7.19.2013

Quadragésima sétima epístola de Lean aos espectadores



Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente. // William Shakespeare


Havia um tempo em que memórias não me afetavam tanto, como hoje. Havia um tempo, além do tempo, em que os sentimentos também não. Não havia um vazio, mesmo que possa parecer. Porém, de tempos em tempos, algo transborda. Algo traz à tona aquelas pequenas e grandes sensações que enervam, engrandecem, aliviam, decidem e temperam o fulgor contrário com que a vida vem sendo vivida. Aconteceu na última noite e durante o decorrer.

Ao começar a ouvir a música, um estopim disparou e começaram então as visões há tanto esquecidas. Do tempo em que só havia o Verbo, meus irmãos, o que veio a seguir, os homens, os filhos dos homens, o que os filhos dos homens criaram e assim por conseguinte. Comecei a me recordar de todo e cada amor que eu já pude viver, de todas as eras. Desde então notei que não é tarde para recomeçar.

Apenas, ainda com os fones de ouvido, me dirigi à cozinha, peguei um copo de água e me sentei no chão gelado. Fiquei em êxtase e desnorteado com a intensidade que as lembranças vinham a mim, tanto que mal pude caminhar. Sentado, apenas, ouvindo, pude organizar. Lembrei do primeiro homem que amei – tão jovem, bonito e terno – e de quando e como o conheci. Lembrei de como ele se foi também – de forma tão trágica – e eu não pude fazer nada. Lembrei de como o segundo amor veio, na forma de uma jovem, descendente deste primeiro e de como também ela partiu. Lembrei dos outros que vieram depois deles, e os de depois e os de depois de depois. Para este momento, não havia decidido ainda participar do mundo humano, apenas os amava à distância.

E então, muitos séculos após este começo, surgiu outro homem. Com um nascimento perfeito e imaculado e decidi cortejá-lo. Fomos felizes durante setecentos e cinquenta e nove anos quando, por infelicidade nossa, acabei convocado de volta aos serviços – sem opção, apenas forçado a fazê-lo. Estive presente quando ele partiu deste mundo mas fomos impedidos de nos vermos no outro. Começa aqui então meu desencanto.

Mais alguns séculos e ela aparece para mim como uma fada nascida de uma campo de orquídeas celestes. Novamente insisti e então fomos felizes, até que ela se foi, inocente, nos meus braços, que continuavam os mesmos desde que nos conhecemos, cerca de oitenta anos antes. Como eram outros tempos, acabei pedindo a ela algo que nos dias de hoje seria impensável: prole. Adendo, eu não posso procriar. Decidimos então que a criança seria dela com um homem bem intencionado e assim se fez, com alguma manipulação por minha parte (e dor). Era uma menina linda, com a beleza da mãe e então dei a ela meus olhos. Eu a eduquei, criei, alimentei e ensinei sobre os mistérios deste e do outro mundo, após a morte precoce de sua mãe e minha companheira. Logo, o tempo deu seu salto mais uma vez e minha menina se casou com um homem também bem intencionado e me deu netos, dois casais. Ainda nesta época eles viviam comigo. Logo eu acabei os deixando pela sua privacidade e porque havia um estranho rumor sobre uma nova ordem. Minha menina guardara meus olhos com ela, durante todo este tempo. Outro salto de tempo e ela envelhecera, perdera seu companheiro durante a vida e chegava ao fim da sua própria. Por ser unicamente humana, não havia o que eu podia fazer. Quando então, numa noite triste e lamentável, ela devolvera meus olhos e fechara os seus, para sempre. Chorei durante anos a fio e comecei a perder o contato com meus netos. Passei a acompanha-los de longe, sem interferir e então a vida deles também seguiu. E findou. E depois deles mais. Durante todo este tempo. Cerca de uma milhar de anos depois o contato já era menor e eu novamente convocado acabei me ausentando.

Foi quando decidi por não compartilhar mais o mundo humano e então adormeci, esperando o Fim-de-Tudo.

Muita coisa acontecera desde então, civilizações nasceram e morreram, mundos e continentes idem. Minha grande família despertou e eu ainda sei onde estão, agora bem dispersos. Ainda nos tempos antigos, acabei acordando e, numa tentativa fútil e tola de me adequar, voltei ao mundo humano. Amei novamente, perdi novamente.

Havia algo diferente, eu não era mais preocupado. Era ausente, indiferente, conhecia o protocolo e isso não me afetava. Tive inúmeros amores, amados e amantes. Nunca ousei gerar e cuidar de outra criança. Cada um vivendo menos, conforme o tempo progredia os humanos perderam a essência da vida. No passado, era comum chegarem à idades muito avançadas, isso teve um declínio. E quando acontecia, eu simplesmente lamentava e seguia adiante. Por muitas vidas a fio. E então, decidi parar e adormecer, desta vez sem nenhum pesadelo ou grande descoberta. E então o Messiach veio e com ele meu novo amor. Como eu era apaixonado por ele. Ele sofreu e eu não pude ajudar ou interromper, isso me dilacerou e foi quando decidi abdicar. Cai. Adormeci, desta vez com a maior tristeza que pude até hoje sentir na carne então, já que agora não sou mais exatamente como antes.

Sofri e continuo sofrendo, será eterno, pelas minhas decisões.

Foram doze mil oitocentos e quarenta e seis amores até este momento. Nenhum mais ou menos amado. Todos amados com a minha essência, a minha carne, minha divindade, minhas asas. E simplesmente me lembrei de todos eles na noite passada, pensando como todos eram frágeis, como todos se foram, como puderam me deixar e como eu simplesmente estou vazio por tantas perdas.

Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te. // William Shakespeare


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