6.03.2011

Hypnos

Novamente aquele sonho. Posso sentir ainda o gosto do sangue do velho homem em minha boca, acariciando minha língua lasciva, me tomando ao êxtase como sempre acontece. Novamente no cemitério,  cruzes, aromas peculiares, criptas malacabadas e aquela sensação funesta conhecida. O velho recém-criado e abandonado, tanto que não conhecia nossas fraquezas e nossas forças, o que me remonta sempre a questionar quem o poderia ter criado. Provavelmente algum ser inferior, um espectro, prestes à se esvair e de alguma forma nobre tentando deixar um Legado que ainda acredito eu, não ter sido completado a tempo.
Lembro claramente do medo ainda humano estampado na face do velho. Um velho comum, como se o ultimo recurso de um irmão tenha sido este, nada de especial. No sonho eu precisava revelar sobre nosso dom oculto no sangue e a forma com que nos conhecemos uns aos outros assim. Nesta parte me volta o gosto daquele sangue ralo, incoerente com imagens infundadas de orgulho ferido e megalomania indecente. Lembro inclusive de ter de ensinar os sentidos básicos a ele. O que me deixou desperto no sonho foi que ele me reconhecia, mesmo nunca tendo sabido de mim.

Talvez algo que tenha ido impensado no sangue do seu criador. E mais, ele conhecia meu nome oculto-sombra. Sabia que devia respeito e temor, sabia do meu próprio grande poder e conhecimento, era infantil até neste ponto. Estranho como ele sabia tanto de mim mas tão pouco do que havia se tornado, assombrando túmulos à vespertina, arriscando a si e a nós de forma tão brutal.

No mesmo sonho havia choro de criança, talvez uma das minhas muitas vítimas mas algo que me ligava ao ambiente.

Nunca fui ao estilo 'Carpe Noctem', diga-se de passagem, logo este caminhar por entre símbolos de minha passagem não me competem algo de glorioso. Au contràire, justamente me incentivam a me moldar com a nova era. Como já dissera, tenho uma grande dificuldade de esquecer velhos hábitos mas da mesma forma me adapto à nova necessidade. Por acaso alguém estipulou que para adquirir novos conhecimentos precisamos esquecer os antigos? Creio que não. Seria impossível, no meu caso.

Bom, no sonho eu ouvia, agia, ensinava, bebia e martirizava sentimentos aleatórios. Brincava com os medos dos vivos e ateava terror à tranquilidade dos mortos. Erra quem pensa criar uma linha entre o que há de vivo e de morto, eu sou a prova disso. Erra além quem acha que uma esfera não pode interferir na outra e erra brutalmente quem desconsidera o poder por si só, extrapolando todos os limites tangíveis. No sonho. Ou talvez real.

Tenho assumido um nome recente, não um formal eu digo, destes que costumo usar para poder caminhar de certo livre mas um nome que espelha algo que eu aprendi nesta vida corrente: Icelus, conhecida entidade grega do pesadelo, irmão de Phantasós e Morpheós e todos filhos de Hypnos (segundo Ovídio) ou de Nyx (segundo Hesíodo) - na minha concepção sobre deidades, ele é algo inato, oriundo ou derivado da própria inexistência e paralelo à Phobos e Deimos primordiais - e acho que este nome está me ajudando a entender o que se passa em meus sonhos.

Com base no que tenho visto e sentido, temo meu próprio futuro. Ecos de eras passadas me assolam e talvez por tanto aprender e tentar me incluir penso que estou adquirindo a maior -ou pior - consequência do carater humano, a Consciência.

O que mais me faltaria? Começar a amar verdadeiramente? No dia que eu me aproximar disso exijo ser castigado violentamente por todos os deuses que me servem!

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