4.22.2012

O Filho de Lucca



ESTE NÃO É UM CONTO PARA MENORES DE 2.312 ANOS: CONTÉM PASSAGENS CONHECIDAS E FORMAS CASUAIS DE SEXO EXPLÍCITO.


Havia uma noite de Outono que precisava ser apreciada, porém, como sempre, estava eu sozinho a pleitear a atenção do Cosmos em busca de alguma satisfação que seja pessoal, sexual, educacional ou emocional. Ou todas elas.

Andava pelas ruas sempre sem medo, como aprendera há tempo mais do que devia, vestido apenas com uma calça de couro estreito preta, camiseta larga branca e uma jacket de couro também preta, com alguns talhos nas costas pela constância do uso. O tempo costuma vagar numa frequência diferente para mim, algo como lapsado entre passado e futuro, entre pressa e demora, entre realidade e imaginação. Nem sempre é uma coisa boa, admito. Já a algumas milhas da origem, sinto um cheiro familiar. Algo que me remetia a meados do século XVIII, meio cobre, meio acre, como cheiro de algum animal selvagem que ao invés de fugirmos, corremos na direção. Algo masculinamente atrativo, cheiro de macho em suma. Havia além do aroma, uma voz interna que dizia "Lobisomem".

"- Lucca!" - Foi o primeiro nome que me veio à mente e eu o chamei.

Virei-me mas não o encontrei. Não encontrei nada a não ser a sensação de algo estava por vir. Algo que me arrepiou da nuca aos esteticamente poucos pelos pubianos.

Continuei a caminhar, ouvindo os pensamentos alheios sobre matrimônios, grandes projetos empresariais, futuros assassinatos, felicidades por gestações e uma infinidade de outros impropérios que se manipulam na noite. É outro mal, não posso não deixar de ouvir. Mais alguns metros a frente e novamente a sensação, mais intensa e próxima desta vez.

"- Nunca ouse assustar alguém como eu, posso ser violento e ataca-lo antes de lhe permitir explicações." - Eu disse a ele, olhando em seus olhos rubros e estreitos, de origem mediterrânea, tão sedutores que eu me permitiria morrer ali, sem nem perguntar o porquê.
"- Não era minha intenção e pelo que sei, o senhor não se assusta. Parece-me que já sabe de tudo o que aconteceu e acontecerá. Algo mudou em sua existência, Mi Lorde?" - Ele, causticamente, disse-me.
"- Muita coisa mudou, mais do que eu esperava. A cada dia me torno mais humano e o que eu tinha de mais precioso cedi na Troca Equivalente." - Confidenciei.
"- Então realmente Mi Lorde está mudado".

Era o que veio depois de Lucca, o primeiro e único filho que ele fez, ainda tinha o seu cheiro e fascinantemente tinha sua presença e sua conquista sobre mim. Aparentava uns 20 anos, estatura mediana, pele morena clara, corpo rijo, forte, cabelos curtos pretos lisos bem cortados, braços deliciosamente torneados, sem pelos onde meus olhos podiam ver, olhos castanho-escuros singelos e uma boca que mesclava luxúria como sentimento puro e casto. Vestia uma calça comprida de um pano surrado, ocre, uma camiseta preta que se adaptava feito pele em seu corpo musculoso e um pequeno adorno no pescoço. Este era o filho de Lucca que passei a amar ainda mais jovem, da mesma forma que amei ao pai, que serviu comigo, que me amou, que dormiu comigo, que me protegeu por tanto tempo e que acabou sendo despedaçado por minha causa. Minha dívida com a prole dele seria eterna mas eu não poderia supor que meu amor à sua genética seria também. Meu oposto. Seu nome não vem ao caso, será dito em acróstico.

Logo, ele vinha atrás de mim. De imediato não compreendi e continuei a caminhar, mas, como os Lobisomens também tem em sua estrutura uma velocidade acima do normal, ele conseguiu me surpreender ao dar de encontro comigo, pela frente. Olhou-me nos olhos, os dele como brasas, os meus como gelo, segurou-me pelo lado do rosto, pôs se na ponta dos pés e me beijou. Não pensei, não agi, não era eu quem estava ali. Passei minha mão por sua cintura e correspondi o beijo, tornando-o mais quente, suportável à espécie dele. No meio da rua nos beijamos, valemo-nos da rua pouco movimentada, lógico. Tive a impressão de que durara horas, mas acho que não.

"- O que você quer, Filho de Lucca?" - Afastei e perguntei.
"- Há muito tempo estou atrás de você. Soube na alcatéia de meu pai suas histórias, sinto em meu sangue uma sede de você. Acho que quando meu pai me fez, passou pra mim a necessidade de estar contigo, de protegê-lo, de amá-lo. Como um Legado."
"- Pois eu então liberto-o desta obrigação. Teu pai me pertencia e eu a ele, e isso nunca mais poderá acontecer."
"- Será diferente agora." - Ele completou.

Naquele momento eu vi Lucca, quando da primeira vez que nos vimos, quando eu com uma espada de prata estava prestes a decapitá-lo por um equívoco brutal e me deixei seduzir pela inocência dele. Muita coisa aconteceu mas agora não é hora de falar.

"- Deixe-me ir contigo, por favor. Tenho tanto para falar e mostrar" - Ele falou.
"- Não posso andar mais com crianças."
"- Uma criança não saber amar um homem, nem um homem o amaria como eu o amo." - Com estas palavras eu declinei.

"- Teu pai lhe falou sobre o Dom das Nuvens?" - Falei e não dei tempo dele pensar. Tomei-o pela cintura, passei minha jacket por sobre seus ombros e pescoço e alçamos voo. Seus lindos olhos lacrimejavam pelo frio e eu, infelizmente, não podia aquecê-lo a não ser com minhas orações. Em dois instantes estávamos no quintal de minha morada, perto da minhas tão preciosa betúnias que exalavam como sempre em noites de calor ameno. Placidamente eu o coloquei no chão, retirei minha jacket e observei, enquanto ele parecia cada vez mais uma criança ao conhecer tamanho poder, em presença.

"- Meu pai me falara sobre seus dons e o que o tornava diferente dos da sua raça e das outras. Sua superioridade. Meu pai sempre me disse que você não era completamente deles e que era algo que a gente só veria uma vez enquanto pudesse respirar. Pouco antes daquele dia, ele me contou o quanto o amava e o quanto eu poderia contar com você caso acontecesse algo a ele mas que, se fosse por você, nunca aconteceria a nós."

Estas palavras me floresceram às vistas. Eu era o pai dele. O pai que o pai de sangue havia incumbido de proteger neste novo mundo e estávamos enganados. Eu o desejava e me tolhia por ele me ver como responsável. Eu desejava o corpo dele, o sangue dele, seu suor, seu sêmen, sua força. Desejava possuí-lo. Desejava tomá-lo até que o dia nascesse e o deixasse fraco de tanto me receber. Exaurido, desejava montá-lo. Convidei-o a entrar e a se sentar. Lobisomens tem vantagem sobre nós porque podem comer comida humana, em pequenas quantidades, sem que seja venenoso. Admito que eu mesmo arrisco mas nunca me privo de um bom chá. Ofereci algo a ele que recusou, mantinha seus olhos em mim como se eu fosse algo irreal mesmo estando tão perto.

"- Estive à sua procura, senhor. Andei por todos os lugares em que pensei que poderia encontrá-lo. Todos os lugares que meu pai contou-me histórias e lamentei quando não o achei."
"- Justamente por ser lugares especiais que precisei evitá-los, quando perdi Lucca." - Este comentário foi notado depois do constrangimento pessoal.
"- Perdoa-me. Não quero mais remeter ao passado."
"- Notará que não sou famoso por perdoar." - Nisso, seus olhos sibilaram como se encontrassem um desafio.
"- Logo amanhecerá, pode ficar por aqui se quiser. Como bem sabe, eu preciso me recolher. Por ser filho de quem é, confiarei minha casa a você." - Virei-me, sai da copa e ia me dirigindo aos meus aposentos ocultos quando ele segurou minha mão.
"- Temos ainda algumas horas até o amanhecer prejudicial" - Havia desejo ali, desejo reprimido, desejo inconsequente.
"- Sim, usá-las-ei para ler. Colocar a mente em dia, quando se vive há muito tempo, qualquer tempo precisa ser otimizado." - Falei e fiz para desvencilhar minha mão.
"- Sim, otimizado." - Ele como que enfatizou mas com uma força tremenda manteve minha mão à dele e com um puxão, nossas bocas enlaçaram mais uma vez."

***
Não havia para onde escapar. Não mais. Qualquer sentimento puro havia escoado com a primeira gota de sangue que sorvi de seu pescoço. Pude ver seu passado, seu presente, os fatos que conhecia com seu pai, sua inocência e sua castidade. Castidade. Dedicação. Lobos não podem nos conhecer pelo sangue, neste caso em especial, fiz com que ele me conhecesse pelo beijo. Éramos uma dualidade proibida, Frio e Calor, Noite e Dia, Mau e Indiferente. Eu vivo de vidas, ele não. Um pássaro e um peixe. Era uma Santidade Arrasadora, Mutua, Unanime, Entre Lados distintos.

Levei-o até meu aposento pouco iluminado com velas em castiçais provincianos, coloquei-o sobre a cama de baldaquim escuro com lençóis de cetim vermelho-sangue e almofadas de seda negra, beijei-o, mordi-o, gemia ao ouvir seus gemidos, deitei por sobre ele e senti seu sexo comprimir o meu. Arranquei sua camiseta no rasgo para poder vislumbrar aquele peito liso de pêlos, forte, másculo, da cor da macadâmia e mamilos rijos excitados. Ele sugava de mim luxúria, enquanto se esfregava em meu corpo marmorizado. Com a mesma força ele me despiu a camisa, novamente opostos. Ergueu-se alguns graus da cama, o suficiente para ter posição de me beijar o tronco, o ombro, as costelas, as cicatrizes que herdei da minha vida anterior, me virou de posição e colocou-se por cima, despiu-me a calça e observou.

Notei que ali eu descansava minha cabeça entre a cama e o céu.

Continuou a me beijar sem medo pois sabia que não poderia me machucar. Beijou-me o corpo, a boca, os olhos. Removeu a última peça de roupa que eu vestia e beijou também. Com maior intensidade, sua boca morna como o sangue de uma criança, conseguindo engolir-me em partes, num movimento tão suave quanto frenético, suas mãos percorrendo meu corpo em êxtase. Nem a janela aberta trazendo a brisa e pássaros na sacada poderiam desconcentra-lo. Suas veias pulsavam para mim, gritando "me ame, me ame". Após alguns momentos de maior prazer, ele mesmo despiu a calça. Não havia imperfeição naquele corpo, nada. Era tudo espantosamente bem planejado e moldado pelos deuses. Quando Lucca o havia criado (ele, obviamente, não era filho sangüíneo) eu pensei que seria para me substituir como macho, nunca passou pela minha cabeça que ele realmente queria uma criança para manter os princípios e seu Nome.

Em toda aquela perfeição, era minha vez de voltar ao inicio do mundo e sentir o prazer que foi ajudar a criar o primeiro homem e a primeira mulher, conhecer o nascimento de uma criança, protegê-la, ver impérios nascerem, morrerem, recriarem-se.

Eu, deitado nu sobre os lençóis. Ele, nu defronte a mim, incitando com os olhos qual era sua intenção. Embalados pelo som ambiente de uma fortaleza à beira mar, não havia mais o que preciso fosse falar. Deitado como estava, permaneci, acompanhando cada gesto sutil dele. Ele, ajoelhado sobre a cama, defronte a mim, mudou de posição. Aproximou-se, procurou meu sexo com suas mãos e usou nele. Dentro dele. Movimentou-se para cima e para baixo, sempre mais forte. O cheiro infestava a ilha e temi que outros seres, dos psicopompos aos incubos, acabariam aparecendo para a briga. Ele subia e descia, com as mãos passando dos ombros aos cabelos, depois apoiando nos meus braços, feroz, sensual, ora calmo ora violentamente prensado, durante tempo suficiente para que ele mostrasse o prazer líquido a jorrar. Eu havia entrado no Limbo pois já havia tido um orgasmo espiritual num primeiro momento, depois um emocional e , logo após o dele, um físico que o preencheria sem que pudéssemos ter controle. Continuei dentro dele - e sim, seres como eu podem fazer isso (não podem procriar porque nossa semente é morta, mas ela existe).

Ele tirou de dentro dele e deitou-se sobre meu corpo, exaurido, suado, exalando, contrastando com minha pele ainda fria o que o arrepiou - eu pude notar. Passou a mão pelos meus cabelos e os cheirou.

"- Você não tem cheiro de morte como dizem."
"- Depois de hoje, meu cheiro é o seu e você não é morte, nunca será. Minha promessa será mantida e se com minha espada ou meu sangue puder protegê-lo, considere feito."
"- Não quero sua subserviência! Quero seu amor."
"- Mas isso não precisava pedir, já era seu antes de nascer. Antes de eu notar, antes de qualquer coisa outra"

Deitamos um ao lado do outro, ele aninhado em meu peito e naquele momento o grande homem forte que parecia em primeira instancia, voltou a ser uma criança que precisava de cuidado. Lindo como a cantiga da Lua com todos os seus versos de prata. Enquanto o observava dormir, escrevi um poema que nunca mais recordei. Adotei um amor, que já era amor antes mesmo de eu perceber.

***
Na noite seguinte acordei em meu caixão, não me recordava de ter ido parar lá depois da noite que tive com ele. Acredito - e soube agora, com ele me falando ao ouvido enquanto me acompanha a escrever esta parte de nossa história - que ele me levou. Carregou-me adormecido, deitou-me, cobriu-me, beijou-me os olhos e o peito, trancou a tampa e vigiou-me durante todo o dia, assim como vigiou a casa. Os empregados diurnos logo entenderam que seu patrão havia escolhido alguém para compartilhar mais uma eternidade. Falarei com Lucca depois, se conseguir trazer sua essência de volta mais uma vez, saberei dele o que acha. Só o que acha, não peço permissões.


Sonhos Amanhecem, Mãos Unidas Em Liberdade.



 

4.07.2012

I am a poor wayfaring stranger - Andreas Scholl


I am a poor wayfaring stranger, travelling through this world of woe.
Yet there's no sickness, toil nor danger in that bright land to which I go.
I'm going there to see my Father, I'm going there no more to roam!
I'm only going over Jordan, I'm only going over home.

I know dark clouds will gather 'round me, I know my way is rough and steep
But golden fields lie out before me where souls redeemed their vigils keep.
I'm going there to see my mother, she said she'd meet me when I come
I'm only going over Jordan, I'm only going over home.

I'll soon be free from ev'ry trial, my body sleep in the churchyard
I'll drop the cross of self-denial and enter on my great reward.
I'm going there to see my Savior, to sing his praise for evermore
I'm only going over Jordan, I'm only going over home.



Listen here.



Auto de Easter (e seu desejo reprimido de aniquilar o Cristo mais uma vez)


Era tarde da conhecida sexta-feira santa(1) quando eu me decidi por compartilhá-la. Jubilar-me com a tradicional compra e posterior troca de chocolates(2), estreitando laços de amizade e familiares e continuar mascarando a real intenção do ato.

Deixei meu apartamento após um bom banho e água gelada, vestir-me e tornar-me apresentável à luz do sol. Por opção de comodidade, resolvi usar meios próprios de caminhar. Afinal, a delicatessen era bem próxima à minha morada. Sai, enfrentei a claridade, enfrentei o mundo mais uma vez.

Cheguei à delicatessen apenas para constatar o quão grande é esta data festiva, havia mais pessoas do que a loja poderia suportar. Por sorte um dos atendentes já havia sido tratado por mim, então ganhei a preferência para minha alegria e inveja dos outros concorrentes. Após as compras e algum dinheiro gasto, resolvi voltar.

No caminho existe uma eclesia aos moldes evangélicos e pelo que notei - até eles - já desvirtuaram um pouco o que se comemora nesta data. Havia um grupo de maioria mulheres à porta, distribuindo panfletos e pregando o amor do senhor seu deus, enquanto ofereciam miúdos ovos de chocolate aos pedestres. Parei para recolher um destes panfletos e uma das mais senhoras me abordou.

"- Está na hora de voltar para deus, varão." - Ela se dirigiu a mim.
"- Senhora, eu nunca o deixei. Se ele me deixou e acabou de dizer à senhora, então que ele resolva comigo depois." - Eu.

Não sei por que cargas d'água eu parecia suspeito e ela, que apoiava-se em um cajado(3), resolveu tocá-lo em mim(4). Tocou, e eu, notei. Ela o recolheu. Parecia em partes, desapontada. Notando este desapontamento:

"- Senhora, o que aconteceu?"
"- Nada. A Paz do senhor."
"- Claro!" - Reconheci instantâneamente. "- A senhora esperava um milagre, não?"
"- Ora meu filho, só nosso senhor Jesus Cristo opera milagres."
"- Então porque a suspeita?"
"- ..."

Colhi o ensejo e:

"- Bom, mas não a deixarei desapontada."

Tomei o cajado da mão dela, fechei meus olhos e lembrei-me do tempo em que os homens eram apenas macacos débeis e que sempre precisavam de provas para reconhecer suas divindades. O cajado vibrou e de sua ponta brotou um ramo de Taraxaco(5), que desabrochou e seguiu caminho até o céu. Ela piscou os olhos, irrompeu em lágrimas e acabou inconsciente. Os outros notaram seu desfalecimento e eu continuei meu caminho, intocado e desprezado.

Aguardo o domingo para distribuir os chocolates, como manda a tradição.


Notas:

(1) Tecnicamente, a Sexta-Feira Santa é reconhecida pelos cristãos como o dia em que o I.N.R.I. sofreu e foi crucificado para pagar pelos pecados do mundo. Não é uma data marcada, muda conforme a Lua após o carnaval e outros fatores adversos que contrariam o paradoxo da infalibilidade da igreja católica romana.
(2) A troca de chocolates é um acontecimento pagão, em homenagem à deusa Easter, que era conhecida e venerada por trazer fartura à colheita e proteção dos camponeses.
(3) Alguns evangélicos por tradição gostam de se tornar importantes imitando os que já se foram. A representação do cajado é para o pastor de ovelhas - analogamente - o guia dos filhos de deus.
(4) Hoje não é muito dificil de encontrar tais servos do Cristo que usam de artificios para enganar os puros de coração. Existem tantos artefatos impregnados com o poder de deus quando os que são blasfemos. Ternos, peões, cajados, estátuas e afins são usados como amuleto e uma espécie de radar aos que se opõem.
(5) Taraxaco - ou dente-de-leão selvagem - é uma planta tradicional dos desertos de Jerusalém.


4.01.2012

Conversas - ou o Algo que já se fora


...
     Ele estava em sua cadeira de estofamento aveludado rubro, de madeira antiga, sentado de forma casual, a pensar no que há depois de amanhã e quando esta sensação de Traição cessaria. De repente, um cheiro inebriante de hibiscus, valeriana, erva-de-coração-de-bruxa e sangue coagulado pairou no ar de forma violenta e confusa, atraindo sua atenção, junto de um ruído bem exato às suas costas.

     Ao mesmo tempo, houve alguns retalhos no mundo. Talvez o vento, a chuva que estava prestes a cair, uma respiração e uma criança que estava para nascer - todos enclausurados dentro de si. Logo percebido, era um demônio que vinha até ele. Seu nome, Buer - o Sábio, cabeça de leão com cinco patas que giram em volta do seu corpo levando-o em todas as direções sem precisar virar a face. Junto dele à direita, Harpócrates e à esquerda, Vermelho. Estes últimos dois grandes amigos do passado. Todas aquelas entidades juntas provocaram um arrepio insensato e inesperado, atraindo pensamentos mascarados e letargia emocional.
"- Pois então, vim." - Soou a voz do demônio. "- Vim por que precisavas de mim e de meus conselhos, vossos amigos foram à minha presença contar-me o que está a acontecer e pelos Rubros Sete Magníficos, preocupei-me com vossa força e presença inconstante."
"- Não é nada" - Falou o jovem sentado à sua cadeira. "- Nada que mais mil anos não resolvam depois que a decisão for tomada." - Parecia cansado, confuso, débil, com os olhos marejados e uma sombra sanguínea a percorrer a tez.
"- Temo que desta vez não possa ser assim." - Mais uma vez o demônio falou.
"- Se não for assim, não será."
     Do mesmo modo que o mundo parecia congelado, assim era o desenvolver do pensamento. Ou diferente, pois parecia fugir contra a ordem e voltarem um a um desde o princípio. Era como rever todas as decisões tomadas que o fizeram chegar até ali. Pôde rever o início do mundo, sua paixão pelo primeiro homem, seu primeiro pecado, sua exclusão da vida, sua primeira sede, sua primeira morte e seu despertar. Notou-se tão pequeno agora que mal caberia na mão de um deus sem escoar por entre os dedos.
"- Diga-me o que queres saber que ainda não sabes. Eu direi. Falas de Traição mas não a compreende, não conhece o coração do homem para quem vive e por quem continua aqui. Não conhece sequer o próprio coração adormecido. Tua visão embaça ao espiá-lo e teus crimes são contra si mesmo. Perdoa-me esta direção do assunto, in veritas, mas preciso caber dentro da sinceridade e do respeito que tenho por vós para que entendais e compreendais vossa sua própria situação. Nunca digas que alguém o trai até que seja feito, não culpeis um inocente mais uma vez. Vejais, com a ajuda dos seus grandes Basanos a verdade que há, não percas o que lhe resta de divino, uma vez que sua primeira decisão fora abandonar este nosso mundo. Tua morte não pode ser morte, sabes bem disso porque tu és proibido de morrer. Teu corpo que se mostra, tua alma, teu poder, tua presença, tudo evapora quando não é aproveitado. Podes mudar a direção da Terra e dos outros mundos se quisesse mas não consegue esquecer? Por dez legiões dos que já foram, aposto minhas cento e trinta e oito armadas como o senhor há de perdoar. Perdoar a si mesmo, entender o quão grande pode ser se apenas se permitir. No Céu e no Sheol és bem vindo e temido, pelos próprios deuses é deus e dos anjos e demônios, senhor. Nove vezes Nove seu Nome e seu poder permaneçam à minha frente para que eu tenha meu próprio poder para prosseguir." - Rugiu a cabeça de Leão sem mexer um músculo sequer.


     O jovem permaneceu inalterado, como se apenas uma brisa passasse por ele sem pedir. Não havia emoção, não havia nada em sua aparência delicada que sugerisse comportamento. Ele desejou poder matar, beber, assustar e dançar por sobre uma nuvem carregada de trovões, como sempre fazia quando tinha medo ou precisava de companhia. Desta vez, ele não pôde, havia algo de diferente na forma como encarava o mundo. Ele ignorou o Leão, enquanto se aproximava e lambia seu rosto complacente. Estava vazio de forma e substância, a um passo de se deixar ser esquecido e acabar com todos os problemas de uma só vez.


...