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Peguei o carro, ainda com o pensamento vazio na cabeça: porque ela? Porque citara meu último filho? O que Ela estaria tramando contra mim mais uma vez que envolvesse meu próprio sangue?
No carro, coloquei Daemonia Nymphe para tocar enquanto repensava, e assim me dirigi ao trabalho. Cheguei, tomei meu habitual capuccino sem açúcar com uma médica colega minha, observei o nascer do sol tão espetaculoso que estava surgindo naquele dia, falamos sobre coisas aleatórias e ainda assim, nada disso tirava da minha mente as imagens corrompidas do passado, que a partir do momento em que eu vi minha esposa - ou outrora esposa - começaram a brotar. Café tomado, é hora de começar o trabalho. Fui até minha sala, liguei o computador, comecei a ler emails profissionais, falei com colegas e a parte da manhã estava sendo como de costume. Muito trabalho, pouca conversa, muita provocação espiritual. Algumas ligações e era quase hora do almoço, convidei uma amiga muito preciosa para almoçarmos juntos.
Alguns minutos antes de me levantar para sair até o restaurante, novamente fui tomado por aquela sensação de sépia que só foi diluída quando, do nada, surge uma coruja negra em plena luz do dia na janela, invadindo-a, assustando alguns colegas de sala e levando ao desespero outros. A coruja, após o susto mútuo, entrou e pousou sobre minha mesa, encarando-me com seus olhos âmbar como que esperando um certo reconhecimento. Tentando reduzir o caos armado por esta invasão, tomei-a ao antebraço (tentando parecer calmo e um profundo conhecedor dos sentimentos ornitológicos) e levei-a até a janela de volta mas qual não foi minha surpresa quando ela novamente me olhou nos olhos e me entregou a mensagem: "Tome o enigma, siga à Noroeste. Frente à uma grande muralha há um olho. Um dos que nada vê mas a todos entrega. Sê cauteloso pois a morte que separa de ti à vida está por um fio de conseguir o que quer." E, após mostrar-me isto, se foi até o céu e desapareceu numa velocidade espantosa. Gelei da cabeça aos pés e estático permaneci durante uns segundos eternos.
Tentando me recompor, pensei e orei aos meus irmãos por uma certa iluminação naquele momento. Dez ou quinze minutos depois, continuei e, no elevador encontrei a amiga. Almoçamos, conversamos mas deste assunto eu nada comentei e saímos do hospital. No caminho à uma loja de conveniência próxima, achei tê-lo visto do outro lado da rua, olhando-me. Mais a frente, parecia Ela a me olhar, encarando-me. Senti seu cheiro agridoce mas não ousei evocar aquela figura sabendo do risco que correria com humanos por perto, principalmente humanos que eu gosto. Ouvi o piar da coruja e quando olhei para o alto, lá estava ela, sobrevoando minha cabeça a uns seis pés de altura. Novamente com um piar, ela desceu e suavemente pousou em meu ombro destro. A amiga que estava comigo assustou-se ao mesmo passo que ficou maravilhada. Desta vez, não havia como postergar e, pela confiança que tinha nesta amiga, contei-lhe que a coruja era uma amiga e que precisávamos ir, juntos. Ela entremeou da confiança na minha palavra e desconfiança de minha insanidade, mas quando me viu olhar para os lados buscando sigilo e alçar um vôo tão rápido que se não tivesse me vigiando não teria notado, acredito que - uma vez que não a vi mais - deva ter repensado sua ideia do que pode ser mais estranho do que eu.
Logo, a coruja e eu estávamos nos céus, entre-nuvens, rumando a um lugar que eu não imaginava ainda mas com uma certa confiança de que tudo daria certo.
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