Como um bom Noctívago, escrevo sempre melhor durante a noite e me valho da noite para esconder meus pecados e traições. Logo, todo e qualquer conto que eu - ou uma das minhas personalidades - escrevo será, em maioria, baseados e ocorridos na Noite, que é meu ambiente. Ou nos sonhos, com a ajuda de um grande amigo. Ou serão lembranças, com ajuda de uma grande amiga. Enfim, ai está. Este, bem, não é totalmente irreal.
+++
Era noite do dia 12 de Maio de 1998. Não me recordo que idade tinha na época, somente que cursava - novamente - o último ano do colegial. Estava deitado em minha cama, ainda no estado de vigília, sentindo que alguma coisa estava errada porque a energia oscilava quando eu piscava os olhos e algumas mariposas avermelhadas estava pousadas na minha janela. Inúmeras delas, querendo entrar para me contar um segredo ou pedir ajuda - eu brinquei.
Ao se aproximar das duas da manhã, ouvi um ruído distante vindo da frente de minha residência. Um murmurinho. Pensei ser animais ou alguns transeuntes. O barulho permaneceu e junto a isso batidas enérgicas em meu alto portão. Em um segundo, todas as mariposas que estavam pousadas na janela simplesmente bateram as asas e se foram, diagnostiquei o mau presságio. Resolvi inquirir o barulho, me dirigi à porta e, pelo vidro jateado pude ver que haviam pessoas exatamente defronte ao meu portão. Hesitei por um instante e ouvi além, com meus preciosos ouvidos inumanos. Havia choro, desespero e medo em suas falas. Ouvi um homem dizer que era 'bobeira o que a mulher estava fazendo' e ela revidou dizendo 'que era o melhor, já que ele só citava meu nome no delírio'. Fiquei deveras confuso mas reconheci as vozes de imediato.
Vesti um robe qualquer que estava ao pé da cama e fui até eles, quando percebi que chamavam era por um dos meus nomes. A porta se abriu para eu passar, desci as escadas e a chuva não me molhava, fui até o portão e o abri para eles. A cena que vi, quando me recordo, ainda me choca: lá estava uma mãe em desespero absoluto, com o rosto jovem borrado de lágrimas e as roupas em frangalhos e junto dela um jovem homem, seu irmão. Claro, conhecia as duas figuras de longa data. Quando ela me viu agradeceu ao seu deus por eu estar presente e tê-los atendidos, havia uma incredulidade no olhar do irmão. Ela, se ajoelhou aos meus pés implorando ajuda, alegando que seu filho estava sob algum tipo de doença estranha e que em seu delírio de alta febre, dizia meu nome e no único momento de lucidez que teve, disse que eu e somente eu poderia ajuda-lo.
Estranhei, afinal eu o conhecia há décadas mas não o via há muito mais tempo do que queria. Porém, antes de entender a situação eu já havia compreendido o sofrimento da mãe. Não era nada simples, eu imaginei. Ela insistia para que eu os acompanhasse, quase que me sequestrando apenas de robe. Eu pedi somente um minuto para vestir algo e em menos de cinco minutos estava pronto para acompanha-los. Não sabia para onde ou para quê. Durante a curta viagem, ela me contou os maiores: seu filho havia chegado em casa naquela tarde nauseabundo, com uma coloração pálida nos olhos, fosco, trocando as palavras e a ordem e se sentindo absolutamente cansado. De começo, ela pensou que pudesse ser algo com bebidas ou drogas, coisa que ele nunca havia feito, mas os jovens de hoje não são mais tão confiáveis como os da minha época. Logo, o problema se tornou maior quando ele desmaiou e ao medir sua temperatura, girava em torno de 42 graus. Trataram de chamar o médico que, ao medir a temperatura novamente e fazer uma pequena avaliação, prognosticou como algo viral, prescreveu antibióticos e disse que em dois dias ele se sentiria melhor. Algo no coração da mãe sabia que não era apenas aquilo - o que se comprovou quando a pirexia elevou e, ao beirar os 44 perigosos graus, ele começou a ter espasmos involuntários pelo corpo. Ela temeu por sua vida.
Logo, ao delirar, ele começou a balbuciar umas palavras inteligíveis. De princípio era algo como 'Ler', 'Lion', 'Lá'. Depois passou a 'Lianjo', 'chama Lianjo, só ele pode me ajudar'. A mãe não imaginava quem poderia ser e permaneceu ao seu lado, tentando entender. Delirando ainda, ele pediu uma caneta que ela prontamente atendeu. No braço dela, ele escreveu 'Lean' com um traço final que a feriu. Levou um tempo para ela identificar quem seria, como eu disse, não nos víamos há bastante tempo. Como um baque, ela se recordou a quem pertencia o nome incomum e chamou o irmão, na expectativa de que o alvo ainda estivesse alcançável. Foi quando ela, se dirigindo à minha casa, me encontrou.
Voltando ao tempo real, nos dirigimos de volta à sua casa e eu tentei, confesso que tentei imaginar o porquê daquilo tudo. Não havia explicação plausível para mim, mas, as mariposas vermelhas na janela poderiam ter algo a ver. Talvez era o que tentavam me alertar. Em menos de vinte minutos chegamos em sua casa e sua família parecia já estar preparada para o pior. Havia outro irmão, a namorada dele, avó, tio e chegando comigo, mãe e outro tio. Minha presença causou certo burburinho mas evitei chamar mais atenção do que devia. Em suas mentes, eles achavam que eu era o culpado e apenas a mãe e a namorada sabiam que eu poderia ser o único que poderia ajudar (eu já conhecia sua namorada, mãe de seu filho, há bastante tempo também). Houve uma pequena discussão quanto à minha presença mas a mãe logo me encaminhou ao quarto do filho, deitado, prostrado na cama, com um ar cadavérico como se houvessem tentado tomar sua alma. A mãe apenas chorava e o irmão dela a acalentava. Então, ela me perguntou o que eu poderia fazer já que ele me chamara. Ou se era apenas para se despedir, uma vez que ela sabia que em outros tempos, havíamos sido melhores amigos.
Sentei-me ao chão, ao lado da cama e ele meio que sentiu minha presença pois virou a cabeça em minha direção e disse meu nome, com um esboço de um sorriso fraco. Sabia que não se tratava de um mal físico imediatamente, então pedi um pedaço de pano à mãe que prontamente atendeu, rasgando parte de sua blusa. Amarrei-o em sua cabeça de forma que só um olho ficasse descoberto e agora o que vi, foi o que mais me entristeceu mas era tarde para deixá-los e eu me comprometi a ajudar, deixei minha vergonha e meu antigo amor na porta quando entrei àquela casa:
"Ele estava dirigindo numa rodovia de alta circulação, perto de uma área de baixo meretrício, quando foi abordado por uma das 'profissionais'. Ela era belíssima, com um corpo escultural e não aparentava mais do que 25 anos, com belos lábios vermelhos e uma roupa provocante. Ele chegou a cogitar seus serviços porém, ao se recordar da namorada em casa, hesitou. A prostituta então se revelou, abrindo a boca apenas para proferir algumas palavras que de início ele não entendeu, e, logo partiu com seu carro. Sentia-se mal, diferente, desde que a encontrara. Quase bateu com o carro umas duas ou três vezes e por fim chegou em casa. O que ele não sabia, mas eu vi quando olhei em seu olho e sua memória, é que aquela não era uma puta qualquer. Era uma sucubo, que eu conhecia há muito e muito tempo e chamava-se Balquis. Era um demônio sexual feminino que existia desde a antiga Babilônia e pela qual muitos reis entregaram seus domínios e todos faleceram, misteriosamente, de uma peste. Balquis podia extrair a parte boa da alma das pessoas e se alimentar dela, era o que fazia quando aparentemente se deitava com os homens (e as mulheres eventualmente). Não era apenas sexo, era alimento. Balquis era ardilosa e intempestiva, desde que eu a conhecera. As palavras que ela proferira eram num dialeto muito antigo e significavam "Tu, que optou pela rejeição, herdará parte de mim e deixará sua melhor parte comigo". Por este motivo ele caíra em doença. Balquis era, além de um insaciável demônio, uma força poderosa em maldições. Meu amigo deu o azar de encontrar justo quem não devia e estava pagando por isso."
Removi o acessório e já sabia então o que fazer. Logicamente, não contei aos parentes os pormenores mas disse que ele sofria de algo que médico algum poderia tratar. Pelo estado mental da mãe, de tanto desespero, nem pediu detalhes e passou a obedecer cegamente o que eu pedia. Água numa bacia de porcelana, um pedaço de pano virgem vermelho, alho, alecrim, uma corda fina e uma faca de prata pura. Os que presenciaram se assustaram com o pedido da faca, principalmente porque não tinha utensílios de prata pura na casa - como a maioria dos lares atualmente. Dei minha chave ao tio e disse onde encontraria uma, em minha própria casa. O jovem oscilava entre a consciência e inconsciência, mas quando consciente, sorria para mim que estava ao lado de sua cama.
Logo, tudo o que eu precisava estava em mãos. Pedi que se retirassem e que apenas a mãe ficasse, para testemunhar que eu não faria mal à seu filho mas que, o que quer que visse, não acreditasse. Amarrei a corda no braço do jovem, a faca estava mergulhada na bacia com o pano vermelho preso, o alho e o alecrim. De repente, ele pareceu se contorcer ainda mais na cama, suava uma substancia negra com um odor insuportável e seus olhos reviravam nas órbitas. A mãe apenas chorava, pedi que não se aproximasse. A esta altura, as mesmas mariposas já infestavam as janelas da casa, por completo, e todos achavam aquele fenômeno algo sobrenatural e envolto na minha presença na casa. A corda que estava amarrada em seu braço começou a apertar e ele urrava de dor, mas não era ele, era a maldição - a parte de Balquis - que rugia. O pano vermelho, preso pela faca dentro da bacia, se agitava. Era algo terrível, mesmo para mim, que o amava. Tive pena dele, mas sabia que era melhor assim. Tirei a faca que prendia o pano vermelho, peguei-o e coloquei sobre a testa do jovem. Aquele momento, ele se sentou à beira da cama, mas não era mais ele, era a própria Balquis falando: "- Ora, ora. Mas se eu sou digna de vossa presença. Nunca em sã consciência eu mexeria com alguém que lhe pertence, senhor".
Eu ouvia Balquis pela boca do jovem. A mãe entrava num desespero ímpar mas com a porta trancada, nenhum dos outros parentes ousaria entrar e atrapalhar. Ela prosseguiu: "- Este belo jovem ousou me rejeitar. Ninguém rejeita Balquis. Minha maldição para ele foi bem trabalhada, acredite. Mas, se eu soubesse que o senhor seria envolvido, não o teria feito. Não quero problemas com Vossa Excelência, mas, como sabe, não posso desfazer minhas próprias maldições."
Eu disse que conhecia muito bem a fama e o que ela já havia me causado. Devo confessar, Balquis era uma velha amiga que precisou de mim certa vez e eu a ajudei. O preço foi algo que eu não esperava. Não permitiria que isso acontecesse novamente e disse a ela que esta seria resolvida mas se eu soubesse de mais alguma, ela seria exterminada. Ela sorriu entredentes, insatisfeita, mas nunca desacataria pois sabia que eu a encontraria onde quer que estivesse. Ela se desculpou, também entredentes e o lenço caiu da testa do jovem. Ele, voltou à cama e aos espasmos. O lenço, ao cair, tornara-se negro e pegajoso e quando a mãe se aproximou eu gritei para que ela não o tocasse mas que abrisse as janelas daquele quarto que alguns outros amigos se livrariam daquela impureza, depois. Com a faca ainda em mãos, dei um talho na minha destra o suficiente para que um pouco de sangue escorresse. Deixei a faca de lado - a mãe lembra aqui, a faca se tornou enferrujada imediatamente - e com a mão esquerda e a ajuda da mãe, tiramos a blusa do jovem. Com a mão ensaguentada, passei por seu pescoço, peito, abdome e olhos. A mãe observada com ares de pavor mas talvez este mesmo medo a impedia de qualquer atitude inesperada. O que eu criei com meu sangue, no corpo dele, era uma proteção. Algo que transferia a mim o que ele pesava. Logo, enquanto a mão o percorria, ele se acalmava e sua coloração natural voltava. Seus olhos estavam tranquilos e sua temperatura normalizava. Tudo muito rapidamente. O meu sangue, no corpo dele, tomava um aspecto dourado bruxuleante. Depois de criado, mergulhei a mão na bacia e a água, outrora translúcida, se tornou piche. Eu não me alterei em momento algum pois era imune a qualquer maldição ou afins.
Pedi a mãe que se livrasse do conteúdo da bacia e assobiei, para a janela. Ela se assustou quando milhares de mariposas adentraram o quarto e tomaram o lenço negro - outrora vermelho - e partiram, carregando-o. A faca, enquanto ela não via, esfarelei com a mão e espalhei o pó sobre as asas das mariposas, que adquiriram uma tonalidade também dourada. Quando estava prestes a me levantar, a mão do jovem segurou a minha e com olhos cálidos de cansaço ele apenas disse "- Obrigado. Quando eu percebi no que havia me metido também percebi que só você poderia me salvar. Você que me protegeu de tanta coisa e já me salvou mais vezes do que qualquer um sabe. E salvou meu filho. Não tenho como agradecer e ainda te amo..".
Ele não precisava agradecer, muito menos terminar com estas três palavras. Mas ele o fez. Por um longo tempo ele era o presente que os deuses me deram mas por causa disso, precisei Abdicar. E no final, ele era só humano. Um dia teve medo de mim e eu vi nos seus olhos como seria o futuro. Deixei-o, para que ele seguisse uma vida normal, como um homem normal faria. Porém, nunca sai de perto. Sempre o via em meus sonhos e sempre mantinha minha proteção. Falhei desta vez? Sim, falhei. Porque estou cansado. Cansado demais.
Me despedi dele, dizendo que não precisava agradecer e abstrai suas palavras finais. Ele se deitou na cama e caiu no sono. No sono normal dos humanos. Sua mãe regressou e disse-me que jogara a bacia fora com tudo o que havia dentro, ainda em prantos, quando ela notou que seu filho dormia tranquilamente. Novamente ela se pôs aos meus pés, agradecendo. Pedi para que se levantasse pois eu não era digno desta forma de agradecimento e que, o que fiz, faria por qualquer um que me pedisse ajuda sinceramente. Ela chegou a pensar em me questionar o que havia acontecido. Por precaução, antes que ela abrisse a boca, lancei uma nuvem em seus pensamentos com imagens de que seu filho apenas precisava descansar e que ela cuidasse muito bem dele. Fiz com que ela me acompanhasse e enquanto eu saia, fiz o mesmo com todos os que estavam na casa, deixando suas memórias vagas sobre o acontecido e colocando outras informações, menos fantasiosas no lugar.
Por fim, andei até minha residência enquanto as mariposas me acompanhavam. Sentei ainda um pouco na varanda para conversar com elas, agradecê-las pelo aviso e pela ajuda. Pedi noticias de todos os que eu acompanhavam e parecia que todos estavam bem. Logo, me despedi delas e entrei, me deitei e voltei a pensar como a vida teria sido mais simples se há milhares de bilhões de anos atrás eu tivesse simplesmente permanecido onde estava e com este pensamento, eu adormeci.
+++
Este é apenas mais um dos casos que já passei, durante este pouco tempo. Durante esta minha Quarta Abdicação.

Nenhum comentário:
Postar um comentário