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7.19.2013

Quadragésima sétima epístola de Lean aos espectadores



Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente. // William Shakespeare


Havia um tempo em que memórias não me afetavam tanto, como hoje. Havia um tempo, além do tempo, em que os sentimentos também não. Não havia um vazio, mesmo que possa parecer. Porém, de tempos em tempos, algo transborda. Algo traz à tona aquelas pequenas e grandes sensações que enervam, engrandecem, aliviam, decidem e temperam o fulgor contrário com que a vida vem sendo vivida. Aconteceu na última noite e durante o decorrer.

Ao começar a ouvir a música, um estopim disparou e começaram então as visões há tanto esquecidas. Do tempo em que só havia o Verbo, meus irmãos, o que veio a seguir, os homens, os filhos dos homens, o que os filhos dos homens criaram e assim por conseguinte. Comecei a me recordar de todo e cada amor que eu já pude viver, de todas as eras. Desde então notei que não é tarde para recomeçar.

Apenas, ainda com os fones de ouvido, me dirigi à cozinha, peguei um copo de água e me sentei no chão gelado. Fiquei em êxtase e desnorteado com a intensidade que as lembranças vinham a mim, tanto que mal pude caminhar. Sentado, apenas, ouvindo, pude organizar. Lembrei do primeiro homem que amei – tão jovem, bonito e terno – e de quando e como o conheci. Lembrei de como ele se foi também – de forma tão trágica – e eu não pude fazer nada. Lembrei de como o segundo amor veio, na forma de uma jovem, descendente deste primeiro e de como também ela partiu. Lembrei dos outros que vieram depois deles, e os de depois e os de depois de depois. Para este momento, não havia decidido ainda participar do mundo humano, apenas os amava à distância.

E então, muitos séculos após este começo, surgiu outro homem. Com um nascimento perfeito e imaculado e decidi cortejá-lo. Fomos felizes durante setecentos e cinquenta e nove anos quando, por infelicidade nossa, acabei convocado de volta aos serviços – sem opção, apenas forçado a fazê-lo. Estive presente quando ele partiu deste mundo mas fomos impedidos de nos vermos no outro. Começa aqui então meu desencanto.

Mais alguns séculos e ela aparece para mim como uma fada nascida de uma campo de orquídeas celestes. Novamente insisti e então fomos felizes, até que ela se foi, inocente, nos meus braços, que continuavam os mesmos desde que nos conhecemos, cerca de oitenta anos antes. Como eram outros tempos, acabei pedindo a ela algo que nos dias de hoje seria impensável: prole. Adendo, eu não posso procriar. Decidimos então que a criança seria dela com um homem bem intencionado e assim se fez, com alguma manipulação por minha parte (e dor). Era uma menina linda, com a beleza da mãe e então dei a ela meus olhos. Eu a eduquei, criei, alimentei e ensinei sobre os mistérios deste e do outro mundo, após a morte precoce de sua mãe e minha companheira. Logo, o tempo deu seu salto mais uma vez e minha menina se casou com um homem também bem intencionado e me deu netos, dois casais. Ainda nesta época eles viviam comigo. Logo eu acabei os deixando pela sua privacidade e porque havia um estranho rumor sobre uma nova ordem. Minha menina guardara meus olhos com ela, durante todo este tempo. Outro salto de tempo e ela envelhecera, perdera seu companheiro durante a vida e chegava ao fim da sua própria. Por ser unicamente humana, não havia o que eu podia fazer. Quando então, numa noite triste e lamentável, ela devolvera meus olhos e fechara os seus, para sempre. Chorei durante anos a fio e comecei a perder o contato com meus netos. Passei a acompanha-los de longe, sem interferir e então a vida deles também seguiu. E findou. E depois deles mais. Durante todo este tempo. Cerca de uma milhar de anos depois o contato já era menor e eu novamente convocado acabei me ausentando.

Foi quando decidi por não compartilhar mais o mundo humano e então adormeci, esperando o Fim-de-Tudo.

Muita coisa acontecera desde então, civilizações nasceram e morreram, mundos e continentes idem. Minha grande família despertou e eu ainda sei onde estão, agora bem dispersos. Ainda nos tempos antigos, acabei acordando e, numa tentativa fútil e tola de me adequar, voltei ao mundo humano. Amei novamente, perdi novamente.

Havia algo diferente, eu não era mais preocupado. Era ausente, indiferente, conhecia o protocolo e isso não me afetava. Tive inúmeros amores, amados e amantes. Nunca ousei gerar e cuidar de outra criança. Cada um vivendo menos, conforme o tempo progredia os humanos perderam a essência da vida. No passado, era comum chegarem à idades muito avançadas, isso teve um declínio. E quando acontecia, eu simplesmente lamentava e seguia adiante. Por muitas vidas a fio. E então, decidi parar e adormecer, desta vez sem nenhum pesadelo ou grande descoberta. E então o Messiach veio e com ele meu novo amor. Como eu era apaixonado por ele. Ele sofreu e eu não pude ajudar ou interromper, isso me dilacerou e foi quando decidi abdicar. Cai. Adormeci, desta vez com a maior tristeza que pude até hoje sentir na carne então, já que agora não sou mais exatamente como antes.

Sofri e continuo sofrendo, será eterno, pelas minhas decisões.

Foram doze mil oitocentos e quarenta e seis amores até este momento. Nenhum mais ou menos amado. Todos amados com a minha essência, a minha carne, minha divindade, minhas asas. E simplesmente me lembrei de todos eles na noite passada, pensando como todos eram frágeis, como todos se foram, como puderam me deixar e como eu simplesmente estou vazio por tantas perdas.

Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te. // William Shakespeare


3.25.2013

Íilya, especialmente


"Pensando como um pobre andarilho estranho..."

Fico imaginando como teria sido minha vida se, ao final da Era Média, eu tivesse optado pela redenção e seguido o caminho que meu melhor amigo - na época - se forçara a seguir. Eu o amava como só um amigo de eras amaria. Nos conhecemos em meados do século VII quando por acidente eu esbarrei com ele numa taverna, na antiga Holanda. Eram tempos fáceis aqueles em que haviam tantas mortes e desaparecimentos que ninguém dava por falta de nossas vítimas. Lembro-me exatamente do momento em que o vi: belíssimo, alto como um nativo, olhos pálidos azuis de uma brancura enevoada, um corpo másculo de possível origem camponesa, uma boca deliciosamente rósea mesmo após a morte. Havia um traço nele inconfundível de perturbação com um novo mundo que estava descobrindo.

Eu saía da taverna no exato momento em que ele entrara, pois temos, como regra, a não interferência nos domínios de nossos companheiros de espécie e eu, mesmo sendo quem era, não usaria deste fato para interferir com o Conselho caso houvesse alguma rixa. Talvez a cerca de umas cinco milhas eu já sentia o aroma da morte e portanto, resolvi não permanecer. O mesmo aroma da morte me cativava de uma forma estranhamente familiar, como se eu conhecesse o possuidor. Por vaidade (e por que era no meu tempo de querer conquistar minha individualidade) permaneci no ambiente até poder vê-lo. Curiosamente, ele não deu pela minha presença, o que me chocou: ou era confiante demais ou tolo demais para se permitir a isso, sabendo que se fosse um caso de tomar posse dos domínios dele eu o faria sem hesitar e com facilidade ímpar.

Acompanhei todo o momento em que ele entrava, se assentava numa mesa próxima e instantaneamente, várias mulheres tomavam seu caminho e se assentavam com ele. Deveria ser menos evidente - eu pensei. Mais incógnito, menos expositor. Acompanhando seus olhos, notei que ele realmente fazia daquele momento algo particularmente necessário para se manter vivo naquele lugar. Como se quisesse que ninguém desse por sua falta. Talvez até fosse alguma personalidade importante para o vilarejo, antes de ser tomado pelo beijo das Trevas, e queria continuar assim. Isso fascinou-me deveras.

Por curiosidade, novamente, resolvi ler o que as presentes pensavam e em um devaneio, entendi o motivo de tanta submissão: ele pertencia ao clero - paradoxalmente - antes de se tornar um de nós. Mesmo jovem, já era o padre responsável por toda aquela região e as pessoas notavam sua aparente mudança de humor como um sinal de alerta e automaticamente faziam dele algo valoroso e interessante. Um clérigo que de repente se entrega aos prazeres do mundo sem motivo aparente, realmente era fascinante se olhasse de fora. E ainda após todo este tempo, ele me ignorava por completo, rejubilando-se em meio aquela orgia emocional das jovens e dos homens em seu meio. Um artista - eu pensava.

Neste momento, exausto pela apresentação do companheiro, realmente retirei-me do estabelecimento. Andei em direção à uma viela mais próxima, me preparando para tomar as nuvens, quando o senti se aproximar. Parei e aguardei. Ele veio até mim, curvou-se e se apresentou: chamava-se Íilya e tentou contar mais da sua história. Eu disse que não precisava pois o mais importante já havia colhido de uma de suas 'acompanhantes'. Ele corou (provavelmente havia bebido de alguma delas e o sangue roubado corria por suas veias vazias e imundas). Ignorei-o, virei-me e tomei as nuvens. Olhei para trás por um instante e vi seu pavor ao me ver fazendo isso. Porém, não demorou e começou a correr na mesma direção que eu seguia, me perseguia, até então não me deixando entender o porquê. Geralmente, os assustados correm em direção oposta, claro.

Seguiu-me por um bom espaço até que, por curiosidade, baixei e fui ter com ele. Sua expressão de fascinação elevou meu ego - lógico - e pude comprovar que nada do nosso mundo lhe fora apresentado ou era familiar. Durante uns cinco minutos ele permaneceu impassível, apenas contemplando, como que olhando o céu e logo olhando a mim. A única palavra que disse depois disso foi: "Como?".

Acredito que o tenha olhado com desdém pois sua aparência parecia de alguém envergonhado. Nem todos nós temos os mesmos dons, partilhamos alguns e afloramos outros que já eram, particularmente, nossos desde que nascemos e que precisavam apenas do estopim para deflagrar. O dom das nuvens, costuma ser adquirido pelos mais velhos e raramente um jovem consegue. Ele era um jovem, mas parecia poderoso. Seu criador deveria ter sido um poderoso e ou não compreendia o dom ou nunca comentou com sua cria sobre as circunstâncias que nos fazem mais fortes ao passar da eternidade. Outro fato é que, quando criamos, escolhemos de certa forma o que passamos à geração. O seu criador por medo ou por alguma lição desnecessária, pode ter omitido estas qualidades na sua cria. Enfim, nunca saberei ao certo.

O que sei é que ele começou a me encher de perguntas tolas porém a primeira delas foi a essencial: "Há quanto tempo o senhor é o que é, godheid?". Eu sorri, era realmente uma criança e, a julgar pela sua educação religiosa, muita coisa havia mudado. Não respondi, logicamente, mas meu sorriso o deixou menos desconfortável. Por fim, acabei me interessando pela figura e resolvi dar-lhe o voto de confiança necessário para trazê-lo até meus domínios. O convite foi prontamente aceito e, segurando-o pela cintura, o tomei mais perto e novamente estávamos nas nuvens. Pedi para que fechasse seus olhos (afinal não poderia me arriscar com seu conhecimento sobre minha morada) e em menos de alguns segundos já estávamos no chão. Notei que pequenos cristais de gelo se instalaram em seus cabelos e cílios e me dei conta de que ele poderia não estar preparado para a altitude e que seu corpo talvez não fosse tão invulnerável. Isso me colocou numa delicada sensação de culpa até o momento em que ele abriu os olhos e sorriu. Aparentemente ignorou a congelação infernal e trocou os sentimentos para algo palpável, que era a fascinação. Em minha morada, antes que eu oferece um tour, ele já havia corrido por todos os cômodos e aproveitado cada pequeno espaço do local. Novamente sorri e o que me veio à mente é que, lembrando que pertencia ao clero, não estava acostumado aos confortos da vida. Ou da pós-vida.

Sentei em minha poltrona favorita daquele lugar e aguardei, pacientemente, que sua fúria infantil acalmasse e pudéssemos ter uma conversa. Me interessava saber quem o havia feito e porque o havia abandonado, sendo evidentemente tão belo e com um potencial ainda não explorado. Horas mais tarde, ele se acalmou e continuou com suas perguntas infames sobre idade e poderes que continuei evitando. Mandei que se calasse e perguntei eu, quando ele, delicadamente tirou a gola que cobria seu pescoço e se ofereceu à minha bebida. Sabíamos que assim seria mais rápido, mas sempre fui a favor de uma boa conversa entre homens. Ignorei o movimento e novamente perguntei, senti que ele corou (talvez já tivesse usado deste subterfúgio com outros antes de mim, não me interessava). Logo, ele me contava uma breve história sobre sua criação e abandono. Notei que acertei quando o defini como de origem camponesa, seus pais o eram, e o entregaram a um bispo que passava por suas terras para a criação. Queriam que ele fosse um grande padre para que pudesse ajudar as pessoas da vila (era uma época em que só o Clero continha o poder de todas as esferas). O bispo, mais interessado no jovem menino do que na intenção, aceitou-o e levou-o consigo. Mesmo abusando dele, acabou por ensinar-lhe os preceitos (os mesmos que não seguia) e anos mais tarde, o levou à Catedral para sua ordenação. Logo em seguida, o bispo falecera vítima de um dos jovens que ainda mantinha, morto por veneno em sua comida. O recém-ordenado não se comoveu tanto quanto esperava. E seguiram assim suas obrigações para com a Eclésia atual. Passados mais alguns poucos anos, conseguira a permissão de voltar à sua terra e prosseguir com a orientação do rebanho local. Voltou e descobriu seus pais mortos, há bastante tempo e isso sim o afetou deveras. Não viveram o suficiente para ver seu filho como o padre que sempre esperavam. Não era comensurável sua obrigação para com a igreja mas em seu coração, algo mudara. Não se sentia um bom padre, um bom homem ou uma boa pessoa e passou então a vagar durante a noite, sentava perto de uma construção abandonada e escrevia suas memórias. Uma certa noite ouviu um sorriso macabro vindo do interior da construção e tratou de averiguar. Parecia que vinha das paredes e de todo o lugar ao mesmo tempo, como se estivesse vivo. Logo, uma figura alta e com uma aparência de altivez insana o encarou, com um largo sorriso na face. - Eu o conhecia, mas nomes não são importante e agora sei o porquê do abandono do jovem iniciado. Era um de nós que não se adequava às regras, um menor, que o Conselho já havia banido e que andara perambulando e apenas dando trabalho aos nossos demais. Porém, mesmo sendo menor, era antigo e consequentemente forte. Abateu todos os que cruzaram seu caminho até que, por fim, a missão foi dada a mim. Pude ver sua felicidade enquanto queimava na pira que fiz com seus restos e sua alma desengonçada pairava rumo ao Limbo. Ele apenas provocava a sua própria morte mas não poderia morrer por si só, suas intenções vis e sujas eram simplesmente um meio de provocar os outros para que, um no final sendo mais poderoso que ele, acabasse com seu sofrimento de viver eternamente. Não fui um herói por isso, nem me considerei, apenas tive pena dele e, passado todo este tempo e nos dias de hoje, em pleno século XXI, é um dos que me lembro com mais clareza de expressão.

Bom, ele havia interceptado o jovem padre e brincado com ele, subjugando-o. Por fim, bebeu dele e o tomou. Deu de beber de seu peito e fez de Íilya um de nós. Ficou com ele tempo suficiente para abandoná-lo antes de ensinar-lhe algo valioso e Íilya ficou à mercê do mundo novo que ainda desconhecia. Com uma certa piedade que não era comum em mim, acolhi Íilya pela história que ele me contara.

Íilya acabou se tornando uma companhia valiosa nos períodos de solidão do meu coração e falávamos sobre tudo. Aos poucos, eu lhe contava histórias antigas e ele, fascinado e com este sentimento que aprendera enquanto estudava, sempre ansiava por mais. Ele era diferente dos errantes simplórios que eu já encontrei pelo caminho, havia cultura nele. E sede de conhecimento intelectual. Muito tempo se passou desta forma e acabamos amigos. Íilya saia todas as noites até as bibliotecas e museus, buscava contato com os intelectuais das épocas (mesmo na era Média, havia alguns a se recorrer) e acabou influenciando muitos outros com suas pesquisas. Claro, sem nunca dar detalhes de onde as conhecia e sem nunca se apegar demais a um ou outra. Eu inveja sua interação com o mundo porque ele acabou sendo meu elo com o exterior. Todas as noites, quando voltava de suas caminhadas, ele contava-me tudo o que havia aprendido e o que havia passado. Durante este tempo eu tive amores, Íilya nunca se importara, porém ele sempre se dedicou à perspectiva do mundo que estava mudando. Enfrentamos muitas brigas juntos durante os séculos que vieram e então, quando já no final do XIV ele se decidiu por partir. Estávamos no final da Era das Trevas e ele via um horizonte, o aconselhei a declinar pois seria perigoso e nossa principal obrigação era sermos incógnitos. Claro, mais na tentativa de que ele permanecesse comigo do que possível, eu sentiria sua falta.

Novamente, tomado por uma piedade que não me pertencia e tendo Íilya como um filho, aceitei sua decisão de voltar ao Clero. Até então, muito eu já o havia ensinado sobre nossos dons e nossas obrigações, assim como o que ele precisaria aprender sobre o que eu já sabia mesmo antes dos seus antepassados nascerem. O levei até Avignon, na França, para que se juntasse aos seus.

Regularmente nos correspondíamos e logo fiquei sabendo que se tornara amigo de um monge beneditino, chamado Pierre Roger, se não me engano. Nunca confessou sua origem, mas eram amigos e conversavam sobre particularmente tudo, Íilya parecia fascinado com as ideias do monge e participava as suas a ele - mesmo sendo um período particularmente delicado para a igreja. Acompanhei de longe o que se sucedera, na época eu já estava no Mundo Novo. Passados mais uns anos, recebi uma epístola de Íilya que dizia que seu amigo havia se tornado a maior autoridade dentro da Eclésia e adotado um novo nome - Passara a ser Clemens sextus, ou Papa Clementino Sexto - e isso me fascinou. Continuei observando e notei como parecia ser uma boa pessoa e pelos seus modos, notei que aprendera muito com meu adorável amigo Íilya. Por fim, sua história estava desenrolando.

Ficamos muito tempo sem nos falarmos até que eu mesmo fui à nova sede da igreja, depois dos conflitos, atrás de Íilya. Não o encontrei. Não nos correspondemos mais, nunca mais soube dele. Mais recentemente, encontrei um amigo (humano, arcebispo) que me sugerira onde poderia estar meu amigo mas, por opção, o deixei e deixarei seguir sua vida. Bastava-me saber que ainda estava entre nós.

Caso esteja me acompanhado, doce, adorável e verdadeiro companheiro, procure-me. Talvez não me reconheça mas neste novo mundo, precisei mudar para me adaptar. Na nossa época era tudo mais fácil porém descobri facilidades também nestes dias. Ignore as regras, como já fizemos e venha ter comigo. Aprenda a sentir o aroma e conecte-se, venha até mim. Ou escreva, preciso apenas ter a comprovação de que está bem e são, que a nova entidade que se tornou a igreja não o corrompeu. Estarei sempre disponível a você, quando você vier. E me perdoe se expus nossa história, desde o começo era a intenção de trazê-lo até mim nesta hora escura em que todos me faltam. Me perdoe.




Yours,

Lean.

Ps: Agora me chamo assim, mudei meu nome mais uma vez. Esperto como você sempre foi, note a inicial, o anagrama e veja que o que falta, é exatamente como você costumava me chamar.


1.15.2012

Confissão número XVIII


Canções costumeiramente induzem-me a declarar, seja parte de minha vida seja algo que ainda não vi. Neste momento elas me remetem à confissões - mais uma vez.

Confesso que nunca fui um bom homem. Nunca amei deliberadamente, nunca consegui herdar esta necessidade de amor. Nunca fui um bom homem e nunca fui um bom companheiro. De todas as mulheres e de todos os homens que tive, poucos consideram-me - excepto aqueles que já eram amigos antes de o sentimento mudar e até para estes me sinto enfraquecido. Talvez eu nunca tenha me esforçado o bastante para ser bom. Talvez tenha pecado mais do que podia. Trai muitos em sentimentos, permanecendo num compromisso que não me agradava mais. Com uns eu construi alicerces duradouros, que nunca foram usados. Com umas poucas eu pensei em procriar e gerar descendência. Bebi da alma de Todos eles e eles sempre souberam disso, nunca se queixaram. Nunca me relacionei com a mentira e desde o começo eles sabiam o que eu era ou, ao menos, o que eu não era. Não era como os outros homens. Para eles e elas deveria ser bem estranho, mas, como alguns são apegados aos mistérios e acham que isso os eleva, acabamos juntos. Digamos que eu era "algo particularmente novo e diferente" para eles.

Nunca lhes faltava nada a não ser carinho, dedicação, compreensão, respeito e amor. Me apeguei à imagem de macho que via em películas e obras literárias e me arrependo agora. Nunca aprendi a ser realmente aquele modelo. Eles sentiam isso, eu sentia isso. Por vezes era violento, agressivo, destoante, incoerente e subversivo mas nunca ousei levantar a mão contra eles. Minhas palavras feriam e meus atos dilaceravam, eu podia ver nos corações. E, a cada dia mais, eu me tornava menor e mais fraco.

O Tempo passamos, nada mudei. Continuo atento a tudo e todos, sempre vigilante, sabendo que isso é uma paranóia herdada pelos Meus neste novo mundo. Sempre achamos que sabem de nós e que ainda estão atrás, à caça. Alguns mais novos optaram pelo anonimato e sombras, eu optei pela luz. Temo ter me corrompido assim. Me aceitei como um destes e agora tenho os hábitos deles, fraquezas deles, receios deles e o medo que eles têm, agora também é meu. Meu mundo de papelão se tornara um Mundo de estanho e ferro fundido que parece tentar me enclausurar contra a minha vontade.

Logo, sou algo que não é homem tentando ser um, completamente equivocado nas ideias. Continuo ferindo e preferindo fenecer a esmo, antes de continuar a matança. Continuo agredindo inclusive meu novo amor, que tem um nome oculto. Peço desculpas e refaço o erro, ignoro, deixo a desejar. Frivolidades tiram-me do eixo. Não há mais desculpas válidas porque não sei mais como fazer, infelizmente.

Continuo sempre sendo meu pior inimigo e mesmo com Harpócrates ao meu lado, me sinto sozinho. Mais uma vez, mesmo entre muitos.

3.23.2011

Temperance

La Temperance (clairehenault.com)











"Transvaser un liquide d'un vase à col large dans un vase à col étroit. Il s'en perd toujours" V.Hugo.

3.17.2011

"Odes Quebradas" - Mescla de Três Faces

Eu sou o Demônio das Três faces.
Sou aquele que corre a Terra à noite,
que caça os sonhos dos desesperados para torná-los reais.
Passo como o Escuro, tenho um estranho poder sobre o Caos.
Sei como é morrer sozinho e viver sem esperança.
De que me vale mil dons, se não posso mudar
o que já foi ?
Sou mescla de Vento, Tempo e Maré.
Sou um foço de Almas perdidas
e desamparadas pela Lua.
Carrego em minhas mãos
a tristeza da Morte Solitária.
Visto meu capuz feito de Estrelas
e calço meus sapatos de míngua ...
Sou o Imortal ferido, cansado das correntes.
Caminho com o Sombrio
despertar do Coração Negro.
Minha Alma de Vento me leva onde não preciso estar,
minha Alma de Tempo me mostra o que não pude nem quis ter e
minha Alma de Maré, arrasta o pesar dos fracassados, todos para mim.
Meu consolo em ser Vento é ser turbilhão.
É gerar fúria em tudo e em todos.
É espalhar por todas as lápides, o quanto sou poderoso.
É padecer só, no longínquo lugar onde ninguém me alcança, ou vê.
Meu único alívio em ser Tempo é saber que um dia irei ser
tudo aquilo que não fui ainda.
É estar aqui e lá, ao mesmo tempo e em hora nenhuma.
É conhecer tudo que foi, quem virá e merecer o julgo.
É consumir-me em conhecimento quisto e absorto e usá-lo em prol de mim mesmo,
afinal ninguém ousa me impedir. Ou tocar !
Meu único conforto em ser Maré é poder me sentir Céu Vermelho,
quando Ele me olha no final do dia.
É saber que começo onde termino e termino onde você precisa de mim.
É vislumbrar a imensidão de mim mesmo, sem precisar de ninguém mais.
É poder amar um e outro, em cada lugar e hora, em todas as vida e desamores ...
Reconhecer que tenho as Três Faces é merecer meu lugar no reino do desconhecido,
que só existe num lugar real,
que aflige somente um ser condenado,
que torna Treva, a existência do real e do imaginário.
Profundo é esse Demônio ...
que possui Três Faces e que acaba por uni-las por simples e pura
obrigação de ser Eterno, Solitário e Obscuro.