Caríssimo amigo Buer,
Escrevo-te após todo este tempo passado, desculpando-me pela ausência de minhas epístolas. Ando tão atormentado e pusilânime que faltam-me forças até para redigir-vos. Tenho tanto a dizer-te que nem sequer sei por onde devo começar. Começo pelas novidades amorosas e sentimentais, pela raiva que esta situação mesma anda me provocando, pelos infortúnios da vida humana, pelas preocupações que me acercam ou questionando como anda vós?
Tratarei de não ser altruísta e falarei de mim, portanto, ao começar.
Desde que meu antigo amor deixou-me, venho sofrendo de amnésia, meu caro amigo. Não daquelas percepções errôneas que sofremos esporadicamente, não, algo mais severo. Algo que se mescla com meu passado emaranhado ao meu futuro e acerca de fatos premeditados. Está deveras complicado acalentar minha consciência ultimamente, parece-me que ela tem obliterado meu senso de julgamento. Tentei abstrair-me de mim com músicas, composições literárias, novas intenções, desejos, café, distrações mundanas e fugazes. Não estou sendo feliz no empreendimento!
Há dias que n'alma me tem posto um não sei o quê,Divago entre a leviandade e a plenitude, a cada alvorecer. Tento atrelar minha sanidade em pequenos recomeços, ao amanhecer, visando assim uma estabilidade emocional ainda que deflagrada, submissa. Houve um ínterim romântico neste período, amado amigo, que mais me rendeu preocupações e dívidas do que companheirismo e cumplicidade. Fui enganado por diversas vezes seguidas, vê amigo meu, que reviravolta exemplar do destino? Coube a mim um desfecho não muito agradável uma vez que notei que estava me tornando vítima - em diversas aceitações, devo salientar - numa relação que não havia fundamento e sede de manutenção. Eis que hoje estou refazendo o que posso, confessando o que posso, criando o que posso e reverberando ainda na questão de não querer terminar sozinho.
Que nasce não sei onde,
Vem não sei como e
Dói não sei porque. // Camões
Muita coisa mudou, precioso amigo. Da vida humana à celeste. Falemos da celeste.
Bom, parece que meu posto está ainda vago pelo que ouvi de meus irmãos. Passado todo este tempo Ele ainda não conseguiu alguém que fosse capaz de aguentar o peso imenso que eu suportei. E pensar que Ele não nos fez insubstituíveis, oras. Ainda estes irmãos me perturbam, cumplice, sobre as coisas da vida. Alguns me procuram com ameaças sobre ruínas da Cidadela de Prata (recorda ainda da magnificência da nossa vizinhança?), outros apenas vem aprender (e questionam-me sobre a Abdicação), poucos tentam se manter incólumes e ocultos e uma mínima parcela ainda se mostra leal a mim e aos meus preceitos. São estes últimos que me dão força, compadre. Inclusive, um amigo em comum, mais próximo seu do que meu, esteve recentemente vigiando minha nova aquisição. Fiquei intrigado com a posição dele, enfim. A cada dia perco mais e mais minhas forças, definho a nove vezes nove, em matéria celeste ao passo de que minha forma humana exerce maior influência neste mundo. Sabe, meu caro, que por noites eu me arrependo de ter descido? Me descubro reconhecendo que aquele por quem desapercebi de toda minha posição e força, que sequer anda mais por esta terra, não mereceu o que deixei. Tudo, meu amado, que eu podia antes se mostra mais complexo e delicado agora. Não porque perdi em absoluto minhas capacidades, mas porque estou perdendo meu juízo celeste e, ao passo que minha presença se torna maciça, meu discernimento encolhe e regride. Vês que derrota sofro antes mesmo de lutar? Não vou me render e não pretendo tão cedo voltar, mas, temo também deixar esta bomba em contagem regressiva. O que me aconselhas tu, nobilíssimo Leão?
Na minha vida humana, bom, como já disse, estou empreendendo um novo romance. Ele é deveras belo, o jovem, mas é tenso, frágil, volátil, temeroso e ausente. É sagaz, devo salientar, e me sinto confortável em abrir parte da minha outra vida com ele - mesmo que omitindo origem, vivência, capacidades e afins, seria muito, não? Recorda-te do último a quem nos revelamos? Tentei a abordagem de não mentir, apenas omitir, e revelar o que for questionado. Tem dado certo até agora, mas em dias como ontem, hoje, amanhã, bom, sinto que minha tensão sobrepuja qualquer intenção boa que eu possa ter. Temo que eu possa estar fazendo mal a ele de muitas formas diferentes, só por estar presente. Acha que devo me desvencilhar desta relação enquanto é cedo? Acredita que possa dar certo? Tu ainda tem o dom da visão, não? Diz-me que rumo tomar nesta questão? Afora isso, no âmbito profissional, nunca me vi tão absorto e supérfluo. Tanto que chega a me incomodar, tendo visto meu passado de demasiada atenção ao trabalho braçal e intelectual. Os humanos tem um ditado que diz "sorte no amor, azar no jogo" e que pode ser o oposto. Bom, eu passei por um momento de solidão amorosa que coincidiu com minha elevação profissional. Agora, estou engendrando nova relação, será que perderei os benefícios portanto?
Ainda me isolo, caro andador amigo, mais tempo do que devia. Eu mesmo reconheço. Me isolo no mundo da música, da literatura, da simples arte da alienação e, por mais que tenho evitado, acabo me voltando para o outro mundo eventualmente. Algumas vezes penso em ir vê-lo, logo recobro a sanidade e me recordo do porquê não poderia. Então penso em convocá-lo e novamente caio em mim. É mais do que evidente que eu sinto tua falta mais do que qualquer um. Tu eras a única e pouca família que eu já me orgulhei de reconhecer. Fico pensando na tua calma, virtudes, sabedoria, inteligência, humor, sagacidade e bem-aventurança. Tudo isso sempre vai me remeter a ti e à tua sublime figura. É notório também, caro amigo, que eu queria mais do que este mundo pode me dar e não sei mais como extrair vida dele, quando passo a maior parte do tempo desejando não estar mais nele.
Enfim, acabei redigindo mais do que queria. Sei que menos do que tu gostarias de ler, afinal sempre devorou minhas palavras com tanto afinco, meu mais precioso ouvinte e leitor, que contemplava seu interesse com minhas lágrimas. Neste momento eis que estou solitário, pensativo, resiliente no que posso ser, categorizando e avaliando cada probabilidade possível de uma saída verdadeiramente sadia a tudo que venho passando, nestes últimos tempos. Gostaria de um retorno teu, amigo. Da maneira que achar melhor. Apenas lembre-se de que eles não estão acostumados à tua figura então, caso resolva aparecer em público, estejamos preparados para estacas, gadanhos, foices e tochas, além claro de cruzes e orações das mais variadas possíveis (risos).
Terminando, eu o adoro. E espero que minha mensagem chegue a vós.
Do teu mais terno amigo,
L.

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