11.18.2012

Mesa


Para a mesa que nunca consegui preencher de amigos eu digo: Não.

Não porque não há mais amigos como eram antes. Me pergunto o que eu fiz para que tudo isto acontecesse tão repentinamente. Melhor, sei que nasci da união da Estrela da Solidão Fria com a Estrela Desértica, mas não desejei pais como estes. Há algum tempo, digamos uns seis anos, eu ouvia incessantemente que eu era perfeito demais para alguém poder gostar. Tudo em mim era perfeito, da minha voz à minha sanidade. E o que fiz? Nada. Não pude fazer nada a não ser dizer adeus quando fui trocado por algo 'tangível', imperfeito.

Recentemente, ouvi este mesmo 'adjetivo', perfeito demais. Me pergunto o fiz de tão errado para ter de ouvir isso porquê de tão certo não pode ser. A perfeição é algo utópico, acredito que baseado nestes termos sou costumeiramente confundido. Novamente me pergunto, porquê?

O que eu sempre e mais quis foi poder compartilhar tudo o que sou, tudo o que tenho. Hoje mesmo, em conversa, admiti que preciso de um ancião - como eu - para que minha completude seja sanada. Os jovens não sabem o que é persistir, perseverar, permanecer. São impulsivos, autoritários, reclamões. Não estão acostumados às idades que têm e por isso jogam o peso sobre tudo às suas voltas. Os antigos, como eu, aprendemos a canalizar, sintetizar. A viver como a pedra, como a montanha e como o rio. Cada segundo sendo bem apreciado, cada situação por mais banal que pareça ganhar um certo valor. Não confundamos atemporalidade com deslocamento, não, afinal somos mais rápidos e ágeis que todos. Vivemos num mundo que gira tão devagar que podemos correr e alcançar nossos próprios pés marcados no Tempo e nas Areias do Espaço. Mas não é porque estamos em todos os lugares que somos vagos, isso nos torna independentes.

Minha sanidade dependia disso, de ter alguém para compartilhar mais um milhão de vidas. De poder falar ilimitadamente  quantas vezes eu vi o sol nascer e se por, de quantos lugares diferentes e depois de tantas batalhas ou paz. Poder falar de como tudo começou, de como tudo desandou, de como tudo foi recriado. Todas as histórias, sejam conhecidas pela humanidade ou não. Apenas contá-las. Contar tudo o que eu fui, o que eu sou. Entender que alguém, por algum motivo, algum dia, sentirá orgulho de mim e farei parte de uma constelação de outros antigos que completaram sua missão. Apenas.



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