Eu queria ter sido mais vermelho, mais impuro. Ter deixado instintos adormecidos voltarem à vida e tomar o que me pertencia por estar entre, por tanto tempo.
Neste momento encontro-me fraco, exausto e rejubilando com um doce som gótico e belíssimos chorus com vozes tão celestes quanto as que devorei enquanto no céu estive. Talvez a fraqueza seja uma constante em minha vida, fato que a cada dia eu mais me exaspero por permitir que chegue a tanto.
Dentro deste mesmo conceito me vejo inerte em mares bravios, não por opção mas pela necessidade de autocontrole elevada pelo histórico de rompantes dolorosos a ambas as raças. A música sombria vai e volta, sempre constante, amaciando minha fraqueza pois como demonio que sou, captivo, consigo armazenar as informações que me são passadas até em nível subintelectual.
No alto da minha torre de vidro partido eu permaneço delirante, louco, enraizando cada vez mais numa terra que não me dá sustento nem abrigo já que me abasteço do que possuo guardado com uma mísera bactéria autofagocitária imberbe. Continuo lá, observando meu reino de partidos e quebrados, sangue, dor e vermes soberanos. Talvez se eu pudesse ser mais vermelho, mais cantabile fazendo deste meio uma criação mais trabalhada, não precisaria me manter preso às canções alheias. Perco a sobriedade com facilidade, imerso em aromas humanos e seus desejos que me consomem.
Novamente, me encontro alheio e ausente, não imaginando como palavras ardis disparam de minha mente e tomam forma neste reino de caracteres rebuscados e intrinsecamente desnecessários. Não sei o que faço agora a não ser expelir este consumo desenfreado de presenças magnificas.
Enquanto escrevo vejo os anjos que me acompanham, vejo cada um deles tomando forma e deixando que suas lágrimas rolem de suas faces cor de cobre, porém acho que eles não sabem que eu os vejo. Como figuras míticas eles são superiores e nem sempre sábios como são pintados. Não acredito que mostrariam suas lágrimas a mim, e também não acredito que sejam por minhas falhas. Eu sou vermelho, isso eles sabem, mas não fazem sequer a mínima noção de onde eu venho e por que eu ainda estou aqui.
Vermelho, é talvez o que me diferencie deles. Mesmo tendo uma origem paralelamente comum e uma evolução ramificada do mesmo.
Não há margem para seguir um espaço físico, perco-me no que falo pois já não sei o que sou e por que falo, se me foram roubadas as penas e a tinta.
Ouço ainda o reverberar da belíssima musica, funesta, sangrante, cortante, lasciva e que me acompanha, tentando fazer meu coração dilacerado tomar nova forma porem contando como trabalho impossível. Não será possível ressuscitar o que é perdido?
Menos Vermelho eu seria se passasse tudo isso adiante?
É um árduo trabalho, digo. E eu não o assumo para mim ainda. Deixo-me nas mãos dos que se acham no direito de herdar a vida de quem não a possui mais. E que seja feito o trabalho do Sol se for a necessidade dos impuros.
Me despeço,
O Vermelho.
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