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5.03.2014

Dor póstuma



Finalmente eu conheci a dor que, frequentemente, impunha a afligir aos meus.

Passado este tempo em que não escrevo e tantas coisas quanto possíveis aconteceram, eis que retorno ao seio da Solidão que é mãe. E ao conforto do Desconhecido, que é o pai. Estou perdido, finalmente reconheço, mas ainda mais trágico é perceber que não há disposição para ajudas. Provavelmente se trata de karma – se eu acreditasse em GUZEN, o que não acredito – e assim preciso afirmar porque se nalgum momento cogitar ser punição pelo que já havera feito, então, meu pobre mundo, hei de sofrer ainda exponencialmente mais do que já sofro e também, hei, de descontar no mundo em que piso até então.

Não haveria mais dia iluminado ou noite calma uma vez que eu libertasse cada um dos meus demônios. Não haveria paz quando eles atravessassem o primeiro dos nove portões do Inferno, dali em diante. Voltaria a crer num mundo de papelão que precisa ser esmagado. Reconheço que muito laborei para chegar a esse momento, o da possível Redenção, porém não questionei a maneira que ela se achegaria a mim; em qual momento, sob qual circunstância.

Expeli cada um dos que me acercavam para um mundo brutalmente agressivo e desconcertante, pari dores inenarráveis, engendrei bestas que devorariam apenas com um olhar, partilhei da miscigenação de medos e angústias. Feri e, portanto, fui ferido. É a tal necessidade de se sentir vivo que nos considera a violência para com o outro. Necessidade, orgulho, medo. Perdi tantos bens quanto possível seria contar, perdi a pessoa mais importante da minha vida e pela qual meu mundo desde então se reduziu ainda à uma menor gama de cores, odores e sabores. Ganhei novos medos, receios. Não é um troca justa final mas valeu para me trazer até este ínterim reflexivo irrelevante.

Não há mais prazer em nada do que faço ou crio, em mais ninguém e acredito que por essa perda da fascinação do mundo as pessoas estão me deixando e partindo. Ou isso ou minha evidente fúria, lógico. Minha condensação de centralidade racional me deixa ao passo de que meu cataclisma emocional se eleva, a passos largos inclusive. Meus temores agora tomam forma física neste mundo e se tornam mais perigosos, não somente pelo que podem fazer a mim mas pela falta de autoridade com que lido com eles agora. Coloquei-me aos pés da Morte e ela ainda assim não quis me levar, engraçado, não?

Durante boa parte da minha existência me vangloriei de estar liberto do conceito da moralidade e, agora, vejo que estava mais enraizado a isso do que jamais poderia imaginar. Talvez o Destino seja afiado também aos deuses, eu desconhecia essa possibilidade, afinal. Simplesmente me sento à margem do mundo agora, sem ninguém com quem possa contar ou conversar, dilapidando minhas ações futuras, concorrendo com o Tempo na medida em que passamos sem levantar rastros. Aqui então minha maior perda: passei tanto tempo evitando o mundo que, quando infelizmente fui tragado para ele mal meio século após, sou repelido naturalmente. Será que o mundo de hoje tem uma particular 'imunidade' a nós? Não seria uma surpresa. Os homens andam pequenos, os sentimentos ainda menores, as ações então, nulas. Mesmo não sendo um homem me caracterizo também com estas mesmas vestes. Meu medo e minha força me reduziram então a não ser mais adorado? Como quando acontece aos deuses pelos quais não oramos mais, hei de desaparecer? Fácil assim? Seria perfeito.

Há algum tempo disseram-me que "quanto mais próximos dos deuses estamos, mais sujeitos aos demônios e tentações nos colocamos" e vejo que estavam certos. Nada ofende mais à Realeza do que algo que se aproxima, sem ter tido a noção fundamental necessária para tal. Nenhum professor gosta de ser corrigido por um aluno, isso é evidente e talvez funcione assim neste mundo todo. Nenhuma evolução pode ser rápida demais ou agressiva demais a ponto de se mostrar como ameaça.

Bom, comecei a divagar onde não deveria. O que sucede é que à minha maneira alheia de ver o mundo, logo não estarei mais nele. Os preparativos estão sendo feitos já, mas ciente de que isso não importará muito. Quem nunca teve companhia em vida não a terá na morte, mesmo esta última sendo mais duradoura. Se bem que, quem nunca desejou companhia em vida por que a desejaria após?

Gostaria de pedir perdão aos humanos que eu magoei e feri, agredi, esqueci, brinquei, descartei, desejei, machuquei física e emocionalmente, enganei e por fim, devorei. Eu realmente sinto muito. Mas vejam pelo lado vingativo: estou sofrendo dez vezes mais do que vocês agora. Considerem então meus pecados para com vocês recompensados com minha punição severa e eterna de agora em diante.




A maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero. Henry David Thoreau

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar das fontes igual à deles;
e era outro o canto, que acordava
o coração de alegria
Tudo o que amei, amei sozinho. Edgar Allan Poe


11.02.2013

Dia Dois - Sonhos


Estávamos meu avô e eu, o que eu perdi há aproximadamente nove anos, sentados em um sofá. Ambos ríamos, ele me contava algo, parecia quarenta anos mais jovem (ele falecera aos setenta e seis anos de idade). Acordei com meu terço de prata embolado na mão esquerda, sem saber como ele fora parar lá.

∞

Havia uma grande sombra negra, alada, seis pares se não me engano, bem defronte a mi. Elevada, a uns seis pés de altura, enorme, exaltada, ameaçadoramente infringindo em mim, medos. Por um instante eu cedi e encolhi, mas, recobrei minha essência e ascendi à mesma altura, desgarrei meus trinta e seis pares de asas cobertas de olhos e encarei a sombra. Ela não parecia tão assustadora neste momento. Ela vergou suas asas, como uma concha e se tornou etérea. Eu a assombrei quando verguei as minhas ao máximo e por um instante parecia que do espaço se veria a sombra que eu causei graças a este esforço. A sombra se fora, eu retornei a mim.

Despertei.

∞

Estava em um campo aberto, com o chão coberto de barro e lama, uma dama loura, alta e elegante falava comigo sobre alguém ao mesmo tempo que me encarava e intimidava. Era a Morte. Não a figura da morte, encapuzada e esquelética. Era a Lady Morte, a que fora criada pela mão dEle, antes de tudo. Ela portava uma foice de cabo preto e lâmina prato-cristalizada, falava comigo no nosso antigo idioma e não me ameaçava diretamente. Falava comigo sobre um homem – que supondo eu deveria conhecer – e aconselhava-me sobre ele. Recordo do nome mas não crio expectativa de saber quem é, o único homônimo que conheci jaz há alguns anos e era um dos meus melhores amigos nesta vida. Lembro que num acesso dela, por eu não reconhecer, decidiu um duelo. Ela com sua foice, eu com uma extremamente semelhante, como uma sombra, apenas sem o brilho e a magnitude da que ela própria portava.

Ela estancou para cima de mim, desviei, ela sorriu. Dissera algo sobre eu não haver mudado muito desde “aquela época”. Novo ataque, novo recuo meu, nossas foices se encontraram e o ruído abriu uma tormenta no chão de barro e lama. Ela, se aproveitando da distração, se mesclou à sombra, no chão e tentava me imobilizar. Ciente e destro, usei o bico da lâmina prato-fosca da minha foice para pregar aquela sombra ao chão e foi onde eu venci. Selei sua sombra, com a ponta da lâmina.

Não havia mais foice, a Lady estava defronte a mim, sorrindo, me incitando a recordar do nome e fazendo uma reverência como quem termina um duelo.

∞

Estava com uma vassoura em mãos, percorrendo meu apartamento novo. Não recordo se a vassoura estava fazendo o seu trabalho, mas havia uma quantidade de insetos razoável.

Acordei perturbado.


Dia Um - Sonhos



Era um momento especial. Havia ele, havia eu, havia uma câmera de fotografias, havia uma intenção além do que o romantismo seria capaz de conceber. O romantismo deste insignificante ser, conscientemente falando, afinal quem troca o próprio coração por um pedaço de pão velho e meio copo de vodca não estaria habilitado a compreender. Bem, psicanálise e terapia de autoconhecimento a parte, era um belíssimo sonho. Durou pouco, o bastante para ouvir (e sentir):

- Cola aqui.

E nos aproximamos, eu sobressaltado pela ideia, ele a par do que pretendia. Neste momento, ele me beijou e havia sorrisos entre os lábios colados.

Com a voz entrecortada:

- O que você está fazendo?

Sons de cliques da câmera sendo disparada.

- Tirando fotos, registrando o momento. Tirarei quarenta fotos e postarei todas, em todas as redes sociais. Assim, as pessoas verão o quanto eu amo você, não pela quantidade de fotos, mas pelo ato simbólico.

Tiramos as quarenta fotos nos beijando. Eu acordei. 


∞ 


Éramos em quatro: ele, eu, um rapaz mais novo e uma menina. Conversando e decidindo como chegaríamos (não sei onde) e definimos que iríamos a menina e eu, em uma moto, ele e o rapaz, em outra. Provavelmente apenas nós dois sabíamos pilotar. Em um átimo de segundo, por estarmos em um campo aberto, uma abelha ferroou o rapaz mais novo. Ele ignorou até então, montamos às motos e partimos. A viagem durou cerca de vinte ou trinta minutos, durante o caminho, o ferrão da abelha preso ao corpo gerou uma reação anafilática no jovem que não poderíamos prever. Uma intensa reação, ele chocou, eu não teria como saber ou ajudar, não pude observar o prurido do ferrão e estávamos em motos diferentes.

No dia seguinte foi o velório dele, estávamos todos.

Acordei sobressaltado deste sonho.


9.27.2013

Last Hallucination - Schwarz Stein


Last Hallucination

O jardim florido, suavemente murcho e adormecido
E o banquete quase congelado
Eu deslizo meus dedos pelo ar estático
Está na hora de eu ir...

Volto meu olhar para o céu
Ainda distante do fim deste sonho
E sem voltar para casa
Eu corro...

Deixe as pétalas de flores caindo
Queime pela eternidade
E lembre-se, eu sempre estarei com você
Em um sonho inacabável

Eu volto meu olhar para o céu
Ainda distante do fim deste sonho
Sem voltar para casa…

Deixe as pétalas de flores caindo
E queime pela a eternidade
E lembre-se, com você
Em um sonho inacabável

Então lembre: o jardim um dia acordará
E até o próximo sonho…
Até nos encontrar-mos novamente…




6.12.2013

Vinho; e a estranha sensação de que não há verdade numa taça e sim hedonisno


Houve um sonho recentemente que envolvia estranhos sentimentos. Perturbados até eu diria. Confesso que a confusão deriva-se da necessidade de consumar algo que ainda não fora, mas que, simultaneamente, sabemos que não devemos. Após uma conversa breve, eis que a permissão para contá-lo havia sido dada. Talvez não o desenhe mais com tanta exatidão, ater-me-ei aos fatos mais interessantes.

Era começo de noite, mas, com uma certa cor crepuscular pareando com o horizonte. Algo belo de se ver, que costumamos esnobar por ser tão efêmero. Havia uma enorme janela colonial de vidros delicados, por onde Nix era aguardada e observada. Do lado de fora, um enorme ipê-roxo exalando seu aroma inebriantemente tóxico, uma relva baixa e um pequeno lago ao fundo. Uma típica casa semelhante àquelas do interior dos países bascos, mas, pela flora identificado como não pertencente aquele local. No interior, móveis singelos, de madeira clara e cheirando a chá de condoendro. Notas músicas saiam pensativas e envergonhadas do aparelho de som, Ingrid Kertesi - a soprando - cantando Händel de forma divina. Sob a janela, no interior, dois homens conversavam, enquanto jogados na cama de lençóis vermelhos e, aparentemente, nus em pelo.

Havia uma intimidade palpável entre eles - não só pela questão de estarem nus, não - que chegava a impressionar. Eles eram amantes mas acima de tudo, amigos. Notava-se pela forma carinhosa que um falava com o outro e como um olhava para o outro. Eram ligados por mais do que apetite e isso era evidente. Após uma pequena afirmação que fez os dois gargalharem, um deles levantou-se da cama e, ainda nu, dirigiu-se até uma pequena mesa marmorizada que havia em um canto, tomando duas taças altas rubras e uma pequena ânfora, encaminhando-se de volta à cama e servindo-os então de vinho, que o outro acabou tomando. Poucos goles e ambos colocaram suas taças no chão, paralelo à cama e então, o que havia permanecido deitado aninhou-se no peito do que havia levantado.

Então a noite caiu por vez toda, cobrindo aquelas terras com seu manto e sua proteção. Não que eles precisassem, mas, deveras belo de se acompanhar.

Após um breve sono, o que estava aninhado deitou um beijo no peito do outro, despertando-o com sua delicadeza. O outro acordou sorrindo e retribuiu o beijo, elevando sua cabeça até sua altura, na cama. Da forma como os amantes fazem, os beijos delicados deram lugar a algo mais sensual, caótico, desesperado e num frenesi inconstante de lábios, línguas e mãos. Logo, o primeiro estava por sobre o corpo do outro, enquanto suas mãos abriam caminho para sua boca, no corpo alheio. Percorrendo cada espaço conhecido e desconhecido, cada pequena dimensão, lascivamente saboreando aquela carne e deliciando-se com aquele cheiro.

Com o limiar da tentação sendo alcançado, o primeiro então colocou o segundo numa posição confortável na cama, deitado com seu dorso apoiado em sua mão, espalmado bem acima do cóccix e o admirava por cima. Admirava seus olhos desejosos, sua boca delineada, sua pequena interrogação marcada no peito. Delicadamente pressionando sua intimidade com a própria e sentindo então a pulsação que deriva de corpos apaixonados. Tomado por aquela necessidade de consumir (então descrita anteriormente), ele suavemente ajeitou seu parceiro, apoiando bem sua sinistra espalmada e com a destra, tateando a coxa rija e exercendo sobre ela uma pressão para ajustá-la à sua recepção tranquila.

Naquela posição, inicialmente, o outro fora possuído, olhos nos olhos. Altercando calma e severidade, gemidos, risos abafados, pedidos, suor e saliva. Então, outras posições foram adotadas e em todas, a intensidade estava presente. Longos momentos se passaram até que, como que magicamente, ambos chegaram juntos ao ápice do prazer e misturaram suas essências. Com menos agitação, postaram-se um ao lado do outro e então sorriram, como se esperassem por aquele momento já há algum tempo. Tomaram mais de suas taças e se preparam para a longa noite que ainda estava por vir.

Provavelmente, esqueci-me de algum fato. Essencialmente, o que me recordo era isso. Talvez pela minha inconstância insone eu não tenha o aproveitado mais e agora me arrependo. Teria sido válido retomar o sonho, lógico. Quisera eu poder fazê-lo. Contei os fatos como me recordava, mesmo tendo sido uma narrativa breve que deixo agora, portanto, à sua avaliação.



3.26.2013

Do que se trata um sonho se não há Felicidade nele?


Era noite, como é agora, porém ontem. Ou anteontem, não me recordo. Chovia, também.

Estava eu a perambular pela minha própria vida, começando a adormecer - ao menos eu achava que estava. Pensei em como as coisas podem fugir do nosso controle e como as pessoas em si são efêmeras em nossas vidas. Ou não são, e nos levam a fazer loucuras por amor ou ódio. No meu caso, pelos dois.

Tinha um livro em minhas mãos, se bem me recordo. Ou era uma adaga? Tudo está tão caótico na minha lembrança agora. Havia um aroma que me perseguia e ainda não consegui descobrir do que se tratava. As Damas-da-Noite estão florescendo, provável, já que a Lua está para mudar.

Lembro-me de deitar em minha cama e lágrimas desciam-me aos olhos, mas não eram lágrimas comuns, havia fogo nelas. Um fogo líquido que eu já mencionara antes. Sentia minha pele arder e meu coração inchar como um balão de festas de aniversário. Lembro ainda de colocar os fones de ouvido e me propor a adormecer ouvindo alguma canção, era cedo ainda. Logo o sono chegou.

Durante o sono, me vi sonhando com a perseguição. Como um lobo segue sua presa pelo inverno europeu. Eu era o lobo, voraz e sedento não pela carne mas pela alma dele. Depois eu era como um corvo que o seguia apenas para agourar sua vida. Então eu era um verme gigantesco que se deliciava com sua carne morta, deitado no caixão ordenado. Por fim, eu era o demônio que exigia sua eternidade.

Recobrei a consciência, eu era homem novamente e estava à porta de alguém, não sabia exatamente quem até chamar pelo seu nome involuntariamente. Lembro da cor da sua varanda - verde-água - e de grades brancas que subiam na altura da cintura acima. Lembro que havia umas pequenas mudas de rosas em um canteiro e um cheiro de laranja-da-terra, barro, crisântemo e jasmim. Chamei seu nome novamente e eis que, àquela hora da madrugada, ele me atendeu, aturdido e desacreditado. Aproximou-se de mim, ao portão, questionando minha presença. Pedi o convite para entrar, ele hesitou. Pedi novamente e ele cedeu.

Daqui em diante só me recordo de cenas e um borrão inunda minha memória: com a velocidade de um ciclone eu entrei, agarrei-o fortemente, imobilizando seus movimentos. Beijei sua boca ferozmente e contra à sua vontade, desci com minha língua até seu pescoço e uma veia pulsava, quase que chamando por meu nome. Rasguei sua jugular com minhas presas e bebi até me fartar e engasgar, enquanto sua própria vida escoava e se juntava à minha. Bebi parte do seu cerne, mas o deixei ainda consciente - um pouco, queria que ele testemunhasse o erro que foi me convidar a entrar. Arrastei-o até o interior de sua casa e o movimento fez com que sua família se exaltasse. Na mesma velocidade, quebrei o pescoço de sua mãe com um gesto simples, para que não sentisse dor e rasguei seu pai do abdome para cima, após enfiar minhas unhas em suas vísceras e dilatá-las forçadamente. Havia sangue por todas as partes, isso colocou-me em frenesi. Levantei-o, o pouco que sobrara da sua vida e o beijei novamente, forçando seu pescoço para estancar a hemorragia já que minha intenção era beber ainda mais, de lugares diferentes, e assim o fiz. Bebi do seu peito, do seu pulso, da sua coxa, da sua boca e voltei à jugular. Já exangue, seus olhos se tornaram pálidos e enevoados, sua boca não mexia, completamente destroçada pelo meu beijo. Para não dizer que ele se foi sem dizer nada, uma única frase soou de sua boca, com muita fragilidade: "- Eu ia amá-lo, se tivesse me dado tempo". Eu sorri abertamente, quase como um monstro. Mais, exatamente pior que um monstro e mais alto que um demônio faria. Segurei novamente seu corpo e me juntei a ele, agarrando-o fortemente num abraço culposo.

Então despertei, exaurido do sonho e temeroso, nauseado e com dor de cabeça.

Porém, ao despertar, continuava a sentir aquele aroma inebriante e ferroso. Olhei as horas no despertador, quatro e quarenta e seis, tiquetaqueando. Levantei o lençol e pretendia ir ao banheiro jogar uma água gelada no rosto quando senti algo úmido. Passei a mão ao longo da cama e havia algo desconfortante lá. Acendi a lâmpada do abajur e eis que o corpo estava deitado junto a mim e a cama era uma sopa de suor e um pouco de sangue - o que havia coagulado dele.

Nada daquilo era sonho. Eu o matei e fiz com prazer. Matei seu corpo, sua familia, sua alma e seus sonhos e nada me deixou mais feliz. Voltei a dormir, deixando tudo como estava, mas agarrado ao cadáver como um boneco.



"Quando um louco lhe parecer completamente lúcido - eis a hora de colocar-lhe a camisa de força."
Poe, E. A.

7.21.2012

Nothing compares to You


Sonhei com você noite passada, novamente. Vi sua estrela, suas asas, seu violino. Vi tudo em você que me completava. Revi nossos momentos juntos - os sexuais e os emotivos - e chorei quando acordei. Não havia imperfeição, até que meus amigos interferiram em meus sonhos. Logo, você se tornou uma sombra etérea que me perseguia e precisei de feitiços para me livrar de você. Até os deuses estavam lá, alguns deles. Lágrimas, eram muitas.

Meu ego o livrou de mim?

Como eu amava esta estrela. Como ainda a amo. Como não posso passar por certos locais que me lembram você e como meus amigos, ao se recordarem de ti, ainda me ferem pois, não posso dizer a eles o que realmente aconteceu. Como eu pude ler que você "procurava um casamento" e que um "Lisso" poderia ser o seu fortúnio! Oh, deuses, porque me apego à coisas que não existem buscando fundamento para o que existe? Escrevi - e escreverei - minhas memórias aos mortos.

Quando acordei, eu vi isso e me emocionei porque desde ontem sinto uma vibração no ar.


Nothing compares 2 U - Sinead O'Connor

It's been seven hours and fifteen days
Since you took your love away
I go out every night and sleep all day
Since you took your love away
Since you've been gone I can do whatever I want
I can see whomever I choose
I can eat my dinner in a fancy restaurant
But nothing, I said nothing can take away these blues

'Cause nothing compares
Nothing compares to you

It's been so lonely without you here
Like a bird without a song
Nothing can stop these lonely tears from falling
Tell me, baby, where did I go wrong?
I could put my arms around every boy I see
But they'd only remind me of you
I went to the doctor and guess what he told me?
Guess what he told me?
He said: girl, you better try to have fun
No matter what you do
But he's a fool

'Cause nothing compares
Nothing compares to you

All the flowers that you planted, mama
In the backyard
All died when you went away
I know that living with you, baby, was sometimes hard
But I'm willing to give it another try

Nothing compares
Nothing compares to you

E isso foi EXATAMENTE o que aconteceu comigo. Lógico, isso e outras tantas desarmonias. Eu ainda o amo, sempre amarei. Mas o esquecerei, como sempre os esqueci. Falo pelos outros seis e principalmente por Olívia, que ainda teme este amor comprometer minha sanidade. 


Olívia, minha cara, eu já sou louco. E como diria Harpócrates "- melhor um louco que ama do que um são que nunca conheceu o amor". Tu teme amar, eu sou teu oposto. E estou com uma vontade insana de raspar minhas cabeça!

Por ti, amarei. 
Por ti, sofrerei.
Por ti, calarei.
Por ti, mandarei minha razão à Casa do Tolo.
Por ti, ALWAYS.


6.07.2012

Sonhos, pt VIII


Tenho medo do que escrevo porque me substanciam ao desespero. Desperto, insólito, após um sonho estranho de vergonhas e destinos cruzados. Quem era aquele que eu tomei durante a noite?
Lembro-me do seu calor e da sua falta de pudor. Recordo-me do atrito. Não era aquele que eu perdi, era outro. Outro que meus Basanos não me afirmaram ainda quem possa ser. Fechei-me aos olhos da corrupção emocional, desde a última e quero que seja assim. Amor com amor se vende, se troca com dedicação, mescla-se à emoção mas não sobrevive sem perseguições.

Formas e palavras vem e vão, intactas. Minha mente se conforta em lembrar não em sentir. Beber de ti como um sifão.
Ora a chuva cai ora permanece somente em mim, meu coraçãozinho negro e morto se exaspera. Sinto um suave cheiro de mudanças que estão para acontecer.

Dos meus sonhos nada trago a não ser a dor de ter de acordar.

3.31.2012

I dreamed with your betrayal


Não é algo que deve ser compartilhado, tampouco ocultado. Sonho é sonho e esperemos que nada mais. Mesmo sendo alucinante e carregado de sentimentos loucos e possessivos, um sonho. Não foi o primeiro e nem haverá de ser o último, não até que o sentimento seja novamente preenchido de paz e consideração.

É o que eu mais desejo neste momento.


1.12.2012

Tecido e Violino


Na manhã de hoje, ao despertar de um sono sem sonhos, eu concretizei um antigo adágio pessoal. Me abstrai num preview do que ainda está por vir e confesso que me excitei deveras.

Passada a noite sem algum presente de Ikelus ou Phantasós (ou seja, sonhos), me senti desnorteado ao rever aquela cena em minha memória tão volúvel. Levantei da cama, me deitei novamente, senti os arrepios me subirem o corpo ainda oculto por tecido e seda. Tornei a levantar e tentei desenhar o que via, para não perder o momento. Como exímio escritor, sou claramente, um péssimo desenhista e dos borrões que permaneceram nas páginas mal pode-se notar as imagens do tecido e do violino.

Havia um homem deitado de bruços, apoiado nos antebraços, completamente nu, perpassado em áreas vitais apenas por um suave lençol branco que ao cobri-lo, seguia percurso e moldava-se a um outro homem, também nu, sentado à margem da cama com este lençol envolto, enquanto tocava seu violino amargo. O deitado observava o sentado, placidamente a contemplar e emocionado com cada nota que fluia do instrumento. O violinista nu se sentia tão orgulhoso por estar ali quanto seria possível. O ouvinte nu corava ao sentir a provocação da música. Havia sido uma noite formidável para ambos, quando ao se descobrirem, descobriram um ao outro inclusive.

Toda esta cena durou intensos momentos mas não passou de doze segundos no mundo real. Lembro do cheiro do violino ao pleitear atenção dos deuses, tocando o Gorjeio. Lembro da textura do tecido. Lembro do aroma do homem deitado e, acima de tudo, lembro da felicidade que era estar ali. Passei o dia a revê-la em cada segundo disponivel, tentando reabsorver aquela magnitude. É interessante como num espaço tão breve de momento a gente possa se sentir tão completo.



Uma pena que começou apenas como uma visão, quiçá poderá vir à realidade algum dia.


6.03.2011

Hypnos

Novamente aquele sonho. Posso sentir ainda o gosto do sangue do velho homem em minha boca, acariciando minha língua lasciva, me tomando ao êxtase como sempre acontece. Novamente no cemitério,  cruzes, aromas peculiares, criptas malacabadas e aquela sensação funesta conhecida. O velho recém-criado e abandonado, tanto que não conhecia nossas fraquezas e nossas forças, o que me remonta sempre a questionar quem o poderia ter criado. Provavelmente algum ser inferior, um espectro, prestes à se esvair e de alguma forma nobre tentando deixar um Legado que ainda acredito eu, não ter sido completado a tempo.
Lembro claramente do medo ainda humano estampado na face do velho. Um velho comum, como se o ultimo recurso de um irmão tenha sido este, nada de especial. No sonho eu precisava revelar sobre nosso dom oculto no sangue e a forma com que nos conhecemos uns aos outros assim. Nesta parte me volta o gosto daquele sangue ralo, incoerente com imagens infundadas de orgulho ferido e megalomania indecente. Lembro inclusive de ter de ensinar os sentidos básicos a ele. O que me deixou desperto no sonho foi que ele me reconhecia, mesmo nunca tendo sabido de mim.

Talvez algo que tenha ido impensado no sangue do seu criador. E mais, ele conhecia meu nome oculto-sombra. Sabia que devia respeito e temor, sabia do meu próprio grande poder e conhecimento, era infantil até neste ponto. Estranho como ele sabia tanto de mim mas tão pouco do que havia se tornado, assombrando túmulos à vespertina, arriscando a si e a nós de forma tão brutal.

No mesmo sonho havia choro de criança, talvez uma das minhas muitas vítimas mas algo que me ligava ao ambiente.

Nunca fui ao estilo 'Carpe Noctem', diga-se de passagem, logo este caminhar por entre símbolos de minha passagem não me competem algo de glorioso. Au contràire, justamente me incentivam a me moldar com a nova era. Como já dissera, tenho uma grande dificuldade de esquecer velhos hábitos mas da mesma forma me adapto à nova necessidade. Por acaso alguém estipulou que para adquirir novos conhecimentos precisamos esquecer os antigos? Creio que não. Seria impossível, no meu caso.

Bom, no sonho eu ouvia, agia, ensinava, bebia e martirizava sentimentos aleatórios. Brincava com os medos dos vivos e ateava terror à tranquilidade dos mortos. Erra quem pensa criar uma linha entre o que há de vivo e de morto, eu sou a prova disso. Erra além quem acha que uma esfera não pode interferir na outra e erra brutalmente quem desconsidera o poder por si só, extrapolando todos os limites tangíveis. No sonho. Ou talvez real.

Tenho assumido um nome recente, não um formal eu digo, destes que costumo usar para poder caminhar de certo livre mas um nome que espelha algo que eu aprendi nesta vida corrente: Icelus, conhecida entidade grega do pesadelo, irmão de Phantasós e Morpheós e todos filhos de Hypnos (segundo Ovídio) ou de Nyx (segundo Hesíodo) - na minha concepção sobre deidades, ele é algo inato, oriundo ou derivado da própria inexistência e paralelo à Phobos e Deimos primordiais - e acho que este nome está me ajudando a entender o que se passa em meus sonhos.

Com base no que tenho visto e sentido, temo meu próprio futuro. Ecos de eras passadas me assolam e talvez por tanto aprender e tentar me incluir penso que estou adquirindo a maior -ou pior - consequência do carater humano, a Consciência.

O que mais me faltaria? Começar a amar verdadeiramente? No dia que eu me aproximar disso exijo ser castigado violentamente por todos os deuses que me servem!