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12.23.2012

Homens que são anjos ou anjos que são homens?


 "Do not say you love me. You do not even know me."

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Era manhã de Carnaval. Era noite de Carnaval. De um Carnaval qualquer, que aconteceu há alguns anos. Era manhã, eu acordado mas não poderia sair. Era noite, então, era minha hora - Carnaval é uma das minhas comemorações favoritas, já que podemos ser nós mesmos sem chamarmos atenção. Ao menos no Hemisfério Sul, no Norte temos o Halloween.

Estava eu a caminhar pela multidão, apreciando seu fantástico gosto órfico pela notoriedade, à beira-mar (mesmo sendo impossível ainda tocar água corrente), quando o vi. Lá estava ele, com suas belas asas abertas e blusa de marinheiro, bermudas e chinelos, abraçado à uma senhorita que por sua vez abraçava outro. Posavam para uma foto, lógico. Fantasias, é claro, para eles. Eu sou sempre eu e gosto disso, gosto de ser reconhecido. Acredito que eles não me viram, ao caminhar pelas sombras me torno imperceptível aqueles que não querem me ver. Passei a observá-los com um intenso desejo pelo primeiro 'anjo', era belíssimo como só os reais anjos poderiam ser. Notei que a ele, parecia saber que era observado, mas não dei valor ao caso. Continuei apenas espreitando aonde quer que eles fossem, ora juntos ora separados.

Por um momento, já ao andar de Nyx, ele se desviou do caminho dos amigos para suas necessidades fisiológicas humanas simples, então vi ali minha oportunidade. Over this years, eu pensei. O segui, ainda à espreita e quando ele havia terminado, intempestivamente irrompi em sua frente, rápido como um trovão nórdico, tanto que ele obviamente se assustou. Primeiro com minha chegada e logo com minha aparência. Aos seus olhos, o que eu vestia e usava era, essencialmente, eu mesmo. Havia um estranho dom que o circulava, como se ele tivesse uma premonição mais apurada do que os outros humanos.

Curvei-me em reverência e ele achou engraçado, como se não imaginasse o que era um cortejo. Lógico, homens de hoje não sabem mais o que é flerte ou a corte. Ele tinha um sorriso iluminador, supremo, inocente e talvez este sorriso tenha me feito apaixonar. Como já tinha sua atenção, tratei de me apresentar e perguntar seu nome. Antes que pudesse dizê-lo eu o cortei e disse que não importaria, como no flerte, disse que 'não importava o nome do anjo naquele momento, apenas que ali ele estivesse'. Sentia que o ganhava a cada instante, com cada olhar e cada aproximação fingida ser motivada pela multidão aglomerada.

Convidei-o para um local mais reservado para continuarmos a conversa e ele, espantosamente, aceitou. Deste dia tirei minha primeira conclusão sobre os humanos: Todos eles, indiferentemente do que aprenderam quando crianças, esquecem-se de que não se deve falar com estranhos e menos ainda sair com eles a locais reservados. Tomei-o pela mão e nos dirigimos à uma das ruelas que circundava aquele local. Outro fato curioso sobre o Carnaval é que ele não discrimina. Estranhamente, não repreende. Tampouco acalenta, mas me permitiu beijá-lo ali apenas, à frente de tudo e de todos, sem correr riscos. Não é pelo que conheço do país onde as pessoas são temerosas e desforram este medo com preconceito e ameaças. Em outros países as coisas simplesmente assim, fluem, naturalmente, como se nada estivesse ou parecesse fora do lugar.

O beijei e senti o gosto da vida. Da vida dele, do que ele aprendeu, ergueu, sofreu. Não precisei da petit boisson pra conhecê-lo, apenas desta vez, eu conheci um humano pelo beijo. Tornei a beijá-lo e ele parecia gostar cada vez mais. Como estava hospedado por ali perto (sempre me hospedo em países, à beira-mar. Para me lembrar do que não posso e deixar que a Lenda me mantenha sob um certo controle), convidei-o. Desta vez ele hesitou, mas, com um pequeno empurrão, acabei conseguindo. Saímos então da multidão e adentramos um ambiente de tranquilidade, calma e contentamento elegànce. Em sua mente, ele contemplava e imaginava que tipo exótico de homem rico eu era para me hospedar em um local tão privilegiado e ostensivamente caro e imponente. Ignorei, simplesmente.

A hora passava e meu medo crescia.

Logo, estávamos a nos beijar novamente e desta vez sem o mínimo de pudor já que estávamos a sós. Pensei como era engraçado os homens fantasiarem-se de anjos enquanto os próprios e verdadeiros anjos tentam se mesclar à sociedade feito homens. É como um vice-versa maquiavélico.

O beijava e tirava suas roupas, enquanto tirava as minhas. Logo, estávamos num frenesi de troca sexual e emocional sem nenhum ponto de autoridade imposta. O possui por diversas vezes durante aquela noite curta e dele eu bebi, sem que ele notasse. Quando senti que o meu adversário estava a se aproximar, precisei maquinar uma forma de deixá-lo, mesmo não querendo. Ele seria um lindo exemplo para minha raça e um perfeito Perfeito. Já havia algo nele que sentia a tensão em mim, quando da primeira vez pensou ser observado. Considerei sua coragem ao permitir-me tudo aquilo. Pensei e cheguei à conclusão de que não. Não seria justo tirá-lo de seu mundo sem a escolha. Era injusto comigo inclusive, eu o queria para sempre.

Durante a noite, pelo álcool, pelo prazer, pelo sexo ou pela junção de tudo isso, ele disse que me amava. Eu retruquei dizendo que não se ama aquilo que não se conhece. Ele - ousou - corrigiu-me: aquilo não, aquele. Foi o que me despertou, ele não me via como algo intocável ou perfeito. Talvez ele me quisesse também, como companheiro, para toda a eternidade. Não. Não era pra ser assim. Eu não queria corromper mais um visto o que o último me fizera.

Peguei o telefone, liguei para a recepção, me identifiquei, disse que tinha visitas e que não fossemos perturbados, mas que, ao meio-dia, fosse chamado. Deixei as chaves ao lado da cama, dinheiro (mesmo achando que isso pudesse magoá-lo) e parti pelas janelas. Pulei e cai num beco que, pelo quase amanhecer, já estava deserto. Podia ainda sentir o gosto de orgias, álcool, tabaco e felicidade no ar condensado da quase manhã. Sentia também aquele olhar superior já a me procurar. Numa super velocidade, escalei uma pequena montanha que havia ali perto e na metade do caminho, comecei a cavar com minhas próprias mãos e unhas. Com muitos centímetros de profundidade na sepultura, eu me joguei e fui cobrindo com a mesma terra - precisaria me proteger do dia e dos curiosos.

Então veio o amanhecer.

Minha mente estava com ele, enquanto eu ligeiramente adormecia. Por ter bebido dele, agora fazíamos parte um do outro e pude despertar (sem sair da cova) no momento que ele despertou com um sorriso no rosto, esperando ver-me ao lado. Mas não viu. Procurou-me pelo quarto, pelo hotel, pelas redondezas e nada. Por fim, desistiu, voltou ao hotel e perguntou à recepcionista qual o paradeiro do seu anfitrião. Lógico, a recepcionista não disse nada. Sua tristeza tornou-se palpável e ele sentiu-se usado. Ainda na mesa da recepção, a mulher sentiu pena e o chamou. Disse apenas um nome a ele, para que guardasse em sua mente. Disse que ele era o primeiro que ele trazia até ali, porque ela mesma o acompanhava sempre com o olhar na esperança dele a querer um dia. Disse que havia medo e terror nos seus olhos e que ele tinha uma estranha mania de não ser visto durante o dia, apenas durante a noite. Praticamente o mergulhou em suspeitas e crendices - o que era o certo e mais que verdadeiro.

Em minha cova eu me senti culpado e mais uma vez, um animal. Quis voltar e abraçá-lo, tomá-lo novamente, mas não poderia. Logo, voltei a dormir.

À noite, voltei para o hotel e eis que na entrada lá ele estava. Já sem fantasias e por sorte eu o vi antes de que ele pudesse me ver. Ele regressara por mim, o que eu fizera?

Tomei uma decisão e continuei, quando ele me viu havia uma mescla de raiva e esperança em seu olhar. Parou-me, exigindo uma explicação. Eu apenas não poderia olhá-lo nos olhos, havia me alimentado e ele notaria o embaçamento da minha visão. Fora que eu poderia ainda estar irracional pela fome. Subi até onde estava hospedado e ele me seguia, fazendo perguntas que eu não poderia responder. À porta do meu quarto, decidi. Virei-me, olhei em seus olhos e o enfeiticei. Fiz ele esquecer de tudo o que havia se passado, implantando memórias falsas sobre o que havia acontecido a noite e como ela prosseguira. Eu o perderia, mas era melhor do que corrompê-lo. Fiz. Enfeitiçado, ele apenas voltou para onde deveria estar, entre humanos.

E desde então não o vi mais.

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E desde então não o vi mais... Até que, agora, assumindo uma nova identidade, acabei por encontrá-lo no mesmo ambiente. O que parecia infinitamente impossível - ou no mínimo improvável - aconteceu. Ele ainda não me reconhece mas eu estou, a cada dia, tentando retratar o que fiz, usando esta nova identidade. E testar aquele 'amor' que ele prometera. Se for pra ser, será. Investirei.

Não deixarei que ele seja mais uma letra para minha história. 


"O potente, o amante, o homem viril, são homens bons... bons homens de abraços e passos firmes... bons homens pra se contar histórias... Há, porém, o homem certo, de todo instante: O de depois! "




1.15.2012

Confissão número XVIII


Canções costumeiramente induzem-me a declarar, seja parte de minha vida seja algo que ainda não vi. Neste momento elas me remetem à confissões - mais uma vez.

Confesso que nunca fui um bom homem. Nunca amei deliberadamente, nunca consegui herdar esta necessidade de amor. Nunca fui um bom homem e nunca fui um bom companheiro. De todas as mulheres e de todos os homens que tive, poucos consideram-me - excepto aqueles que já eram amigos antes de o sentimento mudar e até para estes me sinto enfraquecido. Talvez eu nunca tenha me esforçado o bastante para ser bom. Talvez tenha pecado mais do que podia. Trai muitos em sentimentos, permanecendo num compromisso que não me agradava mais. Com uns eu construi alicerces duradouros, que nunca foram usados. Com umas poucas eu pensei em procriar e gerar descendência. Bebi da alma de Todos eles e eles sempre souberam disso, nunca se queixaram. Nunca me relacionei com a mentira e desde o começo eles sabiam o que eu era ou, ao menos, o que eu não era. Não era como os outros homens. Para eles e elas deveria ser bem estranho, mas, como alguns são apegados aos mistérios e acham que isso os eleva, acabamos juntos. Digamos que eu era "algo particularmente novo e diferente" para eles.

Nunca lhes faltava nada a não ser carinho, dedicação, compreensão, respeito e amor. Me apeguei à imagem de macho que via em películas e obras literárias e me arrependo agora. Nunca aprendi a ser realmente aquele modelo. Eles sentiam isso, eu sentia isso. Por vezes era violento, agressivo, destoante, incoerente e subversivo mas nunca ousei levantar a mão contra eles. Minhas palavras feriam e meus atos dilaceravam, eu podia ver nos corações. E, a cada dia mais, eu me tornava menor e mais fraco.

O Tempo passamos, nada mudei. Continuo atento a tudo e todos, sempre vigilante, sabendo que isso é uma paranóia herdada pelos Meus neste novo mundo. Sempre achamos que sabem de nós e que ainda estão atrás, à caça. Alguns mais novos optaram pelo anonimato e sombras, eu optei pela luz. Temo ter me corrompido assim. Me aceitei como um destes e agora tenho os hábitos deles, fraquezas deles, receios deles e o medo que eles têm, agora também é meu. Meu mundo de papelão se tornara um Mundo de estanho e ferro fundido que parece tentar me enclausurar contra a minha vontade.

Logo, sou algo que não é homem tentando ser um, completamente equivocado nas ideias. Continuo ferindo e preferindo fenecer a esmo, antes de continuar a matança. Continuo agredindo inclusive meu novo amor, que tem um nome oculto. Peço desculpas e refaço o erro, ignoro, deixo a desejar. Frivolidades tiram-me do eixo. Não há mais desculpas válidas porque não sei mais como fazer, infelizmente.

Continuo sempre sendo meu pior inimigo e mesmo com Harpócrates ao meu lado, me sinto sozinho. Mais uma vez, mesmo entre muitos.

1.14.2012

Johnny


O nome dele é Johnny, não acho que ele saiba o meu.

Fico observando, durante meus pequenos intervalos, o comportamento dele ora doce ora cafajeste. Excitante em cada parte do corpo, mais do que cem dos que já vi antes. E No caso dele, é natural. Fico a par de sua rotina mas não posso influenciar em nada.
Estranho modo este em que nunca nos encontramos ao acaso. Se ele soubesse meu nome, arriscaria dizer que me evita. Ou minha presença, já que ela chega antes de mim algumas milhas. Talvez minha fama, má fama, de autoritário e extremamente sensual. Correm os boatos de que eu sou o homem perfeito, na medida exata entre gentilezas e imposição. Muitas mulheres declararam sua excitação, muitos homens omitiram.

Não falei com ele ainda, perguntamo-nos um pelo outro mas não diretamente. Talvez ele não goste de mim, sendo meu extremo oposto. Talvez eu seja demais ou algo que não agrade. Nunca saberei mesmo.

Enquanto isso eu penso em outras coisas que o tirem de minha cabeça e tão logo, dos meus poros desejosos.

Fim.

3.05.2011

Contos de Canterbury

Relendo os Contos da Cantuária e não consigo deixar de me emocionar sempre com o 'Conto do Proprietário de Terras' e a honra dos homens.

Um breve resumo, mas aconselho a leitura: descreve o casamento do cavaleiro Arviragus e da dama Dorigen. Quando Arviragus viaja numa expedição militar, Dorigen lamenta sua ausência e teme que, ao voltar, o navio dele se despedace nos inúmeros rochedos que existem na costa. Um jovem, Aurelius, se apaixona por ela, mas ela se recusa a retribuir seus favores. Ela concorda em se deitar com Aurelius apenas se ele encontrar uma maneira de tirar os rochedos do mar, uma tarefa que ela crê ser impossível. Aurelius procura um feiticeiro, que concorda em resolver o problema desde que Aurelius pague uma grande soma a ele. O feiticeiro cria a ilusão do desaparecimento dos rochedos, enquanto Arviragus retorna são e salvo para casa. Dorigen conta a seu marido a promessa que tinha feito, e Arviragus diz que ela precisa cumprir o prometido. Ele ordena que ela vá se deitar com Aurelius, mas percebe a dor que isso causaria em Dorigen e decide não obrigá-la a fazer isso. Por sua vez, o feiticeiro perdoa a dívida de Aurelius. A história termina perguntando qual desses homens se comportou de forma mais honrosa.
“Senhor, desde que sua gentileza me concede rédeas soltas, jamais permita Deus que, por minha culpa, haja entre nós atritos ou desavenças. Palavra, senhor, que hei de ser uma esposa dócil e fiel enquanto palpitar meu coração.”  - Dorigen (Chaucer, em Canterbury Tales)