3.18.2011

NightStar - O Conto do recomeço - Cap. i

Capítulo Uno:

No conhecido cemitério Les Morem Admorem, localizado em Nova Orleans, desperta uma alma antiga. Um vampiro há muito adormecido conhecido em seu tempo como Estrela Noturna. Conhecido digamos mais pela sua fama – outrora tida como alegorias – do que por sua pessoa em suma. Entre sua raça imaginavam-no como um conto, uma entidade desconhecida e até mesmo negligenciada. NightStar há muito não vivia entre os não-vivos conhecidos. Sabia-se que o enclaustro – se é que realmente existia este vampiro – havia sido há muito. Nighstar ainda deitado em sua alcova, lembra de fatos anteriores à sua inanidade assumida porém sabe que não é o momento de compartilhar ainda sua dor. Sabe que é hora de acordar e tomar novamente seu posto e desta forma tornar real seus antigos sonhos além do que mostrar que realmente existe, esta entidade.

Com sua destra remove a tampa do seu altamente ornado leito de mármore branco manchado de negro pelo desgaste. Mesmo em sua oculta cripta havia sinal humano de outras épocas. Escolhera bem o local e seu repouso, ciente de que qualquer mão humana jamais poderia revelá-lo. Muitos foram os que tentaram e desistiram, talvez por sua força expressa nos medos humanos quando tentavam, alucinando em suas mentes seus piores medos quer seja pelo ainda desgaste espiritual em que se encontram alguns jovens, temerosos em expressar sua crença ainda no sacrossanto. Removido o claustro e pela primeira vez em 300 anos, sente novamente o ar vivo, mesmo que em extremo diferente de quando havia inspirado pela última vez. Automaticamente começam os ruidos modernos deste novo mundo afligirem seus ouvidos. Buzinas, chiados, mentes humanas descontroladas, tudo isso chega simultaneamente à sua mente limpa e poderosa. Usando seu antigo truque, impede que isso o enlouqueça porém ciente de que o mundo mudara mais do que poderia imaginar. Levanta-se, tem uma rápida percepção do seu atual estado que acidentalmente dispara o estopim para lembranças e isso tudo rápido o suficiente para que ainda não tenha se movido o ponteiro dos segundos do relógio. Nightstar é um homem de porte, alto, com a pele clara aveludada, cabelos curtos castanho-escuros, olhos que mesclam cores como uma pedra furta-cor dependendo da luz que se instala e do movimento rápido de pestanas, poucos pelos à mostra inclusive em sua face a marca da barba por fazer, sinal de que se tornara vampiro no auge da idade e da masculinidade. Herdada as características da especie antiga, a cada ano que passa sua tez torna-se mais marmorizada e suas unhas lampejam como vidro vivo. Vestia-se com uma calça justa de couro escuro, blusa de linho caro branca, colete de um vermelho rubro que a idade ainda não conseguia esconder, sapatos empoeirados envernizados e um sobretudo gasto pelo tempo mas ainda assim uma bela figura apresentável. Mesmo seu corpo coberto de uma espessa camada de pó é um elegante homem.

Com um ligeiro espanar, Nightstar se livra da aparente inanição e dirige-se à entrada da capela onde adormecera há muito. Diante dela, apenas o ranger das fechaduras é ouvido e de forma natural as portas consumidas pela ferrugem se abrem, permitindo a saida de nossa imagem espectral. – O mundo muda mas Nova Orleans sempre tera o mesmo cheiro. Vejo imagens e sinto presenças porém o mundo mudara de uma forma tão exponencial que até mesmo para mim será complicado me adaptar.

Nighstar caminha pelo cemitério e ouve um pequeno ruido de vozes humanas, presentes. Consegue captar a fragrancia há muito negligenciada e sua sede instantaneamente surge em sua face desprovida de cor ou emoção. É sangue. Fresco, sujo e inocentemente voraz. Algo dispara em suas visceras e uma pressão lhe sobe pela espinha medular – se é que tais materiais organicos habitam aquele involucro antigo e pernicioso. Dirige-se aos sonhos e entende esta nova lingua automaticamente. É um novo inglês sendo pronunciado, algo vulgar e com expressões desconhecidas porém fracamente carregado da antiga lingua-mãe de Nova Orleans. Jovens, em seu ritual de auto-flagelação consumindo todo e qualquer tipo de alcool e drogas, rebeliando-se intimamente mas coletivamente reunidos, ouvindo um som estranho e rejubilando-se de sua juventude. Todo o cenário atrai nosso vampiro que de forma furtiva aparece junto aos reunidos. – Todos vocês são tão bonitos – engrandece Night. Os presentes assustam-se com a figura mas o assumem como parte do grupo, afinal estão quase todos no mesmo patamar de inconsciência provocada. – Ei, irmão, junte-se ao Filhos da Noite aqui neste cemitério – diz um dos jovens, completando com uma risada esclarecedora e elevando sua bebida em direção ao monstro. – É, então vocês são meus filhos – completa Night. Os jovens ou os que ainda estão de certa forma despertos, acham graça do que ouvem. Night ignora a oferta da bebida e novamente de relance aparece por trás do jovem, que fica espantado, enquanto Night com a mão esquerda segura sua cintura e com a direita sente o calor vindo de sua arteria aorta. O jovem sente que não pode se mexer então lhe sobe uma pressão aos olhos, lacrimejando mesmo sem saber o porque. Night fala bem perto ao seu pescoço – seu cheiro. É cheiro de quem sabe viver. E o beija. Os outros jovens oscilam entre a ignorancia e a contemplação da cena. Uma jovem de olhos bem marcados, vestida infimamente com um vestido negro rasgado e um par de meias dilaceradas acha graça. – Monsieur, não o tome. Tome a mim que sou mais apetitosa – diz, não entendendo a gravidade da situação em que se coloca, imaginando ser tudo uma atuação. Night vira seus olhos a ela e, no mesmo interim, surge por trás da dama colocando suas mãos em seu rosto. Novamente a pequena plateia alucina porém mais temerosa.

De repente, Night sente uma estranha ressonancia e desvia seu olhar à Lua ainda mantendo as mãos no rosto da jovem. Tem um estranho pressentimento e isso o deixa agressivo, sem sequer notar que emprega força demais nas mãos, sem notar o rugido da jovem que segura e sem perceber que este impacto acaba de esmagar o cranio da jovem em suas mãos, enquanto os outros reunidos começam a chorar e a correr feito ratos da luz, alguns pranteando a morte e outros apenas preocupados em escapar pelas suas vidas. Night sequer nota o ocorrido, ainda virado à Lua e, antes que virasse totalmente seus olhos agora assumidos num tom avermelhado, desaparece do cemiterio por completo.



Continua...

3 comentários:

Vanessa disse...

Belo conto, inspirado em algum conto de Anne Ryce?

Beijos e até mais

Lean, do sorriso aparente disse...

Nota do autor: Na verdade, uma boa parte dos contos da Anne são muito mais antigos do que ela conta. Eu, por ser um admirador assíduo dela, convergimos no que escrevemos. Ela escreve o que vê, eu escrevo o que vivo.

Respondido?

Obrigado pela visita e pelo comentário.

Vanessa disse...

Totalmente respondido =).