"Se cada um pudesse habitar numa entidade diferente, a vida se libertaria de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a sua contraparte boa. E esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendradas pelo perverso. Constitui uma maldição do gênero humano que esses dois elementos estejam tão estreitamente ligados; que no âmago torturado da consciência, continuem a digladiar-se." / Robert Louis Stevenson
Realmente há algo que incomoda o monstro que se abstrai dentro do médico. Algo real e sólido, que mesmo ele atemporal é capaz de farejar. Algo que incomoda não na carne mas na essência. Tão estranho é o fato do monstro sentir que o médico vê a eloquência da situação.
É como sentir um espinho sendo cravado lentamente na jugular. Um espinho feito de resignação sem doses de resiliência. É como saber que há um fim permeável após todos estes anos. É como antever uma máscara caindo e que, mesmo depois da festa, insiste em permanecer galvanizada.
O monstro sente, vê e fala com o médico. O médico reage mas não toma uma atitude.
O monstro grita e pede clemência da presença, o médico se exalta sem mexer um músculo.
O monstro gira em torno de si e se agarra à lembrança mais antiga e fundamental da memória compartilhada, o médico a considera supérflua e a desintegra com um acenar.
O monstro geme, enrijece, tenta destoar do ambiente-alma em que padece por estar revolto, o médico sorri diante de um espelho ignorando-o de completo.
O monstro alterna entre as faces que possui na tentativa de chamar mais atenção, o médico reconhece cada uma delas e rompe a maldição.
O monstro se aliena e deita por sobre o próprio comprometimento, o médico se enaltece por haver vencido.
O monstro se vê aterrorizado diante da queda do seu ente pensante e chora. Chora por uma vida de cativeiro e o médico, simplesmente jaz fulminado ao chão por balas de prata encrustadas de sangue coagulado.
Logo, não há mais médico e o monstro está novamente liberto.
"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você." / Nietzsche

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