Era tarde da conhecida sexta-feira santa(1) quando eu me decidi por compartilhá-la. Jubilar-me com a tradicional compra e posterior troca de chocolates(2), estreitando laços de amizade e familiares e continuar mascarando a real intenção do ato.
Deixei meu apartamento após um bom banho e água gelada, vestir-me e tornar-me apresentável à luz do sol. Por opção de comodidade, resolvi usar meios próprios de caminhar. Afinal, a delicatessen era bem próxima à minha morada. Sai, enfrentei a claridade, enfrentei o mundo mais uma vez.
Cheguei à delicatessen apenas para constatar o quão grande é esta data festiva, havia mais pessoas do que a loja poderia suportar. Por sorte um dos atendentes já havia sido tratado por mim, então ganhei a preferência para minha alegria e inveja dos outros concorrentes. Após as compras e algum dinheiro gasto, resolvi voltar.
No caminho existe uma eclesia aos moldes evangélicos e pelo que notei - até eles - já desvirtuaram um pouco o que se comemora nesta data. Havia um grupo de maioria mulheres à porta, distribuindo panfletos e pregando o amor do senhor seu deus, enquanto ofereciam miúdos ovos de chocolate aos pedestres. Parei para recolher um destes panfletos e uma das mais senhoras me abordou.
"- Está na hora de voltar para deus, varão." - Ela se dirigiu a mim.
"- Senhora, eu nunca o deixei. Se ele me deixou e acabou de dizer à senhora, então que ele resolva comigo depois." - Eu.
Não sei por que cargas d'água eu parecia suspeito e ela, que apoiava-se em um cajado(3), resolveu tocá-lo em mim(4). Tocou, e eu, notei. Ela o recolheu. Parecia em partes, desapontada. Notando este desapontamento:
"- Senhora, o que aconteceu?"
"- Nada. A Paz do senhor."
"- Claro!" - Reconheci instantâneamente. "- A senhora esperava um milagre, não?"
"- Ora meu filho, só nosso senhor Jesus Cristo opera milagres."
"- Então porque a suspeita?"
"- ..."
Colhi o ensejo e:
"- Bom, mas não a deixarei desapontada."
Tomei o cajado da mão dela, fechei meus olhos e lembrei-me do tempo em que os homens eram apenas macacos débeis e que sempre precisavam de provas para reconhecer suas divindades. O cajado vibrou e de sua ponta brotou um ramo de Taraxaco(5), que desabrochou e seguiu caminho até o céu. Ela piscou os olhos, irrompeu em lágrimas e acabou inconsciente. Os outros notaram seu desfalecimento e eu continuei meu caminho, intocado e desprezado.
Aguardo o domingo para distribuir os chocolates, como manda a tradição.
Notas:
(1) Tecnicamente, a Sexta-Feira Santa é reconhecida pelos cristãos como o dia em que o I.N.R.I. sofreu e foi crucificado para pagar pelos pecados do mundo. Não é uma data marcada, muda conforme a Lua após o carnaval e outros fatores adversos que contrariam o paradoxo da infalibilidade da igreja católica romana.
(2) A troca de chocolates é um acontecimento pagão, em homenagem à deusa Easter, que era conhecida e venerada por trazer fartura à colheita e proteção dos camponeses.
(3) Alguns evangélicos por tradição gostam de se tornar importantes imitando os que já se foram. A representação do cajado é para o pastor de ovelhas - analogamente - o guia dos filhos de deus.
(4) Hoje não é muito dificil de encontrar tais servos do Cristo que usam de artificios para enganar os puros de coração. Existem tantos artefatos impregnados com o poder de deus quando os que são blasfemos. Ternos, peões, cajados, estátuas e afins são usados como amuleto e uma espécie de radar aos que se opõem.
(5) Taraxaco - ou dente-de-leão selvagem - é uma planta tradicional dos desertos de Jerusalém.
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