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7.20.2014

Vingança, um néctar que se bebe quente


Então já se tornara um sábado noturno quando eu recebera a mensagem de que 'ele' iria festejar na rua, com amigos. Não estava em minhas mãos impedir, evidente, mas estava em minhas hábeis mãos fazer desta noite algo memorável e inesquecível, em seu leito de morte.

Esperei que a Lua se tornasse plena no céu, havia um frio peculiar para aquela época do ano, algo que excitava os mamilos e fazia o hálito se tornar mais vibrante e desejoso de companhia. Percebendo que ele havia saído, preparei-me para fazê-lo também. Usando de um subterfúgio, percebi seu trajeto e também o fiz insinuando que queria estar no mesmo local que ele, apenas com momentos de diferença. Momentos vitais que haveriam de se tornar nossos últimos naquela noite. Percebi então que ele havia chegado: uma boate comum, com pessoas comuns, aquele cheiro da promiscuidade comum que atrai almas comuns. Não esperava algo diferente vindo dele afinal. Ele chegara com suas companhias e logo trataram de se acertar no local – tudo isso eu observava de muito longe, ainda. Deixei que eles se divertissem tempo bastante e então, lá por volta das duas da manhã, eu me dirigi ao mesmo local. Fatalmente vestido e perfumado, olhos reais, com a essência negra como de costume. Se alguém me perguntasse como cheguei ali, diria calmamente que alcei voo como habitual, pousei onde era menos observado e por um truque coloquei imagens falsas nas mentes dos que poderiam ter visto algo suspeito na minha chegada.

Minha figura ainda causava algum frisson, onde quer que eu fosse. Pois bem, tomei a precaução de estar no mesmo local sem me deixar ser visto por ele ainda.

Evitei a multidão com a cautela necessária, escolhendo um local mais escuro para me instalar. Homens e mulheres admiravam o que viam e eu ignorava a todos, também como habitual. Hora me dirigi ao bar, paguei por uma bebida e voltei ao negrume da boate. De longe eu o observava, feliz, espontâneo, quase uma bela imagem se não fosse por suas intenções que já exalavam e um nariz treinado como o meu, captava. Pois bem, dada a hora dos demônios, eu resolvi começar a agir.

Deixei a escuridão do meu canto e lancei mão dos artifícios para esconder minha real personalidade, deixei homens e mulheres tortos ao se virarem para acompanhar meu trajeto, suas bocas babavam, seus membros falhavam, seus medos afloravam e por vez ou outra eu ouvi aquela palavra que define a minha raça. Durante este pequeno percurso, beijei lábios desconhecidos, vários, deslizei minha língua por vários pescoços e ombros, minhas mãos conheceram caminhos naquele caminho. Me deixei ser a imagem e a ação da própria alma do local, libertino, promíscuo, luxurioso. Era fascinante perceber as reações. Cheguei então até defronte a ele, que me olhava com olhos arredios, quase afrontosos, reconhecendo em mim a pessoa com quem falara várias vezes. Era uma mescla de prazer, medo, desejo e resiliência e eu admirei esta última qualidade. Havia uma confusão instalada em sua mente quando eu lhe disse que havia percebido o caminho que tomaria e resolvi fazer o mesmo, como surpresa. Ele balbuciava algo como "não deveria" e "como me encontrou" e eu ignorei, beijei-lhe a boca ferozmente enquanto todos os seus amigos observavam, atônitos. Não me refreei e beijei cada boca que ali naquele círculo se encontrava, deliciando-me com cada prazer único e conhecendo cada alma, evidente, deixando um rastro de confusão nos seus olhos. Parecia um flagelo recém-formado, sedento por prazer, hedonista. Voltando a ele, disse-lhe em tom lúdico que estaria ali para vigiar suas ações, ciente de quais eram elas antes mesmo de se pensar.

Depois de beijar a todos e em todos deixar minha marca, tomei-lhe pela mão sinistra e partimos daquele ambiente para um mais escuro ainda. Evidentes eram os olhares que nos acompanhavam até o andar superior, que era aberto, daquela boate. Ao lá chegar, disse-lhe que estava ali para que o desejo fosse consumido, que não houvessem freios, que os rompantes fossem exacerbados pela emoção e luxúria. Falei enquanto percebia em seu olhar um misto de pavor e necessidade. Por fim, sentados em um banco improvisado, contei-lhe sobre meus planos para aquela noite e ele aceitou. Logo, pensamos em deixar aquele local, juntos, para um melhor. Voltamos, vi quando ele se despediu de seus amigos dizendo algo em seus ouvidos e compartilhando de uma ironia jovial – lógico, ele sabia que acabara de ganhar a noite e que um dos seus desejos carnais seria consumado. Achei graça também, pelo advento.

Dirigimo-nos à saída.

À porta, tomamos um carro que nos deixaria no destino. Porém, na metade do caminho, à beira de um rio que cortava aquela cidade, eu induzi o motorista a parar. Disse-lhe que lhe faria uma surpresa, paguei ao motorista e encaminhei-o à uma viela escura. Passava em seus olhos lembranças de quando eu o assustava, contando sobre mim mesmo e ele sorrateiramente levava para o lado do humor – mal sabendo que meu câncer é falar a verdade em forma de brincadeira, para não parecer tão verídico. Já naquele momento eu não me importava com mais nada a não ser a vingança. Tomei-o no rumo daquele beco escuro, forçando-o. Encostei-o em um dos muros que nos cercava e estartei a beijá-lo. Mais e mais, mais forte, mais denso, mais violento. Notei que havia lágrimas irrompendo de seus olhos e seu medo congelava os movimentos, ele já imaginava o que estava por vir. Deixei-o com este pensamento latente. Como um gesto de misericórdia, parei um instante para delicadamente conter uma das lágrimas que escorria e foi quando ele disse-me "eu sabia que era verdade, sabia bem lá dentro de mim que ainda havia a possibilidade disso ser verdade". Disse-me, referindo-se à minha condição inumana. Concordei com um sorriso aparente e um olhar marmorizado, já antevendo que as pupilas tomavam a cor rubra deliciosa que advém quando começo a me alimentar. Não havia percebido, entretanto, que já tomava pequenos goles de sua essência quando por exagero da força, machucara seus lábios nos beijos. Ainda posso ver seu jeito infante, seu sorriso cálido, sua alegria em viver ainda que numa vida moldada em vitríolo. Percebia que o ameaçava tal qual uma serpente encurralando uma lebre e isso me excitava. Profundamente. Mesmo não havendo desejo sexual eu o violentei, molestei seu corpo frágil e delicado com o meu bruto e rude, até que sangue brotasse de suas entranhas e ele urrava de dor. Tomei daquela carne como tomei daquele espírito, ferozmente, como o animal que sou. Quando já exausto da violência sexual, voltei à violência emocional, ele já à esta altura seminu, sangrando, choroso, sujo, maculado. Era tão fascinante que queria fazer daquele momento ad-aeternum. Interessante como ele não implorava por sua vida, provavelmente já imaginava que não funcionaria comigo. Porém, também, devo confessar que por um momento pensei em deixa-lo. Bem, ainda que não o tenha feito, dei-lhe a paz eterna. Cansado, tomei-o com uma das mãos, alcei seu pescoço até minhas presas e bebi dele, irrefreadamente, querendo acabar logo com aquilo. Agora, se tratava de mais um corpo quebrado, exangue, sujo e que eu mesmo maculei e entalhei. Acabei me divertindo ainda mais quando parti-lhe os membros, um a um. Esquartejado, deixei suas partes jogadas às margens daquele rio, tomei voo e voltei à minha morada: satisfeito, por ter conseguido mais uma vez provar para mim mesmo que não sou mais um anjo e que posso sim ser o que quero ser, quando quero ser, com quem quero ser.

Na noite seguinte, como habitual, li nas manchetes sobre o incidente do "corpo esquartejado encontrado" e que se supunha "ser vítima do mal social" que afligira a humanidade. Ele agora habitaria em mim e este era um bem que eu acabei fazendo-lhe sem intenção.




Para a maioria dos homens, dor significa ódio, e ódio significa vingança. //Paolo Mantegazza
A vingança é uma espécie de justiça selvagem. //Francis Bacon
A vingança agrada a todos os corações ofendidos; (...) uns preferem-na cruel, outros generosa. //Pierre Marivaux

7.02.2013

Você que quase soube da verdade mas era alheio à realidade, eis que veja que não importou muito


Noite quente de verão, à beira-mar.

Mesmo com minha aversão instintiva à água corrente, acabei por deixar-me à deriva numa noite em que não havia Lua brilhante no céu. Imaginei que, desta forma, talvez o feitiço antigo sobre a proibição de nossa espécie à presença de marés pudesse ser de certa forma amenizado. Bom, era apenas uma tentativa que logo se mostrou infrutífera pois, a poucos metros da areia da praia que eu margeava, eu já me sentia encolhido e subitamente enjoado - mesmo não havendo algo internamente fisiológico que pudesse causar tal desconforto. Evitando assim colocar-me em risco, resolvi deixar o ambiente.

Logo ao me virar, pude notar um pequeno grupo de jovens que vinham alegres pela calçada, cantarolando alguma música moderna com suas rimas pobres e letra que faria um boêmio do século XVII se sentir enojado com a futilidade e decadência do pudor humano atual. Evitando o contato visual e assim mostrar minha atual fragilidade, coloquei-me de lado enquanto eles passavam. O bando era composto de dois jovens rapazes e quatro meninas, todos bem bonitos e atrativamente sensuais. Ainda com a intempérie da minha bagunça orgânica, pude ouvir que um dos jovens cochichou ao colega mais próximo a seguinte frase com exatidão: "- Nossa, mas que homem mais estranho. Parece um vampiro" e então deu um sorriso afetado, o outro acabou sorrindo também. Achei interessante a observação do jovem pois, de tantos adjetivos, qualidades e defeitos, ele enunciou justamente a minha raça, sem poder logicamente ter a garantia. Parei exatamente onde estava e passei a acompanhar sua reflexão, ainda sobre mim, com os colegas. Uma das meninas anunciou, ao me ver: "- Não olha agora mas estranhamente seu vampiro está parado ali na esquina, como que esperando" e então logo todos olharam em minha direção e sorriram, comprovando o fato. Eu, àquela distância, pronunciava um sorriso convidativo e intimidador, bastava observar pelo ângulo correto.

Permaneci então à sua espera, aguardando a decisão do jovem se viria ou não ter comigo. Óbvio, ele viria!

Deixou os colegas seguirem e deu meia volta, seguindo em minha direção que o aguardava pronunciando ainda mais minha intenção. Forcei deveras minha presença pois, ainda à beira-mar, me sentia vulnerável. Em alguns instantes estava ele defronte a mi e então pude notar como era realmente belo, com um ar infantil mesmo com alguns fios de cabelo grisalhos em sua cabeça, um sorriso expressivo, lábios sedutores e um corpo atlético - um profissional na arte que se considerava a melhor qualidade. O tempo todo em sua mente só girava uma palavra: VAMPIRO. E ele estava certo afinal.

No seu misto de curiosidade e receio, ele ousou verbalizar a suspeita, questionando-me. Como eu já por diversas vezes dissera, não oculto a quem perguntar a verdade e simplesmente confirmei. Ele parecia atordoado mas ainda, também dentro da lógica humana, desconfiado. Havia uma dedicação na intensidade com que ele desejava que aquilo fosse verdade, uma necessidade quase palatável. Era como se ele precisasse contar com aquilo, como se estivesse esperando há muito tempo, como se ansiasse mais do que a própria vida. De todos os que já possui, talvez este tenha sido o mais consciente da minha índole e intenção desde o começo.

Nos apresentamos e trocamos um aperto de mão formal, ele ainda excitado e reagindo bruscamente ao sentir meu toque gélido. Seus olhos brilhavam à menor luz exterior e seu interior queimava. Mais um adendo, talvez ainda de todos, este tenha sido o que mais facilmente se entregou pois não precisei sequer de um esforço ilusionista para seduzi-lo a me acompanhar. Ele o fazia com atitude e se valendo de uma adorável surpresa que estaria para ser revelada. Decidimos então nos instalarmos num local ali perto, sem hesitação disse-lhe que não o levaria à minha morada ainda e ele não se incomodou - estaria habituado a ocasiões de nenhuma formalidade? Provavelmente. Havia um hotel muito conhecido naquelas redondezas e ele se mostrou fascinado quando entramos no lobby e eu, sorrateiramente induzi à recepcionista com imagens mentais, poupando assim sua morte ao reconhecer meu rosto futuramente, e dando entrada numa das melhores suítes que poderia haver. Logo, o jovem me acompanhava no elevador, rumo à cobertura. Ainda mais sua fascinação era palpável, a cada milímetro andado e dada a proximidade com que ele esperava seu êxito.

O encaminhei à suíte e, ainda à meia-luz ele já se despia enquanto balbuciava pequenos estalidos alternando com gemidos de satisfação. Fazia isso em pé, defronte a mim, me incitando e seduzindo com olhares e provocações labiais. Logo então, eu estava de pé perante ele, acariciando seu corpo com meus dedos congelados. Ele beijava meu peito por sobre a blusa e levava suas mãos pelo meu corpo, do pescoço ao sexo, das costas ao encontro com minhas próprias mãos. Confesso aqui que não estava mais tão excitado quanto no começo, havia uma particularidade neste jovem que me incomodava. Talvez sua busca pela morte, sua frivolidade com a vida, sua fantasia sobre o que eu seria e o que faria por ele. Em seu desejo, eu o tomaria para mim e o faria dele vampiro, logo, viveríamos uma perfeita utopia amoroso e sexual - claro, como vista em filmes. Este desmerecimento e falta de reconhecimento me deixava obstante, ausente. Depois de se colocar nu e a mim também, pode provar do meu sexo.

Como a intimidade começou a me paralisar e suas emoções vinham a mim como um tufão, coloquei minha mente do lado de fora e não aproveitei a cópula. Hoje, sem me recordar com clareza, sequer chego a lembrar se houve. O momento crucial foi quando, na iminência de ser possuído por mim, sussurrando em meu ouvido disse ser portador de uma enfermidade sanguínea letal aos humanos. Disse tais palavras sem receio, pudor, dúvida, preocupação ou resignação. Como estas patologias não me afetam, ignorei e notei ali seu desejo aumentar. Crio um lapso aqui sobre o que julguei ser o evidente: ele, por estar numa vida um tanto quanto corrompida, acabou sendo vítima e, ao se encontrar em déficit no mundo, buscava por alguém com quem compartilhar. Em sua cabeça infantil e débil, julgava ser uma fantasia encontrar uma entidade qualquer que o aceitasse e, quando se deparara comigo, não hesitou e acreditou no que via em filmes, não no que a realidade crua e gélida poderia evidenciar. Vivia num mundo de sonhos e ausência e, ao encontrar uma criatura mítica, achou que sua vida poderia ser resumida e explicada. Deixei então que ele se calçasse desta fantasia por alguns momentos, enquanto alucinava, enquanto se revelava, enquanto era possuído.

Antes mesmo da terceira hora passada, deitado na cama, fazia planos sobre o futuro em que ambos compartilharíamos. Pensou em casa, família, bens, sangue, vingança, beleza e acima de tudo, pensou em imortalidade. Eu, simplesmente pensei que não valeria me alimentar e que precisava me livrar daquela presença.

Recompensei-lhe com o derradeiro desejo, mostrei minhas presas e, olhando em seus olhos, mudei a cor dos meus do azul-celeste para o carmesim-profundo, além de demonstrar minha incrível agilidade e flexibilidade. Ouvia o rugido dos espasmos de seu corpo, desejando aquele poder, desejando ser liberto. Havia um pequeno afluente de lágrimas em seus olhos enquanto já quase mascava sua imortalidade.

"- É seu desejo se tornar um imortal então? Por isso se arriscou tanto numa fantasia?"
"- Sim, é o que eu mais quero. Ser igual a você."
"- Está disposto a viver de vidas humanas, beber deles, livrar-se deles após sua fútil e tola ingesta? Com esta facilidade?"
"- Faria qualquer coisa para me livrar deste peso."
"- Peso? Tu por ventura sabe o que é carregar um peso?"
"- ..."

Me aproximei perto o suficiente para que meus cílios tocassem os dele e ele então cerrou os olhos, esperando pelo beijo negro. Continuou esperando. E esperando. Esperando. Seu coração tomado de pavor e angústia, quando ao abrir os olhos, não havia vivalma no quarto, apenas a janela aberta da cobertura e o frio rascante que adentrava o recinto. Suas lágrimas quase congelaram nos olhos e pode constatar que sua única chance havia simplesmente se livrado dele.

Já a algumas milhas de distância, sentado em um parque, comecei a pensar no sofrimento que ele estaria engendrando naquele momento. Quão terrível seria compreender que sua única chance de viver e ser como os contos de fadas se foi para sempre. Sua imortalidade, sua existência. Eu havia desaparecido e comigo sua cura, sua prosperidade, sua futura vida de Lorde. Ele desejou ter morrido, eu sabia disso. Sabia que o que fiz era pior que a morte para ele e me sentia renovado, mesmo não tendo bebido. O prazer era tanto que não precisei beber, não precisei sequer repousar no dia seguinte, apenas fiquei revendo toda a cena na minha mente e tendo orgasmos com o sofrimento e a loucura que acometeu o jovem tão jovem e, portanto, tão inconsequente. Ele não mais me veria, não conseguiria me localizar e passaria o que restasse de sua vida, insano, às ruas, caçando indiscriminadamente outra entidade que nunca acharia, ensandecido, vendo sua vida esvair gole a gole.


+++

Tenho consciente noção da minha maldade e do peso que eu sim carrego. Existem os que nasceram para morrer e os que não optam por isso. Existem os desesperados e os indiferentes, os tolos e os sábios, os poetas e os carrascos. Nenhum humano tem o direito de se rejubilar por ser poderoso o suficiente a ponto de usurpar outra vida humana e é neste pecado, que os mais débeis se perdem. Sei que sou mau, sujo, feio e inumano. Sei também que eu me criei assim. Tanto quanto sei que não desejo para ninguém mais esta maldição.



É válido procurarmos conhecer a que má e penosa servidão nos sujeitamos quando nos abandonamos ao poder alternado dos prazeres e das dores, esses dois amos tão caprichosos quanto tirânicos. // Sêneca

3.25.2013

Íilya, especialmente


"Pensando como um pobre andarilho estranho..."

Fico imaginando como teria sido minha vida se, ao final da Era Média, eu tivesse optado pela redenção e seguido o caminho que meu melhor amigo - na época - se forçara a seguir. Eu o amava como só um amigo de eras amaria. Nos conhecemos em meados do século VII quando por acidente eu esbarrei com ele numa taverna, na antiga Holanda. Eram tempos fáceis aqueles em que haviam tantas mortes e desaparecimentos que ninguém dava por falta de nossas vítimas. Lembro-me exatamente do momento em que o vi: belíssimo, alto como um nativo, olhos pálidos azuis de uma brancura enevoada, um corpo másculo de possível origem camponesa, uma boca deliciosamente rósea mesmo após a morte. Havia um traço nele inconfundível de perturbação com um novo mundo que estava descobrindo.

Eu saía da taverna no exato momento em que ele entrara, pois temos, como regra, a não interferência nos domínios de nossos companheiros de espécie e eu, mesmo sendo quem era, não usaria deste fato para interferir com o Conselho caso houvesse alguma rixa. Talvez a cerca de umas cinco milhas eu já sentia o aroma da morte e portanto, resolvi não permanecer. O mesmo aroma da morte me cativava de uma forma estranhamente familiar, como se eu conhecesse o possuidor. Por vaidade (e por que era no meu tempo de querer conquistar minha individualidade) permaneci no ambiente até poder vê-lo. Curiosamente, ele não deu pela minha presença, o que me chocou: ou era confiante demais ou tolo demais para se permitir a isso, sabendo que se fosse um caso de tomar posse dos domínios dele eu o faria sem hesitar e com facilidade ímpar.

Acompanhei todo o momento em que ele entrava, se assentava numa mesa próxima e instantaneamente, várias mulheres tomavam seu caminho e se assentavam com ele. Deveria ser menos evidente - eu pensei. Mais incógnito, menos expositor. Acompanhando seus olhos, notei que ele realmente fazia daquele momento algo particularmente necessário para se manter vivo naquele lugar. Como se quisesse que ninguém desse por sua falta. Talvez até fosse alguma personalidade importante para o vilarejo, antes de ser tomado pelo beijo das Trevas, e queria continuar assim. Isso fascinou-me deveras.

Por curiosidade, novamente, resolvi ler o que as presentes pensavam e em um devaneio, entendi o motivo de tanta submissão: ele pertencia ao clero - paradoxalmente - antes de se tornar um de nós. Mesmo jovem, já era o padre responsável por toda aquela região e as pessoas notavam sua aparente mudança de humor como um sinal de alerta e automaticamente faziam dele algo valoroso e interessante. Um clérigo que de repente se entrega aos prazeres do mundo sem motivo aparente, realmente era fascinante se olhasse de fora. E ainda após todo este tempo, ele me ignorava por completo, rejubilando-se em meio aquela orgia emocional das jovens e dos homens em seu meio. Um artista - eu pensava.

Neste momento, exausto pela apresentação do companheiro, realmente retirei-me do estabelecimento. Andei em direção à uma viela mais próxima, me preparando para tomar as nuvens, quando o senti se aproximar. Parei e aguardei. Ele veio até mim, curvou-se e se apresentou: chamava-se Íilya e tentou contar mais da sua história. Eu disse que não precisava pois o mais importante já havia colhido de uma de suas 'acompanhantes'. Ele corou (provavelmente havia bebido de alguma delas e o sangue roubado corria por suas veias vazias e imundas). Ignorei-o, virei-me e tomei as nuvens. Olhei para trás por um instante e vi seu pavor ao me ver fazendo isso. Porém, não demorou e começou a correr na mesma direção que eu seguia, me perseguia, até então não me deixando entender o porquê. Geralmente, os assustados correm em direção oposta, claro.

Seguiu-me por um bom espaço até que, por curiosidade, baixei e fui ter com ele. Sua expressão de fascinação elevou meu ego - lógico - e pude comprovar que nada do nosso mundo lhe fora apresentado ou era familiar. Durante uns cinco minutos ele permaneceu impassível, apenas contemplando, como que olhando o céu e logo olhando a mim. A única palavra que disse depois disso foi: "Como?".

Acredito que o tenha olhado com desdém pois sua aparência parecia de alguém envergonhado. Nem todos nós temos os mesmos dons, partilhamos alguns e afloramos outros que já eram, particularmente, nossos desde que nascemos e que precisavam apenas do estopim para deflagrar. O dom das nuvens, costuma ser adquirido pelos mais velhos e raramente um jovem consegue. Ele era um jovem, mas parecia poderoso. Seu criador deveria ter sido um poderoso e ou não compreendia o dom ou nunca comentou com sua cria sobre as circunstâncias que nos fazem mais fortes ao passar da eternidade. Outro fato é que, quando criamos, escolhemos de certa forma o que passamos à geração. O seu criador por medo ou por alguma lição desnecessária, pode ter omitido estas qualidades na sua cria. Enfim, nunca saberei ao certo.

O que sei é que ele começou a me encher de perguntas tolas porém a primeira delas foi a essencial: "Há quanto tempo o senhor é o que é, godheid?". Eu sorri, era realmente uma criança e, a julgar pela sua educação religiosa, muita coisa havia mudado. Não respondi, logicamente, mas meu sorriso o deixou menos desconfortável. Por fim, acabei me interessando pela figura e resolvi dar-lhe o voto de confiança necessário para trazê-lo até meus domínios. O convite foi prontamente aceito e, segurando-o pela cintura, o tomei mais perto e novamente estávamos nas nuvens. Pedi para que fechasse seus olhos (afinal não poderia me arriscar com seu conhecimento sobre minha morada) e em menos de alguns segundos já estávamos no chão. Notei que pequenos cristais de gelo se instalaram em seus cabelos e cílios e me dei conta de que ele poderia não estar preparado para a altitude e que seu corpo talvez não fosse tão invulnerável. Isso me colocou numa delicada sensação de culpa até o momento em que ele abriu os olhos e sorriu. Aparentemente ignorou a congelação infernal e trocou os sentimentos para algo palpável, que era a fascinação. Em minha morada, antes que eu oferece um tour, ele já havia corrido por todos os cômodos e aproveitado cada pequeno espaço do local. Novamente sorri e o que me veio à mente é que, lembrando que pertencia ao clero, não estava acostumado aos confortos da vida. Ou da pós-vida.

Sentei em minha poltrona favorita daquele lugar e aguardei, pacientemente, que sua fúria infantil acalmasse e pudéssemos ter uma conversa. Me interessava saber quem o havia feito e porque o havia abandonado, sendo evidentemente tão belo e com um potencial ainda não explorado. Horas mais tarde, ele se acalmou e continuou com suas perguntas infames sobre idade e poderes que continuei evitando. Mandei que se calasse e perguntei eu, quando ele, delicadamente tirou a gola que cobria seu pescoço e se ofereceu à minha bebida. Sabíamos que assim seria mais rápido, mas sempre fui a favor de uma boa conversa entre homens. Ignorei o movimento e novamente perguntei, senti que ele corou (talvez já tivesse usado deste subterfúgio com outros antes de mim, não me interessava). Logo, ele me contava uma breve história sobre sua criação e abandono. Notei que acertei quando o defini como de origem camponesa, seus pais o eram, e o entregaram a um bispo que passava por suas terras para a criação. Queriam que ele fosse um grande padre para que pudesse ajudar as pessoas da vila (era uma época em que só o Clero continha o poder de todas as esferas). O bispo, mais interessado no jovem menino do que na intenção, aceitou-o e levou-o consigo. Mesmo abusando dele, acabou por ensinar-lhe os preceitos (os mesmos que não seguia) e anos mais tarde, o levou à Catedral para sua ordenação. Logo em seguida, o bispo falecera vítima de um dos jovens que ainda mantinha, morto por veneno em sua comida. O recém-ordenado não se comoveu tanto quanto esperava. E seguiram assim suas obrigações para com a Eclésia atual. Passados mais alguns poucos anos, conseguira a permissão de voltar à sua terra e prosseguir com a orientação do rebanho local. Voltou e descobriu seus pais mortos, há bastante tempo e isso sim o afetou deveras. Não viveram o suficiente para ver seu filho como o padre que sempre esperavam. Não era comensurável sua obrigação para com a igreja mas em seu coração, algo mudara. Não se sentia um bom padre, um bom homem ou uma boa pessoa e passou então a vagar durante a noite, sentava perto de uma construção abandonada e escrevia suas memórias. Uma certa noite ouviu um sorriso macabro vindo do interior da construção e tratou de averiguar. Parecia que vinha das paredes e de todo o lugar ao mesmo tempo, como se estivesse vivo. Logo, uma figura alta e com uma aparência de altivez insana o encarou, com um largo sorriso na face. - Eu o conhecia, mas nomes não são importante e agora sei o porquê do abandono do jovem iniciado. Era um de nós que não se adequava às regras, um menor, que o Conselho já havia banido e que andara perambulando e apenas dando trabalho aos nossos demais. Porém, mesmo sendo menor, era antigo e consequentemente forte. Abateu todos os que cruzaram seu caminho até que, por fim, a missão foi dada a mim. Pude ver sua felicidade enquanto queimava na pira que fiz com seus restos e sua alma desengonçada pairava rumo ao Limbo. Ele apenas provocava a sua própria morte mas não poderia morrer por si só, suas intenções vis e sujas eram simplesmente um meio de provocar os outros para que, um no final sendo mais poderoso que ele, acabasse com seu sofrimento de viver eternamente. Não fui um herói por isso, nem me considerei, apenas tive pena dele e, passado todo este tempo e nos dias de hoje, em pleno século XXI, é um dos que me lembro com mais clareza de expressão.

Bom, ele havia interceptado o jovem padre e brincado com ele, subjugando-o. Por fim, bebeu dele e o tomou. Deu de beber de seu peito e fez de Íilya um de nós. Ficou com ele tempo suficiente para abandoná-lo antes de ensinar-lhe algo valioso e Íilya ficou à mercê do mundo novo que ainda desconhecia. Com uma certa piedade que não era comum em mim, acolhi Íilya pela história que ele me contara.

Íilya acabou se tornando uma companhia valiosa nos períodos de solidão do meu coração e falávamos sobre tudo. Aos poucos, eu lhe contava histórias antigas e ele, fascinado e com este sentimento que aprendera enquanto estudava, sempre ansiava por mais. Ele era diferente dos errantes simplórios que eu já encontrei pelo caminho, havia cultura nele. E sede de conhecimento intelectual. Muito tempo se passou desta forma e acabamos amigos. Íilya saia todas as noites até as bibliotecas e museus, buscava contato com os intelectuais das épocas (mesmo na era Média, havia alguns a se recorrer) e acabou influenciando muitos outros com suas pesquisas. Claro, sem nunca dar detalhes de onde as conhecia e sem nunca se apegar demais a um ou outra. Eu inveja sua interação com o mundo porque ele acabou sendo meu elo com o exterior. Todas as noites, quando voltava de suas caminhadas, ele contava-me tudo o que havia aprendido e o que havia passado. Durante este tempo eu tive amores, Íilya nunca se importara, porém ele sempre se dedicou à perspectiva do mundo que estava mudando. Enfrentamos muitas brigas juntos durante os séculos que vieram e então, quando já no final do XIV ele se decidiu por partir. Estávamos no final da Era das Trevas e ele via um horizonte, o aconselhei a declinar pois seria perigoso e nossa principal obrigação era sermos incógnitos. Claro, mais na tentativa de que ele permanecesse comigo do que possível, eu sentiria sua falta.

Novamente, tomado por uma piedade que não me pertencia e tendo Íilya como um filho, aceitei sua decisão de voltar ao Clero. Até então, muito eu já o havia ensinado sobre nossos dons e nossas obrigações, assim como o que ele precisaria aprender sobre o que eu já sabia mesmo antes dos seus antepassados nascerem. O levei até Avignon, na França, para que se juntasse aos seus.

Regularmente nos correspondíamos e logo fiquei sabendo que se tornara amigo de um monge beneditino, chamado Pierre Roger, se não me engano. Nunca confessou sua origem, mas eram amigos e conversavam sobre particularmente tudo, Íilya parecia fascinado com as ideias do monge e participava as suas a ele - mesmo sendo um período particularmente delicado para a igreja. Acompanhei de longe o que se sucedera, na época eu já estava no Mundo Novo. Passados mais uns anos, recebi uma epístola de Íilya que dizia que seu amigo havia se tornado a maior autoridade dentro da Eclésia e adotado um novo nome - Passara a ser Clemens sextus, ou Papa Clementino Sexto - e isso me fascinou. Continuei observando e notei como parecia ser uma boa pessoa e pelos seus modos, notei que aprendera muito com meu adorável amigo Íilya. Por fim, sua história estava desenrolando.

Ficamos muito tempo sem nos falarmos até que eu mesmo fui à nova sede da igreja, depois dos conflitos, atrás de Íilya. Não o encontrei. Não nos correspondemos mais, nunca mais soube dele. Mais recentemente, encontrei um amigo (humano, arcebispo) que me sugerira onde poderia estar meu amigo mas, por opção, o deixei e deixarei seguir sua vida. Bastava-me saber que ainda estava entre nós.

Caso esteja me acompanhado, doce, adorável e verdadeiro companheiro, procure-me. Talvez não me reconheça mas neste novo mundo, precisei mudar para me adaptar. Na nossa época era tudo mais fácil porém descobri facilidades também nestes dias. Ignore as regras, como já fizemos e venha ter comigo. Aprenda a sentir o aroma e conecte-se, venha até mim. Ou escreva, preciso apenas ter a comprovação de que está bem e são, que a nova entidade que se tornou a igreja não o corrompeu. Estarei sempre disponível a você, quando você vier. E me perdoe se expus nossa história, desde o começo era a intenção de trazê-lo até mim nesta hora escura em que todos me faltam. Me perdoe.




Yours,

Lean.

Ps: Agora me chamo assim, mudei meu nome mais uma vez. Esperto como você sempre foi, note a inicial, o anagrama e veja que o que falta, é exatamente como você costumava me chamar.


2.24.2013

Respire em mim, rápido!


+++
Noite de inverno.

Gélido como só os montes podem ser. Século XII se não me engano, estava eu caminhando pelas montanhas, em busca de alguma satisfação solitária. No meio da floresta havia um lago tão cristalino - e congelado - em que, se eu tivesse ainda algum reflexo, poderia me ver espelhado. Mesmo sabendo do destino que me reserva, voltei-me a ele nesta mesma expectativa. Pensei "- quem sabe no gelo, que não contém prata alguma, eu possa ver em mim o que o tempo fez comigo?".

Tal qual foi meu espanto quando pude ver-me novamente. E que imagem! Era algo entre o disforme e o angelical. De tanto vislumbre acabei por deslizar pela pedra congelada e me abster em adoração pelo que via. Embriaguei-me de mim mesmo de modo que não notei quando alguém se aproximou, mesmo naquela noite gelada. Não notei até que ela estava a uns quatro pés de mim. Não só não a notei como não senti seu perfume - ou odor, que seja - a ponto de surpreender-me com aquela presença. No mesmo momento postei-me rijo, preparado para atacar ou correr, dependendo da reação que apresentaria.

Espantou-me sua ação seguinte: ela curvou-se. Curvou-se para mim e numa língua que só nossa raça conhece pela idade, chamou-me de senhor. Percebendo mais a fundo pude ver que ela era como eu - ou quase. Uma recém-nascida pelo sangue, poderosa e linda e ao mesmo tempo respeitosa e meiga. Falava em minha mente, mas de uma forma descoordenada. Vi que ela havia sido criada há menos de dez anos humanos e que seu mestre a havia abandonado por ela "se apegar demais à humanidade". Pior, eu conhecia quem a fez, na verdade, eu o havia liquidado alguns anos após ele tê-la feito por uma disputa antiga (e isso é outra história futura, talvez). Me compadeci de sua dor - momentaneamente, afinal não sinto mais certos sentimentos - e pensei em tomá-la para mim, criá-la, adotá-la como minha cria mesmo não sendo. Ensiná-la o que sabia, era só o que eu pensava. Estava começando a Era das Trevas e mais do que antes eu temia pela minha sanidade e precisava de uma companhia que me entendesse depois de já ter tentado tantos humanos.

Senti que ela também esperava isso, esperava uma companhia, alguém de nossa espécie que a ensinasse onde seu senhor havera falhado. Tomei novamente a compostura e com dois passos cruzei o caminho que nos distanciava. Olhei dentro dos seus olhos e ela se inclinou, se oferecendo à minha bebida. Bebi e pude ver ainda mais, vi porque seu criador a escolhera e porque ele, depois, temendo-a, a deixou à deriva neste mundo absorto e vil. A jovem tinha um estranho dom de possuir o que tocava, mesmo quando ainda era humana. Ela podia entrar em sonhos de uma pessoa adormecida e podia domá-las, falar por elas, apenas com seu toque. Caí num frenesi de excitação pois nunca havia conhecido alguém, homem ou monstro, que pudesse tal artimanha sem algum tipo de feitiço. Dali tomei a decisão de que ela seria minha enquanto eu quisesse mantê-la!

Coloquei meu braço ao redor de sua cintura e partimos dali, com o Dom das Nuvens, que ela não conhecia pois se espantou tanto que seu corpo tremia junto ao meu firme, enquanto alcançávamos alturas inimagináveis. Ela acabou se mostrando irrequieta e insegura, temerosa, afinal era jovem e ainda não conhecia tanto nossos dons como conhecia seu próprio. Logo, chegamos à uma clareira, naquela mesma montanha, onde havia uma pequena caverna à direita e um lago - menos congelado que o anterior - à esquerda. A deitei em uma pedra e começamos a conversar como os humanos fazem.

"Seu nome era Ludmylia e era uma foragida. Primeiro de sua família, depois de sua aldeia, e então do seu criador que a encontrou vagando sozinha naquela montanha. Quando ela viu aquele homem, vestido àquela forma, achou que usando de seu dom poderia fugir para ainda mais longe pois sentia nele algo diferente. Claro que ele deixou ser visto para não afugentá-la - era uma de suas táticas vis que eu desprezava tanto. Ela viu que mesmo ao se aproximar, a figura não deixava de sorrir e convidá-la com os olhos e, pensando em tomar aquele corpo aparentemente forte, continuou a caminhar em sua direção. Quando a dois centímetros de toca-lhe o rosto, sua mão a parou. Naquele momento então ela agonizou e temeu. Ele mantinha o sorriso e numa fração de segundo, já bebia dela pelo pulso que havia agarrado. Parecia que ele a conhecia, que a esperava, que a testava e queria saber até onde ela poderia ir. Fraca e quase sem vida, ela ousou. E conseguiu! Usando do seu sangue vertido como catalisador, conseguiu por poucos instantes tomar o corpo do homem que, ao se ver enclausurado na própria prisão carnal, abandonou a bebida e se lançou para trás. Ao constatar que ela o surpreendera, ele compreendeu ainda mais a vontade de tê-la e que precisaria ser rápido pois ela estava à beira da morte. Cortando de seu próprio pulso, a deu de beber e assim fez dela uma de Nós. Tentou não passar a ela seus dons, com medo, porém não pôde controlar e acabou a fazendo mais poderosa do que imaginaria. Ao beber dela ele não herdara seu dom como imaginava, apenas a deixou mais forte quando deu-lhe seu Beijo Negro. Então ele a adotou e começou a ensiná-la, sempre mantendo a distância segura e assim cinco anos se passaram. Nela, ele notou um estranho apego ao que sentia desde antes, achou-a fraca e como é comum de nossa espécie, abandonou-a simplesmente, uma noite. Sem despedidas ou formalidades. Desde então ela vagava pelas mesmas montanhas, sem aprender mais nada a não ser a dor da solidão e desprezo."
Devo confessar que não tive pena. Conhecia sua história e pronto. Sentia que ela esperaria que eu fosse diferente do seu criador e que a tomasse, cuidasse dela e a protegesse. Ou seja, o que toda menina humana espera de uma figura masculina e isso me entristeceu. Concordei com a lembrança do seu criador de que ela não era para nós já que não imaginava o que poderia fazer com o Beijo e o que herdou com ele, parecia não entender que havia deixado o mundo humano e que agora poderia ser o que quisesse. Mesmo com tudo, sua fragilidade ainda me mantinha ligado à ela pois me recordava alguém que amei muito, muito tempo atrás, e que acabei perdendo por imaturidade minha. Ambos, acredito, colocamos nossos amores na figura um do outro e por este motivo, apenas, eu permiti que ela andasse comigo.

Descemos a montanha na noite seguinte em busca de alimento e, enquanto eu bebia de dez ela se manteve em apenas um homem que muito se parecia comigo. Notei que ela nutria ao mesmo tempo amor e raiva por aquele tipo e que se alimentava deles quase como que por vingança. Percebi também que ela usava seu dom para coisas fúteis e desnecessárias. Novamente, lamentei pela sua criação e pelo erro do criador. Mais algumas noites se passaram e os atos se repetiam: ela se alimentava dos homens, se deitava comigo quando parecia amanhecer, na montanha, e repetia a mesma intempérie na noite seguinte, em outra cidade. Ela era cansativa e nada interessante, exceto pelo seu dom. Noite após noite eu me cansava, mas ela não notava.

Meses, talvez anos, tenham se passado nestas condições quando de uma certa cidade, já exangue pela cristandade e a Era das Trevas com sua santa inquisição, começou a caçar seres que ameaçariam os seus. De predadores nos tornamos presas, aparentemente, pois eu não os temia. Ela, au contrárie, ainda se atendo à humanidade, tinha medo de ser pega e não poder fugir, como era quando da sua infância. Dado destino, certa noite, enquanto nos alimentávamos, um grupo de cerca de doze homens nos cercaram. Eu, sem esboçar que aquilo parecia um risco, mantive minha calma. Ela porém, ardia em febre de pavor. Parecia que completamente havia esquecido o que se tornara e voltara a ser a menina indefesa que era antes. Confesso que não recuei, não me movi um centímetro sequer, enquanto ela partia para cima deles, inconsciente da força que poderia aplicar e do poder que tinha.

Eu, cansado da sua presença fraca e pouco competitiva, a deixei ser capturada. Quatro deles foram suficientes para domá-la, não porque ela era desprovida em termos de física, mas era em termos mentais. Os outros oito se voltaram contra mim e na mesma fração que piscaram os olhos, estavam retalhados e sequer viram a morte chegar. Enquanto a levavam eu não me mexi, mesmo sob seu olhar fulminante. Minha última esperança era de que ela se recordaria do que era ou que ao menos usaria seu dom e tomaria um dos homens, expondo os outros à loucura. Nada disso fez, se deixando levar em desespero e em sua mente ela me apedrejava. Eu segui o cortejo inquisidor e em nenhum momento ela ousou, apenas se deixou intimidar.

Não tive pena, novamente, quando prepararam a pira e quando o fogo já estava alcançando os mesmos céus que eu a levara antes, eles a lançaram. Não senti tristeza ou dor ao vê-la sendo rapidamente consumida, não por eu ser um monstro, mas por achar que era seu destino. Quando não servem a nós, servem a si mesmos e, então, morrem por sua própria vontade. Logo ela não era mais nada, como sempre pareceu ser, apenas uma dama que tinha um dom extraordinário e não sabia usá-lo. Ou não parecia saber.

Depois deste fato, voltei a caminhar para a floresta, passando por um campo cultivado de milho de um daqueles mesmos camponeses que liquidaram a existência da minha breve companhia. Perambulando, deparei-me com uma destas réplicas que fazem de si para espantar aves de rapina que destroem as plantações e sorri, pois realmente me confundira fazendo acreditar que era um deles. Meu sorriso se transformou em seriedade e mordi meus próprios lábios quando a réplica (que hoje descobri que chamam-no de Espantalho) se jogou em minha direção. Me afastei como um trovão e ele caiu aos meus pés. Olhei em volta, imaginando quem poderia ter feito aquilo e então a réplica se levantou. Havia um estranho brilho verde por sobre ela e então começou a se contorcer e trazer as mãos ao rosto, como que chorando. Se contorcia de forma aparentemente dolorosa e chorava, sem emitir um som, seu corpo caricato ainda mais deformado enquanto se partia por todos os lados e ainda levando as mãos ao rosto. Veio em minha direção e por um instante, pela surpresa, não pude me mexer: a réplica pegou meu braço e colocou ao redor de sua cintura - o mesmo ato inicial que eu havia feito com Ludmylia - e então percebi que era parte dela que tomava àquela réplica e que, com aquele sinal, mostrava-me sua identidade. Logo, deixou-me e se contorceu ainda mais, por uma última vez, quando o brilho de tom musgo também desapareceu e a réplica deixou à vida, caindo no campo de milho como se nunca houvesse mexido uma polegada, porém, destroçado.

Esta foi a primeira vez que tive a certeza do dom de Ludmylia e o quão poderoso poderia ser se ela pudesse ter aprendido a usá-lo. Tive medo e senti tristeza então, me repreendi, por não ter visto seu potencial. Deixei que meus milênios me tornassem inóspito ao companheirismo. Também foi a primeira vez que vi um espírito dos nossos e não sei até hoje se era apenas parte do que sobrou de etéreo dela. De uma forma estranha também me senti confortado pois comecei a imaginar que não somos tão vazios quanto dizem e que talvez, mesmo quando nos formos, parte de nós possa se manter atrelado à este plano. Hoje, sinto falta de Ludmylia pois tenho andado muito sozinho mas, desde aquela noite, não presenciei mais alguma manifestação dela ou qualquer que seja. Logo, permaneço sozinho.

In Memoriam Ludmylia Schirivaniskova - Que amava tanto à humanidade que, mesmo ao se tornar um dos monstros, não se perdeu dela como Todos nós fazemos. 



+++

12.10.2011

Nosferatia in bed




"Mas não! O veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeteiro
Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.
Ah! teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressucitaria
O cadáver de teu vampiro!"

Baudelaire, C.


5.16.2011

Nós (ii)


E se eu me chamasse Lamento,
E fosse feito de estrelas aos pés,
Herdasse algum Trono esquecido,
Forjasse de minhas palavras, mentiras,
Criasse pesadelos diurnos e
Nunca ouvisse seus apelos.

Este seria um bom senhor a ser lembrado?

Não me culpeis por ser o que eu sou, tivera uma escolha e a fizera. Optei ser da espécie que você despreza. De mim nada podeis além do que eu permito e de vós eu terei o que quiser. É meu tormento nunca saber como sois durante o alvorecer e para aqueles que a mim, amam, o tormento se inverte. Não entendais vós que estou sendo leviano, apenas queria deixar claramente expresso o quanto é bom ser eu. E o quanto me orgulho de nós que aqui estamos por vós esperando.

Nós

Eu que aqui estamos preciso fomentar.

Por que os humanos nos tomam como bestas selvagens, desorganizadas e pútredas? Cada dia passante eu tenho mais a certeza da vaidade incontestável desta raça. E ainda sempre somos antagônicos a todo e qualquer princípio.
Nos fazem subservientes à uma entidade que vem depois de nós, nos transformam em conspiradores, revelam-se caçadores de nós e ainda expelem sua execrável moralidade. Fora alguns pequenos relatos aproximados ao verdadeiro os outros são insuportavelmente delirantes.
Concordo que falar do desconhecido é complicado, mas atenhamo-nos ao exemplo mínimo de originalidade.
Muitos de nós estamos presentes popularmente - falo por mim que sou uma prova palpável - e mesmo dentro do Conclave há uma forma controlada de dispersar argumentos validos. Como eu já citara há alguns posts, até para nossa sobrevivência. O mesmo medo que os torna perigosos os torna cúmplices, dai a nossa necessidade.

Eu que aqui estamos digo-lhes que pare.

Não revelaremos nem a décima parte, o que souberem será de forma aleatória como eu faço - e arrisco-me ao fazer - nada mais. Mas não é por isso que têm o direito de criar uma imagem tão falsa.
Nós somos superiores em força, agilidade, destreza, sabedoria, conhecimento, poder, política e excepcionalmente em moralidade. Sabemos o nosso direito entre raça e espécie, dentre nós mesmos não somos todos iguais. Não fazemos e divulgamos falsas ideias sobre as outras espécies e não as tornamos alvos de nossas injúrias, mesmo as que vocês consideram tais.

Torno-me um perseguidor e inquisidor voraz, quando necessário. Eu que mascaramos posso afirmar.

Por vós esperamos eu que aqui estamos.

4.16.2011

Little hebrew child

Once upon a time, 
There was a little hebrew child alone in deep desert, looking for water. I, an ancient priest that region, saw and gone until her. Was night and the sandstorm came violently. That hour, she saw me too and was coming to me, thinking she could be protected. 
With my long arms i'd hug her. She falls at me.
With my long fangs, i'd suck her too. And she dies at my arms, but before i could hear her praying for your god in a song, so quietly:

Ashira el adonnay ki ga'o ga'
Ashira el adonnay ki ga'o ga'
Mi chamocha ba'elim, adonnay?
Mi kamocha ne'edar bakodesh?
Nachita bechasdecha, 'am zu ga'alta
Mashi'yach! Mash'yach! Mash'yach!
That song remained in my mind, until now.. Sometimes, to honor her, i sing it loud..

Pensando como Shaw

Estranhamente hoje não estou me sentindo bem. Ok, talvez não seja tão estranho assim levando em conta o ostracismo que me encontro. Certo, não é estranho. Passo a maior parte das minhas noites queixando-me da estranheza de tudo, do guardanapo novo que uso (que é modestamente francês, bordado num tom carmim fantástico e que guardo numa bela caixa búlgara preciosíssima) até a forma como as pessoas estão encarando este novo dia (pelo que ouço de suas mentes enquanto divago na minha própria).

3.25.2011

Dito

Muita coisa já fora dita, reitero suas formas para a necessidade do meu trabalho agora:

Chega um momento, para todo vampiro, em que a concepção de existência se torna momentaneamente, insuportável.

"
Das Utopias
Se as coisas são inatingíveis... Ora!
Não é motivo para não querê-las!
Que triste os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas...

Das Indagações
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
"

3.23.2011

Rooted away

Talvez seja interessante, após o comment sobre raízes, alertá-los sobre algumas origens comuns em contos vampíricos (ou na nossa realidade). É notório que temos grandes 'colaboradores' na divulgação de uma certa necessidade expressiva cautelosa, como chamamos. Os seres humanos têm em si um enorme temor pelo que não conhecem e este fator pode ser a ruína para entidades sobrenaturais. Mostrá-los mínimos décimos do que somos os tornam cúmplices. Fato.

Logo, pequenas almas que pensam conhecer nosso reino falam sobre fórmulas mágicas e feitiços - Todos brutalmente antagônicos à realidade. Porém, destacáveis almas conhecem em nível intermediário a essência deste Mal. Portanto, certos protocolos serão seguidos por outros que apreciam o trabalho e a introdução nesta cadaveria subsistencial. Métodos de transformação, locais, presenças, anatomia e até nomes poderão ser compartilhados, o que não torna o contexto uma cópia e sim uma outra versão do que acontece. Outro fato extremamente conhecido e confortável é o dinamismo com que histórias são adaptadas ao emissor e tão impelidas ao receptor final. Reitero, só por que fatos simplórios são citados não significa que a obra deva ser acusada ou que o fato deva ser negligenciado.

Ouvem as Grandes almas os que se assemelham, do lixo que sobra queremos distancia.

Mantenho minha observação ao mundo e sempre aguardando novos sinais. Apareçam, apareçam, sejam vocês quem forem.

3.18.2011

NightStar - O Conto do recomeço - Cap. i

Capítulo Uno:

No conhecido cemitério Les Morem Admorem, localizado em Nova Orleans, desperta uma alma antiga. Um vampiro há muito adormecido conhecido em seu tempo como Estrela Noturna. Conhecido digamos mais pela sua fama – outrora tida como alegorias – do que por sua pessoa em suma. Entre sua raça imaginavam-no como um conto, uma entidade desconhecida e até mesmo negligenciada. NightStar há muito não vivia entre os não-vivos conhecidos. Sabia-se que o enclaustro – se é que realmente existia este vampiro – havia sido há muito. Nighstar ainda deitado em sua alcova, lembra de fatos anteriores à sua inanidade assumida porém sabe que não é o momento de compartilhar ainda sua dor. Sabe que é hora de acordar e tomar novamente seu posto e desta forma tornar real seus antigos sonhos além do que mostrar que realmente existe, esta entidade.

Com sua destra remove a tampa do seu altamente ornado leito de mármore branco manchado de negro pelo desgaste. Mesmo em sua oculta cripta havia sinal humano de outras épocas. Escolhera bem o local e seu repouso, ciente de que qualquer mão humana jamais poderia revelá-lo. Muitos foram os que tentaram e desistiram, talvez por sua força expressa nos medos humanos quando tentavam, alucinando em suas mentes seus piores medos quer seja pelo ainda desgaste espiritual em que se encontram alguns jovens, temerosos em expressar sua crença ainda no sacrossanto. Removido o claustro e pela primeira vez em 300 anos, sente novamente o ar vivo, mesmo que em extremo diferente de quando havia inspirado pela última vez. Automaticamente começam os ruidos modernos deste novo mundo afligirem seus ouvidos. Buzinas, chiados, mentes humanas descontroladas, tudo isso chega simultaneamente à sua mente limpa e poderosa. Usando seu antigo truque, impede que isso o enlouqueça porém ciente de que o mundo mudara mais do que poderia imaginar. Levanta-se, tem uma rápida percepção do seu atual estado que acidentalmente dispara o estopim para lembranças e isso tudo rápido o suficiente para que ainda não tenha se movido o ponteiro dos segundos do relógio. Nightstar é um homem de porte, alto, com a pele clara aveludada, cabelos curtos castanho-escuros, olhos que mesclam cores como uma pedra furta-cor dependendo da luz que se instala e do movimento rápido de pestanas, poucos pelos à mostra inclusive em sua face a marca da barba por fazer, sinal de que se tornara vampiro no auge da idade e da masculinidade. Herdada as características da especie antiga, a cada ano que passa sua tez torna-se mais marmorizada e suas unhas lampejam como vidro vivo. Vestia-se com uma calça justa de couro escuro, blusa de linho caro branca, colete de um vermelho rubro que a idade ainda não conseguia esconder, sapatos empoeirados envernizados e um sobretudo gasto pelo tempo mas ainda assim uma bela figura apresentável. Mesmo seu corpo coberto de uma espessa camada de pó é um elegante homem.

Com um ligeiro espanar, Nightstar se livra da aparente inanição e dirige-se à entrada da capela onde adormecera há muito. Diante dela, apenas o ranger das fechaduras é ouvido e de forma natural as portas consumidas pela ferrugem se abrem, permitindo a saida de nossa imagem espectral. – O mundo muda mas Nova Orleans sempre tera o mesmo cheiro. Vejo imagens e sinto presenças porém o mundo mudara de uma forma tão exponencial que até mesmo para mim será complicado me adaptar.

Nighstar caminha pelo cemitério e ouve um pequeno ruido de vozes humanas, presentes. Consegue captar a fragrancia há muito negligenciada e sua sede instantaneamente surge em sua face desprovida de cor ou emoção. É sangue. Fresco, sujo e inocentemente voraz. Algo dispara em suas visceras e uma pressão lhe sobe pela espinha medular – se é que tais materiais organicos habitam aquele involucro antigo e pernicioso. Dirige-se aos sonhos e entende esta nova lingua automaticamente. É um novo inglês sendo pronunciado, algo vulgar e com expressões desconhecidas porém fracamente carregado da antiga lingua-mãe de Nova Orleans. Jovens, em seu ritual de auto-flagelação consumindo todo e qualquer tipo de alcool e drogas, rebeliando-se intimamente mas coletivamente reunidos, ouvindo um som estranho e rejubilando-se de sua juventude. Todo o cenário atrai nosso vampiro que de forma furtiva aparece junto aos reunidos. – Todos vocês são tão bonitos – engrandece Night. Os presentes assustam-se com a figura mas o assumem como parte do grupo, afinal estão quase todos no mesmo patamar de inconsciência provocada. – Ei, irmão, junte-se ao Filhos da Noite aqui neste cemitério – diz um dos jovens, completando com uma risada esclarecedora e elevando sua bebida em direção ao monstro. – É, então vocês são meus filhos – completa Night. Os jovens ou os que ainda estão de certa forma despertos, acham graça do que ouvem. Night ignora a oferta da bebida e novamente de relance aparece por trás do jovem, que fica espantado, enquanto Night com a mão esquerda segura sua cintura e com a direita sente o calor vindo de sua arteria aorta. O jovem sente que não pode se mexer então lhe sobe uma pressão aos olhos, lacrimejando mesmo sem saber o porque. Night fala bem perto ao seu pescoço – seu cheiro. É cheiro de quem sabe viver. E o beija. Os outros jovens oscilam entre a ignorancia e a contemplação da cena. Uma jovem de olhos bem marcados, vestida infimamente com um vestido negro rasgado e um par de meias dilaceradas acha graça. – Monsieur, não o tome. Tome a mim que sou mais apetitosa – diz, não entendendo a gravidade da situação em que se coloca, imaginando ser tudo uma atuação. Night vira seus olhos a ela e, no mesmo interim, surge por trás da dama colocando suas mãos em seu rosto. Novamente a pequena plateia alucina porém mais temerosa.

De repente, Night sente uma estranha ressonancia e desvia seu olhar à Lua ainda mantendo as mãos no rosto da jovem. Tem um estranho pressentimento e isso o deixa agressivo, sem sequer notar que emprega força demais nas mãos, sem notar o rugido da jovem que segura e sem perceber que este impacto acaba de esmagar o cranio da jovem em suas mãos, enquanto os outros reunidos começam a chorar e a correr feito ratos da luz, alguns pranteando a morte e outros apenas preocupados em escapar pelas suas vidas. Night sequer nota o ocorrido, ainda virado à Lua e, antes que virasse totalmente seus olhos agora assumidos num tom avermelhado, desaparece do cemiterio por completo.



Continua...

NightStar - O Conto do recomeço - Prólogo

Prólogo:

- É chegada a hora – diz o vampiro antigo, conhecido pelo nome de NightStar (Estrela Noturna). Ciente das muitas ocasiões em que poderia ter despertado do seu sono secular. Deitado lá, em seu antigo jazigo e vendo que o mundo mudara desde seu último despertar, sente que é hora de se juntar novamente ao seu povo. Durante seu sono, já havia ouvido algumas histórias de como seu povo estaria mudado, moderno, com novas concepções e caracteres dominantes. Precisava ver. Em sua mente monstruosa, talvez, não estivesse preparado para o choque que o seu sangue teria quando encontrasse a nova geração.

3.17.2011

Red Luna

Não considero uma nova Fase Lunar. Não completamente.

Estou gasto, mes amie... Fracassadamente deixado para apodrecer sozinho. No escuro e no limo que eu mesmo cultivei para lançar meus inimigos. Meus maiores amores vão sem ao menos despedir, novos amores os tomam. Para ser sincero, estarei confessando algo a quem me lê, agora: Eu tenho uma Maldição. Uma maldição que me traz à mente tudo o que quero saber. Meus irmãos chamavam de o "dom da AnteCiência". Em termos médicos explico como uma facilidade de cognição ou aprimoramento que faz com que o individuo (ou monstro, no meu caso) tenha um melhor reflexo neurossensorial e organoléptico a uma determinada situação, i.e., aquele individuo (enfim...) antevê e reage instintivamente a mudanças abruptas e/ou subtis à sensibilidade - motora e funcional. Digerindo, é como prever uma situação. Peguem um reactivo e multipliquem por mil. Peguem este mesmo individuo (ou, esquece) e tornem-no um monstro ou fera ou demonio... este será eu. Melhor, meu dom me permite antever tanto a parte substancial deste mundo quanto a outra parte, a emotiva límbica irracional. Em suma, posso prever tudo o que quiser e as respostas a tudo vem à minha mente. Foi assim minha aprovação em tudo que fiz na vida humana, antes mesmo de ser Fera. E agora, bom, agora só piorou.

Posso ser o que chamam de sensitivo, mas não quero isso, não quero saber de coisas que me afetam tão diretamente. Meu amor tem um novo amor - é o tipo de coisa que não quero saber. Mais, eu vejo a face deste impostor emocional a cada vez que fecho os olhos. Minhas entranhas mortas e putrefatas se refrigeram e sinto uma estranha sensação de dor, coisa que tecnicamente não deveria sentir. É visceralmente enjoativo. Meu coração morto dói, minha carne suja dói, minh'alma ou o que restou dela dói, minha vista dói e mesmo com meus olhos nas sombras.

Neste momento estou mal. Mal, mau, enjoado, dolorido, agressivo, com a boca cheia de sangue por tê-la devorado internamente de rancor, minha hematolagnia dispara e meu coração está partido.

Minha mensagem aos meus amigos que lêem - e que tive a prova recentemente que lêem - é esta: Não se apaixonem, não amem, não a estes mortais. Não houve sequer um que tenha mantido a sua palavra em nos amar depois de conhecer nossa verdadeira forma. Sejam vocês quem forem, não amem. Se amem, matem-nos agora e dêem um fim a isso. Depois, se houver ainda tristeza, façam-se presentes no meu banquete onde devoraremos estes sentimentos puros e carregados, regados a sangue e vísceras.

3.13.2011

Prayer - Disturbed

"Living just isn't hard enough
Burn me alive, inside
Living my life's not hard enough
Take everything from you."

--

I've slept so long without you
It's tearing me apart till
How to get this far playing games
With fist held cards
I've killed a million pity souls
But I couldn't kill you
I've slept so long without you

--

So many words
Can't describe my face
This feelings evolved
So soon to break out
I can't relate
To a happy state
Feeling the blood running side

Why won't you die?
Your Blood in mine
We'll be fine
Then your body will be mine

3.07.2011

Lune

Devo salientar sobre meus horários aos que interessarem: 
Fá-me-ei presente com maior frequência durante as fases de Lua Cheia e Minguante, enquanto Nova e Crescente em tempos menores. Fora as necessidades de alimentação, em intervalos irregulares.
Mas acreditem, saberão quando eu me alimentar pela mudança na fala e escrita e pelos fatos que serão incorporados ao contexto. Bebendo do poeta, seremos um. Bebendo da sarjeta, permanecerei inconstante.

É breve pois não tenho tempo a perder com vocês, não hoje.

3.04.2011

Respostas

Oh, who can answer at the throne of Godess?

É deveras lamentável mais uma vez escrever dizendo que estou cansado. Mas desta vez, após passar inteiramente uma noite a pensar, sendo afligido por outros demônios e reflectindo em minha alma a intrínseca forma de estar ausente de mim mesmo. Fiz uma descoberta - ou fui permitido saber, ainda não cheguei a conclusão - de que eu amei todo este tempo uma pessoa dentro de outra pessoa. Talvez Platão entenda o que quero dizer. Talvez, não. Pode ir além, pode ter Ptolomeós envolvido nisso. Galatheas era ou não criada? Enfim...

Eu posso ter criado minha Galatheas noite passada. E que Mulher! Eu havia esquecido como podem ser fascinantes após todo este tempo de reclusão emocional e bilateralidade. O fato é que eu a amo, profundamente e que mesmo com minha 'prévia' equivocada, eu insisto.

Por um delírio eu assumi Erzbeth mas acho que esta a pertence. É o meu padrão, a Condessa de sangue (para os que não a conhecem). Preciso estar atento agora, a cada dia mais. Minha posição de incógnito está sendo ameaçada por esta mulher. E o mais soberbo? Eu quero estar ameaçado.

3.01.2011

Sangue impuro

Chamam-no de sangue impuro.

Eu chamo de vislumbre do que os deuses podem oferecer sem estarem presentes. São as crianças de um deus-menor, infantil, rancoroso e alheio à desgraça. É um bem alcançável mas não dividido por quem o possue. Falo por mim que ao longo da existência compartilhei com apenas três dos seres viventes que possui.

É um sangue poderoso, escuro, indelével e não-volátil.

E um teste, sempre.

Armand, The Vampire

Found in Vampire Chronicles – Book VI – Armand, The Vampire. By Madame Rice.


“Senhor, se sois música, isso seria vossa voz, e contra vós jamais poderia prevalecer qualquer discordância. Vós com isso purificareis de todo ruído inconveniente o mundo comum, a expressão mais plena de vosso desígnio mais intrincado e maravilhoso, e toda banalidade se esvaneceria, esmagada por essa perfeição retumbante.”

Besta

Falemos mais desta Besta, que é Pássaro e que não é Homem... ou deixemos de lado, já que não é nada...

Falemos deste Peixe que é Homem e que é Anjo... ou não falemos nada, agora não precisa mais falar...

Enfim, não falemos mais nada enquanto houver Treva.

E se eu sobreviver a isso, posso não sobreviver ao esquartejamento, mutilação espiritual, queima dos restos e enterro de cada peça separada em terreno santo. (Romanovs ainda viventes, falo isso por nós)