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3.02.2014

Eis que eu preciso passar por cima de mim mesmo, por cima de meu amor próprio


Num delicioso crepúsculo de um dia que havia sido agradável, algo se movimentava no ar de maneira a querer demonstrar que eu deveria me preparar. Logo, seria convocado e precisaria exercer minha autoridade. Bom, havia muito que eu esperava esta oportunidade mais uma vez.

Lembro bem de já estar ciente quando meu celular notificou uma mensagem de texto dizendo somente “SOCORRO”. Não era um número conhecido mas eu sabia a quem pertencia. Era alguém a quem eu havia oferecido meu coração, muito tempo antes e que agora já não me pertencia mais. Alguém que eu realmente amava e que agora disporia de outro em sua cama, sua vida, sua essência, sua compreensão, sua cumplicidade, sua admiração e seu amor. Eu precisava aprender a lidar com isso ainda. A mensagem pedia socorro mas eu sabia que não era pra ele, diretamente. Há muito também eu havia criado o alfabeto simpático e dessa maneira, saber o que estava passando desde a saúde à atividade emocional desse ser. Me despi e me marquei, deixando assim indelével em mim sua magnitude. Tratei de responder à mensagem com um “Já estou indo, aguarde-me defronte ao portão de sua casa. Sei o que se passa”. E sabia, por isso ele me convocara em ajuda.

Esse seu novo consorte havia sido vítima de um incidente brutal, violento, nas ruas. Havia sido ferido por sua opção e seu meio de vida, depredada a sua dignidade, marcado seu corpo e fundamentalmente sua alma dilacerada havia sido a pior parte. Ele havia sido encontrado violentado, agredido e semiconsciente e no âmbito da sua pouca razão, pedia socorro com seus olhos encharcados de sangue. Como havia sido encontrado pelo seu próprio amante, meu outrora, a única opção seria evocar esse mal – que vos escreve – para ajudar. Médicos curariam as feridas externas, gradualmente, disso sabemos. Porém, tanto ele quanto todos – e aparentemente seu novo consorte – sabiam que eu poderia mais. Talvez minha reputação me precedesse indistintamente. Bem, eis que ele havia sido levado até à casa de meu precioso amor e lá estavam todos, a aguardar. Nesse ínterim de ler a mensagem e responder, eu já me preparava para ter com eles. Um caminho que naturalmente levaria uma hora eu faço em dois minutos, apenas por vaidade, por querer aproveitar sempre da beleza noturna que preenche e desloca. É fascinante perceber que ano após ano, século após século, minhas estrelas continuam imparciais e imóveis levando a crer que somente os que estão aqui embaixo se percebem mudar com o tempo.

Mensagem enviada, pego um casaco, me deixo cair do sexto andar que moro para o chão, diretamente, mas sabendo que antes mesmo de chegar à altura do quinto andar eu já havia ascendido, na mesma velocidade que o vento ganha do tempo na curva. Lá do alto as coisas são vistas como realmente são: pequenas e sujas. Despreocupado durante todo este tempo, eu apenas flutuei até onde deveria e, como sabia que estaria a me aguardar impacientemente onde eu havia mandado, pousei à uma certa distância – segura o suficiente para não ser atormentado. Ele, ao me ver e em seu próprio estado de pranto e dor, conferia sua confiança no olhar e eu me alimentei daquilo como uma seiva dourada da Cidadela Prateada que há muito eu não via. Deixei-me inebriar por aquele aroma, aquela delicadeza, aquela fragilidade, tudo aquilo que outrora fora meu e que agora pertencia a um humano frágil e que dependia da minha benevolência para continuar vivo. Eis a prova da dignidade e condescendência que me sempre é aplicada!

Fomos juntos até o seu quarto, onde repousava um corpo quase dormente de um jovem homem que eu já acompanhei durante uma noite, para observar atitudes e hesitações. Um homem comum, que não era em nada especial a ninguém, nem a si mesmo mas que agora era ao meu amado. Um molde de barro como todos os outros. Barro quebrado que eu, controversamente, precisaria consertar. Era uma lástima vê-lo tão ferido e ensanguentado e mesmo nesse frenesi eu não pensava em outra coisa a não ser em meu amor. Esse pedaço de barro estava realmente machucado em todos os locais que eram alcançáveis pelos olhos, ainda que pelos mais despreparados, mas havia uma falha em sua alma que seria o pior a ser reparado. Havia já uma necessidade de pedir pela morte – como sempre, humanos são fracos o suficiente para desistirem da luta antes mesmo de conhecerem um por cento da dor – algo que eu não permitiria acontecer. Sim, eu desejava me livrar daquilo mas sabia o quanto isso ia magoar aquele que amo. Não há aqui humildade, não, há apenas egoísmo em querê-lo bem e feliz mesmo que para isso precisasse passar por cima de mim mesmo. O amor é algo engraçado, a gente ama mesmo quando não é amado e sabe que, mesmo que não seja retribuído, faria tudo por esse amor. O amor é tolo ou tolos são os que amam?

Pedi que nos deixássemos a sós, apenas aquela peça quebrada e eu, no quarto. No seu nível de consciência eu sabia que poderia agir como quisesse que não seria observado, retaliado ou julgado. Pedi que meu amor nos deixasse também porque não aguentava mais ver o sofrimento estampado naquela bela face que eu beijei tantas vezes pela noite e outras tantas pela manhã. Deitado lá, aquele homem apenas esperava sua vez no trem que sobe aos céus e eu precisaria ser o condutor de volta dele.

Tirei todas as suas roupas – ou o que sobrara delas, farrapos e sangue coagulado – peguei uma pequena compressa que havia ao lado da cama e limpei a testa dele, para remover todos os traços de sujeira que havia ali. Ele ardia e palpitava, além de esforçar para permanecer respirando. Era sim, confesso, uma visão lastimável e ao mesmo tempo belíssima de como compreender a humanidade: um homem quando agride um homem, passa a ser mais homem? Mais poderoso? Mais parecido conosco?

No seu corpo débil havia tanta ferida quanto era possível perceber, ossos quebrados, marcas, manchas, escoriações, sujidade. E mais, em sua alma havia sede de plenitude. Nesse momento percebi e perscrutei que não seria capaz de pedir ajuda para esse feito, como já havia feito antes. Teria de agir sozinho para nossa própria proteção e porque não poderia dividir esse peso, nem mesmo com meu melhor amigo que sempre me acompanha onde quer que eu vá. Decidi o que haveria de ser feito, remoldado, criado, consertado e o fiz, passando minha língua por todo o seu corpo, fechando as feridas, desmarcando as áreas marcadas, desfazendo o mal. Em poucos minutos o corpo havia sido completamente reabilitado e não havia mais um vestígio sequer da violência. Porém, sua alma continuava reclusa em algum canto escuro onde não pretendia sair. Precisei então invadir sua alma, com uma pequena palavra eu abri seu coração e sua mente e entrei, vendo tudo o que havia acontecido, seu passado, seu presente, seu futuro, suas intenções. Tudo o que eu deveria ter evitado eu precisei enfrentar para consertar aquela criatura. Desci até esse canto encoberto e o peguei pela mão, trazendo-o de volta à luz, desfazendo memórias e medos. Assim ele voltou a si, ainda debilitado pela intensidade mas já fora de risco e então pedi para que os outros entrassem novamente e se portassem a cuidar dele, mas que não havia com o que se preocupar e eu não poderia fazer nada mais – ou melhor – do que havia já feito. Percebi nesse momento que havia me exposto e que, consertando a peça quebrada, eu jamais teria meu amor novamente e, ao mesmo tempo, percebi o quanto ele amadureceu e aprendeu. Lógico, essa depressão instalada em mim precisaria ser sanada brevemente. Deixei-os todos com o paciente e sequer perceberam quando eu sai.

Havia em mim ainda a raiva por ter sido fraco, complacente com aquilo tudo. Teria sido eu o salvador de uma nova vida e o destruidor da minha própria, eu havia sido meu maior inimigo mais uma vez. Toda aquela fúria havia se instalado em mim e a dor era semelhante à própria instauração de Virgo e pensei haver somente uma maneira de desprender tudo: vingança, morte, sangue. Foi o que fiz, aproveitando-me das memórias que eu havia retirado daquela pequena criatura, persegui aqueles que o deixaram entre a vida e eu. Não muito longe dali os encontrei, se gabando de terem elevado um nível em sua humanidade.

Criaturas ainda mais débeis, belicosas, superficiais, imundas. Havia quatro deles, sentados no capô de um carro moderno, conversando e bebendo algo sujo. Nenhum deles teve tempo suficiente para saber o que aconteceu. Como um raio eu desci, despedaçando o chão, o carro, um deles que estava mais próximo. Os outros perceberam tarde demais o fogo em meus olhos e quando um deles se apressou em correr, interceptado foi por mim, esmagando sua cabeça com uma de minhas mãos. Dois haviam partido, o terceiro ousou sacar uma arma de fogo e o medo instalou-se nele quando notou que não havia efeito em mim aqueles projéteis. Esse eu queimei, da cabeça aos pés, com apenas uma palavra também. Não somos feitos de Fogo e Tempestade à toa, afinal. Então sobrara um, o líder aparente deles, com o qual eu me diverti por sua fragilidade, fazendo-o sofrer da mesma maneira que havia feito o outro sofrer ou talvez mais, porque minhas mãos afligiam também sua alma. Tenho a mais absoluta certeza de que esse sofreu, e tanto, que os anjos devem ter tapado os olhos e ouvidos para não verem-no ou ouvirem-no berrar, tamanha era minha audácia. Percebi que não ali muito distante, dois anjos observavam a cena, com um misto de pavor e curiosidade mas isso não vem ao caso agora. O importante é que o jovem estava curado, não guardara memórias sobre o que havia acontecido, seus entes estavam agradecidos por sua cura e meu amor, bom, meu amor não se importou em como eu estaria naquele momento. A vingança havia sido concretizada, ainda que não pedida e assim eu me acalmei um pouco, o suficiente apenas para poder chegar em casa e terminar minha noite.





"Ama-se a vitória difícil, porque a derrota lhe preenchia quase todo o espaço possível. E foi com o que restava que se venceu em todo ele." Vergílio Ferreira
"Em uma grande vitória, o que existe de melhor, é que ela tira do vencedor o receio de uma derrota." Friedrich Nietzsche


7.02.2013

Você que quase soube da verdade mas era alheio à realidade, eis que veja que não importou muito


Noite quente de verão, à beira-mar.

Mesmo com minha aversão instintiva à água corrente, acabei por deixar-me à deriva numa noite em que não havia Lua brilhante no céu. Imaginei que, desta forma, talvez o feitiço antigo sobre a proibição de nossa espécie à presença de marés pudesse ser de certa forma amenizado. Bom, era apenas uma tentativa que logo se mostrou infrutífera pois, a poucos metros da areia da praia que eu margeava, eu já me sentia encolhido e subitamente enjoado - mesmo não havendo algo internamente fisiológico que pudesse causar tal desconforto. Evitando assim colocar-me em risco, resolvi deixar o ambiente.

Logo ao me virar, pude notar um pequeno grupo de jovens que vinham alegres pela calçada, cantarolando alguma música moderna com suas rimas pobres e letra que faria um boêmio do século XVII se sentir enojado com a futilidade e decadência do pudor humano atual. Evitando o contato visual e assim mostrar minha atual fragilidade, coloquei-me de lado enquanto eles passavam. O bando era composto de dois jovens rapazes e quatro meninas, todos bem bonitos e atrativamente sensuais. Ainda com a intempérie da minha bagunça orgânica, pude ouvir que um dos jovens cochichou ao colega mais próximo a seguinte frase com exatidão: "- Nossa, mas que homem mais estranho. Parece um vampiro" e então deu um sorriso afetado, o outro acabou sorrindo também. Achei interessante a observação do jovem pois, de tantos adjetivos, qualidades e defeitos, ele enunciou justamente a minha raça, sem poder logicamente ter a garantia. Parei exatamente onde estava e passei a acompanhar sua reflexão, ainda sobre mim, com os colegas. Uma das meninas anunciou, ao me ver: "- Não olha agora mas estranhamente seu vampiro está parado ali na esquina, como que esperando" e então logo todos olharam em minha direção e sorriram, comprovando o fato. Eu, àquela distância, pronunciava um sorriso convidativo e intimidador, bastava observar pelo ângulo correto.

Permaneci então à sua espera, aguardando a decisão do jovem se viria ou não ter comigo. Óbvio, ele viria!

Deixou os colegas seguirem e deu meia volta, seguindo em minha direção que o aguardava pronunciando ainda mais minha intenção. Forcei deveras minha presença pois, ainda à beira-mar, me sentia vulnerável. Em alguns instantes estava ele defronte a mi e então pude notar como era realmente belo, com um ar infantil mesmo com alguns fios de cabelo grisalhos em sua cabeça, um sorriso expressivo, lábios sedutores e um corpo atlético - um profissional na arte que se considerava a melhor qualidade. O tempo todo em sua mente só girava uma palavra: VAMPIRO. E ele estava certo afinal.

No seu misto de curiosidade e receio, ele ousou verbalizar a suspeita, questionando-me. Como eu já por diversas vezes dissera, não oculto a quem perguntar a verdade e simplesmente confirmei. Ele parecia atordoado mas ainda, também dentro da lógica humana, desconfiado. Havia uma dedicação na intensidade com que ele desejava que aquilo fosse verdade, uma necessidade quase palatável. Era como se ele precisasse contar com aquilo, como se estivesse esperando há muito tempo, como se ansiasse mais do que a própria vida. De todos os que já possui, talvez este tenha sido o mais consciente da minha índole e intenção desde o começo.

Nos apresentamos e trocamos um aperto de mão formal, ele ainda excitado e reagindo bruscamente ao sentir meu toque gélido. Seus olhos brilhavam à menor luz exterior e seu interior queimava. Mais um adendo, talvez ainda de todos, este tenha sido o que mais facilmente se entregou pois não precisei sequer de um esforço ilusionista para seduzi-lo a me acompanhar. Ele o fazia com atitude e se valendo de uma adorável surpresa que estaria para ser revelada. Decidimos então nos instalarmos num local ali perto, sem hesitação disse-lhe que não o levaria à minha morada ainda e ele não se incomodou - estaria habituado a ocasiões de nenhuma formalidade? Provavelmente. Havia um hotel muito conhecido naquelas redondezas e ele se mostrou fascinado quando entramos no lobby e eu, sorrateiramente induzi à recepcionista com imagens mentais, poupando assim sua morte ao reconhecer meu rosto futuramente, e dando entrada numa das melhores suítes que poderia haver. Logo, o jovem me acompanhava no elevador, rumo à cobertura. Ainda mais sua fascinação era palpável, a cada milímetro andado e dada a proximidade com que ele esperava seu êxito.

O encaminhei à suíte e, ainda à meia-luz ele já se despia enquanto balbuciava pequenos estalidos alternando com gemidos de satisfação. Fazia isso em pé, defronte a mim, me incitando e seduzindo com olhares e provocações labiais. Logo então, eu estava de pé perante ele, acariciando seu corpo com meus dedos congelados. Ele beijava meu peito por sobre a blusa e levava suas mãos pelo meu corpo, do pescoço ao sexo, das costas ao encontro com minhas próprias mãos. Confesso aqui que não estava mais tão excitado quanto no começo, havia uma particularidade neste jovem que me incomodava. Talvez sua busca pela morte, sua frivolidade com a vida, sua fantasia sobre o que eu seria e o que faria por ele. Em seu desejo, eu o tomaria para mim e o faria dele vampiro, logo, viveríamos uma perfeita utopia amoroso e sexual - claro, como vista em filmes. Este desmerecimento e falta de reconhecimento me deixava obstante, ausente. Depois de se colocar nu e a mim também, pode provar do meu sexo.

Como a intimidade começou a me paralisar e suas emoções vinham a mim como um tufão, coloquei minha mente do lado de fora e não aproveitei a cópula. Hoje, sem me recordar com clareza, sequer chego a lembrar se houve. O momento crucial foi quando, na iminência de ser possuído por mim, sussurrando em meu ouvido disse ser portador de uma enfermidade sanguínea letal aos humanos. Disse tais palavras sem receio, pudor, dúvida, preocupação ou resignação. Como estas patologias não me afetam, ignorei e notei ali seu desejo aumentar. Crio um lapso aqui sobre o que julguei ser o evidente: ele, por estar numa vida um tanto quanto corrompida, acabou sendo vítima e, ao se encontrar em déficit no mundo, buscava por alguém com quem compartilhar. Em sua cabeça infantil e débil, julgava ser uma fantasia encontrar uma entidade qualquer que o aceitasse e, quando se deparara comigo, não hesitou e acreditou no que via em filmes, não no que a realidade crua e gélida poderia evidenciar. Vivia num mundo de sonhos e ausência e, ao encontrar uma criatura mítica, achou que sua vida poderia ser resumida e explicada. Deixei então que ele se calçasse desta fantasia por alguns momentos, enquanto alucinava, enquanto se revelava, enquanto era possuído.

Antes mesmo da terceira hora passada, deitado na cama, fazia planos sobre o futuro em que ambos compartilharíamos. Pensou em casa, família, bens, sangue, vingança, beleza e acima de tudo, pensou em imortalidade. Eu, simplesmente pensei que não valeria me alimentar e que precisava me livrar daquela presença.

Recompensei-lhe com o derradeiro desejo, mostrei minhas presas e, olhando em seus olhos, mudei a cor dos meus do azul-celeste para o carmesim-profundo, além de demonstrar minha incrível agilidade e flexibilidade. Ouvia o rugido dos espasmos de seu corpo, desejando aquele poder, desejando ser liberto. Havia um pequeno afluente de lágrimas em seus olhos enquanto já quase mascava sua imortalidade.

"- É seu desejo se tornar um imortal então? Por isso se arriscou tanto numa fantasia?"
"- Sim, é o que eu mais quero. Ser igual a você."
"- Está disposto a viver de vidas humanas, beber deles, livrar-se deles após sua fútil e tola ingesta? Com esta facilidade?"
"- Faria qualquer coisa para me livrar deste peso."
"- Peso? Tu por ventura sabe o que é carregar um peso?"
"- ..."

Me aproximei perto o suficiente para que meus cílios tocassem os dele e ele então cerrou os olhos, esperando pelo beijo negro. Continuou esperando. E esperando. Esperando. Seu coração tomado de pavor e angústia, quando ao abrir os olhos, não havia vivalma no quarto, apenas a janela aberta da cobertura e o frio rascante que adentrava o recinto. Suas lágrimas quase congelaram nos olhos e pode constatar que sua única chance havia simplesmente se livrado dele.

Já a algumas milhas de distância, sentado em um parque, comecei a pensar no sofrimento que ele estaria engendrando naquele momento. Quão terrível seria compreender que sua única chance de viver e ser como os contos de fadas se foi para sempre. Sua imortalidade, sua existência. Eu havia desaparecido e comigo sua cura, sua prosperidade, sua futura vida de Lorde. Ele desejou ter morrido, eu sabia disso. Sabia que o que fiz era pior que a morte para ele e me sentia renovado, mesmo não tendo bebido. O prazer era tanto que não precisei beber, não precisei sequer repousar no dia seguinte, apenas fiquei revendo toda a cena na minha mente e tendo orgasmos com o sofrimento e a loucura que acometeu o jovem tão jovem e, portanto, tão inconsequente. Ele não mais me veria, não conseguiria me localizar e passaria o que restasse de sua vida, insano, às ruas, caçando indiscriminadamente outra entidade que nunca acharia, ensandecido, vendo sua vida esvair gole a gole.


+++

Tenho consciente noção da minha maldade e do peso que eu sim carrego. Existem os que nasceram para morrer e os que não optam por isso. Existem os desesperados e os indiferentes, os tolos e os sábios, os poetas e os carrascos. Nenhum humano tem o direito de se rejubilar por ser poderoso o suficiente a ponto de usurpar outra vida humana e é neste pecado, que os mais débeis se perdem. Sei que sou mau, sujo, feio e inumano. Sei também que eu me criei assim. Tanto quanto sei que não desejo para ninguém mais esta maldição.



É válido procurarmos conhecer a que má e penosa servidão nos sujeitamos quando nos abandonamos ao poder alternado dos prazeres e das dores, esses dois amos tão caprichosos quanto tirânicos. // Sêneca

4.21.2011

Linhas incertas

Mais uma nobre mademoiselle engendrando nossa cultura de subsistência. Excelente escrita, intensa, surreal e com uma manobra arriscada de intercalação de valores. Ou seja, promissora redatora.

Que venha, Débora Brauner.

http://linhasincertasdadezy.blogspot.com/

3.29.2011

Os Porcos-espinho e o inverno

Fundamentando minha exposição anterior, acrescendo no compendium uma fábula chamada Os Porcos-espinho e o inverno.

Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio.
Os porcos espinhos, percebendo esta situação, resolveram se juntar em grupos, assim se agasalhariam e se protegeriam mutuamente.
Mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que forneciam calor. E, por isso, eles tornaram a se afastar uns dos outros, voltando assim a morrer congelados.
Precisavam fazer uma escolha urgentemente. Desapareceriam também da face da terra morrendo todos congelados, ou aceitavam os espinhos de seus semelhantes?
Com sabedoria, decidiram voltar e ficar juntos. Aprenderam assim, a conviver com as pequenas feridas que uma relação muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor um do outro.
Sobreviveram.
O melhor relacionamento não é aquele que reúne membros perfeitos, mas aquele onde cada um aceita os defeitos do outro e consegue perdão pelos próprios defeitos.
"Aqueles que nos são mais próximos são os que mais machucamos."

Vergonha, Inveja e Raiva

Confesso que me sinto envergonhado ao revelar algumas de minhas fraquezas e inveja é uma delas.

Eu observo como as pessoas ditas normais conseguem estabelecer uma associação com seus semelhantes tão amistosa, fidedigna e sem recompensas e isso me é estranho em essência. Eu perdi o ponto Linear onde os homens aprenderam isso? Provavelmente. Muitos ainda não sabem se comportar mas os outros parecem não se importar, também. É mais comum a reunião nos dias de hoje? Talvez. Talvez seja por ajuda do veiculo que eu mesmo agora uso.
Não.
Tenho certeza de que não é só isso já que eu estou presente na sua maioria mas ainda não consigo perceber meu papel entre eles. Pode ser por incompetência minha? É certo. Neste mesmo ponto que os homens aprenderam que estão juntos, nós, aprendemos a nos separar. Passado este tempo eu lamento.
Lamento estar sendo ainda responsabilizado por algo que tenha feito há muito tempo. Consolos? Era minha opção, na época. Não é mais. Não há como reverter?

Conjuntamente a esta inveja surge a raiva, ocasionada pela imaterialidade do que possuo de concreto para ser barganhado com quem quero. O que poderia eu oferecer além de histórias antigas e um amor embolorado? Mais conhecimento? Ninguém mais preza conhecimento e não se trata de um ephebós e seu mestre. Trata-se de uma figura masculina em busca de toda e qualquer espécie de prazer que possa ser oferecida neste terra, seja ele sexual, amoroso, humano, organoléptico ou neurossensorial estimulável.

Vejo simples gêneros de vida que valem tão mais do que eu sempre tive. Belos e jovens expressionistas atuais que mesmo não conhecendo seu passado conseguem estipular um paradigma para si tão avant-garde, como fazíamos. Rapazes que estão aprendendo a viver mas já com um absolutismo fascinante, com uma virgindade que me excita deveras mas com uma sede que eu não posso aplacar. Não sem revelar um pouco de Les Mystères, coisa que não posso ainda.

Eu, irmãos, tenho entre os meus, lindos exemplos destes jovens que eu falo. Um ou dois sempre preenchem meus pensamentos nos momentos de ostracismo. Fato que eu desejo este um ou mesmo os dois, porquoi non? E mesmo considerando que eles não exigiriam nada em troca talvez eu me considere no dever, já que meu interesse começa na vergonha e parte para a raiva, culminando no real desejo de consumação. Torço para que seus deuses nunca os permita estarem comigo, seria letal para ambos.

Eu não tenho a quem apelar já que sou meu próprio deus.

Ephebós: aquele que atingiu a puberdade, moço,
moço entre os dezoito e os vinte anos de idade, que, em muitas cidades-estado da Grécia antiga, recebia instrução militar e treino de ginásio, como preparação para a cidadania plena.

3.28.2011

Falando às paredes

Nova recomendação antiga. Minha melhor amiga nesta vida de agora e minha melhor parte neste mundo, minha salvadora e minha mantenedora de muitos feitos. Por ela eu ainda estou aqui e graças à intervenção dela. Não há elogios ou créditos suficientes neste mundo para competir com tamanha amizade e amor.

Lhes entrego, Madame Carolli.

http://janejcjc.blogspot.com/

3.25.2011

Eu não quero voltar sozinho, por Daniel Ribeiro

Estou fascinado com a descoberta.

Gênero Ficção, VCV 2010
Diretor Daniel Ribeiro
Elenco Fabio Audi, Ghilherme Lobo, Tess Amorim
Ano 2010
Duração 17 min
Cor Colorido
País Brasil

É uma maravilhosa mostra do que uma boa geração é capaz de criar. Uma película com tamanha intensidade e beleza que refrigera o que há de mais fugaz numa alma abandonada. Extremamente fraterno, singelo e pessoal, apto a grandes méritos tanto em nível intelectual quanto moral. Não se esperaria menos de Daniel Ribeiro, os prêmios que o curta arrebatou mostram o nível logicamente.

Trata-se da descoberta do amor entre dois meninos estudantes adolescentes sendo um deles deficiente visual desde o nascimento e o outro recém-chegado à cidade e à escola. É regular no tempo, sutil, piedoso e carinhoso, com uma forma linear de acontecimentos. É ilusório apenas na parte da aceitação imediata do amor, por ambos, o modo com que se desenrola é fluido mas há uma certa imposição, talvez. Há um beijo, roubado, causando um frisson um tanto quanto inocente em quem vê. É uma obra digna, um sonho de facilidades, como todo jovem homossexual em descoberta gostaria de ter passado - fato que não acontece. Bom, ao menos não sempre.

Recomendadíssimo, principalmente a quem preza o amor ingênuo.

Link para assistir online
Link para a Wikipágina do cineasta

3.14.2011

Ars Moriendi '

Não,
Não falemos sobre mortes. Falemos sobre algo que ainda permanece em vida, uma jovem mestra com um toque de criogenia etária que me fascina.

http://aosmeuseus.blogspot.com/

Sê bem-vinda ao Círculo, Fleur Pauliane M. S. , @roquelaure_ .