A semana passara com os planos em evidência: haveria luxúria na noite de sábado para refestelar o tempo perdido com compromissos e acidentes de percurso emocionais. Planos, propostas, amigo envolvido (cujo nome será revelado em acróstico quando menos se perceber), boate, bebidas, fogo, água, gelo, sonho, cuidado, rancor, asas e sêmen. Ao menos era o que havia em mente.
Eu, paradoxalmente antigo tentando me adaptar ao moderno, sensual, denso, intenso, mergulhado em sujidade e ressonante. O amigo, neutro, diurno, responsável e espirituoso. Mistura perigosa, no entanto havia um pacto.
Sábado chegara e com ele as mentiras deslavadas e incongruentes. Manhã, Tarde, enfim, Noite. Últimas decisões, desespero momentâneo, notícias ruins, mortes, desapego. Rumo ao que o diabo esperava após atrasos da minha parte. Local, hidromel moderno, conversa, observação. Trajeto, entrada, ambientação, repulsa, nova adaptação. Festa, homens, sorrisos e falsidades. Ele, eu, meus irmãos-deuses conosco. Dança, ruído, sinal, sinais, concepções.
- Em Noite adentro.
Lá pelas tantas, o ostracismo me encontrara. Tentava manter-me erigido na minha ausência e plenitude. A certa hora - receio que por volta de, tarde demais - vislumbrei-o. Não somente o vi, antecedi sua presença à minha e, como descrito no relato anterior, o conhecia da mesma forma que conheço todos os outros. Me divertira com as mentiras humanas contadas e a decadência do "sexo forte". Confesso que mesclei sorriso com decepção durante boa parte da noite mas, meu amigo supino-reto-à-90º, manteve-me absorto dos outros com suas vibrantes transliterações do que víamos (perdoa-me, amigo, mas para poupá-lo ocultarei alguns detalhes). Eu o vi, lindo como a luz da Lua com todos os seus versos de prata. Algo imponente sua maneira esnobe, cabelos, olhos, corpo, cheiro. Cheiro.
O tempo passou de forma sucinta, me apeguei àquela hora em que o vi e o tempo congelara. Não era amor, óbvio, era necessidade de contato.
Cacei, espreitei, deliciei meus olhos e meu corpo se manteve rijo, ereto, ocultei meus olhos desejosos dos dele e esperei. Esperei o momento certo para atacar, enquanto no sofá de uma pequena sala de estar eu aumentei a dose de sedução e, em décimos de segundo, eu o beijei. Antes de saber seu nome ou de onde vinha. Ele retribuiu o beijo, lógico, e me chamou do que eles sempre me chamam: Vampiro. Confessei minha raça mas não dei tempo para réplicas e o beijei novamente. E de novo e de novo e de novo. Para garantir, de novo. Não me cabia somente em mim.
A conversa então precisou aflorar e ouvi cada detalhe com a atenção de um lobo. Falei pouco sobre mim, deixei o restante à própria descoberta. Conversamos mais, dançamos juntos, beijamos um ao outro enquanto a noite voltava a ser uma criança que perdi de vista por instantes suficientes para que derrubasse meu vaso da era Tokugawa favorito e me deixasse a culpa. Uma lástima!
- Noite afora.
O tempo acabara, a viagem de retorno precisaria ser refeita. Por um acaso do destino (sim, EU destino) os amigos o deixaram cedo demais por algo urgente (sim, confesso) e meu convite de ser acompanhado por mim e por meu amigo o agradou. Talvez tenha agradado a todos, acredito, o interesse era meu mas meu amigo é um amigo complacente com meus caprichos e agradeço-o por isso (mas não me deixe mimado). No caminho de volta peguei seus contatos e nos falamos uma vez após este dia. Muitas horas de conversa até descobrir gostos iguais, não semelhantes, realmente iguais e constatar que ele era mais um Dele, destes que são um só e que estão sempre comigo. Meus sentidos se afloraram porque ele era exatamente os dois décimos que faltavam para minha completude.
Eles são como os Jacks, estão em toda parte, me seduzindo, me tornando um escravo deles, se fazendo em mim e no meu corpo, se aproveitando da minha idade, da minha raça.
Não dormimos juntos mas é como se tivéssemos. Isso me assusta. Hoje, passados três dias da conversa me sinto só, culpado e magoado pela sua displicência. Ao mesmo tempo me sinto feliz pois nunca gostei de ser controlado. Temo entrar em contato e não suportar a culpa. Temo deixar esta fluidez se perder e nunca mais tornar a vê-lo. Temo que meu amor descubra que escrevo este diário secreto de traição literária, tão fundamentada quanto um escaravelho esmeralda carregando um jornal de domingo.
Temo que outro Jack se aposse do espaço que todos estes Jacks estão desbravando. Tornei-me um temerário de Jacks e não sei o que fazer.
Para falar mais dele gastaria umas cem páginas: vi seu futuro e seu passado, vi o que construiríamos juntos, vi seus pais, mãe, irmãos, conversa, desejos, medos, posses, vontades e senti seu cheiro. Isso marcou-me deveras.
A conversa foi realmente uma das melhores que já tive ao longo de uma existência capciosa desde o último milênio. E como ele é/era deslumbrante!
- qualquer nome aqui não descrito pertence a alguém que pode ou não ter corpo sólido, não interessa. Eu sou o Alfa e o Ômega e exijo meu direito de criar.
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