Além de ser o nome da música que ouço neste momento (A new Hope - Broken Íris) uma tonalidade de Fá me fez recordar dele. Costumeiramente, quando estou sozinho, lembro-me dele.
Lembro do dia em que o tornei o que é agora - se ainda o é. Faz tanto tempo.
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Noite, como sempre. Noite de verão, como nunca fora. Bulgária, verão de 1762.
Eu andava pela sombra da rua, mesmo naquela época. Havia uma peste levando toda uma população e o nome dela - mais tarde soube-se - era Legião. Os humanos estavam temerosos entre si e principalmente com os estrangeiros, que era o meu caso: Um jovem nobre do Mediterrâneo que recentemente adquirira a casa mais velha da região de Stara Zagora. Obviamente fugindo da repressão que havia antes do principado autônomo em Sófia. Me estabeleci, contratei servos e escravizei alguns outros (não, não era incomum para a época).
Mesmo para o povo alto búlgaro, eu era uma exceção. Não só pela altura como pela cor da pele que margeava o limite do que os gregos haveriam de ter. Eu era mais pálido. Não se ouvia minha voz, era por algo que acontecera antes, até aqueles dias. Logo, à noite e nas poucas contendas, eu era sempre uma alucinação bem-vista como investimento pelo clérigo e pela burguesia.
Nestes mesmos bailes, eu o conheci. Na terceira noite, ele chegou a mim e ofereceu-me algo de beber. - Ah, eles sempre fazem isso. Não notam que eu passo a noite inteira com a mesma taça, sem sequer chegá-la à boca. Tinha um rosto expressivo, notei uma ascendência valaquiana, era tão alto quanto eu e seu corpo talhado no mármore Botticino, sua voz rouca harmônica, vestia uma sobreposição rubra que o tornava tão opulento quanto um príncipe turco. Mesmo assim, parecia confuso, triste, irrequieto e sensível. Seu nome, Asparukh Sramanioski. Evitei ler seus pensamentos e evitei mais ainda desejá-lo. Por ora, pensei em sair fugido e ir o mais longe possível para preservá-los, antes de, consequentemente, amá-lo. No mesmo instante em que pensei em tudo isso, declinei. Era tarde demais.
Conversamos sobre política, economia, miscigenação, guerra e mulheres. Soube que tinha apenas vinte e dois anos de idade mas já era "versado". Menti. Menti sobre muitas coisas como idade, pais, origem. Falei apenas o que poderia, ocultando ao máximo uma forma de ser temporal pois acabaria me colocando em risco.
- Um adendo: em meados do século XVI em enlouqueci e simplesmente queria me expor. Isso durou até o final do século XVIII.
A conversa logo precisou ser interrompida pela hora, mas nos prometemos continuar na próxima noite. Foi complicado explicar por que precisaria ser à noite, mas consegui. Daquela noite em diante, não fui mais o mesmo. Como de muitas outras noites, mas só percebo o quão importantes foram para mim quando me deparo com eles, novamente. E me assusto.
Ao longo de um mês conversávamos todas as noites e uma amizade havia se integrado. Eu notava que haviam perguntas que ele mantinha para si, lógico, e sei que nunca poderia respondê-las até então. Até declará-lo apto.
Numa belíssima noite estrelada, saímos para observar os campos, na clareira mais próxima, que esvaneciam e conversar. O clima era de tensão e apreensão com a política aplicada para uma possível guerra próxima. Então, éramos apenas ele e eu andando pelas ruelas de Stara. Enquanto eu mostrava a ele a provável localização da Ursa Maior e me distraia, rebeldes saltaram à nossa frente, nos ameaçando. Fiquei em desvantagem não pela quantidade de homens flagelados que nos abordava mas sobre o que decidir. Asparukh, sagaz, sacou sua adaga e pensava em defender a nós dois. Eram cerca de doze homens contra 'apenas' nós. Um deles se adiantou e Asparukh cortou-lhe no braço, sem feri-lo gravemente. O aroma do sangue subiu aos meus olhos e lembrei de toda uma geração Navarro que acompanhei durante três séculos para me acalmar. Comecei a assoviar foneticamente em cítaro e ainda assim, a fúria não passava. Um outro flagelo, que estava atrás de nós, também estava com uma pequena faca e me atacou. Antevendo seus movimentos, virei-me e deixei que estacasse. Somente ele viu e por um segundo achou que venceria. Logo, ao ver meus olhos marejados de sangue coagulado e minhas presas à mostra, ele gritou. Não alto o bastante para que os seus comparsas entendessem que ali haveria morte.
Asparukh virou-se preocupado, mas logo sua percepção mudou. *Serei fiel ao que aconteceu, então aos que possuem estômagos - e fracos - parem por aqui*. Enfiei minhas garras no abdome do que me levantara a faca e o rasguei em dois, somente erguendo o punho. Virei-me para os outros e, um por um, quebrei seus pescoços, arranquei-lhes braços, corações, deixei que um sangrasse em minha bocarra, mutilei outros. No fim, isso contando que levara apenas cerca de dois minutos, hesitei. O próximo seria Asparukh, pelo que ele presenciara. O que eu nunca poderia prever - mesmo por Elijah - era a forma como ele olhava o monstro que era eu: com complacência. Havia sangue e outros fluidos espalhados por minhas vestes e ainda assim ele caminhou até mim, segurou minha mão e, na sua língua, disse: Винаги съм знаела, че ще се появи рано или късно, и аз да плъзгате моята истина. И любовта ми.
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Noite, como sempre. Noite de verão, como nunca fora. Bulgária, verão de 1762.
Eu andava pela sombra da rua, mesmo naquela época. Havia uma peste levando toda uma população e o nome dela - mais tarde soube-se - era Legião. Os humanos estavam temerosos entre si e principalmente com os estrangeiros, que era o meu caso: Um jovem nobre do Mediterrâneo que recentemente adquirira a casa mais velha da região de Stara Zagora. Obviamente fugindo da repressão que havia antes do principado autônomo em Sófia. Me estabeleci, contratei servos e escravizei alguns outros (não, não era incomum para a época).
Mesmo para o povo alto búlgaro, eu era uma exceção. Não só pela altura como pela cor da pele que margeava o limite do que os gregos haveriam de ter. Eu era mais pálido. Não se ouvia minha voz, era por algo que acontecera antes, até aqueles dias. Logo, à noite e nas poucas contendas, eu era sempre uma alucinação bem-vista como investimento pelo clérigo e pela burguesia.
Nestes mesmos bailes, eu o conheci. Na terceira noite, ele chegou a mim e ofereceu-me algo de beber. - Ah, eles sempre fazem isso. Não notam que eu passo a noite inteira com a mesma taça, sem sequer chegá-la à boca. Tinha um rosto expressivo, notei uma ascendência valaquiana, era tão alto quanto eu e seu corpo talhado no mármore Botticino, sua voz rouca harmônica, vestia uma sobreposição rubra que o tornava tão opulento quanto um príncipe turco. Mesmo assim, parecia confuso, triste, irrequieto e sensível. Seu nome, Asparukh Sramanioski. Evitei ler seus pensamentos e evitei mais ainda desejá-lo. Por ora, pensei em sair fugido e ir o mais longe possível para preservá-los, antes de, consequentemente, amá-lo. No mesmo instante em que pensei em tudo isso, declinei. Era tarde demais.
Conversamos sobre política, economia, miscigenação, guerra e mulheres. Soube que tinha apenas vinte e dois anos de idade mas já era "versado". Menti. Menti sobre muitas coisas como idade, pais, origem. Falei apenas o que poderia, ocultando ao máximo uma forma de ser temporal pois acabaria me colocando em risco.
- Um adendo: em meados do século XVI em enlouqueci e simplesmente queria me expor. Isso durou até o final do século XVIII.
A conversa logo precisou ser interrompida pela hora, mas nos prometemos continuar na próxima noite. Foi complicado explicar por que precisaria ser à noite, mas consegui. Daquela noite em diante, não fui mais o mesmo. Como de muitas outras noites, mas só percebo o quão importantes foram para mim quando me deparo com eles, novamente. E me assusto.
Ao longo de um mês conversávamos todas as noites e uma amizade havia se integrado. Eu notava que haviam perguntas que ele mantinha para si, lógico, e sei que nunca poderia respondê-las até então. Até declará-lo apto.
Numa belíssima noite estrelada, saímos para observar os campos, na clareira mais próxima, que esvaneciam e conversar. O clima era de tensão e apreensão com a política aplicada para uma possível guerra próxima. Então, éramos apenas ele e eu andando pelas ruelas de Stara. Enquanto eu mostrava a ele a provável localização da Ursa Maior e me distraia, rebeldes saltaram à nossa frente, nos ameaçando. Fiquei em desvantagem não pela quantidade de homens flagelados que nos abordava mas sobre o que decidir. Asparukh, sagaz, sacou sua adaga e pensava em defender a nós dois. Eram cerca de doze homens contra 'apenas' nós. Um deles se adiantou e Asparukh cortou-lhe no braço, sem feri-lo gravemente. O aroma do sangue subiu aos meus olhos e lembrei de toda uma geração Navarro que acompanhei durante três séculos para me acalmar. Comecei a assoviar foneticamente em cítaro e ainda assim, a fúria não passava. Um outro flagelo, que estava atrás de nós, também estava com uma pequena faca e me atacou. Antevendo seus movimentos, virei-me e deixei que estacasse. Somente ele viu e por um segundo achou que venceria. Logo, ao ver meus olhos marejados de sangue coagulado e minhas presas à mostra, ele gritou. Não alto o bastante para que os seus comparsas entendessem que ali haveria morte.
Asparukh virou-se preocupado, mas logo sua percepção mudou. *Serei fiel ao que aconteceu, então aos que possuem estômagos - e fracos - parem por aqui*. Enfiei minhas garras no abdome do que me levantara a faca e o rasguei em dois, somente erguendo o punho. Virei-me para os outros e, um por um, quebrei seus pescoços, arranquei-lhes braços, corações, deixei que um sangrasse em minha bocarra, mutilei outros. No fim, isso contando que levara apenas cerca de dois minutos, hesitei. O próximo seria Asparukh, pelo que ele presenciara. O que eu nunca poderia prever - mesmo por Elijah - era a forma como ele olhava o monstro que era eu: com complacência. Havia sangue e outros fluidos espalhados por minhas vestes e ainda assim ele caminhou até mim, segurou minha mão e, na sua língua, disse: Винаги съм знаела, че ще се появи рано или късно, и аз да плъзгате моята истина. И любовта ми.
Lágrimas vieram aos meus olhos e ele as enxugou, enquanto me beijava, ignorando a repugnância que eu causaria a qualquer um, mesmo algum da minha espécie. Beijou-me e não cedia. Seu corpo se aquecia em contraste com o meu, frio. Minha visão ainda era turva mas acompanhei enquanto ele me deitava debaixo de uma grande árvore (que ao longe parecia-me um olmo) e pretendia mais. Deitado por sobre um colchão de liliuns jankaes ele me beijava com mais força, como se precisasse mostrar sua intenção. Nunca, em sã consciência, eu rejeitaria um humano daquele como refeição mas como amante eu ainda manteria ressalvas.
Sem que eu me abstivesse, ele sujou as mãos retirando minhas roupas. Peça a peça. Para cada uma minha tirada, uma dele também o era. Os dois, nus, numa noite sangrenta, quente e estrelada. Logo, eu o possuía. Com o medo aflorado pela sua condição humana, eu o possuí. Cada centímetro do seu enorme corpo foi meu àquela noite. Horas se passavam e ele não cansava, o que, logicamente, me tornava ainda mais viril. Depois de várias laçadas amorosas, meu medo sim se tornou real quando senti o cheiro do sol que haveria de nascer. Precisava escapar daqueles braços e ele, ciente, vestiu-me somente com sua capa, colocou algumas peças das suas e saímos às pressas para o castelo. Lá chegando e eu protegido, pude olhar em seus olhos. O que vi era inocência aliada à obstinação, desejo, rancor com suaves pitadas de ambição. Preocupou-me deveras.
Expliquei que precisava me recolher em instantes e pedi que ele se retirasse, voltasse à noite que eu explicaria - ou tentaria - algumas versões. Ele se recusou, disse que passaria o dia a me vigiar. Logo, eu receei. Já houve antes humanos que me protegiam enquanto eu dormia mas não pensei que ele se colocaria nesta posição. Não tão rápido. Maldita fora a hora em que coloquei em minha mente não ler a dele. Deixei-o no castelo, ordenei à uma criada (que sempre acordava antes do sol nascer já sabendo das minhas manias) que cuidasse e o banhasse pois eu precisava descansar e não me sentia bem. Me dirigi aos meus aposentos ocultos onde dormia e mal pensava já àquela hora.
Não vi nada, sonhei com espadas e guerra, mortes e me via andando por entre os cadáveres.
Quando me levantei, já renovado, tratei de ir ao encontro de Asparukh. Ele descansava em minha poltrona, banhado, vestido, alimentado. Notei que sorria em seus sonhos. Chamei pelo seu nome, suavemente, ele se levantou e veio a mim. Não era feitiço o que eu usara, ele apenas veio a mim.
Disse-me: "- Eu sei o que você é e sabia antes mesmo de ver a sua face real. Eu procurei por você e enfim, o achei." - Aquilo me surpreendeu e acho que demonstrei esta surpresa. "- Eu aprendi o que vocês são capazes de fazer, sua beleza, poder. Imortalidade". Esta última palavra saiu como um rugido de sua voz rouca. "- Não somos nem um terço do que dizem que somos mas somos dez vezes mais do que pensamos ser" - Foi minha resposta. "- E, no meu caso, ainda existe algo mais.". Meu orgulho me rendeu estas últimas palavras. Mais perto de mim, ele me beijou. Sua língua procurava minhas presas como se precisasse provar delas.
"- Torne-me o que você é." - Ele disse.
"- Nunca."
"- Torne-me. Preciso disso."
"- Para ser um condenado como eu sou?"
"- Não. Para ser um vitorioso na batalha que se aproxima."
Fiquei em estado de choque. Ele demonstrara uma frequência que eu não esperava. Estaria eu sendo usado? Será que ele procurava alguma forma de poder para usufruir e calhou de encontrar um errante abandonado de si, que sou, para concretizar? Minha visão me levou ao passado e ao futuro e cambaleei. Meus sonhos daquela noite, mortes e guerra, queriam dizer alguma coisa.
"- Vamos. Faça!" - Soava como uma ordem dele a mim.
"- Eu nunca o farei. Prefira cem vezes morrer numa batalha como o homem que é do que vencer mil homens sendo como eu sou".
Ele pareceu confuso e irritado.
"- Faça ou nunca mais o verei."
"- Então, adeus." - Irrompi.
"- Faça ou o obrigarei."
"- Muitos já pediram e poucos conseguiram. Nenhum deles com arrogância ou ingratidão". A esta hora eu já o desprezava violentamente, mas mantive-me calmo.
"- Eu preciso do poder. Preciso."
"- Pois teria seu poder em mim, aliado, que acaba agora. Retire-se de minha residência." - Finalizei.
"- Não. Não antes de tomar de você o que quero. Ou morrer tentando mas isso não está nos planos. Seu sêmen está em mim e como eu aprendi, isso já me dá parte de poder." - Ele estava certo e com apenas dois dedos quebrou minha cadeira preciosa. "- Passei o dia lendo seus livros e imaginando."
"- Saia. Agora." - Chamei Soanikova para acompanhá-lo enquanto em minha mente eu já pensava em onde me estabelecer agora que meu segredo foi declarado e um inimigo disperso.
Ele, ainda de posse da adaga, cortou a garganta de minha criada e partiu para cima de mim, com a fúria de um djiin. "- Se eu beber do seu sangue eu serei como você. Não vai me dar por bem, dará por mal pois eu o sangrarei. Uma pena apenas ter de me livrar de um companheiro com tanto futuro e que me fez tanto orgulho."
"- Pare." - Disse apenas isso e ele estacou onde estava, confuso. "- Como eu disse a você, eu não sou como você leu ou acha que aprendeu sobre. Eu sou maior, diferente, mais forte e mais poderoso do que você ou seus antepassados podem imaginar. Não serei sua arma, tampouco poderia algo contra mim. Que seja desfeito todo e qualquer sentimento que eu pudesse ter nutrido por alguém ambicioso como você e tão jovem."
Ele permaneceu enfeitiçado.
"- Porém, também, como você deve imaginar, não sairá daqui com vida depois do que fez." - Seus olhos marejaram mas ele permanecia estático. Andei suavemente até ele, apalpei seu pescoço e encostei uma presa. Revirei-me. "- Nem este seu sangue que ontem era tão puro me presta agora. Morrerá indigno, por ter tratado um amor como subterfúgio para seus planos sórdidos."
Tomei a adaga de sua mão e a joguei longe. Com tanta força que ela espetou e fincou a parede criando uma risca de fogo pelo granito do castelo. "- Minha maldição a você será viver para sempre em seus sonhos, aqui neste castelo que será consumido brevemente e quando o acharem, não se lembrará nem de mim, nem do que aconteceu, nem de quem você é. Será como nada, que é."
Seus olhos desfocaram, eu me virei e sai. Era princípio de noite, eu ainda precisava pensar em como tudo acontecera e tão rápido. Como eu pude?
Passados alguns poucos anos, a Guerra realmente estourou naquele país. Eu já estava mais próximo de minhas origens europeias quando soube das notícias. Lamentei não ter participado e que meu sonho era real. Não era a primeira traição, mas confesso que aquela me feriu um pouco mais.
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Hoje, passados todos estes anos, eu reencontrei parte de Asparukh em um outro homem. Claro, ele não sabe o que aconteceu. Aquele Asparukh morreu cerca de oitenta anos depois, sozinho, ainda imerso em seus sonhos megalomaníacos. O Asparukh de agora começou de um jeito diferente comigo, mas sinto cada sabor do antigo na alma dele. É sim, sua reencarnação. O que fazer?
Винаги съм знаела, че ще се появи рано или късно, и аз да плъзгате моята истина. И любовта ми. // Eu sempre soube que você se mostraria, mais cedo ou mais tarde, e arrastaria consigo a minha verdade. E meu amor.


