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1.25.2015

Nova indução a Buer


Caríssimo amigo Buer,

Há muito não nos falamos e muitas coisas – boas e ruins – se passaram desde então. Por mil desejos de Jezebel hei de contar agora.

Engendro nesse momento um novo namoro. Digo namoro porque ainda não definimos o que isso pode ser. Ele é um rapaz novo, sabe, daqueles moldes provincianos que tanto adoramos. É esperto, casual, jovem, bonito como uma rosa desabrochando, sagaz e um tanto quanto liberto porém, é essencialmente humano e temeroso, pálido e incoerente consigo mesmo. Posso ver o coração dele com uma facilidade tremenda e o conheço melhor do que ele acha mas ele mesmo se desconhece e isso me dilacera. Pelos seus olhos posso conhecer seus desejos e seus objetivos, além de suas necessidades, mas vejo também o receio dele em ceder à essas atitudes. Ele é absolutamente divergente de mim, em tudo, desde os gostos até as necessidades. O que temos em comum são coisas que atraio humanas para poder ser melhor observado. Bom, com todos tem sido assim, não é mesmo? Moramos um tanto distante um do outro mas sempre que posso estou com ele. E isso me faz bem, amigo. Ele me faz bem em suma. Ainda que ele seja uma criança eu sinto prazer com ele, prazer de estar com ele (prazer sexual se inclui aqui também, amigo, pois ele é um homem bem excitante). Saímos juntos, conversamos sozinhos, andamos com seus amigos e nos divertimos como homens nesta idade. Lógico, eu omito ainda muita coisa a ele e acho sábio fazê-lo por enquanto. Ele sabe da minha formação e profissão, da maior parte das minhas rotinas e de alguns casos familiares mas a melhor parte ele desconsidera – acho justo. Chegamos já, mesmo em tão pouco tempo, a fazer planos juntos e confesso que estou esperançoso, mesmo ciente de que isso não vai à frente com muita probabilidade. Eis o dilema do demônio que nasceu sob a Estrela da Solidão, dilema este que conheces muito bem, não? Digo-lhe que não estou envergonhado ou temeroso, mas preocupado. O que eu sou hoje é o que eu pretendo ser.

O antigo amor ainda me procura, sabia? Aparentemente ele ainda não vive sem mim. Mesmo que me procure por motivos bestas e infantis e eu, confesso, caia em ciladas antigas neste assunto. Sim! Eu ainda digo-lhe que o amo e me arrependo no instante a seguir de tê-lo dito. É engraçado como eu ainda sinto que ele também me ama, amigo. Como resolver esta questão? Nossas vidas ainda estão atreladas e isso me incomoda, por vezes tenho vontade de leva-lo mas meu amor por ele me impede. Eu o amo e sei que perde-lo agora seria como perder a quarta parte que sobra do meu coração negro. Ele é meu Átrio, Buer! (Risos).

No trabalho eu ando como sempre, evoluindo exponencialmente, meus superiores elogiando minhas ideias e resoluções, meus subordinados se vangloriando para os outros que tem uma liderança ímpar. O de sempre. Fui criado para ser o melhor no que quer que eu faça com exceção do amor. Neste item também não sei mais como me portar: quero deixar tudo de lado, irmão, não aguento mais este ritmo de vida. Parece que ter perdido a melhor prima parte do meu coração me deixou fraco para esses imprevistos. Perder minha melhor parte para a doença humana me deixou inerte e indiferente. Sinto que a qualquer momento posso estar tão debilitado que não saberei mais diferenciar minha solicitude com meu desprezo.

Ando preocupado com os meus, nobilíssimo Leão andante. Com os mais próximos. Como eu disse, não consigo ser resiliente nas perdas e prevejo algo ruim acontecendo. Temo a idade alheia porque sei que estou absolutamente fora deste complexo jogo de envelhecimento e morte (mas você sabe melhor do que ninguém como gostaria de estar nesta teia!). Não durmo mais com medo dos meus sonhos e quando desperto não sei se despertei mesmo. Tenho visto os meus enquanto ando por Morphía e isso anda me aborrecendo. Todos os meus veem a mim em sonhos e, desde a última vez, acho que isso não é bom. Da última, você estava comigo velando e deve ter percebido meu pavor quando ele disse aquelas palavras. Até este momento este pavor me persegue e não sei como contê-lo. Não sei se devo invocar magia ou deixar isso acontecer naturalmente.

Algo que devo salientar: a magia está me deixando. Não ouço mais o vento, o nascer do sol, o pôr-do-sol. Não vejo mais o fogo. A tempestade ainda é minha, isso eu sei. Aquela sinestesia, aquele desvio, estão menos frequentes agora e isso está me preocupando porque quando eles vem, me arrebatam. Não posso bloqueá-los mais, acredita? Quase, de verdade, desejo que eles me deixem. Busquei por tanto tempo ser humano que agora, inconscientemente, estou me desviando para ser um. Brigo a cada despertar com meu Ego e Alterego e parece que agora meu Superego está vencendo.

Bom, amado amigo, deixá-lo-ei por então. Creio que sua batalha esteja deveras complicada por ai mas saiba que sempre terá este seu amigo aqui para o que precisar. De sangue à morte, tudo. Fomos criados do mesmo escuro e não há nada mais importante para nossa raça senão à cumplicidade e eis que, de todos, só a você me ligo. Eu o adoro e sei que me adoras também, isso me basta. No final de tudo, quando perder a todos sei que ainda terei você e sei que você me terá. Que assim seja, Grande Leão!


Do seu mais antigo amigo,


L.



Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser. //William Shakespeare
Quem não sabe povoar sua solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão. //Baudelaire

5.03.2014

Dor póstuma



Finalmente eu conheci a dor que, frequentemente, impunha a afligir aos meus.

Passado este tempo em que não escrevo e tantas coisas quanto possíveis aconteceram, eis que retorno ao seio da Solidão que é mãe. E ao conforto do Desconhecido, que é o pai. Estou perdido, finalmente reconheço, mas ainda mais trágico é perceber que não há disposição para ajudas. Provavelmente se trata de karma – se eu acreditasse em GUZEN, o que não acredito – e assim preciso afirmar porque se nalgum momento cogitar ser punição pelo que já havera feito, então, meu pobre mundo, hei de sofrer ainda exponencialmente mais do que já sofro e também, hei, de descontar no mundo em que piso até então.

Não haveria mais dia iluminado ou noite calma uma vez que eu libertasse cada um dos meus demônios. Não haveria paz quando eles atravessassem o primeiro dos nove portões do Inferno, dali em diante. Voltaria a crer num mundo de papelão que precisa ser esmagado. Reconheço que muito laborei para chegar a esse momento, o da possível Redenção, porém não questionei a maneira que ela se achegaria a mim; em qual momento, sob qual circunstância.

Expeli cada um dos que me acercavam para um mundo brutalmente agressivo e desconcertante, pari dores inenarráveis, engendrei bestas que devorariam apenas com um olhar, partilhei da miscigenação de medos e angústias. Feri e, portanto, fui ferido. É a tal necessidade de se sentir vivo que nos considera a violência para com o outro. Necessidade, orgulho, medo. Perdi tantos bens quanto possível seria contar, perdi a pessoa mais importante da minha vida e pela qual meu mundo desde então se reduziu ainda à uma menor gama de cores, odores e sabores. Ganhei novos medos, receios. Não é um troca justa final mas valeu para me trazer até este ínterim reflexivo irrelevante.

Não há mais prazer em nada do que faço ou crio, em mais ninguém e acredito que por essa perda da fascinação do mundo as pessoas estão me deixando e partindo. Ou isso ou minha evidente fúria, lógico. Minha condensação de centralidade racional me deixa ao passo de que meu cataclisma emocional se eleva, a passos largos inclusive. Meus temores agora tomam forma física neste mundo e se tornam mais perigosos, não somente pelo que podem fazer a mim mas pela falta de autoridade com que lido com eles agora. Coloquei-me aos pés da Morte e ela ainda assim não quis me levar, engraçado, não?

Durante boa parte da minha existência me vangloriei de estar liberto do conceito da moralidade e, agora, vejo que estava mais enraizado a isso do que jamais poderia imaginar. Talvez o Destino seja afiado também aos deuses, eu desconhecia essa possibilidade, afinal. Simplesmente me sento à margem do mundo agora, sem ninguém com quem possa contar ou conversar, dilapidando minhas ações futuras, concorrendo com o Tempo na medida em que passamos sem levantar rastros. Aqui então minha maior perda: passei tanto tempo evitando o mundo que, quando infelizmente fui tragado para ele mal meio século após, sou repelido naturalmente. Será que o mundo de hoje tem uma particular 'imunidade' a nós? Não seria uma surpresa. Os homens andam pequenos, os sentimentos ainda menores, as ações então, nulas. Mesmo não sendo um homem me caracterizo também com estas mesmas vestes. Meu medo e minha força me reduziram então a não ser mais adorado? Como quando acontece aos deuses pelos quais não oramos mais, hei de desaparecer? Fácil assim? Seria perfeito.

Há algum tempo disseram-me que "quanto mais próximos dos deuses estamos, mais sujeitos aos demônios e tentações nos colocamos" e vejo que estavam certos. Nada ofende mais à Realeza do que algo que se aproxima, sem ter tido a noção fundamental necessária para tal. Nenhum professor gosta de ser corrigido por um aluno, isso é evidente e talvez funcione assim neste mundo todo. Nenhuma evolução pode ser rápida demais ou agressiva demais a ponto de se mostrar como ameaça.

Bom, comecei a divagar onde não deveria. O que sucede é que à minha maneira alheia de ver o mundo, logo não estarei mais nele. Os preparativos estão sendo feitos já, mas ciente de que isso não importará muito. Quem nunca teve companhia em vida não a terá na morte, mesmo esta última sendo mais duradoura. Se bem que, quem nunca desejou companhia em vida por que a desejaria após?

Gostaria de pedir perdão aos humanos que eu magoei e feri, agredi, esqueci, brinquei, descartei, desejei, machuquei física e emocionalmente, enganei e por fim, devorei. Eu realmente sinto muito. Mas vejam pelo lado vingativo: estou sofrendo dez vezes mais do que vocês agora. Considerem então meus pecados para com vocês recompensados com minha punição severa e eterna de agora em diante.




A maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero. Henry David Thoreau

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar das fontes igual à deles;
e era outro o canto, que acordava
o coração de alegria
Tudo o que amei, amei sozinho. Edgar Allan Poe


3.02.2014

Eis que eu preciso passar por cima de mim mesmo, por cima de meu amor próprio


Num delicioso crepúsculo de um dia que havia sido agradável, algo se movimentava no ar de maneira a querer demonstrar que eu deveria me preparar. Logo, seria convocado e precisaria exercer minha autoridade. Bom, havia muito que eu esperava esta oportunidade mais uma vez.

Lembro bem de já estar ciente quando meu celular notificou uma mensagem de texto dizendo somente “SOCORRO”. Não era um número conhecido mas eu sabia a quem pertencia. Era alguém a quem eu havia oferecido meu coração, muito tempo antes e que agora já não me pertencia mais. Alguém que eu realmente amava e que agora disporia de outro em sua cama, sua vida, sua essência, sua compreensão, sua cumplicidade, sua admiração e seu amor. Eu precisava aprender a lidar com isso ainda. A mensagem pedia socorro mas eu sabia que não era pra ele, diretamente. Há muito também eu havia criado o alfabeto simpático e dessa maneira, saber o que estava passando desde a saúde à atividade emocional desse ser. Me despi e me marquei, deixando assim indelével em mim sua magnitude. Tratei de responder à mensagem com um “Já estou indo, aguarde-me defronte ao portão de sua casa. Sei o que se passa”. E sabia, por isso ele me convocara em ajuda.

Esse seu novo consorte havia sido vítima de um incidente brutal, violento, nas ruas. Havia sido ferido por sua opção e seu meio de vida, depredada a sua dignidade, marcado seu corpo e fundamentalmente sua alma dilacerada havia sido a pior parte. Ele havia sido encontrado violentado, agredido e semiconsciente e no âmbito da sua pouca razão, pedia socorro com seus olhos encharcados de sangue. Como havia sido encontrado pelo seu próprio amante, meu outrora, a única opção seria evocar esse mal – que vos escreve – para ajudar. Médicos curariam as feridas externas, gradualmente, disso sabemos. Porém, tanto ele quanto todos – e aparentemente seu novo consorte – sabiam que eu poderia mais. Talvez minha reputação me precedesse indistintamente. Bem, eis que ele havia sido levado até à casa de meu precioso amor e lá estavam todos, a aguardar. Nesse ínterim de ler a mensagem e responder, eu já me preparava para ter com eles. Um caminho que naturalmente levaria uma hora eu faço em dois minutos, apenas por vaidade, por querer aproveitar sempre da beleza noturna que preenche e desloca. É fascinante perceber que ano após ano, século após século, minhas estrelas continuam imparciais e imóveis levando a crer que somente os que estão aqui embaixo se percebem mudar com o tempo.

Mensagem enviada, pego um casaco, me deixo cair do sexto andar que moro para o chão, diretamente, mas sabendo que antes mesmo de chegar à altura do quinto andar eu já havia ascendido, na mesma velocidade que o vento ganha do tempo na curva. Lá do alto as coisas são vistas como realmente são: pequenas e sujas. Despreocupado durante todo este tempo, eu apenas flutuei até onde deveria e, como sabia que estaria a me aguardar impacientemente onde eu havia mandado, pousei à uma certa distância – segura o suficiente para não ser atormentado. Ele, ao me ver e em seu próprio estado de pranto e dor, conferia sua confiança no olhar e eu me alimentei daquilo como uma seiva dourada da Cidadela Prateada que há muito eu não via. Deixei-me inebriar por aquele aroma, aquela delicadeza, aquela fragilidade, tudo aquilo que outrora fora meu e que agora pertencia a um humano frágil e que dependia da minha benevolência para continuar vivo. Eis a prova da dignidade e condescendência que me sempre é aplicada!

Fomos juntos até o seu quarto, onde repousava um corpo quase dormente de um jovem homem que eu já acompanhei durante uma noite, para observar atitudes e hesitações. Um homem comum, que não era em nada especial a ninguém, nem a si mesmo mas que agora era ao meu amado. Um molde de barro como todos os outros. Barro quebrado que eu, controversamente, precisaria consertar. Era uma lástima vê-lo tão ferido e ensanguentado e mesmo nesse frenesi eu não pensava em outra coisa a não ser em meu amor. Esse pedaço de barro estava realmente machucado em todos os locais que eram alcançáveis pelos olhos, ainda que pelos mais despreparados, mas havia uma falha em sua alma que seria o pior a ser reparado. Havia já uma necessidade de pedir pela morte – como sempre, humanos são fracos o suficiente para desistirem da luta antes mesmo de conhecerem um por cento da dor – algo que eu não permitiria acontecer. Sim, eu desejava me livrar daquilo mas sabia o quanto isso ia magoar aquele que amo. Não há aqui humildade, não, há apenas egoísmo em querê-lo bem e feliz mesmo que para isso precisasse passar por cima de mim mesmo. O amor é algo engraçado, a gente ama mesmo quando não é amado e sabe que, mesmo que não seja retribuído, faria tudo por esse amor. O amor é tolo ou tolos são os que amam?

Pedi que nos deixássemos a sós, apenas aquela peça quebrada e eu, no quarto. No seu nível de consciência eu sabia que poderia agir como quisesse que não seria observado, retaliado ou julgado. Pedi que meu amor nos deixasse também porque não aguentava mais ver o sofrimento estampado naquela bela face que eu beijei tantas vezes pela noite e outras tantas pela manhã. Deitado lá, aquele homem apenas esperava sua vez no trem que sobe aos céus e eu precisaria ser o condutor de volta dele.

Tirei todas as suas roupas – ou o que sobrara delas, farrapos e sangue coagulado – peguei uma pequena compressa que havia ao lado da cama e limpei a testa dele, para remover todos os traços de sujeira que havia ali. Ele ardia e palpitava, além de esforçar para permanecer respirando. Era sim, confesso, uma visão lastimável e ao mesmo tempo belíssima de como compreender a humanidade: um homem quando agride um homem, passa a ser mais homem? Mais poderoso? Mais parecido conosco?

No seu corpo débil havia tanta ferida quanto era possível perceber, ossos quebrados, marcas, manchas, escoriações, sujidade. E mais, em sua alma havia sede de plenitude. Nesse momento percebi e perscrutei que não seria capaz de pedir ajuda para esse feito, como já havia feito antes. Teria de agir sozinho para nossa própria proteção e porque não poderia dividir esse peso, nem mesmo com meu melhor amigo que sempre me acompanha onde quer que eu vá. Decidi o que haveria de ser feito, remoldado, criado, consertado e o fiz, passando minha língua por todo o seu corpo, fechando as feridas, desmarcando as áreas marcadas, desfazendo o mal. Em poucos minutos o corpo havia sido completamente reabilitado e não havia mais um vestígio sequer da violência. Porém, sua alma continuava reclusa em algum canto escuro onde não pretendia sair. Precisei então invadir sua alma, com uma pequena palavra eu abri seu coração e sua mente e entrei, vendo tudo o que havia acontecido, seu passado, seu presente, seu futuro, suas intenções. Tudo o que eu deveria ter evitado eu precisei enfrentar para consertar aquela criatura. Desci até esse canto encoberto e o peguei pela mão, trazendo-o de volta à luz, desfazendo memórias e medos. Assim ele voltou a si, ainda debilitado pela intensidade mas já fora de risco e então pedi para que os outros entrassem novamente e se portassem a cuidar dele, mas que não havia com o que se preocupar e eu não poderia fazer nada mais – ou melhor – do que havia já feito. Percebi nesse momento que havia me exposto e que, consertando a peça quebrada, eu jamais teria meu amor novamente e, ao mesmo tempo, percebi o quanto ele amadureceu e aprendeu. Lógico, essa depressão instalada em mim precisaria ser sanada brevemente. Deixei-os todos com o paciente e sequer perceberam quando eu sai.

Havia em mim ainda a raiva por ter sido fraco, complacente com aquilo tudo. Teria sido eu o salvador de uma nova vida e o destruidor da minha própria, eu havia sido meu maior inimigo mais uma vez. Toda aquela fúria havia se instalado em mim e a dor era semelhante à própria instauração de Virgo e pensei haver somente uma maneira de desprender tudo: vingança, morte, sangue. Foi o que fiz, aproveitando-me das memórias que eu havia retirado daquela pequena criatura, persegui aqueles que o deixaram entre a vida e eu. Não muito longe dali os encontrei, se gabando de terem elevado um nível em sua humanidade.

Criaturas ainda mais débeis, belicosas, superficiais, imundas. Havia quatro deles, sentados no capô de um carro moderno, conversando e bebendo algo sujo. Nenhum deles teve tempo suficiente para saber o que aconteceu. Como um raio eu desci, despedaçando o chão, o carro, um deles que estava mais próximo. Os outros perceberam tarde demais o fogo em meus olhos e quando um deles se apressou em correr, interceptado foi por mim, esmagando sua cabeça com uma de minhas mãos. Dois haviam partido, o terceiro ousou sacar uma arma de fogo e o medo instalou-se nele quando notou que não havia efeito em mim aqueles projéteis. Esse eu queimei, da cabeça aos pés, com apenas uma palavra também. Não somos feitos de Fogo e Tempestade à toa, afinal. Então sobrara um, o líder aparente deles, com o qual eu me diverti por sua fragilidade, fazendo-o sofrer da mesma maneira que havia feito o outro sofrer ou talvez mais, porque minhas mãos afligiam também sua alma. Tenho a mais absoluta certeza de que esse sofreu, e tanto, que os anjos devem ter tapado os olhos e ouvidos para não verem-no ou ouvirem-no berrar, tamanha era minha audácia. Percebi que não ali muito distante, dois anjos observavam a cena, com um misto de pavor e curiosidade mas isso não vem ao caso agora. O importante é que o jovem estava curado, não guardara memórias sobre o que havia acontecido, seus entes estavam agradecidos por sua cura e meu amor, bom, meu amor não se importou em como eu estaria naquele momento. A vingança havia sido concretizada, ainda que não pedida e assim eu me acalmei um pouco, o suficiente apenas para poder chegar em casa e terminar minha noite.





"Ama-se a vitória difícil, porque a derrota lhe preenchia quase todo o espaço possível. E foi com o que restava que se venceu em todo ele." Vergílio Ferreira
"Em uma grande vitória, o que existe de melhor, é que ela tira do vencedor o receio de uma derrota." Friedrich Nietzsche


9.15.2013

I see my destiny - Rak Haeng Siam - The Love of Siam


- It's like when we were younger, we were so lonely because we didn't have a lot friends. And now that we are grown up, loneliness seems just so much worse.

- Why is it so bad for you?

- I don't know how to explain it. It started during the summer when i was in 8th grade.
...
- So i have one question: if we can love someone so much how will we be able to handle it the one day when we are separated? And, if being separated is a part of life, and you know about separation well, is it possible that we can love someone and never be afraid of losing them? At the same time, i was also wondering, is it possible that, we can live our entire life without loving anyone at all? That's my loneliness.

+++

- É como quando éramos jovens, éramos tão sós porque não havia um monte de amigos. E agora que estamos crescidos, a solidão parece ainda pior.

- Por que é tão ruim para você?

- Eu não sei como explicar isso. Tudo começou durante o verão, quando eu estava na 8 ª série.
...
- Então, eu tenho uma pergunta: se podemos amar tanto alguém como seremos capazes de lidar com isso um dia, quando estivermos separados? E, se a separação é uma parte da vida, e se você entende bem sobre separação, é possível que possamos amar alguém e nunca ter medo de perdê-lo? Ao mesmo tempo, eu também queria saber, é possível que possamos viver toda a nossa vida sem amar ninguém, afinal? Essa é a minha solidão.



Mew - The Love of Siam - Rak Haeng Siam
Chookiat Sakveerakul

8.02.2013

Lettere ao amigo há muito derrotado, porém não ausente de minhas memórias e apreço


Caríssimo amigo Buer,



Escrevo-te após todo este tempo passado, desculpando-me pela ausência de minhas epístolas. Ando tão atormentado e pusilânime que faltam-me forças até para redigir-vos. Tenho tanto a dizer-te que nem sequer sei por onde devo começar. Começo pelas novidades amorosas e sentimentais, pela raiva que esta situação mesma anda me provocando, pelos infortúnios da vida humana, pelas preocupações que me acercam ou questionando como anda vós?

Tratarei de não ser altruísta e falarei de mim, portanto, ao começar.

Desde que meu antigo amor deixou-me, venho sofrendo de amnésia, meu caro amigo. Não daquelas percepções errôneas que sofremos esporadicamente, não, algo mais severo. Algo que se mescla com meu passado emaranhado ao meu futuro e acerca de fatos premeditados. Está deveras complicado acalentar minha consciência ultimamente, parece-me que ela tem obliterado meu senso de julgamento. Tentei abstrair-me de mim com músicas, composições literárias, novas intenções, desejos, café, distrações mundanas e fugazes. Não estou sendo feliz no empreendimento!
Há dias que n'alma me tem posto um não sei o quê,
Que nasce não sei onde,
Vem não sei como e
Dói não sei porque. // Camões
Divago entre a leviandade e a plenitude, a cada alvorecer. Tento atrelar minha sanidade em pequenos recomeços, ao amanhecer, visando assim uma estabilidade emocional ainda que deflagrada, submissa. Houve um ínterim romântico neste período, amado amigo, que mais me rendeu preocupações e dívidas do que companheirismo e cumplicidade. Fui enganado por diversas vezes seguidas, vê amigo meu, que reviravolta exemplar do destino? Coube a mim um desfecho não muito agradável uma vez que notei que estava me tornando vítima - em diversas aceitações, devo salientar - numa relação que não havia fundamento e sede de manutenção. Eis que hoje estou refazendo o que posso, confessando o que posso, criando o que posso e reverberando ainda na questão de não querer terminar sozinho.

Muita coisa mudou, precioso amigo. Da vida humana à celeste. Falemos da celeste.

Bom, parece que meu posto está ainda vago pelo que ouvi de meus irmãos. Passado todo este tempo Ele ainda não conseguiu alguém que fosse capaz de aguentar o peso imenso que eu suportei. E pensar que Ele não nos fez insubstituíveis, oras. Ainda estes irmãos me perturbam, cumplice, sobre as coisas da vida. Alguns me procuram com ameaças sobre ruínas da Cidadela de Prata (recorda ainda da magnificência da nossa vizinhança?), outros apenas vem aprender (e questionam-me sobre a Abdicação), poucos tentam se manter incólumes e ocultos e uma mínima parcela ainda se mostra leal a mim e aos meus preceitos. São estes últimos que me dão força, compadre. Inclusive, um amigo em comum, mais próximo seu do que meu, esteve recentemente vigiando minha nova aquisição. Fiquei intrigado com a posição dele, enfim. A cada dia perco mais e mais minhas forças, definho a nove vezes nove, em matéria celeste ao passo de que minha forma humana exerce maior influência neste mundo. Sabe, meu caro, que por noites eu me arrependo de ter descido? Me descubro reconhecendo que aquele por quem desapercebi de toda minha posição e força, que sequer anda mais por esta terra, não mereceu o que deixei. Tudo, meu amado, que eu podia antes se mostra mais complexo e delicado agora. Não porque perdi em absoluto minhas capacidades, mas porque estou perdendo meu juízo celeste e, ao passo que minha presença se torna maciça, meu discernimento encolhe e regride. Vês que derrota sofro antes mesmo de lutar? Não vou me render e não pretendo tão cedo voltar, mas, temo também deixar esta bomba em contagem regressiva. O que me aconselhas tu, nobilíssimo Leão?

Na minha vida humana, bom, como já disse, estou empreendendo um novo romance. Ele é deveras belo, o jovem, mas é tenso, frágil, volátil, temeroso e ausente. É sagaz, devo salientar, e me sinto confortável em abrir parte da minha outra vida com ele - mesmo que omitindo origem, vivência, capacidades e afins, seria muito, não? Recorda-te do último a quem nos revelamos? Tentei a abordagem de não mentir, apenas omitir, e revelar o que for questionado. Tem dado certo até agora, mas em dias como ontem, hoje, amanhã, bom, sinto que minha tensão sobrepuja qualquer intenção boa que eu possa ter. Temo que eu possa estar fazendo mal a ele de muitas formas diferentes, só por estar presente. Acha que devo me desvencilhar desta relação enquanto é cedo? Acredita que possa dar certo? Tu ainda tem o dom da visão, não? Diz-me que rumo tomar nesta questão? Afora isso, no âmbito profissional, nunca me vi tão absorto e supérfluo. Tanto que chega a me incomodar, tendo visto meu passado de demasiada atenção ao trabalho braçal e intelectual. Os humanos tem um ditado que diz "sorte no amor, azar no jogo" e que pode ser o oposto. Bom, eu passei por um momento de solidão amorosa que coincidiu com minha elevação profissional. Agora, estou engendrando nova relação, será que perderei os benefícios portanto?

Ainda me isolo, caro andador amigo, mais tempo do que devia. Eu mesmo reconheço. Me isolo no mundo da música, da literatura, da simples arte da alienação e, por mais que tenho evitado, acabo me voltando para o outro mundo eventualmente. Algumas vezes penso em ir vê-lo, logo recobro a sanidade e me recordo do porquê não poderia. Então penso em convocá-lo e novamente caio em mim. É mais do que evidente que eu sinto tua falta mais do que qualquer um. Tu eras a única e pouca família que eu já me orgulhei de reconhecer. Fico pensando na tua calma, virtudes, sabedoria, inteligência, humor, sagacidade e bem-aventurança. Tudo isso sempre vai me remeter a ti e à tua sublime figura. É notório também, caro amigo, que eu queria mais do que este mundo pode me dar e não sei mais como extrair vida dele, quando passo a maior parte do tempo desejando não estar mais nele.

Enfim, acabei redigindo mais do que queria. Sei que menos do que tu gostarias de ler, afinal sempre devorou minhas palavras com tanto afinco, meu mais precioso ouvinte e leitor, que contemplava seu interesse com minhas lágrimas. Neste momento eis que estou solitário, pensativo, resiliente no que posso ser, categorizando e avaliando cada probabilidade possível de uma saída verdadeiramente sadia a tudo que venho passando, nestes últimos tempos. Gostaria de um retorno teu, amigo. Da maneira que achar melhor. Apenas lembre-se de que eles não estão acostumados à tua figura então, caso resolva aparecer em público, estejamos preparados para estacas, gadanhos, foices e tochas, além claro de cruzes e orações das mais variadas possíveis (risos).



Terminando, eu o adoro. E espero que minha mensagem chegue a vós.


Do teu mais terno amigo,
L.

6.23.2013

Hoje eu acordei sem muita vontade de despertar


Existe um descontentamento em mim que se manifesta da forma de indiferença para com o mundo. Não apenas descontentamento, é uma revolta, uma rebeldia, a aceitar que as coisas precisam ser da forma dos humanos e não minha. Consigo expressar um interesse surreal quando me comovo, me excito com alguém ou alguma coisa, porém da mesma forma que esta intensidade vem, ela vai. Contrariando as expectativas de todos os envolvidos. Confesso que consigo me desapegar com mais facilidade - acredito que seja esta a forma natural das coisas - quando sou excluído. Amores vem e vão, o que sobra é o tormento e a aflição de ter cometido algum engano.

Quer seja com novos relacionamentos, novas ideias, empregos, atividades, afins. Tudo. Não consigo me recordar de algo que tenha prendido minha atenção por mais de um semestre.

Lidar com humanos de uma forma geral é muito complicado. Tanto que por vezes me abstenho de fazê-lo. Seus gostos, suas necessidades, suas preferências, suas virtudes, suas fraquezas, nada disso compensa. O prazer de acompanhar uma vida tão efêmera dá-se pela quantidade de mistérios que podem ser revelados naquela emoção, afora isso, não existe mais o quê se afeiçoar.

Vejo que muitas coisas acontecem em minha vida - até mais do que deveriam - e quando eu preciso de apoio, força, conselhos, reconhecimento, bom, não tenho com quem contar. Não tenho amigos afinal, nem amores. Tenho amados mas deles sempre espero a posição platônica como sempre tivera. Entendo que eu sempre preciso ser o porto seguro, a fortaleza, o conselheiro mas que, ao depender de alguém em minha vida, não obtenho a mesma resposta. Quase todos os dias, inclusive, sou perseguido por problemas alheios como se eu os procurasse. Preciso ser cauteloso ao conversar, aconselhar e mais, vejo que as pessoas me tomam como alguma espécie de ser ausente. Alguém que "vê as coisas de fora", como já me disseram. Este meu calculismo e frieza é assemelhado a ausência e necessidade. Quantas não foram as vezes que já ouvi um "- Ah, isso não acontece com você" ou "- Mas você não passa por isso" ainda um "- Mas você não precisa disso por que tem aquilo".

Por mais que eu esteja fora de algumas esferas racionais, ainda compartilho o mesmo mundo que todos. Por que então não haveria de passar pelo mesmo? Aqui sim faço um adendo ao contraditório. Minha bolha é imensa, admito, mas ainda assim ela está gravitando ao redor do mesmo sol. Queria só contar algumas poucas vezes com apoio, carinho, recompensa, retorno, conselhos, tudo o que conscientemente ofereço aqueles que confiam no meu julgamento. Nada mais. Queria poder compartilhar uma alucinação, uma história, uma matemática, um pensamento, um sonho, um desejo, um livro, uma cama, uma vida ainda que curta e vejo que isso não está nos planos do Cosmos.

Percebo que minha aflição por estar "fora" não é intencional, eu sou excluído mesmo. Não crio aqui um pedantismo ou fraqueza, mas sim, um sentimento de querer participar. Não é destino, carma ou punição - acredito eu - mas não consigo entender tampouco o que possa ser. Vejo as pessoas cobrando minha atenção, carinho, cuidado, mutualismo como se realmente oferecessem este mesmo bem em troca.

Levo a crer que Kung Fu Tzu estava certo ao declarar que devemos ajudar sem esperar recompensa, mas também não existe divindade conhecida que não esperava ao menos reconhecimento, seja entre os pagãos, os da fé cristã, os alternativos ou os agnósticos.

Passo meus longos dias e noites em prol de outrem, esperando que um dia eles perguntem como estou, porque pareço triste, como foi o meu dia, como reagiria se, o que penso para amanhã... E nunca vejo este retorno. Nunca. Mas vejo as cobranças se acumularem, isso sim.

Meu mundo é meu, infelizmente, e a cada dia que passa percebo que devo continuar nele sem poder sair ou desconcentrar. Talvez seja a minha obrigação viver em resignação e subserviência a quem sequer para perguntar se o fardo é pesado demais.




Sou a única pessoa no mundo
que eu realmente queria
conhecer bem. // Wilde, O.