"Do not say you love me. You do not even know me."
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Era manhã de Carnaval. Era noite de Carnaval. De um Carnaval qualquer, que aconteceu há alguns anos. Era manhã, eu acordado mas não poderia sair. Era noite, então, era minha hora - Carnaval é uma das minhas comemorações favoritas, já que podemos ser nós mesmos sem chamarmos atenção. Ao menos no Hemisfério Sul, no Norte temos o Halloween.
Estava eu a caminhar pela multidão, apreciando seu fantástico gosto órfico pela notoriedade, à beira-mar (mesmo sendo impossível ainda tocar água corrente), quando o vi. Lá estava ele, com suas belas asas abertas e blusa de marinheiro, bermudas e chinelos, abraçado à uma senhorita que por sua vez abraçava outro. Posavam para uma foto, lógico. Fantasias, é claro, para eles. Eu sou sempre eu e gosto disso, gosto de ser reconhecido. Acredito que eles não me viram, ao caminhar pelas sombras me torno imperceptível aqueles que não querem me ver. Passei a observá-los com um intenso desejo pelo primeiro 'anjo', era belíssimo como só os reais anjos poderiam ser. Notei que a ele, parecia saber que era observado, mas não dei valor ao caso. Continuei apenas espreitando aonde quer que eles fossem, ora juntos ora separados.
Por um momento, já ao andar de Nyx, ele se desviou do caminho dos amigos para suas necessidades fisiológicas humanas simples, então vi ali minha oportunidade. Over this years, eu pensei. O segui, ainda à espreita e quando ele havia terminado, intempestivamente irrompi em sua frente, rápido como um trovão nórdico, tanto que ele obviamente se assustou. Primeiro com minha chegada e logo com minha aparência. Aos seus olhos, o que eu vestia e usava era, essencialmente, eu mesmo. Havia um estranho dom que o circulava, como se ele tivesse uma premonição mais apurada do que os outros humanos.
Curvei-me em reverência e ele achou engraçado, como se não imaginasse o que era um cortejo. Lógico, homens de hoje não sabem mais o que é flerte ou a corte. Ele tinha um sorriso iluminador, supremo, inocente e talvez este sorriso tenha me feito apaixonar. Como já tinha sua atenção, tratei de me apresentar e perguntar seu nome. Antes que pudesse dizê-lo eu o cortei e disse que não importaria, como no flerte, disse que 'não importava o nome do anjo naquele momento, apenas que ali ele estivesse'. Sentia que o ganhava a cada instante, com cada olhar e cada aproximação fingida ser motivada pela multidão aglomerada.
Convidei-o para um local mais reservado para continuarmos a conversa e ele, espantosamente, aceitou. Deste dia tirei minha primeira conclusão sobre os humanos: Todos eles, indiferentemente do que aprenderam quando crianças, esquecem-se de que não se deve falar com estranhos e menos ainda sair com eles a locais reservados. Tomei-o pela mão e nos dirigimos à uma das ruelas que circundava aquele local. Outro fato curioso sobre o Carnaval é que ele não discrimina. Estranhamente, não repreende. Tampouco acalenta, mas me permitiu beijá-lo ali apenas, à frente de tudo e de todos, sem correr riscos. Não é pelo que conheço do país onde as pessoas são temerosas e desforram este medo com preconceito e ameaças. Em outros países as coisas simplesmente assim, fluem, naturalmente, como se nada estivesse ou parecesse fora do lugar.
O beijei e senti o gosto da vida. Da vida dele, do que ele aprendeu, ergueu, sofreu. Não precisei da petit boisson pra conhecê-lo, apenas desta vez, eu conheci um humano pelo beijo. Tornei a beijá-lo e ele parecia gostar cada vez mais. Como estava hospedado por ali perto (sempre me hospedo em países, à beira-mar. Para me lembrar do que não posso e deixar que a Lenda me mantenha sob um certo controle), convidei-o. Desta vez ele hesitou, mas, com um pequeno empurrão, acabei conseguindo. Saímos então da multidão e adentramos um ambiente de tranquilidade, calma e contentamento elegànce. Em sua mente, ele contemplava e imaginava que tipo exótico de homem rico eu era para me hospedar em um local tão privilegiado e ostensivamente caro e imponente. Ignorei, simplesmente.
A hora passava e meu medo crescia.
Logo, estávamos a nos beijar novamente e desta vez sem o mínimo de pudor já que estávamos a sós. Pensei como era engraçado os homens fantasiarem-se de anjos enquanto os próprios e verdadeiros anjos tentam se mesclar à sociedade feito homens. É como um vice-versa maquiavélico.
O beijava e tirava suas roupas, enquanto tirava as minhas. Logo, estávamos num frenesi de troca sexual e emocional sem nenhum ponto de autoridade imposta. O possui por diversas vezes durante aquela noite curta e dele eu bebi, sem que ele notasse. Quando senti que o meu adversário estava a se aproximar, precisei maquinar uma forma de deixá-lo, mesmo não querendo. Ele seria um lindo exemplo para minha raça e um perfeito Perfeito. Já havia algo nele que sentia a tensão em mim, quando da primeira vez pensou ser observado. Considerei sua coragem ao permitir-me tudo aquilo. Pensei e cheguei à conclusão de que não. Não seria justo tirá-lo de seu mundo sem a escolha. Era injusto comigo inclusive, eu o queria para sempre.
Durante a noite, pelo álcool, pelo prazer, pelo sexo ou pela junção de tudo isso, ele disse que me amava. Eu retruquei dizendo que não se ama aquilo que não se conhece. Ele - ousou - corrigiu-me: aquilo não, aquele. Foi o que me despertou, ele não me via como algo intocável ou perfeito. Talvez ele me quisesse também, como companheiro, para toda a eternidade. Não. Não era pra ser assim. Eu não queria corromper mais um visto o que o último me fizera.
Peguei o telefone, liguei para a recepção, me identifiquei, disse que tinha visitas e que não fossemos perturbados, mas que, ao meio-dia, fosse chamado. Deixei as chaves ao lado da cama, dinheiro (mesmo achando que isso pudesse magoá-lo) e parti pelas janelas. Pulei e cai num beco que, pelo quase amanhecer, já estava deserto. Podia ainda sentir o gosto de orgias, álcool, tabaco e felicidade no ar condensado da quase manhã. Sentia também aquele olhar superior já a me procurar. Numa super velocidade, escalei uma pequena montanha que havia ali perto e na metade do caminho, comecei a cavar com minhas próprias mãos e unhas. Com muitos centímetros de profundidade na sepultura, eu me joguei e fui cobrindo com a mesma terra - precisaria me proteger do dia e dos curiosos.
Então veio o amanhecer.
Minha mente estava com ele, enquanto eu ligeiramente adormecia. Por ter bebido dele, agora fazíamos parte um do outro e pude despertar (sem sair da cova) no momento que ele despertou com um sorriso no rosto, esperando ver-me ao lado. Mas não viu. Procurou-me pelo quarto, pelo hotel, pelas redondezas e nada. Por fim, desistiu, voltou ao hotel e perguntou à recepcionista qual o paradeiro do seu anfitrião. Lógico, a recepcionista não disse nada. Sua tristeza tornou-se palpável e ele sentiu-se usado. Ainda na mesa da recepção, a mulher sentiu pena e o chamou. Disse apenas um nome a ele, para que guardasse em sua mente. Disse que ele era o primeiro que ele trazia até ali, porque ela mesma o acompanhava sempre com o olhar na esperança dele a querer um dia. Disse que havia medo e terror nos seus olhos e que ele tinha uma estranha mania de não ser visto durante o dia, apenas durante a noite. Praticamente o mergulhou em suspeitas e crendices - o que era o certo e mais que verdadeiro.
Em minha cova eu me senti culpado e mais uma vez, um animal. Quis voltar e abraçá-lo, tomá-lo novamente, mas não poderia. Logo, voltei a dormir.
À noite, voltei para o hotel e eis que na entrada lá ele estava. Já sem fantasias e por sorte eu o vi antes de que ele pudesse me ver. Ele regressara por mim, o que eu fizera?
Tomei uma decisão e continuei, quando ele me viu havia uma mescla de raiva e esperança em seu olhar. Parou-me, exigindo uma explicação. Eu apenas não poderia olhá-lo nos olhos, havia me alimentado e ele notaria o embaçamento da minha visão. Fora que eu poderia ainda estar irracional pela fome. Subi até onde estava hospedado e ele me seguia, fazendo perguntas que eu não poderia responder. À porta do meu quarto, decidi. Virei-me, olhei em seus olhos e o enfeiticei. Fiz ele esquecer de tudo o que havia se passado, implantando memórias falsas sobre o que havia acontecido a noite e como ela prosseguira. Eu o perderia, mas era melhor do que corrompê-lo. Fiz. Enfeitiçado, ele apenas voltou para onde deveria estar, entre humanos.
E desde então não o vi mais.
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E desde então não o vi mais... Até que, agora, assumindo uma nova identidade, acabei por encontrá-lo no mesmo ambiente. O que parecia infinitamente impossível - ou no mínimo improvável - aconteceu. Ele ainda não me reconhece mas eu estou, a cada dia, tentando retratar o que fiz, usando esta nova identidade. E testar aquele 'amor' que ele prometera. Se for pra ser, será. Investirei.
Não deixarei que ele seja mais uma letra para minha história.
"O potente, o amante, o homem viril, são homens bons... bons homens de abraços e passos firmes... bons homens pra se contar histórias... Há, porém, o homem certo, de todo instante: O de depois! "




