdoáveis em idiomas antigos, contra aqueles que pensam poder me dominar.

Estes vis abutres humanos, imprestáveis, fracos, levianos, libertinos e limitados. Não conhecem do seu próprio mundo um décimo e se julgam donos. Débeis que são consideram-se a melhor raça porque um deus obsoleto os disse isso.

Mil trovões rasguem o céu agora e despejem minha cólera, para que este mundo continue intacto. Ou com uma palavra Emet eu o deixarei maculado.

Há um inferno em mim agora, corroendo minha mente e minhas palavras. Sinto-me dominado por algo que conheço e que sempre quis evitar. Meu coração agora morto, palpita enquanto meus olhos tremem de fúria simples e generalizada contra nove décimos da humanidade. Minha boca quer sangue mas se contentará com o meu próprio, já tendo devorado metade de minha própria língua. Não há retorno. Não há sanidade neste mundo que cure que quer que seja.

Foco-me no mundo abstrato desconhecido de minha alma impermeável. Meu cálice reverbera anunciando a missão derradeira. O cosmos acabara e eu nunca descobrirei o desejo.

Odeio simples e unicamente esta mediocridade humana que me força agora a cuspir veneno e viver como um errante sem dono. Meu amor me deixa. A vida nem deixa e somente assim me livrarei deste ódio que me dilacera por não poder destilar apenas em amargura.

Não há uma visão turva quando se odeia, há apenas a vermelhidão. Sempre fui acostumando à ela.

Feito.

4.16.2011

Exceções necessárias

No momento, ignoro a Fera e passo a ser o homem que a comporta, agora, a falar.

Excepcionalmente hoje, eu sinto sua ausência. Todos o que aqui estiveram souberam como permanecer, de um jeito ou de outro e justo aquele que mais está próximo é o mais tolo a ponto de se deixar esquecer. Conflitante, principalmente, pois se busca um abraço sempre quando precisa. Como é volátil este sentimento, como é ínfimo se comparado com as próprias necessidades. Nunca esquecem deles mesmos mas esquecem de mim, não me alimentam e ainda parecem escarnecer disso. Não admito ser deixado às margens. Não mais. Perdurei muito tempo não podendo assumir por completo um amor e agora, passado todo este tempo, não voltarei atrás e te ensinarei como se faz. Não tenho tempo para pegar sua mão e trazer comigo. Na verdade, não quero isso. Este, meus amigos inexistentes e descartáveis, é o desabafo de um homem ferido.