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10.12.2014

Descartabilidade


Certo estou de que algumas mensagens jamais precisam chegar aos seus destinos, mas, por vezes, tenho vontade de tentar enviá-las. Lembrando também na eterna dúvida sobre "um presente não aceito pertence a quem o remeteu, a quem não o recebeu ou a ninguém e isso o deixaria ao Cosmos"? De fato, tenho tanta coisa presa na minha alma que expor tudo isso causaria uma batalha de mil dias contra mim mesmo.

Tanta informação de tantas pessoas a tantos amores. Tantas histórias vividas e mais ainda as não vividas, que os deuses tenham misericórdia da minha sanidade. Contar aos que amei e ainda amo sobre nossos futuros perfeitos, nossas aventuras dentro e fora deste mundo, minhas pretensões, minhas intenções, minhas segundas intenções, minha disposição. Tudo alquebrado pela ausência de oportunidade de escrever. Começar um diário que elucidaria meu futuro não é permitido também.

Existe uma vontade e uma dedicação daqueles que nasceram sob a Estrela da Solidão que os eleva ao padrão de estrelas também - sempre distantes uns dos outros por segurança. São como estrelas, como navios, como feras selvagens, como cauda e cabeça - permanentemente distantes, até desconhecidos um ao outro. Percebo que existo para dar alguma razão à vida das pessoas, ainda que uma razão de conforto ou ciência de que o que sou, não lhes basta. Ou ainda que, sendo o que eu sou, devem manter cautela. Confesso que não sou único neste quesito mas talvez um dos que se expõem mais radicalmente. Minha 'descartabilidade' só é comparada à enorme presença maligna que eu causo às pessoas. Intrigante, não?

Posso ver o futuro, outros mundos, outras entidades, os corações humanos e não-humanos, não preciso de ar ou água. Posso estar em vários lugares ao mesmo tempo e posso saber de coisas que não deveria poder. Posso me reabilitar de várias situações, sou intangível ou maciço quando preciso, sou absurdamente velho e ainda assim inexperiente. Não consigo adoecer e morrer. Não posso perceber todas as nuances de cores mas o vermelho nunca me escapa. Tenho vários de mim dentro de mim mesmo e comando Legiões. Posso criar e destruir. O mais importante, então, eu já não posso. AMAR. Ou talvez o amor seja algo inexistente ou intocável para coisas como eu, afinal. Percebo que vislumbrei o 'amor' por pessoas que já perdi e que não poderei ter mais tão cedo e sei também do amor delas para comigo. Serei sempre algo que passou em suas vidas e não haverão lembranças suficiente de mim, incrível, não?

Inúmeras vezes eu já havia sido advertido disso por meu maior amigo mas nunca me dei conta, até agora, da volatilidade das pessoas. A maioria delas trata-me como um gênio, algo que só precisa ser acionado quando necessitam de um favor ou de ajuda. Há décadas eu não sou bem-quisto por alguém, imparcialmente. Alguém que me queira bem e que me queira de fato.

Eu afasto as pessoas. As pessoas me temem. Me julgam pelo que sou sem saber que não tenho outra opção. Eles me machucam, conscientes disso. Eles me forçam a fazer coisas que não quero, tentam me seduzir à maldade. De fato, as pessoas estão tão absortas de si que não reconhecem sequer quando alguém lhes quer fazer o bem e isso é lamentável.


Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. //Clarice Lispector
Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto. //Francis Bacon
A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais. //Arthur Schopenhauer

7.20.2014

Vingança, um néctar que se bebe quente


Então já se tornara um sábado noturno quando eu recebera a mensagem de que 'ele' iria festejar na rua, com amigos. Não estava em minhas mãos impedir, evidente, mas estava em minhas hábeis mãos fazer desta noite algo memorável e inesquecível, em seu leito de morte.

Esperei que a Lua se tornasse plena no céu, havia um frio peculiar para aquela época do ano, algo que excitava os mamilos e fazia o hálito se tornar mais vibrante e desejoso de companhia. Percebendo que ele havia saído, preparei-me para fazê-lo também. Usando de um subterfúgio, percebi seu trajeto e também o fiz insinuando que queria estar no mesmo local que ele, apenas com momentos de diferença. Momentos vitais que haveriam de se tornar nossos últimos naquela noite. Percebi então que ele havia chegado: uma boate comum, com pessoas comuns, aquele cheiro da promiscuidade comum que atrai almas comuns. Não esperava algo diferente vindo dele afinal. Ele chegara com suas companhias e logo trataram de se acertar no local – tudo isso eu observava de muito longe, ainda. Deixei que eles se divertissem tempo bastante e então, lá por volta das duas da manhã, eu me dirigi ao mesmo local. Fatalmente vestido e perfumado, olhos reais, com a essência negra como de costume. Se alguém me perguntasse como cheguei ali, diria calmamente que alcei voo como habitual, pousei onde era menos observado e por um truque coloquei imagens falsas nas mentes dos que poderiam ter visto algo suspeito na minha chegada.

Minha figura ainda causava algum frisson, onde quer que eu fosse. Pois bem, tomei a precaução de estar no mesmo local sem me deixar ser visto por ele ainda.

Evitei a multidão com a cautela necessária, escolhendo um local mais escuro para me instalar. Homens e mulheres admiravam o que viam e eu ignorava a todos, também como habitual. Hora me dirigi ao bar, paguei por uma bebida e voltei ao negrume da boate. De longe eu o observava, feliz, espontâneo, quase uma bela imagem se não fosse por suas intenções que já exalavam e um nariz treinado como o meu, captava. Pois bem, dada a hora dos demônios, eu resolvi começar a agir.

Deixei a escuridão do meu canto e lancei mão dos artifícios para esconder minha real personalidade, deixei homens e mulheres tortos ao se virarem para acompanhar meu trajeto, suas bocas babavam, seus membros falhavam, seus medos afloravam e por vez ou outra eu ouvi aquela palavra que define a minha raça. Durante este pequeno percurso, beijei lábios desconhecidos, vários, deslizei minha língua por vários pescoços e ombros, minhas mãos conheceram caminhos naquele caminho. Me deixei ser a imagem e a ação da própria alma do local, libertino, promíscuo, luxurioso. Era fascinante perceber as reações. Cheguei então até defronte a ele, que me olhava com olhos arredios, quase afrontosos, reconhecendo em mim a pessoa com quem falara várias vezes. Era uma mescla de prazer, medo, desejo e resiliência e eu admirei esta última qualidade. Havia uma confusão instalada em sua mente quando eu lhe disse que havia percebido o caminho que tomaria e resolvi fazer o mesmo, como surpresa. Ele balbuciava algo como "não deveria" e "como me encontrou" e eu ignorei, beijei-lhe a boca ferozmente enquanto todos os seus amigos observavam, atônitos. Não me refreei e beijei cada boca que ali naquele círculo se encontrava, deliciando-me com cada prazer único e conhecendo cada alma, evidente, deixando um rastro de confusão nos seus olhos. Parecia um flagelo recém-formado, sedento por prazer, hedonista. Voltando a ele, disse-lhe em tom lúdico que estaria ali para vigiar suas ações, ciente de quais eram elas antes mesmo de se pensar.

Depois de beijar a todos e em todos deixar minha marca, tomei-lhe pela mão sinistra e partimos daquele ambiente para um mais escuro ainda. Evidentes eram os olhares que nos acompanhavam até o andar superior, que era aberto, daquela boate. Ao lá chegar, disse-lhe que estava ali para que o desejo fosse consumido, que não houvessem freios, que os rompantes fossem exacerbados pela emoção e luxúria. Falei enquanto percebia em seu olhar um misto de pavor e necessidade. Por fim, sentados em um banco improvisado, contei-lhe sobre meus planos para aquela noite e ele aceitou. Logo, pensamos em deixar aquele local, juntos, para um melhor. Voltamos, vi quando ele se despediu de seus amigos dizendo algo em seus ouvidos e compartilhando de uma ironia jovial – lógico, ele sabia que acabara de ganhar a noite e que um dos seus desejos carnais seria consumado. Achei graça também, pelo advento.

Dirigimo-nos à saída.

À porta, tomamos um carro que nos deixaria no destino. Porém, na metade do caminho, à beira de um rio que cortava aquela cidade, eu induzi o motorista a parar. Disse-lhe que lhe faria uma surpresa, paguei ao motorista e encaminhei-o à uma viela escura. Passava em seus olhos lembranças de quando eu o assustava, contando sobre mim mesmo e ele sorrateiramente levava para o lado do humor – mal sabendo que meu câncer é falar a verdade em forma de brincadeira, para não parecer tão verídico. Já naquele momento eu não me importava com mais nada a não ser a vingança. Tomei-o no rumo daquele beco escuro, forçando-o. Encostei-o em um dos muros que nos cercava e estartei a beijá-lo. Mais e mais, mais forte, mais denso, mais violento. Notei que havia lágrimas irrompendo de seus olhos e seu medo congelava os movimentos, ele já imaginava o que estava por vir. Deixei-o com este pensamento latente. Como um gesto de misericórdia, parei um instante para delicadamente conter uma das lágrimas que escorria e foi quando ele disse-me "eu sabia que era verdade, sabia bem lá dentro de mim que ainda havia a possibilidade disso ser verdade". Disse-me, referindo-se à minha condição inumana. Concordei com um sorriso aparente e um olhar marmorizado, já antevendo que as pupilas tomavam a cor rubra deliciosa que advém quando começo a me alimentar. Não havia percebido, entretanto, que já tomava pequenos goles de sua essência quando por exagero da força, machucara seus lábios nos beijos. Ainda posso ver seu jeito infante, seu sorriso cálido, sua alegria em viver ainda que numa vida moldada em vitríolo. Percebia que o ameaçava tal qual uma serpente encurralando uma lebre e isso me excitava. Profundamente. Mesmo não havendo desejo sexual eu o violentei, molestei seu corpo frágil e delicado com o meu bruto e rude, até que sangue brotasse de suas entranhas e ele urrava de dor. Tomei daquela carne como tomei daquele espírito, ferozmente, como o animal que sou. Quando já exausto da violência sexual, voltei à violência emocional, ele já à esta altura seminu, sangrando, choroso, sujo, maculado. Era tão fascinante que queria fazer daquele momento ad-aeternum. Interessante como ele não implorava por sua vida, provavelmente já imaginava que não funcionaria comigo. Porém, também, devo confessar que por um momento pensei em deixa-lo. Bem, ainda que não o tenha feito, dei-lhe a paz eterna. Cansado, tomei-o com uma das mãos, alcei seu pescoço até minhas presas e bebi dele, irrefreadamente, querendo acabar logo com aquilo. Agora, se tratava de mais um corpo quebrado, exangue, sujo e que eu mesmo maculei e entalhei. Acabei me divertindo ainda mais quando parti-lhe os membros, um a um. Esquartejado, deixei suas partes jogadas às margens daquele rio, tomei voo e voltei à minha morada: satisfeito, por ter conseguido mais uma vez provar para mim mesmo que não sou mais um anjo e que posso sim ser o que quero ser, quando quero ser, com quem quero ser.

Na noite seguinte, como habitual, li nas manchetes sobre o incidente do "corpo esquartejado encontrado" e que se supunha "ser vítima do mal social" que afligira a humanidade. Ele agora habitaria em mim e este era um bem que eu acabei fazendo-lhe sem intenção.




Para a maioria dos homens, dor significa ódio, e ódio significa vingança. //Paolo Mantegazza
A vingança é uma espécie de justiça selvagem. //Francis Bacon
A vingança agrada a todos os corações ofendidos; (...) uns preferem-na cruel, outros generosa. //Pierre Marivaux