11.28.2012

Saída do trabalho


19:35 - Hora de deixar o trabalho.

Já havia passado mais de quatro horas do meu expediente normal, mas, por problemas internos não consegui deixar de cumprir minha missão profissional. Enfim, sai. Dirigi-me ao banheiro, lavei as mãos, hidratei-as e segui em direção às escadas. Cumprimentei alguns colegas, expliquei a diferença entre Buscopan e Buscofen a uma recepcionista e segui em direção ao coffe shop - local de saída especial da diretoria e chefes de setores.

Sai em direção ao estacionamento, destravei o carro - uma Pajero - e entrei. Joguei a bolsa literalmente de lado, no banco do carona, fiz uma ligação que não deu resultado e girei a chave do carro. Peguei um retorno para seguir à minha casa, coloquei um pendrive com músicas que costumo ouvir para relaxar (Sigur Rós, Sheila Chandra, Aimee Allen, Sarah Mchlaghan, Sade, Irfan, Caprice, Daemonia Nymphe e afins), o cinto de segurança e sai do hospital. Desta vez, até o dia seguinte. Troquei algumas mensagens pelo celular enquanto ouvia música e simplesmente abstrai. Sequer notei que meus amigos estavam comigo, no banco de trás, me incentivando depois de um dia dificil. Desculpei-me com eles e me despedi deles: minha cabeça doía demais para manter laços espirituais àquela hora.

Durante todo o trajeto de volta, pensei em você - principalmente nos túneis. Traduzindo as músicas em islandês da banda Sigur Rós, parece que só ouvia seu nome. Por várias vezes perdi a concentração ao volante e precisei me reestabelecer. Chorei, bastante. Sorri, algumas vezes quando me lembrava de fatos engraçados. Peguei um tráfego intenso na volta pra casa mas finalmente cheguei. Com um aperto no coração pois sentia que faltavam algumas coisas: alguém me esperando, comida pronta, alguém pra ajudar no banho, fazer uma massagem, ouvir sobre o meu dia extremamente cansativo e arriscado e um gato enroscando em minhas pernas.

Não havia ninguém, a não ser os mesmos amigos que dispensei pela estafa mental mas que me acompanharam.

Agora sento aqui e descrevo como simplesmente tudo teria sido diferente se eu tivesse para quem voltar...

11.20.2012

Minotauri e sua expressão, algo que não tenho conseguido


Havia um mito sobre uma Fera selvagem devoradora de homens que se espalhou feito fogo por todo Ocidente, há muitos anos. Para provar as idéias dementes de um rei cujo nome não convém. Um rei de falsas mentiras e verdadeiros castigos.

Meu povo, que viveu durante este tempo e sempre viverá, pode contar a verdadeira história.



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Sabe-se que o rei Minos era conhecido por sua violência e sede de mulheres. Sabe-se também que já havia sofrido vários castigos dos deuses, porém, o que ele não esperava é que um destes afetaria sua vida para sempre. Após uma discussão acalorada entre seu séquito - que o consideravam um deus - Zeus, nosso irmão, puniu-o não a si, mas fazendo com que sua esposa preferida se apaixonasse pelo seu melhor touro.

Na época, Dédalus - o Grande - já criava junto com seu filho, Icharós, e a rainha pediu que o inventor a criasse uma vaca de metal e madeira, para consumar seu amor pelo touro 'disfarçadamente'. Pois assim Dédalus fez e a rainha conseguiu o que queria, amendrontada, mas sublime, como Zeus queria punir o rei.

- entre os deuses eram comuns as histórias de cópulas interraciais, como Cibele, Diana e afins, mas entre os humanos ainda não.

Como forma ainda de punição, a rainha engendrou tal criatura que ao nascer, gerou repugnância no rei, achando que era sua cria que havia dado errado. Mandou Dédalus criar uma prisão para a criatura, chamada de Minotauri posteriormente (Minos = o rei + Tauri = touro). Esta criatura cresceu nas sombras de um labirinto escuro, vazio e sem sentimentos e por hora, tornava-se insano. Como fonte de alimento, seu lamentável 'pai adotivo' lançava homens, mulheres e crianças ao foço onde seu filho vivia para que, com sua fome e ira, pudesse devorá-los. Não era intenção dele, claro, mas não havia outra escolha. Lembro-me que durante muitos anos antes de se tornar adulto, ele tentou viver das algas pútredas que nasciam na caverna e antes, Dédalus, na construção do labirinto, deixava comida para que ele a achasse. Mesmo assim, seu corpo era grande e precisava de nutrientes, ele tinha o dorso e membros de homem porém com a face e chifres de touro - o que inclusive o impedia de falar.

Quando já adulto, alguns deuses se compadeceram dele (coisa que a história contada pelo ocidente, omite), incluindo Apolo, Afrodite e um Outro - que não achavam a mesma graça que Zeus achava quando via a situação, do Olimpo. Apolo, como deus da música ensinou-o a dançar como forma de expressão e isso ele podia, tirando uns contratempos pelo seu peso, ele tinha braços e pernas humanas. Afrodite o ensinou a amar e que sua beleza era o que havia por dentro e o quanto ele havia lutado para que não se tornasse uma besta além do que sua face representava. Este outro deus o ouvia com o coração e passou muitas noites e dias praticando com o seu pupilo a dança e alguma forma de expressão singular, além de ser seu confidente pois podia ler o coração das criaturas e assim, o Minotauri não precisava dançar, apenas sentir. Logo, ele se tornou uma criatura única no mundo mas que ninguém mais poderia ver.

Sua beleza, majestade, magnificência, soberania ao dançar era sublime. Ao ponto de lágrimas correrem nas faces dos deuses e assim o Minotauri seguia. Mesmo com a horda de humanos que seu pai mandava para que ele se alimentasse (enquanto os deuses estiveram com eles, todos os humanos saiam intactos à sua fome, mas, infelizmente, acabavam morrendo por não conseguirem sair do labirinto). Passava o tempo e o Minotauri dançava cada vez mais presente e o trabalho dos deuses estava cumprido.

Zeus, que observava, resolveu se intrometer mais uma vez. Num dos ataques de loucura de Minos, lançou a princesa Ariadne ao foço, para que servisse de alimento a criatura. Ariadne cruzou todo o labirinto e seus gritos eram ouvidos, até que o Minotauri resolveu ajudá-la. Havia uma saída daquele labirinto (não a que Dedalus e Icharos usaram tão tragicamente, outra, que Dedalus ensinou) e a intenção da Fera era escapar Ariadne dali, mesmo que ele não pudesse pela sua massa. Porém, quando ela o viu, o pavor tomou conta de seu corpo e ela desmaiou. Ele a tomou e a levou para seu leito.

Quando ela acordou, notou a música que tocava ali (era uma harpa mágica que Apolo havia deixado como presente, para que a música o acompanhasse) e percebeu que o Minotauri, lógico, não a havia devorado mas dançava plenamente em sua frente, como que expressando. Ela ficou intrigada pois não esperava tão reação daquele que diziam ser 'uma fera indomada por carne humana'. Ele dançou, dançou e dançou até a exaustão e quando desabou, Ariadne num impulsou foi até ele. Recostou sua cabeça sobre seu colo e deu-lhe de beber. Entendeu então que o Minotauri não era irracional como todos diziam, era apenas uma Fera sem chances, uma criatura que tinha um espírito forte mas que a reputação precedera (como sempre acontece nas histórias do meu povo que vem pro Ocidente, incluindo as Harpias, Sereias e afins). Tão logo, eles se apaixonaram e ele passava a vida dançando, expressando seu amor por ela e ela, tão altivamente participava.

Apolo, Afrodite e este outro deus se emocionaram ao ver que o plano de Zeus não havia dado certo, mais uma vez, porém, ele era ardiloso e não admitiria ser vencido por um irmão e seus dois filhos.

Teseu era um semi-deus (da linhagem do proprio Zeus) que se gabava por ser o mais forte depois de Héracles. Vivia numa Península longe mas, por ordem do pai, foi de encontro à fera. Aquela altura, Ariadne já conhecia o labirinto e sabia da única saída.

Um dia, ao passear pela escuridão mórbida daqueles aposentos, viu que havia um outro homem - Teseu - que afirmou ser o matador da fera. Ariadne se desesperou e tentou, eloquentemente, convencer Teseu do contrário. Mas, como era um cabeça dura como seu pai sempre fora, ele não se convencia. Ariadne então, apostou na reversidade da história. Disse que levaria Teseu à "Fera" e se aproveitou do que ele trazia em mãos - o Velo de Ouro - criando assim um caminho feito de lá de uma cabra dourada para que retornassem ao ponto principal e não se perdessem. Lógico, Ariadne conhecia todo o caminho mas imaginou que, quando o Minotauri notasse aquela particularidade em seus dominios, interviesse. Pois bem, ela o levou até a saída rapidamente, dizendo que enquanto vivera ali nunca havia visto tal fera e que deveria ser mais uma obra da loucura de Minos, quando de repente, o Minotauri apareceu. Por um instante, ele se viu vulnerável: sua amada humana, com outro humano, e raiva se apossou dele. Teseu tratou de apressar uma morte para a Fera porém não foi tão facil quanto ele previa. Ariadne apenas chorava, pelo Minotauri pois sabia que ele ficaria em duvida sobre seu amor. Era uma dualidade: viver ali e manter Ariadne ao seu lado, sem poder beijá-la, amá-la e habitando as sombras ou deixá-la ir com algum homem de sua propria espécie para o mundo exterior? 

Ele dançou e gemeu tão frenéticamente, tentando expor a Teseu seu desejo e seu enorme amor pela mulher, que novamente, se viu exaurido. Teseu em sua infindável megalomania, se sentiu vitorioso e encravou uma estaca no pescoço da Fera. O que ele não pôde perceber e que Ariadne viu é que o Minotauri, ao morrer, jogou todo o seu corpo na pequena abertura da saida que Dédalus havia lhe confidenciado ainda jovem, na esperança de que ele pudesse escapar e isso fez com que ela se alargasse o suficiente para que a princesa e seu assassino passassem. Um esforço que, não pela espada de Teseu, mas pelo amor de Ariadne, custou-lhe a vida.



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Contei toda a história pois esta semana recebi um video de um Nobre Cavaleiro da Alvorada que me fez esmaecer. Não por medo ou aflição, mas por me fazer perceber que estou que nem a Fera que ajudei a Apolo e Afrodite a criar, indefeso. Tento me expressar de todas as formas que posso mas ninguém consegue me entender. Ninguém. Eu danço, danço e danço até a exaustão e nada. Minha doce criança era presa por um labirinto, o famoso Labirinto de Creta, enquanto eu sou preso apenas por minha própria vontade que parece ainda maior do que uma construção de Dédalus.


11.18.2012

Mesa


Para a mesa que nunca consegui preencher de amigos eu digo: Não.

Não porque não há mais amigos como eram antes. Me pergunto o que eu fiz para que tudo isto acontecesse tão repentinamente. Melhor, sei que nasci da união da Estrela da Solidão Fria com a Estrela Desértica, mas não desejei pais como estes. Há algum tempo, digamos uns seis anos, eu ouvia incessantemente que eu era perfeito demais para alguém poder gostar. Tudo em mim era perfeito, da minha voz à minha sanidade. E o que fiz? Nada. Não pude fazer nada a não ser dizer adeus quando fui trocado por algo 'tangível', imperfeito.

Recentemente, ouvi este mesmo 'adjetivo', perfeito demais. Me pergunto o fiz de tão errado para ter de ouvir isso porquê de tão certo não pode ser. A perfeição é algo utópico, acredito que baseado nestes termos sou costumeiramente confundido. Novamente me pergunto, porquê?

O que eu sempre e mais quis foi poder compartilhar tudo o que sou, tudo o que tenho. Hoje mesmo, em conversa, admiti que preciso de um ancião - como eu - para que minha completude seja sanada. Os jovens não sabem o que é persistir, perseverar, permanecer. São impulsivos, autoritários, reclamões. Não estão acostumados às idades que têm e por isso jogam o peso sobre tudo às suas voltas. Os antigos, como eu, aprendemos a canalizar, sintetizar. A viver como a pedra, como a montanha e como o rio. Cada segundo sendo bem apreciado, cada situação por mais banal que pareça ganhar um certo valor. Não confundamos atemporalidade com deslocamento, não, afinal somos mais rápidos e ágeis que todos. Vivemos num mundo que gira tão devagar que podemos correr e alcançar nossos próprios pés marcados no Tempo e nas Areias do Espaço. Mas não é porque estamos em todos os lugares que somos vagos, isso nos torna independentes.

Minha sanidade dependia disso, de ter alguém para compartilhar mais um milhão de vidas. De poder falar ilimitadamente  quantas vezes eu vi o sol nascer e se por, de quantos lugares diferentes e depois de tantas batalhas ou paz. Poder falar de como tudo começou, de como tudo desandou, de como tudo foi recriado. Todas as histórias, sejam conhecidas pela humanidade ou não. Apenas contá-las. Contar tudo o que eu fui, o que eu sou. Entender que alguém, por algum motivo, algum dia, sentirá orgulho de mim e farei parte de uma constelação de outros antigos que completaram sua missão. Apenas.



Não muito o que dizer


Tenho andado distraído com as consequências de uma vida.

Amigos, locais, dinheiro, perseguições. Afins.
Tenho sentido as incertezas da vida sobre muitos aspectos, relevantes em suma, o que me faz pensar se o caminho que escolhi é realmente o que devo seguir. Incondicionalmente. Tenho passado por decepções que não imaginaria nem em meus maiores pesadelos. Não tenho mais sono ou fome ou sede. Tudo por consequência indireta de uma orgânica forma de compensação conhecida como amor. Se bem que, como o poeta já dizia "só é amor de verdade quando ambos sentem". É engraçado porque contradiz com "você só saberá o que amor quando ao te perguntarem, você não pensar em algo e sim em um nome". É o que faço, penso num nome que infelizmente não poderá ser meu.
Logo, não sou um bom homem para com quem devo ser. Isso entristece-me deveras mas no amor não se manda, apenas se obedece e chora posteriormente. Também é o que vem acontecendo. Um descontrole tal que nem meus melhores e mais antigos - e únicos - amigos conseguem acalmar. Uma lástima para alguém que já foi tão grande como eu era, no passado...

11.13.2012

Versos Inscritos numa Taça Feita de um Crânio


Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência-curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.


Lord Byron

11.10.2012

Qualquer explicação plausível seria eufemismo, um pesar de eufemismos


Um certo dia, na data específica das minhas Bodas de Cera, eu conheci outro homem. Marquei com ele numa praça qualquer de algum lugar qualquer e nos encontramos. Ele era lindo e exalava Luxúria, quase como eu. Fomos para uma destas casas em que se alugam quartos para usá-los com fins sexuais, qualquer, e lá passamos a Noite consumando. Não foi tão bom, admito.

Outras noites vieram depois destas, uma melhor do que a outra. Meu coração e minha alma se renderam.

Um dia, um hoje qualquer, eu li algo que não devia em algum lugar, qualquer, me desesperei, enlouqueci, enfureci-me, fui até ele e abri sua cabeça com minhas próprias mãos. Mas não antes de deixa-lo exangue, mutilado e profundamente queimado com as brasas que saiam de meus olhos.

Enfim, eu tive paz. E não tive medo de punições, meu orgulho me impelira a isso. Eu sou Legião, Comando mais do que o próprio Lúcifer pois os que estão comigo estão sempre.



Finitun.


11.09.2012

O preço de uma rejeição e o que fazemos por quem já amamos


Como um bom Noctívago, escrevo sempre melhor durante a noite e me valho da noite para esconder meus pecados e traições. Logo, todo e qualquer conto que eu - ou uma das minhas personalidades - escrevo será, em maioria, baseados e ocorridos na Noite, que é meu ambiente. Ou nos sonhos, com a ajuda de um grande amigo. Ou serão lembranças, com ajuda de uma grande amiga. Enfim, ai está. Este, bem, não é totalmente irreal.

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Era noite do dia 12 de Maio de 1998. Não me recordo que idade tinha na época, somente que cursava - novamente - o último ano do colegial. Estava deitado em minha cama, ainda no estado de vigília, sentindo que alguma coisa estava errada porque a energia oscilava quando eu piscava os olhos e algumas mariposas avermelhadas estava pousadas na minha janela. Inúmeras delas, querendo entrar para me contar um segredo ou pedir ajuda - eu brinquei.

Ao se aproximar das duas da manhã, ouvi um ruído distante vindo da frente de minha residência. Um murmurinho. Pensei ser animais ou alguns transeuntes. O barulho permaneceu e junto a isso batidas enérgicas em meu alto portão. Em um segundo, todas as mariposas que estavam pousadas na janela simplesmente bateram as asas e se foram, diagnostiquei o mau presságio. Resolvi inquirir o barulho, me dirigi à porta e, pelo vidro jateado pude ver que haviam pessoas exatamente defronte ao meu portão. Hesitei por um instante e ouvi além, com meus preciosos ouvidos inumanos. Havia choro, desespero e medo em suas falas. Ouvi um homem dizer que era 'bobeira o que a mulher estava fazendo' e ela revidou dizendo 'que era o melhor, já que ele só citava meu nome no delírio'. Fiquei deveras confuso mas reconheci as vozes de imediato.

Vesti um robe qualquer que estava ao pé da cama e fui até eles, quando percebi que chamavam era por um dos meus nomes. A porta se abriu para eu passar, desci as escadas e a chuva não me molhava, fui até o portão e o abri para eles. A cena que vi, quando me recordo, ainda me choca: lá estava uma mãe em desespero absoluto, com o rosto jovem borrado de lágrimas e as roupas em frangalhos e junto dela um jovem homem, seu irmão. Claro, conhecia as duas figuras de longa data. Quando ela me viu agradeceu ao seu deus por eu estar presente e tê-los atendidos, havia uma incredulidade no olhar do irmão.  Ela, se ajoelhou aos meus pés implorando ajuda, alegando que seu filho estava sob algum tipo de doença estranha e que em seu delírio de alta febre, dizia meu nome e no único momento de lucidez que teve, disse que eu e somente eu poderia ajuda-lo.

Estranhei, afinal eu o conhecia há décadas mas não o via há muito mais tempo do que queria. Porém, antes de entender a situação eu já havia compreendido o sofrimento da mãe. Não era nada simples, eu imaginei. Ela insistia para que eu os acompanhasse, quase que me sequestrando apenas de robe. Eu pedi somente um minuto para vestir algo e em menos de cinco minutos estava pronto para acompanha-los. Não sabia para onde ou para quê. Durante a curta viagem, ela me contou os maiores: seu filho havia chegado em casa naquela tarde nauseabundo, com uma coloração pálida nos olhos, fosco, trocando as palavras e a ordem e se sentindo absolutamente cansado. De começo, ela pensou que pudesse ser algo com bebidas ou drogas, coisa que ele nunca havia feito, mas os jovens de hoje não são mais tão confiáveis como os da minha época. Logo, o problema se tornou maior quando ele desmaiou e ao medir sua temperatura, girava em torno de 42 graus. Trataram de chamar o médico que, ao medir a temperatura novamente e fazer uma pequena avaliação, prognosticou como algo viral, prescreveu antibióticos e disse que em dois dias ele se sentiria melhor. Algo no coração da mãe sabia que não era apenas aquilo - o que se comprovou quando a pirexia elevou e, ao beirar os 44 perigosos graus, ele começou a ter espasmos involuntários pelo corpo. Ela temeu por sua vida.

Logo, ao delirar, ele começou a balbuciar umas palavras inteligíveis. De princípio era algo como 'Ler', 'Lion', 'Lá'. Depois passou a 'Lianjo', 'chama Lianjo, só ele pode me ajudar'. A mãe não imaginava quem poderia ser e permaneceu ao seu lado, tentando entender. Delirando ainda, ele pediu uma caneta que ela prontamente atendeu. No braço dela, ele escreveu 'Lean' com um traço final que a feriu. Levou um tempo para ela identificar quem seria, como eu disse, não nos víamos há bastante tempo. Como um baque, ela se recordou a quem pertencia o nome incomum e chamou o irmão, na expectativa de que o alvo ainda estivesse alcançável. Foi quando ela, se dirigindo à minha casa, me encontrou.

Voltando ao tempo real, nos dirigimos de volta à sua casa e eu tentei, confesso que tentei imaginar o porquê daquilo tudo. Não havia explicação plausível para mim, mas, as mariposas vermelhas na janela poderiam ter algo a ver. Talvez era o que tentavam me alertar. Em menos de vinte minutos chegamos em sua casa e sua família parecia já estar preparada para o pior. Havia outro irmão, a namorada dele, avó, tio e chegando comigo, mãe e outro tio. Minha presença causou certo burburinho mas evitei chamar mais atenção do que devia. Em suas mentes, eles achavam que eu era o culpado e apenas a mãe e a namorada sabiam que eu poderia ser o único que poderia ajudar (eu já conhecia sua namorada, mãe de seu filho, há bastante tempo também). Houve uma pequena discussão quanto à minha presença mas a mãe logo me encaminhou ao quarto do filho, deitado, prostrado na cama, com um ar cadavérico como se houvessem tentado tomar sua alma. A mãe apenas chorava e o irmão dela a acalentava. Então, ela me perguntou o que eu poderia fazer já que ele me chamara. Ou se era apenas para se despedir, uma vez que ela sabia que em outros tempos, havíamos sido melhores amigos.

Sentei-me ao chão, ao lado da cama e ele meio que sentiu minha presença pois virou a cabeça em minha direção e disse meu nome, com um esboço de um sorriso fraco. Sabia que não se tratava de um mal físico imediatamente, então pedi um pedaço de pano à mãe que prontamente atendeu, rasgando parte de sua blusa. Amarrei-o em sua cabeça de forma que só um olho ficasse descoberto e agora o que vi, foi o que mais me entristeceu mas era tarde para deixá-los e eu me comprometi a ajudar, deixei minha vergonha e meu antigo amor na porta quando entrei àquela casa:

"Ele estava dirigindo numa rodovia de alta circulação, perto de uma área de baixo meretrício, quando foi abordado por uma das 'profissionais'. Ela era belíssima, com um corpo escultural e não aparentava mais do que 25 anos, com belos lábios vermelhos e uma roupa provocante. Ele chegou a cogitar seus serviços porém, ao se recordar da namorada em casa, hesitou. A prostituta então se revelou, abrindo a boca apenas para proferir algumas palavras que de início ele não entendeu, e, logo partiu com seu carro. Sentia-se mal, diferente, desde que a encontrara. Quase bateu com o carro umas duas ou três vezes e por fim chegou em casa. O que ele não sabia, mas eu vi quando olhei em seu olho e sua memória, é que aquela não era uma puta qualquer. Era uma sucubo, que eu conhecia há muito e muito tempo e chamava-se Balquis. Era um demônio sexual feminino que existia desde a antiga Babilônia e pela qual muitos reis entregaram seus domínios e todos faleceram, misteriosamente, de uma peste. Balquis podia extrair a parte boa da alma das pessoas e se alimentar dela, era o que fazia quando aparentemente se deitava com os homens (e as mulheres eventualmente). Não era apenas sexo, era alimento. Balquis era ardilosa e intempestiva, desde que eu a conhecera. As palavras que ela proferira eram num dialeto muito antigo e significavam "Tu, que optou pela rejeição, herdará parte de mim e deixará sua melhor parte comigo". Por este motivo ele caíra em doença. Balquis era, além de um insaciável demônio, uma força poderosa em maldições. Meu amigo deu o azar de encontrar justo quem não devia e estava pagando por isso."

Removi o acessório e já sabia então o que fazer. Logicamente, não contei aos parentes os pormenores mas disse que ele sofria de algo que médico algum poderia tratar. Pelo estado mental da mãe, de tanto desespero, nem pediu detalhes e passou a obedecer cegamente o que eu pedia. Água numa bacia de porcelana, um pedaço de pano virgem vermelho, alho, alecrim, uma corda fina e uma faca de prata pura. Os que presenciaram se assustaram com o pedido da faca, principalmente porque não tinha utensílios de prata pura na casa - como a maioria dos lares atualmente. Dei minha chave ao tio e disse onde encontraria uma, em minha própria casa. O jovem oscilava entre a consciência e inconsciência, mas quando consciente, sorria para mim que estava ao lado de sua cama.

Logo, tudo o que eu precisava estava em mãos. Pedi que se retirassem e que apenas a mãe ficasse, para testemunhar que eu não faria mal à seu filho mas que, o que quer que visse, não acreditasse. Amarrei a corda no braço do jovem, a faca estava mergulhada na bacia com o pano vermelho preso, o alho e o alecrim. De repente, ele pareceu se contorcer ainda mais na cama, suava uma substancia negra com um odor insuportável e seus olhos reviravam nas órbitas. A mãe apenas chorava, pedi que não se aproximasse. A esta altura, as mesmas mariposas já infestavam as janelas da casa, por completo, e todos achavam aquele fenômeno algo sobrenatural e envolto na minha presença na casa. A corda que estava amarrada em seu braço começou a apertar e ele urrava de dor, mas não era ele, era a maldição - a parte de Balquis - que rugia. O pano vermelho, preso pela faca dentro da bacia, se agitava. Era algo terrível, mesmo para mim, que o amava. Tive pena dele, mas sabia que era melhor assim. Tirei a faca que prendia o pano vermelho, peguei-o e coloquei sobre a testa do jovem. Aquele momento, ele se sentou à beira da cama, mas não era mais ele, era a própria Balquis falando: "- Ora, ora. Mas se eu sou digna de vossa presença. Nunca em sã consciência eu mexeria com alguém que lhe pertence, senhor".

Eu ouvia Balquis pela boca do jovem. A mãe entrava num desespero ímpar mas com a porta trancada, nenhum dos outros parentes ousaria entrar e atrapalhar. Ela prosseguiu: "- Este belo jovem ousou me rejeitar. Ninguém rejeita Balquis. Minha maldição para ele foi bem trabalhada, acredite. Mas, se eu soubesse que o senhor seria envolvido, não o teria feito. Não quero problemas com Vossa Excelência, mas, como sabe, não posso desfazer minhas próprias maldições."

Eu disse que conhecia muito bem a fama e o que ela já havia me causado. Devo confessar, Balquis era uma velha amiga que precisou de mim certa vez e eu a ajudei. O preço foi algo que eu não esperava. Não permitiria que isso acontecesse novamente e disse a ela que esta seria resolvida mas se eu soubesse de mais alguma, ela seria exterminada. Ela sorriu entredentes, insatisfeita, mas nunca desacataria pois sabia que eu a encontraria onde quer que estivesse. Ela se desculpou, também entredentes e o lenço caiu da testa do jovem. Ele, voltou à cama e aos espasmos. O lenço, ao cair, tornara-se negro e pegajoso e quando a mãe se aproximou eu gritei para que ela não o tocasse mas que abrisse as janelas daquele quarto que alguns outros amigos se livrariam daquela impureza, depois. Com a faca ainda em mãos, dei um talho na minha destra o suficiente para que um pouco de sangue escorresse. Deixei a faca de lado - a mãe lembra aqui, a faca se tornou enferrujada imediatamente - e com a mão esquerda e a ajuda da mãe, tiramos a blusa do jovem. Com a mão ensaguentada, passei por seu pescoço, peito, abdome e olhos. A mãe observada com ares de pavor mas talvez este mesmo medo a impedia de qualquer atitude inesperada. O que eu criei com meu sangue, no corpo dele, era uma proteção. Algo que transferia a mim o que ele pesava. Logo, enquanto a mão o percorria, ele se acalmava e sua coloração natural voltava. Seus olhos estavam tranquilos e sua temperatura normalizava. Tudo muito rapidamente. O meu sangue, no corpo dele, tomava um aspecto dourado bruxuleante. Depois de criado, mergulhei a mão na bacia e a água, outrora translúcida, se tornou piche. Eu não me alterei em momento algum pois era imune a qualquer maldição ou afins.

Pedi a mãe que se livrasse do conteúdo da bacia e assobiei, para a janela. Ela se assustou quando milhares de mariposas adentraram o quarto e tomaram o lenço negro - outrora vermelho - e partiram, carregando-o. A faca, enquanto ela não via, esfarelei com a mão e espalhei o pó sobre as asas das mariposas, que adquiriram uma tonalidade também dourada. Quando estava prestes a me levantar, a mão do jovem segurou a minha e com olhos cálidos de cansaço ele apenas disse "- Obrigado. Quando eu percebi no que havia me metido também percebi que só você poderia me salvar. Você que me protegeu de tanta coisa e já me salvou mais vezes do que qualquer um sabe. E salvou meu filho. Não tenho como agradecer e ainda te amo..".

Ele não precisava agradecer, muito menos terminar com estas três palavras. Mas ele o fez. Por um longo tempo ele era o presente que os deuses me deram mas por causa disso, precisei Abdicar. E no final, ele era só humano. Um dia teve medo de mim e eu vi nos seus olhos como seria o futuro. Deixei-o, para que ele seguisse uma vida normal, como um homem normal faria. Porém, nunca sai de perto. Sempre o via em meus sonhos e sempre mantinha minha proteção. Falhei desta vez? Sim, falhei. Porque estou cansado. Cansado demais.

Me despedi dele, dizendo que não precisava agradecer e abstrai suas palavras finais. Ele se deitou na cama e caiu no sono. No sono normal dos humanos. Sua mãe regressou e disse-me que jogara a bacia fora com tudo o que havia dentro, ainda em prantos, quando ela notou que seu filho dormia tranquilamente. Novamente ela se pôs aos meus pés, agradecendo. Pedi para que se levantasse pois eu não era digno desta forma de agradecimento e que, o que fiz, faria por qualquer um que me pedisse ajuda sinceramente. Ela chegou a pensar em me questionar o que havia acontecido. Por precaução, antes que ela abrisse a boca, lancei uma nuvem em seus pensamentos com imagens de que seu filho apenas precisava descansar e que ela cuidasse muito bem dele. Fiz com que ela me acompanhasse e enquanto eu saia, fiz o mesmo com todos os que estavam na casa, deixando suas memórias vagas sobre o acontecido e colocando outras informações, menos fantasiosas no lugar.

Por fim, andei até minha residência enquanto as mariposas me acompanhavam. Sentei ainda um pouco na varanda para conversar com elas, agradecê-las pelo aviso e pela ajuda. Pedi noticias de todos os que eu acompanhavam e parecia que todos estavam bem. Logo, me despedi delas e entrei, me deitei e voltei a pensar como a vida teria sido mais simples se há milhares de bilhões de anos atrás eu tivesse simplesmente permanecido onde estava e com este pensamento, eu adormeci.



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Este é apenas mais um dos casos que já passei, durante este pouco tempo. Durante esta minha Quarta Abdicação.

Flauta, Noite e um coração desperto


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Estava eu, andando sozinho por uma noite escura, em busca de uma presa consideravelmente culpada por crimes hediondos. Não que eu sempre aja como o mocinho moderno e só beba dos maus, mas porque neste noite, em especial, eu precisava provar de um sangue sujo para equivaler ao que eu sentia corroer minhas tripas mortas. Era uma noite de Primavera, se não me engano, com um clima ameno e previsão de chuva, quase como hoje. Por uns vinte quilômetros eu andei, na minha velocidade, vasculhando cada coração em busca do corrompimento necessário para que a sede aflorasse.

Eis, quando, ao dobrar uma esquina pouco movimentada, vejo um jovem rapaz sentado à sarjeta. Havia uma caixa de forração ao seu lado. Notei que não haveria de ser um pedinte pois estava bem vestido e penteado, mesmo àquela distancia eu poderia ver. Seu coração era sensato mas, por um momento, era como se buscasse a morte ou estivesse desesperado por algo, que não conseguia encontrar. O jovem emanava uma aura de auto-flagelação e misericórdia que ainda não havia visto, era com se realmente buscasse algo além da morte, uma punição ou um perdão.

Fui andando em sua direção, havíamos apenas nós dois e mais uns poucos casais que não se deram conta da minha sorrateira aproximação. Fui diretamente a ele, buscando em sua mente exacerbada de emoções alguma razão para que um homem tão distinto estivesse naquelas condições. Ao me ver aproximando, primeiro ele se assustou, afinal já era tarde da noite (ou da manhã). Logo, se recompôs e abriu a caixa. Confesso que receei ser algum tipo de arma e meus olhos cintilaram de vermelho, quando numa fração de segundo eu segurei sua mão que buscava algo dentro da forração. Ele se assustou com o tom rubro dos meus olhos e minha velocidade ao percorrer tamanha distancia, mas notei que o que ele buscava não se tratava de nada mais do que uma flauta transversa. Era intenção dele tocar, talvez em troca de algum dinheiro. Tentei me esquivar de perguntas e o soltei, apenas para que ele se colocasse em posição e tocasse uma belíssima sinfonia para mim.
"Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mão incríveis tocar flauta no jardim." - Adélia Prado, Trecho de "A Serenata"
Ele sorriu, empunhou sua flauta e em poucos segundos eu perdi meu chão. Sentia como se fosse um Sem-Forma novamente, cada som preenchia meu ego e minha existência como nunca antes. Cada toque, cada acorde, cada resfolegar dele me excitava. Ele tocava com tanto amor, paixão, sensibilidade, coração. Era como a Yamibue que tantos falam estar perdida. Naquele momento eu revivi mil eras e talvez mais. Pude ver seu coração partido, o porquê dele estar na sarjeta, suas frustrações, seus sonhos, seus desejos suas vontades e aquilo só aumentou meu desejo de tê-lo. De bebê-lo. Junte isso a uma bela figura loura com olhos azuis tão claros, um corpo palpável e uma pele tão branca que reluzia os lampiões que estavam nos iluminando. Não poderia me permitir chorar ou ele veria minhas lágrimas de sangue. Na rua, de repente, éramos só ele e eu, pleiteando a atenção das estrelas, ele com sua música e eu com o amor que me consumia.

Tocou toda a sinfonia e por fim, fez a reverência. Me agachei perto da caixa da flauta para dar-lhe algum dinheiro (o que me sobrava mas talvez faltasse-lhe) quando ele se recusou. E então, o que pediu em troca deixou-me boquiaberto. Como se não fosse um enorme passo, ele pediu-me em troca do dinheiro, um lugar pra dormir e onde pudesse se trocar. Novamente me pegou desprevenido. Não poderia imaginá-lo como um michê ou algo parecido e eu mesmo tinha minhas formas de me proteger. Pensei por uma fração de instante e, pelo mesmo orgulho que Hades manteve Orphíos no Erebus, acabei trazendo-o à minha casa. Tomamos um taxi (afinal, não tenho o costume de usar carros mas não poderia deixá-lo saber como eu me locomovia pelo dom das sombras) enquanto ele me falava sobre sua própria vida.

- Era um flautista em ascensão, nos seus tenros 25 anos de idade, e aprendera a flauta transversa desde os quatro. Naquele dia estava em um concerto, no Teatro Municipal e quando acabou, sentiu-se estranhamente vazio, como se tocasse por obrigação e não por prazer. Confessou-me que tocar para multidões o apavorava o que diferia quando tocada para um ou outro. Desde os 14 anos tocava profissionalmente em filarmônicas e progredia no instituto de artes e que, àquela altura, já estava saturado. Queria talvez uma nova vida independente, mesmo que precisasse da flauta para isso. Era um jovem de princípios, o que lembrou-me minha era, quando os jovens já eram homens e que hoje não passam e sempre continuarão crianças sem discernimento. Contou-me sobre os pais, irmã e sobre como vivia numa cidade próxima, para onde não pensava em voltar. Enfim, durante nossa viagem de uns quarenta minutos eu soube mais dele do que queria.

Em minha casa, bem situada num ambiente singular e emergente, convidei-o a entrar e cumprir o que pediu-me: trocar-se, banhar-se e aproveitei questionando se não queria comer algo (não poderia dizer que estava à vontade com estes preceitos). Ofereci algo que pudesse ser comprado e entregue, por telefone, quando ele reparou que em minha residência não havia uma destas máquinas que mantém as refeições conservadas. Enquanto ele se banhava, preparei roupas minhas para ele, telefone e pedi uma variedade de pratos da culinária japonesa (há tanto tempo que não como comida humana que não sei mais como é o apetite dos jovens). Alguns minutos mais tarde, ele saiu do banho vestido com meu roupão negro de seda, se desculpando e questionando se não haveriam roupas mais claras uma vez que todas as que dei a ele eram negras. Dei liberdade para buscar em meu closet algo que o agradava mas o segui de perto, afinal, ainda não o conhecia e como já deixei claro, não ia buscar em sua mente seus propósitos. Juntos, fomos ao quarto para que ele escolhesse. Chegando ao closet, ele deixou o robe cair e simplesmente ficou nu, em minha frente. Olhou para trás acanhado mas com uma certa intenção e eu desviei os olhos para dar-lhe liberdade.

Ele, após apanhar o robe, enrubescido, escolheu uma camisa vermelha e uma calça branca, sapatos pretos e um cinto vermelho. Ofereci uma bolsa para guardar suas roupas trocadas e ele aceitou. Mais uma coisa que ele notou: não havia cama em meu quarto. Isso eu pude ver em seus olhos mas, como ele não questionou, não precisei mentir ou omitir. Havia apenas uma esteira coberta com um edredom vermelho sangue e acredito que ele imaginou que eu me deitasse ali. Depois que estava quase vestido, a campanhia tocou e fui atender. Era o entregador. Paguei, deixei uma bela gorjeta, fiz com que ele esquecesse meu rosto e o deixei partir. Preparei precariamente a mesa e distribui a refeição. Quando ele veio do quarto, completamente vestido, tive mais uma surpresa. Como era belíssimo aquele homem e como era elegante e distinto, mesmo com seus 25 anos. Parecia uma destas marionetes antigas e por um segundo meus olhos ficaram azuis, tratei logo de retratar, convidando-o à mesa. Toda a refeição estava disposta somente para ele e ele me questionou sobre o que eu comeria, disse-lhe apenas que havia tido uma ótima refeição antes de encontrá-lo aquela noite (pobre desabrigado que me serviu de alimento, não pude parar de beber até que ele morresse, me livrei do corpo mutilando-o e espalhando-o - mas ainda havia sede). Ele comeu toda a refeição e bebeu do vinho branco que eu servi. Por fim, se levantou e veio em minha direção, parou bem defronte a mim e questionou como poderia agradecer. Eu disse que, continuando a tocar daquela forma e acalentando corações partidos já era um bom começo, além de viver como um bom homem (claro, era apenas uma fuga já que eu o desejava e me refreava).

Por sorte minha, ele não levou a serio e aproveitando que eu estava sentado à sua frente, sentou-se em meu colo. Beijou minha testa e meus olhos, logo depois  minha boca. E, como sempre, há o comentário sobre como minha pele é fria. Tocou meu pescoço, meu peito e se preparava para levantar minha blusa quando eu o interrompi, dizendo que não poderia fazer aquilo, que estava cansado mentalmente e confuso, seria um erro. Ele simplesmente sorriu com o sorriso mais doce que já vi num adulto e disse que fazia exatamente o que queria fazer, sempre, e que se houvesse um primeiro a fazer aquilo, que fosse eu. Discuti, dizendo que ele mal me conhecia e que não deveria ser desta forma, mas ele soube me dobrar com um longo beijo em que precisei esconder as presas que já saltavam, excitadas (e não só elas).

Um momento depois eu o peguei no colo e o levei para o quarto, para a esteira no chão com o edredom vermelho e comecei a tirar suas roupas recém-colocadas, peça a peça. O corpo que havia era esculturalmente belo, não como estes modelos de estátuas gregas, mas como um corpo bem cuidado de um jovem. Permiti que ele tirasse minhas roupas também e acabamos fazendo amor naquele chão. Só houve um momento de fraqueza meu ao, quando chegar ao clímax, acabei por morder seu pescoço e beber dele. Ele não notou, faz parte do nosso poder, o que inclusive deu mais prazer a ele. Depois de algumas horas, adormecemos - ele, na verdade, enquanto eu cobria os vestígios da mordida com umas gotas do meu sangue e me preparava para caçar. Ele dormiria sob feitiço, até o dia amanhecer. Me vesti novamente, mas agora com a camisa que ele vestira, queria sentir mais um pouco daquele cheiro enquanto ia à caça. Logo, achei uma prostituta que por poucas moedas "faria o que eu quisesse, até de ponta-a-cabeça". Paguei a mulher e sem misericórdia, quebrei seu pescoço enquanto bebia. Então, excitado, arranquei sua espinha e seu coração e bebi diretamente dele. Com o Fogo, livrei-me dos pedaços daquela carne imunda.

Andei mais um pouco entre os mais altos prédios da cidade, em busca de alguma resposta. Não as encontrei. Como faria para voltar pra casa, como faria quando ele, Vincent, acordasse e não me visse por lá? Talvez ele se sentisse rejeitado de alguma forma e se retirasse. Porém algo era diferente naquele garoto e eu podia sentir. Não me sentiria bem abandonando-o, mas não sabia se valeria mantê-lo por perto. Era algo com que eu mesmo precisaria lidar. Havia uma possibilidade...
Escuta a flauta de bambu,
como se queixa,
lamentando seu desterro:
“Desde que me separaram de minha raiz,
minhas notas queixosas arrancam
lágrimas de homens e mulheres.
Meu peito se rompe,
lutando para libertar meus suspiros,
e expressar os acessos de saudade de meu lugar.
Aquele que mora longe de sua casa
está sempre ansiando
pelo dia em que há de voltar.
Ouve-se meu lamento por toda a gente,
em harmonia com os que se alegram
e os que choram.
Cada um interpreta minhas notas
de acordo com seus sentimentos,
mas ninguém penetra os segredos de meu coração.
Meus segredos não destoam de minhas notas queixosas,
e, no entanto não se manifestam
ao olho e ao ouvido sensual.
Nenhum véu esconde o corpo da alma,
nem a alma do corpo,
e, no entanto homem algum jamais viu uma alma”
A flauta é confidente dos amantes infelizes;
Sim, sua melodia desnuda meus segredos mais íntimos...
A flauta conta a história do caminho, manchado de sangue, do amor...
Excertos do prólogo de MASNAVI de Jalaluddin Rumi


Continua...

11.05.2012

We're not alone - Broken Iris



At sunrise, open your eyes take a good look outside and wonder,
"is this right?" because deep down inside there's something that's left
To discover

Is your grand design hand woven nor divine?
As right as the rain smells when it hits the ground
As safe as an infant feels in its mother's arms
Sleeping peacefully sound
Singing...

We're not alone softly she whispers
As out of control as this world seems to be
We're not alone

When day turns to dusk
And you close your eyes and finally realize as you ponder
A battling storm in the sky

Is your grand design hand woven nor divine?
As right as the rain smells when it hits the ground
As safe as an infant feels in its mother's arms
Sleeping peacefully sound

We're not alone softly she whispers
As out of control as this world seems to be
We're not alone

It's impossible to blink away
From this astonishing absolute beauty
And i smile just as you say

Set all your fears aside
Reveal what has grown through time
The overcast falls behind
Then you'll find

We're not alone softly she whispers
As out of control as this world seems to be
We're not alone


11.04.2012

A Agnes, pois hoje me recordei dela e chorei


Passo tanto tempo de minha vida esperando por algo, alguém, que não reconheço o bem que me está tão próximo. Crio fantasias, realmente, que preencheriam um livro mas ninguém quer saber de minha vida. Ninguém quer saber de nada, a não se de si mesmos. Não há como discordar pois se não é o que eu mesmo estou fazendo neste momento exato?

Viver por buscar difere de viver para achar o que busca. Pode parecer semântica ou qualquer outra figura de linguagem que a gente acha que não existe mas que nos pega de surpresa numa prova de concurso público, mas não o é. É a mais pura verdade. Existem aqueles que não vivem para si e sim para os outros e aqueles que vivem sugando o que estes primeiros passam a vida por fazer.

Falo isso porque hoje, numa conversa com a maternidade, eu chorei ao me recordar de uma grande amiga (que já mencionei aqui antes) e o quanto ela fazia pelos menos afortunados que ela. Nota: Ela era a pessoa mais pobre que eu conhecia na época e ainda assim havia piores. Havia aqueles que nem perto da presença dela estavam e estes eram considerados desafortunados. Ela era doce, suave, plácida, cálida e justa com os carentes porém brutalmente manipuladora - do jeito correto - com os que pressionavam o sistema e faziam de seus filhos, pobres miseráveis incapazes até de se levantar para comer ou rezar. Ela era uma Leoa que protege sua cria de tudo e de todos. Quantas não foram as vezes que ela me protegeu, inclusive de mim mesmo, parando tudo o que fazia para sua dedicada atenção. Lembro-me até hoje de todas as palavras que ela me dissera. Todas. Lembro-me das noites que passei com ela, nas ruas, alimentando os que não podiam sequer erguer os braços para levar o talher à boca. Lembro-me de, com ela, cobrí-los do frio assustador que mesmo uma terra quente pode propor durante uma noite. Cada pessoa que a ouviu estava ao meu lado, pois eu também a ouvia. Cada pessoa que a ajudou, me ajudou. Cada pessoa que a magoou ou se desfez de sua figura miúde e simples, bom, ai ela tomou para si, não me deixaria revidar. Eu era, para ela, como um filho e ela como uma mãe para mim, apesar de tudo. Ela sabia de minha vida por completo e me aceitava, sabia das minhas responsabilidades e deveres e nunca cobrava ou era parcial. Nunca pediu mais do que podia para seus filhos e tomava todas as dores deles, incondicionalmente. Nunca ousou erguer seu punho para repreender e nunca rezou para o seu deus pedindo, somente agradecendo pela força que ela tinha e principalmente, nunca se queixou do que carregava nos braços. Nos setenta e dois anos que andei com ela, nunca a vi se queixar.

Por metade de uma década eu temi por ela, quando ela começou a se perguntar o porquê de tudo aquilo. O porquê do seu deus deixar nas mãos - que ela considerava - frágeis o destino de tanta gente. Ela mais que qualquer um outro tinha este direito. O que a fez voltar? Estigmas. Não os estigmas violentos e absolutos que outros viveram, mas um certo tipo de estigma que não pode ser visto porque ele nos toca no coração. Teologicamente, falamos de estigmas como as feridas que um senhor chamado Jeshua, Filho de Marian e Yussefei sofreu, antes de se tornar o rei dos judeus e criador de uma nova fé. O estigma que falo é, sendo ela criada dentro destes preceitos, saber o que é estar como seus adversários: Fora da Luz, Fora da Fé. E quando ela viu que não poderia viver sem ajudar, sem se doar, ela voltou para nós. Nunca a julguei e ela nunca seria punida, enquanto eu estivesse existindo. Ela passou sua vida dedicada a nós e aos humanos, nunca diferente e isso a tornou uma Santa antes mesmo da autoridade máxima de sua Fé a declarasse pois, nos céus, ela já era tida como uma mulher que obliterou todos os seus limites e merecia seu lugar à direita dos Tronos Celestiais.

Bom, para quem não a conhece, não importa. Importa para mim ter vivido com ela, ter vivido para fazê-la feliz e protegê-la pelo pouco tempo que ela teve, importa o quanto eu aprendi com ela, sobre homens, mulheres, crianças, ervas, preces, medos, anseios, Fé e principalmente, Amor. É o que ela mais me ensinou e o que mais me cobrou espalhar. Ainda nos dias de hoje me pego falando com ela, mesmo sabendo que ela não pode mais me ouvir. Sua estadia nos Céus está povoada ainda de cuidados e ainda existe muita gente para ser salva em seu nome, em todos os cantos do mundo. Só que, existem momentos especiais, em que eu sei que ela está comigo. Quando sinto aquele aperto abraçado, aquele aroma de bondade misturado com temperos, curry e alfazema. Quando sinto que o amor me preenche e que eu estou caindo, ouço aquela vozinha calma e tenra me dizendo "tenha fé, meu filho. Tenha fé porque o que você passa não se compara ao que os sofridos passam. Tenha fé porque eu tive e eu a ensinei a você. Tenha Fé e sobretudo tenha Amor. Tenha amor para discernir o que te faz bem e amor para não corromper-se mais ainda com o que te faz mal. Não espalhe sua felicidade, mantenha-a para si, ela só pertence a você. Porém, seria um crime não espalhar a bondade que a sua felicidade te causa. As pessoas não precisam de motivos para serem felizes, nem para ajudarem uns aos outros, apenas precisam ser elas mesmas e tudo virá". Com estas palavras eu me tornei o que sou, Abdiquei pela Quarta Vez. Não compreendi ainda o que significa o amor puro que ela me ensinou, infelizmente, e agora não a tenho mais tão perto. Confesso que ainda guardo rancor em mim, obscurecendo parte de min'alma e sei que ela não estaria feliz se pudesse me ver assim. Tenho vergonha e medo de desmerecer tudo o que aprendi. Mas é que as coisas andam tão confusas e complicadas e fugidias e tristes para mim. Eu já não sou o que ela conheceu mas conseguirei voltar ao bom estado, à boa maneira. E ela, sempre estará presente no meu coração, onde quer que eu vá.

Muito obrigado, Agnes, por tudo o que você me ensinou e pelos momentos que pudemos estar juntos. Muito obrigado pelo tempo que me ouviu, pelas noites que passamos de canto a canto da sua terra, ajudando os mais necessitados. Muito obrigado, por nunca ter medo de mim e nunca ter me pedido para ser maior do que os outros, nunca ter me pedido um desejo ou se engrandecer. Muito obrigado, अम्माँ. Muito obrigado, Matti, Mamadi, Ambika, Madre.


11.01.2012

A consequência de uma Alma partida


Tenho sido um tolo ao acreditar nos sentimentos vazios de amigos descartáveis. Não passam de subterfúgios para minha sub-existência infundada. Confesso que sei que o erro começa em mim, por permití-los. Normal, quem não quer ser aceito na data de hoje? Quem não quer saber de verdade como é viver na Luz? Principalmente para alguém que se alimenta da Noite como eu.

O que mais me incomoda não é permití-los, e sim nunca esquecê-los. Não consigo, mesmo quando sei que devo. Muitos me magoaram, muitos me devastaram e muitos me fizeram optar pela morte definitiva. Por apenas quatro deles eu Cai na Abdicação. Supliquei pela Abdicação, in veritas. E no final, não valeram uma pena lançada à fogueira. Mas, mesmo sabendo o quão mal eles me fazem, eu ainda suplico. Protejo-os sem que saibam, velo por eles, velejo além-mar para vê-los, incógnito nas sombras como sempre fora.

Ai vem o outro lado que meu grande e verdadeiro amigo, A Estrela da Tarde, sempre cita: "- você os perde porque não os deixa conhecê-lo.". Ele tem razão. Não posso deixar. Houve um tempo em que as raças se mesclavam e destas uniões grandes formas nasceram. Este tempo se foi, há muito tempo e não há mais nos dias de hoje esta subjeção.

Talvez, como um Serafim, eu assuma várias formas. Formas que me comprometam, formas que me beneficiem, formas atemporais. Mas a maior parte do tempo sou realmente sem forma. Vivo em Tempo e não em Espaço.

Outro dia, um 'amigo' diz que eu vivo uma Fantasia. Mal sabe ele que o que crio é a mais pura e condensada verdade e que esta verdade, assim como a Noite, é a única coisa que pode me fazer continuar existindo. Está ai mais um dos males do ser humano: a descrença nos seus deuses. É a reafirmação que sempre coloco em questão: mostrar-se 10% para que não vejam os outros 90% e que, ainda, considerem dos 10%, 2% real. É nossa vantagem, o ser humano não crê nele mesmo e sempre acham-se maiores e melhores do que os outros, porque não aproveitar esta enorme fraqueza para nos colocar de forma evidente em seu plano? É a melhor ideia que um Ancião já teve, acho que começou com o deus dos Hebreus.

Nos incluir em sua história, em sua existência, em seus medos e seus maiores desejos como algo intangível quando, na verdade, estamos sempre entre vocês. Evidentemente, mas que, com seus olhos sujos e auto-reflexivos, não nos vejam e continuem a sonhar conosco. É um prazer criar esta fantasia real, a não ser quando o próprio criador se deixa levar por ela, como eu fiz. Não soube delimitar até onde eu poderia chegar e acabei indo longe demais. Assumi seus sentimentos, suas fraquezas, sua falta de virtude e elevei ao expoente máximo que minha raça permite. Me tornei pária, fraco e decaí. Não somente por amor mas por vaidade. E a vaidade me consome feito o fogo que temo, mesmo sendo agora, mais forte que ele.

Acho que me desviei do assunto principal.

Enfim, eles vem e vão. Eu fico. Um poeta pobre disse uma vez "Eles passam por mim. Eles deixam algo deles e levam consigo algo meu." Talvez se referisse à bebida ou sexo, eu assumo como Alma. É como acontece. Eles levam parte de minha alma consigo. Por menores que sejam, por mais humanos que sejam, medíocres, mentirosos, sujos, criminosos e descrentes. E eu na minha posição, ao invés de esquecer, mantenho na recordação cada mácula, cada ferida. Peso cada uma das penas que não tenho mais porque cedi, para seus desejos. E adivinhem, eu estou mais sujo do que todos eles juntos.



Sinto falta do tempo que não havia mais ninguém no mundo, apenas nós, vagando sem forma e criando..