8.15.2013

Acerca da mudez voluntária recente


Bem, não chega a ser algo digno de nota por enquanto, não até ser traçada uma meta a respeito do que pode ter sido relevante citar. É muito curto o espaço de tempo em que está sendo empregada, mas, como toda manifestação empírica deve se seguir, será comentada para incentivo pessoal de começo.

Há alguns dias, deparei-me com uma intercessão na vida em que, estagnado como estava nas questões intelectuais e oníricas, optei por ler. Li o que costumava ler quando mais jovem, HQs japonesas da minha história favorita. Encontrei um personagem que me fascinou deveras, assim como os anteriores a ele haviam me fascinado. Coloquei-me a recordar e a pensar. Na Índia, pela corrente do ascetismo - aquela na qual o senhor Buddha quase se perdeu antes de alcançar o Nirvana, quando jovem - diz-se que o Caminho da Salvação será encontrado ao deixar seu maior medo ou pecado, abstido, forma na qual, ao suplantar aquele desejo ou repulsa, será iluminado. Vimos então grandes mestres que pecaram pela gula, se sentando no meio da mata e padecendo de anorexia. Ou mestres que eram naturalmente belos e achavam isso como uma ostentação indesejosa, mergulhados em excrementos de animais, mutilações e lama. É uma corrente extremamente agressiva, sabemos, mas quando bem elaborada ainda parece justa aos moldes do século XXI.

Nesta história, conta-se que alguns guerreiros que seguem uma linha budista, se privam de um dos sentidos para conseguir concentrar sua energia. Um primeiro se privava da visão, um segundo era cego de nascença, um terceiro se privava dos movimentos de uma maneira geral. Um destes, mais antigos, se privava da fala. Achei deveras fascinante. Claro, sabemos que pelas suas respectivas magnitudes, eles se privavam dos sentidos organolépticos porém, pelo seu poder, conseguiam suplantar e substitui-los por algo mais intenso. Logo, era uma dualidade. Não tratarei desta questão. O que acontece é que eu realmente me impressionei e, como sempre, resolvi testar a lógica. Privar-me-ia da fala também ao máximo que pudesse.

Este guerreiros vivem num mundo infinitamente longe e diferente do meu (mesmo que vivam na minha terra de origem) então eu teria de maneirar onde poderia. Comecei traçando metas de como faria isso, depois, investi. Consegui proezas que antes supunha inimagináveis e me abstive da comunicação verbal por um dia inteiro. Por uma ironia do destino, acabei padecendo de uma anomalia fisiológica que, fatidicamente, deu-me um motivo para perdurar na abstenção do sentido. Parecia providencial!

Mais um dia inteiro sem sequer uma palavra falada. Logo mais um.

Infelizmente, não pude continuar na retidão absoluta das palavras, pela minha questão profissional e afim. O que me vale é que a técnica, antes impensada e até repudiada pelo que conhecia do ascetismo, valeu muito mais do que eu poderia imaginar. Tornei-me mais puro, mais seletivo nos pensamentos, menos disperso, mais intenso, mais íntegro, menos agressivo e rude, mais quieto e efetivamente um poder estranho nascia dentro de mim. Eu, pela minha origem, sou feito do Verbo que é criado e falado, logo, por esta essência, este empreendimento me pareceu uma deliciosa fuga e uma prazerosa maneira de me abster das origens.

Passado este tempo, ainda mantenho uma educação verbal. Esta experiência realmente me mudou. Tão logo eu possa, serei radical novamente e passarei dias a fio sem pronunciar uma palavra sequer. Quero ver até onde eu posso chegar na convicção e o quanto de poder eu posso acumular.

Shijima, Asmita e Shaka - Cavaleiros da Constelação Zodiacal de Virgem. O primeiro se absteve da fala, o segundo era cego de nascença e o terceiro se privou da visão.

8.14.2013

Novamente, ao meu amado


Caríssimo amigo,

Escrevo a ti novamente - vês em que curto espaço de tempo? - pois fatos significantes dão agora um novo rumo à minha tão inebriada vida. Mais uma vez, permita-me omitir o interesse acerca do que sucede com você, adorável e altruísta amigo.

Acontece que eu, em conversa com um outro colega antigo, aceitei uma proposta de cunho filantrópico: hei de cuidar e orientar a população carente de um pequeno município, a pedido do jovem padre que preside a paróquia daquela região. Cuidados básicos com a saúde, ensinamentos acerca de profilaxia, algumas aulas de epidemia e higiene, orientações à maternidade e o mais que eu puder ajudar. É uma troca, amado amigo, pelo que eu já recebi de boa vontade. Não da população, é claro, uma boa parte deles sequer conhece-me, mas pelo meu grande amigo que está lá em cima. Olhando por eles. Como eu disse a ti, Ele acaba agindo por formas misteriosas e num ímpeto de exaspero, parece-me que resolveu "usar" um dos seus para me coagir - da forma mais amorosa e humilde possível - a ajudar na sua empreitada. O que é bom. Bom para mim e bom para todos.

É uma metamorfose belíssima, meu caro, o que se vê diante os olhos até do mais incrédulo.

Na questão que havia citado anteriormente e na que mais me dá trabalho e recompensa, não houve mudança significativa. Passei por alguns momentos de tensão há algumas noites que acredito já terem sido esquecidas. Volto-me, no entanto, às memórias de todas as vezes que passei por momentos de tensão. Estamos absentes um do outro, durante este período, mais por intenção minha do que acredito ser possível. Eu quero decidir, amigo, mas temo. Temo porque pude contemplar o meu futuro e sei que no mais breve, não estarei aqui. E, não estando aqui, sei exatamente o que acontecerá. Porque, meu amigo, eu posso ver além de distâncias e corações e sei - mais sinto do que sei - que o coração que eu desejo está ainda desejando outro que se fora.

Toda a minha existência será envolvida em querer quem já tem um querido?

Desta vez não me demorarei, apenas queria colocá-lo a par do que está acontecendo. Há muito mais do que isso, mas recebi o seu recado e portanto, de uma maneira sucinta e breve, redigo o que acontece de mais relevante. Breve, serei mais detalhista e acrescentarei algo vital que não conto agora mas que você, por ter os olhos que tem, já sabe o que é. Por obséquio, não espalhe a boa nova e não se altere. Não posso permitir percalços neste momento.

Considere-se fraternalmente abraçado.


Do seu menos importante e mais dedicado amigo,
Eu.




Ps: soube que o senhor foi visto numa região da antiga Escandinávia, procede? Olha lá o que anda aprontando, jovem senhor.

8.10.2013

Numb - Sia


Numb
Sia


I saw you cry today
The pain may fill you
I saw you shy away
The pain will not kill you

You made me smile today
You spoke with many voices
We travelled miles today
Shared expressions voiceless

It has to end
Living in your head
Without anything to numb you
Living on the edge
Without anything to numb you

It has to end to begin

Began an end today
Gave and got given
You made a friend today
Kindred soul cracked spirit

It has to end to begin

Living in your head
Without anything to numb you
Living on the edge
Without anything to numb you

It had to end to begin

Living in your head
Without anything to numb you
Living on the edge
Without anything to numb you

Living in your head
Without anything to numb you
Living on the edge
Without anything to numb you

8.02.2013

Lettere ao amigo há muito derrotado, porém não ausente de minhas memórias e apreço


Caríssimo amigo Buer,



Escrevo-te após todo este tempo passado, desculpando-me pela ausência de minhas epístolas. Ando tão atormentado e pusilânime que faltam-me forças até para redigir-vos. Tenho tanto a dizer-te que nem sequer sei por onde devo começar. Começo pelas novidades amorosas e sentimentais, pela raiva que esta situação mesma anda me provocando, pelos infortúnios da vida humana, pelas preocupações que me acercam ou questionando como anda vós?

Tratarei de não ser altruísta e falarei de mim, portanto, ao começar.

Desde que meu antigo amor deixou-me, venho sofrendo de amnésia, meu caro amigo. Não daquelas percepções errôneas que sofremos esporadicamente, não, algo mais severo. Algo que se mescla com meu passado emaranhado ao meu futuro e acerca de fatos premeditados. Está deveras complicado acalentar minha consciência ultimamente, parece-me que ela tem obliterado meu senso de julgamento. Tentei abstrair-me de mim com músicas, composições literárias, novas intenções, desejos, café, distrações mundanas e fugazes. Não estou sendo feliz no empreendimento!
Há dias que n'alma me tem posto um não sei o quê,
Que nasce não sei onde,
Vem não sei como e
Dói não sei porque. // Camões
Divago entre a leviandade e a plenitude, a cada alvorecer. Tento atrelar minha sanidade em pequenos recomeços, ao amanhecer, visando assim uma estabilidade emocional ainda que deflagrada, submissa. Houve um ínterim romântico neste período, amado amigo, que mais me rendeu preocupações e dívidas do que companheirismo e cumplicidade. Fui enganado por diversas vezes seguidas, vê amigo meu, que reviravolta exemplar do destino? Coube a mim um desfecho não muito agradável uma vez que notei que estava me tornando vítima - em diversas aceitações, devo salientar - numa relação que não havia fundamento e sede de manutenção. Eis que hoje estou refazendo o que posso, confessando o que posso, criando o que posso e reverberando ainda na questão de não querer terminar sozinho.

Muita coisa mudou, precioso amigo. Da vida humana à celeste. Falemos da celeste.

Bom, parece que meu posto está ainda vago pelo que ouvi de meus irmãos. Passado todo este tempo Ele ainda não conseguiu alguém que fosse capaz de aguentar o peso imenso que eu suportei. E pensar que Ele não nos fez insubstituíveis, oras. Ainda estes irmãos me perturbam, cumplice, sobre as coisas da vida. Alguns me procuram com ameaças sobre ruínas da Cidadela de Prata (recorda ainda da magnificência da nossa vizinhança?), outros apenas vem aprender (e questionam-me sobre a Abdicação), poucos tentam se manter incólumes e ocultos e uma mínima parcela ainda se mostra leal a mim e aos meus preceitos. São estes últimos que me dão força, compadre. Inclusive, um amigo em comum, mais próximo seu do que meu, esteve recentemente vigiando minha nova aquisição. Fiquei intrigado com a posição dele, enfim. A cada dia perco mais e mais minhas forças, definho a nove vezes nove, em matéria celeste ao passo de que minha forma humana exerce maior influência neste mundo. Sabe, meu caro, que por noites eu me arrependo de ter descido? Me descubro reconhecendo que aquele por quem desapercebi de toda minha posição e força, que sequer anda mais por esta terra, não mereceu o que deixei. Tudo, meu amado, que eu podia antes se mostra mais complexo e delicado agora. Não porque perdi em absoluto minhas capacidades, mas porque estou perdendo meu juízo celeste e, ao passo que minha presença se torna maciça, meu discernimento encolhe e regride. Vês que derrota sofro antes mesmo de lutar? Não vou me render e não pretendo tão cedo voltar, mas, temo também deixar esta bomba em contagem regressiva. O que me aconselhas tu, nobilíssimo Leão?

Na minha vida humana, bom, como já disse, estou empreendendo um novo romance. Ele é deveras belo, o jovem, mas é tenso, frágil, volátil, temeroso e ausente. É sagaz, devo salientar, e me sinto confortável em abrir parte da minha outra vida com ele - mesmo que omitindo origem, vivência, capacidades e afins, seria muito, não? Recorda-te do último a quem nos revelamos? Tentei a abordagem de não mentir, apenas omitir, e revelar o que for questionado. Tem dado certo até agora, mas em dias como ontem, hoje, amanhã, bom, sinto que minha tensão sobrepuja qualquer intenção boa que eu possa ter. Temo que eu possa estar fazendo mal a ele de muitas formas diferentes, só por estar presente. Acha que devo me desvencilhar desta relação enquanto é cedo? Acredita que possa dar certo? Tu ainda tem o dom da visão, não? Diz-me que rumo tomar nesta questão? Afora isso, no âmbito profissional, nunca me vi tão absorto e supérfluo. Tanto que chega a me incomodar, tendo visto meu passado de demasiada atenção ao trabalho braçal e intelectual. Os humanos tem um ditado que diz "sorte no amor, azar no jogo" e que pode ser o oposto. Bom, eu passei por um momento de solidão amorosa que coincidiu com minha elevação profissional. Agora, estou engendrando nova relação, será que perderei os benefícios portanto?

Ainda me isolo, caro andador amigo, mais tempo do que devia. Eu mesmo reconheço. Me isolo no mundo da música, da literatura, da simples arte da alienação e, por mais que tenho evitado, acabo me voltando para o outro mundo eventualmente. Algumas vezes penso em ir vê-lo, logo recobro a sanidade e me recordo do porquê não poderia. Então penso em convocá-lo e novamente caio em mim. É mais do que evidente que eu sinto tua falta mais do que qualquer um. Tu eras a única e pouca família que eu já me orgulhei de reconhecer. Fico pensando na tua calma, virtudes, sabedoria, inteligência, humor, sagacidade e bem-aventurança. Tudo isso sempre vai me remeter a ti e à tua sublime figura. É notório também, caro amigo, que eu queria mais do que este mundo pode me dar e não sei mais como extrair vida dele, quando passo a maior parte do tempo desejando não estar mais nele.

Enfim, acabei redigindo mais do que queria. Sei que menos do que tu gostarias de ler, afinal sempre devorou minhas palavras com tanto afinco, meu mais precioso ouvinte e leitor, que contemplava seu interesse com minhas lágrimas. Neste momento eis que estou solitário, pensativo, resiliente no que posso ser, categorizando e avaliando cada probabilidade possível de uma saída verdadeiramente sadia a tudo que venho passando, nestes últimos tempos. Gostaria de um retorno teu, amigo. Da maneira que achar melhor. Apenas lembre-se de que eles não estão acostumados à tua figura então, caso resolva aparecer em público, estejamos preparados para estacas, gadanhos, foices e tochas, além claro de cruzes e orações das mais variadas possíveis (risos).



Terminando, eu o adoro. E espero que minha mensagem chegue a vós.


Do teu mais terno amigo,
L.