Era noite e eu estava deitado, refletindo sobre meu dia exaustivo de trabalho. Cama com lençóis brancos e vermelhos, incenso de mirra queimando e uma garrafa de merlot aberta, jogada aos pés da cama, já pela metade. Isso, umas duas da manhã, aproximadamente, de uma mudança de sexta-feira para sábado.
Sozinho. Absolutamente sozinho. Bebi para poder parar de ouvir e dar valor à minha inapta Necromancia. Ou talvez se houvesse alguém eu não lutava em vê-lo. Passada uma meia hora, ouço burburinhos ao meu redor. Vozes pequenas, que geralmente indicam que vozes reais estão a me chamar e como o local onde moro não é privilegiadamente próximo à exterioridade, tenho certa dificuldade em ouvir se me chamarem ao portão. Ser necromante, nestas horas, é melhor do que ter uma campanhia ou um vigia de portões.
Era. Era meu nome que chamavam incessantemente.
Levantei-me, vesti-me afinal estava apenas com uma cueca branca que costumo usar na intimidade e fui atender. Em desespero, a mãe de um amigo meu que por sinal tinha um irmão menor, pedia por minha ajuda na busca deste. Talvez pela minha (má) fama registrada pelo amigo, ela sugestionou de que eu pudesse ajudar de alguma outra forma que não levando-os à polícia e perguntando a esmo - como todos fazem. Senti pena do desconsolo da mãe e decidi usar da (má) fama, portanto. Convidei-a a entrar e se acalmar, deixei-a no hall de estar e fui até meu quarto.
Não existe entidade mais poderosa neste mundo - nem mesmo eu - capaz de encontrar coisas e pessoas perdidas como o demônio Buer é capaz. Evoquei-o. Precisava. Trouxe-o oferecendo sempre o que ofereço e pedi sua ajuda. Como eu já descrevi anteriormente, as feições de Buer são como as de leão, mas ele pode falar, e possui cinco patas de cabra ao redor do corpo que o permitem andar para todos os lados sem precisar mover a face de posição. Além disso, ele é mestre em Medicina e artes mágicas naturais. Não havia, literalmente, ninguém mais capaz de me ajudar neste momento. Algo que ainda melhora, é que ele só pode ser visto por pessoas especiais - ou seja, somente eu o veria durante sua ajuda, tanto que não houve sequer um petit frisson quando eu voltei de meu quarto, já vestido, com aquela imagem ao meu lado que somente eu podia ver. Éramos nós quatro, Buer na frente, me guiando até onde o menino estaria. A mãe sem entender como eu era tão categórico sobre que posição tomar, o filho mais velho - meu até então amigo - temeroso e o último da fila. Não pudemos tomar o carro, Buer não é afeiçoado à máquinas humanas. Tive de explicar isso delicadamente aos parentes do sumido.
Andamos por aproximadamente oito ou nove quilômetros, entre ruas e ruelas, pistas, planícies e planaltos e por fim, debaixo de uma árvore semi-morta, estava o corpo estendido do menino. Ensangüentado com uma evidente ferida em sua testa provocada por algo maciço. Uns dois quilômetros antes, o próprio menino já nos acompanhava, ciente de sua morte e de certa forma, velando por seu pequeno corpo inerte, vítima, ainda não sabendo do que e porquê. A mãe quando pressentiu, caiu novamente em prantos e o filho mais velho tentou consolá-la. Eu simplesmente considerei meu trabalho feito e, enquanto agradecia a Buer e o libertava do meu feitiço, o filho mais velho veio até mim, interrompendo-me.
- Pára, eu sei que você pode mais do que isso. Você não acharia meu irmãozinho aqui somente por intuição e sei que não foi você quem fez isso com ele, afinal ele também já foi seu irmão mais novo. - Em prantos - Por favor, pelo amor que você tinha por mim e que eu ainda tenho por você, faça alguma coisa por ele. Minha mãe, meu pai, meus familiares e ninguém mais do que eu pode viver sem ele. Você acha justo o que fizeram?
- Acalma-te - Eu pedi - Não trata-se aqui de uma questão de justiça. Trata-se de feito e desfeito. Uma vez eu cedi a tudo por você e levei milhares de anos pra recuperar. Me pede agora para arriscar novamente tudo o que tenho?
- Deixe que o risco seja meu. Eu morreria no lugar dele. Se é o que quer saber, pode trocar. Troque-o, por mim, não é assim que "vocês" fazem?
Voltei-me a Buer, que já chorava.
- Quem nos trouxe aqui esta noite não fui eu, foi um grande amigo que tenho muito antes de seus primeiros pais pensarem em nascer. Ele chora pela morte do seu irmão e chora por ver o seu sofrimento. Talvez ele chore ainda mais ao poder prever o que eu pedirei a ele que faça. Ele é o Mestre no que faz e somente ele, agora, pode me ajudar a ajudar seu irmão.
- Amigo - Dirigi-me a Buer - Preciso da sua ajuda pelo meu grande amor. Tu que és o mestre nas artes médicas, há algo de humano que possa ser feito pela ferida e pelo corpo morto? Da alma eu posso cuidar, sabes.
- Meu senhor - Ele a mim - Há ainda uma maneira mas dependerá mais do senhor. Teu sangue, por sobre a ferida pode curá-la. Minha saliva, pode unir as peças ruídas e o corpo restaurado. Mas será que a alma vai querer voltar?
- Nem que eu precise arrastá-la e brigar com Lúcifer novamente, eu farei. Meu medo é que ele deixe de ser humano, sabemos que corremos este risco.
Eu falava, na visão do amigo e de sua mãe, com um nada sem-forma. Ela, de tanto chorar, já beirava à insanidade então minha preocupação era menor. Ele, por me conhecer e aos meus prodígios, temia, tremia, chorava.
- Ele será um humano diferente, sabes. Mas vale a pena correr o risco? Dependerá somente do senhor - Foi a decisão de Buer.
- Vale, comecemos.
Em direção ao corpo, afastei a mãe e pedi que seu filho mais velho a acolhesse. Com a unha do anelar direito, cortei parte do meu sistema venoso do antebraço esquerdo e deixei que algumas gotas de sangue fluíssem até diretamente a marca protusa da contusão que havia sido criada na face tão imaculada da criança. Vítima. Em questão de segundos, a ferida fechou e o sangue parou de escorrer. Buer veio em nossa direção, sempre sem se virar e com sua língua enorme e grossa, lambeu a ferida. Sua saliva com meu sangue reconstruíram toda a deformidade que havia sido criada. Pronto, corpo refeito. A alma acompanhava-nos sempre surpresa por nunca imaginar tal feito. Virei-me pra ele e perguntei:
- Você quer voltar? Não pela sua mãe ou pelo seu irmão, mas por tudo o que você ainda pode fazer? Ou prefere descansar como um doce anjinho ao lado do seu Senhor e de seus pais? - Ele ficou em dúvida por alguns instantes - Mas não temos muito tempo, logo, meus irmãos virão buscá-lo e não podem me ver aqui, fazendo o que estou fazendo.
Ele só meneou a cabeça, afirmativamente. Pedi sua mão e uni à mão do corpo sem vida. Cantei uma música antiga de uma só nota, os humanos não puderam ouvir, Buer continuava a chorar.
- Mi Lorde, desde mil anos não o ouço. Desde aquele outro que o senhor trouxe. - Falava, chorava, rugia de uma forma ensurdecedora - mas os humanos não ouviam ou viam aquela belíssima imagem.
A criança deu alguns espasmos, abriu os olhos e chorou. Levou a mão à testa e chorou ainda mais. A mãe e o irmão mais velho o abraçaram tão fortemente que temi pela vida da criança novamente. Ambos, ajoelharam-se e declararam seu agradecimento a mim, eu, recusei. Disse que não fizera tudo sozinho e que se deveriam agradecer a alguém, este alguém era a Seu Deus e não a mim. Deixei-os sozinhos, aos prantos e retirei-me, caminhando com Buer. Não me virei sequer.
No caminho de volta, pude andar na minha velocidade então em menos de dois segundos já estava de volta. O demônio ainda me acompanhava, o agradeci imensamente e suas palavras foram as mais humildes possíveis sobre como amigos ajudam amigos. Por fim, ele se virou e partiu do meu encantamento. Tomei nova ducha e voltei à minha meia garrafa de merlot, isso já quase clareando o dia.
Quando o sol nasceu eu já não via mais nada, adormecido.
***
Não mais vi a família, soube que se mudaram do bairro. Talvez por medo, talvez por medo de mim. O meu velho amigo e outrora amante ainda tenta se corresponder comigo por emails mas eu ignoro. Aprendi a ser sozinho e para aqueles que não me compreendem e me temem, eu só tenho meu lamento. Não gosto de aparências falsas. Meus amigos de verdade estão em toda parte, basta que eu os chame. E eles a mim, sempre.
FIM.